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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 1657
Acessos: 52   |  Postado em: 19/06/2026

Capitulo 75 - A felicidade parecia algo simples

Capítulo 75 – A felicidade parecia algo simples.

 

O celular da Miriam tocou no final da tarde.

Ela atendeu sem tirar os olhos dos prontuários.

— Alô?

A voz de Augusto veio do outro lado.

— Já terminaram por aí?

— Estamos quase saindo.

— Ótimo. Fiz uma reserva.

Miriam sorriu.

— Fez?

— Fiz.

— E para onde você vai nos levar?

— Surpresa.

— Augusto...

— Vocês vão gostar.

— Eu espero que sim.

— E depois seguimos direto para o teatro.

Rebeca, que esperava ao lado da recepção, ergueu a cabeça imediatamente. Interessada.

Miriam precisou conter um sorriso.

— Estaremos em casa em meia hora.

— Perfeito — respondeu Augusto. — Vejo vocês lá.

A ligação terminou.

Rebeca já estava sorrindo.

— Então nós vamos jantar?

— Vamos.

— E depois ver a apresentação do Júnior?

— Exatamente.

— A noite está ficando muito boa.

— Ainda nem começou.

Quando chegaram em casa, as duas subiram para se arrumar.

Algum tempo depois, Rebeca ainda estava de roupão.

Havia dois vestidos sobre a cama.

Um terceiro sobre a cadeira.

E um quarto sendo analisado criticamente.

— E agora? — murmurou para si.

— Rebeca?

A voz de Miriam veio do corredor.

— Oi?

— Vem aqui um instante.

A garota seguiu a voz.

E parou na entrada do closet da tia.

Era maior do que o dela.

Muito maior.

Mas não parecia luxuoso.

Era organizado.

Elegante.

Como se cada coisa tivesse sido colocada exatamente onde deveria estar.

Roupas alinhadas.

Sapatos organizados.

Caixas discretas.

Nenhum excesso.

Nenhum exagero.

Tudo tinha a mesma sensação que Miriam transmitia.

Competência.

Segurança.

Tranquilidade.

— Vem.

Miriam abriu uma pequena gaveta.

Dentro dela havia algumas joias cuidadosamente organizadas.

Nada chamativo.

Nada extravagante.

Ela pegou um colar delicado.

Um fio de ouro fino com um pequeno pingente.

— Acho que este vai combinar com você.

Rebeca observou a peça.

— É lindo.

— Eu também acho.

Miriam estendeu o colar.

— Promete que vai ser cuidadosa com ele?

A pergunta fez Rebeca erguer os olhos.

Ela entendeu imediatamente.

Aquilo não era uma joia qualquer.

Era importante.

— Prometo.

Miriam sorriu.

— Ótimo.

Minutos depois, ela mesma fechava o fecho atrás do pescoço da sobrinha.

— Pronto.

As duas se olharam pelo espelho.

— Ficou bom?

— Ficou.

— Mesmo?

— Sim.

— Você está falando sério?

— Estou.

— Da última vez a senhora mudou três vezes o meu look.

— Foram sugestões mais do que necessárias.

Rebeca riu.

— Ditadora.

— Exigente.

Miriam guardou a gaveta de joias.

— Agora senta.

— Por quê?

— Porque você ainda não terminou de se arrumar.

— Achei que já estava pronta.

— Você achou errado.

Rebeca riu e sentou diante da penteadeira.

Miriam puxou outra cadeira para perto.

A cena já estava se tornando familiar.

Nos primeiros dias, Rebeca observava mais do que participava.

Prestava atenção nos pincéis.

Nos produtos.

Nos gestos precisos da tia.

Agora já conseguia ajudar.

Separava algumas coisas.

Fazia perguntas.

Até começava a arriscar pequenas tentativas por conta própria.

— Fecha os olhos.

— Isso sempre me deixa nervosa.

— Você diz isso toda vez.

— Porque toda vez tem alguma coisa vindo na direção do meu rosto.

— Uma lógica impecável.

Rebeca obedeceu.

Sentiu o toque leve do pincel.

Depois abriu um dos olhos.

— Posso olhar?

— Ainda não.

— Eu odeio surpresas.

— Mentira.

— Tá bom. Eu gosto de algumas.

Miriam sorriu.

— Eu percebi.

Por alguns minutos, ficaram apenas conversando enquanto terminavam de se arrumar.

Sobre a clínica.

