Capitulo 55 - Eu posso esperar
Capítulo 55 – Eu posso esperar
O domingo amanheceu silencioso na casa da dona Maria Helena.
A luz atravessava devagar a cortina do quarto quando Ester abriu os olhos primeiro.
Por alguns segundos ficou apenas observando.
Janis dormia de lado.
Rebeca completamente embolada nela.
Uma das mãos ainda agarrada distraidamente na camiseta da menina como se tivesse medo de perder o caminho durante o sono.
Ester soltou um pequeno sopro de riso pelo nariz antes de levantar devagar para não acordar nenhuma das duas.
Mas assim que abriu a porta do quarto, encontrou dona Maria Helena parada no corredor.
Observando.
Com expressão perigosamente emocionada.
— Oh meu Deus…
Ester já reconheceu o tom imediatamente.
— Não.
Maria Helena ignorou completamente.
— Elas estão tão bonitinhas dormindo emboladinhas…
Então arregalou os olhos como quem acabava de ter uma revelação divina.
— Eu vou pegar minha câmera.
Ester passou a mão no rosto imediatamente.
— Mais uma daquelas suas fotos conceituais que ninguém gosta?
Maria Helena bufou indignada enquanto já começava a andar pelo corredor.
— Eu gosto.
— A senhora é literalmente a única.
Alguns minutos depois ela voltou com a câmera nas mãos e entrou no quarto na ponta dos pés.
Ester ficou parada na porta assistindo a cena com vergonha alheia preventiva.
Maria Helena aproximou a câmera cuidadosamente.
Mirou.
As duas ainda dormindo abraçadas sem perceber absolutamente nada.
Click.
Silêncio.
Rebeca soltou um resmungo sonolento e se encolheu ainda mais perto da Janis.
Maria Helena imediatamente levou a mão ao peito.
— Ai, meu Deus…
Ester começou a rir baixo.
— Quando for revelar, faz duas cópias.
Maria Helena ainda observava a foto na câmera.
— Hm?
— Uma pra senhora guardar de recordação.
Pausa.
Então Ester completou calmamente:
— E outra pra usar como ferramenta de chantagem.
Maria Helena sorriu devagar.
Aquele sorriso perigosíssimo.
— Excelente ideia.
Quando as duas finalmente acordaram, o cheiro de café já atravessava a casa inteira.
Janis abriu os olhos primeiro.
Sonolenta.
Cabelo completamente destruído.
E imediatamente percebeu duas coisas. A primeira era que Rebeca ainda estava meio agarrada nela e a segunda é que dona Maria Helena provavelmente já estava acordada fazia umas quatro horas.
— Tragédia — resmungou baixinho.
Rebeca soltou um som incompreensível contra o travesseiro antes de finalmente abrir os olhos também.
Ou pelo menos parte deles.
Porque o resto da menina claramente ainda estava dormindo.
Minutos depois, as duas apareceram na cozinha em estado duvidoso de consciência.
E encontraram um café da manhã digno de novela.
Pães.
Bolo.
Frutas.
Café.
Leite.
Ovos mexidos.
E uma quantidade ofensiva de pão com manteiga já separado no prato da Rebeca.
A menina piscou lentamente.
Confusa.
Dona Maria Helena imediatamente apontou para a cadeira.
— Come, bebê.
Rebeca obedeceu sem nem questionar.
Sentou.
Pegou o pão.
Ainda com os olhos inchados de sono e o cabelo completamente desarrumado.
Janis apareceu logo atrás dela arrastando os pés.
Parou.
Observou a mesa.
Depois a avó.
— Eu também tô aqui.
Maria Helena nem olhou.
— Deixa de ser ciumenta, menina.
Janis afundou dramaticamente na cadeira.
— Trocaram minha avó por outra pessoa.
Rebeca, já mastigando pão com manteiga, começou a rir baixinho.
Foi então que o celular da Ester tocou.
Ela atendeu ainda servindo café.
— Sim.
Silêncio breve.
