Capitulo 61 - Sutileza Um, Janis Zero
Capítulo 61 – Sutileza Um, Janis Zero.
Quando amanheceu, Miriam foi a primeira a acordar.
Saiu do quarto ainda sonolenta.
O cabelo preso de qualquer jeito.
E caminhou até a sala esperando encontrar algum nível novo de desastre.
Parou na entrada.
Observou por alguns segundos.
Então suspirou:
— Meu Deus.
Porque apenas uma coisa tinha mudado.
Agora Rebeca estava agarrada no pé da Janis.
Com as duas mãos.
Como se aquilo fosse emocionalmente importante para a sobrevivência dela.
De resto…
Continuavam completamente tortas.
Janis ainda metade caída no sofá.
Rebeca ocupando uma posição incompatível com anatomia humana.
Miriam simplesmente desistiu de entender.
Foi para a cozinha.
Fez café.
Tomou a primeira xícara em silêncio absoluto.
Depois a segunda.
Só então ouviu um resmungo vindo da sala.
Janis acordou primeiro.
Piscou lentamente para o teto.
Claramente confusa.
— O que aconteceu?
Silêncio.
— Aonde eu tô?
Tentou se mover.
Puxou a perna sem perceber que Rebeca ainda estava agarrada nela.
Imediatamente:
— Hmngh…
Rebeca acordou assustada.
Ainda meio dormindo, Janis olhou para baixo.
— Ah... Oi, Rebeca.
A outra piscou algumas vezes.
Claramente sem processar a realidade ainda.
Janis tentou levantar.
Péssima decisão.
O corpo inteiro travou no meio do movimento.
E ela simplesmente despencou do sofá.
— AI MEU DEUS.
O barulho ecoou pela sala.
Na cozinha, Miriam tomou mais um gole de café sem nem virar o rosto.
Rebeca tentou ajudar.
Só que as próprias pernas também não estavam funcionando mais.
Ela fez força para mexer.
Nada.
Mais força.
As pernas simplesmente desabaram tortas de volta no sofá.
— AI!
Janis continuava caída no chão.
— Pelo menos você caiu no macio.
Rebeca encarou Janis por dois segundos.
Depois começou a rir.
Janis também.
As duas ainda quebradas fisicamente no meio da sala.
Miriam finalmente apareceu na porta da cozinha segurando a caneca.
Observou a cena.
Então perguntou calmamente:
— Querem que eu ligue pra emergência?
Janis tentava levantar com a dignidade possível.
O que não era muita.
— Não é má ideia.
Conseguiu ficar de pé.
Imediatamente fez uma cara sofrida.
— Meu quadril tá fazendo barulho.
Rebeca continuava presa no sofá.
Ainda tentando convencer as pernas a funcionarem outra vez.
— Que horas a gente vai pra praia?
Janis virou o rosto na hora.
— Foco, Rebeca!
Apontou dramaticamente para as duas.
— Primeiro a gente vai precisar fazer fisioterapia.
Rebeca começou a rir de novo.
O que piorou tudo imediatamente.
Porque agora a barriga doía também.
Miriam tomou outro gole de café.
Observando o caos com absoluta serenidade.
— Isso acontece quando duas pessoas tentam dormir dobradas igual origami.
Janis, depois de alguns alongamentos profundamente dramáticos e duas reclamações sobre “morte precoce da coluna”, conseguiu voltar a andar quase normalmente.
Então estendeu a mão para Rebeca.
— Vem.
Rebeca aceitou imediatamente.
Tentou levantar sozinha.
Falhou miseravelmente.
— AI.
— Isso. Vai xingando os próprios joelhos. Tenho certeza que ajuda.
Aos trancos e barrancos, as duas finalmente chegaram até a cozinha.
Miriam observava tudo em silêncio enquanto terminava o próprio café.
Como uma pesquisadora acompanhando duas espécies recém-descobertas.
Janis abriu o armário.
Pegou pão.
Manteiga.
Serviu café.
Rebeca apareceu logo depois com uma tigela enorme de cereal de mel e leite.
As duas sentaram lado a lado na bancada.
Silêncio confortável.
Então Janis arrancou um pedaço do pão e estendeu na direção dela.
— Prova.
Rebeca mordeu.
Pensou seriamente por dois segundos.
— Bom.
Então pegou uma colherada de cereal e levou até a boca da Janis.
— Agora isso.
Janis aceitou automaticamente.
Mastigou.
— Bom.
Depois disso, o negócio simplesmente perdeu qualquer estrutura social normal.
Rebeca pegou a caneca de café da Janis e tomou um gole.
Janis, sem nem pensar, pegou a tigela de cereal dela e bebeu um pouco do leite.
