• Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Cadastro
  • Publicar história
Logo
Login
Cadastrar
  • Home
  • Histórias
    • Recentes
    • Finalizadas
    • Top Listas - Rankings
    • Desafios
    • Degustações
  • Comunidade
    • Autores
    • Membros
  • Promoções
  • Sobre o Lettera
    • Regras do site
    • Ajuda
    • Quem Somos
    • Revista Léssica
    • Wallpapers
    • Notícias
  • Como doar
  • Loja
  • Livros
  • Finalizadas
  • Contato
  • Home
  • Histórias
  • Otherside - Como a vida deveria ser
  • Capitulo 53 - Recomeço.

Info

Membros ativos: 9600
Membros inativos: 1621
Histórias: 1980
Capítulos: 21,050
Palavras: 53,331,637
Autores: 812
Comentários: 109,191
Comentaristas: 2603
Membro recente: RIZE REZENDE

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Notícias

  • Desafio das Imagens 2026
    Em 23/04/2026
  • 10 anos de Lettera
    Em 15/09/2025

Categorias

  • Romances (880)
  • Contos (476)
  • Poemas (235)
  • Cronicas (230)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Recentes

  • Otherside - Como a vida deveria ser
    Otherside - Como a vida deveria ser
    Por Elin Varen
  • Onde o medo fez morada!
    Onde o medo fez morada!
    Por ellen souza

Redes Sociais

  • Página do Lettera

  • Grupo do Lettera

  • Site Schwinden

Finalizadas

  • Inefável
    Inefável
    Por Maysink
  • Inflamável
    Inflamável
    Por HumanAgain

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Categorias

  • Romances (880)
  • Contos (476)
  • Poemas (235)
  • Cronicas (230)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

Ver comentários: 0

Ver lista de capítulos

Palavras: 3454
Acessos: 61   |  Postado em: 16/05/2026

Capitulo 53 - Recomeço.

Capítulo 53 – Recomeço.

Dona Maria Helena colocou água no fogo.

Separou algumas folhas de cidreira.

Depois abriu o armário e começou a pegar farinha, ovos e açúcar como quem obedecia um reflexo antigo.

Glória dizia que Maria Helena resolvia metade dos problemas da vida cozinhando alguma coisa.

E honestamente?

Talvez resolvesse mesmo.

Quando a água começou a ferver, ela despejou sobre as folhas, separou uma xícara e colocou açúcar demais dentro dela antes de entregar para Rebeca:

— Aqui, bebê. Vai te fazer bem.

O cheiro suave de cidreira subiu junto do vapor.

Na outra mão, Maria Helena entregou outra xícara para Miriam.

Com menos açúcar.

— Obrigada.

— E vou fazer bolinho de chuva porque ninguém chora de barriga vazia nessa casa.

Rebeca segurou a caneca entre as mãos enquanto ainda tentava se recuperar emocionalmente.

O que claramente não estava funcionando muito bem.

Porque, do outro lado da cozinha, Ester parecia ter decidido compensar os últimos minutos de vulnerabilidade retomando a própria personalidade habitual com força total:

— Eu já tinha ouvido falar de esquilos voadores…

Rebeca estreitou os olhos imediatamente.

— Mas ainda não tinha visto um pessoalmente.

Miriam soltou uma risada alta demais para conseguir disfarçar.

Até dona Maria Helena precisou esconder o sorriso.

Rebeca afundou um pouco mais na cadeira.

— O carro tava quase parando!

— “Quase” é uma palavra perigosíssima nesse contexto — Miriam respondeu.

Ester riu baixinho enquanto empurrava delicadamente a xícara mais para perto da menina.

— Pelo menos agora sabemos que você voa bem.

Rebeca soltou um som indignado pelo nariz.

Dona Maria Helena colocou a travessa de bolinhos de chuva sobre a mesa bem naquele instante.

— Parem de implicar com a menina e comam.

O cheiro doce tomou conta da cozinha imediatamente.

Rebeca pegou um bolinho ainda quente com cuidado.

Assoprou.

Deu uma mordida.

E imediatamente ficou em silêncio.

Os olhos fecharam devagar.

Rebeca virou ligeiramente o rosto para a direita.

A expressão inteira suavizou como se ela tivesse acabado de transcender espiritualmente através de açúcar e massa frita.

Ester estreitou os olhos.

— O que foi isso agora?

Rebeca abriu os olhos lentamente.

Ainda mastigando.

Miriam começou a rir.

— Eu pensei que isso fosse coisa antiga.

