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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 4466
Acessos: 70   |  Postado em: 14/06/2026

Capitulo 73 - O Menino dos Bombons

Capítulo 73 – O Menino dos Bombons.

 

Rebeca estava deitada na cama.

O telefone apoiado na orelha.

Os olhos fixos no teto.

— Então?

— Então o quê?

— Como foi?

A menina pensou por alguns segundos.

— Acho que foi bom.

— Acho?

— Sim.

— Isso não parece muito convincente.

— É que...

Rebeca procurou as palavras.

— O tio Augusto é normal.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Normal quanto?

— Normal.

— Isso não responde absolutamente nada.

— Responde sim.

— Não responde.

Janis suspirou dramaticamente.

— A escala de normalidade da sua família me preocupa.

Rebeca começou a rir.

— Estou falando sério.

— Eu também.

— Ele é aquele homem normal da igreja que parece ver mal em tudo, vive julgando os outros e acha perfeitamente razoável deixar uma menina passar fome?

— Janis!

— Ou ele é um homem normal do tipo que serve comida para uma sobrinha faminta?

A gargalhada escapou antes que Rebeca pudesse impedir.

— Comida.

— Comida?

— Comida.

— Que tipo de comida?

— Rondelli.

— Ah.

— Ah?

— Isso muda tudo.

— Muda?

— Claro.

— Por quê?

— Porque ninguém faz rondelli para pessoas de quem não gosta.

Rebeca riu novamente.

— Você acabou de inventar isso.

— Talvez.

— Talvez?

— Continue.

— O quê?

— A quantidade.

— Que quantidade?

— De comida.

— Ah.

A menina sorriu.

— Bastante.

— Bastante quanto?

— Bastante.

— Rebeca.

— O quê?

— Isso continua não sendo uma unidade de medida.

— Suficiente para estufar a barriga.

Janis ficou em silêncio por um segundo.

— Excelente.

— Excelente?

— Então ele é um normal bom.

— Normal bom?

— Sim.

— Existe normal ruim?

— Claro que existe.

— Janis.

— O quê?

— Você inventa metade dessas categorias.

— E a outra metade é baseada em observação científica.

— Científica?

— Muito científica.

— Claro.

— Estou feliz.

A frase saiu tão naturalmente que Rebeca demorou um instante para responder.

— Feliz?

— Sim.

— Por quê?

— Porque você está rindo.

O sorriso da menina diminuiu um pouco.

Ficou mais suave.

— Ah.

— E porque esse tio parece ser uma pessoa decente.

— Ele é.

— Ótimo.

— Como você sabe?

— Porque pessoas ruins não fazem rondelli para adolescentes.

— Você inventou essa regra agora.

— E continuo sustentando a minha regra.

A menina balançou a cabeça.

Ainda sorrindo.

Foi nesse momento que alguma coisa atravessou o quarto.

Ela piscou.

Um bombom deslizou pelo chão.

E parou perto da cama.

Silêncio.

Rebeca ficou olhando.

O bombom continuou sendo um bombom.

— Hm.

— O quê? — perguntou Janis.

— Tem uma coisa acontecendo aqui.

— Que tipo de coisa?

— Não sei.

— Isso não parece bom.

— Também não parece ruim.

— Rebeca.

A menina sentou na cama.

Sem desviar os olhos do objeto.

— Espera.

— Não.

— Eu te ligo depois.

— Rebeca.

— Tem uma coisa acontecendo.

— Rebeca.

— Tchau.

— Rebeca!

Mas já era tarde.

A ligação terminou.

— Rebeca!

Janis permaneceu alguns segundos olhando para a tela do celular.

Esperando.

Talvez a ligação voltasse.

Talvez a Rebeca percebesse que havia sido mal-educada.

Talvez uma explicação surgisse.

Nada aconteceu.

— Inacreditável.

Ela apertou o botão de chamada.

Uma vez.

Chamou.

Chamou.

