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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 3195
Acessos: 52   |  Postado em: 23/05/2026

Capitulo 59 - Que Deus Me Ajude

Capítulo 59 –  Que Deus Me Ajude.

 

Miriam puxou outra peça da arara.

— Essa aqui talvez fique boa.

Rebeca arregalou os olhos.

— Isso mostra demais.

— É um biquíni, Rebeca.

A garota apertou o tecido entre os dedos.

— E eu não tenho muita coisa pra mostrar.

Miriam virou o rosto pra ela imediatamente.

— Não fala assim.

A resposta saiu simples. Quase automática.

Rebeca desviou os olhos.

— Mas é verdade.

Miriam pegou a peça da mão dela com calma.

— Não tem nada de errado com o seu corpo.

Miriam segurava o biquíni diante dela com a maior tranquilidade do mundo.

— E eu tenho certeza de que a Janis vai adorar.

Rebeca quase morreu instantaneamente.

— TIA!

Algumas pessoas viraram o rosto na loja.

Miriam nem piscou.

— A Janis não tem nada a ver com isso.

Miriam inclinou a cabeça devagar.

— É mesmo?

Rebeca sentiu o perigo tarde demais.

— Então quem você está tentando impressionar?

A garota abriu a boca.

Nenhum som saiu.

Piscou algumas vezes, completamente traída pelo próprio cérebro.

Miriam esperou.

Calmamente.

Rebeca continuava muda.

Então Miriam assentiu sozinha:

— Ponto pra mim.

Rebeca fez um barulho indignado que não parecia pertencer a nenhum idioma conhecido e praticamente fugiu para outra arara de roupas.

— Tá.

Respirou fundo.

— A gente vai levar.

Miriam permaneceu em silêncio, esperando o resto.

Rebeca desviou os olhos.

— Mas eu tenho certeza de que ela vai rir.

Miriam virou o rosto devagar.

— Eu não teria tanta certeza se fosse você.

Rebeca sentiu o rosto esquentar imediatamente.

— Tia…

— Pensa que eu não percebi o jeito que ela olha pra você?

Rebeca parou de respirar por aproximadamente três segundos.

Miriam pegou outra peça da arara com absoluta calma.

— Janis olha pra você como quem ganhou na loteria.

Rebeca ficou completamente imóvel.

O cérebro claramente desistindo de funcionar outra vez.

Miriam observou por um instante.

Então entregou outro biquíni pra ela.

— Experimenta esse também.

Depois do shopping, passaram em casa para arrumar as malas.

Miriam colocou uma mala vazia sobre a cama de Rebeca.

— Acha que dá conta de fazer sua mala sozinha?

Rebeca pareceu ofendida.

— É claro que sim.

Miriam assentiu.

— Certo. Então eu vou arrumar as minhas coisas.

Quinze minutos depois, voltou para verificar.

E encontrou Rebeca ajoelhada sobre a mala, brigando fisicamente com o zíper.

A mochila já estava absurdamente cheia.

A bolsa carteiro parecia prestes a explodir.

— Rebeca…

A garota puxou o zíper com força.

Ele não cedeu nem um centímetro.

— Tá sob controle.

Miriam observou a distribuição profundamente questionável da bagagem.

A mochila estava lotada de livros.

A bolsa carteiro parecia conter tudo que Miriam tinha comprado para a viagem: protetor, repelente, escova, hidratante, remédios, lenços, carregador, fone de ouvido e provavelmente equipamentos suficientes para sobreviver a uma pequena catástrofe natural.

Enquanto isso, a mala principal sofria porque agora precisava acomodar: roupas,
sapatos, tênis, toalha, e mais vinte objetos que Rebeca tinha decidido serem “essenciais”.

Miriam fechou os olhos lentamente.

— Pelo amor de Deus.

Rebeca fez mais uma tentativa desesperada.

A mala produziu um som ameaçador.

— Deixa que eu termino isso.

Pegou a mala das mãos dela.

— Vai levar suas bolsas pro carro.

Rebeca obedeceu imediatamente.

Dois segundos depois, Miriam ouviu correria pela casa inteira.

Fechou os olhos.

— Só Deus pra me dar paciência.

Mais tarde, quando conseguiu finalmente fechar a mala, levou tudo até o carro.

Abriu o porta-malas.

E percebeu que Rebeca não estava lá.

Silêncio.

Então a garota apareceu correndo pela garagem.