Os olhos deslizaram rapidamente na direção da cozinha.
— Ela já saiu da cama…
Pausa.
Então Ester observou melhor a expressão absolutamente vazia da Rebeca segurando um pão como quem ainda não entendia completamente a existência.
— Mas pela cara eu não tenho certeza de que acordou ainda.
Janis começou a rir imediatamente.
Rebeca mastigou mais devagar.
Ofendida.
Ester ouviu mais alguns segundos antes de assentir.
— Tá certo.
Então desligou.
E anunciou tranquilamente:
— Sua tia tá vindo te buscar.
Rebeca levantou os olhos devagar.
Ainda com a boca cheia de pão com manteiga.
— Legal.
Depois do café da manhã monumental preparado por dona Maria Helena, a casa entrou num pequeno caos organizado.
Assim que terminou o último pedaço de pão com manteiga, Rebeca se levantou.
Pegou discretamente o pequeno kit de maquiagem dentro da bolsa.
E seguiu para o banheiro.
Ninguém comentou nada.
Nem Ester.
Nem Janis.
Mas a inquietação ficou no ar mesmo assim.
Enquanto isso, Janis voltou para o quarto para organizar as próprias coisas.
Já estava combinado fazia dias que ela passaria o domingo na casa da Miriam junto com Rebeca.
Separou roupas.
Guardou carregador.
Pegou os cadernos e os livros para fazerem a lição de casa.
Tentou descobrir como tinha conseguido espalhar tanta bagunça em menos de vinte e quatro horas.
Depois acabou ajudando dona Maria Helena a embalar a lasanha, o bolo e mais uma quantidade absurda de comida que claramente alimentaria uma pequena comunidade.
— Sem querer ofender — Janis resmungou — mas eu acho que tem comida na casa da tia Miriam.
Maria Helena nem levantou os olhos.
— Comida nunca é demais.
Janis apenas revirou os olhos.
Foi só quando Rebeca finalmente saiu do banheiro que ela conseguiu ir se arrumar também.
Algum tempo depois, tudo já estava pronto.
As bolsas separadas perto da porta.
Os potes organizados na mesa.
E as duas apenas esperando Miriam chegar.
Rebeca estava sentada no sofá conferindo cuidadosamente se estava tudo dentro da
bolsa quando Janis se aproximou devagar.
Sem piada dessa vez.
Sem deboche.
Só cuidado.
Ela se inclinou um pouco e deixou um beijo leve no rosto da menina.
— Você é linda.
Rebeca imediatamente ficou vermelha.
Os dedos apertando a bolsa no colo.
Janis observou a reação dela por um instante antes de completar, mais baixo:
— Com ou sem maquiagem.
O silêncio que veio depois foi pequeno.
Mas quente.
O silêncio confortável que veio depois durou apenas alguns segundos.
Porque dona Maria Helena claramente ainda não tinha terminado de cuidar da menina.
Ela abriu a geladeira devagar.
Com expressão misteriosa demais para alguém segurando uma travessa.
— Tenho uma surpresa pra você, bebê.
Rebeca virou imediatamente.
Os olhos brilhando antes mesmo de saber o que era.
Maria Helena ergueu a sobremesa com orgulho absoluto.
— Pudim de leite condensado.
Pausa dramática.
— Espero que você goste.
O rosto da Rebeca praticamente se iluminou.
— VÓ.
Maria Helena tentou manter a dignidade.
Falhou um pouco.
E Janis largou dramaticamente a cabeça na parede.
— Acabou.
Pausa.
Então apontou acusadoramente para a avó:
— Ela nunca mais vai embora daqui.
***
O barulho do carro surgiu antes mesmo de alguém comentar qualquer coisa.
Mas Rebeca reconheceu imediatamente.
Os olhos ergueram na mesma hora.
— É a tia Miriam.
E simplesmente correu.
Quando Miriam terminou de descer do carro, mal teve tempo de fechar a porta.
Rebeca praticamente se enroscou nela.
Os braços apertados ao redor da cintura.
