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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 3241
Acessos: 57   |  Postado em: 20/05/2026

Capitulo 56 - Muito Melhor do Que Eu Imaginava

 

Capítulo 56 – Muito Melhor do Que Eu Imaginava.

Quando Miriam voltou para a sala depois do almoço, encontrou um cenário que parecia resultado de uma pequena explosão acadêmica.

Livros espalhados pelo tapete.

Cadernos abertos.

Canetas sem tampa.

Folhas soltas ocupando quase toda a mesa de centro.

E, no meio do caos, as duas meninas sentadas no chão.

Rebeca concentrada.

Janis profundamente traída pela própria sorte.

— Eu ainda acho que você devia estar de repouso.

Rebeca nem levantou os olhos do caderno.

— Minha febre passou.

— Infelizmente.

— Drama.

Janis afundou mais no tapete.

Braços cruzados.

— Eu tinha planos.

— Matar aula não é plano.

— Pra mim é.

Miriam tentou disfarçar o sorriso enquanto se acomodava no sofá com um livro nas mãos.

Ou pelo menos fingia ler.

Porque na prática estava muito mais interessada na conversa das duas.

— Você sabia — Janis continuou — que pessoas emocionalmente abaladas precisam de pelo menos quarenta e oito horas de descanso?

— Você inventou isso agora.

— A medicina é uma ciência interpretativa.

Miriam soltou um pequeno ruído engasgado por trás do livro.

Rebeca ergueu os olhos lentamente.

— Tia Miriam tá ouvindo.

Miriam imediatamente fingiu concentração absoluta na própria leitura.

Virando uma página que claramente nem tinha lido.

Janis estreitou os olhos.

— Ela tá julgando a gente em silêncio.

— Estou me divertindo em silêncio — Miriam corrigiu calmamente.

Rebeca começou a rir baixinho outra vez.

Então empurrou um dos livros na direção da Janis.

— Vai. Faz sua parte.

Janis observou a página aberta como quem encarava sofrimento humano genuíno.

— Rebeca…

Pausa dramática.

— Eu sou artista.

— Você tirou seis em matemática semana passada.

— E sobrevivi mesmo assim.

No meio do caos acadêmico espalhado pela sala, Janis acabou inclinando o corpo devagar na direção do caderno da Rebeca.

Observando.

A testa franzida.

— Que fórmula é essa?

Aquilo foi suficiente.

Imediatamente Rebeca entrou no modo professorinha.

Endireitou a postura.

Apontou para os números.

E começou a explicar cada etapa do cálculo com seriedade absoluta.

Janis ouviu tudo atentamente.

Sem interromper.

O que, honestamente, já era suspeito.

Então inclinou levemente a cabeça.

Pensando.

— Tá…

Ela pegou o lápis da mão da Rebeca antes que a menina pudesse protestar.

— Mas não seria mais fácil fazer assim?

E começou a escrever outra sequência de contas ao lado.

Mais curta.

Mais prática.

Mais rápida.

Rebeca observou em silêncio.

Piscou uma vez.

Depois outra.

— Oi?

Janis terminou a conta e empurrou o caderno de volta com expressão profundamente satisfeita consigo mesma.

— O quê?

Rebeca olhou das contas para ela.

Depois das contas para ela outra vez.

Então refez o cálculo usando a fórmula original.

Mesmo resultado.

Franziu a testa.

Testou outra.

E outra.

E outra.

Todas batiam exatamente iguais.

Ela levantou os olhos lentamente.

Completamente desconcertada.

— O que foi isso?

Janis apoiou os braços na mesa de centro como alguém prestes a anunciar um grande marco da humanidade.

— O nascimento de uma lenda.

Pausa dramática.

— O Teorema de Janis.

Rebeca revirou os olhos imediatamente.

— Acho que não posso entregar meu trabalho usando… o Teorema de Janis.

Janis deu de ombros.

— Talvez sim.

Pausa.

— Talvez não.