Chamou.

Sem resposta.

Janis desligou.

Esperou alguns segundos.

Ligou novamente.

Dessa vez a chamada durou menos.

Mas o resultado foi o mesmo.

Nada.

A menina deixou o celular cair ao lado da perna.

Suspirou.

Depois olhou para o verdadeiro problema da noite.

A bicicleta.

Ou melhor.

Os restos mortais de uma bicicleta.

Peças ocupavam boa parte da garagem.

Parafusos.

Porcas.

Cabos.

Ferramentas.

Uma roda.

Duas rodas.

E algumas partes cuja função permanecia um mistério.

Janis pegou uma peça.

Observou.

Virou de um lado.

Virou do outro.

— Você deveria vir com instruções.

A peça continuou sendo uma peça.

— Eu não estou pedindo muito.

Silêncio.

— Uma folha de papel.

Mais silêncio.

— Um desenho.

Nada.

Janis largou a peça.

Passou as mãos pelo rosto.

Então encarou o teto da garagem.

— Eu estou tentando fazer uma coisa bonita para minha namorada.

A bicicleta permaneceu indiferente.

— A colaboração de vocês está péssima.

Ainda nada.

A menina apontou para o monte de peças.

— Principalmente a sua.

Ela suspirou novamente.

Longamente.

Depois puxou uma caixa de ferramentas para perto.

— Tá bom. Vamos descobrir juntas como você funciona.

Foi nesse momento que um parafuso rolou sozinho pelo chão.

Janis observou.

O parafuso observou Janis.

A relação entre os dois começou mal.

Do outro lado da cidade, Rebeca observava o bombom.

Em silêncio.

O bombom permanecia imóvel.

Colorido.

Inocente.

Suspeito.

Muito suspeito.

Ela saiu da cama.

Caminhou até ele.

Parou.

— Isso é estranho.

Nenhuma resposta.

— Muito estranho.

A menina se abaixou.

Estendeu a mão.

No instante em que seus dedos quase tocaram a embalagem, o bombom disparou para trás.

Deslizou pelo chão.

E desapareceu pela porta.

Rebeca ficou congelada.

— Ei!

Silêncio.

Ela levantou imediatamente.

Foi até a porta.

Olhou para o corredor.

Nada.

Nem sinal de vida.

Então ela viu.

Uma trilha de bombons.

A alguns passos de distância.

Parado no chão.

Esperando.

— Ah, não.

A menina cruzou os braços.

Desconfiada.

— Isso é uma armadilha.

Os bombons não negaram.

Rebeca deu alguns passos.

Pegou o primeiro.

Depois o segundo.

E continuou seguindo pelo corredor.

Mais adiante, a trilha fazia uma curva e terminava diante de uma porta entreaberta.

Na frente do quarto do Júnior.

Rebeca hesitou.

Por aproximadamente dois segundos.

Depois empurrou a porta.

O quarto estava vazio.

Ou pelo menos parecia.

A primeira coisa que chamou sua atenção foi uma pilha de bombons.

Uma pilha de verdade.

Empilhados sobre uma escrivaninha.

Como se alguém tivesse decidido investir seriamente no mercado de chocolates.

— Meu Deus.

A menina aproximou-se.

Havia bombons de todos os tipos.

Alguns ainda fechados em suas embalagens.

Outros organizados dentro de uma caixa.

E alguns simplesmente espalhados por superfícies aleatórias.

Ela começou a suspeitar que o responsável pela trilha tivesse acesso a uma quantidade preocupante de açúcar.

Então seus olhos encontraram uma placa.

Pendurada torta na parede.

Muito torta.

Tão torta que parecia desafiar as leis da física.

Nela estava escrito:

VOCÊ É BEM-VINDA AQUI

Rebeca sorriu sem perceber.

Continuou andando.

Uma estante ocupava boa parte da parede do fundo.

Livros estavam espalhados por toda parte.

Alguns alinhados.

