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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 3134
Acessos: 80   |  Postado em: 04/05/2026

Capitulo 45 - Onde a Vida Acontece

Capítulo 45 – Onde a Vida Acontece

 

Tempo presente.

Manhã de sábado.

Luz entrando pelas frestas da cortina.

Convites espalhados na cômoda.

Os da família Valente separados em uma pilha.

Rebeca abriu os olhos primeiro.

Virou para o lado.

Janis ainda dormia profundamente, toda espalhada.

Rebeca cutucou o ombro dela.

— Janis...

Nada.

Cutucou de novo.

— Janis...

— Hm?

— Eu tô com fome.

Janis nem abriu os olhos.

— E eu com isso?

— Vai fazer café pra mim.

Janis nem abriu os olhos.

— Eu vou pedir o divórcio.

— Eu vou negar.

Silêncio.

— Amor.

Janis puxou o travesseiro sobre a cabeça.

Rebeca aproximou o rosto.

Em um tom de voz doce e arrastado:

— Pooor favooor...

Janis soltou um palavrão cansado.

Sentou na cama.

Começou a recolher a própria roupa do chão.

— Você vai ter que me compensar por isso.

Rebeca respondeu sem nenhuma vergonha:

— Eu compenso.

Janis parou.

— Isso quase funcionou.

Saiu do quarto.

Rebeca olhou para o pijama no chão.

Ignorou.

Abriu o guarda-roupa.

Pegou uma camiseta de Janis.

Depois uma boxer.

Vestiu como se fosse dela desde sempre.

Quando chegou à cozinha, Janis já colocava café na mesa.

Rebeca sentou satisfeita.

— Sabia que você me ama.

Janis virou a xícara.

— Estou tentando.

Janis empurrou o prato na direção dela.

Um pão na chapa, dourado na medida certa, ainda soltando um leve vapor. Ao lado, duas bolachinhas de ursinho apoiadas como se estivessem “sentadas” encostadas na borda do prato. E, no meio, quase sem querer — ou talvez exatamente querendo — um pedacinho de papel dobrado servindo de apoio, com um risco torto de caneta, como se tivesse sido feito na pressa.

Rebeca olhou.

Depois olhou de novo.

Ergueu uma sobrancelha.

— Isso aqui é um ursinho?

Janis nem levantou o olhar.
— Era o que tinha.

Rebeca pegou uma das bolachinhas, girando entre os dedos.

— Claro… totalmente aleatório.

Deu uma mordida devagar, ainda olhando pra Janis por cima da xícara de café.

— Muito bom, inclusive.

Janis sentou na frente dela, cruzando os braços, ainda com aquele resto de mau humor que não convencia ninguém.

— Não acostuma.

Rebeca sorriu, soprando o café.

— Tarde demais.

Janis observou em silêncio por alguns segundos.

O jeito como a Rebeca demorava demais em cada gesto.
Como não parava quieta nem sentada.
O olhar vivo demais pra quem tinha acabado de acordar.

Ela apoiou a xícara na mesa.

— Você não desligou ainda, né?

Rebeca mordeu a bolachinha, sem pressa.

— Desligar é superestimado.

Janis soltou um sopro curto de riso pelo nariz.

Inclinou um pouco a cabeça, avaliando melhor.

— Dá pra ver.

Rebeca ergueu os olhos, divertida.

— Tá me analisando?

Janis ignorou a provocação.

Ficou mais um segundo em silêncio, como se decidisse alguma coisa.

Então se levantou.

— Termina isso.

Rebeca franziu levemente a testa.

— Por quê?

Janis já estava pegando a própria xícara.

— Porque a gente vai tomar um banho.

Rebeca apoiou o cotovelo na mesa, interessada na hora.

— Agora?

Janis deu de ombros, simples.

— Ou você prefere ficar andando pela casa que nem um furacão?

Rebeca sorriu devagar.

— Depende…

Janis lançou um olhar de lado.

— Do quê?

— Do tipo de banho que você tá propondo.

Um segundo de silêncio.

Janis segurou o olhar dela.

Sem pressa.

— Um longo.

Rebeca inclinou a cabeça, satisfeita.

— Gostei do planejamento.

Janis virou já saindo da cozinha.

— Cinco minutos.

Rebeca olhou pro prato.

Depois pra saída.

Depois de volta pro prato.