Então abriu um sorriso torto.

— Eu tentaria.

Rebeca a observou por alguns segundos antes de comentar:

— Você age como se não tivesse nada a perder.

Janis girou o lápis entre os dedos.

Pensativa por meio segundo.

Então deu de ombros.

— Bom…

Ela apontou distraidamente para o próprio caderno.

— A única coisa que realmente me importa é você.

Pausa.

A voz continuava absurdamente casual.

— E acho que você não liga muito pro meu boletim, então…

Outro pequeno dar de ombros.

Como se aquilo resolvesse completamente a questão.

O silêncio que veio depois foi imediato.

Rebeca ficou olhando pra ela com os olhos arregalados.

Completamente pega desprevenida.

Então veio o inevitável:
o rosto ficando vermelho devagar.

E aquele sorrisinho pequeno.

Tímido.

Quase envergonhado.

No sofá, Miriam abaixou lentamente o livro.

Olhou para as duas meninas.

Depois para o teto.

E soltou apenas:

— Meu Deus.

Quando a tarde começou a cair, os cadernos já estavam fechados.

A mesa de centro finalmente reaparecia debaixo da montanha de folhas, livros e canetas espalhadas.

E, pela primeira vez em horas, as duas meninas pareciam oficialmente sem obrigações.

Janis estava jogada no tapete.

Rebeca no sofá.

Miriam ainda fingia ler.

O que já tinha se tornado quase uma atividade performática naquele ponto.

Foi então que Janis falou casualmente demais:

— Que tal a gente ver um filme?

Rebeca ergueu os olhos imediatamente.

— A gente já viu televisão.

— Eu pensei no cinema.

Silêncio.

No sofá individual, Miriam baixou o livro bem devagarinho.

E olhou diretamente para Janis.

Janis sustentou o olhar por dois segundos antes de suspirar dramaticamente.

— Ah, qual é?

Ela apontou para Rebeca.

— Eu posso cuidar dela.

Rebeca imediatamente ficou completamente imóvel.

Tentando desesperadamente parecer normal.

O que só fazia ela parecer ainda mais obviamente ansiosa.

Miriam observou aquilo tudo em silêncio.

Depois comentou calmamente:

— É difícil conseguir ingresso domingo à tarde.

Janis já estava puxando o celular do bolso.

— Não custa tentar.

Então começou a procurar sessões no cinema mais próximo.

Rolou a tela uma vez.

Depois outra.

Até que os olhos brilharam.

— Consegui.

Rebeca se inclinou no sofá automaticamente.

— Sério?

— Três lugares.

Pausa.

Então Janis deu de ombros:

— O filme não é lá essas coisas… mas é cinema.

Miriam franziu levemente a testa.

— Três?

Janis levantou os olhos do celular.

Genuinamente confusa.

— A senhora não quer ir?

O silêncio que veio depois durou exatamente o tempo necessário para Miriam processar o absurdo daquela pergunta.

Então ela apoiou o livro no colo e respondeu com dignidade absoluta:

— Você tá me convidando pra segurar vela?

Janis abriu a boca imediatamente:

— Não! Eu só...

— Não, obrigada.

Miriam ergueu uma sobrancelha.

Muito séria.

— Eu tenho vergonha na cara.

Rebeca começou a rir tão forte que quase caiu do sofá.

Os ingressos foram comprados em menos de dez minutos.

O que imediatamente transformou a sala num pequeno caos adolescente outra vez.

Porque agora existia horário, cinema, roupa, cabelo e a missão extremamente importante de parecer casual enquanto claramente estavam animadas demais.

Janis desapareceu primeiro.

Rebeca logo depois.

E Miriam ficou sozinha na sala por alguns segundos.

Livro fechado no colo.

Silêncio absoluto.

Então suspirou:

— Meu Deus.

Algum tempo depois, as duas reapareceram prontas.

Janis de moletom escuro e cabelo minimamente domado pela primeira vez no fim de semana inteiro.