Tudo acontecendo com a naturalidade absurda de quem já tinha esquecido completamente que existia conceito de “coisa individual”.
Miriam observava em silêncio absoluto.
Os olhos indo lentamente de uma para a outra.
Então perguntou:
— Vocês ensaiaram isso?
As duas viraram ao mesmo tempo.
Visivelmente confusas.
— A senhora tá falando do quê?
Miriam sustentou o olhar por alguns segundos.
Depois simplesmente tomou o resto do café.
— Nada.
E foi pegar mais café, como se não tivesse acabado de testemunhar o nível mais avançado possível de namoro doméstico.
Depois do café, Miriam recolheu a própria xícara.
— Certo.
Olhou para as duas.
— Vão se trocar antes que o sol fique forte demais.
Janis levantou imediatamente.
Rebeca também levantou.
Mas rápido demais.
Como quem queria escapar antes do próprio cérebro começar a pensar.
Entrou no quarto.
Fechou a porta.
E alguns segundos depois, a do banheiro também.
Silêncio.
Do lado de fora, Janis percebeu que Rebeca não saía.
Entrou no quarto dela e sentou na cama.
Olhou para a porta fechada do banheiro.
— Rebeca?
Silêncio.
— Você tá bem?
Lá dentro, Rebeca encarava o próprio reflexo no espelho.
Os braços cruzados sobre o corpo.
O biquíni parecia pequeno demais.
Exposto demais.
Ela puxou a toalha da pia automaticamente.
Como se pudesse se esconder dentro dela.
— Tô.
A resposta saiu rápida demais.
— Eu não acredito que você tá passando maquiagem pra ir pra praia.
A resposta veio abafada do outro lado da porta:
— Eu vou sair, mas fecha os olhos.
Janis soltou uma risada.
— O quê?
— AGORA, JANIS!
O tom fez a Janis endireitar a postura imediatamente.
— Tá bom, tá bom. Já fechei.
A porta do banheiro abriu devagar.
Janis ouviu passos pequenos atravessando o quarto.
Hesitantes.
— Ainda fechados? — perguntou Rebeca.
— Sim.
— Não vale espiar.
— Meu Deus do céu…
— Janis.
— Tá. Não vou espiar.
Mais alguns segundos.
Então:
— Pode abrir.
Janis abriu os olhos.
E o mundo parou.
— Uau.
A palavra escapou antes que ela pudesse impedir.
Rebeca ficou imediatamente nervosa.
O biquíni escolhido pela Miriam era bonito sem ser exagerado. Delicado. Elegante. A cor deixava a pele da Rebeca ainda mais quente sob a luz do quarto.
Mas o pior não era isso.
Era a própria Rebeca ali, tímida, claramente desconfortável, braços próximos do corpo e esperando julgamento.
E Janis simplesmente… olhava.
Como alguém que acabou de encontrar um copo de água gelada depois de atravessar um deserto inteiro.
O pensamento surgiu.
E ela imediatamente quis morrer.
O silêncio demorou tempo demais.
Aí a Janis percebeu que ainda estava encarando.
E começou a ficar vermelha.
Devagar.
Subindo pelo pescoço.
Pelas orelhas.
Até chegar na raiz do cabelo.
A ansiedade da Rebeca piorou instantaneamente.
— Tá estranho, não tá? Eu sabia. Ficou horrível. Talvez esteja muito apertado. Ou claro demais. Meu Deus, eu devia ter trazido uma saída de praia. A tia Miriam falou que tava bonito, mas ela escolheu, então claramente ela é suspeita e...
Ela finalmente parou pra respirar.
Janis ainda parecia incapaz de formar frases completas.
Porque ela ainda estava presa no corpo da Rebeca.
Olhando demais.
Rebeca franziu a testa, nervosa.
— Janis?
Janis piscou como quem voltava pro próprio corpo.
— Você tá…
Ela limpou a garganta.
Tentou de novo.
— Você tá linda.
A Rebeca arregalou os olhos.
Porque agora ela sabia.
Sabia exatamente o que aquela expressão significava.
— Janis…
E pronto.
A Rebeca ficou completamente vermelha.
Então vieram os risinhos.
Aqueles risinhos tímidos e felizes que ela nunca conseguia controlar.
A porta do quarto abriu naquele instante.
— Vocês desistiram da pra...
Miriam parou.
Olhou pras duas.
Pra Janis destruída emocionalmente.
Pra Rebeca brilhando de felicidade.
Silêncio.
Então colocou a mão na cintura.
— Meu Deus.
Janis levantou tão rápido que quase tropeçou.
— Eu espero vocês lá fora.
E praticamente fugiu do quarto.
Rebeca olhou pra Miriam ainda rindo baixinho.
Ainda vermelha.