O rosto escondido no ombro.
Miriam segurou ela imediatamente.
— Eu também tava com saudades.
Poucos segundos depois, Ester, Janis e dona Maria Helena apareceram no portão.
Miriam ergueu os olhos na direção delas.
— Ela se comportou bem?
Ester cruzou os braços.
— Sim.
Então olhou rapidamente para Rebeca ainda agarrada na tia.
— Como um anjo.
Foi o suficiente.
Rebeca soltou Miriam imediatamente e atravessou o pequeno espaço até Ester.
O abraço veio forte.
Desesperado.
Quase aflito.
Ester perdeu o ar por meio segundo.
— Calma, garota.
Mesmo assim abraçou ela de volta.
— Vai explodir meus pulmões.
Miriam observou a cena primeiro com carinho.
Depois com preocupação.
Porque alguma coisa claramente tinha mudado.
— Não fica assim, Rebeca.
A voz saiu suave.
— Vocês vão se ver de novo no próximo fim de semana.
Aquilo piorou tudo.
Os olhos da menina se encheram na mesma hora.
Ela soltou Ester.
Voltou imediatamente pra Miriam.
Já respirando errado.
— Meu bem…
A voz da Miriam falhou um pouco agora.
Ester percebeu primeiro.
— Aguenta firme, mulher.
Miriam apertou Rebeca contra o peito.
Tentando manter a própria calma.
— Eu tô tentando.
Mas quanto mais elas tentavam explicar que estava tudo bem…
mais assustada Rebeca parecia ficar.
Como se o corpo dela simplesmente não soubesse lidar com gostar tanto de pessoas diferentes ao mesmo tempo.
Então Janis finalmente deu um passo pra frente.
A voz saiu baixa.
Calma.
— Ei, esquilinho.
Rebeca parou no meio do caminho entre as duas.
Ainda chorando.
Janis manteve os olhos nela.
— Não é um adeus.
Pausa.
— Você vai ver minha mãe de novo em breve, tá bem?
A respiração da Rebeca ainda tremia.
Mas ela escutava.
Então Janis continuou mais devagar:
— E não é ruim você querer ficar com a sua tia.
Silêncio.
— Não tem problema nenhum gostar das duas.
Aquilo atingiu alguma coisa.
Rebeca finalmente parou de tentar correr de um colo pro outro.
Abraçou o próprio corpo.
Tentando respirar.
Então Janis abriu os braços devagar.
— Vem cá.
E dessa vez Rebeca foi.
Sem pressa.
Sem desespero.
Só cansada.
Miriam observou aquilo quase em choque.
— Como ela fez isso?
Ester soltou um pequeno sopro de riso cansado.
— Ela leu o manual de instruções.
Janis segurou Rebeca perto por alguns segundos.
Então franziu levemente a testa.
— Ei…
Ela afastou um pouco o rosto da menina.
— Você tá quente.
Dona Maria Helena imediatamente entrou em alerta.
— Deixa eu ver, bebê.
A velhinha segurou o rosto da Rebeca entre as mãos com cuidado.
Os olhos estreitando devagar.
Então suspirou.
— Febre.
E poucos minutos depois, todo mundo já estava de volta dentro da casa.
O clima ainda estranho.
Sensível.
Como se o susto emocional da Rebeca tivesse contaminado um pouco todas as outras pessoas também.
Dona Maria Helena foi direto para a cozinha.
Abriu um armário.
Depois outro.
Enquanto dona Maria Helena procurava o termômetro e a caixa de remédios, Ester observou o estado da Rebeca em silêncio por alguns segundos.
A maquiagem tinha borrado outra vez.
Discretamente.
Principalmente perto dos olhos.
Então ela suspirou pequeno.
Pegou uma toalhinha limpa perto da pia.
Molhou.
E se aproximou da menina sem fazer alarde.
Rebeca percebeu imediatamente.
— De novo?
A voz saiu meio derrotada.
Meio envergonhada.
Ester segurou o rosto dela com cuidado.
