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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 3518
Acessos: 70   |  Postado em: 11/05/2026

Capitulo 51 - Ansiedade

Capítulo 51 – Ansiedade.

Rebeca acordou cedo demais.

De novo.

A primeira coisa que fez foi pegar o celular para verificar o horário.

A segunda foi correr até o espelho.

Ela analisou o próprio reflexo em silêncio crítico enquanto tentava decidir se o cabelo ainda estava aceitável depois de dormir.

As mechas continuavam no lugar.

Milagre.

Na tarde anterior, Miriam a levara ao salão para retocar a cor do cabelo e fazer as unhas, e Rebeca tinha passado horas fingindo que aquilo não era importante.

Como se não tivesse escolhido cuidadosamente o esmalte.

Como se não tivesse saído de lá olhando discretamente o próprio reflexo em cada superfície minimamente refletiva.

Agora, diante do espelho do quarto, ela ajeitou alguns fios com as mãos e inclinou a cabeça para os lados.

“Ok… dá pra sobreviver.”

Então olhou para as unhas.

Ainda intactas.

Outro milagre.

Só depois disso ela pareceu finalmente capaz de começar o resto da manhã.

A casa ainda estava silenciosa quando Rebeca saiu do quarto.

Desceu o corredor abraçada ao próprio moletom, tentando convencer o corpo a desacelerar. O piso de madeira rangia em alguns pontos, e ela já tinha decorado exatamente quais precisava evitar para não acordar Miriam.

Parou diante da escada.

Normalmente, desceria correndo.

Sempre corria.

Mas naquela manhã, a ansiedade estava tão grande que até os próprios movimentos pareciam perigosos demais.

Então ela respirou fundo e começou a contar os degraus mentalmente enquanto descia devagar.

Um.

Dois.

Três.

A mão deslizando pelo corrimão escuro.

Quatro.

Cinco.

Talvez se ela se obrigasse a fazer tudo lentamente, o coração entendesse o recado.

Seis.

Sete.

Não funcionou.

Porque a cada degrau, a mente acelerava mais.

Janis.

Dona Maria Helena.

A visita.

As conversas.

E se ela falasse demais?

E se falasse pouco demais?

Quando faltavam apenas alguns degraus para chegar ao piso inferior, Rebeca parou.

Olhou para o corrimão.

Depois para o chão.

Depois para o corrimão de novo.

A expressão mudou devagarinho.

Pensativa.

Calculista.

“Quem sabe isso ajuda.”

Ela inclinou o corpo discretamente para avaliar a altura.

Não parecia tão alto.

Quer dizer…

Talvez um pouco alto.

Mas não alto o suficiente para matar alguém.

Provavelmente.

Rebeca sentou no corrimão com cuidado, segurando a respiração como uma criminosa prestes a cometer um delito muito específico.

E então se soltou.

Desceu escorregando rápido demais, o vento bagunçando o cabelo enquanto o coração dava um salto violento no peito.

Quando chegou ao final, precisou prender um gritinho de satisfação atrás dos dentes.

Porque tinha sido absurdamente divertido.

Ela arregalou os olhos imediatamente depois.

Parou imóvel.

Esperando.

Silêncio.

Nenhuma movimentação no andar de cima.

Nenhuma tia irritada surgindo no corredor.

Por alguns segundos, aquilo realmente ajudou.

A ansiedade diminuiu só o suficiente para ela atravessar a sala quase saltitando até a cozinha.

Pegou uma tigela no armário.

Cereal.

Leite.

Muito cereal.

Pouco leite.

Ficou apoiada na bancada comendo em silêncio enquanto observava a claridade aumentar lentamente pelas janelas enormes da casa.

Grande demais, às vezes.

Silenciosa demais quase sempre.

Quando terminou, deixou a tigela na pia e caminhou sem pressa até a biblioteca.

Ainda era estranho pensar que existia uma biblioteca dentro da própria casa.

Rebeca passou os dedos pelas lombadas dos livros como quem procurava uma emergência específica para sentir.

Escolheu um.

Sentou na poltrona.

Leu duas páginas.

Fechou.

