Capitulo 44 – A Tagarela Ainda Está Lá.
Capítulo 44 – A Tagarela Ainda Está Lá.
A estrada parecia maior do que realmente era.
Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, ela não levava pressa, culpa ou medo no colo.
Josué dirigia com uma das mãos no volante e a outra apoiada na janela aberta. O vento entrava bagunçando seu cabelo. Ele ria sozinho de alguma coisa no rádio, assoviava entre uma música e outra, batucava os dedos no painel.
Rute observou de lado.
Fazia tempo que não via aquele homem.
Na cidade onde nasceram, Josué andava sempre reto demais. Sério demais. Contido demais. Como se houvesse olhos em cada esquina, prontos para medir sua postura, sua voz, a largura do sorriso. Ali, longe das ruas estreitas e dos julgamentos largos, ele parecia apenas jovem.
— Você tá feliz demais — disse ela.
Ele sorriu sem tirar os olhos da pista.
— Tô longe demais.
Rute riu baixo, apesar de si mesma.
Depois recostou a cabeça no banco e deixou a paisagem correr.
Sem pedir licença, vieram lembranças.
Os primeiros dias naquela casa.
O desconforto de não saber onde sentar. O medo de abrir a geladeira. A culpa por usar toalha limpa. A sensação constante de estar ocupando um espaço que não era seu.
E depois, aos poucos, a calma.
A voz firme e tranquila de Miriam dizendo “pega mais arroz”.
A roupa lavada aparecendo dobrada.
O café passado cedo.
Ninguém gritando.
Ninguém vigiando.
Ninguém cobrando santidade até na forma de respirar.
Demorou para confiar na paz. Mas confiou.
Então Josué apareceu à porta.
Não enviado por Moisés. Não mandado por ninguém.
Veio por vontade própria.
Disse que a amava. Disse que queria construir a vida com ela. Disse que faria do jeito dele.
Ela acreditou.
Talvez porque fosse verdade.
Talvez porque amor jovem costuma ser sincero mesmo quando é insuficiente.
Ela olhou de novo para o homem ao volante. Continuava assoviando.
Ainda o amava.
Só desejava que o amor bastasse mais vezes.
— Pensando em quê? — ele perguntou.
— Em nada.
Ele lançou um olhar rápido de quem a conhecia o bastante para saber que era mentira, mas escolheu respeitar.
***
A cozinha estava cheia daquele tipo de silêncio bom que só existe em casas seguras.
Miriam mexia uma panela no fogão enquanto, à mesa, Rebeca estudava com um caderno aberto, caneta na mão e testa franzida para uma conta que já a irritava havia alguns minutos.
— Se você continuar encarando esse exercício desse jeito, ele não vai se resolver por pena — disse Miriam, sem olhar para trás.
— Eu tô tentando intimidar ele.
— Tá perdendo.
Rebeca fez uma careta e voltou a escrever.
O interfone tocou.
O som atravessou a casa como uma pedra jogada em água parada.
A caneta parou no ar.
Os ombros de Rebeca endureceram antes mesmo que ela pensasse. O peito travou num impulso antigo e automático. Os olhos correram até a porta da cozinha, depois para Miriam.
Miriam secou as mãos no pano de prato e foi até o aparelho na parede.
— Alô?
Uma pausa curta.
— Já vou abrir.
Desligou e se virou.
— Josué e Rute chegaram.
Rebeca não respondeu.
A mão ainda segurava a caneta com força demais.
Miriam percebeu na hora.
A voz dela veio firme, tranquila, como quem fecha portas invisíveis.
— Moisés não está com eles.
Rebeca engoliu seco.
Miriam deu mais um passo na direção dela.
— E mesmo se estivesse… aqui ele não entra.
Só então Rebeca respirou um pouco.
Mesmo assim, levantou-se devagar e ficou perto da janela da cozinha, sem se mostrar. O corpo queria confirmação que palavras ainda não bastavam.
Lá fora, o carro aproximou-se devagar.
Primeiro ela viu Josué saindo do lado do motorista. Relaxado demais para quem pisaria na antiga tensão daquela família. Alongou os braços, fechou a porta com o quadril e olhou para a casa como quem já sentia cheiro de café.
Depois Rute desceu do outro lado.
Rebeca procurou o banco de trás sem querer.
Vazio.
Olhou de novo.
Só os dois.
O ar saiu inteiro dos pulmões dessa vez.
Miriam percebeu e fingiu não perceber.
— Viu só.
Rebeca passou a mão no cabelo, sem graça por ter tido medo.
— Eu nem tava nervosa.