Rebeca claramente tentando fingir que não tinha passado quinze minutos escolhendo roupa.

Miriam observou as duas por alguns segundos antes de perguntar:

— Que horas o filme acaba?

Janis puxou o celular rapidamente.

— Às dezenove.

— Ótimo.

Miriam pegou as chaves da mesa.

— Às vinte eu busco você.

Janis fez uma expressão imediatamente ofendida.

— Não dá pra ser às vinte e uma?

Miriam ergueu lentamente uma sobrancelha.

A sobrancelha médica.

A perigosa.

— Amanhã vocês têm aula.

Janis cruzou os braços.

Muito séria.

— É um sacrifício que eu estou disposta a fazer.

Rebeca começou a rir imediatamente.

Miriam fechou os olhos por um segundo.

— Menina…

— Tia Miriam…

Ela tentou sustentar a autoridade por mais dois segundos.

Falhou.

Então apontou o dedo resignadamente:

— Tá. Pode ser às vinte e uma.

Janis levantou os braços em vitória imediata.

— Eu sabia que a senhora tinha coração.

— Não testa.

Pouco antes de saírem, Miriam acompanhou as duas até a garagem.

Rebeca entrou no carro primeiro.

Ainda animada demais com a ideia do cinema para perceber qualquer coisa ao redor.

Enquanto isso, Janis ajustava distraidamente a mochila no ombro quando Miriam se aproximou discretamente.

Sem chamar atenção da sobrinha.

Ela colocou alguma coisa na mão da menina.

Janis abaixou os olhos.

O termômetro.

— Por via das dúvidas — Miriam explicou baixinho.

Janis olhou rapidamente na direção da Rebeca dentro do carro.

Depois de volta para Miriam.

As duas se encararam por um instante.

Nenhuma delas comentou nada.

Janis apenas abriu um pouco o zíper da mochila e escondeu o termômetro lá dentro como quem guardava uma informação confidencial.

Miriam observou o gesto.

Depois olhou rapidamente para Rebeca já sentada no carro.

Então voltou os olhos para Janis.

Silêncio outra vez.

Pequeno.

Mas cheio de entendimento.

Janis assentiu quase imperceptivelmente.

Miriam fez o mesmo.

E foi só isso.

O caminho até o shopping foi tranquilo.

Rebeca claramente recuperada o suficiente para voltar a falar sem parar.

E Janis claramente satisfeita demais consigo mesma por ter conseguido transformar um domingo comum em encontro oficial de cinema.

Mas quando finalmente atravessaram as portas do shopping…

as duas desaceleraram ao mesmo tempo.

Olharam ao redor.

Depois uma para a outra.

Silêncio.

Então Rebeca perguntou o inevitável:

— E agora?

Janis piscou.

— Como assim?

— A sessão só começa daqui uma hora.

Pausa.

Então veio a constatação profundamente sincera:

— A gente nunca fez isso antes.

Aquilo arrancou um sorriso imediato da Janis.

Porque era verdade.

Antes elas fugiam, faziam planos, se escondiam e sobreviviam.

Mas passear juntas?

Sem crise?

Sem objetivo?

Era novidade.

Então Janis simplesmente segurou a mão dela.

Como se aquilo resolvesse perfeitamente a questão.

E talvez resolvesse mesmo.

— Acho que a gente anda por aí até descobrir.

Rebeca sorriu pequeno.

Então as duas começaram a passear sem rumo específico pelo shopping.

Entravam em lojas aleatórias.

Comentavam roupas absurdas.

Discutiam sobre qual objeto era mais inútil.

E permaneciam constantemente atentas ao horário da sessão como duas adolescentes tentando desesperadamente parecer adultas funcionais.

Depois de passarem por algumas lojas aleatórias e discutirem seriamente sobre objetos completamente inúteis, Janis desacelerou de repente na frente de uma papelaria.

E ficou parada.

Observando a vitrine como quem tinha acabado de encontrar um portal mágico.