Outros empilhados horizontalmente.

Outros pareciam ter sido encaixados à força em espaços impossíveis.

Era como se a estante tivesse perdido uma discussão contra os próprios livros.

— Como ele encontra alguma coisa?

A pergunta morreu no ar.

Porque a resposta provavelmente era:

não encontrava.

Mais adiante, uma coleção inteira de bonequinhos ocupava várias prateleiras.

Super-heróis.

Personagens de desenhos.

Personagens de filmes.

Personagens que Rebeca não conhecia.

Todos reunidos.

Muito próximos uns dos outros.

Como convidados de uma festa.

Ou participantes de uma reunião extremamente importante.

Um cavaleiro parecia conversar com um astronauta.

Enquanto um dragão observava tudo de cima de uma pilha de livros.

— Isso é muito estranho.

Ela adorou imediatamente.

A menina deu mais alguns passos.

Observando cada detalhe.

Tentando entender quem era o dono daquele universo.

Foi quando ouviu um clique atrás dela.

Pequeno.

Quase imperceptível.

Rebeca franziu a testa.

Virou-se.

Confusa.

E uma fração de segundo depois...

PLOC!

Uma chuva de confetes explodiu sobre sua cabeça.

Ela congelou.

Completamente.

Sem tempo sequer para gritar.

Confetes pousaram nos cabelos.

Nos ombros.

Até dentro da gola da camiseta.

A menina virou-se lentamente.

Muito lentamente.

E encontrou o responsável.

Júnior estava parado na porta.

Com um sorriso tão grande que parecia fisicamente impossível.

Os braços abertos.

Visivelmente orgulhoso de si mesmo.

— Surpresa!

Silêncio.

Rebeca continuou parada.

Processando os acontecimentos dos últimos trinta segundos.

— Você colocou uma armadilha no corredor?

— Tecnicamente foram três.

— Três?

— As outras duas falharam.

— Ah.

— Ainda estou aperfeiçoando o sistema.

A menina olhou para os confetes.

Depois para os bombons.

Depois para o primo.

— Você é maluco.

O sorriso dele aumentou.

— Obrigado.

— Isso não foi um elogio.

— Eu sei.

Júnior não pareceu minimamente incomodado.

Na verdade, pareceu satisfeito.

Como se tivesse recebido exatamente a resposta esperada.

Então bateu uma palma.

Uma única vez.

— Vem comigo.

— O quê?

— Vem.

— Pra onde?

— Surpresa.

— Você já fez uma surpresa.

— Essa foi a surpresa de boas-vindas.

— Existe mais?

— Claro.

— Quantas?

— Não sei.

Rebeca estreitou os olhos.

— Isso não me tranquiliza.

— Excelente.

— Excelente?

— Significa que está funcionando.

Antes que ela pudesse responder, Júnior já havia saído do quarto.

Correndo.

Obviamente.

Porque caminhar era uma atividade que ele parecia considerar opcional.

— Ei!

— Anda logo!

— Você pode ir mais devagar?

— Não!

— Por quê?

— Porque eu estou animado!

— Com o quê?

— Com você!

A resposta veio tão rápido que Rebeca precisou de um segundo para processá-la.

E, quando conseguiu, o Júnior já estava no corredor.

Esperando.

Quicando sobre os próprios pés como uma mola humana.

— Vem!

A menina balançou a cabeça.

Mas estava sorrindo quando foi atrás dele.

Júnior disparou escada abaixo.

Rebeca hesitou.

Por aproximadamente meio segundo.

Então foi atrás.

— Júnior!

— Você está muito lenta!

— Eu não estou lenta!

— Está sim!

— Não estou!

Os dois desceram os degraus quase ao mesmo tempo.

E imediatamente uma voz surgiu da cozinha.

— DEVAGAR!

Os dois congelaram.

Por reflexo.

— Desculpa, mãe! — gritou Júnior.

— Desculpa, tia Miriam! — gritou Rebeca.