Pegou a última bolachinha de ursinho e levantou.

— Eu tô indo.

Janis nem virou.

Mas o canto da boca entregou.

— Eu sei.

Janis diminuiu o passo.

— A gente não pode se atrasar.

Rebeca encostou no batente da porta, ainda mastigando.

— Hm?

Janis lançou um olhar por cima do ombro.

— Minha avó tá esperando.

Rebeca deu de ombros, tranquila.

— A gente chega.

Janis segurou o olhar dela por um segundo a mais.

— Não é assim que funciona com a dona Maria Helena.

Silêncio curto.

Rebeca inclinou a cabeça, curiosa.

— Ela vai brigar comigo?

Janis virou de lado, quase sorrindo.

— Com você, não.

Rebeca estreitou os olhos.

— Então eu tô tranquila.

Janis soltou um sopro leve pelo nariz.

— Eu não disse isso.

Um segundo.

Rebeca deu mais um passo, diminuindo a distância.

— Então a gente tem quanto tempo?

Janis avaliou.

Rápido.

Calculando de verdade.

— Dez minutos.

Rebeca sorriu, satisfeita.

— Dá e sobra.

Janis virou de vez, indo na frente.

— Você que acha.

Rebeca foi atrás, leve, quase rindo.

— Eu adoro quando você finge que tá no controle.

Janis não respondeu.

Mas dessa vez… não negou.

***

A casa já cheirava a almoço desde cedo.

Maria Helena, mais velha agora, mas ainda firme no passo, terminava de desenformar o pudim de leite condensado favorito da Rebeca.

Glória secava pratos ao lado.

— Tá rindo sozinha de novo — comentou.

— Tô feliz com o silêncio antes da bagunça.

A campainha tocou.

Maria Helena se ajeitou inteira em dois segundos.

Quando Janis e Rebeca entraram, ela cruzou os braços.

— Finalmente as celebridades chegaram!

Rebeca riu na hora.

— Vó...

— Eu já estava quase sentando na mesa pra almoçar sozinha.

Glória arregalou os olhos.

— Sua velhinha falsa! Tava mais do que satisfeita cinco segundos atrás.

— Você fica quieta, Glória.

Apontou o dedo.

— Eu tô na minha casa e posso fazer o que eu quiser.

Janis largou a bolsa e abriu os braços.

— A gente também estava com saudades.

Maria Helena ignorou o gesto.

— Você nem lembra que tem avó.

Rebeca entrou no meio.

— A gente veio ver a senhora no domingo.

— E daí?

Pegou o pano de prato dramaticamente.

— Eu tô velha. É um milagre não ter morrido durante a semana.

Glória quase caiu na pia de tanto rir.

Janis abraçou a avó à força.

— Infelizmente sobreviveu.

— Solta, demônia.

Rebeca já procurava a geladeira.

— O pudim tá pronto?

Maria Helena virou o rosto na hora.

— Pelo menos uma me respeita.

A discussão ainda corria solta quando o portão abriu de novo.

Gordo entrou carregando uma bacia enorme coberta por papel-alumínio, de onde saía cheiro de churrasco.

Janis abriu um sorriso.

— Ué... por que o senhor não assou a carne aqui?

Ele nem teve tempo de responder.

Maria Helena falou da cozinha:

— Porque eu não queria minhas cortinas com cheiro de fumaça.

Gordo virou lentamente o rosto para a mãe.

Olhar atravessado.

Ela continuou sem medo algum:

— E espero que a carne não tenha ficado queimada.

Silêncio curto.

Gordo apoiou a bacia na mesa.

— Fica de malcriação que eu escondo a dentadura da senhora.

Glória soltou uma gargalhada.

Rebeca quase engasgou rindo.

Maria Helena apontou a colher de pau.

— Faz isso pra você ver se eu não conto pra Glória que você arrumou o carro daquela vigarista que trabalha no mercado do Seu Gilson.

Gordo travou.

Janis arregalou os olhos.

— Ihhh.

Rebeca já sentando à mesa:

— Eu amo essa família.

A casa já estava cheia quando a campainha tocou.

Glória apareceu primeiro no corredor, enxugando as mãos no pano de prato, sem muita pressa.

— Deve ser ele.

Antes mesmo de abrir totalmente a porta, ela já escutava a voz do lado de fora.

— Calma, Leninha… entra direito…

A porta abriu.