Carregando três caixas de cereal de sabores diferentes, achocolatado, dois litros de leite,
bolachas, chocolates e balas suficientes para abastecer uma pequena cidade.

Miriam ficou olhando por alguns segundos.

— O que é isso?

Rebeca pareceu sinceramente confusa com a pergunta.

— Café da manhã.

Miriam fechou os olhos devagar.

— Eu não vou falar nada.

Estavam prestes a entrar no carro quando Rebeca congelou.

— Esqueci uma coisa!

— O arroz e o feijão?

Mas ela já tinha saído correndo outra vez.

Miriam apoiou a cabeça no teto do carro.

Pouco depois, Rebeca voltou carregando o violão.

Miriam encarou o instrumento.

— O que você pretende? Fazer um luau?

Rebeca abriu a porta do carro com a maior naturalidade do mundo.

— Eu tenho que praticar.

No caminho até a casa de Janis, Rebeca praticamente não conseguiu parar de falar.

Comentava sobre todos os filmes que já tinha visto com praia.

Sobre cenas específicas.

Sobre o barulho do mar.

Sobre como a água parecia diferente dependendo da luz.

E principalmente sobre como estava ansiosa para finalmente ver aquilo de verdade.

Miriam dirigia em silêncio paciente.

De vez em quando soltava um “hum” distraído.

Até que comentou:

— Quando chegarmos, já vai estar escuro.

Rebeca virou o rosto imediatamente.

— Ah…

Miriam segurou o sorriso.

— Mas isso não impede que você e a Janis deem um pulinho na praia.

O brilho nos olhos da garota voltou instantaneamente.

Quando o carro fez a última curva da rua, Rebeca avistou Janis parada na calçada ao lado de Maria Helena.

Não pensou.

Simplesmente soltou o cinto e abriu a porta.

Miriam arregalou os olhos.

— De novo não.

Tarde demais.

Rebeca já estava correndo.

E, para desespero absoluto de Miriam, Janis percebeu exatamente o que vinha pela frente.

Só que, diferente da Ester…

Janis não tentou impedir.

Abriu os braços no último segundo e pegou Rebeca no colo antes da colisão.

O impacto quase fez as duas perderem o equilíbrio.

Então Janis começou a girar com ela no ar enquanto Rebeca ria daquele jeito descontrolado que sempre aparecia perto dela.

Maria Helena colocou a mão na testa.

— Jesus amado.

Miriam fechou os olhos por um segundo.

— Pelo menos dessa vez ninguém bateu a cabeça.

Janis mal teve tempo de recuperar o equilíbrio antes de olhar pra ela, ainda segurando Rebeca no colo.

— Você é maluca, Rebeca.

Rebeca abriu um sorriso instantâneo.

— Você também.

Janis começou a rir.

E continuou segurando Receba por tempo demais para alguém que supostamente estava reclamando.

Dentro do carro, Miriam observava a cena em silêncio absoluto.

Então apoiou a testa no volante por um segundo.

— Eu dou conta.

Respirou fundo.

— Eu dou conta de cuidar das duas sozinha.

Maria Helena apareceu ao lado da janela do carro.

— Não dá não.

Miriam levantou os olhos lentamente.

A velha apontou para as meninas, que naquele momento quase caíram juntas na calçada porque nenhuma das duas parecia interessada em estabilidade física.

— Olha isso aí.

Miriam observou por mais dois segundos.

Depois suspirou:

— Que Deus me ajude.

— Eu vou fazer uma novena em prol da sua vida.

Miriam continuou olhando para as duas garotas girando no meio da calçada.

— Faz duas.

Dona Maria Helena imediatamente fez o sinal da cruz.

Na rua, Janis e Rebeca ainda riam como se o resto do mundo tivesse desaparecido.

Como se só as duas tivessem sobrado.

Rebeca segurou o rosto de Janis com as duas mãos.

— Eu tava com saudades.

O sorriso da outra menina diminuiu só um pouquinho.

Ficou mais suave.

— Eu também.

— Cinco dias sem ver você é tempo demais.

Janis soltou uma risada baixa.

— Eu sei.

Então Rebeca encostou a testa na dela.

E as duas simplesmente ficaram ali.

De olhos fechados.

Quietas pela primeira vez desde que se encontraram.

Miriam observou em silêncio por alguns segundos.

Depois pigarreou discretamente.

As duas se separaram na mesma hora.

Janis colocou Rebeca no chão com rapidez suspeita.

