Capitulo 58 - Comida de Estrada
Capítulo 58 – Comida de Estrada.
— Pensei em ir pra praia amanhã. Para curtir o fim de semana.
Rebeca levantou os olhos.
— Praia?
Miriam mexeu o café com calma.
— Se quiser… podemos levar a Janis conosco.
Silêncio.
Então veio um risinho estranho.
Depois outro.
Rebeca apertou os lábios, tentando segurar.
Falhou miseravelmente.
Começou a dar pequenos pulinhos no meio da cozinha.
— Eu posso ligar pra ela?
Mais um pulinho.
— Eu posso? Eu posso?
Miriam observou a cena por dois segundos.
— Pode.
Foi o suficiente.
Rebeca saiu correndo pelo corredor com os risinhos mais esquisitos já produzidos por um ser humano.
Miriam fechou os olhos.
— Acho que vamos precisar do termômetro.
No quarto, Rebeca discou quase derrubando o celular.
A ligação mal completou.
— Janis-você-não-acredita-a-minha-tia-falou-que-a-gente-vai-pra-praia-e-você-vai-junto-e...
Do outro lado, silêncio.
Então:
— Eu continuo sem acreditar.
Rebeca parou.
— Eu não entendi nada.
Rebeca apertou os olhos, respirando fundo como quem tentava reunir os próprios neurônios.
— Nós vamos pra praia.
Pausa.
— Ah.
Outra pausa.
— Tá.
Mais uma.
— Eu pensei que você tinha encontrado algum livro de magia nas estantes da sua tia e tava tentando abrir um portal místico.
Rebeca começou a rir de novo.
Na cozinha, Miriam ouviu de longe e já pegou o termômetro automaticamente.
Quando a ligação terminou, Rebeca ainda sorria para o nada.
Saiu do quarto e deu de cara com Miriam no corredor.
Já com o termômetro na mão.
— Não precisa…
Miriam ignorou completamente.
Encostou o aparelho na testa dela.
Esperou.
— Trinta e sete.
Rebeca mordeu o canto da boca.
— Eu não queria fazer isso.
Miriam abaixou o termômetro.
— Eu sei.
Passou a mão no braço dela num carinho breve.
— Vamos descer, tomar café da manhã… mais tarde a gente mede de novo.
Começou a andar pelo corredor.
— Se precisar, você toma remédio.
Rebeca a observou por um instante antes de seguir atrás em silêncio.
Naquela sexta-feira, Rebeca não conseguiu se concentrar em absolutamente nada.
No nivelamento: perdeu linha, respondeu perguntas erradas e começou exercícios sem terminar os anteriores
Tudo enquanto sorria sozinha de tempos em tempos.
Márcia o relato das professoras em silêncio antes de anotar no prontuário:
“Rebeca ainda não regula bem as emoções.”
Mais tarde, na sala de música, Helba olhou para ela por alguns segundos.
Depois fechou a pasta.
— Vamos começar com algo livre hoje.
Rebeca assentiu.
Sentou ao piano.
E começou a tocar.
Não era exercício.
Não era técnica pura.
Era fluxo.
Algo leve, acelerado, luminoso.
As mãos encontravam caminhos como se já soubessem para onde ir.
Helba não interrompeu.
Quando terminou, Rebeca soltou o ar e olhou para ela.
— Agora vamos tentar a lição da semana.
Rebeca começou.
— Rápido demais.
Ela tentou outra vez.
— Continua rápido demais.
Tentaram metrônomo.
Não adiantou muito.
O pé dela batia nervoso no chão entre uma tentativa e outra.
Então Helba parou o metrônomo.
— Quer me contar o que está acontecendo?
Rebeca fechou os olhos.
Tentou organizar os pensamentos.
Não conseguiu.
As palavras começaram a sair rápidas demais:
— Minha tia falou que a gente vai pra praia amanhã. E isso já é legal, porque eu nunca vi o mar. Mas daí ela disse que a Janis vai com a gente e isso deixou tudo melhor.
Respirou rápido.
— E eu liguei pra ela e ela ficou feliz e eu também.
Outra pausa curta.
— Daí eu tive febre e precisei tomar um comprimido.
Helba permaneceu em silêncio absoluto.
— E foi difícil engolir porque a tia Miriam fica olhando.
Silêncio.
— E agora parece que eu não consigo pensar direito.
Helba piscou devagar.
Depois apoiou os braços sobre o piano.
— Entendi.
Pausa.
— Janis parece ser alguém importante.
