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  • Capítulo 49 - Não imaginei que desse pra melhorar o que já era perfeito

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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 1246
Acessos: 75   |  Postado em: 08/05/2026

Capítulo 49 - Não imaginei que desse pra melhorar o que já era perfeito

Capítulo 49 - Não imaginei que desse para melhorar o que já era perfeito. 
 
A perua parou com um leve solavanco. 
Rebeca já estava pronta. 
Mochila no colo. 
Olhos atentos. 
Assim que a porta abriu, ela desceu rápido — não correndo, mas com aquela pressa contida de quem tem coisa demais pra contar. 
Entrou pela recepção sem hesitar. 
O barulho das crianças continuava. 
Mas ela nem percebeu direito. 
— Luma! 
Passou pelo balcão como se já fosse de casa. 
— Foi muito legal! 
A mochila ainda no ombro, quase escorregando. 
— As aulas foram ótimas, as professoras foram super gentis comigo… 
Respirou. 
E já continuou: 
— E a Helba — meu Deus — a aula com ela foi maravilhosa! 
Um meio riso escapou. 
— E a tia Lígia também! Ela me deixou sentar na frente na perua… 
Pausa curta. 
— E o melhor! A tia Lígia disse que o banco da frente é meu. Ela vai reservar pra mim! E eu ganhei balas! 
Levantou o saquinho, orgulhosa. 
— Olha! 
Luma ouviu tudo. 
Com calma. 
Sem interromper. 
Esperando. 
Até que: 
— Você pode pegar um café pra mim? 
Simples. 
Rebeca piscou. 
— Claro. 
Ajustou a mochila. 
Virou. 
E foi. 
Abriu a porta do descanso. 
— Ei, esquilinho. Você demorou. 
Rebeca parou. 
O corpo inteiro. 
Como se tivesse esbarrado em algo invisível. 
Os olhos focaram. 
E então, Janis. 
Ali. 
— Rebeca… tá tudo bem? 
A mochila escorregou do ombro. 
Caiu no chão sem cerimônia. 
Rebeca não respondeu. 
Só foi. 
Direto. 
Abraçou. 
Forte. 
Sem medida. 
Como se estivesse confirmando que ela era real. 
Que não tinha ido embora. 
Que ainda estava ali. 
Janis demorou meio segundo. 
E então segurou de volta. 
Do mesmo jeito. 
Sem economizar. 
E, por um instante, nenhuma das duas precisava dizer nada. 
O abraço apertou mais. 
E então— 
quebrou. 
Não de afastar. 
De ceder. 
O corpo da Rebeca amoleceu contra o da Janis. 
E o choro veio. 
Sem aviso. 
Sem controle. 
Forte. 
Desorganizado. 
Como se tudo que ela vinha segurando há dias — talvez mais — tivesse finalmente encontrado uma saída. 
Janis não tentou interromper. 
Nem perguntar. 
Só segurou. 
Uma mão nas costas. 
A outra firme no braço dela. 
Presente. 
Rebeca respirava entrecortado, tentando falar no meio das lágrimas. 
— Eu… 
Não conseguiu. 
Tentou de novo. 
— Eu achei que… 
A voz falhou. 
Ela riu chorando. 
Fraca. 
Sem sentido. 
E então, depois de um tempo que parecia maior do que era, ela se afastou um pouco. 
Só o suficiente pra olhar. 
Os olhos ainda cheios. 
O rosto molhado. 
Como se ainda não confiasse totalmente no que estava vendo. 
— Você é real? 
Janis inclinou a cabeça, um meio sorriso aparecendo. 
— Real. 
Pausa curta. 
— E importante. 
Olhou de leve em direção à porta. 
— Pode perguntar pra moça da recepção. Ela confirma. 
Um quase riso escapou da Rebeca no meio do choro. 
Pequeno. 
Mas ali. 
Janis levantou a mão e limpou uma lágrima do rosto dela, com o polegar. 
— Eu tô aqui. 
Simples. 
Sem exagero. 
E, pela primeira vez desde que tudo começou— 
Rebeca acreditou. 
Ainda abraçadas, Janis se afastou só o suficiente pra conseguir olhar pra ela. 
Primeiro devagar. Como quem observa. 
O cabelo curto. As mechas azuis. O esmalte escuro já um pouco descascado nas pontas. A camiseta larga. O jeito diferente de ocupar o próprio corpo. 
