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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 2256
Acessos: 71   |  Postado em: 06/05/2026

Capitulo 47 - Você é que tem que decidir quem quer ser

Capítulo 47 - Você é que tem que decidir quem quer ser.

 

O domingo terminou sem que ela percebesse. 
Os cadernos ainda estavam abertos sobre a cama, páginas marcadas, anotações apressadas, trechos sublinhados com cores diferentes como se aquilo, de alguma forma, pudesse organizar o caos na cabeça dela. Rebeca tinha passado o dia inteiro ali — relendo, repetindo, tentando fixar. Ainda assim, quando fechou o último caderno, a sensação veio inteira, pesada: 
ela não estava pronta. 
Na manhã de segunda, o corpo parecia mais cansado do que deveria. Como se estudar tivesse consumido mais do que tempo — tivesse drenado alguma coisa mais funda. Ela ficou sentada na beira da cama por alguns segundos, olhando pro nada, tentando lembrar por onde começar. 
O celular estava ao lado. 
Rebeca pegou. 
Desbloqueou. 
A conversa com Janis estava ali, no topo, como sempre. O nome dela parecia fácil demais. Seguro demais. O tipo de porto onde ela sabia que podia encostar sem pensar. 
O dedo dela parou sobre o ícone de ligação. 
Ficou ali. 
Um segundo. 
Dois. 
O coração começou a bater mais rápido, não pela prova — não só por ela. 
Se eu ouvir a voz dela… 
Rebeca engoliu em seco. 
Eu não vou conseguir ir. 
A ideia veio inteira, sem pedir licença. Clara. Inquestionável. 
Não era falta de vontade. Era o contrário. 
Era saber que, se Janis dissesse qualquer coisa — qualquer “vai dar certo”, qualquer riso leve, qualquer cuidado — alguma coisa dentro dela ia ceder. E ela não podia ceder agora. Não daquele jeito. 
Não hoje. 
O dedo recuou devagar. 
Ela bloqueou o celular, como se aquilo encerrasse também a possibilidade. 
Respirou fundo. 
Uma vez. 
Outra. 
E levantou. 
Miriam percebeu antes mesmo de perguntar. 
Foi no jeito que Rebeca entrou na cozinha, mais quieta do que o normal. No olhar que não se fixava em nada. Nos movimentos contidos, como se qualquer gesto em excesso pudesse desmontar alguma coisa. 
— Dormiu? — perguntou, com cuidado. 
Rebeca deu de ombros, pegando qualquer coisa pra comer. 
— Uhum. 
A resposta saiu curta. Fechada. 
Miriam sustentou o olhar por um segundo a mais. Era suficiente pra entender: não era hora de insistir. 
— Vai dar certo — disse apenas, com suavidade, sem carregar demais as palavras. 
Rebeca assentiu, mas não respondeu. 
E tudo bem. 
O silêncio não era rejeição. Era proteção. 
O caminho até a escola foi quase inteiro quieto. O som do carro preenchia os espaços, um ruído constante que ajudava a manter as coisas no lugar. De vez em quando, Miriam olhava de relance pra ela — não pra cobrar, não pra puxar conversa, mas pra garantir que ela ainda estava ali. 
Rebeca mantinha os olhos na janela, vendo a cidade passar sem realmente enxergar. 
Quando o carro parou, Miriam desligou o motor com calma. 
— Chegamos. 
Rebeca assentiu de novo. 
As duas desceram. 
Os passos até o prédio da coordenação foram lado a lado, num ritmo quase sincronizado. Nem rápidos demais, nem lentos. Como se aquele pequeno trajeto precisasse existir exatamente daquele jeito. 
Na porta, Rebeca parou. 
Por um instante, pareceu que ela ia dizer alguma coisa. 
Mas não disse. 
Miriam não pediu. 
Só se aproximou. 
O beijo veio leve, rápido, na testa. O abraço, não. 
O abraço foi firme. 