Pegou outro.

Cinco páginas.

Nada.

Mais outro.

Nem chegou ao segundo capítulo.

A concentração simplesmente não vinha.

As palavras embaralhavam.

Porque a cabeça dela já estava horas à frente daquele sábado.

Então ela desistiu da poltrona e se jogou no sofá da sala com um dos livros apoiado no peito.

Tentou ler deitada normalmente.

Não conseguiu.

Virou de lado.

Depois de barriga para baixo.

Depois completamente torta, com uma perna pendurada no encosto e o braço esmagado embaixo do corpo.

Nada ajudava.

Ela lia o mesmo parágrafo três vezes sem entender uma única palavra.

Bufou frustrada.

Fechou o livro com força suficiente para assustar a si mesma.

O silêncio da casa respondeu imediatamente.

Rebeca arregalou os olhos.

Esperou.

Nada.

Miriam continuava dormindo.

— Ótimo… — sussurrou para si mesma.

Ficou alguns segundos encarando o teto.

Então levantou de repente.

Porque havia uma coisa que quase sempre funcionava quando os pensamentos ficavam altos demais.

Música.

Ela voltou para o quarto praticamente arrastando as meias pelo chão e sentou diante do teclado.

Dessa vez, plugou os fones antes mesmo de ligar o instrumento.

Como se já soubesse que ia precisar se esconder dentro do som por um tempo.

Miriam acordou tarde o suficiente para a casa já ter perdido o cheiro da madrugada.

Ficou alguns minutos na cama ouvindo o silêncio.

Então ouviu a música.

Baixinha.

Abafada pelos fones.

Ela sorriu automaticamente.

Passou pelo corredor ainda sonolenta e reduziu os passos ao se aproximar do quarto de Rebeca.

A porta estava entreaberta.

A menina nem percebeu sua presença.

Sentada diante do teclado, tocava com os ombros levemente tensos e a testa franzida em concentração absoluta. O cabo do fone atravessava o moletom largo, e os dedos repetiam a mesma melodia de sempre.

A música que tocava quando estava distraída demais para conversar.

Ou ansiosa demais para parar.

Miriam observou por alguns segundos sem interromper.

Depois seguiu para a cozinha.

Preparou café devagar.

O cheiro tomou conta do ambiente aos poucos enquanto a manhã finalmente parecia começar de verdade.

Quando a segunda xícara ficou pronta, Miriam pensou em chamar Rebeca para comer alguma coisa antes que ela esquecesse completamente da existência do próprio estômago.

Então voltou ao corredor.

Dessa vez bateu levemente na porta antes de entrar.

— Bom dia.

Rebeca ergueu os olhos depressa e puxou um lado do fone.

— Bom dia.

A resposta saiu rápida demais.

Elétrica demais.

E foi aí que Miriam percebeu.

Tinha alguma coisa diferente no olhar dela.

Uma espécie de brilho inquieto.

Uma faísca.

Como se a menina estivesse tentando conter energia suficiente para explodir a casa inteira sozinha.

Miriam encostou no batente da porta, segurando a própria xícara.

— O que foi?

Rebeca soltou o ar devagar.

Tentou responder com calma.

Não conseguiu.

— Eu tô nervosa.

Miriam assentiu levemente, como quem já esperava por isso.

Mas então a menina continuou:

— Porque… eu conheço a Janis a minha vida inteira.

A frase saiu baixa.

Sincera demais.

Os dedos dela ainda repousavam sobre as teclas, mas agora imóveis.

— E ela é tudo pra mim.

Miriam não interrompeu.

Rebeca desviou os olhos.

— E como vai ser se a avó dela não gostar de mim?

O silêncio da casa pareceu crescer ao redor das duas.

— Rebeca…

— Não, pensa comigo — ela continuou rápido, atropelando as palavras. — A dona Maria Helena ama a Janis. Se ela olhar pra mim e achar que eu sou chata, estranha ou sei lá o que…

Ela riu sem humor.

— Porque eu sou meio estranha mesmo.

Miriam cruzou os braços, ouvindo com atenção.

E então veio o resto.

