Capitulo 74 - A Odisseia da Bicicleta
Capítulo 74 – A Odisseia da bicicleta.
Já fazia dias.
Durante algum intervalo entre as aulas, Rebeca procurava o telefone e ligava para casa.
Ela tinha decorado os horários.
Sabia quando o pai costumava estar trabalhando. Sabia quando havia menos chance de ele atender. Sabia até quanto tempo tinha antes de precisar voltar para a sala.
Mesmo assim, nunca conseguia falar com a mãe.
O número chamava, mas ninguém atendia.
No começo, Rebeca aceitou.
Depois começou a achar estranho.
E, alguns dias mais tarde, já não sabia exatamente o que estava sentindo.
Naquele dia, durante o intervalo, ela discou novamente.
Nada.
Então, discou para outro número.
— Alô?
— Cadê a mamãe?
— Nossa...
A voz da irmã imediatamente ganhou um tom exageradamente doce.
— Oi, Rute. Tudo bem com você? Eu estava morrendo de saudades. Você é a melhor irmã do mundo.
— Cadê a mamãe?
— Nem perguntou como eu estou.
— Porque você está bem.
— E como você sabe?
— Porque você está debochando de mim.
— E daí?
Rebeca suspirou.
— Cadê a mamãe?
A brincadeira desapareceu da voz da irmã.
— Viajando.
— Ainda?
— Ainda.
— Faz um tempão que ela está viajando.
— Eu já te expliquei as circunstâncias. Foi uma viagem que aconteceu de repente...
— Eu sei.
A resposta saiu baixa.
— Mas eu tô com saudades da mamãe.
Por alguns segundos, Rute não respondeu.
— Pois é...
Então completou:
— Mas da coitada da Rute ninguém sente saudades.
Rebeca revirou os olhos.
— Ah, não.
— Mesmo a Rute sendo uma irmã carinhosa, amorosa, dedicada...
— Você me chama de fedorenta.
— Fedorentinha.
— É a mesma coisa.
— Não é.
— É sim.
— Não é. Fedorentinha é carinhoso. Fedorenta seria ofensivo.
Uma risada escapou da Rebeca antes que ela pudesse impedir.
— Que lógica horrível.
— Viu?
— O quê?
— Você reclama, mas gosta.
— Não gosto.
— Acabou de rir.
— Foi da sua cara.
— Claro que foi.
As duas ficaram alguns segundos em silêncio.
Então Rebeca falou:
— Quando a mamãe voltar, pede para ela me ligar.
A voz da Rute ficou mais suave.
— Tá bem.
Dessa vez nenhuma das duas disse nada.
O silêncio se acomodou entre elas sem parecer desconfortável.
— Rute?
— O quê?
— Eu estou com saudades de você.
Do outro lado da linha, a resposta veio imediatamente.
— Eu também, fedorentinha.
Rebeca sorriu.
— Você estragou o momento.
— Eu sei.
— Era para ser emocionante.
— Foi emocionante.
— Não foi.
— Foi sim.
— Você me chamou de fedorentinha.
— Com carinho.
— Continua sendo ofensivo.
— Discordo.
A risada da Rebeca voltou.
E, quando a ligação terminou, a saudade da mãe continuava ali.
Mas já não parecia tão pesada quanto antes.
***
Janis chegou da escola praticamente correndo.
Passou pela cozinha.
— Boa tarde!
— Vai lavar as mãos! — respondeu Maria Helena.
— Já vou!
Ela não foi.
Seguiu direto para o quintal.
A bicicleta continuava onde tinha sido abandonada no dia anterior.
Espalhada em peças.
Ferramentas.
Parafusos.
Porcas.
Arruelas.
Janis se ajoelhou ao lado da bicicleta.
Pelo menos a roda da frente estava no lugar.
Aquilo era um progresso.
Pequeno.
Mas progresso.
O resto ainda era um mistério.
O guidão estava torto.
O farol estava quebrado.
E alguma peça sobrando sobre a mesa a deixava profundamente desconfiada.
Ela tinha quase certeza de que bicicletas não vinham com peças extras.
— Janis!
— Já vou!
— O almoço está esfriando!
— Só mais um minuto!
Maria Helena apareceu na porta.
— Você disse isso há vinte minutos.
— Eu estou perto de terminar.
Maria Helena observou a bicicleta.
— Mentira.
Antes que Janis pudesse responder, um carro estacionou em frente à casa.
Poucos segundos depois, Tio Gordo apareceu carregando duas caixas.
