Capitulo 52 - Tá perfeito assim
Capítulo 52 – Tá perfeito assim.
Rebeca terminou de se arrumar às onze da manhã.
A visita a casa de Janis seria às treze horas.
Miriam percebeu isso imediatamente.
Não comentou.
A menina passou os primeiros quinze minutos diante do espelho, analisando detalhes invisíveis: o cabelo, a roupa, o jeito da barra da camiseta caía, o perfume talvez forte demais, talvez fraco demais, talvez inexistente...
Depois começou a circular pela casa.
Devagar.
Com cuidado.
Como alguém tentando preservar uma obra de arte.
Não sentava completamente no sofá para não amassar a roupa.
Não encostava nas paredes.
Recusou molho de tomate no almoço com a seriedade de quem recusava uma substância letal.
Miriam observava tudo em silêncio, cada vez mais entretida.
Em determinado momento encontrou Rebeca parada no corredor olhando para o relógio do celular pela quarta vez em menos de dois minutos.
— Você quer ir agora?
Rebeca arregalou os olhos.
— Ainda é cedo.
— Quanto tempo falta?
— Uma hora e quarenta e dois minutos.
Miriam precisou esconder um sorriso dentro da xícara de café.
— Rebeca…
— Eu não posso chegar cedo demais.
Ela começou a andar novamente.
— Porque aí parece desespero.
— E chegar no horário?
— Intenso.
— Entendi.
Miriam cruzou as pernas no sofá.
— Então qual é o plano?
Rebeca respondeu sem hesitar:
— Chegar às treze e cinco.
O silêncio que veio depois foi maravilhoso.
— Você planejou cinco minutos de atraso?
— Não é atraso de verdade. É um atraso socialmente aceitável.
Miriam começou a rir.
— Isso existe?
— Existe.
— Quem inventou?
— Eu não sei. Acho que fui eu.
A menina puxou o celular de novo.
Franziu a testa.
— Tá cedo demais ainda…
Miriam observou a sobrinha começar a andar pela sala outra vez.
Pra lá.
Pra cá.
Pra lá de novo.
Ainda impecavelmente arrumada.
Como uma pessoa muito elegante prestes a entrar em colapso nervoso.
— Rebeca, senta um pouco.
— Eu tô sentada por dentro.
— Isso não significa absolutamente nada.
A menina ignorou completamente o comentário e olhou o horário outra vez.
11h48.
Ela soltou um suspiro sofrido.
Depois foi até o espelho da sala.
Arrumou o cabelo.
Parou.
Voltou dois passos.
Arrumou de novo.
Miriam já estava quase rindo quando Rebeca apareceu na cozinha alguns minutos depois segurando a própria latinha de hidratante labial como se fosse um objeto de sobrevivência.
— Minha boca tá seca. Isso é nervosismo ou desidratação?
— Sim.
— Isso não respondeu minha pergunta.
— Porque as duas opções parecem corretas.
Rebeca bufou dramaticamente.
Então olhou o relógio do micro-ondas.
— Meu Deus… passaram só sete minutos.
Miriam finalmente perdeu a batalha contra o riso.
— Você sabe que não vai ser executada quando chegar lá, né?
Rebeca estreitou os olhos.
Miriam tomou mais um gole do café antes de comentar casualmente:
— Dona Maria Helena é uma pessoa muito interessante.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Estou sendo sincera.
Ela apoiou a xícara no colo.
— Nós convivemos por um tempo quando eu ainda morava no interior, na nossa antiga cidade.
Rebeca piscou surpresa.
— Sério?
Miriam assentiu.
— A Maria Helena sempre foi exatamente assim.
— Assim como?
Miriam pensou por um instante.
Então sorriu pequeno.
— Difícil de explicar. Você vai entender quando conhecer ela melhor.
Rebeca afundou dramaticamente no sofá.
— Isso continua não sendo tranquilizador.
— E continua sendo sincero.
Às treze horas em ponto, Rebeca já estava dentro do carro.
Miriam dirigia em silêncio, ocasionalmente lançando olhares divertidos para a sobrinha, que verificava o horário do celular a cada poucos minutos.
13h03.
Perfeito.
Nem cedo demais.
Nem atrasada demais.
Socialmente aceitável.
Rebeca respirou fundo enquanto observava as ruas passarem pela janela.
O coração parecia cada vez mais rápido conforme se aproximavam.
Janis.
Dona Maria Helena.
A casa.
Tudo parecia grande demais dentro dela.
Então o carro virou a esquina.
E entrou na rua.
Foi instantâneo.
Rebeca viu a figura parada perto do portão antes mesmo de reconhecer conscientemente quem era.
Ester.
Casual.
Como se não estivesse esperando ninguém.
Como se estivesse apenas aproveitando o vento da tarde enquanto segurava algumas chaves nas mãos.
O mundo inteiro da Rebeca desmontou naquele segundo.
Porque causar boa impressão deixou de importar.
A ansiedade deixou de importar.
A roupa.
O cabelo.
A avó da Janis.
Nada mais parecia importante.
Ela queria a Ester.
Só isso.
Antes mesmo que Miriam percebesse o que estava acontecendo, Rebeca soltou o cinto.
A porta abriu.
E a menina praticamente se lançou para fora do carro ainda em movimento.
— REBECA!
Miriam freou assustada enquanto Ester arregalava os olhos do outro lado do portão.
Mas reagiu rápido.
Rápido o suficiente.
Ela avançou imediatamente e segurou Rebeca antes mesmo que os pés da menina batessem tortos no chão.
Puxou-a para a calçada num movimento firme, protegendo-a do impacto.
— Você ficou maluca?!
Mas Rebeca já estava agarrada nela.
Os braços apertados ao redor do corpo de Ester como se quisesse compensar todos os dias de saudade de uma vez só.