Apertado o suficiente pra segurar — mas não pra prender. 
Rebeca correspondeu, o corpo ainda tenso, mas presente. Ficou ali por um segundo a mais do que o habitual, como se puxasse daquele gesto alguma coisa que precisava levar com ela. 
Ar. 
Coragem. 
Ou só… chão. 
Quando se afastou, não olhou pra trás imediatamente. 
Respirou fundo. 
Ajustou a mochila no ombro. 
E entrou. 
Dali pra frente, era só ela. 
*** 
A secretaria não era muito diferente da outra. 
Janis percebeu isso antes mesmo de parar completamente na porta. 
Os mesmos cartazes coloridos demais, com frases motivacionais que ninguém levava a sério. As mesmas mesas cheias de papéis empilhados. As mesmas expressões cansadas — gente que claramente preferia estar em qualquer outro lugar. 
Talvez aquela fosse um pouco maior. 
E mais barulhenta. 
Um telefone tocava sem parar em algum canto. Alguém discutia sobre um documento perdido. Uma impressora rangia como se estivesse prestes a desistir da própria existência. 
Janis passou os olhos pelo ambiente com um certo desinteresse. 
Nada novo. 
Na mesa, a funcionária conferiu os documentos, leu o sobrenome e ergueu os olhos. 
— Meu Deus... 
Olhou para Janis. 
Depois para Dona Maria Helena. 
— Mais um membro da família Valente? 
Maria Helena puxou a cadeira e sentou como se estivesse em casa. 
— Vocês deviam ser gratos. 
A mulher piscou. 
— Gratos? 
— Ficam com eles só de segunda a sexta. 
Apontou com o polegar para trás, sem nem olhar para Janis. 
— Nós é que temos que aguentar as feras sete dias por semana. 
A secretária riu alto antes de conseguir se controlar. 
Janis cruzou os braços. 
— Isso aqui virou humilhação pública. 
Maria Helena continuou, impassível: 
— Essa aí ainda rosna quando acorda. 
— Vó. 
— Tô ajudando. 
Janis torceu o bico, desviando o olhar para o resto da sala outra vez. Duas meninas cochichavam perto da porta. Um garoto batucava na mesa com uma caneta. Nada ali parecia particularmente acolhedor. 
Só… normal. 
Quando a matrícula foi finalizada, a funcionária organizou os papéis e sorriu, já mais profissional. 
— Se vocês quiserem, posso mostrar a escola. 
Janis nem pensou duas vezes. 
— Não tem nada aí que eu já não tenha visto em outro lugar. 
Maria Helena assentiu, apoiando o cotovelo na mesa. 
— Sou obrigada a concordar com ela. 
A funcionária hesitou, sem saber se aquilo era sério ou não. 
Maria Helena continuou, tranquila: 
— Além disso, é melhor que vocês levem um pouquinho mais de tempo pra conhecer a peça. 
Janis virou o rosto na hora. 
— Vó! 
— Quero que a boa impressão que vocês possam ter tido dure pelo menos vinte e quatro horas. 
Janis apertou os lábios, segurando um sorriso que quase escapou. 
— Tô mentindo? — completou Maria Helena, dando de ombros. 
A funcionária soltou uma risadinha incerta. 
— Você pode começar amanhã. 
Janis apenas balançou a cabeça, ainda com o bico levemente torto. 
Definitivamente… nada novo. 
Na volta da escola, Janis entrou direto no quarto. 
Abriu o guarda-roupa. 
Empurrou roupas para o lado. 
Puxou a caixa escondida no fundo. 
Sentou na cama. 
Abriu. 
Notas dobradas. 
Moedas. 
Papéis inúteis. 
 
Depois pegou o diário de Rebeca. 
Janis pegou o caderno com cuidado. 
Ficou alguns segundos olhando a capa. 
Depois abriu. 
Folheou páginas cheias de letras apertadas, listas, desenhos nas margens e ideias antigas. 
Parou numa página específica. 
Plano. 
Itens riscados. 