— Finalmente! — disse Maria Helena. — Já não era sem tempo. Preciso temperar tudo para dar tempo da carne curtir.
Gordo passou direto pela reclamação da mãe.
Os olhos dele estavam presos na bicicleta.
Ou melhor...
No quebra-cabeça que um dia fora uma bicicleta.
— Tá fazendo errado.
Janis nem levantou a cabeça.
— Eu não preciso de palpites.
— Não é um palpite.
— Ah, é?
— É a verdade.
Janis ergueu o olhar.
— Eu já vi essa coisa montada. Eu sei fazer isso.
— Deixa aí que eu faço.
— Ah, tá.
— Estou falando sério.
— Sem ofensas, Bigode. Mas eu gostaria que a bicicleta estivesse montada para a visita da Rebeca.
— E?
— E eu tenho mais ou menos vinte e quatro horas para isso.
— Eu monto antes de escurecer.
Janis parou.
Piscou.
Olhou para a bicicleta.
Olhou para o tio.
Voltou a olhar para a bicicleta.
— Tá de brincadeira.
— Posso até fazer melhorias.
— Melhorias?
— Confia em mim.
— Essa frase nunca terminou bem.
— Vai almoçar.
— Bigode...
— Vai.
Maria Helena apontou para a cozinha.
— Janis.
— Tá bom.
A garota se levantou devagar.
Ainda desconfiada.
Gordo agachou ao lado da bicicleta.
Começou a juntar as ferramentas.
As peças.
Os parafusos.
Tudo.
— O que você está fazendo?
— Trabalhando.
— Você não precisa levar ela embora.
— Preciso.
— Por quê?
— Porque eu gosto de espaço.
— Bigode...
— Vai almoçar.
Janis observou enquanto ele colocava toda a parafernália dentro do carro.
— Se ela voltar pior, eu vou reclamar.
— Se ela voltar pior, eu devolvo seu dinheiro.
— Eu não te paguei nada.
— Melhor ainda.
O porta-malas ficou cheio dos pedaços da bicicleta.
Gordo soltou uma risada sozinho.
— Igualzinha ao pai.
Zeca nunca tinha sido o tipo de pessoa que começava um projeto pequeno.
Se era para fazer alguma coisa, fazia direito.
Ou pelo menos tentava.
Às vezes com sucesso.
Às vezes criando problemas que precisavam ser resolvidos depois.
Gordo pegou o guidão torto e balançou a cabeça.
— Sua filha puxou você até nisso.
A bicicleta, pelo menos, era fácil de resolver.
O guidão seria trocado.
O farol também.
Algumas peças precisavam de ajuste.
Nada muito complicado.
Passou a mão na barba.
Pensou na Janis.
Pensou na Rebeca.
Pensou na expressão de orgulho que a sobrinha vinha tentando esconder desde que começara aquele projeto.
Então imaginou o irmão.
A gargalhada veio antes mesmo que pudesse impedir.
— Você faria algo grandioso.
A resposta existia apenas na memória.
Mas ele a conhecia mesmo assim.
Claro que faria.
Se a filha aparecesse dizendo que queria impressionar a menina que amava, Zeca não entregaria uma bicicleta comum.
Transformaria aquilo numa missão.
Numa aventura.
Num exagero.
Em alguma coisa que rendesse histórias por anos.
Gordo colocou o guidão amassado com o restante das peças.
— Certo.
Então, fechou o porta-malas.
— Se é para impressionar, vamos fazer direito.
O problema de ter uma boa ideia era que ela raramente vinha sozinha.
O primeiro passo tinha sido passar na bicicletaria do bairro.
Gordo comprou um guidão novo e um farol melhor.
Muito melhor.
Depois, levou tudo para a oficina.
A oficina pertencia ao Gordo.
Pelo menos era isso que estava escrito na placa.
Na prática, porém, qualquer pessoa que trabalhasse ali sabia como as coisas funcionavam.
Gordo consertava.
Glória organizava.
Ele desmontava motores.
Ela lidava com clientes.
Ele resolvia problemas mecânicos.
Ela resolvia todos os outros.
Foi por isso que, quando a bicicleta apareceu na oficina, a primeira pessoa a fazer perguntas foi Glória.
Ela saiu do escritório segurando uma pasta de orçamentos.
— O que é isso?
Gordo descarregou a bicicleta.
— Um trabalho especial.
Glória estreitou os olhos.
Aquilo nunca era um bom sinal.
— Especial para quem?
— Para uma cliente especial.
— Janis?
— Janis.
Glória observou o guidão torto.