Sem perceber, Rebeca segurou o anel no dedo.
— Muito.
Helba inclinou a cabeça.
— A música que você estava tocando… foi composta pra ela?
Rebeca piscou.
Confusa de verdade.
— Que música?
— A do começo.
— Eu só estava brincando.
Helba sorriu pela primeira vez.
— Se isso é brincar… imagine o que vai conseguir fazer conscientemente.
***
Depois da ligação, Janis ficou alguns segundos olhando para o teto.
Então gritou:
— VÓ!
Do outro cômodo:
— O QUE FOI AGORA?
— Preciso da sua ajuda.
Silêncio.
Depois:
— Jesus amado.
As duas caminhavam até a padaria.
Dona Maria Helena andava de braços cruzados.
— Eu não me sinto bem fazendo isso.
— É pela Rebeca, vó.
A velha fez uma cara amarga.
Imitou a voz dela:
— “É pela Rebeca…”
Olhou atravessado para a neta.
— Eu sei MUITO bem que tipo de coisa você pretende fazer com aquela menina inocente enquanto estiverem na praia.
Janis manteve a maior cara de pau do planeta.
— Ver o mar. Nadar. Fazer castelo de areia.
A velha soltou um “hum” debochado.
— Ah tá.
Pausa.
— Eu sou velha, mas não sou burra não.
Quando chegaram à padaria, o dono levantou os olhos do caixa.
— Lá vem.
Dona Maria Helena fechou a cara imediatamente.
— Eu compro pão aqui desde a época do seu avô. Agora fecha a boca e me escuta.
O homem arregalou os olhos.
Janis já olhava para o chão tentando não rir.
— Temos um assunto familiar importante pra resolver no final de semana.
Suspense dramático.
— Coisa séria.
Apontou para Janis.
— E minha neta precisa fazer a parte dela.
Tião cruzou os braços lentamente.
— Começou…
— Eu já te pedi algum favor?
O homem abriu a boca.
Ela não deixou responder.
— Esse é o problema do mundo. Ninguém se importa com os problemas dos outros.
— Dona Maria...
— Eu sou velha. Vou morrer logo.
Janis fechou os olhos.
— E você vai ficar com a consciência pesada por não ter ajudado os Valente na hora da necessidade.
Silêncio.
Tião olhou para Janis.
Depois para a velha.
Depois para o céu, como quem pedia paciência divina.
— Tá bom.
Janis abriu um sorriso imediatamente.
— Mas vai ter que repor as horas.
— Negócio fechado.
Maria Helena ergueu o queixo, satisfeita.
— Viu? Ainda existe esperança pra humanidade.
As duas voltavam devagar pela rua.
Dona Maria Helena carregava um saco de pão doce debaixo do braço.
Porque, segundo ela:
— Já que eu tava lá…
Janis olhou de lado.
— A senhora pegou pesado com ele.
A velha fez cara de ofendida imediatamente.
— Eu falei a verdade.
— A senhora praticamente transformou uma folga em obrigação moral cristã.
Maria Helena abriu o saco e pegou um pão doce.
— Funcionou.
Janis segurou o riso.
— “Vou morrer logo” foi golpe baixo.
A velha deu uma mordida tranquila.
— Tenho setenta anos. Eu tenho que usar as armas que Deus me deu.
Janis começou a rir.
Depois ficou em silêncio por alguns segundos.
— Obrigada, vó.
— E cuidado com o que você faz com aquela menina na praia.
Janis quase engasgou.
— Vó!
— Porque se a tia dela te flagra…
Maria Helena apontou o pão doce para a neta.
— Vai te jogar no mar numa parte que tem tubarão.
Janis começou a rir, sem acreditar.
— A senhora acha que ela faria isso?
Maria Helena continuou olhando diretamente pra frente.
— É o melhor jeito para esconder um corpo.
Janis ficou rindo sozinha pelo resto do caminho.
Pouco depois, chegaram à escola.
Antes de Janis entrar, Maria Helena segurou o braço dela por um instante.
— Volte direto pra casa.
Janis suspirou imediatamente.
— Vó…
A velha estreitou os olhos.
— Nada de pular muro atrás de namorada.
— Eu nunca faria isso!
Maria Helena soltou um “hum” desconfiado.
Janis pegou a mochila ainda resmungando baixinho e saiu do carro.
— Tchau, vó.
— Se comporte!
A garota levantou a mão sem olhar pra trás.
Maria Helena esperou ela entrar pelo portão.
Só então voltou pra casa.
