Capitulo 57 – Exílio
Capítulo 57 – Exílio.
A sala da administração era pequena demais para o peso daquela conversa.
O ventilador girava lentamente no teto, espalhando o cheiro antigo de papel, café requentado e madeira úmida. Salvador permanecia sentado diante da mesa do pastor Elias, os dedos fechados um no outro, inquietos.
Do lado de fora, ainda era possível ouvir algumas vozes dispersas da Comunidade deixando o culto de oração daquela terça-feira.
Elias retirou os óculos devagar.
— O comportamento de Moisés já começou a chamar atenção demais.
Salvador respirou fundo.
— Ele perdeu a cabeça.
— E um pastor não pode se dar ao luxo disso. Não aqui.
O silêncio caiu pesado entre os dois.
Salvador desviou o olhar para a janela escura.
— O senhor acha mesmo necessário afastá-lo?
Elias apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Acho necessário preservar a reputação dele… e da igreja.
Outra pausa.
— O último incidente foi inaceitável.
Salvador assentiu lentamente, embora parecesse desconfortável.
— E o que exatamente o senhor sugere?
— Tiramos Moisés da cidade por um tempo.
— Quanto tempo?
— O suficiente.
— E pra onde?
Elias abriu uma pasta sobre a mesa.
— Uma igreja distante. Outro estado. Três dias de viagem.
Salvador ergueu as sobrancelhas.
— Tudo isso?
— Quanto mais longe, melhor.
O ventilador continuava rangendo acima deles.
— O povo vai estranhar.
— Não, se apresentarmos da maneira certa.
Salvador permaneceu em silêncio.
Então perguntou, quase hesitando:
— E a irmã Débora?
Elias ergueu os olhos imediatamente.
— Ela não é problema.
A resposta veio seca.
— Vamos deixar irmã Débora em paz.
***
Na quarta-feira, a Comunidade estava lotada.
A notícia da visita dos pastores Elias e Salvador se espalhara rápido demais pela cidade. Antes mesmo do início do culto, irmãos se apertavam nos corredores, mulheres comentavam baixinho nos bancos e obreiros tentavam organizar cadeiras extras.
Moisés observava tudo sem entender.
Ainda tentava compreender por que Elias decidira aparecer justamente naquela semana.
O culto começou normalmente.
Louvores.
Orações.
Aleluia.
Os mesmos rostos emocionados de sempre.
Então Elias subiu ao púlpito.
A igreja silenciou imediatamente.
A voz dele era firme. Experiente. Daquelas que enchiam o salão sem esforço.
— Esta noite também é uma noite especial para nossa Comunidade.
Alguns irmãos sorriram curiosos.
— Nossa igreja conta com homens comprometidos com Sua obra… homens dispostos ao sacrifício… ao serviço… à missão.
Moisés franziu levemente a testa.
Elias continuou:
— E é por isso que a administração decidiu enviar o pastor Moisés para uma importante missão pastoral.
Um murmúrio percorreu a igreja.
Moisés piscou lentamente.
Por alguns segundos, parecia não ter entendido o que ouvira.
— Uma igreja em outro estado necessita de apoio urgente. E acreditamos que o pastor Moisés possui todas as qualidades necessárias para esse trabalho.
Alguns irmãos começaram a aplaudir.
Outros se levantaram.
Uma senhora enxugava lágrimas emocionadas na primeira fila.
— Um homem firme.
— Experiente.
— Temente.
Cada elogio parecia apertar mais o peito de Moisés.
Ele olhou para Salvador.
Depois para Elias.
Nenhum dos dois desviou o olhar.
— Durante sua ausência, o irmão Josué ficará responsável pela Comunidade local.
Mais aplausos.
Josué abaixou a cabeça humildemente, embora claramente surpreso.
Moisés permanecia imóvel.
Preso dentro da própria honra.
***
O jantar naquela noite foi estranho.
Débora colocou a mesa em silêncio enquanto Elias e Salvador conversavam amenidades com uma tranquilidade quase cruel.
O som dos talheres parecia alto demais dentro da casa.
Moisés mal tocou na comida.
— A viagem será longa — Elias comentou. — O ideal é sair ainda esta noite.
Moisés ergueu os olhos imediatamente.
— Hoje?
— Quanto antes começarmos, melhor.
— Mas eu não estou preparado para uma viagem.