O verdadeiro medo.

— E se a Janis perceber também?

A voz falhou quase imperceptivelmente.

— Perceber o quê?

Rebeca apertou os dedos contra a própria calça.

— Que talvez ela consiga alguém melhor.

Miriam franziu a testa imediatamente.

— Rebeca…

— Uma menina da escola nova. Mais legal. Mais tranquila. Que não começa a falar pelos cotovelos quando fica nervosa. Que sabe agir normal…

Rebeca puxou as mangas do moletom para baixo e começou a alisar os próprios braços distraidamente.

Um movimento repetitivo.

Quase automático.

— O Moisés ficava zangado quando eu perdia o controle e falava demais.

A frase saiu pequena.

Como uma confissão que ela não pretendia fazer.

Miriam ficou imóvel.

Rebeca continuou olhando para as próprias mãos.

— Às vezes eu nem percebia que tava fazendo isso. Só… começava a falar. Aí ele fechava a cara. Ou mandava eu me acalmar. Ou dizia que eu tava sendo irritante.

Ela deu de ombros, tentando fingir que aquilo não doía mais.

Não conseguiu.

— Então talvez a dona Maria Helena também ache isso. E talvez a Janis canse em algum momento.

Miriam respirou fundo antes de responder.

Com cuidado.

Porque agora ela entendia exatamente de onde vinha aquele medo.

— Rebeca… escuta uma coisa.

A menina ergueu os olhos devagar.

— Existe uma diferença enorme entre alguém ser difícil de amar… e alguém ter feito você acreditar nisso.

O quarto ficou silencioso.

Rebeca parou de alisar os braços.

E Miriam continuou:

— Você fala muito quando está nervosa porque sente tudo muito intensamente. Isso não faz de você irritante. Faz de você humana.

Os olhos da menina começaram a marejar imediatamente.

O quarto ficou silencioso.

A menina parou lentamente de alisar os próprios braços.

— E eu aposto que a Janis conhece você. Por inteiro. Todas as partes.

Os olhos de Rebeca subiram devagar.

Miriam sorriu pequeno.

Calmo.

Afetuoso.

— E ela gosta de todas elas.

A garganta da menina apertou imediatamente.

— Afinal… o apelido que ela deu pra você diz muito sobre isso, não é mesmo, esquilinho?

Rebeca arregalou os olhos.

— Tia!

Miriam riu baixinho pela primeira vez naquela manhã.

E a menina tentou esconder o rosto atrás das mangas do moletom, completamente derrotada pelo próprio rubor.

— Vocês duas acham mesmo que eu não percebo essas coisas?

— Só a Janis pode me chamar assim.

Aquilo saiu rápido demais.

Natural demais.

E só depois ela percebeu o que tinha acabado de admitir.

Miriam arqueou levemente as sobrancelhas.

— Ah… ela tem patente?

— Tia!

Miriam riu baixo, finalmente tomando um gole do café.

— Estou só tentando entender as regras.

Rebeca puxou as mangas do moletom até quase esconder o rosto.

— Não faz essa cara.

— Que cara?

— Essa cara de quem tá entendendo coisa demais.

Miriam observou a menina por alguns segundos.

Depois o sorriso dela mudou.

Menor.

Mais carinhoso.

— Rebeca… a Janis olha pra você como se você fosse a coisa mais adorável que já apareceu na frente dela.

O quarto ficou silencioso.

A menina tentou responder alguma coisa.

Não conseguiu.

Porque, no fundo, ela sabia.

Sabia exatamente do que Miriam estava falando.

Do jeito que Janis sorria quando ela começava a falar rápido demais.

Do jeito que prestava atenção em cada detalhe absurdo.

Do jeito que parecia enxergar encanto justamente nas partes que Rebeca tinha aprendido a esconder.

Os olhos dela baixaram devagar.

E Miriam completou, suave:

— Você não precisa ter medo de ser demais pra alguém que ama você justamente por inteiro.

***

Janis também acordou cedo.

Muito cedo.

Cedo demais.

O despertador nem tinha tocado quando ela já estava de pé, prendendo o cabelo de qualquer jeito e abrindo as janelas da casa numa velocidade suspeita.