— Claro que não.
A campainha tocou.
Miriam abriu a porta antes da segunda vez.
Josué entrou primeiro, trazendo vento de rua e um sorriso fácil.
Os olhos dele encontraram Rebeca por um instante. Ele apenas ergueu o queixo num cumprimento leve, quase cúmplice, e sorriu de lado — sem forçar aproximação, sem invadir espaço.
Depois seguiu direto para a sala.
— Se tiver café, eu vim pelo motivo certo — anunciou.
— Se tiver educação, talvez eu te sirva — respondeu Miriam.
— Então hoje eu passo fome.
A voz dele já se afastava corredor adentro.
Rute ficou na porta.
As mãos juntas diante do corpo. O olhar preso na irmã como quem vê alguém ao mesmo tempo conhecido e distante.
Rebeca também não se moveu.
As duas ficaram alguns segundos medindo anos inteiros.
Rute foi a primeira a dar um passo.
Depois outro.
Devagar, como quem se aproxima de um animal ferido que ama demais para assustar.
— Oi, fedorentinha — disse, com a voz menor do que pretendia.
Os olhos de Rebeca marejaram antes de qualquer resposta.
— Eu não sou fedorenta.
Rute riu.
— Ainda bem.
Parou perto o bastante para abraçar, mas longe o bastante para permitir escolha.
Rebeca olhou para Miriam.
Mas, a tia apenas voltou para o fogão.
A escolha era dela.
Rebeca então deu os dois passos que faltavam e entrou nos braços da irmã.
O abraço veio desajeitado, apertado e atrasado.
Na sala, Josué assoviava alguma coisa enquanto abria armários que não eram dele.
Na cozinha, ninguém corrigiu isso.
Quando se soltaram, Rebeca enxugou os olhos como quem se irritava por tê-los usado.
— Trouxe uma coisa.
Rute entregou o envelope.
Rebeca abriu na hora.
Fotografias.
Aniversários. Quintal. Duas irmãs menores do que a memória permitia. Uma fantasia mal costurada. Um bolo torto. Sorrisos sobrevivendo apesar de tudo.
— Mamãe mandou pra você. — disse Rute.
Rebeca passou os dedos por uma das imagens.
— Eu achei que não tinha sobrado nada.
— Sobraram algumas.
Rebeca fez cara feia para esconder o choro.
— Posso ver seu quarto?
Rebeca secou o rosto com as costas da mão e lançou um olhar rápido para a sala.
— Você não precisa fazer sala pro Josué. Ele entende.
Rute segurou Rebeca pela mão e a puxou em direção a escada da cozinha, como se o corpo lembrasse caminhos antigos antes da cabeça.
O quarto novo de Rebeca era claro, organizado, cheio de pequenos exageros carinhosos. Cama arrumada, cortinas bonitas, livros começando a ocupar prateleiras e um pequeno contingente de caixinhas, cheias de pequenos segredos.
— Quer ver? — Rebeca perguntou com orgulho, já tirando o violão de dentro da capa.
Rute se sentou na cama e ouviu a irmã tocar algumas canções. Algumas ela conhecia, outras não.
Depois falou baixo:
— Preciso te pedir perdão.
Rebeca ergueu o rosto.
— Pelo quê?
Rute demorou.
— Você pagou por erros que não eram seus.
Rebeca franziu a testa.
— Eu não entendi.
— Ainda bem.
Ela se abaixou, beijou a testa da irmã e levantou.
— Fica bem, fedorentinha.
— Você já vai? — perguntou Rebeca, erguendo os olhos.
Rute entrou um pouco mais no quarto.
— Eu e Josué vamos aproveitar que estamos na cidade pra tirar o dia de folga.
Rebeca parou de tocar.
— Folga fazendo o quê?
Rute abriu um sorriso quase juvenil.
— Parque de diversões. Depois cinema.
Rebeca franziu o cenho imediatamente.
— Isso parece programa de adolescente.
Rute deu de ombros.
— São os melhores programas.
— Não demora pra voltar — disse Rebeca, sem levantar os olhos.
Rute amoleceu por dentro.
— Também não se perde aí dentro.
Ela saiu.
O corredor silenciou por um instante.
Então Rebeca pousou o violão de lado, puxou as fotos para perto e começou a olhar tudo de novo.
Mais devagar dessa vez.
Como quem finalmente tinha tempo para conhecer a própria história.
***
No corredor, Rute parou.
Em frente ao quarto de Rebeca havia outra porta.
Fechada.
A mão foi sozinha até a maçaneta.
Abriu.
O ar parecia ter esperado por ela.