Ester soltou uma risada nervosa enquanto tentava recuperar o próprio equilíbrio.
— Meu Deus, menina!
Rebeca escondeu o rosto no ombro dela imediatamente.
E foi só naquele instante que Miriam percebeu uma coisa importante:
a sobrinha não estava nervosa apenas porque queria impressionar a família da Janis.
Ela estava emocionalmente faminta de afeto seguro.
E Ester sempre fora uma das poucas pessoas que faziam Rebeca se sentir completamente aceita sem precisar tentar.
Ester ainda tentou rir.
Mas então sentiu.
O corpo da Rebeca tremendo.
Os dedos agarrados na roupa dela com força demais.
A respiração descompassada.
E, no segundo seguinte, a menina começou a chorar.
De verdade.
Sem conseguir segurar.
O rosto escondido no ombro de Ester enquanto os soluços vinham rápidos, bagunçados, quase infantis.
Miriam desligou o carro devagar, observando a cena em silêncio.
Porque agora entendia.
Entendia por que a sobrinha parecera tão à beira do colapso o dia inteiro.
Não era apenas ansiedade pelo encontro.
Era saudade.
Saudade acumulada em silêncio tempo demais.
Ester imediatamente mudou a postura.
Os braços envolveram Rebeca com firmeza, protetores.
Uma mão subiu devagar até os cabelos recém-arrumados.
— Ei… ei… calma…
Mas Rebeca só apertou mais.
Como se ainda precisasse confirmar que ela realmente estava ali.
Entre um soluço e outro, a voz saiu abafada:
— Eu tava com saudades…
Aquilo partiu Ester no meio.
Porque a frase veio carregada de tanta honestidade que doía.
Ela fechou os olhos por um instante antes de beijar o topo da cabeça da menina.
— Eu também tava, meu amor.
E foi exatamente ali, parada no meio da calçada, chorando no ombro de alguém que a acolhia sem exigir perfeição nenhuma, que Rebeca finalmente deixou de tentar parecer aceitável.
Ester inclinou levemente o rosto, olhando para a mancha úmida que começava a aparecer na própria blusa.
— Olha só…
A voz veio suave.
Levemente divertida.
— Sua cara ficou todinha no meu ombro.
Rebeca soltou um gemidinho sofrido imediatamente.
— Ah não…
Ester finalmente riu baixinho.
Não dela.
Nunca dela.
Mas da forma intensa e desajeitada com que Rebeca sentia tudo.
— Vem.
Ela segurou a menina pelos ombros com cuidado.
— Vamos entrar e lavar esse rosto antes que você derreta inteira.
Rebeca fungou enquanto Ester fazia sinal para Miriam se aproximar.
Miriam saiu do carro sem pressa, observando as duas atravessarem o portão juntas.
E foi estranho perceber o quanto Rebeca parecia menor ao lado de Ester.
Mais leve.
Quase infantil.
Miriam atravessou o portão em silêncio logo atrás delas.
Na cozinha, dona Maria Helena observou tudo sem dizer uma palavra.
Observou a maneira automática como Ester manteve a mão nas costas de Rebeca enquanto a conduzia para dentro da casa.
O cuidado.
A atenção.
A forma quase instintiva com que a protegia sem transformar aquilo em espetáculo.
E bastou.
Porque Maria Helena conhecia Ester bem demais.
E sabia reconhecer quando alguém era amado de verdade por ela.
No corredor, perto do banheiro, Ester pegou uma toalha pequena e umedeceu cuidadosamente na pia.
Rebeca ainda fungava discretamente enquanto tentava recuperar o fôlego.
Miriam permaneceu mais atrás.
Quietinha.
Observando.
Sem interromper.
Então Ester segurou delicadamente o rosto da menina e começou a limpar a maquiagem borrada pelo choro.
Com cuidado.
Sem pressa.
Rebeca permaneceu imóvel enquanto a toalha deslizava pela pele.
Mas Ester não parou quando removeu apenas o que o choro estragara.
Continuou.
Retirando tudo.
A maquiagem inteira.
Até os vestígios que ainda estavam intactos.
Rebeca franziu levemente a testa.
— Tia Ester…
— Hm?
— Você tirou tudo.
— Tirei.
A menina olhou automaticamente para o próprio reflexo no espelho.
Os olhos ainda vermelhos.
As sardas mais aparentes sem a maquiagem.
O rosto vulnerável de um jeito que normalmente tentava esconder.
— Eu preciso refazer.
Mas Ester segurou a mão dela antes.
Com delicadeza.
— Não precisa.
Rebeca ergueu os olhos devagar.
Ester sorriu pequeno.
Daquele jeito calmo que desmontava qualquer defesa.
— Tá perfeito assim.
A garganta da menina apertou imediatamente.
Porque ela acreditou.
Nem que fosse só por um segundo.
Ester então se inclinou e depositou um beijo suave na testa dela.
Depois abriu os braços sem dizer mais nada.
Rebeca se agarrou nela outra vez.
Dessa vez sem pressa.
Sem desespero.
Só saudade sendo acolhida do jeito certo.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
HelOliveira
Em: 12/05/2026
Acho a Ester incrível, ela cuida das suas, protege, da carinho sem perder a autoridade ...e Rebeca se sentou segura nesse abraço
Elin Varen
Em: 12/05/2026
Autora da história
A Ester tem exatamente esse jeito de cuidar: firme, acolhedora e muito presente.
E acho que, para a Rebeca, sentir segurança em um abraço é algo muito maior do que parece à primeira vista.
Fico muito feliz que você tenha se conectado com esse momento. Obrigada por acompanhar com tanto carinho.
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Elin Varen Em: 16/05/2026 Autora da história
Foi mal! XD
Capítulo novo postado.