Dona Maria Helena só percebeu que havia algo errado quando ouviu o aspirador de pó às seis e vinte da manhã.

Ela apareceu no corredor ainda de chinelos, segurando o próprio robe.

Parou.

Piscou algumas vezes.

A sala estava impecável.

As almofadas alinhadas.

As cortinas abertas.

Cheiro de produto de limpeza no ar.

E Janis atravessava o ambiente carregando um balde como se estivesse em uma missão militar.

Maria Helena estreitou os olhos.

— O presidente está vindo e eu não sabia?

— Não pisa no chão que eu acabei de limpar.

A senhora observou a neta desaparecer na direção do banheiro.

Depois ouviu:

Armário batendo.

Água correndo.

Mais passos apressados.

E alguns minutos depois Janis reapareceu usando luvas amarelas e segurando produtos de limpeza suficientes para higienizar um hospital inteiro.

Maria Helena apoiou o ombro na parede da cozinha.

— Janis.

— Hm?

— Você enlouqueceu?

— Não.

— Então por que você lavou o banheiro social às seis da manhã de um sábado?

Janis nem levantou os olhos.

— Porque tava sujo.

Maria Helena olhou ao redor.

— A casa inteira estava limpa ontem.

— Agora tá mais limpa.

A senhora precisou esconder o sorriso.

Porque conhecia aquela menina desde o instante em que ela chegou ao mundo.

Conhecia o jeito que Janis organizava objetos quando estava ansiosa.

O jeito que limpava compulsivamente quando queria controlar emoções.

O jeito que fingia normalidade enquanto claramente passava por um colapso afetivo silencioso.

Então Maria Helena tomou um gole do café recém passado e perguntou casualmente:

— Que horas a Rebeca chega mesmo?

Janis parou de esfregar a bancada por meio segundo.

Só meio segundo.

Mas foi suficiente.

Maria Helena sorriu dentro da própria xícara.

— Ah.

Janis voltou a esfregar a bancada imediatamente.

— Não começa.

Janis trabalhou o dia inteiro como se estivesse tentando vencer uma competição invisível.

Organizou prateleiras.

Separou pedidos.

Resolveu problemas antes mesmo que aparecessem.

Respondeu clientes com uma eficiência quase assustadora.

Os colegas até agradeceram o rendimento absurdo daquele sábado.

O que ninguém percebeu era que ela estava usando trabalho como distração.

Porque toda vez que parava por mais de vinte segundos…

Pensava em Rebeca.

O problema de Janis não era a chegada de Rebeca.

Era todo o resto.

Porque Rebeca iria chegar.

Mas Janis precisava garantir que ela se sentisse bem ali.

Confortável.

Bem-vinda.

Como se aquela casa também pudesse ser dela algum dia.

Antes do fim do expediente na padaria, separou discretamente algumas coisas para levar pra casa: pães ainda quentes, frios, alguns salgados e refrigerante.

Porque Rebeca provavelmente chegaria nervosa demais para dizer do que tinha vontade.

Então precisava ter variedade.

Talvez ela gostasse mais de salgado do que doce naquele dia.

Talvez estivesse ansiosa demais para escolher.

Janis pensou em tudo isso enquanto embalava as coisas.

Ela já estava no caixa para pagar as próprias compras quando os olhos pararam nas pequenas latinhas de chiclete expostas ao lado da máquina de cartões.

Janis diminuiu os movimentos imediatamente.

Ficou olhando para uma delas em silêncio.

E, de repente, não estava mais na padaria.

Estava meses atrás.

Rebeca sentada no quintal da casa de Janis, mascando chiclete escondida como se estivesse cometendo um crime.

Porque Moisés sempre fora duro demais com ela.

Rígido demais.

E Janis lembrava exatamente do dia em que ensinara Rebeca a fazer bolinhas.

A menina ficara tão feliz quando conseguiu que passou a tarde inteira tentando repetir.

Errando.

Rindo.

Tentando de novo.

Uma latinha de chiclete não era apenas um doce.

Era memória.

Era intimidade.