E então alguma coisa mudou no olhar dela. 
A curiosidade carinhosa foi desaparecendo aos poucos. 
Virando outra coisa. 
Mais funda. Mais silenciosa. 
Amor. 
Daquele tipo sincero que simplesmente acontece antes da pessoa perceber. 
Janis passou o polegar devagar pela mão dela. 
— Não imaginei que desse pra melhorar o que já era perfeito. 
Rebeca parou de respirar por um segundo. 
Literalmente. 
O rosto começou a esquentar quase na mesma hora. 
— Janis… 
Ela sorriu pequeno. Sem deboche dessa vez. 
Só verdade. 
Rebeca puxou Janis pela mão até o beliche. 
Se ajeitou. 
E puxou ela junto. 
As duas ficaram deitadas, de lado, encaixadas como se aquilo já fosse hábito — mesmo não sendo. 
Braço sobre braço. 
Respiração perto. 
Silêncio. 
Mas não vazio. 
Cheio. 
— Eu tenho tanta coisa pra te contar — murmurou Rebeca. 
— Eu também. 
E começaram. 
Falando baixo. 
Sem pressa. 
Uma coisa puxando a outra. 
Detalhes soltos. 
Momentos pequenos. 
Coisas que, pra qualquer outra pessoa, talvez nem importassem. 
Mas pra elas— 
tudo. 
O tempo passou sem aviso. 
Até que, de repente, Rebeca se lembrou. 
— Espera. 
Saiu do abraço só o suficiente pra pegar a mochila. 
Abriu. 
Começou a revirar. 
— Eu tava guardando isso… 
E foi tirando. 
Um doce. 
Outro. 
Mais um. 
Como se fosse um pequeno tesouro escondido. 
Janis levantou uma sobrancelha. 
— Você fez estoque? 
Rebeca deu um meio sorriso. 
— Planejamento. 
Janis riu pelo nariz. 
— Ainda bem. 
E puxou a própria mochila. 
— Porque eu também trouxe. 
Jogou os doces no meio. 
Balas. 
Chocolate. 
Mais chocolate. 
Rebeca arregalou levemente os olhos. 
— Você é maluca. 
— Eu sei. 
As duas se olharam. 
E então— 
começaram. 
Sem cerimônia. 
Sem regra. 
Dividindo. 
Experimentando. 
Rindo baixo entre uma coisa e outra. 
O açúcar tomando conta do momento. 
Do corpo. 
Do humor. 
Como se aquilo fosse suficiente. 
Como se, por um instante, 
não existisse mais nada pra resolver. 
Só aquele pedaço de tempo. 
Só elas. 
Ali. 
O açúcar fez efeito. 
E depois… 
o cansaço. 
As vozes foram diminuindo. 
As frases ficando mais curtas. 
Até que, silêncio. 
As duas acabaram cochilando ali mesmo. 
Ainda abraçadas. 
A porta abriu devagar. 
Miriam espiou. 
E então, movimento. 
Janis despertou de uma vez. 
Assustada. 
Tentou levantar rápido demais. 
— Ai! 
Bateu a cabeça no estrado de cima. 
Tentou sair do beliche: 
— Ai! 
Acertou a escada. 
Rebeca abriu os olhos no susto. 
Confusa. 
Janis, ainda se recompondo: 
— A gente não tava fazendo nada. 
Miriam ergueu uma sobrancelha. 
— Eu não acusei ninguém de coisa alguma. 
Rebeca começou a rir. 
Janis apontou pra ela, ainda meio zonza: 
— Sossega, esquilinho. 
As duas se ajeitaram. 
Juntaram os papéis de doce espalhados pelo colchão. 
Empurraram as embalagens pra dentro da mochila. 
Arrumaram o mínimo necessário. 
E saíram. 
No carro, Rebeca estava elétrica de novo. 
— Ela é como? Sua avó é brava? Ela gosta de música? 
Janis suspirou, olhando pela janela. 
— É melhor você controlar essa animação, rabinho de saia. 
Rebeca virou na hora. 
— Você me chamou de quê? 
Janis nem olhou pra ela. 
— Eu não te chamei de nada. 
Pausa. 
— Meu apelido oficial pra você é esquilinho. 
Miriam, no banco da frente, mordeu o canto do lábio. 
Segurando o riso. 
Janis completou: 
— Quem te chamou de rabo de saia foi a minha vó. 
Rebeca piscou. 
— Por quê? 
Janis deu de ombros. 
— Acho que tem a ver com o fato de eu ter pulado o muro da escola pra te ver. 
Rebeca arregalou os olhos. 
— Eu não tenho culpa que você é irresponsável. 
Janis virou o rosto, séria de propósito: 
— Tem sim. 
Pausa. 
— Eu queria te impressionar. 
