Capitulo 54 - Então isso é namorar?
Capítulo 54 - Então isso é namorar?
As duas atravessaram o corredor juntas até a sala.
Dona Maria Helena imediatamente ergueu os olhos do sofá.
Desconfiada.
— Onde vocês pensam que vão?
— No parque — Janis respondeu.
Maria Helena estreitou os olhos lentamente.
— O respeito é o mesmo.
Janis já começou a morrer por dentro.
— Vó…
— Não se atreva a se aproveitar da menina na rua, Janis.
Rebeca e Janis ficaram vermelhas até a alma.
— Pode deixar — Janis resmungou.
Maria Helena voltou tranquilamente para o programa na televisão.
— Ótimo.
No quintal, Janis puxou o skate encostado perto da lavanderia e colocou no chão.
Depois olhou para Rebeca com um pequeno sorriso torto.
— Como nos velhos tempos?
Rebeca arqueou uma sobrancelha.
— “Velhos tempos”? Tem quinze dias.
Janis subiu no skate primeiro.
— São dias bem velhos.
Então lançou um olhar dramático na direção da casa.
— Mas não tão velhos quanto a minha avó.
A voz de dona Maria Helena surgiu imediatamente da janela:
— EU OUVI ISSO, DEMÔNIA.
Rebeca começou a rir tão forte que quase perdeu o equilíbrio antes mesmo de subir no skate.
Janis apenas segurou a mão dela.
— Corre.
E então ganharam a rua.
O vento bagunçava o cabelo das duas enquanto Janis conduzia o skate devagar pelas ruas do bairro.
Mas ela não foi direto para o parque.
De propósito.
Em vez disso, diminuiu a velocidade em alguns pontos, mostrando coisas pequenas para Rebeca: a praça da esquina, uma árvore absurda que rachava a calçada, o mercadinho onde dona Maria Helena brigava com os preços, e, finalmente, a padaria.
— É aqui.
Rebeca ergueu os olhos imediatamente.
Janis observou discretamente a reação dela enquanto apontava para a fachada.
— Onde eu trabalho.
A menina ficou alguns segundos olhando o lugar com atenção sincera.
Como se estivesse tentando memorizar tudo.
Porque aquelas coisas importavam.
Importavam porque pertenciam à Janis.
E conhecer o mundo dela parecia importante demais.
Quando chegaram ao parque, o movimento estava tranquilo.
Algumas crianças nos brinquedos.
Adolescentes andando de bicicleta.
O som distante de uma bola quicando na quadra.
Janis diminuiu a velocidade do skate até as duas finalmente pararem perto da pista.
Então o silêncio veio.
Estranhamente confortável.
Mas meio perdido também.
Rebeca olhou ao redor por alguns segundos antes de perguntar:
— O que a gente vai fazer?
Janis franziu levemente a testa.
— Como assim?
Rebeca deu um pequeno sorriso sem graça.
— Sei lá…
Ela olhou novamente para o parque.
Como se estivesse tentando entender aquela sensação nova.
Janis acompanhou o olhar dela por alguns segundos.
Então viu os balanços.
E apontou imediatamente:
— Que tal descobrirmos quem consegue balançar mais alto?
Rebeca virou o rosto devagar.
— É sério?
— Tem uma ideia melhor?
A menina abriu a boca.
Pensou.
Fechou de novo.
— Não.
— Ótimo. Porque eu quero ganhar de você no balanço.
— Você trapaceia.
— Acusação grave.
Minutos depois, estavam nos brinquedos como duas crianças que tinham acabado de recuperar alguma coisa importante.
Depois foram até a pista de skate.
Janis colocou o shape no chão novamente e subiu primeiro.
Então olhou para Rebeca.
— Sua vez.
A menina estreitou os olhos.
— Você vai rir se eu cair?
— Vou.
— Honesta.
— Sempre.
Mesmo assim, Rebeca subiu no skate.
Mais firme dessa vez.
E, para surpresa absoluta da Janis, conseguiu se equilibrar sozinha quase imediatamente.
Janis arqueou as sobrancelhas.
— Olha só.
Rebeca abriu um sorriso pequeno.
Orgulhoso.
— A tia Miriam disse que vai comprar um pra mim.
— Sério?
— Uhum.
Ela manteve os braços abertos para equilíbrio enquanto o skate deslizava devagar.
— Mas os dias tão muito corridos.