Ainda sorrindo sem conseguir evitar.
Então virou lentamente pra Miriam.
— Ela disse que eu estou linda.
Miriam cruzou os braços.
— Imagino que sim.
Rebeca começou a rir outra vez, escondendo o rosto nas mãos.
Miriam balançou a cabeça, já derrotada.
— Rebeca… você ainda vai matar aquela menina.
A praia estava quase vazia naquela hora.
As ondas quebravam devagar na praia quase vazia.
Miriam lia tranquilamente embaixo do guarda-sol enquanto Janis desenhava distraidamente na areia com a ponta do dedo.
Uma estrela torta.
Depois outra.
Ao lado dela, Rebeca observava o mar com os joelhos dobrados contra o peito.
O vento bagunçava o cabelo dela de um jeito que já estava começando a atrapalhar seriamente a estabilidade emocional da Janis.
Rebeca soltou um suspiro feliz.
— Eu não podia imaginar que praia fosse tão gostosa…
Janis olhou pra ela.
Molhada de mar.
Cabelo bagunçado pelo vento.
Biquíni.
Olhinhos brilhando de felicidade.
E respondeu sem pensar:
— As duas são.
Silêncio.
Rebeca virou o rosto lentamente.
— As duas quem?
A mão da Janis parou no meio da estrela.
E ela começou a ficar vermelha.
Muito vermelha.
— Ah… Não... Quero dizer…
Miriam virou uma página do livro calmamente.
— Sutileza um. Janis zero.
— O quê? Não! É que…
Ao lado dela, Rebeca começou com os risinhos outra vez.
Aqueles risinhos pequenos, nervosos e felizes.
E foi ficando vermelha junto.
Janis olhou pra ela por um segundo.
E piorou tudo.
Porque agora a Rebeca sabia.
Antes que a Miriam pudesse continuar destruindo o resto da dignidade dela, Janis levantou abruptamente e pegou Rebeca pelo braço.
— Vem.
Rebeca foi atrás dela quase tropeçando na própria risada.
— Janis…
— Sossega, esquilinho.
— Não sou eu quem precisa sossegar.
Janis ficou ainda mais vermelha.
O que obviamente fez a Rebeca rir mais.
As duas continuaram andando pela areia até ficarem longe o bastante do guarda-sol e dos comentários da Miriam.
Aos poucos, os risinhos da Rebeca foram diminuindo.
Ela respirou fundo, ainda sorrindo.
— Tá…
Olhou pro mar.
Depois pra Janis.
— O que você quer fazer?
Janis enfiou as mãos nos bolsos do short e olhou pro horizonte por alguns segundos antes de responder:
— O que eu quero não tem muita importância agora.
Rebeca virou o rosto imediatamente.
— Não?
Janis percebeu tarde demais o que tinha acabado de dizer.
Ela limpou a garganta.
— Melhor a gente pensar no que pode fazer.
Rebeca franziu a testa.
— Não entendi.
Janis finalmente olhou pra ela.
Ainda vermelha até a alma.
— A gente tá em público, Rebeca.
O silêncio durou exatamente dois segundos.
Então a Rebeca entendeu.
E começaram os risinhos outra vez.
As duas ficaram alguns segundos andando pela areia sem conseguir olhar direito uma pra outra.
O vento continuava forte.
As ondas quebravam perto dos pés delas.
Rebeca ainda tentava parar de rir.
Sem sucesso.
— Você fica muito vermelha.
Janis enfiou ainda mais as mãos no bolso do short.
— E você acha isso engraçado demais.
— Acho fofo.
Janis virou o rosto imediatamente.
— Rebeca.
A outra começou a rir outra vez.
Então uma onda avançou mais rápido pela areia e molhou os pés delas.
Gelada.
Rebeca deu um gritinho.
— Meu Deus!
Janis finalmente riu também.
— Você já tá na praia há horas e continua surpresa que existe água.
— Ela continua gelada!
Outra onda veio.
Rebeca pulou pra trás.
Escorregou levemente.
Janis segurou o braço dela por reflexo.
As duas pararam muito perto outra vez.
Silêncio.
Aquela tensão voltou instantaneamente.
Só um pouquinho.
O vento bagunçando o cabelo da Rebeca.
As mãos da Janis ainda segurando o braço dela.
O olhar descendo sem querer.
Subindo rápido demais depois.
Rebeca percebeu.
E ficou vermelha de novo.
Janis soltou o braço dela imediatamente.
— Foi mal.
— Pelo quê?
Janis abriu a boca.
Fechou.
Porque explicar aquilo parecia impossível.
Então Rebeca resolveu salvar as duas da própria crise emocional.
Abaixou rapidamente.
Pegou água com as duas mãos.
E jogou em Janis.