E instantaneamente as duas assumiram a maior expressão de inocência já produzida por seres humanos.

Maria Helena cruzou os braços.

— Hum.

Miriam pegou a própria bolsa no banco do carro.

— Eu ainda posso desistir dessa viagem.

Rebeca arregalou os olhos.

— TIA!

Janis, sem perder a coragem:

— Só pra constar… minha mãe me ensinou a dirigir.

Silêncio.

— Eu posso pegar o carro e ir com a Rebeca.

O silêncio piorou.

Maria Helena fechou os olhos imediatamente.

Miriam encarou Janis por vários segundos.

Depois respirou fundo.

— Entendi.

Outro silêncio.

— Audaciosa.

Janis abriu um sorriso lento.

— Um pouco.

Rebeca já estava começando a rir antes mesmo da Miriam responder.

— Vocês duas entram no carro agora.

As duas obedeceram imediatamente.

Ainda rindo.

Maria Helena observou a cena como quem assistia ao começo de uma tragédia anunciada e fez outro sinal da cruz.

As duas ainda estavam entrando no carro quando Maria Helena chamou:

— Espera.

Rebeca virou imediatamente.

A velha estendeu a sacola cheia de potes, salgadinhos e a torta embrulhada em pano de prato.

— Leva isso aqui.

Rebeca pegou a sacola como se tivesse acabado de receber um artefato sagrado.

— Obrigada.

Maria Helena apontou o dedo para ela.

— E come direito. Você já é magra naturalmente. Não precisa colaborar.

Rebeca abriu a boca para responder.

Não conseguiu.

Só abraçou a sacola contra o peito com um sorrisinho.

Miriam observava tudo encostada no carro.

Maria Helena então se aproximou dela alguns passos.

Baixou a voz:

— Se eu soubesse que elas iam ficar assim…

Olhou para Janis e Rebeca rindo no banco de trás.

— Eu tinha misturado Dramim na massa da torta.

Miriam soltou uma risada cansada pela primeira vez na noite.

— Ainda dá tempo de colocar no suco.

Maria Helena suspirou dramaticamente.

— Espero que a senhora saiba o que está fazendo.

No banco de trás, completamente alheias:

— Janis olha! Eu trouxe cereal!

— Por que você trouxe TRÊS caixas?!

Miriam fechou os olhos devagar.

— Eu vou precisar de férias depois dessa viagem.

Maria Helena deu dois tapinhas solidários no ombro dela.

— Vai não.

Pausa.

— Vai precisar de terapia mesmo.

No caminho, Rebeca atualizou Janis sobre absolutamente tudo que tinha acontecido na escola.

Sem respirar direito entre um assunto e outro.

— E foi muito difícil me concentrar hoje.

Janis olhava pra ela como quem assistia a um documentário acelerado.

Falou sobre as dificuldades nas aulas de nivelamento e no fracasso na aula de música.

Miriam dirigia em silêncio.

Tentando não sorrir.

— E a coordenadora Márcia ficou preocupada.

Janis apoiou o braço na janela.

— Com o quê exatamente?

Rebeca pareceu sinceramente surpresa com a pergunta.

— Comigo.

Miriam finalmente entrou na conversa:

— Preocupada como?

— Ela sugeriu que eu fosse conversar com a orientadora na próxima semana.

Miriam lançou um olhar rápido pelo retrovisor.

— Orientadora?

— Sim.

Rebeca mexia distraidamente na pulseira enquanto falava.

— Ela acha que conversar com a orientadora pode ajudar quando a minha cabeça acelerar demais.

— Hum…

Janis ficou pensativa por dois segundos.

Então:

— A orientadora tem água benta na sala dela?

Rebeca virou horrorizada.

— JANIS!

A outra menina começou a rir imediatamente.

— Ué! Eu tô tentando entender o tratamento!

— Não é tratamento!

— Parece um pouco.

Miriam mordeu o canto da boca, tentando não rir.

Rebeca apontou indignada para Janis.

— Eu estou tendo acompanhamento emocional sério!

Janis assentiu com toda a calma do mundo.

— Claro.

Pausa.

— Mas responde à pergunta da água benta.

— NÃO TEM ÁGUA BENTA!

Miriam perdeu a batalha nessa hora e soltou uma risada curta no volante.

Rebeca afundou no banco.

— Eu odeio vocês duas.

— Ah, qual é? Seria engraçado…

Janis já estava rindo sozinha.