Janis observou a garota por alguns segundos antes de sorrir de lado.
Aquele sorriso perigoso.
— Então acho que você já tá pronta pra próxima fase.
Rebeca parou imediatamente.
Desconfiada.
— O que isso significa?
— Vou te ensinar uma manobra.
— Janis…
— Relaxa. É fácil.
— Você disse isso da última vez e eu quase virei estatística.
Janis começou a rir.
Então desceu do skate e ficou atrás dela.
— Tá. Escuta. Você só vai levantar um pouquinho as rodas da frente e girar o corpo. É um kickturn básico.
Rebeca olhou para ela como quem estava sendo vítima de uma conspiração.
— “Só”.
— Eu seguro você.
Aquilo ajudou.
Um pouco.
Então Janis posicionou as mãos levemente na cintura dela e ajustou a posição dos pés no shape.
— Assim.
Rebeca imediatamente esqueceu metade da própria coordenação motora.
— Você tá me desconcentrando.
— Nem comecei ainda.
— JANIS.
Ela riu baixinho perto demais do ouvido da menina.
— Vai. Confia em mim.
A primeira tentativa foi horrível.
O skate virou mais do que devia.
Rebeca quase caiu.
Reclamou dramaticamente.
A segunda foi menos terrível.
Na terceira, ela conseguiu girar o skate direitinho.
Pequeno.
Mas suficiente.
Rebeca arregalou os olhos imediatamente depois.
— EU CONSEGUI.
A felicidade na voz dela era tão genuína que Janis começou a rir junto.
— Conseguiu mesmo, esquilinho.
A menina abriu um sorriso tão grande que quase perdeu o equilíbrio de novo.
E foi exatamente nesse momento que o som metálico de uma campainha atravessou o parque.
As duas viraram o rosto ao mesmo tempo.
O sorveteiro.
Rebeca apontou imediatamente.
— Sorvete.
Janis olhou para o skate.
Depois para ela.
E suspirou dramaticamente.
— Você abandona o esporte muito fácil.
— O esporte não vem no cone com cobertura de chocolate.
— Argumento justo.
Então largaram o skate encostado perto da pista e correram juntas até o carrinho como duas crianças que tinham acabado de ganhar liberdade pela primeira vez.
Sentaram na mureta com sorvetes nas mãos enquanto o sol começava a baixar devagar.
E foi ali, no meio daquela tarde comum, que Janis percebeu primeiro.
A Rebeca tinha parado de olhar para os lados.
Parado de procurar alguma ameaça invisível.
Parado de esperar que alguma coisa ruim acontecesse.
Agora ela apenas ria,
tomava sorvete,
e existia ao lado dela.
Leve.
Como se finalmente tivesse entendido que estava segura.
O fim da tarde tinha deixado o parque mais silencioso.
As crianças diminuíam aos poucos.
O sorvete já tinha acabado fazia tempo.
E as duas estavam sentadas lado a lado nos balanços, balançando devagar com a ponta dos pés raspando no chão.
Sem pressa de ir embora.
Sem assunto urgente.
Só… juntas.
Rebeca observou o céu por alguns segundos antes de perguntar baixinho:
— Então isso é namorar?
Janis virou o rosto imediatamente.
— Hm?
Rebeca deu de ombros pequenos.
— Isso.
Ela apontou vagamente ao redor.
— Passear por aí. Tomar sorvete. Andar de skate.
Janis ficou olhando pra ela por um instante.
Então sorriu de lado.
Pequeno.
Calmo.
— Acho que sim.
Rebeca balançou mais uma vez devagar.
Pensativa.
Depois admitiu:
— É melhor do que eu imaginei.
Aquilo apertou alguma coisa dentro do peito da Janis imediatamente.
Então ela esticou a mão devagar.
Rebeca segurou sem hesitar.
E as duas permaneceram ali mais algum tempo.
Balançando devagar.
Como duas garotas descobrindo que amor também podia morar nas coisas simples.
Quando voltaram para casa, já era começo de noite.
As duas atravessaram o portão ainda rindo de alguma coisa dita no meio do caminho.
O skate vinha debaixo do braço da Janis agora.
Rebeca entrou primeiro na cozinha, ainda elétrica pela adrenalina da volta.
— Eu fui muito bem.
Janis apareceu logo atrás.
— Nada mal.
Ela apoiou o skate na parede antes de completar:
— Só precisa melhorar seu controle nas descidas.