Sonhos escritos com caneta colorida. 
Coisas possíveis e impossíveis misturadas. 
Ela encontrou a linha: 
Mudança pra capital 
Janis puxou uma caneta da caixa. 
Pensou um instante. 
Depois escreveu ao lado: 
“ok” 
Ficou olhando a palavra pequena. 
Não era exatamente verdade. 
Mas também não era mentira. 
Ela ainda não morava na capital. 
Só estava perto. 
Perto demais. 
E aquilo já era alguma coisa. 
Fechou o diário. 
Guardou dentro da mochila com cuidado. 
Depois contou o dinheiro. 
Passagem. 
Volta. 
Margem de erro. 
Sorriu de lado. 
Dava. 
*** 
A prova terminou sem alarde. 
Rebeca demorou alguns segundos a mais para levantar. Não porque ainda estivesse escrevendo — mas porque precisava ter certeza de que o corpo ia obedecer. 
Guardou o material devagar. 
Respirou fundo. 
E saiu. 
A sala onde Helba a recebeu era silenciosa demais para ser parte da escola. 
Não tinha o barulho dos corredores, nem o eco das vozes. Só o leve tilintar de uma xícara sendo apoiada no pires. 
— Sente. 
Rebeca sentou. 
Havia chá. 
Quente. Aromático. Calmo demais para o estado dela. 
Helba a observava com atenção, mas sem pressa. 
— Me diga… — começou, com naturalidade — o que você pretende fazer daqui a dez anos? 
Rebeca nem hesitou. 
— Eu não sei. 
A resposta saiu simples. Sem defesa. Sem enfeite. 
Helba assentiu, como se aquilo fosse exatamente o esperado. 
— Ótimo. 
E seguiu em frente. 
Não insistiu. Não corrigiu. Não tentou extrair mais do que havia sido oferecido. 
Pegou alguns papéis. 
— Vamos começar por aqui. 
A conversa virou outra coisa. 
Perguntas objetivas. Exercícios rápidos. Pequenos testes que não pareciam testes. 
Rebeca respondeu como pôde. Em alguns momentos, travava. Em outros, surpreendia até a si mesma. 
Helba anotava tudo. 
Sem julgamento. 
Sem elogios exagerados. 
Sem pressão. 
Quando terminou, organizou os papéis com precisão. 
— Quem virá te buscar? 
— Minha tia. 
— Ótimo. Preciso falar com ela. 
Na portaria, Miriam já estava lá. 
Pontual, como sempre. 
Rebeca entrou no carro primeiro, ainda com a cabeça cheia demais para falar. 
Antes que a porta fechasse completamente, Helba se aproximou da janela. 
— Vocês têm algum compromisso mais tarde? 
Miriam pensou por um segundo. 
— Não. 
Helba pegou um pequeno pedaço de papel e entregou a ela. 
— Esteja nesse endereço às vinte horas. 
Miriam leu, surpresa. 
— Tenho algo para mostrar à Rebeca. 
— Claro — respondeu, com um sorriso educado. 
Helba assentiu e se afastou. 
Rebeca, do banco do passageiro, já estava inclinada na direção do papel. 
— O que é? 
Miriam ergueu uma sobrancelha, guardando o endereço. 
— Você vai descobrir. 
*** 
Janis mandou só uma mensagem: 
“Me liga depois da prova.”. 
Ela passou o resto do tempo fingindo não olhar o celular. 
Quando a ligação veio, atendeu no primeiro toque. 
— E aí? 
Rebeca começou sem respirar. 
Falou da prova enorme. 
Do tanto de páginas. 
Do nervosismo. 
Da mão suando. 
Da sensação de ter ido mal em tudo. 
Da certeza de que esqueceria o próprio nome no nivelamento. 
Janis ouviu deitada na cama, olhando o teto. 
— Você tá dramatizando. 
— Não tô! 
— Tá sim. 
— Janis, eu quase morri. 
— Sobreviveu. Próximo tópico. 