Alguns segundos de silêncio.

Então a voz voltou.

— Estou ouvindo vocês correrem de novo.

Júnior olhou para a prima.

Rebeca olhou para Júnior.

— Ela não consegue ver a gente daqui.

— Eu sei.

— Então como...

— Eu não faço ideia.

— CONTINUO OUVINDO VOCÊS!

— Vem!

Antes que Rebeca pudesse protestar, Júnior já estava atravessando a sala de estar.

A menina o seguiu.

E os dois continuaram avançando pela casa.

Passaram pela biblioteca.

Prateleiras inteiras cobertas de livros.

Depois pela sala de música.

O piano ocupava o lugar de destaque.

As teclas brilhavam sob a luz amarelada do abajur.

Por um instante, Rebeca achou que aquele era o destino.

Mas não.

Júnior continuou.

Até o fundo da sala.

Ali havia duas portas de correr que ela nunca tinha reparado.

— Pronta?

— Não.

— Excelente.

Ele abriu as portas.

E o espaço do outro lado fez Rebeca parar.

A sala era ampla.

Uma parede inteira era coberta por espelhos.

Havia uma barra de apoio próxima à lateral.

O piso era diferente.

Próprio para dança.

E, apesar de não ser enorme, parecia ter sido pensado com cuidado.

Pensado para alguém que amava estar ali.

— Uau.

O sorriso do Júnior aumentou.

— Legal, né?

— Isso tudo é seu?

— Nosso.

— Nosso?

— Se você quiser aprender...

A resposta saiu tão naturalmente que Rebeca demorou um instante para entender.

Então sorriu.

Júnior entrou primeiro.

Foi até um rádio que ocupava um canto da sala.

Depois apontou para um espaço perto da porta.

— Senta aí.

— No chão?

— É.

— Não tem cadeira?

— Tem.

— Então por que...

— Porque eu mandei.

— Autoritário.

— Tive um bom mestre.

— Seu pai?

— Minha mãe.

Rebeca acabou obedecendo.

Sentou-se no chão.

Com as costas apoiadas na parede.

Ainda observando o lugar.

O estúdio ficava logo atrás da sala de música.

Separado apenas pelas portas de correr.

Como se os dois ambientes fossem partes da mesma coisa.

Como se a música pudesse atravessar uma porta.

E virar movimento.

Júnior apertou alguns botões no rádio.

A música começou.

Suave.

Delicada.

A mesma que ele havia usado mais cedo.

Então ele respirou fundo.

E, pela primeira vez desde que ela o encontrara, ficou completamente quieto.

Sem piadas.

Sem correria.

Sem bombons.

Sem armadilhas.

Apenas a música.

E a dança.

Rebeca piscou.

Surpresa.

Porque aquele menino parecia uma pessoa completamente diferente.

E, ao mesmo tempo, exatamente a mesma.

A música terminou.

O silêncio tomou conta do estúdio.

Por alguns segundos, Rebeca apenas observou.

Ainda tentando conciliar aquele dançarino com o menino que havia armado uma emboscada de bombons no corredor.

Júnior respirava um pouco mais rápido.

Mas sorria.

Como sempre.

Então caminhou até ela.

E sentou-se no chão.

Bem na sua frente.

— E aí?

— E aí o quê?

— Gostou?

Rebeca abriu a boca.

Fechou.

Abriu novamente.

— Você dança?

— Eu espero que sim.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Eu sei.

Ela passou a mão pelos cabelos.

Ainda sem encontrar palavras.

— Você dança muito bem.

O sorriso dele aumentou.

— Obrigado.

Então abriu a mochila.

Começou a procurar alguma coisa.

Tirou uma garrafa.

Um estojo.

Um pacote de biscoitos.

Uma meia.

— Por que tem uma meia aí?

— Não faço ideia.

— Júnior.

— Talvez ela tenha vindo sozinha.

Por fim, encontrou o que procurava.