Um segundo. 
— Se não fosse por isso, eu não tinha cabulado aula. 
Rebeca ficou sem reação por meio segundo. 
Depois apontou o dedo: 
— Você trate de consertar isso. 
Mais firme: 
— Eu quero que a sua avó goste de mim. 
Miriam soltou um pequeno sopro pelo nariz. 
Quase um riso. 
Quando chegaram, Rebeca travou. 
De verdade. 
A empolgação evaporou na porta. 
Janis abriu o portão. 
— Vem. 
A voz saiu leve. 
Como se não fosse nada. 
Mas ela mesma desacelerou o passo. 
Dona Maria Helena já estava ali. 
Braços cruzados. 
Esperando. 
Assim que viu Janis, estreitou os olhos. 
— Menina sem vergonha. 
Abriu o portão. 
— Entrem. 
Olhou para Miriam e Rebeca. 
— Fiquem à vontade. 
Miriam fez um gesto leve com a cabeça. 
— Eu agradeço, mas nós vamos voltar. Está tarde. 
A senhora assentiu. 
— Peço desculpas pela minha neta. 
Olhou de lado para Janis. 
— Primeira terça-feira na minha casa e ela já deu trabalho pro resto do ano. 
Miriam deu um meio sorriso. 
— Coisa da idade. 
— É — concordou a avó. — Infelizmente. 
Então os olhos dela foram para Rebeca. 
Pararam. 
Avaliaram. 
Um segundo a mais. 
— Pudera… 
Aproximou um pouco. 
— Uma menina bonita dessas vira a cabeça de qualquer um. 
Rebeca ficou vermelha. 
Até a raiz do cabelo. 
Sem saber onde enfiar o rosto. 
— No próximo sábado você pode vir aqui — continuou a senhora, tranquila. 
Pausa. 
— Até lá… 
Olhou para Janis. 
— A senhorita aventureira, que não quer ser chamada de Marie… 
Um pequeno sorriso sem humor. 
— vai ficar de castigo. 
Janis respirou fundo. 
— Sim, senhora. Aprendi a lição. 
A avó arqueou a sobrancelha. 
— Aprendendo ou não… 
Deu um passo à frente. 
— Eu vou ficar de olho no muro da escola. 
Silêncio. 
— Se você pular pra fora… 
Outro passo. 
— eu te pego com um cabo de vassoura. 
Rebeca arregalou os olhos. 
Janis assentiu. 
Séria. 
— Justo. 
Do lado de fora, Miriam observava. 
Em silêncio. 
E, por algum motivo, sorriu. 
Miriam abriu a porta do carro. 
Janis já ia entrando, quando: 
— Janis. 
Ela virou. 
Miriam tirou um cartão do bolso. 
Estendeu. 
— Da próxima vez… 
Pausa leve. 
— ...me avisa. 
Outro meio segundo. 
— E eu faço um bolo. 
Janis pegou o cartão. 
Ergueu uma sobrancelha. 
— Bolo de limão… com cobertura? 
Miriam já entrando no carro: 
— Vou pensar no seu caso. 
A porta fechou. 
Janis olhou o cartão por um instante. 
Um sorriso pequeno. 
Guardou no bolso. 
Como quem guarda mais do que papel.

 

Fim do capítulo


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Comentários para 49 - Capítulo 49 - Não imaginei que desse pra melhorar o que já era perfeito:
Socorro
Socorro

Em: 08/05/2026

aHahahahaha,

Especial demais essas duas ... O amor é muito mais do que uma simples emoção, ele é ação, entrega e transformação. 

 


Elin Varen

Elin Varen Em: 08/05/2026 Autora da história
E acho que é justamente isso que torna as duas tão especiais pra mim.

Porque o sentimento entre elas nunca ficou só nas palavras. Ele aparece no cuidado, na paciência, nas mudanças que uma desperta na outra… no jeito como as duas continuam crescendo sem perceber que já transformaram a vida uma da outra há muito tempo.


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HelOliveira
HelOliveira

Em: 08/05/2026

Que momento leve, gostoso, elas são muito lindas 


Elin Varen

Elin Varen Em: 08/05/2026 Autora da história
Eu amo quando elas conseguem simplesmente existir juntas assim!

Sem drama enorme. Sem precisar provar nada. Só aquele tipo de companhia que faz tudo ficar mais leve, mais quente, mais bonito.


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