Rebeca bufou. 
Depois continuou: 
— Hoje conheci a Helba. 
Janis abriu um olho. 
— Quem? 
— Uma professora. Diferente. Gostei dela. 
— Isso é raro. 
— Ela deu um endereço pra tia Miriam. 
— Endereço de quê? 
— Não sei. Hoje à noite a gente vai lá ver. 
Janis ficou casual demais de propósito. 
— Ah. 
Silêncio breve. 
— E o consultório da Miriam fica num lugar legal? 
— Fica. 
— Tipo legal como? 
— Normal, ué. 
— Nome da rua? 
— Pra quê? 
Janis bocejou teatralmente. 
— Curiosidade. 
— Você é estranha. 
— Responde. 
Rebeca respondeu. 
Janis guardou cada detalhe. 
Depois ficaram mais alguns minutos falando de nada. 
Quando desligaram, Janis sentou na cama na mesma hora. 
Pegou mais uma vez a caixa de sapato com dinheiro. 
Contou tudo de novo. 
Abriu o celular. 
Pesquisou a rua. 
Pesquisou ônibus. 
Pesquisou horários. 
Pesquisou caminho a pé. 
Sorriu de lado. 
Dava. 
No dia seguinte, ela iria. 
*** 
Miriam já estava pronta para sair quando o celular tocou. 
Ela olhou o número. 
Atendeu. 
— Alô? 
— Senhora Miriam? Aqui é a professora Márcia. 
— Sim. 
— Estou ligando sobre a sondagem da Rebeca. 
Um pequeno silêncio. 
— Ela foi muito bem. 
Miriam soltou o ar, quase sem perceber. 
— Fico feliz em saber. 
— Inclusive, ela está apta a se juntar à turma regular. 
Pausa. 
— Mas gostaria de lhe dar uma escolha. 
Miriam apoiou a mão na mesa. 
— Pode falar. 
— Podemos fazer a integração imediata… 
Outro intervalo. 
— ...ou iniciar com aulas de nivelamento por um período. 
Silêncio. 
Curto. 
Suficiente. 
— Nivelamento. 
Direto. 
— Ela está pronta intelectualmente… 
O olhar de Miriam deslizou até Rebeca, que esperava, distraída com a bolsa a tiracolo. 
— ...mas ainda não está emocionalmente. 
— Entendo — respondeu Márcia. — Vou encaminhar os horários por e-mail. As aulas começam amanhã, às oito. 
— Perfeito. Obrigada. 
A ligação terminou. 
Miriam guardou o celular. 
— Vamos? 
*** 
As horas demoraram a passar. 
Demais. 
O prédio era antigo. 
Elegante de um jeito discreto. 
Quando chegaram, Helba já estava esperando. 
— Venham comigo. 
Não passaram pela entrada principal. 
Seguiram por uma porta lateral. 
O corredor era estreito, mal iluminado. O tipo de lugar que parecia existir só para quem sabia onde estava indo. 
E então, o som. 
Um piano. 
Rebeca parou por meio segundo. 
Depois começou a andar. 
Não porque Helba indicou. 
Mas porque o som puxava. 
Cada nota parecia encontrar alguma coisa dentro dela que ela não sabia nomear. 
Quando deram por si, estavam atrás do palco. 
A sala de concertos se abria à frente, imensa. 
No palco, uma mulher tocava. 
Sozinha. 
Não havia plateia. 
Não havia aplauso. 
Só música. 
Rebeca não procurou lugar para sentar. 
Nem percebeu que não havia. 
Ficou ali. 
Parada. 
O tempo deixou de importar. 
A música preencheu tudo. 
Quando a última nota se dissolveu no ar, o silêncio que veio depois parecia ainda maior. 
A mulher no piano respirou fundo. 
Virou levemente o rosto. 
E então viu. 
— Helba? 
Um sorriso pequeno surgiu. 
Os olhos dela deslizaram até Rebeca. 