Uma partitura.

Ou pelo menos os restos mortais de uma.

As folhas estavam amassadas.

Dobras marcavam praticamente todas as páginas.

Havia anotações feitas a lápis nas margens.

Algumas tão antigas que quase tinham desaparecido.

— Você carrega isso na mochila?

— Sim.

— Por quê?

— Porque às vezes eu preciso dela.

A resposta pareceu perfeitamente razoável para ele.

Júnior levantou-se.

Estendeu a partitura para a prima.

— Você toca?

Rebeca observou as páginas.

Depois olhou para o piano.

Depois para ele.

— Agora?

— Agora.

— Você sempre decide as coisas assim?

— Sim.

— Entendi.

— Então?

Ela pegou a partitura.

— Tá bom.

Alguns minutos depois, Rebeca estava sentada ao piano.

A música começou devagar.

As primeiras notas preencheram a sala.

Dessa vez não vinham de um rádio.

Vinham dela.

Júnior fechou os olhos por um instante.

Como se estivesse ouvindo a peça pela primeira vez.

Então começou a dançar.

As portas de correr permaneciam abertas.

O estúdio e a sala de música agora pareciam um único ambiente.

De um lado, o piano.

Do outro, a dança.

E, no meio, uma conversa sem palavras.

A música guiava os movimentos.

Os movimentos respondiam à música.

E, pela primeira vez desde que havia chegado àquela casa, Rebeca sentiu que estava participando de algo.

Não observando.

Participando.

— De novo.

— Júnior...

— Última vez.

— Você disse isso há vinte minutos.

— Mas agora é verdade.

— Você mentiu nas outras vezes?

— Tecnicamente eu estava sendo otimista.

Rebeca riu.

E recomeçou a tocar.

Nenhum dos dois percebeu quando Miriam entrou na sala de música.

Ela permaneceu observando em silêncio.

Por alguns segundos.

O sorriso que surgiu em seu rosto foi inevitável.

Então ela cruzou os braços.

— Boa noite.

O piano parou imediatamente.

Júnior quase tropeçou nos próprios pés.

Os dois viraram ao mesmo tempo.

— Vocês sabem que horas são?

Silêncio.

— Não.

— Isso explica muita coisa.

— Mãe...

— Cama.

— Mas...

— Cama.

— Só mais uma vez.

— Júnior.

— Tá bom.

— Rebeca.

— Sim, tia?

— Você também.

— Tá bom.

Miriam assentiu.

Satisfeita.

Ela esperou os dois saírem da sala.

E só então apagou as luzes.

— Boa noite.

— Boa noite, mãe.

— Boa noite, tia Miriam.

Os três seguiram pelo corredor.

Júnior caminhava de costas.

O que parecia ser um hábito preocupante.

— Você vai bater em alguma coisa.

— Eu nunca bato.

No mesmo instante, ele esbarrou na parede.

— Ai.

— Eu avisei.

— Foi um teste.

— Claro.

Quando chegaram à porta dos quartos, Júnior pareceu se lembrar de alguma coisa.

— Espera.

Ele abriu a mochila.

Revirou algumas coisas.

Tirou uma garrafa.

Um caderno.

A mesma meia suspeita.

— Você realmente carrega essa meia para todo lado?

— Ela me acompanha nos momentos difíceis.

— Júnior.

— Tá bom.

Por fim, encontrou um folheto.

E entregou para a prima.

Rebeca observou a fotografia.

O nome da apresentação.

A data.

O horário.

— Vai ser na sexta à noite.

— Eu vi.

— Você vai?

— Vou.

O sorriso dele apareceu imediatamente.

— Ótimo.

Rebeca hesitou.

— Posso levar uma pessoa?

— Claro.

A resposta veio tão rápido que parecia óbvia.

— Quantas você quiser.

— Acho que só uma.

— Então está perfeito.

Por um instante, os dois ficaram em silêncio.