— A professora correndo atrás de você pela sala, balançando aquele negócio e tacando água pra todo lado.

Rebeca lançou um olhar profundamente azedo para ela.

— Você é uma pessoa horrível.

Miriam corrigiu automaticamente:

— Aquilo se chama aspersório. E isso seria um sacrilégio terrível.

Janis virou o rosto na hora.

— Como sabe disso? A senhora nem é católica.

Miriam deu de ombros.

— Eu sou curiosa.

Miriam manteve os olhos na estrada.

Silêncio.

Então Rebeca murmurou:

— Isso explica muita coisa, na verdade.

Janis apoiou a cabeça no banco.

— Tá. Mas continua sendo uma cena engraçada.

E imediatamente começou a narrar:

— “Volte aqui, Rebeca! O demônio da aceleração juvenil precisa ser expulso!”

Rebeca soltou um som indignado.

— JANIS!

— “O metrônomo voltará ao normal depois disso!”

Miriam já ria baixinho no volante.

Rebeca afundou no banco.

— Eu vou me jogar desse carro em movimento.

Miriam soltou um suspiro cansado.

— Eu não duvido.

Rebeca cruzou os braços, ainda indignada no banco de trás.

Depois teve uma ideia.

— Que tal abrirmos a sacola da sua vó e pegarmos alguns salgados?

Janis arqueou uma sobrancelha.

— Isso foi uma mudança brusca de assunto.

— Se a sua boca estiver cheia, você não consegue falar besteira.

Janis olhou diretamente pra ela.

— Não me subestime.

Miriam já estava começando a rir outra vez.

Rebeca abriu a sacola mesmo assim.

O cheiro da torta imediatamente tomou conta do carro.

Janis virou o rosto na hora.

— Espera. Ela mandou a torta também?!

— Uhum.

Rebeca já procurava os salgadinhos.

— Sua vó acha que a gente vai atravessar um continente.

Janis pegou um salgado da embalagem.

— Você trouxe três caixas de cereal.

Rebeca apontou pra ela imediatamente.

— Isso é diferente.

Miriam decidiu não perguntar como exatamente aquilo era diferente.

Por autopreservação psicológica.

Depois de alguns quilômetros, o carro finalmente ficou mais silencioso.

A sacola de salgados já estava aberta.

As caixas de cereal tinham sido parcialmente esmagadas.

E Rebeca, depois de falar sem parar por quase uma hora inteira, começou lentamente a perder a batalha contra o sono.

A cabeça caiu uma vez.

Depois outra.

Até que ela simplesmente apagou encostada na janela.

Janis observou a cena por alguns segundos.

Então sorriu.

— A pilha dela finalmente acabou.

Miriam lançou um olhar rápido pelo retrovisor.

O rosto da sobrinha estava completamente relaxado agora.

Bem diferente da agitação das últimas horas.

— Você também pode tirar um cochilo se quiser.

Janis balançou a cabeça.

— Não… tô de boa.

Olhou para Rebeca outra vez.

— Além disso, eu quero anotar quantos roncos ela vai dar até chegarmos na casa da praia.

Miriam riu baixo.

— Crueldade.

— Ciência.

O carro ficou em silêncio confortável por alguns instantes.

Até Janis falar de novo:

— Posso perguntar uma coisa?

— É claro.

Janis apoiou o braço na porta.

— Seu marido e seu filho estão mesmo viajando?

Miriam virou o rosto só um pouco.

— Por quê?

— Porque uma mulher responsável como a senhora não deixaria o filho matar aula.

Pausa.

— E a Rebeca comentou que ele também estuda no São Leopoldo.

Olhou para o banco da frente.

— Mas ela ainda não viu o primo por lá.

Silêncio.

Então Miriam soltou uma risada curta pelo nariz.

— Você é perigosamente esperta.

Janis abriu um sorriso lento.

— Obrigada.

Miriam ficou alguns segundos em silêncio antes de completar:

Miriam ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.

— Meu marido e meu filho estão em um hotel.

Janis ergueu os olhos devagar.

A voz de Miriam permaneceu calma.

— Nós queríamos garantir que a Rebeca se sentisse segura antes de ter contato com os dois.

Pequena pausa.

— Acho que você sabe por qual motivo.

Janis assentiu.

— Sim. Eu sei.

O carro seguiu alguns metros em silêncio.