O quarto estava quase igual.
A colcha ainda era da mesma estampa. As paredes guardavam a mesma delicadeza. A janela deixava entrar a mesma luz mansa da tarde.
Só uma coisa mudara.
Onde antes havia um pequeno berço, agora havia uma cômoda.
Rute entrou devagar.
Aquele fora seu quarto quando Miriam insistira em acolhê-la. Quando ela chegara assustada, dura, convencida de que era intrusa. Quando aprendera, aos poucos, que algumas casas não pedem licença para amar.
Passou a mão sobre a colcha.
Engoliu seco.
Então percebeu presença atrás de si.
Virou-se.
Miriam estava no corredor, encostada no batente, braços cruzados.
Sem cobrança.
Sem surpresa.
Só esperando.
— Relembrando os velhos tempos? — perguntou.
Rute soltou uma risada molhada.
— Um pouco.
Miriam deu de ombros.
— Ainda cabe gente aí dentro.
Rute olhou sem entender.
— No quarto?
Miriam balançou a cabeça.
— Na casa.
O choro veio inteiro dessa vez.
E, por alguns segundos, Rute deixou que alguém a acolhesse de novo.
— Tem uma coisa que eu nunca falei em voz alta.
Miriam esperou.
— Eu acho que os castigos de verdade começaram quando a Rebeca menstruou.
O quarto pareceu encolher.
Miriam não se moveu.
— Antes disso ele era duro… severo… aquelas coisas de sempre.
Rute apertou os dedos.
— Depois… piorou.
Engoliu seco.
— Vigilância. Bronca por roupa. Bronca por sair. Bronca por rir alto. Bronca por existir.
Levantou os olhos, já molhados.
— Acho que ele olhou pra ela… e enxergou a minha história vindo de novo.
A frase saiu cheia de vergonha.
— Como se ela fosse repetir tudo. Como se fosse engravidar cedo. Como se já estivesse errada antes mesmo de viver.
Miriam fechou os olhos por um instante curto.
— Então ele puniu um futuro imaginado — disse, calma. — E destruiu o presente que tinha.
Rute começou a chorar em silêncio.
— Eu nunca consegui esquecer isso.
Puxou o ar.
— Porque, no fim… ela apanhou por medos que eram sobre mim.
Miriam virou-se inteira para ela.
— Não. Ela apanhou por escolhas dele.
Rute balançou a cabeça, perdida entre culpa e lucidez.
— Mas fui eu que dei a ele o motivo.
A resposta veio firme:
— Você não deu motivo nenhum. Sua vida não autoriza violência contra ninguém.
Rute levou a mão ao rosto.
— Eu lembro dela tão pequena… me seguindo pela casa… tagarela… mexendo nas minhas coisas… querendo ser grande.
Sorriu chorando.
— Depois ficou quieta.
O sorriso morreu.
— Quieta demais.
Miriam tocou o ombro dela.
— Criança aprende a se calar quando falar custa caro.
Rute respirou tremendo.
— Na primeira vez que eu soube que ele bateu nela… eu não tava lá.
Pausa.
— Mas vi depois. Ela ficou dois dias sem falar.
A voz falhou.
— Não sei se era dor… medo… ou os dois.
Miriam segurou a mão dela.
— Os dois.
Silêncio novamente.
Do outro lado do corredor, o quarto novo de Rebeca guardava fotos espalhadas no chão e uma vida recomeçando.
Rute olhou para a porta fechada.
— Eu tomo anticoncepcional.
Miriam não mudou a expressão.
— O Josué sabe?
— Não.
— Por quê?
Rute demorou.
— Porque eu tenho medo de ter uma filha.
As lágrimas vieram outra vez.
— O bebê que eu perdi era menina.
Miriam apertou a mão dela.
— Eu chorei por ela… e senti alívio.
Vergonha pura.
— Depois me odiei.
Miriam respondeu sem hesitar:
— Sentir alívio diante do medo não te faz cruel. Te faz ferida.
Rute desabou no choro.
— E se eu repetir tudo?
Miriam puxou seu rosto para que olhasse para ela.
— Você já está fazendo diferente.
— Como?
— Você está enxergando. Quem repete sem querer quase nunca enxerga nada.
Rute ficou parada.
Lá embaixo, uma gargalhada de Josué atravessou a casa. Depois a voz de Rebeca respondendo alguma provocação.
Vida chamando de volta.
Miriam passou a mão no cabelo dela, gesto antigo.
— Sua irmã está viva. Você também. Ainda dá tempo de muita coisa.
Rute encostou a cabeça no ombro dela como fazia anos atrás.