Era estranho.

Porque tinham passado horas juntos.

E, ainda assim, parecia que a conversa tinha acabado de começar.

— Boa noite, Rebeca.

— Boa noite, Júnior.

Ela entrou no quarto.

E fechou a porta.

O silêncio voltou.

Pela primeira vez naquela noite.

Rebeca largou o folheto sobre a escrivaninha.

Depois pegou o celular.

A tela acendeu.

Três chamadas perdidas.

Janis.

A menina arregalou os olhos.

— Ah, não.

Ela apertou o botão de chamada imediatamente.

A ligação foi atendida antes mesmo do segundo toque.

— Você me perdoa?

Silêncio.

— Vou tentar.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Espero que tenha um bom motivo.

— Eu tenho.

— Ótimo.

— Envolve bombons.

Silêncio.

— Rebeca.

— O quê?

— Isso não parece um bom começo.

Então a Rebeca começou a contar.

Sobre a trilha.

Sobre o quarto.

Sobre os confetes.

Sobre a placa de boas-vindas.

Sobre o estúdio.

Sobre a dança.

Sobre a partitura amassada.

Sobre tocar piano enquanto o Júnior dançava.

E, pela primeira vez desde que a ligação começou, Janis ficou em silêncio.

Apenas ouvindo.

Feliz.

Porque a voz da Rebeca parecia leve.

Muito leve.

— Então ele gostou de você.

— Acho que sim.

— Acho?

— Sim.

— Isso continua não sendo uma resposta.

— Ele armou uma emboscada de bombons.

— Verdade.

— E colocou uma placa de boas-vindas no quarto.

— Verdade.

— E me entregou um convite para uma apresentação.

— Rebeca.

— O quê?

— Ele gostou de você.

A menina riu.

— Talvez.

— Definitivamente.

— Vai ser na sexta à noite.

— Que legal.

— Posso levar uma pessoa.

Houve um pequeno silêncio.

— Janis?

— Oi?

— Você quer ir comigo?

Do outro lado da cidade, Janis observou o teto da garagem.

Depois a bicicleta.

Depois o teto novamente.

— Eu queria.

— Mas?

— Trabalho.

A resposta saiu carregada de arrependimento.

— Preciso entrar cedo no sábado.

— Ah.

A decepção foi pequena.

Mas estava ali.

Janis percebeu imediatamente.

— Ei.

— O quê?

— Eu tenho uma boa desculpa.

— Tem?

— Tenho.

— Qual?

— Estou arriscando minha vida para fazer uma surpresa para você.

Rebeca riu.

— Surpresa?

— Sim.

— Que surpresa?

— Não posso contar.

— Janis.

— É verdade.

— Só uma pista.

— Não.

— Janis.

— Tá bom. É uma coisa legal.

— Isso não é uma pista.

— É sim.

— Não é.

— É.

— Não é.

Silêncio.

A voz da Maria Helena surgiu imediatamente da sala.

— JANIS!

A menina deu um pulo.

— O quê?

— Você está falando demais.

— Eu não falei nada.

— Acabei de ouvir você falando.

— Tecnicamente isso não prova nada.

— Janis.

— Tá bom.

Rebeca já estava rindo.

— O que está acontecendo aí?

— Nada.

— Janis.

— Absolutamente nada.

— Janis.

— Minha avó está tentando censurar a arte.

— A arte?

— Sim.

— Que arte?

— A arte da comunicação.

— Eu vou dar um nó na sua língua, menina! — gritou Maria Helena.

Silêncio.

Rebeca foi a primeira a rir.

Janis tentou resistir.

Falhou miseravelmente.

— Isso não é nem um pouco assustador.

— Continue testando para ver.

— Vó, eu tenho dezesseis anos.

— E eu tenho setenta. Não me desafie.

— Ameaças foram feitas.

— Promessas.

Isso acabou com qualquer tentativa de seriedade.

As duas meninas riram.

O relógio avançava.

