Capitulo 60 - Com Gosto de Água Salgada
Capítulo 60 – Com Gosto de Água Salgada.
Quando chegaram ao condomínio, Rebeca já olhava tudo pela janela como se estivesse tentando absorver cada detalhe ao mesmo tempo.
As luzes baixas das casas.
O barulho distante do mar.
O vento entrando pelas frestas do carro.
Então a casa apareceu no fim da rua.
Rebeca abriu um sorriso imediato.
— É linda.
Janis saiu do carro primeiro.
Olhou para a varanda iluminada.
— Parece casa de filme.
Miriam pegou a bolsa no banco da frente.
— Eu gosto daqui.
Enquanto caminhavam até a entrada, Rebeca perguntou casualmente demais:
— Então… eu vou ter um quarto aqui também?
Miriam destrancou a porta.
— É claro.
Empurrou a porta devagar.
— Inclusive, dessa vez você pode escolher a decoração.
Rebeca ficou parada por meio segundo.
Claramente feliz demais com aquela informação.
Janis percebeu imediatamente.
E abriu um sorriso pequeno só observando a reação dela.
A casa era bem menor do que a da cidade.
Mas parecia mais aconchegante.
Não havia escadas.
Nem biblioteca.
Nem piano.
Em compensação, a sala e a cozinha pareciam maiores, mais abertas.
A varanda ocupava praticamente toda a frente da casa, com uma rede pendurada perto das janelas.
E mais ao fundo havia uma área gourmet coberta, iluminada por luzes amarelas suaves.
Miriam entrou primeiro.
— A ausência de escadas se mostrou uma bênção.
Rebeca deu um sorrisinho sem graça imediatamente.
Porque ali realmente não existia perigo nenhum dela sofrer um acidente por descer correndo pela escada.
Janis olhou discretamente entre as duas.
Mas não comentou nada.
Miriam apontou para um dos corredores.
— Você fica aqui, Rebeca. — Miriam indicou uma das portas.
Depois apontou para outra porta.
— E você aqui, Janis.
As duas olharam automaticamente para o meio do corredor.
Onde ficava o quarto da própria Miriam.
Silêncio.
Janis estreitou os olhos devagar.
— Estratégico.
Miriam nem piscou.
— Arquitetura funcional.
Rebeca claramente processou a situação dois segundos mais tarde.
— TIA.
Miriam apoiou a mala no chão com tranquilidade absoluta.
— O quê?
Janis começou a rir imediatamente.
— Ela colocou o próprio quarto como barreira de contenção.
— Janis!
Miriam abriu a porta do quarto dela.
— Se quiserem, podemos dormir nós três no mesmo quarto.
As duas ficaram vermelhas ao mesmo tempo.
Janis tossiu.
Rebeca parou de funcionar.
— Vou fingir que vocês ainda sabem agir normalmente.
Janis observou Miriam sumir para dentro do próprio quarto.
Depois olhou para Rebeca.
— Sua tia é assustadora.
Rebeca ainda parecia em choque.
— Eu acho que ela tá se divertindo.
As três passaram os minutos seguintes entrando e saindo dos quartos com bolsas, mochilas e malas.
Rebeca demorou mais do que deveria organizando seus livros na mesa de cabeceira.
Como se eles também precisassem se acomodar da maneira correta.
Janis apareceu na porta do quarto dela pouco depois.
— Você trouxe metade de uma biblioteca.
Rebeca nem levantou os olhos.
— Vai que chove.
Janis olhou pela janela aberta.
O barulho do mar entrava junto com o vento.
— Rebeca… nós literalmente estamos na praia.
— Exatamente. Clima ideal pra leitura.
Janis começou a rir.
Pouco depois, as duas reapareceram na sala quase ao mesmo tempo.
Miriam ainda organizava algumas coisas na cozinha.
Levantou os olhos quando viu as duas claramente inquietas perto da porta.
Silêncio.
Então suspirou:
— Vocês podem ir.
As duas abriram um sorriso instantaneamente.