Rebeca virou imediatamente.
Indignada.
— Eu me saí muito bem.
Janis arregalou os olhos teatralmente.
— Rebeca…
Ela colocou a mão no peito.
— Gritar e esconder o rosto com as duas mãos não é se sair bem.
— Eu tava me protegendo psicologicamente.
— Você abandonou completamente a direção do skate.
— Mas a gente chegou viva.
— Por intervenção divina.
Rebeca começou a rir outra vez enquanto pegava um copo d’água.
Então apontou acusadoramente pra ela:
— E você não me avisou que aquela rua descia tanto!
— Porque eu queria emoção.
— Você quase matou nós duas.
— Mas não matou.
Dona Maria Helena observava a discussão da mesa da cozinha enquanto terminava de organizar o jantar.
Então balançou lentamente a cabeça.
— O namoro de vocês vai acabar em atendimento de emergência.
— Dramática — Janis respondeu automaticamente.
— Eu ouvi você gritando da esquina, bebê — respondeu a senhora sem nem olhar pra elas.
Rebeca imediatamente afundou o rosto nas mãos.
— Até a senhora ouviu?!
— A vizinhança inteira ouviu.
Rebeca ficou vermelha até a raiz dos cabelos.
— Lavem as mãos antes que o jantar esfrie.
O cheiro da comida tomou conta delas imediatamente.
Rebeca piscou surpresa ao ver a travessa sobre a mesa.
— A senhora fez lasanha?
Maria Helena deu de ombros.
— Precisava usar os frios que certa pessoa comprou como se estivesse alimentando um batalhão.
Janis abriu a geladeira fingindo indignação.
— Planejamento nunca matou ninguém.
— Quase matou meu espaço na geladeira.
As duas começaram a jantar ainda rindo da discussão idiota sobre o skate.
Mas Rebeca percebeu uma coisa alguns minutos depois.
— Cadê a tia Ester?
Maria Helena serviu mais molho na própria comida antes de responder:
— Disse que ia resolver umas coisas.
Janis estreitou os olhos imediatamente.
Desconfiada.
E foi exatamente nessa hora que a porta abriu.
Ester apareceu na cozinha com o cabelo preso de qualquer jeito, algumas manchas de tinta espalhadas nos braços e na camiseta, suor na testa e expressão cansada.
Janis olhou lentamente da cabeça aos pés dela.
— Tava fazendo o quê?
Ester pegou um copo d’água sem a menor cerimônia.
— Um bico pra manter a cabeça ocupada.
Janis revirou os olhos imediatamente.
Porque claramente reconheceu a mentira parcial.
Rebeca começou a rir baixinho da expressão dela.
Dona Maria Helena apenas apontou na direção do corredor.
— Vai tomar um banho, Ester. Eu monto seu prato.
— Sim, senhora.
Quando Ester finalmente reapareceu, o cabelo ainda úmido e usando roupas limpas, a televisão da sala já tinha virado cenário de guerra.
Rebeca e Janis discutiam pelo controle remoto como duas crianças de oito anos.
Janis queria ver um filme de ação. Rebeca preferia algo mais tranquilo.
— Muda de canal.
Rebeca estava sentada no sofá. O diário aberto no colo, acompanhado de um punhado de canetas roubadas da mochila da Janis.
— Você nem tá assistindo.
Janis estava esparramada no tapete, assistindo a um filme absurdamente barulhento.
Rebeca torceu os lábios e começou a escrever.
Explosão.
Tiro.
Gente correndo.
Carro capotando.
Rebeca franziu a testa.
Tentou continuar escrevendo.
Outra explosão.
Ela ergueu os olhos lentamente.
— Como pode gostar disso?
Janis nem piscou.
— Você precisa aprender a curtir a atmosfera do filme.
Rebeca olhou novamente para a televisão.
Mais uma explosão.
— O barulho das explosões atrapalha meu pensamento.
Janis finalmente virou o rosto.
— Seu pensamento é muito sensível.
— Coloca outra coisa.
— Não.
— Janis.
— Rebeca.
Silêncio dramático.
Então, da cozinha:
— TÁ NA HORA DA MINHA NOVELA.
Janis ergueu a cabeça imediatamente.
— Mas a senhora nem tá aqui!
A resposta veio sem hesitação:
— EU TÔ OUVINDO, ORAS.
Rebeca começou a rir na mesma hora.