Leninha não entrou.

Ela invadiu.

Passou direto por Glória como um furacão pequeno, com os sapatos trocados e um laço torto que parecia ter perdido qualquer batalha no caminho.

— Cheguei!

Ninguém tinha perguntado.

Galo entrou logo atrás, já com cara de quem sabia que tinha perdido o controle da situação no portão.

— Eu tentei arrumar…

Glória cruzou os braços.

— Tentou mesmo.

Leninha já estava no meio da sala, girando sozinha, rindo, completamente dona do ambiente.

Na mesa, Rebeca acompanhava a cena com um sorriso aberto, quase cúmplice.

Janis, ao lado, só observava.

Silenciosa.

Registrando.

Do outro lado, sentada como se fosse o centro natural daquele caos, Maria Helena ergueu o olhar.

E, pela primeira vez desde que Leninha entrou…

sorriu.

— Vem cá, meu bem.

Leninha não precisou ouvir duas vezes.

Correu na direção dela, ainda meio torta, tropeçando no próprio entusiasmo.

Foi assim que tudo começou a sair do controle.

Leninha corria pela sala com sapatos trocados nos pés e um laço torto no cabelo.

Glória viu a terceira bala sendo entregue escondida.

— Maria Helena! A menina já comeu doce demais.

Maria Helena puxou Leninha para perto da cadeira.

— A casa é minha.

Entregou mais um chocolatinho discretamente.

— E aqui ela pode fazer o que quiser.

Glória colocou as mãos na cintura.

— Depois quem aguenta ela acelerada sou eu.

Maria Helena apontou para a porta.

— Quer brigar com a menina, Glória?

Pausa dramática.

— Leva ela pra sua casa.

Leninha já desembrulhava o chocolate feliz.

— Toma mais um, meu bem.

Galo entrou e viu a cena.

— Mãe...

— Fica quieto você também.

Rebeca ria da mesa.

Janis murmurou:

— A velha perdeu completamente a autoridade.

Rebeca corrigiu:

— Não.

Olhou para Maria Helena no trono improvisado da cadeira.

— Ela só mudou de lado.

Glória ainda discutia sobre o chocolatinho.

Maria Helena ignorava solenemente.

Gordo largou a carne na mesa e balançou a cabeça.

— A velha usa a escritura como um rei usa uma coroa.

Silêncio de um segundo.

Rebeca começou a rir.

Janis quase engasgou.

Glória bateu no braço dele.

— Respeita sua mãe.

Maria Helena ergueu o queixo.

— Errado ele não tá.

Todos pararam.

Ela completou:

— E quem manda aqui sou eu mesmo.

Leninha bateu palmas sem entender nada.

Glória bateu levemente as mãos uma na outra, chamando atenção.

— Agora que estamos todos aqui… vamos almoçar.

As cadeiras começaram a arrastar.

Pratos sendo organizados.

Leninha ainda rodopiando pela sala, com um chocolatinho na mão.

Janis puxou a cadeira, mas antes de sentar, perguntou:

— A Lara não vem?

Glória respondeu sem olhar, já servindo a mesa:

— Não. Tá em um simpósio. Coisa do doutorado.

Janis assentiu de leve.

Sentou.

Pegou os talheres.

Então lançou um olhar rápido pra Rebeca, de lado.

— Que pena…

Pausa curta.

— Não vai ter ninguém pra ficar batendo boca com você hoje.

O canto da boca da Rebeca levantou.

Mas ela não respondeu.

Só pegou o copo.

Como se tivesse escolhido, conscientemente, não entrar.

Janis percebeu.

Ficou um segundo a mais olhando.

Quase esperando.

Nada.

Rebeca apenas tomou um gole de água, tranquila.

Janis desviou o olhar.

— Estranho.

Quase pra si mesma.

Depois do almoço, a mesa ainda cheia de pratos e gente falando alto.

O pudim brilhava no centro como peça principal.

Rebeca encostada no sofá.

Janis largada ao lado, em paz rara.

Rebeca olhou para a travessa.

Depois para Janis.

— Pega mais pudim pra mim.

Janis nem virou o rosto.

— Não se atreva a gem*r.

Rebeca respirou fundo.

Veio a voz doce, lenta, arrastada:

— Pooor favooor...

Janis fechou os olhos.