— Mas voltem às oito e meia.
Olhou diretamente para Janis.
— E nada de barganha, dona Janis.
Janis colocou a mão no peito.
— Eu já tô manjada.
— Bastante.
As duas praticamente correram até a saída.
A passagem de madeira terminava direto na areia.
O vento veio primeiro.
Forte.
Gelado.
Depois o cheiro da maresia.
E então o mar apareceu diante delas.
Escuro.
Imenso.
As ondas quebravam sob a luz da lua.
Rebeca simplesmente parou.
Os olhos arregalados.
— Meu Deus…
Janis observava Rebeca mais do que observava o mar.
Rebeca começou a andar devagar até a água.
Como se estivesse com medo de assustar aquilo.
A primeira onda bateu nos pés dela.
Gelada.
Rebeca gritou imediatamente:
— ISSO TÁ CONGELANDO!
Janis começou a rir.
— Você queria conhecer o mar!
— Eu não sabia que ele vinha direto do polo sul!
Outra onda veio.
Rebeca pulou pra trás.
Depois começou a rir também.
Daqueles risos completamente soltos.
Então abaixou de repente.
Pegou água com as mãos.
E jogou em Janis.
A outra arregalou os olhos.
— Ah, então é assim?
Dois segundos depois, Janis já estava revidando.
As duas começaram a correr pela areia molhada enquanto as ondas perseguiam os pés delas.
Escorregavam.
Trombavam uma na outra.
Riam sem conseguir parar.
— JANIS!
— FOI VOCÊ QUE COMEÇOU!
Outra onda veio mais forte.
As duas gritaram juntas.
Quando finalmente pararam, estavam tremendo de frio.
E rindo pelos cotovelos.
Rebeca segurava os próprios braços tentando recuperar o ar.
Janis afastou o cabelo molhado da testa.
As duas ficaram quietas ao mesmo tempo.
Só o barulho do mar preenchendo o espaço.
Então Rebeca deu um passinho pequeno na direção dela.
Janis encontrou a mão dela primeiro.
O beijo veio rápido.
Gelado.
Leve.
Com gosto de água salgada e risada presa.
Quando se afastaram, ainda estavam sorrindo.
— A gente devia voltar — Janis murmurou.
Rebeca assentiu.
— Antes que a tia Miriam mande a guarda costeira atrás da gente.
Quando voltaram pra casa, Miriam estava improvisando o jantar, aproveitando os quitutes que Maria Helena tinha mandado.
O cheiro da comida tomava conta da cozinha.
As duas entraram tremendo de frio e com areia grudada nas pernas.
Miriam virou o rosto imediatamente.
— Vocês entraram mais na água do que deveriam.
Janis tirou o chinelo.
— Tecnicamente foi o mar que entrou na gente.
Depois do banho, tudo ficou mais silencioso.
Confortável.
Rebeca apareceu usando pijama largo e meias grossas, carregando um dos livros que Helba tinha recomendado.
Janis já estava largada no sofá com a televisão ligada.
Miriam terminava de organizar os pratos na cozinha.
Rebeca se encolheu numa ponta do sofá com uma manta sobre as pernas e abriu o livro.
Poucos minutos depois:
— Você tá fazendo barulho.
Janis nem desviou os olhos da televisão.
— Você tá lendo um livro de criança. Não deve ser difícil se concentrar.
Rebeca lançou um olhar ofendido imediatamente.
— Não é “um livro de criança”.
Virou outra página.
— É um clássico.
Janis finalmente olhou pra ela.
Estendeu a mão.
— Me dá aqui.
Rebeca hesitou.
Depois entregou o livro.
Janis abriu numa página aleatória.
E começou a ler em voz alta:
— “Quando Dorothy despertou, o sol já brilhava entre as árvores e Totó há muito a deixara, para correr do lado de fora da cabana perseguindo pássaros e esquilos…”
Silêncio.
Então Janis ergueu lentamente os olhos para Rebeca.
— Totó… Totó…
A expressão dela ficou perigosamente divertida.