Era a lembrança silenciosa de uma versão da Rebeca que aprendia liberdade aos poucos.

Janis estendeu a mão e pegou a latinha sem pensar muito.

— Eu vou levar também.

A atendente registrou junto das outras compras sem perceber a importância absurda daquele objeto pequeno.

Mas Janis percebeu.

Ela guardou a latinha na mochila com cuidado antes de sair da padaria.

O sol da tarde já aquecia a calçada quando começou o caminho de volta para casa.

E foi então que aconteceu.

Ela passou diante da vitrine do salão.

Diminuiu os passos.

Olhou o próprio reflexo rapidamente: o cabelo preso de qualquer jeito, alguns fios desalinhados, o rosto cansado do expediente.

Janis torceu o nariz.

Continuou andando.

Voltou.

E entrou antes que tivesse tempo de racionalizar a decisão.

— Dá pra atender?

A recepcionista levantou os olhos.

— Só com horário marcado.

Janis olhou rapidamente para o relógio.

Depois deu de ombros.

— Mesmo que eu pague o dobro?

A mulher piscou surpresa.

Depois apontou para uma cadeira.

— …senta ali.

Vinte minutos depois, Janis observava mechinhas do próprio cabelo caindo no chão enquanto tentava convencer a si mesma de que aquilo era uma decisão perfeitamente racional.

Não era.

Era puro nervosismo.

Porque, em algum lugar dentro dela, existia uma voz repetindo:

“Eu quero estar bonita quando ela me olhar.”

Quando o corte terminou, Janis encarou o próprio reflexo em silêncio.

O cabelo estava mais leve.

Mais alinhado.

Ainda parecia ela.

Só… uma versão menos cansada.

A cabeleireira sorriu satisfeita enquanto tirava a capa de proteção dos ombros dela.

— Viu? Seu rosto apareceu muito mais agora.

Janis soltou um “hm” baixo, claramente sem saber como reagir a elogios direcionados à própria aparência.

Ela já estava pegando a carteira quando a mulher perguntou:

— Vai querer fazer a unha também?

Janis arregalou os olhos como se tivesse recebido uma proposta criminosa.

— Não.

— Uma esmaltação simples.

— Não.

— Basezinha pelo menos?

— Moça, eu trabalho carregando caixa.

A cabeleireira riu.

— E daí? Gente estilosa também carrega caixa.

Janis bufou uma risada involuntária.

Mas permaneceu firme.

— A unha não.

A mulher apoiou as mãos no balcão, analisando a garota por alguns segundos.

Depois abriu uma gaveta.

— Tá. Então pelo menos leva isso aqui.

Ela colocou um pequeno frasco sobre o balcão.

Janis franziu a testa.

— Perfume?

— Perfume pra gente descolada.

— Isso parece golpe.

— Confia em mim.

Janis pegou o frasco sem muita convicção e experimentou no pulso.

Parou.

Cheirou de novo.

A expressão mudou minimamente.

O suficiente para a cabeleireira perceber.

— Eu sabia.

— Tá… ele é bom.

— Claro que é bom. Tem cara de garota misteriosa que parte corações sem querer.

Janis quase engasgou.

— Eu não tenho cara disso.

— Tem sim.

— Não tenho.

— Tem. E vou adivinhar mais: você tá assim porque vai encontrar alguém.

Janis imediatamente pegou a carteira.

— Quanto deu tudo?

A mulher começou a rir enquanto passava a compra.

E Janis saiu do salão com o cabelo novo, um perfume na mochila e a nítida sensação de que talvez estivesse se tornando uma pessoa perigosamente apaixonada.

O cabelo novo balançava levemente a cada passo, e o pequeno frasco de perfume parecia pesar cinco quilos dentro da mochila.

Ridículo.

Completamente ridículo.

Ela atravessou a rua dizendo a si mesma que aquilo tinha sido apenas um corte de cabelo.

Uma decisão prática.

Normal.

Nada além disso.

Andou mais alguns quarteirões.

Passou pela praça.

Dobrou outra esquina.