Do mesmo jeito do dia anterior.
Então começou a limpar tudo.
O que tinha borrado.
E o que ainda tinha sobrado.
Caprichando exatamente como da primeira vez.
Sem pressa.
Sem deixar metade.
Então respondeu calmamente:
— Quantas vezes precisar.
Dona Maria Helena finalmente encontrou uma caixa plástica enorme cheia de remédios, termômetros, receitas antigas, cartelas misteriosas e pelo menos três comprimidos sem identificação conhecida pela ciência.
Janis observou a cena com desconfiança imediata.
— Isso aí parece ilegal.
Maria Helena ignorou completamente.
Pegou o termômetro.
Depois começou a vasculhar entre as caixas até encontrar um antitérmico.
— Achei.
Janis estreitou os olhos.
— Tem certeza que essa coisa não tá vencida?
Maria Helena nem piscou.
— Podemos testar em você.
Janis resmungou imediatamente:
— Mal criada.
Mas não interferiu mais.
Só ficou observando a avó cuidar da Rebeca daquele jeito automático e experiente.
Enquanto isso, Miriam acomodava a menina na cadeira da cozinha.
Rebeca parecia exausta agora.
Os olhos vermelhos.
O corpo meio mole.
O termômetro confirmou a suspeita poucos minutos depois.
Febre mesmo.
Miriam soltou um pequeno suspiro enquanto passava a mão pelos cabelos da sobrinha.
Tentando tranquilizar a menina.
E talvez um pouco a si mesma também.
— Não é nada demais, meu amor.
A voz saiu baixa.
Calma.
— Você só tá sobrecarregada.
Rebeca permaneceu quietinha na cadeira.
Ainda agarrada ao próprio moletom.
Então Miriam afastou cuidadosamente alguns fios de cabelo do rosto dela.
— Seu corpo só resolveu reclamar antes de você.
Então veio o verdadeiro desafio: o comprimido.
Dona Maria Helena colocou o copo d’água na frente dela com autoridade absoluta.
— Engole.
Rebeca segurou o comprimido.
Olhou pra ele.
Depois pras pessoas ao redor.
E imediatamente travou.
Miriam percebeu primeiro.
— O que foi?
A resposta saiu pequena.
Constrangida.
— Vocês tão me olhando.
O silêncio que veio depois durou exatamente dois segundos.
Então Miriam começou a rir.
Tentando disfarçar.
Virou de costas imediatamente.
— Tá bom. Desculpa.
Dona Maria Helena imitou o gesto na mesma hora.
— Pronto. Ninguém tá olhando, bebê.
Ester permaneceu parada.
Braços cruzados.
Observando.
Maria Helena virou o rosto lentamente.
— Ester.
— Ah, qual é.
— ESTER.
Ela soltou um suspiro dramático.
Então finalmente virou de costas também.
Janis observava tudo encostada na pia, tentando não rir da humilhação coletiva da situação.
Rebeca olhou desconfiada para as quatro mulheres evitando contato visual como se estivessem participando de uma operação sigilosa.
Então finalmente tomou o comprimido.
E imediatamente ergueu o copo d’água como se tivesse acabado de sobreviver a um evento traumático.
Janis começou a bater palmas devagar.
— Guerreira.
Rebeca imediatamente mostrou a língua pra ela.
Janis começou a rir.
Miriam ainda de costas soltou:
— Meu Deus.
Pouco a pouco, o clima foi desacelerando outra vez.
A febre tinha assustado todo mundo mais do que qualquer uma pretendia admitir.
Mas agora Rebeca já parecia menos aflita.
Mais cansada do que desesperada.
Então, aos poucos, as meninas começaram a recolher as bolsas espalhadas pela sala.
Janis pegou o próprio moletom no sofá.
Rebeca conferiu pela terceira vez se o diário ainda estava dentro da bolsa.
Miriam observava tudo encostada na bancada da cozinha quando Ester finalmente cruzou os braços e perguntou:
— Tem certeza de que isso é uma boa ideia?