Sobre o teatro.

Sobre o restaurante misterioso que Augusto havia escolhido.

Coisas simples.

Coisas comuns.

E, estranhamente, Rebeca gostava cada vez mais daqueles momentos.

Gostava da conversa tranquila.

Gostava dos conselhos que surgiam sem parecer conselhos.

Gostava da forma como Miriam explicava as coisas.

Gostava da sensação de estar ali.

Quando finalmente terminou, Miriam entregou um espelho de mão.

— Agora pode olhar.

Rebeca observou o próprio reflexo.

Virou o rosto para um lado.

Depois para o outro.

— Ficou bonito.

— Eu sei.

Rebeca riu.

— A senhora não é nada modesta.

— Sou experiente.

A discussão provavelmente teria continuado por mais dez minutos.

Mas foi interrompida pelo som da porta da frente se abrindo.

— Cheguei! — anunciou Augusto.

— E lá se foi a paz da casa — comentou Miriam.

— Eu ouvi isso!

— Era para ouvir mesmo.

Augusto tomou um banho rápido e, em pouco tempo, já estava pronto.

Camisa.

Gravata.

Paletó.

Impecável.

— Como você consegue se arrumar tão rápido?

— Eu sou eficiente.

— Você tomou banho e colocou a primeira roupa que encontrou.

— Eficiência.

— Preguiça.

— Eficiência.

Miriam balançou a cabeça.

— Vamos antes que vocês comecem uma discussão filosófica.

Rebeca saiu do quarto usando um vestido, sapatos e uma pequena bolsa social.

Pequena demais para qualquer coisa útil.

Grande o suficiente para carregar o celular, a carteira e nada mais.

Fez uma rápida avaliação.

— Cadê o casaco?

— Não precisa.

— Vai esfriar.

— Eu estou bem.

Miriam cruzou os braços.

— Rebeca.

— O quê?

— Vai esfriar.

— Eu estou bem.

— Você sabe que essa frase nunca termina bem.

— Hoje vai.

— Claro.

— Vai mesmo.

— Não diga depois que eu não avisei.

— Não vou dizer.

— Ótimo.

— Porque eu vou estar bem.

Miriam apenas assentiu.

Com a tranquilidade de quem já sabia exatamente como aquela história terminaria.

— Claro que vai.

O restaurante escolhido por Augusto não era sofisticado.

Era acolhedor.

Luzes quentes.

Música baixa.

Cheiro de comida boa.

O tipo de lugar onde as pessoas iam para conversar.

E não para impressionar ninguém.

Eles jantaram sem pressa.

Conversaram sobre a escola.

Sobre a clínica.

Sobre o teatro.

Sobre livros.

Sobre piano.

Sobre coisas pequenas.

Coisas normais.

Coisas que faziam Rebeca sorrir sem perceber.

A única extravagância da noite apareceu na sobremesa.

— Eu quero essa.

Augusto olhou para a foto.

Depois para ela.

Depois para a foto novamente.

— Você tem certeza?

— Tenho.

— Absoluta?

— Absoluta.

Cinco minutos depois, o garçom chegou carregando uma imensa fatia de bolo, coberta por uma montanha de chocolate.

Miriam arregalou os olhos.

— Meu Deus.

— Parecia maior na foto.

— Você não precisa de um pedaço de bolo maior.

— Talvez...

— Rebeca...

— Tá bom. É suficiente.

Quando saíram do restaurante, o manobrista ainda não tinha trazido o carro.

Então ficaram esperando perto da entrada.

Rebeca aproveitou para pegar o celular.

Precisava contar para Janis sobre a sobremesa.

E sobre o teatro.

E sobre absolutamente tudo.

O vento soprou.

Ela se encolheu.

Continuou digitando.

Outro vento.

Mais forte.

Ela se encolheu novamente.

Miriam observou.

— Eu avisei.

Rebeca apenas entortou os lábios.

Sem erguer os olhos do celular.

— Não está tão frio.

— Claro.

Augusto continuava conversando com Miriam sobre a apresentação.

Então, sem interromper a conversa, tirou o próprio paletó.

Passou por trás da sobrinha.

E colocou a peça sobre seus ombros.

Depois continuou falando normalmente.

Como se nada tivesse acontecido.

— Acho que o Júnior estava nervoso hoje de manhã.

— É natural.

— Também acho.

Rebeca congelou.

Por alguns segundos.