— Eu não tô fazendo nada — Rebeca resmungou de boca cheia.

Visivelmente mal-humorada por ter sido flagrada.

Ester apontou para ela.

— Você literalmente entrou em transe.

— Não entrei.

— Seu espírito quase saiu do corpo.

Dona Maria Helena balançou a cabeça enquanto colocava mais um bolinho quentinho no prato da menina.

— Deixem a menina em paz.

Rebeca aceitou o bolinho novo sem nem tentar esconder a felicidade dessa vez.

E foi exatamente nesse momento que a porta da frente abriu.

Passos rápidos.

Sacolas balançando.

Então Janis apareceu.

Cabelo novo.

Perfume forte o suficiente para anunciar sua presença antes mesmo dela falar qualquer coisa.

Dona Maria Helena olhou imediatamente para a neta.

— Finalmente.

Janis fechou a porta ainda meio sem ar da pressa.

— Se dependêssemos de você pra tomar café, já teríamos morrido de fome.

Antes mesmo que Janis pudesse responder, Rebeca levantou da cadeira e atravessou a cozinha sem cerimônia nenhuma.

Agarrou-se nela imediatamente.

Janis soltou uma risada surpresa enquanto tentava equilibrar as sacolas.

Então a abraçou com um braço só.

Firme.

Natural.

Como se aquilo sempre tivesse sido o lugar mais óbvio do mundo para Rebeca estar.

— Oi…

Ela olhou rapidamente ao redor da cozinha.

Confusa.

— Tá fazendo o que aqui?

Ester apoiou o queixo na própria mão, claramente se divertindo.

— Seu perfume novo atravessou estradas e me trouxe pra cá.

Janis congelou.

— Tá caprichado.

Janis desviou os olhos imediatamente, visivelmente sem graça.

— É bom te ver, mãe.

Miriam resolveu piorar a situação:

— Não tá tão forte assim.

Ela tomou mais um gole do chá antes de completar:

— Talvez tenha aumentado um pouco o rombo na camada de ozônio… mas valeu a pena. É agradável.

Janis fechou os olhos por um segundo inteiro.

Humilhada.

— É bom te ver também, tia Miriam.

Rebeca começou a rir contra o ombro da Janis imediatamente.

Então ergueu o rosto só o suficiente para dar um beijinho rápido na bochecha dela.

Pequeno.

Discreto.

Quase como quem dizia silenciosamente: “não liga pra elas.”

Janis virou o rosto na direção dela por um segundo inteiro.

Completamente desmontada por dentro.

Mas conseguiu manter alguma dignidade.

Ou quase.

Então levantou as sacolas levemente.

— Vamos melhorar esse café?

A mesa foi ficando cada vez mais bagunçada conforme o café avançava.

Farelos de bolinho.

Garrafa de refrigerante aberta.

Comentários atravessados.

E Rebeca finalmente relaxada o suficiente para rir sem parecer que estava calculando cada movimento do próprio corpo.

Em algum momento, Miriam olhou o horário no celular e soltou um pequeno suspiro.

— Eu realmente preciso ir agora.

Rebeca imediatamente ergueu os olhos.

— Já?

— Já.

Miriam sorriu pequeno diante da reação da sobrinha antes de se levantar.

As despedidas foram rápidas.

Dona Maria Helena insistindo para ela voltar outro dia.

Janis agradecendo a carona de forma surpreendentemente educada.

Ester permanecendo mais silenciosa perto da porta.

Observando.

Como se estivesse esperando o momento certo para dizer alguma coisa.

Então Miriam já estava perto do carro quando ouviu passos rápidos atrás dela.

Rebeca.

— Minha bolsa ficou aí dentro.

Miriam soltou uma risada baixa pelo nariz.

— Claro que ficou.

Afinal, a menina tinha praticamente abandonado a própria identidade civil quando se lançou em direção à Ester horas antes.

Ela abriu a porta do carro enquanto Rebeca puxava a bolsa do banco de trás.

Mas antes que a menina se afastasse, Miriam segurou levemente o braço dela.

A voz saiu mais baixa agora:

— Se precisar de qualquer coisa… me liga.

Rebeca assentiu imediatamente.

Então Miriam olhou rapidamente na direção da Janis parada perto do portão.

E um sorriso perigosamente divertido apareceu.

— Mas… acho que você vai ter coisa melhor pra fazer do que correr atrás da sua velha tia hoje.

O cérebro da Rebeca simplesmente parou de funcionar.

— Tia!

