Capitulo 50 - Dias Pequenos
Capítulo 50 – Dias Pequenos.
A semana começou a correr antes que qualquer uma das duas percebesse.
Rebeca passou a viver com horários.
Aulas.
Nivelamento.
Leituras.
Exercícios.
Anotações espalhadas entre partituras e cadernos.
Helba organizava tudo como quem montava uma arquitetura.
Nada parecia aleatório.
Na quarta-feira, colocou um livro na frente dela.
Rebeca olhou a capa.
O Pequeno Príncipe.
Ela piscou.
— Isso é pra música?
— Isso é pra pessoas.
Helba tirou os óculos só o suficiente pra limpar uma das lentes.
— Música vem depois.
Rebeca virou o livro nas mãos.
— Isso não é meio… infantil?
Helba finalmente ergueu os olhos.
— Só pra quem lê mal.
Silêncio curto.
— Um artista completo precisa aprender a perceber coisas que o resto do mundo ignora.
Ela apontou com a cabeça para o livro.
— Solidão. Afeto. Vaidade. Medo. Amor. Tudo isso canta antes da voz.
Rebeca abaixou os olhos de novo para a capa.
Dessa vez com mais cuidado.
E levou o livro com ela.
As aulas de nivelamento foram uma surpresa.
Uma surpresa enorme.
Márcia organizou tudo com cuidado quase invisível.
Professoras.
Salas menores.
Horários mais tranquilos.
Nada brusco.
Nada que fizesse Rebeca se sentir pressionada ou acuada.
E funcionou.
Funcionou muito.
Rebeca gostava de aprender.
Gostava da sensação de finalmente entender coisas que antes pareciam pertencer ao resto do mundo.
Na quinta-feira, chegou a clínica toda esbaforida, depois de uma aula muito estimulante.
Encontrou Miriam e Luma perto da recepção.
— Vocês sabiam que o corpo humano literalmente cria memória emocional?
As duas olharam pra ela ao mesmo tempo.
Rebeca continuou antes que qualquer uma respondesse.
— Tipo… experiências muito fortes mudam a forma como o cérebro reage depois. A professora explicou hoje.
Ela gesticulava enquanto falava.
Animada.
Viva.
— E também que o cérebro demora menos tempo pra reconhecer uma música conhecida do que uma voz.
Luma sorriu sem conseguir evitar.
— Você tá gostando das aulas, né?
Rebeca olhou pra ela como se a resposta fosse óbvia demais.
— Eu estou aprendendo muita coisa.
E tinha alguma coisa quase emocionada no jeito que ela dizia aquilo.
Como se ainda estivesse surpresa por descobrir que conseguia.
Na sexta-feira, Rebeca comentou quase por acaso durante a aula:
— Ah… eu comecei violão essa semana.
Helba ergueu os olhos da partitura.
— Violão?
— A tia Miriam me matriculou.
Ela ajeitou a alça da mochila no ombro.
— Eu ainda tô aprendendo o básico.
Helba assentiu devagar.
— Excelente.
Rebeca pareceu surpresa pela animação imediata.
— É?
— Quanto mais, melhor.
Ela fechou a pasta na mesa.
— Instrumento muda escuta. Muda percepção de ritmo. Respiração. Construção musical.
Pausa curta.
— Um artista completo nunca aprende só uma linguagem.
Rebeca absorveu aquilo em silêncio.
Helba percebeu.
Claro que percebeu.
Depois puxou uma folha da pasta.
Começou a escrever alguma coisa à mão.
Dobrou o papel cuidadosamente e entregou pra ela.
— Pra Miriam.
Rebeca olhou sem entender.
— O que é?
— Uma sugestão.
Naquela tarde, ela chegou na clínica segurando a carta junto das apostilas.
Encontrou Miriam perto da recepção.
— A Helba pediu pra te entregar isso.
Miriam pegou o envelope distraidamente.
Mas a expressão mudou conforme lia.
Uma vez.
Depois outra.
Rebeca esperou quieta.
— O que foi?
Miriam levantou os olhos devagar.
— Sua professora acha que você devia começar idiomas.
Silêncio curto.
— Idiomas?
— Inglês. Espanhol. Francês.
Rebeca arregalou os olhos.
— Tudo isso?
Miriam dobrou a carta com calma.
— Você quer?
A resposta veio rápido demais pra ser pensada.
— Quero.
E alguma coisa no sorriso imediato dela decidiu o resto.
Miriam pegou o celular ali mesmo.
— Então vamos resolver isso.
E, de repente, os dias ficaram pequenos.
Muito pequenos.