O farol quebrado.
As peças faltando.
E suspirou.
— O que ela fez?
— Tentou montar uma bicicleta.
— Sozinha?
— Evidentemente.
Galo começou a rir.
Manoel também.
Glória ignorou os dois.
— Você já tem muito trabalho para fazer.
— O Galo e o Manoel dão conta.
— Eu estou ouvindo isso? — perguntou Galo.
— Não.
— Então tá.
Glória apontou para a bicicleta.
— E quanto essa sua cliente especial vai pagar pelo serviço?
Um sorriso apareceu no rosto do Gordo.
Daqueles que Glória conhecia há décadas.
E que normalmente terminavam em alguma despesa inesperada.
— Digamos que ela vai me pagar com gratidão eterna.
Glória fechou os olhos por um instante.
— Ah.
Pronto.
Agora ela tinha entendido tudo.
Não era um serviço.
Não era um orçamento.
Não era um cliente.
Era a Janis.
— Tá.
Ela entregou uma pasta para Manoel.
— Mas não se empolgue.
— Eu?
— Você.
— Eu nunca me empolgo.
Galo quase engasgou de tanto rir.
Manoel precisou virar de costas.
Glória apenas balançou a cabeça.
— Não transforme isso numa Odisseia.
— Claro que não.
— Gordo.
— O quê?
— Estou falando sério.
— E eu também.
Glória apontou um dedo para ele.
— Bicicleta.
— Bicicleta.
— Só bicicleta.
— Só bicicleta.
Ela entrou novamente no escritório.
A porta mal tinha fechado quando Gordo ficou olhando para a bicicleta.
Depois para uma prateleira no fundo da oficina.
Depois para a bicicleta novamente.
Galo percebeu imediatamente.
— Não.
— O quê?
— Eu conheço essa cara.
— Que cara?
— A cara de quem teve uma ideia.
— Não tive ideia nenhuma.
— Pai...
— Nenhuma.
— Pai!
— Nenhuma.
Galo seguiu o olhar dele até a prateleira.
E então começou a rir.
— Ah, não.
O sorriso do Gordo aumentou.
— Ah, sim.
O problema da Glória era achar que ele estava se empolgando.
Gordo não estava se empolgando.
Estava trabalhando.
Existia uma diferença enorme.
Pelo menos na opinião dele.
A bicicleta já estava praticamente pronta.
O guidão torto tinha sido substituído.
O farol quebrado também.
Os freios foram revisados.
A corrente ajustada.
Os pneus calibrados.
Depois disso, ele havia instalado apenas mais uma coisinha.
Uma melhoria simples.
Modesta.
Discreta.
Nada extravagante.
Galo e Manoel discordavam dessa avaliação.
— Isso não é uma bicicleta — comentou Manoel.
— Ainda tem pedal — respondeu Gordo.
— Não é esse o ponto.
— Então qual é?
— Ela faz barulho.
— Moto também faz.
— Exatamente.
Gordo ignorou os dois.
Abaixou-se ao lado do quadro.
Conferiu os últimos ajustes.
Apertou um parafuso.
Testou o acelerador.
Passou um pano limpo pela pintura.
A bicicleta brilhava.
— Pronto.
— Pai...
— O quê?
— Eu não faria isso.
— Por isso que eu sou o mecânico.
— Isso não me tranquiliza.
Gordo montou na bicicleta.
Deu algumas pedaladas.
Acionou o motor.
O silêncio da oficina desapareceu instantaneamente.
O motor rugiu.
Alto.
Muito alto.
Assustadoramente alto.
Algumas ferramentas vibraram sobre uma bancada próxima.
Um cachorro latiu do outro lado da rua.
Alguém gritou alguma coisa no estacionamento.
Galo colocou as mãos no rosto.
— Meu Deus.
— Funcionou.
— Funcionou demais.
A porta do escritório se abriu com força.
Glória apareceu.
Parou.
Observou a cena.
Observou a bicicleta.
Observou o marido.
Depois fechou os olhos por alguns segundos.
Como quem fazia uma oração silenciosa.
— Você perdeu a cabeça?
— É só uma bobagem.
— Uma bobagem?
— Sim.
— Uma bobagem?!
— Sim!
Glória apontou para a bicicleta.
— Tem um motor nela.
— Pequeno.
— Continua sendo um motor.
— Nem tem velocidade.
— Estará nas mãos da Janis.
Gordo ficou em silêncio.
Glória cruzou os braços.
— Não precisa ter velocidade para ser perigoso.
— Exagerada.