O rosto dela ficou vermelho na mesma hora.

Perto do portão, Janis imediatamente desviou o olhar e passou a analisar uma pequena mancha de ferrugem na grade como se aquilo exigisse atenção profissional especializada.

A tentativa de disfarçar só piorou tudo.

Miriam parecia satisfeita demais consigo mesma.

Rebeca ainda tentou manter alguma dignidade.

Falhou completamente.

Então simplesmente abraçou a tia apertado antes de esconder o rosto no ombro dela por dois segundos inteiros.

— Quer me matar de vergonha?

Miriam beijou o topo da cabeça dela ainda rindo.

— Te amo também.

Quando Rebeca finalmente voltou na direção da casa junto com Janis, Ester se afastou discretamente do portão.

Esperou as duas entrarem.

Só então olhou novamente para Miriam.

— Antes de você ir…

A voz saiu mais séria dessa vez.

— Quero te mostrar uma coisa.

Miriam franziu levemente a testa.

— Agora?

— Agora.

Ela parecia estranhamente séria outra vez.

Então Miriam apenas pegou a chave do carro.

— Eu dou carona.

O caminho foi curto.

E silencioso na maior parte do tempo.

Quando pararam diante da casa nova da Débora, Miriam demorou alguns segundos para entender exatamente o que estava vendo.

As paredes parcialmente pintadas.

Algumas caixas espalhadas.

Ferramentas perto da porta.

Lonas cobrindo móveis.

Ainda havia muita coisa por fazer.

Mas havia cuidado ali.

Tentativa.

Esforço.

Vida começando de novo.

Ester destrancou o portão devagar.

— Sei que não é justo te pedir uma coisa dessas…

Miriam virou o rosto na direção dela.

— Não quero que escolha lado nenhum.

A voz de Ester saiu baixa.

Honesta.

— Eu só… não podia deixar a Débora lá.

Aquilo apertou imediatamente o peito de Miriam.

Porque ela entendia exatamente o peso daquela frase.

Então respondeu com sinceridade absoluta:

— E eu sou muito grata por isso.

Ester pareceu surpresa.

Miriam observou novamente a casa antes de continuar:

— Você está fazendo pela Débora uma coisa que as circunstâncias me impedem de fazer.

Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.

Então Ester abriu a porta da casa.

— Entra.

Lá dentro, Glória estava em cima de uma pequena escada pintando uma das paredes da sala enquanto ouvia música baixa no celular.

Ela virou o rosto ao ouvir passos.

— Ah, vocês chegaram.

Miriam observou o ambiente lentamente.

As marcas de tinta.

As ferramentas espalhadas.

Os móveis desmontados.

Depois soltou inevitavelmente:

— Ainda falta muita coisa.

Ester apoiou o ombro na parede recém-pintada.

— Estou trabalhando com os recursos que tenho.

Miriam ficou em silêncio por um instante.

Então pegou o celular.

— Me passa o número da sua conta.

Ester piscou surpresa.

— Miriam…

— Não começa.

Ela já estava abrindo o aplicativo do banco.

— Eu quero ajudar.

— Não precisa.

— Precisa sim.

A resposta saiu firme.

Definitiva.

Depois de terminar a transferência, Miriam simplesmente colocou o celular no bolso.

E começou a tirar o casaco.

Glória parou de pintar imediatamente.

— O que você pretende fazer?

Miriam já estava descalçando os sapatos.

— Primeiro, ajudar financeiramente no que eu puder.

Ela dobrou cuidadosamente as mangas da blusa.

— Segundo, ajudar vocês. Porque claramente ainda tem muita coisa pra ajeitar aqui.

Ester observou a cena inteira com um sorriso perigosamente travesso surgindo devagar.

— E a doutora sabe trabalhar com o pincel?

Miriam arqueou uma sobrancelha.

— Com pincel, chave de fenda, furadeira… o que for preciso.

Glória imediatamente apontou o pincel na direção dela.

— Isso é ótimo. Precisamos de alguém pra colocar as cortinas.

Ester olhou ao redor teatralmente.

— E o Gordo?

Glória abriu um sorriso igualmente criminoso.

— A escada não aguenta.

O silêncio de dois segundos foi suficiente.

Então as três começaram a rir dentro daquela casa ainda inacabada.

E talvez tenha sido exatamente ali que ela começou, de verdade, a virar um lar.

***

— Vem.

Janis segurou a mão de Rebeca sem cerimônia nenhuma.