Salvador tentou suavizar:
— Não se preocupe. A administração vai custear tudo.
Débora levantou-se imediatamente.
No automático.
Como sempre fazia.
— Eu vou arrumar as malas.
Ela desapareceu pelo corredor antes que alguém dissesse qualquer coisa.
No quarto, abriu o guarda-roupa com mãos trêmulas.
Pegou roupas sociais de Moisés.
Camisas.
Gravatas.
Documentos.
Depois puxou uma pequena mala para si mesma.
Poucas peças.
O necessário.
Nada mais.
O coração batia rápido demais.
Talvez aquilo fosse bom.
Talvez a distância ajudasse.
Talvez…
A voz de Elias surgiu na sala:
— Estamos prontos?
Débora fechou a mala depressa.
Quando saiu para o quintal carregando as duas bagagens, encontrou os três homens próximos ao carro.
Salvador guardava algumas caixas no porta-malas.
Moisés parecia irritado.
Confuso.
Cansado.
Débora aproximou-se lentamente.
Elias então colocou a mão sobre o ombro dela.
Gentil.
Frio.
— Lamento, minha irmã… mas a senhora não irá conosco.
Ela piscou devagar.
— Como?
— Tire alguns dias para descansar.
O mundo pareceu perder o som por um instante.
— Mas…
— Será melhor assim.
Débora olhou para Moisés.
Ele também parecia surpreso.
Mas não disse nada.
Nem uma palavra.
Elias abriu a porta do carro.
— Vamos nos atrasar.
Minutos depois, os faróis desapareceram estrada afora.
Débora permaneceu parada no quintal.
A pequena mala ao lado dos pés.
O vento da madrugada balançava levemente as árvores.
Silêncio.
Muito silêncio.
Dez minutos se passaram.
Talvez mais.
Então a ficha caiu.
Ela estava sozinha.
Completamente sozinha.
Débora agarrou a mala e correu para dentro de casa.
As mãos tremiam tanto que quase deixou o telefone cair ao discar.
Ester atendeu no segundo toque.
— Débora?
A voz dela saiu quebrada:
— Levaram ele embora.
Silêncio do outro lado.
— O quê?
— Eles levaram o Moisés embora… agora… outro estado… Mandaram ele embora…
A respiração da Ester mudou imediatamente.
— Você está sozinha?
— Estou.
Outra pausa.
Então Ester falou, firme:
— Escute com atenção. Não entra em pânico.
Débora começou a chorar pela primeira vez naquela noite.
— Eles me deixaram aqui…
— Não. Eles deixaram você livre.
O silêncio veio pesado depois da frase.
Débora levou a mão à boca.
Como se só naquele momento entendesse.
Ester continuou:
— Nós vamos fazer isso direito. Com calma. Você me ouviu?
Ela assentiu, mesmo sem perceber.
— Sim.
— Sexta-feira. Madrugada de sexta pra sábado. Eu vou buscar você.
***
Mais tarde, já perto da meia-noite, Ester fez outra ligação.
Miriam demorou alguns segundos para atender.
— Ester?
— Preciso de um favor.
Miriam sentou-se lentamente na beirada da cama.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aquele maníaco está fora do caminho.
O silêncio do outro lado disse tudo.
— Moisés?
— Conhece outro?
Ester explicou o que Débora tinha lhe falado.
Miriam fechou os olhos por um instante.
— Entendi.
A voz da Ester ficou mais baixa:
— Eu vou levar Débora para a nova casa no final de semana…
— O que você precisa?
— Você consegue tirar Janis de cena?
Miriam pensou por alguns segundos.
Então respondeu:
— Uma viagem pra praia seria bem-vinda.
Ester concordou.
— Janis vai aceitar na mesma hora.
Miriam soltou um pequeno suspiro cansado.
— Só tem um pequeno inconveniente: o trabalho da Janis.
Pela primeira vez naquela noite, Ester sorriu.
— Não subestime a minha filha. Ela vai dar um jeito de escapar.
Miriam olhou pela janela escura do quarto.
A cidade inteira dormia sem imaginar o que estava prestes a mudar.
— Sexta-feira começa uma nova vida pra a Débora, não começa?
Do outro lado da linha, Ester demorou para responder.
Quando respondeu, a voz saiu quase num sussurro:
— Acho que para todas nós.
Fim do capítulo
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