Toda tarde, Rebeca chegava na clínica quase correndo.
Mal tinha tempo de se despedir de Tia Lígia e já começava a dar as notícias para Luma ou para Miriam ou para as duas
— Como foi hoje?
E aí vinha.
O discurso.
Sempre o discurso.
Sobre uma aula.
Uma música.
Uma palavra nova em francês.
Uma professora engraçada.
Uma teoria que tinha deixado ela fascinada.
Às vezes falava tão rápido que atropelava metade das frases.
— E você sabia que violão dói os dedos no começo? Mas a professora disse que depois cria calo e para de doer e—
— Respira, criatura — ria Miriam.
Então Rebeca corria pro descanso.
Comia alguma coisa quase sem parar sentada.
E saía outra vez.
Às vezes carregando o violão nas costas.
Às vezes abraçada em apostilas grandes demais.
Às vezes os dois.
E existia uma felicidade muito específica no jeito como ela atravessava a rua.
Como alguém que finalmente tinha começado a imaginar futuro.
***
Janis, por outro lado, tinha tempo de sobra e passava as tardes esticada no sofá da casa da avó.
Sem aula naquele horário.
Sem compromisso.
Sem nada específico pra fazer.
Na quarta-feira, Maria Helena encontrou ela girando uma caneta entre os dedos e encarando o teto como quem planejava derrubar um governo.
— Você tá me deixando nervosa.
Janis nem piscou.
— Eu tô entediada.
— Piorou.
Ela tentou obedecer à rotina.
Tentou mesmo.
Fez tarefa.
Copiou matéria.
Estudou.
Sobreviveu.
Sem pular nenhum muro.
Mas ainda sobrava energia.
Muita.
E energia demais dentro da Janis quase sempre virava problema.
Na quinta-feira, Maria Helena largou uma xícara de café na frente dela.
— Arruma um trabalho.
Janis ergueu uma sobrancelha.
— Isso foi um conselho ou uma ameaça?
— Os dois.
A avó sentou na poltrona.
— Menina parada faz besteira.
Janis abriu a boca pra discordar.
Depois fechou.
Porque, infelizmente…
a velha tinha um ponto.
Mais tarde, Janis saiu de casa com o skate debaixo do braço.
Sem plano.
Sem destino.
O Galo estava trabalhando na oficina do pai.
Lara ainda estava irritada o suficiente pra responder as mensagens dela com um joinha.
Então sobrou aquilo.
Rua.
Vento.
E tempo demais.
Ela passou a tarde inteira rodando pelo bairro.
Descendo calçada.
Errando manobra.
Parando em praça.
Comprando refrigerante quente numa vendinha.
Depois voltando pro skate como se estivesse tentando gastar alguma coisa que não acabava nunca.
Então, parou numa padaria.
Mais pelo cheiro do que pela fome.
Ficou alguns segundos olhando o movimento lá dentro.
Gente entrando.
Gente saindo.
Uma atendente passando correndo com uma bandeja.
E então ouviu:
— Não, o Renato pediu demissão e eu ainda não achei ninguém.
Janis virou o rosto.
O dono da padaria estava atrás do balcão, claramente estressado, falando com uma mulher enquanto tentava embalar pão ao mesmo tempo.
— Porque ninguém quer trabalhar em padaria! — reclamou o homem atrás do balcão, tentando atender três pessoas ao mesmo tempo.
Janis, parada perto da estufa de salgados, inclinou levemente a cabeça.
— Tá pra mim.
O homem olhou.
Confuso.
— O quê?
— O emprego.
Ela apoiou o skate na parede.
— Eu tenho experiência no assunto.
O padeiro cruzou os braços.
Claramente cético.
— Ah, tem?
— Na minha antiga cidade eu trabalhava numa padaria.
Pausa dramática.
— Funcionária exemplar.
— Sei.
Janis estreitou os olhos.
Ofendida de mentira.
— Não acredita?
Ela apontou pro balcão.
— Vamos fazer um teste.
A mulher do caixa já estava segurando o riso.
O dono ainda parecia dividido entre:
“isso é irresponsável”
E
“eu realmente preciso de ajuda”.
Cinco minutos depois, Janis estava de avental.
E touca.
O skate encostado perto da cozinha.
Ela não era ruim.
O que era irritante.
Aprendeu rápido onde ficavam as coisas.
Decorou os pedidos.
Conseguiu operar a máquina de café sem explodir nada.
E ainda conversava com os clientes como se trabalhasse ali há meses.
— Dois sonhos e um pingado.
— Marchando.
— Menina, me vê quatro pão francês.