— Então parece que eu não sou a única que gosta de esquilos.
Do outro lado da cozinha, Miriam perdeu completamente a compostura
A crise de riso veio tão forte que ela precisou apoiar a mão na bancada.
Rebeca ficou absolutamente horrorizada.
— TIA!
Janis já ria sem qualquer dignidade.
— O livro falou primeiro!
Rebeca apontou indignada para Miriam.
— De que lado a senhora está?!
Miriam tentava recuperar o ar.
— Me desculpa… mas essa foi muito boa.
Tentou parar de rir.
Não conseguiu.
— E bastante verdadeira.
Rebeca ficou vermelha até as orelhas.
— Eu vou embora dessa casa.
Janis nem pensou antes de responder:
— Só não pode seguir pela estrada de tijolos amarelos.
Rebeca estreitou os olhos.
— Por quê?
Janis abriu um sorriso perigosamente satisfeito.
— O Totó pode estar lá.
Pausa dramática.
— E ele é perigoso pra você.
Miriam perdeu completamente a batalha nessa hora e começou a rir de novo.
Rebeca pegou a almofada do sofá.
— Eu odeio vocês duas.
— Mentira — Janis respondeu imediatamente. — Você acha a gente muito engraçada.
A almofada voou na direção dela dois segundos depois.
A discussão sobre Totó, esquilos e estradas de tijolos amarelos só terminou quando Miriam colocou os pratos sobre a mesa.
— Antes que vocês destruam completamente a literatura infantil.
A torta foi o prato principal.
Rebeca deu a primeira garfada.
E imediatamente fechou os olhos.
Depois inclinou levemente o rosto para a direita.
Como se estivesse absorvendo o sabor aos poucos.
Quase meditando enquanto comia.
Janis observou em silêncio absoluto.
Tentando MUITO não rir.
Porque a expressão da Rebeca era séria demais.
Como se aquele pedaço de torta tivesse acabado de revelar os segredos do universo.
Miriam percebeu também.
Mas manteve a compostura.
— Tá bom?
Rebeca abriu os olhos devagar.
Ainda mastigando.
— Muito.
Outra garfada.
Outra microexpressão de felicidade espiritual culinária.
Janis abaixou a cabeça imediatamente.
Os ombros começando a tremer.
Rebeca estreitou os olhos.
— O que foi?
— Nada.
Janis pegou água rápido demais.
— Absolutamente nada.
Miriam tomou vinho com a maior calma do mundo.
— Come antes que esfrie.
Só que agora Janis não conseguia mais NÃO perceber o ritual inteiro.
Quando terminaram de jantar, Miriam colocou o copo na pia.
— Vocês lavam a louça.
As duas levantaram os olhos ao mesmo tempo.
Miriam apontou calmamente para a cozinha.
— E eu gosto da minha cozinha impecável.
Janis estreitou os olhos.
— Acho que isso foi uma ameaça.
Rebeca pegou os pratos da mesa.
— Você acha?
Olhou diretamente pra ela.
— Eu tenho certeza.
Miriam ignorou completamente.
Já caminhava em direção ao corredor.
— Eu vou deitar.
Soltou um suspiro cansado.
— Foi um dia longo e eu preciso descansar.
Parou antes de entrar no quarto.
Então virou o rosto só um pouco:
— E não fiquem de namorico até tarde.
Rebeca quase derrubou um prato.
— TIA!
Miriam arqueou uma sobrancelha.
— O quê?
Silêncio.
Então completou com absoluta tranquilidade:
— Quer que eu finja que não sei o que vocês fazem quando eu não estou olhando?
Rebeca ficou vermelha instantaneamente.
— A GENTE NÃO...
Janis levantou a mão rapidamente.
— Era melhor ter parado no lance da cozinha impecável.
Miriam sorriu de canto pela primeira vez na noite.
— Boa noite, meninas.
Miriam desapareceu dentro do quarto logo depois.
Silêncio absoluto na cozinha.