Miriam arqueou levemente uma sobrancelha.
Ester apontou discretamente para as duas meninas.
— Mesmo debilitada, a Rebeca junto com a Janis ainda pode enlouquecer você.
Miriam soltou uma risada cansada.
— Falando por experiência própria?
— Com certeza.
Janis fez cara de ofendida.
— A gente nem fez nada.
As três adultas olharam pra ela ao mesmo tempo.
Silêncio.
— Tá. Talvez um pouco.
Isso finalmente arrancou uma risada da Rebeca também.
Então Miriam suspirou mais tranquila antes de responder:
— A Rebeca precisa de estabilidade pra voltar pro eixo.
Ela olhou rapidamente na direção da Janis.
Pequeno.
Mas sincero.
— E a melhor pessoa pra oferecer isso pra ela é a Janis.
O silêncio que veio depois foi curto.
Mas importante.
Janis abaixou os olhos imediatamente.
Claramente sem saber lidar direito com aquilo.
Foi dona Maria Helena quem interrompeu o momento emocional antes que alguém começasse a chorar de novo.
Ela surgiu da cozinha carregando potes e sacolas demais para uma única visita de domingo.
— Se a Janis não for suficiente…
A velhinha colocou tudo nos braços da Miriam sem pedir autorização nenhuma.
— Tenho certeza de que um lanchinho da tarde reforçado vai ajudar.
Miriam abriu a boca para recusar.
Mas Ester foi mais rápida:
— Não tenta entender a família Valente.
Ela apoiou o ombro na parede.
Muito séria.
— É edição limitada.
Pausa.
— Deus fez e jogou a forma fora.
Maria Helena pareceu profundamente satisfeita com a definição.
Janis apenas escondeu o rosto nas mãos.
— Meu Deus. Eu preciso sair dessa casa.
— Tarde demais — Ester respondeu calmamente. — Você nasceu aqui.
O porta-malas do carro da Miriam ficou completamente lotado de sacolas.
Lasanha.
Bolo.
Pudim.
Potes misteriosos que dona Maria Helena tinha conseguido enfiar no meio de tudo sem que ninguém percebesse exatamente quando.
— Isso aqui parece mudança definitiva — Miriam comentou enquanto fechava o porta-malas com dificuldade moderada.
— Comida nunca é demais — Maria Helena respondeu da calçada, completamente convencida da própria lógica.
As despedidas finais foram mais tranquilas dessa vez.
Mais cansadas também.
Então as meninas finalmente embarcaram no banco de trás.
Rebeca entrou primeiro.
Ainda meio caidinha da febre.
Abraçada na própria bolsa.
Janis sentou ao lado dela imediatamente.
O carro começou a andar devagar rua abaixo enquanto dona Maria Helena ainda acenava do portão como se estivesse enviando alguém para outro continente.
No banco de trás, Janis observou Rebeca por alguns segundos.
Depois começou sua missão claramente muito séria:
fazer aquela menina rir de qualquer jeito.
— Você percebeu que sua febre apareceu estrategicamente antes da aula de amanhã?
Rebeca nem levantou a cabeça direito.
— Não inventa teoria da conspiração.
— Eu só acho curioso.
— Janis…
— Coincidência demais me assusta.
Aquilo arrancou um pequeno sorriso dela.
Vitória imediata.
Então Janis continuou.
Comentando absurdos aleatórios sobre: a coleção ilegal de remédios da dona Maria Helena, o pudim ameaçadoramente bonito e o fato de Ester provavelmente ter sido treinada militarmente para lidar com surtos emocionais.
Pouco a pouco, Rebeca começou a rir baixinho outra vez.
Ainda cansada.
Mas mais leve.
Na frente, Miriam observava tudo pelo retrovisor.
Dando um pequeno sorriso aqui e ali.
Silencioso.
Quase aliviado.
Porque talvez, pela primeira vez em semanas…
a Rebeca estivesse começando a voltar pra si mesma.
