Capitulo 46 - Recordações
Capítulo 46 – Recordações.
Rebeca estava sentada na cama, com as fotos espalhadas ao redor.
Não organizadas.
Só… próximas.
Ela pegou a primeira.
Um sorriso pequeno apareceu.
— Oi, Rute…
O polegar passou de leve pela borda da foto, quase como um carinho.
Deixou ao lado.
Pegou outra.
Dessa vez demorou mais.
Os dedos tocaram o rosto da Débora com cuidado, desenhando o contorno devagar.
Respirou.
Então puxou outra.
Janis. Ester. Ela.
Um bolinho na frente.
Duas velinhas.
Um riso curto escapou.
E, antes de pensar muito, ela abraçou a foto contra o peito.
Ficou assim por um instante.
Depois soltou.
A batida na porta veio suave.
— Rebeca… tá tudo bem?
Ela limpou o canto do olho com o dorso da mão.
— Tá… — a voz saiu meio embargada — tô sim.
A porta abriu.
Miriam entrou sem pressa, observando primeiro as fotos espalhadas, depois ela.
Não perguntou mais nada.
Só sentou na cama.
Rebeca puxou uma foto.
— Olha essa…
Ainda tinha um restinho de emoção na voz.
Mas foi passando.
— Essa aqui foi poucos dias depois de eu cortar a franja sozinha. Minha mãe quase morreu de susto quando viu.
Um sorriso apareceu.
Já puxou outra.
— Aqui foi quando eu comecei a ter aula de música. Eu achei que ia ficar tão boa quanto a Rute…
Deu um sorrisinho de canto.
— Ela é muito boa. Aprendeu muito rápido.
Outra.
— Essa aqui foi quando eu ganhei meu teclado. Eu não dormi direito esse dia.
Passou o dedo pela borda, distraída — e já pegou outra.
— Aqui… tentando fazer bolo. Não deu certo.
E mais uma, colando na anterior:
— E aqui é a minha mãe tirando as partes queimadas pra aproveitar.
Um riso curto.
— Ela não desperdiçava nada.
O ritmo começou a acelerar.
— Essa aqui— olha isso — eu tava usando os sapatos da minha mãe…
Virou a foto, rindo.
— Eu caí da escada logo depois.
Nem esperou.
Já puxou outra.
— Aqui foi num piquenique no parque, com as crianças da igreja— as formigas morderam a perna da Rute, ela ficou toda inchada, você não tá entendendo—
Uma careta, rindo junto.
— Ela chorou tanto…
Outra.
— Aqui eu tava tentando aprender bambolê— eu me empolguei e joguei ele no telhado do vizinho—
Olhou pra Miriam, indignada até hoje.
— Ele não quis devolver.
E mais uma.
— E aqui… eu tava fazendo uma casinha de boneca—
Um riso preso.
— Eu inventei de fazer um fogãozinho de papelão…
Respirou pelo nariz.
— E coloquei fogo.
Um segundo.
— Minha mãe desmontou a casa inteira depois disso.
Ela já estava falando rápido demais, puxando uma foto atrás da outra, quase sem respirar.
— E essa aqui— e essa— e essa—
Parou de repente.
Como se o ar tivesse acabado.
Olhou pra Miriam.
— Nossa… eu tô falando demais, né?
Miriam deu um meio sorriso.
— Tá.
Uma pausa pequena.
— Mas pode continuar.
Rebeca soltou um riso leve, balançando a cabeça.
Pegou outra foto.
— Olha essa…
Ela, Ester e Janis.
Um bolinho.
Duas velinhas.
— Eu não lembro direito desse dia… mas eu lembro que foi bom.
Quando terminou, as fotos estavam espalhadas de novo.
Mas agora… vivas.
Ela ficou em silêncio por um momento.
Então levantou o olhar.
Parou em um espaço vazio da parede.
Ficou ali.
Respirou.
— …tia…
Miriam virou levemente o rosto.
— Sim?
— Eu vi uma coisa em um filme…
Um canto de sorriso apareceu na Miriam.
— Acho que em mais de um filme.
Rebeca riu.
— É… provavelmente.
Um pequeno silêncio confortável.
Então Miriam se levantou.
— O almoço tá pronto. Quer comer aqui ou prefere ir direto pro shopping?
***
O shopping estava cheio.
Rebeca andava na frente, entrando e saindo das lojas como se estivesse numa missão muito específica — mas sem plano nenhum.
— Esse aqui é muito pequeno.
— Você nem mediu a parede.
— Não precisa medir, eu sinto.
Miriam soltou um riso baixo.
— Você vai encher isso em dois dias.
— Desafio aceito.
Acabaram escolhendo um mural simples, com espaço suficiente pra crescer.
— Isso aqui não é um mural — Rebeca disse, já carregando a caixa — é um projeto de vida.
Também passaram numa loja pra fazer cópias das fotos.
— Melhor a gente fazer cópias — Miriam sugeriu, já separando algumas com cuidado.
Rebeca franziu a testa.
— Pra quê?
— Segurança.
Rebeca virou o rosto devagar na direção da atendente… e ficou encarando com um olhar desconfiado.
A mulher sorriu, sem graça.