— Eu odeio quando você faz isso.

Antes que pudesse continuar, Maria Helena apareceu da cozinha com pano de prato no ombro.

— Janis!

A sala inteira silenciou.

— A menina precisa se humilhar pra você tirar esse rabo do sofá e tratar ela com carinho?

Glória começou a rir na mesma hora.

Gordo bateu na mesa.

Leninha repetiu:

— Rabo do sofá!

Janis levantou indignada.

— Isso é perseguição.

Maria Helena apontou para o pudim.

— E capricha na calda.

Rebeca cruzou as pernas satisfeita.

— Obrigada, vó.

Janis passou por ela resmungando:

— Vocês duas são uma organização criminosa.

Antes de irem embora, as duas começaram a entregar os convites.

Janis ficou encostada, observando.

Rebeca caminhou até Maria Helena.

— Trouxe uma coisa pra senhora.

Entregou o envelope.

Maria Helena pegou com calma.

— Espero que tenha comida boa.

Abriu.

Leu.

Parou.

Os olhos encheram.

Ela levou a mão à boca.

Silêncio.

Ninguém entendeu de imediato.

Então as lágrimas começaram a cair.

De verdade.

— Eu…

A voz falhou.

— Eu vivi pra ver isso…

Olhou para as duas.

— Vocês duas…

Respirou fundo, tentando se recompor.

— Casando…

Pausa.

— Com direito a altar e tudo.

Rebeca ficou imóvel.

Sem saber o que fazer.

Maria Helena puxou ela para um abraço apertado.

— Minhas meninas…

Janis desviou o olhar por um segundo.

Engoliu seco.

***

No caminho, o carro seguia em silêncio por alguns segundos, cortando o fim de tarde que já começava a dourar as ruas.

— Não é melhor deixar pra outro dia? — Janis perguntou, sem tirar os olhos da estrada.

Rebeca nem hesitou:
— Não. Eu já combinei.

Janis soltou um riso curto, de canto de boca.
— Rebeca… seu saco sem fundo.

Rebeca virou o rosto, fingindo indignação, mas o sorriso escapava fácil.
— Respeite meus traumas.

Janis apenas meneou a cabeça, acostumada, e continuou dirigindo. O silêncio que voltou não era pesado — era confortável, daqueles que não precisam ser preenchidos.

Alguns minutos depois, ela estacionou.

Desligou o carro, apoiou as mãos no volante e disse, com leve ironia:
— Ainda bem que a gente não precisa pagar a conta.

Rebeca sorriu de lado, já abrindo a porta.
— Você fala isso toda vez.

— E toda vez continua sendo verdade.

As duas desceram.

A fachada da cafeteria era simples, mas acolhedora. Luz quente escapava pelas janelas. Plantas decoravam a entrada. Um letreiro discreto. Nada chamativo — mas convidativo.

Rebeca não diminuiu o passo.

Empurrou a porta com a familiaridade de quem já não pede licença.

O som suave de xícaras, uma música baixa ao fundo, o cheiro de café e chocolate quente preenchiam o ambiente.

Atrás do balcão, Rute levantou o olhar.

Por um segundo, foi só reconhecimento.

No segundo seguinte, veio o sorriso — daqueles que começam nos olhos.

— Você não tem o que fazer na sua casa, fedorentinha?

Rebeca encostou no balcão, como se sempre tivesse pertencido ali.
— Eu também te amo.

Janis soltou um riso baixo, observando a cena.

Rute fingiu um suspiro de impaciência, virou-se e desapareceu para a parte de trás. Alguns segundos depois, voltou com uma leiteira fumegante e uma travessa generosa de cookies.

Colocou tudo na mesa mais próxima.

— Já que você não vai embora mesmo…

Puxou a cadeira e sentou com elas.

Rebeca pegou um cookie, mordeu sem cerimônia e apoiou o convite sobre a mesa, deslizando até a irmã.

— A gente veio entregar isso.

Rute limpou as mãos no avental antes de pegar o envelope. Abriu com calma. Leu.

O sorriso voltou — mais quieto dessa vez.

— Vocês vão mesmo fazer isso…

Rebeca deu de ombros, mas os olhos brilhavam.
— Vamos.

Rute assentiu devagar, absorvendo o momento.

— Você vai tocar, não é? — Rebeca perguntou, como quem já sabia a resposta.