— Crocante ou normal?
— Tem diferença?
— Psicologicamente, sim.
A senhora começou a rir.
As horas passaram.
E Janis não voltou pra casa.
Maria Helena ligou uma vez.
Duas.
Três.
Nada.
A senhora desligou o celular devagar.
Já irritada.
— Nossa Senhora Aparecida…
Pegou a bolsa.
Saiu.
Ela começou a procurar pelo bairro inteiro.
Praça.
Lanchonete.
Mercado.
Centro comunitário.
Sorveteria.
Nada.
Até passar na frente da padaria.
E parar.
Lá dentro.
Janis.
De avental.
Touca.
Emburrada porque alguém tinha pedido café descafeinado.
Maria Helena ficou olhando por alguns segundos.
Processando a cena.
Então entrou.
— Menina encapetada!
Janis virou na hora.
— O quê? Tô trabalhando.
A senhora abriu a boca pra brigar.
Parou.
Respirou.
Reconsiderou.
— Você podia ter avisado.
— Ah…
Janis deu de ombros.
— Foi meio espontâneo.
Maria Helena fechou os olhos por um instante.
Aceitando o próprio destino.
Depois abriu a bolsinha de dinheiro.
— Já que eu tô aqui…
Olhou para a vitrine.
— Me vê um pão doce.
Janis abriu um sorriso lento.
Vitorioso.
— Recheado ou simples?
— Não abusa da sorte.
***
E em algum momento entre aulas, apostilas, padaria, violão e tarefas…
surgiu a rotina das ligações.
Porque mensagem aparentemente não era suficiente.
Janis ligava pra reclamar de cliente chato.
Rebeca ligava pra contar alguma teoria nova que tinha aprendido.
Às vezes uma esquecia completamente o motivo da ligação no meio da conversa.
E continuavam mesmo assim.
Como se cada acontecimento pequeno do dia precisasse existir nas duas ao mesmo tempo.
— Até que horas você tem que trabalhar amanhã? — perguntou Rebeca, já deitada de bruços na cama.
— Até uma da tarde.
— Que saco…
Janis riu do outro lado da ligação.
— Mas a padaria é pertinho. Em quinze minutos eu tô aí.
E aquilo já tinha sido combinado antes.
Elas só precisavam ouvir de novo.
— Tá bem… Tô com saudade.
O sorriso apareceu na voz da Janis antes mesmo da resposta.
— Eu também.
Miriam, que terminava o jantar na cozinha, ergueu a voz:
— Eu também. Vocês conversam tanto que eu já me sinto íntima da Janis.
Rebeca arregalou os olhos.
— Você ouviu isso?
— Ouvi — respondeu Janis imediatamente. — Que atrevida.
Rebeca começou a rir quase na mesma hora.
— O jantar tá pronto.
Rebeca suspirou baixinho.
— Eu tenho que ir.
— Tá bem — disse Janis. — A gente se fala depois.
A ligação terminou.
Mas a conversa não.
Entre uma garfada e outra, Rebeca digitava mensagens quase na velocidade do pensamento.
Miriam observou por alguns segundos em silêncio.
Então pegou o próprio celular.
E ligou.
Ao ver o visor acender com o nome da tia, Rebeca olhou para o aparelho.
Depois levantou os olhos devagar na direção dela.
Miriam apoiou o queixo na mão.
— Que tal guardar essa coisa enquanto come?
Pausa.
— Eu sou boa em muita coisa.
Outra pausa.
— Mas não em desengasgar adolescentes apaixonadas.
Fim do capítulo
A partir daqui uma nova fase começa na vida da Janis e da Rebeca.
Talvez menos sobre sobreviver.
E mais sobre descobrir quem elas podem se tornar.
Novas rotinas.
Novos sonhos.
Novos medos.
Novos começos.
Mas ainda com aquilo que sempre trouxe as duas até aqui:
amor, cuidado… e a estranha habilidade de transformar até os dias comuns em alguma coisa inesquecível.
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HelOliveira
Em: 10/05/2026
Muito bom, vamos para essa nova fase delas...
Elin Varen
Em: 11/05/2026
Autora da história
Fico muito feliz que esteja acompanhando essa nova fase com elas.
Depois de tudo o que aconteceu, esse começo diferente carrega muitos desafios… mas também novas possibilidades.
Obrigada por seguir junto nessa caminhada
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Elin Varen Em: 11/05/2026 Autora da história
Pode deixar que as emoções vêm aí
Muito obrigada pelo carinho e por acompanhar a história tão de perto.
E espero que o seu domingo também tenha sido maravilhoso