— Às vezes eu queria ter ficado aqui.
Miriam beijou o alto da cabeça dela.
— Essa casa nunca contou sua saída como abandono.
Rute chorou de novo.
Mas dessa vez havia descanso no meio.
Rute enxugou o rosto.
— Por favor… não deixa a Rebeca voltar.
Não importa quem apareça aqui.
Miriam cruzou os braços.
— Pelo que a Rebeca me contou, eu duvido muito que a Janis peça isso.
Rute ergue o olhar, surpresa.
— Ela falou de Janis?
Miriam sorriu de canto.
— A tagarela ainda tá ali dentro. Só tava ocupada sobrevivendo.
E já me contou muita coisa.
Pausa.
— Pelo que entendi, a Janis não quer a Rebeca presa em gaiola nenhuma.
Rute quase prendeu a respiração.
Miriam concluiu:
— Ela quer ver essa menina voar.
Rute abaixou os olhos.
A palavra demorou a pousar dentro dela.
Voar.
Ninguém nunca tinha usado essa palavra para falar de mulheres da família.
Para elas existiam outras:
obedecer,
aguentar,
calar,
servir,
segurar a casa,
ter juízo.
Voar, não.
Rute respirou fundo.
— Sorte dela.
Miriam observou em silêncio.
— Dor sua — respondeu por fim.
Rute soltou um riso fraco.
— Talvez.
Os olhos correram pelo quarto antigo. A colcha ainda ali. A luz entrando pela janela do mesmo jeito. O armário. A parede.
Tudo parecia dizer que o tempo nem sempre leva embora o que importa.
— O Josué me ama — disse de repente.
— Eu sei.
— Ele me buscou porque quis. Não foi meu pai.
— Eu sei.
— Ele tentou fazer diferente.
Miriam assentiu.
— Eu sei disso também.
Rute apertou as mãos.
— Mas às vezes eu olho pra minha vida… e não sei onde eu terminei e onde começaram os outros.
Miriam demorou só o suficiente para a frase respirar.
— Isso acontece com muita mulher boa.
Rute mordeu a boca para não chorar de novo.
Então veio um som.
Uma nota só.
As duas olharam para a porta.
Depois outra nota.
Mais firme.
Mais uma.
Uma sequência curta, hesitante, como alguém testando se podia existir em voz alta.
Rute ficou imóvel.
Do outro lado do corredor, o teclado de Rebeca começava a soar.
Notas simples. Pequenos erros. Recomeço.
Depois uma melodia tímida nasceu entre as paredes da casa.
Miriam sorriu de canto.
— Tá ouvindo?
Rute não conseguiu responder.
Os olhos já enchiam.
A música continuou.
Sem pedir licença.
Sem desculpa.
Sem medo de ser escutada.
— Faz tempo que eu não a ouvia tocar desse jeito. — murmurou Rute.
Miriam inclinou a cabeça.
— Faz tempo que ela não se sentia segura assim.
Outra nota errada.
Uma pausa.
Rebeca recomeçou do início.
Rute soltou um choro baixo, quase infantil.
— Eu achei que ela tinha sumido.
— Não — disse Miriam. — Só ficou enterrada.
As mãos de Rute tremiam.
— Ela era tão diferente quando pequena…
O teclado respondeu com acordes tortos.
Miriam olhou para a porta, satisfeita.
— A Rebeca que você conheceu ainda tá ali dentro.
Rute riu chorando.
— Só trocou de idioma por enquanto.
— Por enquanto.
As duas ficaram ouvindo.
Do corredor vinham notas inseguras, mas insistentes. Cada erro seguido de nova tentativa.
Como se alguém estivesse aprendendo a viver de novo.
Depois de alguns instantes, Rute perguntou baixinho:
— E eu?
Miriam se levantou, aproximou-se e segurou o rosto dela com as duas mãos.
— Você também ainda faz som.
Rute desabou no abraço que veio em seguida.
Do lado de fora, o teclado continuava.
No corredor, duas portas permaneciam frente a frente.
Uma guardava a mulher que Rute precisou ser.
A outra anunciava, em notas tortas e corajosas, a mulher que Rebeca finalmente começava a voltar a ser.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 04/05/2026
Cada capítulo deixa o coração quentinho com a Rebeca renascendo em cada um deles
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Elin Varen Em: 04/05/2026 Autora da história
Esse comentário deixou meu coração quentinho também
A Rebeca está se reconstruindo aos poucos, e saber que isso está chegando em você faz tudo valer a pena. Obrigada por estar aqui acompanhando essa jornada!