As duas já estavam quase escapando corredor adentro quando a voz de dona Maria Helena surgiu da cozinha:

— Porta aberta.

Janis parou no mesmo instante.

Devagar.

Perigosamente devagar.

— Vó…

Maria Helena continuou organizando os pratos como se não tivesse acabado de destruir qualquer possibilidade de dignidade da neta.

— Não pense que você vai se aproveitar da inocência da menina, Janis.

O silêncio que veio depois foi mortal.

Rebeca arregalou os olhos imediatamente.

Janis ficou vermelha até a alma.

— Valeu, vó.

Maria Helena finalmente olhou para elas.

Completamente serena.

— Vem. Antes que minha avó resolva destruir o resto da minha dignidade.

Janis segurou a mão dela e praticamente arrastou Rebeca corredor adentro sob o olhar satisfeito de dona Maria Helena.

— PORTA ABERTA! — a voz da senhora veio imediatamente da sala.

— A senhora é obcecada nisso — resmungou Janis.

— E você me dá motivos.

Rebeca já ria outra vez quando as duas finalmente conseguiram escapar para o quarto.

Janis fechou a porta só até onde sabia que a avó toleraria.

Então largou a mochila no chão, ainda resmungando baixinho consigo mesma, antes de abrir o zíper.

As duas acabaram sentando no chão logo em seguida, lado a lado, ainda carregando nos ombros o resto da vergonha que dona Maria Helena tinha provocado na sala.

— Eu trouxe uma coisa pra você.

Ela começou a procurar até encontrar a pequena latinha de chicletes.

— Achei.

Mas, junto dela, outra coisa apareceu.

O diário.

Janis congelou imediatamente.

— Opa.

Rebeca estreitou os olhos na mesma hora.

— O que foi esse: “opa”?

— Nada.

— Janis.

Ela tentou empurrar o diário discretamente de volta pra mochila.

Tarde demais.

Rebeca já tinha visto.

— Você ainda tá com o meu diário?!

Janis fechou os olhos.

Derrotada.

— Era pra eu ter devolvido no primeiro dia.

— JANIS.

— Eu esqueci!

Rebeca puxou o diário das mãos dela imediatamente.

— Como você esquece isso?!

— Aconteceu… muita coisa naquele dia.

Mas a expressão da Rebeca mudou enquanto segurava o caderno contra o peito.

Menos indignada agora.

Mais séria.

— Isso era importante.

Janis piscou.

— Eu sei.

Rebeca abaixou os olhos para a capa do diário antes de completar baixinho:

— O nosso plano...

O silêncio caiu imediatamente no quarto.

Porque Janis entendeu.

Não era só um diário.

Era onde Rebeca despejava: medos, ideias, sonhos, tentativas de organizar a própria vida...

Talvez até tentativas de organizar o amor delas.

Janis se aproximou um pouco mais devagar dessa vez.

— A culpa é da sua tia.

Rebeca franziu a testa.

— Minha tia fez o quê?

Janis imediatamente endireitou a postura.

Cruzou as mãos atrás do corpo.

E assumiu uma expressão perigosamente calma.

Então começou a imitar Miriam com precisão ofensiva:

— “O que você quer com a minha sobrinha?”

Rebeca arregalou os olhos.

E começou a rir imediatamente.

— “Se você pretende fazer parte da vida dela… vamos estabelecer algumas coisas.”

— Ela NÃO falou assim.

— Falou pior.

Rebeca já estava quase dobrada de tanto rir enquanto Janis mantinha a atuação.

— “Primeiro: nada de aparecer sem avisar.”

Ela levantou um dedo.

— “Segundo: nada de fugir da escola.”

Outro dedo.

— “Terceiro: você precisa provar que é responsável o suficiente pra estar com ela.”

Rebeca caiu sentada na cama rindo.

— Coitada…

Janis apontou dramaticamente pra si mesma.

— EXATAMENTE.

Então voltou instantaneamente pra imitação:

— “Notas abaixo da média não são aceitáveis.”

Rebeca já estava escondendo o rosto no diário.

— A tia Miriam não existe.

— Existe sim. E ela me ameaçou educadamente.

— Mentira.

Janis parou teatralmente no meio do quarto.

Então estreitou os olhos exatamente como Miriam fazia:

— “E se eu perceber que você é um problema…”

Silêncio dramático.

— “Você se afasta.”

Rebeca arregalou os olhos.

Janis largou a personagem imediatamente e apontou pra própria cara.

— Eu vi a morte.

A gargalhada da Rebeca ecoou pelo quarto inteiro.