Janis largou a cabeça de volta no tapete.
Derrotada.
— Ninguém me respeita nessa casa.
— Nem seu filme respeita meus tímpanos — respondeu Rebeca enquanto voltava a escrever.
Janis estreitou os olhos.
— O que você tá escrevendo tanto?
Rebeca nem levantou os olhos.
— Atualizações importantes.
— Isso parece suspeito.
— É um diário. Literalmente nasceu pra ser suspeito.
Maria Helena e Ester continuaram a conversa na cozinha.
— Conseguiram adiantar a pintura?
Ester pegou o prato que a aguardava na mesa.
— Sim. Tivemos uma ajuda inesperada.
Maria Helena arqueou levemente as sobrancelhas.
— Isso é bom.
Ester apenas assentiu antes de começar a comer.
Sem comentar mais nada.
Mas um pequeno sorriso escapou mesmo assim.
Depois do jantar, ela finalmente foi para a sala e se acomodou no sofá sem cerimônia nenhuma.
Rebeca observou por meio segundo.
Então, discretamente, fechou o diário e abandonou ele ao lado do corpo.
Como se, naquele momento, escrever deixasse de ser importante.
Ester percebeu.
Claro que percebeu.
Mas não comentou nada.
Só abriu um pouco o braço.
O suficiente.
Rebeca imediatamente se encostou nela como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
E então: Vupt.
A cabeça da menina simplesmente apareceu no colo dela como se aquilo fosse um movimento perfeitamente normal.
Ester olhou para baixo imediatamente.
— Que palhaçada é essa?
Rebeca fechou os olhos com a maior tranquilidade do mundo.
— Eu falei que tava com saudades.
Ester soltou uma risada baixa pelo nariz.
— Não se atreva a babar na minha calça.
— Tá bem.
A resposta saiu cada vez mais sonolenta.
Janis observava a cena do tapete com um sorriso pequeno e cansado.
Dona Maria Helena apenas balançou a cabeça como quem já esperava exatamente aquilo.
E não demorou muito.
A respiração da Rebeca desacelerou devagar.
Os ombros relaxaram.
Até que finalmente ela dormiu.
Ali mesmo.
Com a cabeça no colo da tia Ester.
Segura o suficiente para descansar sem medo nenhum.
A televisão continuava ligada baixinho na sala.
Janis já estava meio adormecida no tapete.
Dona Maria Helena fazendo tricô na poltrona.
E Rebeca dormindo profundamente no colo da Ester.
Ou quase.
Porque, depois de alguns minutos, o cenho dela se franziu levemente.
A respiração acelerou um pouco.
E o pé começou a bater distraidamente contra o sofá.
Pequenos movimentos repetitivos.
Ansiosos.
Como se alguma parte dela ainda estivesse correndo mesmo dormindo.
Ester percebeu imediatamente.
Sem sequer olhar diretamente.
Então suspirou baixinho e começou a acariciar devagar os cabelos da menina.
— Calma, garota…
A voz saiu quase num sussurro.
Baixa.
Morna.
A respiração de Rebeca demorou alguns segundos para desacelerar novamente.
Mas desacelerou.
O cenho relaxou aos poucos.
O pé parou de bater.
E ela voltou a dormir profundamente.
Ester observou o rosto da menina em silêncio por um instante antes de erguer os olhos na direção de Janis.
A filha já assistia a cena com aquele olhar quieto que aparecia sempre que sentia coisas demais.
Então Ester pegou o celular.
A ligação foi atendida rápido.
— Oi.
A voz de Miriam veio cansada do outro lado.
Ester olhou novamente para Rebeca antes de perguntar:
— Tudo bem se ela ficar aqui hoje?
Silêncio breve.
Então ela continuou mais suave:
— Amanhã cedo você pode vir buscar.
Mais uma pausa.
E um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.
— Ótimo.
Então desligou o telefone.
Dona Maria Helena nem desviou os olhos do tricô.
— Ela aceitou rápido.
Ester voltou a se acomodar no sofá enquanto Janis ajeitava cuidadosamente uma manta sobre Rebeca.
— Porque ela sabe que a menina tá segura aqui.
E, pela primeira vez em muito tempo, talvez Rebeca realmente estivesse.
— Janis.
— Hm?
— Arruma o quarto.
Janis estreitou os olhos imediatamente.
Desconfiada.
— Por quê?