Rebeca imediatamente percebeu.

— Ah não…

Janis nem piscou.

— Olha isso.

Ela entrou na loja antes mesmo de terminar a frase.

E, honestamente?

Foi o fim.

Canetas.

Cadernos.

Marcadores.

Post-its.

Tintas.

Lapiseiras.

Adesivos.

Bloquinhos.

Aquela quantidade absurda de objetos que ninguém realmente precisava mas que pareciam capazes de resolver todos os problemas da existência humana.

Janis caminhava devagar entre as prateleiras em estado quase espiritual.

Pegando as coisas.

Observando.

Testando.

Lendo preço.

E recolocando no lugar imediatamente.

— Isso aqui é lindo.

Pausa.

Então virou a etiqueta.

— E completamente fora da realidade financeira do trabalhador brasileiro.

Rebeca começou a rir baixinho enquanto observava ela entrar em crise diante de uma coleção de canetas coloridas.

— Você tá sofrendo de verdade.

— Papelaria de shopping é uma experiência humilhante.

Rebeca continuou acompanhando ela até a seção de materiais de desenho.

Foi ali que Janis parou.

Uma lapiseira específica nas mãos.

Bonita.

Pesada.

Claramente cara.

Ela observou por alguns segundos antes de recolocar no expositor com dignidade triste.

— Um dia.

Rebeca observou a cena inteira em silêncio.

Então pegou a lapiseira novamente.

— Eu posso comprar pra você.

Janis imediatamente arregalou os olhos.

— Nem pensar.

— Por quê?

— Porque isso aqui custa o preço de um pequeno eletrodoméstico.

Rebeca continuou segurando a lapiseira.

— Então me deixa comprar uma mais simples.

Janis pensou por alguns segundos.

Muito séria.

Então suspirou:

— Tá.

Pausa.

E apontou um dedo ameaçador:

— Mas uma barata.

Rebeca concordou imediatamente.

O que deveria ter deixado Janis desconfiada.

Minutos depois, ela percebeu tarde demais que a menina tinha escolhido uma das mais caras da loja.

— Rebeca.

— Hm?

— Essa NÃO é barata.

Rebeca apenas continuou andando em direção ao caixa.

Janis tentou segurar o braço dela.

— Não precisa fazer isso.

Aquilo fez Rebeca finalmente parar.

Ela virou devagar.

Ainda segurando a lapiseira.

Então perguntou baixinho:

— Eu não posso cuidar de você também?

E pronto.

A resistência da Janis simplesmente acabou ali.

quando chegaram ao caixa que a atendente perguntou casualmente:

— Quer gravar o nome na lapiseira?

As duas pararam.

Rebeca virou imediatamente para Janis.

Janis piscou.

— É possível?

A moça sorriu e mostrou uma pequena amostra de gravação em outra lapiseira.

Delicada.

Bonita.

Janis pareceu genuinamente encantada por meio segundo.

Então a preocupação financeira voltou imediatamente.

— Vai ficar mais caro?

Antes mesmo que a atendente pudesse responder, Rebeca falou:

— Ela quer sim.

Janis virou na mesma hora.

— Rebeca...

Mas a menina continuou tranquilamente:

— Pode colocar um coração junto com o nome dela?

Silêncio.

Janis ficou olhando pra ela em choque.

— Coração?

Rebeca imediatamente lançou aquele olhar mortal.

O clássico:
“não me faça passar vergonha na frente da moça.”

Janis endireitou a postura na mesma hora.

Muito séria.

— Um coração tá ótimo, moça.

Então apontou pra si mesma com dignidade absoluta:

— Meu nome é Janis.

Pausa.

— J-A-N-I-S.

A atendente claramente já tentando não rir.

E Rebeca ficando vermelha do lado dela enquanto escondia um risinho atrás da mão.

Quando finalmente saíram da papelaria, Rebeca caminhava com um ar profundamente satisfeito.

Missão cumprida.