Durante boa parte do caminho, Rebeca permaneceu meio caída contra o ombro da Janis enquanto a febre começava a baixar devagar.
E, conforme o carro avançava pela cidade, o bairro simples da dona Maria Helena foi ficando para trás.
Prédios maiores.
Ruas mais largas.
Casas cada vez mais sofisticadas.
Mas o que chamou a atenção da Miriam foi justamente o fato de Janis não parecer impressionada.
Nem intimidada.
Ela apenas observava tudo pela janela com curiosidade tranquila.
Em silêncio.
Até que uma casa específica apareceu na curva de uma das ruas internas do condomínio.
Enorme.
Cheia de vidro.
Varandas modernas.
Janelas gigantescas.
Janis estreitou os olhos imediatamente.
— Caramba.
Miriam esperou.
— Olha a quantidade de janela e porta de vidro.
Pausa.
Então veio a conclusão profundamente prática:
— Deve ser um inferno de limpar.
O silêncio dentro do carro durou dois segundos.
Então Miriam começou a rir.
Rebeca também.
Mesmo cansada.
— Você olha pras coisas de um jeito muito específico — Miriam comentou.
— Eu fui criada pela Ester e pela dona Maria Helena. Luxo pra mim é coisa que dá trabalho pros outros.
Isso fez Miriam rir ainda mais.
Quando finalmente chegaram na frente da casa, Janis observou a fachada por alguns segundos antes de perguntar:
— Tem piscina?
Miriam destravou o portão com um pequeno sorriso.
— Não.
Então olhou rapidamente por cima do ombro enquanto conduzia as meninas para dentro.
— Mas temos um mar de livros, caso queira mergulhar neles.
Janis abriu um sorriso imediatamente.
Daqueles perigosos.
— Acho que a senhora não ia gostar de me ver esparramada no meio dos seus livros usando só um biquíni.
Miriam quase tropeçou no próprio degrau.
Rebeca imediatamente afundou o rosto nas mãos.
— JANIS.
Depois de mostrar rapidamente a casa, Miriam deixou as duas na sala enquanto levava as sacolas da dona Maria Helena para a cozinha.
— Vocês podem assistir televisão se quiserem.
Ela olhou rapidamente para Rebeca.
A voz mais suave agora.
— Você precisa se recuperar.
Então completou enquanto começava a abrir os potes absurdamente bem abastecidos da sogra da Ester:
— Mais tarde vocês se preocupam com lição de casa.
Janis imediatamente ergueu a cabeça do sofá.
— Caramba.
Ela colocou a mão no peito dramaticamente.
— A senhora é médica. Não podia dar um atestado pra gente?
Rebeca revirou os olhos imediatamente.
— “Pra gente”?
Ela apontou acusadoramente.
— Você não teve febre.
Janis deu de ombros.
— Ainda não.
Pausa.
Então abriu um sorriso perigosíssimo:
— Mas tô torcendo pra ser contagioso. Aí eu me livro da escola por alguns dias.
Miriam nem se deu ao trabalho de olhar pra trás.
— Engraçadinha.
Enquanto ela organizava a comida na cozinha e avaliava se ainda precisava preparar alguma coisa para o almoço, as duas meninas finalmente se acomodaram na sala.
Como Rebeca ainda estava meio fraquinha, Janis decidiu fazer um sacrifício histórico.
— Escolhe você.
Então imediatamente apontou um dedo ameaçador:
— Mas não se acostuma.
Rebeca sorriu pequena antes de pegar uma manta dobrada no canto do sofá.
As duas se cobriram.
Então ela pegou o controle e começou a vasculhar o streaming concentradamente.
Ao lado dela, Janis fechou os olhos e começou a fazer figa discretamente.
— Nada meloso… nada meloso… nada meloso…
Rebeca imediatamente deu uma cotovelada nela.
— Para.
Alguns segundos depois ela finalmente escolheu alguma coisa.
Janis estreitou os olhos para a televisão.
— Filme velho?
Rebeca ignorou completamente o tom ofensivo.