Então Miriam continuou:

— Fizemos um acordo com o colégio para garantir a frequência escolar da Rebeca e do Júnior sem que os dois se encontrassem.

Janis ficou quieta.

— Eu queria dar um pouco de paz e estabilidade pra ela antes de começar essa convivência.

Silêncio.

Então Janis perguntou:

— E como o Júnior é?

Miriam soltou um pequeno sorriso cansado.

— Igual à Rebeca.

Pausa.

— Mas com um metro e oitenta.

Janis arregalou os olhos.

— Meu Deus.

— Pois é.

As duas riram baixo.

Depois Janis inclinou a cabeça.

— E como a senhora acha que vai ser a convivência dos dois?

Miriam pensou por alguns segundos.

— Pelo que eu pude perceber…

Olhou rapidamente pelo retrovisor para Rebeca dormindo no banco de trás.

— A Rebeca não é do tipo que leva desaforo pra casa.

Janis abriu um sorriso imediato.

— E também não é tão santinha quanto gostariam.

Miriam apontou discretamente para ela.

— Exato.

Ficou pensativa por mais alguns segundos.

Então perguntou:

— Já ouviu falar do confronto entre King Kong e Godzilla?

Janis começou a rir na mesma hora.

— Já.

Miriam apoiou o braço na janela do carro.

— Acho que vai ser mais ou menos assim.

Janis abriu um sorriso arteiro.

— A sua casa vai ficar bem movimentada.

Miriam soltou um suspiro resignado.

— Tenho certeza que sim.

Depois Janis voltou a olhar pela janela.

— E quando eles voltam pra casa?

— Em breve.

Miriam ajustou as mãos no volante.

— Mas nada muda.

A voz saiu firme.

— A Rebeca vai continuar sendo tratada com a dignidade e o carinho que merece.

Olhou rapidamente pelo retrovisor.

— E você continua sendo bem-vinda na nossa casa.

Janis abaixou os olhos por um instante.

Claramente afetada pelaquilo.

Depois perguntou, mais cuidadosa:

— Seu marido é um cara legal?

Pausa curta.

— Ou é como o Moisés?

Miriam soltou um suspiro pelo nariz.

— Eu diria que ele é um cara legal.

Janis assentiu devagar.

Ficou quieta por alguns segundos antes de perguntar:

— Eu vou precisar fingir pro seu marido e pro Júnior que sou só amiga da Rebeca?

Miriam respondeu sem hesitar:

— Na minha casa nós prezamos pela verdade.

Janis virou o rosto na hora.

— Vocês nunca vão ser obrigadas a fingir uma coisa que não são.

Silêncio.

Então, no banco de trás:

— RRRONC...

As duas olharam automaticamente para Rebeca.

Ela continuava completamente apagada.

Abraçada na mochila.

Janis sorriu primeiro.

Miriam logo depois.

E o clima pesado da conversa simplesmente se desfez

Depois de algum tempo de estrada, Rebeca começou a se mexer no banco de trás.

Primeiro soltou um resmungo confuso.

Depois franziu o nariz.

Então abriu os olhos devagar.

Janis virou o rosto imediatamente.

— Só pra constar…

Esperou Rebeca focar nela.

— Você roncou trinta e sete vezes.

Rebeca arregalou os olhos.

— Eu NÃO ron...

A frase morreu no meio.

Porque naquele instante ela viu.

Mesmo no escuro.

Mesmo com a estrada quase vazia.

O mar.

Imenso.

Negro sob a luz da lua.

Se movendo sem fim ao lado da estrada.

Rebeca simplesmente parou de funcionar.

Os olhos ficaram enormes.

A respiração sumiu por um segundo.

— Meu Deus…

Janis observou a reação dela em silêncio.

Sorrindo sem nem perceber.

Rebeca grudou no vidro da janela.

— Ele é… gigante.

Miriam já diminuiu um pouco a velocidade do carro por precaução psicológica.

— Pelo amor de Deus, Rebeca.

A garota nem piscou.

— Nada de pular pra fora do carro.

— Mas olha isso…

A voz saiu quase infantil.

Encantada de verdade.

As ondas quebravam lá embaixo, iluminadas em pedaços pela luz dos postes da avenida.

Rebeca levou a mão até o vidro.

Como se quisesse tocar aquilo.

— Parece infinito.

Silêncio.

Então Janis respondeu baixinho:

— Eu sei.

Mas claramente ela não estava olhando para o mar.

 

 

 

 

 

 

Fim do capítulo


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