As duas estavam cansadas.

E a manhã chegaria cedo demais.

— Acho que precisamos dormir.

— Acho que sim.

— Boa noite, Janis.

Houve uma pequena pausa.

Só uma.

— Boa noite, Rebeca.

Janis apertou o telefone com mais força.

As palavras estavam ali.

Prontas.

Ela conseguia senti-las.

Quase conseguia ouvi-las.

Eu te amo.

Tão simples.

Tão difícil.

A frase subiu.

Parou na garganta.

E ficou ali.

Presa.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

A ligação terminou.

Janis continuou olhando para a tela apagada.

Em silêncio.

Por alguns segundos.

Depois guardou o celular no bolso.

Se levantou.

A bicicleta continuava exatamente onde havia sido abandonada.

Parafusos.

Porcas.

Peças espalhadas.

E um nível de desorganização que começava a parecer ofensivo.

— Você venceu hoje.

A bicicleta não respondeu.

O que, honestamente, era o comportamento mais educado que havia demonstrado até aquele momento.

Janis puxou uma lona velha que estava dobrada em um canto da garagem.

Cobriu os restos mortais da bicicleta.

Depois observou o resultado.

— Continua parecendo uma cena de crime.

A lona não ajudava muito.

Mas pelo menos escondia parte do desastre.

A menina suspirou.

Então entrou em casa.

A televisão estava ligada.

Maria Helena acompanhava a novela com a atenção de quem levava aquilo muito a sério.

Janis parou ao lado da poltrona.

— Posso fazer uma pergunta pessoal?

A avó não desviou os olhos da tela.

— Tenho escolha?

— Não.

Maria Helena pegou o controle.

E desligou a televisão.

— Pronto.

— Vó!

— Isso vai ser melhor que a novela.

A mulher se acomodou na poltrona.

Cruzou os braços.

E apontou para o sofá.

— Senta.

Janis sentou.

Já arrependida da própria iniciativa.

Maria Helena inclinou a cabeça.

— O que a menina de cabelo azul fez desta vez?

Janis bufou.

— Nada.

— Então por que essa cara?

— Que cara?

— Essa aí.

— Eu não estou fazendo cara nenhuma.

— Está sim.

A avó apontou para ela.

— É a cara que você faz quando está pensando demais.

Janis afundou um pouco mais no sofá.

— Posso fazer mesmo fazer uma pergunta pessoal?

— Já está fazendo.

— Uma pergunta de verdade.

Maria Helena ficou séria.

— Pode.

A menina demorou alguns segundos para encontrar coragem.

Então perguntou:

— Quando a senhora disse "eu te amo" para o vovô pela primeira vez?

A mulher piscou.

Uma vez.

Depois outra.

— Jesus amado.

— Eu sabia.

— Sabia o quê?

— Que a senhora ia reagir assim.

Maria Helena apoiou a cabeça na mão.

— Continue.

— Não tem muito mais o que dizer.

— Tem sim.

— Não tem.

— Janis.

— Tá bom.

A menina encarou o próprio colo.

— Eu só queria saber.

— Por quê?

Silêncio.

— Janis.

— Por que é tão difícil dizer?

A avó sorriu.

Pequeno.

Saudoso.

— Nunca é fácil.

— Sério?

— Sério.

— Mas vocês eram casados.

— E daí?

— Achei que facilitava as coisas.

— Não facilitam.

Maria Helena ficou alguns segundos olhando para algum lugar distante.

Como se estivesse vendo outra época.

Outro sofá.

Outra casa.

Outro homem.

— Eu amava seu avô e justamente por isso era difícil.

Janis ergueu os olhos.

— Não entendi.

— Porque algumas palavras têm peso. Quando você gosta de alguém, dizer "bom dia" é fácil. Dizer "até amanhã" também. Mas dizer "eu te amo" é diferente.

A menina permaneceu em silêncio.

Escutando.