O silêncio da cozinha pareceu estranho depois da bagunça da manhã.
Ela colocou o pão sobre a mesa.
Ficou parada por alguns segundos.
Depois abriu um armário.
Pegou farinha.
Então ovos.
Mais tarde, quando Janis voltou da escola, encontrou a cozinha tomada por vasilhas, potes e cheiro de comida recém-assada.
Maria Helena andava de um lado para o outro com um pano de prato no ombro.
Sobre a mesa havia uma torta ainda quente e uma bandeja cheia de salgadinhos.
Janis parou na porta.
— O que é isso?
Maria Helena fechou uma vasilha sem nem olhar pra ela.
— É pra viagem.
Pausa.
— Comida de estrada é ruim.
— A senhora gosta mesmo da Rebeca, né?
Dona Maria Helena bufou.
— Pergunta idiota.
Janis riu baixo.
Maria Helena continuou mexendo nas coisas da cozinha sem olhar para ela.
Mas a voz já não tinha o mesmo humor de antes.
— Nós não morávamos aqui antes.
Janis ergueu os olhos devagar.
A velha fechou um pote.
— Eu trouxe todo mundo embora daquela cidade quando as coisas começaram a ficar feias entre teu pai e a Ester.
Silêncio.
— Eu não aguentava mais ver o Zeca sofrendo.
A voz saiu mais baixa.
— Sofrendo por amar.
Janis encostou na pia.
A avó continuava organizando as coisas sem olhar diretamente pra ela.
— E pior… amar uma moça boa.
Pausa.
— Porque quando a pessoa não presta, o povo ainda entende.
Aquilo ficou pairando no ar.
— Mas a Ester sempre foi decente. Trabalhadora. Carinhosa.
Fechou outra gaveta.
— E mesmo assim fizeram os dois sofrerem.
Janis permaneceu quieta.
Maria Helena respirou fundo.
— Eu não pude ficar lá.
Silêncio.
— Mesmo sabendo que você tava a caminho.
Janis levantou os olhos devagar.
— Era insuportável.
Fechou a gaveta com mais força do que precisava.
— Ver aquela gentarada de nariz empinado olhando torto pra um casal que só queria viver em paz.
Pausa.
Quando voltou a falar, a voz saiu mais baixa.
— E como a Ester tentou…
Os olhos da velha ficaram distantes.
— Ela queria permanecer.
Silêncio na cozinha.
— Mas ir pra igreja começou a ser pior do que não ir.
Janis abaixou os olhos.
— Ela ia feliz… e voltava chorando.
Maria Helena encostou na pia.
Cansada de uma memória antiga.
— Então eu trouxe minha família embora.
Pausa curta.
— E não me arrependo.
A cozinha ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois Maria Helena voltou a mexer nas vasilhas devagar.
— Zeca e Ester decidiram ficar.
Balançou a cabeça.
— Eu nunca entendi o motivo.
Janis permaneceu quieta.
A velha abriu um armário.
Fechou.
Como se procurasse palavras junto com os potes.
Então olhou para ela.
— Aí você veio.
Pausa curta.
— E de algum jeito trouxe aquela pobre menina pra cá.
Janis engoliu seco.
— Agora eu entendo porque eles ficaram.
Silêncio.
A voz saiu mais baixa:
— Porque aquela menina precisava ser salva.
Os olhos da velha marejaram discretamente.
— E talvez não existisse outro jeito disso acontecer.
Janis ficou imóvel.
Sentindo o peso daquilo.
Maria Helena fungou e imediatamente voltou ao normal:
— Agora para de me olhar com essa cara ou eu vou achar que fiquei sentimental.
Janis riu baixo.
E pela primeira vez desde que começou a namorar Rebeca… sentiu que talvez tudo realmente fosse ficar bem.
Fim do capítulo
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Socorro
Em: 23/05/2026
Autora,
cada capítulo é uma delícia de leitura, vó na cumplicidade kkkk Essa praia promete ..
Quero ver logo a Débora conseguindo ter esperança tbm na sua casa nova..
ps. Autora, uma duvida pq o marido e o filho da Miriam não voltam pra casa ??
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Elin Varen Em: 23/05/2026 Autora da história
A vó já aderiu completamente ao caos e essa praia realmente promete…
E sobre a Débora: eu também quero muito ver ela conseguindo respirar em paz naquela casa nova
Quanto ao marido e ao filho da Miriam… digamos que a Miriam é o tipo de pessoa que pensa em tudo antes. Inclusive no emocional da Rebeca