Capitulo 43 - Barulho de Família
Capítulo 43 - Barulho de Família.
No sábado Janis acordou cedo.
O que, por si só, Ester consideraria motivo de investigação.
Dona Maria Helena encontrou a neta no corredor carregando uma pilha de roupas nos braços.
— Caiu da cama?
— É claro que não.
— Então por que você tá acordada?
Janis ignorou e entrou no quarto.
A porta ficou aberta o dia inteiro.
De dentro saíam sons improváveis:
Gavetas batendo.
Cabides rangendo.
Caixas sendo arrastadas.
Resmungos ofensivos contra objetos inanimados.
Ela trabalhou com afinco.
Roupas foram guardadas.
Mesmo amassadas.
Mesmo do jeito errado.
Mesmo algumas claramente empurradas para dentro no último segundo.
Os sapatos foram socados nas últimas gavetas da cômoda até que nenhuma fechasse direito.
Os cadernos, livros, HQs e lápis foram para a escrivaninha.
Mais alinhados do que jamais estiveram.
O abajur misterioso ganhou um canto digno.
O urso de pelúcia foi colocado na cama como se sempre tivesse morado ali.
No meio da tarde, Ester apareceu na porta.
Ficou olhando em silêncio.
Janis estava ajoelhada no chão, limpando algo com uma camiseta velha.
— Quer que eu chame um padre? — perguntou Ester.
Janis levantou sem olhar para ela.
— Se veio pra atrapalhar, feche a porta quando sair.
Ester entrou dois passos.
Olhou a escrivaninha arrumada.
A cama feita torta.
As roupas dentro do armário.
O chão quase visível.
— Impressionante.
Janis cruzou os braços.
— O quê?
— Nunca imaginei ver você arrumando quarto sem ordem judicial.
Janis bufou.
— Não tô arrumando.
— Não?
— Só quero que fique apresentável.
Ester ergueu uma sobrancelha.
— Ah.
Silêncio curto.
— Ela vem hoje?
Janis congelou por meio segundo.
— Quem?
— A Rainha da Inglaterra.
Janis bufou.
— A senhora é insuportável.
Ester deu de ombros.
— Você pode convidar, se quiser.
Janis ficou quieta.
Olhou para a cômoda.
Depois para a janela.
Depois para nada.
Ester percebeu tudo.
— Sempre cabe mais um membro na família Valente.
Janis continuou em silêncio.
Mas a mão apertou sem querer a camiseta que segurava.
— Some daqui — disse por fim, com a voz menor.
Ester sorriu de lado.
— Também te amo.
Saiu antes que levasse alguma coisa na cabeça.
***
Enquanto Janis brigava com gavetas no quarto novo, Ester trocou de sandália na varanda.
Glória apareceu no portão.
— Bora?
Ester olhou para dentro da casa.
— Se ela perguntar?
Da janela, Dona Maria Helena respondeu:
— Vou dizer que você fugiu.
— Justo.
As duas saíram andando pelo bairro.
Rua de casas simples.
Gente varrendo calçada.
Rádio ligado em janela aberta.
Cheiro de almoço em algum lugar.
Glória falava baixo.
— Já deixei umas sondadas. Ninguém vai mexer com ela aqui.
Ester assentiu.
— Ela precisa de paz.
— E trabalho também.
— Um passo de cada vez.
Pararam diante da primeira casa.
Pequena. Pintura antiga. Quintal estreito.
— Essa aqui é da dona Célia. Cobra barato.
Seguiram para a segunda.
Mais arrumada. Geminada. Portão novo.
— Essa é melhor, mas o aluguel sobe.
A terceira ficava numa rua mais quieta.
Casa simples. Janela grande. Uma árvore pequena na frente.
Glória sorriu.
— Essa eu gostei pra ela.
Ester ficou olhando alguns segundos.
— Eu também.
Silêncio breve.
— Ela vai precisar de coragem.
Ester respirou fundo e continuou.
— Para sair viva da casa daquele homem.
— Verdade.
Continuaram andando devagar.
— Obrigada por ajudar com as casas. — disse Ester.
— Família serve pra quê?
Ester olhou para ela de lado.
— Pra trazer maionese demais e resolver problema alheio.
Glória riu.
— Exatamente.
O proprietário apareceu poucos minutos depois, ainda ajeitando a camisa para dentro da calça.
Falou de aluguel.
Falou de caução.
Falou de contrato.
Ester ouviu tudo sem interromper.
Quando ele terminou, abriu a bolsa.
Tirou um envelope pardo.
Contou o dinheiro sobre a mesa da cozinha vazia.
— Três meses adiantados.
O homem piscou.
— Três?
— Três.
— A senhora quer garantir a casa?
— Quero garantir paz.
Ele não entendeu, mas assentiu rápido.
Glória observava em silêncio.
Depois que o homem saiu para buscar recibo, ela se aproximou.
— Isso era o dinheiro guardado dela?
Ester assentiu.
— Parte.
— Não sobrou muito pros móveis.
Ester deu de ombros.
— Móvel a gente arruma.
Glória cruzou os braços.
— E o resto?
— Eu tenho algum dinheiro guardado.
— Guardado pra quê?
Ester olhou pela janela.
— Estava pensando em comprar um carro melhor.
Glória soltou um riso curto.