Mas então Janis puxou alguns cadernos de dentro da mochila.

Rebeca franziu a testa imediatamente.

— Que milagre é esse?

Janis abriu um dos cadernos na direção dela.

Lição feita.

Organizada.

Até bonita demais pro padrão Janis de existência.

Ela deu de ombros tentando parecer casual.

— Eu levei o acordo muito a sério.

A risada da Rebeca diminuiu devagar.

Porque, de repente, aquilo ficou absurdamente sincero.

Janis tinha escutado cada palavra da Miriam.

E decidiu: “ok. Então eu vou tentar.”

O quarto voltou a ficar quieto.

Rebeca ainda segurava o diário no colo enquanto Janis mexia distraidamente nos próprios cadernos espalhados pelo chão.

Então a menina abriu o diário devagar.

Folheando algumas páginas antigas.

Anotações tortas.

Ideias interrompidas.

Planos escritos em momentos diferentes da vida.

Até parar em uma página específica.

O plano.

Janis reconheceu imediatamente.

Rebeca observou a folha por alguns segundos e viu que Janis havia marcado “ok” ao lado de: “Morar na capital.”

— Essa parte a gente conseguiu.

Rebeca assentiu devagar.

Depois desceu o olhar para a linha seguinte.

“Trabalho.”

Antes mesmo que ela falasse qualquer coisa, Janis levantou uma sobrancelha.

— Eu já resolvi isso.

Rebeca olhou imediatamente pra ela.

— Resolveu?

Janis apontou orgulhosamente pra si mesma.

— Padaria. Funcionária do mês emocionalmente falando.

Rebeca começou a rir.

Então desenhou outro “ok” ao lado da palavra.

Janis observava aquilo em silêncio agora.

Mais séria.

Como se percebesse aos poucos que aquele plano já não parecia impossível.

Então Rebeca ficou pensativa por um instante antes de dizer:

— Eu ainda não tenho trabalho… mas, tenho dinheiro.

Ela puxou a bolsa que tinha deixado perto da cama.

Abriu a carteira.

E mostrou um cartão.

Janis arregalou os olhos imediatamente.

— Caramba.

Rebeca fez uma careta pequena.

— Eu sei.

Janis pegou o cartão com cuidado exagerado.

Como se estivesse segurando material radioativo.

— Ainda tem um pouco de limite.

— Você já usou isso?

Rebeca deu de ombros.

— Já.

Então sorriu pequeno.

— Não é emprego… mas ajuda.

Janis continuava olhando o cartão meio desconfiada.

Muito mais séria agora.

Então devolveu lentamente pra ela.

— Não sei não.

Rebeca franziu a testa.

— O quê?

— Acho que a gente não devia usar isso juntas.

Aquilo claramente surpreendeu a menina.

— Por quê?

Janis apoiou os braços nos joelhos antes de responder:

— Porque sua tia deu esse cartão pra você.

Rebeca respondeu sem hesitar:

— Pra usar como eu quiser.

Então puxou o cartão de volta e guardou na carteira.

— E eu quero usar com você.

O silêncio que veio depois foi pequeno.

Mas importante.

Porque Janis percebeu naquele instante que a Rebeca não estava oferecendo dinheiro.

Estava oferecendo futuro compartilhado.

Janis ainda parecia desconfiada olhando para o cartão de Rebeca.

— A gente usa isso até você conseguir um trabalho.

Rebeca inclinou levemente a cabeça.

— Vai demorar um pouco.

— Por quê?

A menina deu de ombros como quem dizia algo completamente normal:

— A Helba quer que eu estude mais antes de pensar em concertos.

Janis piscou algumas vezes.

— Estudar quanto tempo?

Rebeca começou a contar nos dedos.

— Primeiro vem o conservatório.

Um dedo.

— Depois a faculdade de música.

Outro.

— E aí o aperfeiçoamento na Europa.

Silêncio.

Janis ficou olhando pra ela por dois segundos inteiros.

— Europa?

— Sim.

Rebeca respondeu com naturalidade ofensiva.

— Ela acha importante.

Janis continuava processando a informação.

— Rebeca…

— Hm?

— O que exatamente eu vou fazer enquanto você estiver na Europa?

Rebeca franziu levemente a testa.

Como se a resposta fosse óbvia.

— Você vai comigo.

Janis arregalou os olhos imediatamente.

— Estamos falando da Europa.

Ela apontou dramaticamente para a janela.

— Não da lanchonete da esquina.

Rebeca começou a rir.