Rebeca encarava a pia como se desejasse desaparecer dentro dela.
Janis pegou um prato devagar.
— Então…
Rebeca apontou imediatamente.
— Não fala nada.
— Eu nem comecei ainda.
— Eu conheço essa voz.
Janis já estava sorrindo outra vez.
— Sua tia é absolutamente assustadora.
Rebeca começou a lavar os pratos em velocidade agressiva.
— Eu vou morrer de vergonha antes do fim dessa viagem.
Janis pegou o pano de prato.
— Mas vai morrer numa cozinha impecável.
Depois de terminarem a louça, com Janis secando tudo numa lentidão irritantemente teatral só para provocar a Rebeca, as duas voltaram para a sala.
Dessa vez, o livro ficou fechado sobre a mesa de centro.
— Vamos assistir alguma coisa. — Janis decretou, pegando o controle.
Os vinte minutos seguintes foram gastos numa negociação absurdamente difícil.
— Não.
— Esse é triste.
— Esse tem três horas!
— Esse parece filme de gente culta demais pra mim.
— Você literalmente trouxe O Mágico de Oz na mala.
— Isso é diferente.
No fim, chegaram a um acordo frágil o suficiente para evitar uma guerra civil.
O filme começou.
Cinco minutos depois, as duas já estavam largadas no sofá de maneiras fisicamente questionáveis.
Rebeca tinha conseguido “deitar” num ângulo que parecia desafiar a medicina.
As costas apoiadas no assento.
As pernas penduradas sobre o encosto.
A cabeça quase caída para trás.
Janis observou por alguns segundos.
— Isso não pode ser confortável.
— É claro que é.
Janis então se jogou ao lado dela numa posição igualmente grotesca.
Um braço torto atrás da cabeça.
Uma perna dobrada no sofá.
A outra quase no chão.
— Se você está dizendo...
Rebeca começou a rir.
Durante boa parte do filme, as duas fizeram comentários aleatórios sem o menor compromisso em acompanhar a história direito.
— Esse personagem claramente vai morrer.
— Janis!
— O quê? Ele tem cara de quem toma decisões ruins.
Mais alguns minutos.
— Essa atriz parece a tia Miriam brava.
— NÃO PARECE!
— Parece um pouco.
Outra cena.
— Se alguém invade minha casa assim eu viro criminos...
— Shhh. Essa parte é importante.
Só que nenhuma das duas parecia realmente focada.
O cansaço foi chegando devagar.
As respostas começaram a demorar mais.
Os comentários ficaram mais espaçados.
Até que, em algum momento, simplesmente apagaram quase juntas.
A televisão continuou ligada baixinho na sala escura.
Horas depois, Miriam acordou com o som distante do filme.
Abriu os olhos lentamente.
Franziu a testa.
— Não é possível.
Levantou da cama e caminhou pelo corredor ainda sonolenta.
Quando chegou na sala, encontrou exatamente o desastre que esperava.
As duas dormindo tortas no sofá.
A televisão iluminando a cena como prova criminal.
Miriam ficou alguns segundos olhando.
Depois suspirou.
Tentou ajeitar Rebeca primeiro.
Segurou a cabeça dela com cuidado.
Imediatamente:
— Não…
Rebeca se remexeu inteira.
Virou para o outro lado.
A cabeça agora num ângulo menos perigoso.
Mas ainda profundamente errado.
Miriam fechou os olhos por um segundo.
Então tentou mover Janis.
Péssima decisão.
A garota resmungou alguma coisa incompreensível e praticamente abraçou o braço do sofá como mecanismo de defesa.
— Meu Deus.
Miriam desistiu.
Desligou a televisão.
Pegou duas mantas no armário.
Jogou uma em cada menina.
As duas continuaram apagadas.
Imóveis.
Finalmente quietas.
Miriam observou a cena por mais alguns segundos.
Então começou a voltar para o quarto.
— Pelo menos aquietaram.
E foi dormir antes que alguma delas resolvesse acordar e causar mais uma vez.
Fim do capítulo
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