— Você é maluca.
— Sou prática.
— Não. Prática comprava o carro.
Ester sorriu de lado.
— O carro pode esperar.
Silêncio breve.
— E se ela desistir? — perguntou Glória.
Ester respondeu sem hesitar.
— Então eu vendo os móveis e compro o carro usado mesmo.
As duas riram.
Mas Glória ficou olhando para ela com outro respeito.
***
Antes de escurecer, Janis começou a segunda fase da operação.
Pegou uma pilha de revistas em quadrinhos velhíssimas.
E cola.
Recortou capas.
Balões.
Heróis esquecidos.
Vilões dramáticos.
Explosões coloridas.
Foi colando sobre os riscos da escrivaninha.
Na lateral da cômoda.
Na porta rachada do armário.
Onde sobrava espaço, pintava.
Faixas pretas.
Linhas vermelhas.
Detalhes tortos.
Setas sem destino.
Quando terminou, os móveis usados pareciam peças de algum quarto que só poderia existir ali.
Dona Maria Helena passou no corredor, olhou para dentro e falou:
— Parece que um gibi explodiu.
Janis sorriu.
— Obrigada.
***
No domingo, pouco antes do almoço, a campainha tocou duas vezes seguidas e a porta abriu antes que alguém atendesse.
Tio José Antônio, mais conhecido como Gordo, entrou primeiro, carregando uma vasilha enorme coberta com pano de prato.
O cheiro veio antes dele.
Carne assada.
Atrás, Janis apareceu no corredor e ergueu as sobrancelhas.
— Podia ter assado aqui.
Da cozinha, Dona Maria Helena respondeu sem nem olhar.
— Não gosto de cheiro de fumaça nas minhas cortinas.
Gordo colocou a travessa na mesa.
— Mas gosta de carne.
Maria Helena apareceu na porta enxugando as mãos.
— Gosto.
Olhou para a tampa.
— E espero que não tenha ficado tudo queimado.
— Ingratidão é feio na terceira idade.
— Pior é carvão servido no almoço.
Janis sorriu sozinha.
Logo atrás dele entrou Glória com outra vasilha, ainda maior.
— Sai da frente que isso pesa.
Ela colocou na mesa com orgulho.
Maionese.
Daquelas que parecem alimentar uma festa inteira.
— É bom ter a família reunida.
Maria Helena olhou para a quantidade.
— Isso aí é maionese ou material de construção?
— Se sobrar, a gente reboca a parede — respondeu Glória.
Janis encostou no batente, observando a movimentação.
Gente entrando sem cerimônia.
Panela mudando de lugar sozinha.
Discussão sobre sal antes mesmo de provar.
Todo mundo falando ao mesmo tempo.
Ninguém perguntando demais.
Ninguém desconfiando dela.
Ninguém julgando nada.
Só barulho de família.
Lara passou por ela segurando pratos.
— Você tá parada por quê?
— Tô estudando a fauna local.
Lara assentiu.
— Ajuda a pôr a mesa, antropóloga.
Janis pegou os talheres.
Sem reclamar.
Muito.
O domingo passou leve.
Tio Gordo discutiu futebol com Ester por quase uma hora.
Glória contou histórias antigas que aumentavam a cada repetição.
Dona Maria Helena mandou em todo mundo sem levantar a voz.
Galo queimou pão de alho.
Lara avisou isso antes de acontecer.
Janis desapareceu algumas vezes ao longo do dia.
Corria para o quarto.
Fechava a porta.
Falava baixo.
Voltava alguns minutos depois tentando parecer normal.
Ester percebeu desde a primeira vez.
Não comentou mais nada.
Só achou graça em silêncio.
Quando o sol começou a cair, o carro já estava pronto.
A bolsa no banco.
Os documentos separados.
A estrada esperando.
O barulho da casa diminuiu sozinho.
Até Janis ficou quieta.
Ester pegou as chaves.
— Bom... vou indo.
Janis assentiu.
Mas, quando chegou perto, duas lágrimas escaparam antes que ela pudesse impedir.
Rápidas.
Teimosas.
Ester parou.
— Ei.
Janis limpou o rosto irritada consigo mesma.
— A senhora vai ficar bem lá?
Ester sorriu de lado.
— Isso é temporário.
Ajustou a alça da bolsa no ombro.
— O ano vai terminar mais rápido do que a gente imagina.
Deu um passo à frente.
— Aí eu peço transferência pra cá.
Janis respirou fundo.
Assentiu.
Depois abraçou a mãe com força.
Forte de verdade.
Ester retribuiu no mesmo instante.
Ficaram assim alguns segundos.
Quando soltou, Ester segurou o rosto dela.
— E quando não estiver de papo com a Rebeca... me liga.
Janis bufou rindo.
— Pode deixar.
— Mentira.
— Tá. Vou tentar.
Ester entrou no carro.
Ligou o motor.
Janis ficou na calçada vendo o carro sumir devagar pela rua.
Dessa vez, porém, quando voltou para dentro, a casa não parecia tão cheia.
Fim do capítulo
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Elin Varen Em: 03/05/2026 Autora da história
Muito obrigada pelo carinho. Saber que você está vivendo cada capítulo comigo e se emocionando com essa jornada significa muito. Obrigada por dedicar seu tempo à história e por vir me contar isso.