Silêncio.
Janis piscou devagar.
A camiseta agora molhada.
— Você acabou de cometer um erro estratégico.
Rebeca arregalou os olhos.
— Janis…
Tarde demais.
Janis avançou na direção dela.
Rebeca gritou e saiu correndo pela areia enquanto ria sem conseguir respirar direito.
As duas começaram uma guerra completamente idiota.
Jogavam água uma na outra.
Tentavam empurrar a outra pras ondas.
Escapavam correndo.
Escorregavam.
Tropeçavam.
Até que uma onda maior pegou as duas de surpresa.
As pernas perderam o equilíbrio ao mesmo tempo.
E elas caíram juntas na água rasa.
O choque gelado arrancou um grito sincronizado das duas.
Depois silêncio.
Porque agora estavam encharcadas, descabeladas e praticamente emboladas na areia molhada.
Janis olhou pra Rebeca.
Rebeca olhou pra Janis.
E as duas começaram a rir tão forte que mal conseguiam levantar
As duas ainda estavam tentando recuperar a dignidade depois da queda na água quando ouviram a voz da Miriam mais ao longe:
— Meninas!
Janis levantou o rosto imediatamente.
Miriam fechava o livro enquanto recolhia as coisas do guarda-sol.
— Vamos almoçar antes que vocês duas virem hipotermia emocional.
Rebeca começou a rir outra vez.
Janis se levantou primeiro.
Estendeu a mão pra ajudar ela.
— Você tá cheia de areia.
Rebeca olhou pro próprio braço.
— Você também.
— Então estamos equilibradas.
O restaurante ficava praticamente de frente pra praia.
Tinha janelas enormes.
Toalhas de mesa claras.
Taças delicadas demais.
E garçons silenciosos que pareciam deslizar ao invés de andar.
Janis diminuiu a velocidade imediatamente.
— Ah não.
Miriam nem olhou pra trás.
— Ah sim.
Janis observou o ambiente com crescente preocupação.
— Esse tipo de lugar usa três garfos diferentes.
— E você pretende lutar contra algum deles?
Rebeca tentou esconder a risada.
Falhou miseravelmente.
Quando sentaram, Janis pegou o cardápio.
Silêncio.
Mais silêncio.
Então:
— Eu não faço ideia do que metade dessas palavras significa.
Miriam pegou o próprio cardápio com absoluta tranquilidade.
— É peixe.
— Tudo?
— Basicamente.
Rebeca inclinou o rosto pra perto do cardápio dela.
— Esse aqui parece bom.
Janis estreitou os olhos.
— Isso é francês?
— Acho que sim.
— Restaurante metido é um negócio muito cansativo.
Miriam tomou um gole de água sem perder a compostura.
— Você sobrevive.
Janis suspirou dramaticamente.
— Se eu desaparecer misteriosamente depois do almoço, foi o garçom que percebeu que eu não pertenço a esse ecossistema.
Janis pediu peixe.
Rebeca pediu camarão empanado.
Nos primeiros cinco minutos, cada uma comeu a própria comida normalmente.
Nos cinco seguintes, os pratos já tinham virado patrimônio coletivo.
— Prova isso.
— Espera, pega esse aqui.
— Com o molho fica melhor.
— Rebeca, você roubou meu peixe.
— Nosso peixe.
Miriam observava tudo em silêncio enquanto bebia refrigerante.
Em determinado momento, Janis pegou um camarão do prato da Rebeca.
Dois segundos depois, Rebeca roubou batata frita dela em retaliação emocional.
Miriam apoiou o queixo na mão.
Assistindo aquilo como um documentário.
Então, sem falar nada, esticou a mão.
E pegou uma batata do prato da Rebeca.
A garota parou imediatamente.
Olhou para o espaço que a batata ocupava.
Depois pra Miriam.
Silêncio.
Miriam mastigou com absoluta tranquilidade.
— O que foi?
Rebeca estreitou os olhos.
— Engraçadinha.
Miriam deu de ombros.
— Eu não queria ficar de fora.
Pegou o guardanapo com calma.
— Apenas manifestando o grande amor que tenho por você.
Pausa.
— Como você e Janis estão fazendo uma pela outra.
Janis imediatamente começou a rir.
Rebeca afundou na cadeira.
Miriam tomou um gole do refrigerante sem perder a compostura.
E roubou outra batata.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 25/05/2026
Essa história está muito gostosa....dou muita risada dessas duas junto com Miriam
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Elin Varen Em: 25/05/2026 Autora da história
Fico muito feliz que esteja gostando!
Essa viagem virou oficialmente um surto coletivo supervisionado pela Miriam.
E pior que a Janis estava certa… as duas são gostosas mesmo:
a praia e a história!