— E daí?

— “E daí”?!

Janis levou a mão ao peito.

— Você fala como se a gente fosse atravessar a rua, não um oceano inteiro!

Rebeca puxou o diário de volta pro colo.

Completamente tranquila.

— Então a gente atravessa.

Aquilo silenciou Janis por um instante.

Porque a Rebeca dizia aquelas coisas impossíveis com uma convicção assustadora.

Como alguém que realmente acreditava que amar alguém incluía automaticamente carregar essa pessoa junto pro futuro.

— Estamos falando de outro continente.

Rebeca apenas deu de ombros.

— Então?

— “Então” nada. Isso custa dinheiro.

Ela apontou acusadoramente para o diário.

— Acho que precisamos de um plano novo.

Rebeca olhou novamente para as páginas antigas.

O plano velho.

Os objetivos antigos.

As anotações feitas por uma versão dela que ainda estava tentando sobreviver.

Então folheou devagar até encontrar uma página em branco.

Pegou a caneta.

E escreveu no topo:

“Novo plano.”

Janis observou aquilo em silêncio.

Muito mais emocionada do que pretendia demonstrar.

Rebeca ergueu os olhos na direção dela.

— Como você quer começar?

Janis nem precisou pensar muito:

— A Janis precisa de um emprego melhor.

Rebeca imediatamente revirou os olhos.

— O quê?

— Não dá pra ir pra Europa ganhando salário mínimo.

A resposta saiu séria demais.

Prática demais.

O que só fez Rebeca rir.

— Você pensa demais.

— E você pensa de menos.

— Funciona até agora.

Janis bufou dramaticamente enquanto se aproximava mais do diário.

— Tá. Coloca aí:
“Arrumar um emprego que não destrua minhas costas e minha dignidade.”

Rebeca começou a escrever rindo.

— Sua dignidade já morreu faz tempo.

— Foi assassinada pela sua tia naquela cozinha.

— Dramática.

— Trauma legítimo.

Mas então o riso foi diminuindo aos poucos enquanto as duas continuavam inclinadas sobre o diário.

Escrevendo coisas bobas.
Coisas sérias.
Coisas impossíveis.

Como duas meninas construindo um futuro no chão de um quarto pequeno.

E, pela primeira vez em muito tempo, aquilo não parecia fantasia.

Parecia recomeço.

E foi exatamente nesse momento que Janis ficou estranhamente quieta.

Rebeca percebeu primeiro.

— O que foi?

Janis respirou fundo.

Então se ajoelhou dramaticamente no chão na frente dela.

Rebeca arregalou os olhos imediatamente.

— Janis…

A menina segurou uma das mãos dela com cuidado antes de perguntar:

— Quer recomeçar comigo?

A risada da Rebeca saiu na mesma hora.

Leve.

Quase emocionada.

— Sua boba.

Janis manteve a posição.

Muito séria.

— Isso é um sim ou eu vou precisar fazer discurso?

Rebeca segurou o rosto dela com as duas mãos.

Ainda sorrindo daquele jeito pequeno e vulnerável.

— Claro que é um sim.

A voz saiu baixa.

Honesta.

— Eu quero recomeçar com você.

Por um instante, nenhuma das duas falou.

Só ficaram ali.

No chão daquele quarto.

Segurando um futuro improvisado entre páginas tortas de um diário velho.

Então Janis levantou de repente antes que começasse a sentir coisas demais sobre aquilo.

— Ótimo.

Rebeca começou a rir imediatamente.

— O quê?

Janis pegou o skate encostado perto da porta.

— Agora a gente precisa ir pro parque porque eu fiquei emocionalmente desconfortável.

 

 

Fim do capítulo


Comentar este capítulo:
[Faça o login para poder comentar]
  • Capítulo anterior
  • Próximo capítulo

Comentários para 53 - Capitulo 53 - Recomeço.:

Sem comentários

Informar violação das regras

Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:

Logo

Lettera é um projeto de Cristiane Schwinden

E-mail: contato@projetolettera.com.br

Todas as histórias deste site e os comentários dos leitores sao de inteira responsabilidade de seus autores.

Sua conta

  • Login
  • Esqueci a senha
  • Cadastre-se
  • Logout

Navegue

  • Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Ranking
  • Autores
  • Membros
  • Promoções
  • Regras
  • Ajuda
  • Quem Somos
  • Como doar
  • Loja / Livros
  • Notícias
  • Fale Conosco
© Desenvolvido por Cristiane Schwinden - Porttal Web