Ester nem levantou os olhos da menina adormecida no próprio colo.
— Porque eu mandei.
Janis suspirou dramaticamente e seguiu corredor adentro.
No quarto, a cama permanecia do mesmo jeito de sempre: dois colchões empilhados um sobre o outro.
Uma solução prática criada por dona Maria Helena para quando apareciam hóspedes inesperados.
Janis puxou o colchão de cima com esforço moderado e o colocou no chão ao lado da cama.
Depois pegou um lençol limpo no armário e começou a arrumar tudo ainda desconfiada.
Enquanto isso, na sala, Ester observava Rebeca dormindo profundamente no próprio colo.
O rosto relaxado.
A respiração tranquila agora.
Bem diferente da menina tensa e acelerada que tinha praticamente se jogado do carro horas antes.
Então ela passou os dedos devagar pelos cabelos dela.
— Ei, garota…
Rebeca soltou um resmungo sonolento sem abrir os olhos.
Ester sorriu.
— Sua tia deixou você dormir aqui hoje.
Os olhos da menina abriram só um pouquinho.
Confusos de sono.
— Legal…
A resposta saiu arrastada.
Quase infantil.
Ester segurou uma risada antes de tocar levemente a ponta do nariz dela.
— Vamos. Hora de dormir direito.
Rebeca demorou alguns segundos para convencer o próprio corpo a funcionar.
Então finalmente levantou do sofá ainda completamente mole de sono e seguiu Ester pelo corredor arrastando os pés.
Quando entraram no quarto, Janis terminava de ajeitar o lençol no colchão do chão.
Ester observou tudo rapidamente antes de anunciar:
— Vocês duas dividem a cama. O colchão é meu.
A expressão da Janis despencou tão rápido que chegou a ser ofensivo.
Rebeca imediatamente percebeu.
Mesmo meio dormindo.
E começou a rir baixinho.
Ester cruzou os braços.
— O que foi?
— Nada.
— Janis.
A menina desviou os olhos.
Visivelmente derrotada.
— Eu só achei que…
— Hm?
— Nada.
Ester arqueou lentamente uma sobrancelha.
— Você prefere o sofá?
Janis respondeu rápido demais:
— Não. Eu tô de boa.
— Imaginei.
Rebeca afundou o rosto na manga do moletom tentando esconder a risada enquanto Janis a encarava como quem tinha acabado de sofrer uma traição gravíssima dentro da própria casa.
Não demorou muito para o quarto mergulhar em silêncio.
Janis dormiu primeiro.
Rebeca demorou um pouco mais.
Ainda sonolenta do sofá.
Mas o cansaço emocional daquele dia inteiro acabou vencendo.
Então, aos poucos, a respiração dela desacelerou.
O corpo relaxou.
E ela finalmente dormiu.
No colchão no chão, Ester permaneceu acordada.
Os olhos presos no teto escuro enquanto os pensamentos se acumulavam silenciosamente dentro da cabeça.
Débora.
A casa nova.
Miriam.
O jeito que Rebeca tinha corrido para ela.
Tudo parecia grande demais naquela noite.
Então um pequeno movimento chamou sua atenção.
Rebeca se mexeu na cama.
O cenho franzindo levemente mesmo dormindo.
E, alguns segundos depois, o pé começou a bater contra o colchão.
Pequeno.
Repetitivo.
Ansioso.
Ester observou em silêncio.
Janis percebeu logo depois.
Ainda meio sonolenta, ela abriu os olhos devagar e virou o rosto na direção da menina.
Por um instante apenas observou.
Então se aproximou um pouco mais na cama e passou os dedos lentamente pelos cabelos dela.
— Ei, esquilinho…
A voz saiu rouca de sono.
Baixinha.
Carinhosa.
— Tá tudo bem.
Rebeca soltou um resmungo quase inaudível.
O pé continuou batendo por mais um instante.
Então desacelerou aos poucos.
Até parar completamente.
Janis ainda permaneceu acariciando os cabelos dela distraidamente.
Como se aquilo fosse automático agora.
Natural.
A respiração da Rebeca voltou ao ritmo tranquilo de antes.
E não demorou muito para Janis dormir outra vez também.
No colchão, Ester observou a cena em silêncio absoluto.
E talvez tenha sido naquele instante que ela percebeu uma coisa importante: a filha não apenas amava aquela menina.
Ela sabia cuidar dela.
Fim do capítulo
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