— A Helba falou que eu precisava assistir.
Na tela, os primeiros acordes de O Mágico de Oz começaram a tocar.
Janis afundou no sofá dramaticamente.
— Claro que ela falou isso.
— Não começa.
— Eu só acho suspeito alguém recomendar um filme mais velho que a minha avó.
Rebeca começou a rir baixinho antes de se ajeitar melhor debaixo da manta.
Então apontou para a televisão.
— Presta atenção. É mais interessante do que parece.
Janis claramente não acreditou.
Mas também claramente estava confortável demais pra protestar de verdade.
Então o filme começou.
Mas em algum momento Janis percebeu que Rebeca já não acompanhava mais nada.
Dormia profundamente.
Toda enroscada nela debaixo da manta.
Então, com cuidado, Janis pegou o controle remoto e diminuiu ainda mais o volume da televisão.
Só pra ela conseguir descansar direito.
Por alguns minutos, tudo permaneceu calmo.
Silencioso.
Até que o pé da Rebeca começou a bater distraidamente contra o sofá outra vez.
Pequeno.
Repetitivo.
Ansioso.
O mesmo movimento da noite anterior.
Janis observou por alguns segundos antes de se ajeitar no sofá devagar.
Puxando a menina para mais perto.
Deixando ela ainda mais aninhada contra o próprio corpo.
Então passou os dedos lentamente pelos cabelos dela.
— Tá tudo bem, Beca…
A voz saiu baixa.
Quase um sussurro.
Aos poucos, o movimento do pé começou a desacelerar outra vez.
Até parar completamente.
Foi nesse momento que Miriam apareceu na porta da sala.
Ela observou a cena em silêncio por alguns segundos antes de perguntar baixinho:
— Tá tudo bem?
Janis assentiu pequeno.
Sem parar de acariciar os cabelos da menina.
— Tá.
Então olhou rapidamente para o pé agora imóvel.
— Mas ela continua igual o coelhinho do Bambi. Batendo o pé enlouquecida.
Miriam automaticamente corrigiu:
— Tambor.
Janis franziu a testa.
— O quê?
— O nome do coelhinho.
Pausa.
— É Tambor.
Então um pequeno sorriso cansado apareceu no rosto dela.
— O Júnior adorava Bambi. Eu tive que assistir várias vezes.
Janis soltou uma risada baixa pelo nariz antes de voltar a olhar para Rebeca.
Os dedos ainda deslizando distraidamente pelos cabelos dela.
— Ela fez isso ontem à noite também.
Pausa curta.
— Ficou batendo o pé enquanto dormia.
Miriam observou a sobrinha em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu baixinho:
— O corpo dela ainda não entendeu que ela tá segura.
Aquilo fez Janis permanecer quieta por um instante.
Pensando.
Então perguntou:
— Quanto tempo leva?
Miriam inclinou levemente a cabeça.
— Pra ela entender?
Janis assentiu.
— Sim.
Miriam suspirou pequeno.
Sincera.
— É difícil dizer.
Silêncio.
Então Janis apertou Rebeca um pouquinho mais contra si.
E respondeu simplesmente:
— Eu posso esperar.
Fim do capítulo
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Elin Varen Em: 20/05/2026 Autora da história
Acho que a Janis ficou muito bonita justamente porque ela continua sendo ela mesma. Ela ainda é caótica, debochada e fala besteira o tempo todo. Mas agora ela aprendeu a observar a Rebeca de verdade. E acho que o amor delas cresce muito nesses pequenos cuidados.
Não é um relacionamento construído em grandes declarações. É:
abaixar o volume da TV,
perceber a febre,
deixar a outra escolher o filme,
esperar o tempo dela,
segurar quando ela desorganiza emocionalmente.
E eu gosto muito disso nelas
Fico muito feliz que vc esteja acompanhando cada capítulo com tanto carinho. Saber que alguém relê as cenas porque sentiu alguma coisa nelas é uma das coisas mais especiais que um autor pode receber