— E essa aqui? — perguntou, com leve curiosidade. — Minha irmãzinha caçula? 
Helba não mudou a expressão. 
— Não seja sentimental. 
Rebeca nem percebeu a troca. 
Ainda estava presa em algum lugar entre a última nota… e o que quer que tivesse despertado dentro dela. 
A mulher no piano fechou a tampa do instrumento com cuidado, como se encerrasse um ritual. 
Desceu do banco ainda olhando para Helba, mas a atenção logo voltou para Rebeca. 
— Você toca? 
A pergunta veio simples. 
Rebeca hesitou por um segundo. 
Não por não saber a resposta. 
Mas porque, ali, parecia diferente. 
Ainda assim, assentiu. 
— Toco. 
A mulher sorriu de lado, dando um pequeno passo para se afastar do piano. 
— Então vem. 
Não havia desafio na voz. 
Nem teste. 
Só um convite. 
Rebeca olhou rapidamente para Helba. 
Nenhuma reação. 
Nenhuma instrução. 
Então ela foi. 
Subiu os poucos degraus até o palco como quem faz algo que já conhece — mesmo que o lugar fosse novo. 
Sentou-se. 
Ajustou a postura. 
As mãos pairaram sobre as teclas por um instante. 
E então, tocou. 
Não era sobre impressionar. 
Não era sobre provar nada. 
Era só… familiar. 
Algo que o corpo dela sabia fazer sem precisar pedir permissão. 
As notas saíram limpas, seguras, com pequenas imperfeições que não tiravam a verdade do som. 
Atrás, a mulher se inclinou levemente na direção de Helba, falando baixo: 
— Ela é boa. 
Helba manteve os olhos em Rebeca. 
— Eu não precisei ouvir pra saber. 
Um pequeno silêncio. 
— O olhar dela já diz muito. 
A música terminou sem pressa. 
Rebeca tirou as mãos do piano devagar, como se ainda estivesse dentro daquilo por mais um segundo. 
Quando se levantou, não procurou aprovação. 
Só desceu. 
Na saída, o ar da noite parecia mais frio. 
Mais real. 
Helba caminhava ao lado dela, em silêncio. 
Até parar. 
— O que você achou? 
Rebeca não demorou. 
— Eu gostei muito. 
Helba assentiu. 
— Então… vou refazer a minha pergunta. 
Rebeca olhou para ela. 
— O que você vai fazer daqui a dez anos? 
O silêncio veio mais longo dessa vez. 
Rebeca parou. 
O olhar voltou, por instinto, para o teatro atrás delas. 
— A senhora quer que eu seja como ela? 
Helba respondeu sem hesitar: 
— Não. 
Um pequeno intervalo. 
— Eu não quero nada. 
Rebeca franziu levemente a testa. 
Helba continuou, com a mesma calma de sempre: 
— É você que tem que querer. 
Aquilo não encaixou de imediato. 
Porque não era assim que as coisas funcionavam na cabeça dela. 
Nunca tinham sido. 
Helba deu mais um passo. 
— Eu posso ajudar a mostrar o caminho. 
Olhou diretamente para Rebeca. 
— Mas quem tem que seguir é você. 
Rebeca ficou em silêncio. 
Virou o rosto outra vez para o prédio. 
Sem luzes. 
Sem plateia. 
Sem aplausos. 
Quase comum. 
Quase. 
Ainda assim… 
Ela se imaginou ali. 
O palco iluminado. 
Pessoas esperando. 
O som preenchendo tudo. 
E, de repente, veio. 
Um frio leve na barriga. 
Diferente. 
Não de medo. 
Ou não só. 
— A senhora acha que eu consigo? 
Helba não suavizou. 
Não confortou. 
— O que eu acho não tem importância. 
Um pequeno silêncio. 
— Você é que tem que decidir quem quer ser. 
Rebeca não respondeu. 
Mas, pela primeira vez… 
a pergunta não parecia vazia.

 

Fim do capítulo


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