— Não se preocupe — Miriam disse, tranquila. — Ela vai ser cuidadosa.
Rebeca inclinou a cabeça.
— Espero que sim.
Uma pausa.
— Porque se acontecer alguma coisa—
— Não vai acontecer — Miriam respondeu, firme, mas suave.
Rebeca ainda sustentou o olhar por um segundo.
Depois cedeu.
— Tá.
Mas continuou de olho.
***
De volta em casa, o silêncio parecia outro.
Rebeca subiu com o mural, equilibrando do jeito que dava.
— Eu vou pegar a caixa de ferramentas — Miriam disse, ficando pra trás.
— Tem certeza que sabe usar isso? — veio a voz lá de cima.
Quando entrou no quarto, já com a furadeira na mão:
— Tenho.
O som da furadeira preencheu o espaço por alguns segundos.
Rebeca observava.
— …ok. Eu tô impressionada.
Miriam sorriu de canto.
— Eu sou cheia de talentos escondidos.
Um pequeno silêncio.
— Inclusive… posso te ensinar.
Rebeca não respondeu. Só sorriu.
Quando o mural ficou no lugar, as duas deram alguns passos pra trás.
— Tá torto?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Tá perfeito.
E então começou.
Dessa vez, mais calma.
Escolhendo.
Posicionando.
Respirando entre uma e outra.
Rebeca ficou com a foto na mão por um instante, olhando o mural já quase cheio.
Os olhos passearam pelas imagens.
Pararam.
Pensaram.
— …agora a gente precisa de fotos nossas.
Não foi uma pergunta.
Foi constatação.
Miriam não respondeu na hora.
Só observou ela por um segundo — como se estivesse medindo aquela frase.
Então assentiu, leve.
— Sim.
Se levantou.
— Espera aqui.
Rebeca nem respondeu. Só acompanhou com o olhar… e, um segundo depois, foi atrás mesmo assim.
O quarto da Miriam tinha outro ritmo.
Mais organizado. Mais contido.
Ela foi direto até o closet e puxou uma caixa grande, dessas que claramente não são abertas com frequência — mas também não são esquecidas.
Colocou sobre a cama.
Por um segundo, ficou com a mão na tampa. Como se medisse o tempo.
Então abriu.
Álbuns. Vários.
Rebeca se aproximou, já inclinando o corpo pra olhar melhor.
— Você tem tudo isso guardado?
Miriam não respondeu de imediato. Só passou os dedos pela lateral de um dos álbuns antes de puxá-lo.
Abriu com cuidado.
Folheou uma, duas páginas…
E parou.
Tirou uma foto.
Ficou com ela na mão por um instante, como se ainda estivesse decidindo alguma coisa — ou só lembrando.
Então estendeu.
Rebeca pegou.
E, por um segundo, não entendeu o que estava vendo.
Era um bebê.
Pequeno. Encolhido contra alguém.
Um dedinho apoiado na boca, como se tivesse sido capturado no meio de um gesto distraído. O rosto levemente virado… encostado no de Miriam.
Ela era mais nova na foto. O cabelo diferente. O olhar mais aberto.
Mas o que prendia mesmo não era isso.
Era a forma como ela segurava o bebê.
Com cuidado.
Com uma firmeza tranquila — como quem sabe exatamente o que está fazendo. Como quem não tem medo de deixar cair.
O braço protegendo, o corpo servindo de apoio, o rosto próximo demais pra ser só coincidência.
Íntimo demais.
Rebeca piscou.
Olhou de novo.
— …sou eu?
Miriam assentiu, quase imperceptível.
Rebeca demorou mais um pouco.
Como se estivesse tentando encaixar aquela imagem em algum lugar dentro dela.
— Você…
Ela não terminou.
Mas os olhos disseram o resto.
— Guardei — Miriam respondeu, com simplicidade.
Um pequeno silêncio se instalou entre as duas.
— Eu nunca vi isso… — a voz da Rebeca saiu mais baixa.
— Essa é uma cópia. — Miriam disse, tranquila. — A original eu deixo guardada.
Outro segundo.
— Mas essa pode ficar no seu mural.
Rebeca levantou o olhar pra ela.
Não disse nada.
Mas alguma coisa ali mudou de lugar.
De volta ao quarto, ela ficou parada diante do mural com a foto nas mãos.
Olhou os espaços.
Testou um canto.
Tirou.
Tentou outro.
Parou no meio do movimento.
E então colocou.
Perto da Débora. Perto da Ester.
Ajustou um pouco torto. Endireitou.
Deu dois passos pra trás.
— …aqui faz sentido.
Miriam observou em silêncio.
Desviou o olhar por um instante, como se precisasse de um segundo.
E voltou.
— Você tá cheia de pó — Rebeca comentou.
Miriam passou a mão no cabelo.
— Eu sei.
Um pequeno silêncio confortável.
— Quando eu estiver apresentável… — ela disse — a gente tira outras.
Rebeca olhou pra ela.
— Tá.
Então, olhou o mural mais uma vez.
Parou um segundo a mais naquela foto.
O quarto ficou quieto.
Mas o mural não.
Agora, ele contava uma história.
E, pela primeira vez… parecia inteira.
Fim do capítulo
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