E só parou quando teve certeza de duas coisas:

estava longe o suficiente do salão para ninguém ver… mas ainda não perto o bastante de casa para dona Maria Helena sentir cheiro de desespero romântico no ar.

Então Janis abriu a mochila discretamente.

Pegou o perfume.

Olhou ao redor.

Ninguém prestando atenção.

Ótimo.

Ergueu o frasco.

Uma borrifada no pescoço.

Depois outra.

Pensou.

Mais uma.

“Talvez tenha ficado forte.”

Ela cheirou o próprio pulso.

Não.

Tava bom.

Ou talvez não estivesse.

Mais uma borrifada, só pra garantir.

Janis congelou imediatamente depois.

— Meu Deus…

Aquilo definitivamente tinha sido perfume demais.

Ela começou a andar de novo, agora completamente consciente da própria existência.

Do próprio cabelo.

Do cheiro.

Do jeito que o coração acelerava só de imaginar Rebeca se aproximando o suficiente para perceber qualquer uma dessas coisas.

E foi exatamente nesse momento que Janis entendeu, com um nível preocupante de clareza, que estava ferrada.

***

O quarto de Rebeca parecia ter sido atingido por um pequeno desastre natural.

Roupas sobre a cama.

Roupas na cadeira.

Roupas no chão.

E Rebeca diante do espelho, encarando a própria imagem com horror crescente.

Ela puxou a barra da camiseta para baixo.

— Não. Pareço desesperada.

Trocou de blusa.

Prendeu o cabelo.

Soltou o cabelo.

Virou de lado.

— Não… fiquei com cara de boba.

Mais uma troca.

Agora uma calça diferente.

Ela estreitou os olhos para o reflexo.

— Meu Deus. Agora eu tô com cara de safada.

Arrancou a roupa do corpo como se estivesse pegando fogo.

Mais alguns minutos de caos absoluto se passaram até a casa inteira ouvir:

— Tiaaaaaa…

A voz saiu longa.

Arrastada.

Sofrida.

Miriam apareceu no corredor sem a menor pressa, já com expressão de quem entendia exatamente o cenário que encontraria.

Parou na porta.

Observou o campo de guerra.

— Impressionante.

Rebeca apontou desesperadamente para o próprio armário.

— Eu não sei o que vestir.

Miriam entrou no quarto desviando de uma calça jogada no chão.

— Tá. Vamos ver.

Ela analisou algumas peças rapidamente e começou a montar combinações com uma tranquilidade irritante.

Primeira opção.

Rebeca olhou.

— Desesperada.

Segunda.

— Chata.

Terceira.

A menina fez uma careta profunda.

— Esquisita.

Miriam cruzou os braços.

— Você rejeitou todas em menos de dez segundos.

— Porque nenhuma funciona!

Rebeca sentou na cama dramaticamente, segurando a cabeça.

— O que eu faço?

Miriam pensou por alguns segundos.

Depois respondeu com a maior serenidade do mundo:

— Que tal um pijama?

Rebeca ergueu o rosto devagar.

O olhar indignado foi tão intenso que Miriam precisou segurar o riso.

— Certo. Sem pijama.

— Obrigada.

Miriam se aproximou um pouco mais.

E então o tom dela mudou.

Mais suave.

— Acho que você tá se vestindo pra pessoa errada.

Rebeca franziu a testa.

— Como assim?

— Você tá tentando impressionar a avó da Janis. Talvez até a própria Janis.

A menina abaixou os olhos imediatamente.

Pega no flagra.

— Então vou te perguntar outra coisa…

Miriam inclinou levemente a cabeça.

— O que impressionaria você?

O quarto ficou silencioso.

Rebeca piscou algumas vezes.

Como se ninguém jamais tivesse feito aquela pergunta antes.

Miriam continuou:

— Que roupa faz você se olhar no espelho e pensar “eu gostei”? Não “eu pareço normal”. Não “eu pareço aceitável”. Só… você.

Rebeca ficou em silêncio por alguns segundos.

Então virou lentamente o rosto na direção do armário.

E, pela primeira vez naquela tarde, começou a procurar sem parecer em pânico.

 

Fim do capítulo


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