— Só precisa existir.
Galo começou a rir.
Manoel também.
— Ela tem um ponto — comentou Manoel.
— Tem vários pontos — acrescentou Galo.
Glória apontou para os dois.
— Obrigada.
Depois voltou sua atenção para o marido.
— Você sabe qual é o problema?
— Qual?
— Você olha para a Janis e enxerga o Zeca.
A resposta veio tão rápido que surpreendeu até ele.
— Porque ela é igual ao Zeca.
O silêncio tomou conta da oficina.
Por um instante, ninguém brincou.
Ninguém riu.
Ninguém respondeu.
Glória observou o marido.
Depois observou a bicicleta.
E acabou sorrindo.
Pequeno.
Quase imperceptível.
— Eu sei.
Gordo passou a mão pelo guidão.
— Ela queria impressionar a Rebeca.
— E agora vai impressionar a cidade inteira.
— Esse era mais ou menos o plano.
Glória balançou a cabeça.
— Você é impossível.
— Foi o que você disse quando me conheceu.
— E eu estava certa.
— Mas se a Janis gostar...
— Vai gostar.
— Como você sabe?
— Porque isso foi feito por você.
A resposta arrancou um sorriso dele.
Pequeno.
Disfarçado.
Mas verdadeiro.
— Tá.
— Mas se ela quebrar um braço, a culpa é sua.
— De acordo.
O ronco do motor podia ser ouvido antes mesmo de o carro aparecer na esquina.
Janis estava chegando do trabalho quando ouviu o barulho.
Parou no portão.
Franziu a testa.
Aquilo definitivamente não era uma bicicleta.
Maria Helena apareceu logo atrás.
— Que barulho é esse?
O ronco aumentou.
Mais alto.
Mais próximo.
Mais preocupante.
— Não...
A bicicleta surgiu primeiro.
Ou melhor.
Aquilo que um dia tinha sido uma bicicleta.
Galo vinha pilotando pela rua com um sorriso enorme no rosto.
Atrás dele, o carro do Gordo avançava lentamente.
Janis arregalou os olhos.
— Meu Deus.
Maria Helena levou a mão ao peito.
— Jesus, Maria e José! O que é isso, José Antônio?
Gordo saiu do carro parecendo satisfeito consigo mesmo.
— Eu disse que terminava antes de escurecer.
— Terminava com o quê? A minha vida?
Janis nem ouviu a avó.
Já estava caminhando na direção da bicicleta.
Observando cada detalhe.
O guidão novo.
O farol.
O acabamento.
A pintura polida.
E, principalmente...
O motor.
— Bigode...
— O quê?
— Você colocou um motor nela?
— Talvez.
— Talvez?
— Tecnicamente, sim.
— Ficou perfeita.
Antes que alguém pudesse reagir, Janis praticamente arrancou Galo de cima da bicicleta.
— Ei!
— Sai daí.
— Eu trouxe ela até aqui!
— E agora é minha.
Janis montou.
Girou o acelerador.
O motor respondeu imediatamente.
O ronco ecoou pela rua.
Maria Helena fechou os olhos.
— Meu Deus...
A bicicleta disparou.
Não rápido.
Mas rápido o suficiente para assustar uma avó.
Janis deu a volta no quarteirão.
O sorriso era visível mesmo à distância.
Quando voltou, estacionou ao lado do tio.
— Valeu, Bigode.
Gordo cruzou os braços.
Tentando parecer indiferente.
Fracassando completamente.
— Gostou?
— A Rebeca vai adorar.
Pronto.
Era tudo o que ele queria ouvir.
Gordo ergueu o queixo.
Orgulhoso como se tivesse acabado de construir um foguete.
Maria Helena observou a cena.
O filho sorrindo.
A neta sorrindo.
A bicicleta fazendo barulhos preocupantes.
Então balançou a cabeça.
— Seu cabeça de pudim.
— Ah, mãe...
— Não me venha com: “ah, mãe”.
— É para as crianças.
— E você quer matar elas?
— Ninguém vai morrer.
— Foi exatamente isso que você disse da última vez.
— E ninguém morreu.
— Por sorte.
Janis começou a rir.
Galo também.
Até Gordo acabou rindo.
Maria Helena olhou para os três.
E concluiu que estava completamente cercada por gente sem juízo.
— Um bando.
— De quê? — perguntou Gordo.
— De irresponsáveis.
— Isso é carinho?
— Não.
— Então tá.
Mas o sorriso que apareceu no rosto dela dizia exatamente o contrário.
Fim do capítulo
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