Ao lado dela, Janis ainda segurava a lapiseira nas mãos.

Sem coragem nenhuma de colocar aquilo no limbo caótico que era a mochila dela.

Observava o objeto de tempos em tempos como quem ainda não acreditava completamente.

Rebeca percebeu imediatamente.

E abriu um sorrisinho pequeno.

— Tá feliz?

Janis soltou uma risada curta pelo nariz.

— É claro que sim.

Os dedos deslizaram distraidamente pela gravação do próprio nome.

E pelo pequeno coração ao lado.

Aquilo fez alguma coisa quentinha acontecer dentro do peito dela.

Então percebeu que Rebeca tinha parado de andar.

Virou automaticamente.

A menina olhava discretamente para os lados do corredor.

Como se estivesse verificando alguma coisa.

Ninguém parecia prestando atenção nelas.

Então Rebeca ficou ali.

Parada.

Esperando.

Janis franziu a testa.

— O que foi?

Rebeca imediatamente ficou vermelha.

Muito vermelha.

E desviou os olhos na mesma hora.

Foi aí que Janis entendeu.

E ficou vermelha também.

— Ah…

Ela olhou discretamente ao redor outra vez.

Ainda sem acreditar que as duas realmente estavam fazendo aquilo em público.

Então se aproximou devagar.

E deixou um beijinho rápido.

Desajeitado.

Direto nos lábios da Rebeca.

Só um toque.

Pequeno.

Mas imediatamente a Rebeca começou com aqueles risinhos outra vez.

Os ombros encolhendo.

O rosto completamente vermelho.

E a Janis precisou desviar o olhar por um segundo porque aquilo sinceramente era fofo demais pra saúde mental dela.

Assim que o horário da sessão começou a se aproximar, Janis puxou discretamente a mão da Rebeca enquanto atravessavam o corredor do shopping.

— Vem.

— Pra onde?

— Loja de conveniência.

Aquilo deveria ter preocupado Rebeca.

E preocupou.

Porque quinze minutos depois as duas estavam comprando refrigerante, salgadinho, bala, chocolate e cookies.

Rebeca observava a própria bolsa ficando cada vez mais cheia.

— A gente tá cometendo um crime.

Janis colocou mais um pacote de balas lá dentro.

— O cinema cometeu o crime primeiro cobrando vinte reais numa pipoca pequena.

— Isso é um ponto válido.

Quando finalmente entraram na área das salas, as duas já estavam carregadas como contrabandistas adolescentes extremamente despreparadas.

Mas então aconteceu.

O cheiro.

Pipoca.

Rebeca parou no meio do corredor imediatamente.

Os olhos arregalando devagar.

Janis reconheceu a expressão na mesma hora.

— Não.

Rebeca virou lentamente.

Quase aflita.

— Eu preciso de pipoca.

— A gente literalmente trouxe metade de uma conveniência escondida na bolsa.

— Mas não tem cheiro de pipoca.

Janis cruzou os braços imediatamente.

Tentando sustentar alguma resistência emocional.

— Rebeca…

A menina segurou de leve o braço dela.

Então veio:

— Por favooooor…

Arrastado.

Manhoso.

Doce demais.

E acompanhado daquele risinho pequeno no final da frase.

Janis ficou completamente imóvel.

Piscando devagar.

Como se tivesse acabado de sofrer um ataque psíquico.

— O que foi isso?

Rebeca percebeu imediatamente que tinha funcionado.

Os olhos brilhando de diversão.

Então deu outro daqueles risinhos pequenos.

— Nada.

— Nada?

Janis levou a mão dramaticamente ao peito.

Ainda em choque.

— Isso doeu na minha alma.

Rebeca já estava rindo agora.

— Então a gente vai comprar pipoca?

Janis começou a andar derrotada em direção ao balcão.

— Eu vou ter pesadelos com isso.

O filme acabou sendo completamente idiota.

E talvez justamente por isso tenha sido perfeito.