— Não é apenas uma declaração. É um compromisso. É uma escolha. É uma forma de dizer: eu reconheço o valor que você tem na minha vida.

A sala ficou quieta por alguns segundos.

Então Janis perguntou:

— E por que é tão difícil falar para a Rebeca?

Maria Helena não respondeu imediatamente.

Apenas observou a neta.

— Ah.

— O quê?

— Então era essa a pergunta.

Janis escondeu o rosto nas mãos.

— Eu odeio conversar com a senhora.

— Eu sei.

— A senhora descobre tudo.

— Também sei.

A menina soltou um suspiro longo.

Depois encarou a avó novamente.

— Eu não tenho medo dela não sentir o mesmo.

— Eu sei.

— Não tenho medo dela me rejeitar.

— Eu sei.

— Então por que trava?

Maria Helena demorou alguns segundos para responder.

Quando falou, a voz saiu calma.

Gentil.

— Porque você sabe quem ela é.

Janis franziu a testa.

— Não entendi.

— Você conhece a história dela. Conhece as feridas e os medos dela.

A avó apoiou a mão sobre a da neta.

— E está preocupada que ela não consiga acreditar em você.

Os olhos da Janis baixaram.

— Talvez.

— Talvez nada.

— É exatamente isso.

A menina soltou um suspiro longo.

Depois encarou a avó novamente.

— É como...

— Como?

— Como furar uma caixinha de Toddynho com o canudinho.

Maria Helena piscou.

— Essa comparação foi surpreendentemente específica.

— Eu sei.

— Continue.

— Depois que você enfia o canudinho...

Janis fez um gesto com a mão.

— Pronto. Já era. Não tem como voltar atrás.

A avó assentiu lentamente.

— E por que você iria querer voltar atrás?

— Eu não quero.

A resposta veio rápida demais.

Sincera demais.

Então a voz da menina ficou mais baixa.

— Eu só...

Ela procurou as palavras.

— Eu não sei se a Rebeca consegue entender que ela pode ser amada.

A frase saiu quase num sussurro.

Maria Helena apertou sua mão.

— Então continue fazendo o que já está fazendo.

— Como assim?

— Tratando aquela menina com carinho. Com paciência.

A avó sorriu.

— E com uma certa dose de loucura.

Um sorriso apareceu no rosto da Janis.

— Essa parte eu consigo.

— Eu sei que consegue.

— Sou praticamente especialista.

— Isso me preocupa.

As duas riram.

Então Maria Helena voltou a ficar séria.

— Você vai perceber quando ela estiver pronta.

— Pronta?

— Para acreditar.

A avó apertou sua mão mais uma vez.

— E quando esse momento chegar...

Ela sorriu.

— Aí você fala.

As duas permaneceram em silêncio por alguns segundos.

Não um silêncio desconfortável.

Um silêncio bom.

Daqueles que não precisam ser preenchidos.

Então Maria Helena levantou-se.

— Muito bem.

— O quê?

— Minha novela.

— A senhora desligou.

— E vou ligar de novo.

Janis riu.

A avó caminhou até a televisão.

Mas parou no meio do caminho.

— Janis?

— Oi?

— Ela vai gostar.

— Do quê?

— Da surpresa.

A menina sorriu.

Pequeno.

Verdadeiro.

— Espero que sim.

Maria Helena assentiu.

Como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Então voltou para a poltrona.

Janis permaneceu sentada por mais alguns segundos.

Pensando.

Na Rebeca.

No convite do Júnior.

Na bicicleta escondida sob a lona.

No churrasco.

E nas palavras que tinham ficado presas em sua garganta.

Eu te amo.

Ainda não.

Tudo bem.

Ela podia esperar um pouco mais.

A menina levantou-se.

— Boa noite, vó.

— Boa noite, criança.

Janis seguiu para o quarto.

E, pela primeira vez naquela noite, não parecia tão preocupada.

 

 

 

 

 

Fim do capítulo


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