Olhou para o paletó.

Depois para Augusto.

Ele nem percebeu.

Ou fingiu não perceber.

Continuava conversando com Miriam.

Naturalmente.

Como se aquilo fosse a coisa mais comum do mundo.

Talvez fosse.

Mas, para ela foi um gesto grandioso.

Quando chegaram ao teatro, o saguão já estava cheio.

Pessoas conversavam.

Cumprimentavam conhecidos.

Procuravam seus lugares.

Não demorou muito para Augusto e Miriam começarem a se envolver nas conversas.

— Augusto!

— Há quanto tempo.

Apertos de mão.

Beijo no rosto.

Sorrisos.

Conversas rápidas.

Então os olhos inevitavelmente pousavam sobre Rebeca.

— E essa mocinha?

— Nossa sobrinha.

A resposta vinha sempre com a mesma naturalidade.

— Está morando conosco agora.

— Veio estudar.

— Toca piano.

— Lê mais do que muita gente adulta.

— Tem ido muito bem na escola.

A cada apresentação, Rebeca sentia o rosto esquentar.

Porque ninguém perguntava sobre problemas.

Ninguém perguntava sobre escândalos.

Ninguém perguntava sobre tragédias.

Falavam sobre livros.

Sobre música.

Sobre estudos.

Sobre futuro.

Pela primeira vez, parecia que as pessoas estavam interessadas nela.

Não em uma imagem que ela deveria exibir para o mundo.

Nela.

Pouco depois, as portas do auditório foram abertas.

Os três seguiram para seus lugares.

Miriam sentou primeiro.

Depois Rebeca.

Depois Augusto.

A garota observou discretamente a disposição.

E sorriu.

Gostava de estar ali.

No meio.

As luzes diminuíram.

A cortina se abriu.

E a apresentação começou.

O primeiro ato reuniu todos os dançarinos.

Movimentos precisos.

Música.

Luzes.

Energia.

Rebeca reconheceu Júnior poucos segundos depois.

Mas levou um susto.

No palco, ele parecia diferente.

Mais seguro.

Mais confiante.

Mais leve.

O segundo ato foi mais emocional.

Mais técnico.

Mais intenso.

E foi ali que Júnior começou a se destacar.

Não porque estivesse sozinho.

Mas porque era impossível ignorá-lo.

Havia algo na forma como ocupava o palco.

Algo que prendia a atenção.

Rebeca permaneceu imóvel.

Observando.

Era difícil acreditar que aquele era o mesmo primo que vivia fazendo piadas ruins.

O mesmo que implicava com ela.

O mesmo que tantas vezes parecia carregar o mundo nas costas.

No palco, porém, tudo aquilo parecia se transformar em arte.

O terceiro ato encerrou a apresentação.

Mais grandioso.

Mais vibrante.

Todos os dançarinos juntos.

A música crescendo.

As luzes acompanhando o ritmo.

E, quando terminou, o teatro inteiro aplaudiu.

Algumas pessoas ficaram de pé.

Rebeca também.

Aplaudiu até as mãos começarem a doer.

Quando as cortinas finalmente se fecharam, ela continuou olhando para o palco por alguns segundos.

— Gostou?

A voz de Augusto veio ao seu lado.

Rebeca sorriu.

— Muito.

— Eu também.

Miriam assentiu.

— Ele foi incrível.

Rebeca observou o palco vazio mais uma vez.

E sorriu.

Porque aquela tinha sido uma noite bonita.

E porque, pela primeira vez em muito tempo, a felicidade parecia algo simples.

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Oi, pessoal!

Passando rapidinho para pedir um pouco de paciência comigo. 

Estou entrando na reta final do semestre, com muitas demandas acumuladas, e, por enquanto, estou produzindo os capítulos pelo celular. Isso acaba deixando todo o processo mais lento do que eu gostaria.

Por causa disso, as atualizações podem demorar um pouco mais que o normal nas próximas semanas. Não é falta de vontade, nem abandono da história. Muito pelo contrário: eu continuo escrevendo e pensando nessas personagens todos os dias.

Só peço um pouco de compreensão enquanto atravesso esse período mais corrido. A história vai continuar, apenas em um ritmo temporariamente mais lento.

Obrigada por acompanharem Rebeca, Janis e todo esse universo com tanto carinho. Cada comentário, mensagem e leitura faz diferença e me dá ainda mais vontade de continuar.

 


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