As duas passaram a sessão inteira:
comendo besteira,
comentando absurdos baixinho,
e rindo de cenas que provavelmente nem eram tão engraçadas assim.

Em determinado momento, Rebeca quase engasgou de tanto rir enquanto Janis tentava recriar dramaticamente uma fala terrível do protagonista.

Depois disso já não existia mais qualquer chance delas levarem o filme a sério.

Quando toda a comida finalmente acabou e o cinema mergulhou naquela parte mais silenciosa da sessão, Janis ficou alguns segundos olhando para a tela.

Como quem não queria parecer muito óbvia.

Então, casualmente demais, passou o braço em volta dos ombros da Rebeca.

Só isso.

Simples.

Natural.

Mas imediatamente a Rebeca ficou cheia daqueles risinhos pequenos e nervosos que apareciam sempre que a Janis fazia alguma coisa minimamente carinhosa.

Janis fingiu não perceber.

O que obviamente piorou tudo.

Então, aos poucos, Rebeca acabou se aproximando mais.

Até apoiar o corpo no dela.

E as duas permaneceram assim.

Quietinhas.

Dividindo calor, refrigerante e silêncio confortável enquanto o filme continuava passando sem nenhuma importância real.

Quando as luzes finalmente acenderam, elas demoraram um pouco mais para levantar.

Sem pressa.

Como se sair dali significasse quebrar alguma coisa boa.

Rebeca observou a sala esvaziando devagar antes de comentar baixinho:

— É…

Pausa curta.

Então aquele sorrisinho apareceu outra vez.

Pequeno.

Quente.

— Namorar é realmente muito melhor do que eu imaginava que seria.

Miriam percebeu imediatamente que alguma coisa tinha acontecido assim que chegou ao shopping para buscar as duas.

Janis estava absurdamente silenciosa.

Quase suspeita.

Enquanto isso, Rebeca parecia incapaz de passar mais de trinta segundos sem soltar um daqueles risinhos pequenos completamente fora de contexto.

Miriam observou as duas entrando no carro em silêncio absoluto.

Depois olhou para o retrovisor.

Rebeca imediatamente desviou o olhar tentando esconder outro sorriso.

Janis encarava a janela como alguém tentando sobreviver psicologicamente.

Miriam suspirou.

— Meu Deus.

Nenhuma das duas respondeu.

O caminho inteiro foi uma mistura de silêncio constrangedor, risinhos ocasionais da Rebeca e Janis claramente tentando recuperar alguma dignidade emocional.

O que obviamente não estava funcionando.

Quando finalmente chegaram na casa da dona Maria Helena, a velhinha já esperava no quintal.

Braços cruzados.

Observando tudo com interesse absoluto.

Foi só o carro parar que as duas meninas praticamente saltaram pra fora.

E correram para dentro da casa sem explicar absolutamente nada.

— Porta aberta! — Maria Helena gritou automaticamente.

As duas ignoraram completamente.

A porta bateu.

Silêncio.

Então a velhinha virou lentamente para Miriam.

Muito séria.

— Assanhadas.

Miriam simplesmente começou a rir.

As duas permaneceram ali no quintal conversando tranquilamente por alguns minutos enquanto a casa seguia suspeitosamente silenciosa.

Até que a porta finalmente abriu de novo.

Rebeca surgiu primeiro.

Cabelo um pouco bagunçado.

Rosto completamente vermelho.

E passou por elas em velocidade máxima.

Igual um foguete.

Entrou no carro e imediatamente se trancou lá dentro.

Maria Helena observou a cena inteira com calma impressionante.

Então comentou:

— Ela disfarça bem.

Miriam riu outra vez antes de abraçar a senhora rapidamente.

— Obrigada pelo fim de semana.

Maria Helena deu de ombros como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

— Não precisa agradecer.

Então abriu um pequeno sorriso.

Daqueles quentes.

— Espero que os próximos também sejam assim.

 

 

Fim do capítulo


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