Rute ergueu uma sobrancelha.
— Para de se humilhar. Eu já disse que sim.

Janis apoiou o cotovelo na mesa.
— E o Josué?

— Ele entende.

— E os caras da igreja? Entendem também?

Rute deu um pequeno sorriso, tranquilo, quase leve demais para quem já teria se incomodado no passado.
— Se não entenderem… paciência. Não dá pra ser feliz e agradar todo mundo.

O silêncio que veio depois não era desconfortável. Era cheio.

Rebeca olhou ao redor da cafeteria. As luzes suaves. As plantas. As pessoas conversando sem pressa.

Depois voltou o olhar para a irmã.

E, dessa vez, não disse nada.

Mas o orgulho estava ali.

***

A noite já tinha tomado conta quando elas saíram da cafeteria.

O ar estava mais fresco, e a rua, mais silenciosa. Rebeca ainda segurava um restinho de cookie que tinha roubado “pra viagem”.

Entraram no carro.

Janis deu partida, ajeitou o volante e lançou um olhar rápido de lado.
— Então… casa?

Rebeca mastigou devagar, como quem pensa com a boca ocupada.
— Hm… não.

Janis soltou um suspiro curto.
— Rebeca…

— Você prometeu.

— Eu não prometi nada.

— Prometeu sim.

— Em que universo?

Rebeca virou o corpo um pouco no banco, apoiando o cotovelo na porta, já sorrindo daquele jeito suspeito.
— No universo em que você disse “a gente vê isso depois”.

Janis arqueou a sobrancelha.
— Isso não é promessa.

— Pra mim é.

— Claro que é.

Rebeca segurou o riso.
— Vamos lá…

— Já está tarde.

— Por favor… é só um pouquinho.

— Você não quer estar toda machucada no nosso casamento, não é?

— Eu não vou me machucar.

Janis lançou um olhar rápido pra ela.
— Você sempre fala isso antes de se machucar.

Rebeca fez um biquinho dramático.
— Amor…

Janis já sabia que vinha coisa.
— Não.

— Faz tanto tempo que a gente não faz…

Janis soltou um riso pelo nariz, balançando a cabeça.
— Você é muito cara de pau.

— Funciona.

— Não devia.

— Mas funciona.

Silêncio por dois segundos.

Janis respirou fundo, virou o volante na próxima esquina sem avisar.

Rebeca abriu um sorriso vitorioso.
— Eu sabia.

— Não comemora ainda.

— Já estou comemorando.

— Eu ainda posso mudar de ideia.

— Não pode mais.

Janis estacionou perto da pista. Desligou o carro e ficou alguns segundos olhando pra frente, como quem aceita o próprio destino.

— Tá… vamos cair na pista.

Rebeca já estava abrindo a porta.
— Eu te amo.

— Eu sei.

Elas pegaram os skates no porta-malas.

A pista estava quase vazia. Algumas luzes acesas, o concreto ainda guardando o calor do dia.

Rebeca subiu primeiro, testando o equilíbrio.
— Nossa… eu ainda sei fazer isso.

Janis cruzou os braços.
— A gente vai descobrir em três… dois…

Rebeca ignorou. Deu impulso, ganhou velocidade e tentou uma manobra simples.

Simples demais, aparentemente.

O skate escapou.

E ela foi direto pro chão.

Um “tum” seco ecoou na pista.

Silêncio.

Janis fechou os olhos por um segundo, como quem já esperava.
— Eu contei dois.

Rebeca soltou um gemido dramático, ainda deitada.
— Eu odeio você.

Janis se aproximou, olhando de cima.
— Tá feliz agora?

Rebeca virou o rosto, apoiando a cabeça no braço, com um sorriso teimoso.
— Tô.

Janis estendeu a mão.
— Levanta antes que alguém filme isso.

Rebeca segurou, sendo puxada de volta.
— Se filmar, eu vou querer o vídeo.

— Claro que vai.

Rebeca voltou pro skate, mais cautelosa dessa vez.
— Só mais uma.

Janis riu baixo, pegando o dela também.
— Você nunca aprende.

— Aprendo sim.

— Não aprende.

Rebeca deu impulso de novo, mais devagar.
— Dessa vez vai.

Janis observou, balançando a cabeça, mas sorrindo.

— Vai nada.

E mesmo assim, foi atrás dela.

 

 

 

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