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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 2215
Acessos: 74   |  Postado em: 01/05/2026

Capitulo 42 - O Mundo Não Parece Tão Grande.

Capítulo 42 - O Mundo Não Parece Tão Grande.

O relógio da cozinha passava das dez quando Miriam apareceu arrastando chinelo pelo corredor.

Camiseta velha, cabelo amassado de um lado só e expressão de quem ainda não tinha voltado completamente ao mundo.

Ela parou na porta e encontrou Rebeca sentada à mesa da cozinha, já vestida, penteada, postura reta demais, caderno aberto, livros espalhados, lápis alinhados em fileira quase militar.

Estudando.

Miriam fechou os olhos por um segundo.

— Eu sabia que isso ia acontecer.

Foi direto à cafeteira como quem atendia uma emergência médica.

Serviu uma caneca enorme.

Rebeca ergueu os olhos do caderno.

— O quê?

— Você acordada antes do sol e produtiva demais para uma manhã de sábado.

Tomou um gole longo.

— Que horas você levantou?

— Seis e meia.

— Eu não sabia que tínhamos um compromisso.

Ela quase sorriu.

— Perdi o sono.

— Você devia ter acordado um pouco mais tarde, para compensar a correria da semana inteira.

Miriam puxou a cadeira em frente.

— Você comeu?

Rebeca assentiu.

— E isso aí? — apontou para um prato com pão já separado.

— Eu... fiquei com fome de novo.

Miriam empurrou a cesta para perto dela.

— Excelente notícia. Come e continua estudando depois.

Rebeca pegou o pão e comentou com certa vergonha.

— Moisés costuma dizer que acordar tarde é pecado.

Miriam nem levantou os olhos da caneca.

— Uma mula daria conselhos melhores que Moisés.

Rebeca mordeu o pão escondendo o riso.

Miriam completou:

— Inclusive algumas mulas têm mais sensibilidade.

O riso escapou curto.

Miriam apontou para a escada.

— E espero sinceramente que você não tenha descido correndo.

Rebeca arregalou os olhos.

— Eu não corri.

Miriam ergueu a sobrancelha.

— Rebeca.

— Só um pouco.

— Sei...

Ela abaixou a cabeça, sorrindo.

Miriam terminou o café e se levantou.

— Anda. Vou colocar um tênis e te mostrar esse condomínio. Você precisa saber aonde pode ir sem pedir autorização pra ninguém.

Rebeca piscou.

— Sem pedir?

— Sem pedir.

Miriam sumiu no corredor e voltou minutos depois com tênis e cabelo preso às pressas.

— Se você deixar um bilhete na geladeira dizendo pra onde foi e com quem está, já ajuda bastante.

— Só isso?

— Sim. Se for honesta comigo, não vejo motivos para não confiar em você.

O condomínio já respirava sábado.

Crianças corriam. Um cachorro pequeno latia para problemas imaginários. Alguém ouvia música alta demais.

Rebeca andava ao lado de Miriam olhando tudo como quem visitava outro país.

— Ali fica a área das piscinas. Lá é a quadra e um pouco mais para trás fica a pista de skate e o playground. Por aqui você chega no mercadinho. E por ali na portaria. E lá no fundo tem um bosque pequeno.

— Tem bosque?

— Chamar de bosque é generosidade, mas sim.

Passaram em frente ao espaço gourmet e salão de festas.

Uma família decorava tudo de rosa. Balões, painel de princesa, mesa de doces. Uma menina corria com uma coroa torta na cabeça.

Miriam apontou discretamente.

— Combina com seu banheiro.

Rebeca riu.

— Agradeça ao seu tio pela decoração. Ele achou que você fosse gostar.

— E eu gostei.

Miriam virou o rosto devagar.

— Gostou mesmo?

Rebeca deu de ombros.

— Pelo menos agora eu tenho um banheiro só meu.

A frase pairou entre as duas.

Rebeca olhou de novo para a festa.

— Eu nunca tive aniversário assim.

Miriam não falou nada.

— Com tema... bolo bonito... gente feliz porque eu existo.

O maxilar de Miriam endureceu.

— A Janis fazia aniversário dia trinta de maio e eu doze de junho.

— Pertinho.

Rebeca assentiu.

— A tia Ester sempre fazia a festa dela com atraso.

Miriam olhou de lado.

— Por quê?

— Pra colocar uma velinha pra mim também.

Ela sorriu fraco.

— E quando eu não podia ir... elas levavam uma fatia escondida. Com uma vela enfiada no bolo pra eu assoprar.

Miriam respirou fundo.

— Sempre gostei da Ester.

— Ela dizia que vela demais nunca estragou aniversário. E Janis não aceitava comemorar sem mim, mesmo que isso significasse largar a festa dela para levar uma fatia com uma velinha acesa na minha casa.

Miriam soltou uma risada nasal.

— Correta.

Continuaram andando.

Ao passar pelo mercadinho, uma prateleira de chocolates apareceu perto da porta.

Rebeca sorriu sem perceber.

— A Janis sempre dividia doce comigo.

— Generosa ou gulosa?

— As duas coisas.

— Excelente combinação.

— Se ela tinha um chocolate... eu tinha metade.

Mais adiante, passaram por uma casa de onde vinha o som de violão mal tocado.

Rebeca levantou a cabeça.

— Quando a gente ficou maior e as regras apertaram... ela inventou aula de música.

— Inventou?

— Era desculpa pra eu ir pra casa dela duas horas por dia.

Miriam riu.

— Estratégica.

— Lá eu descobri que o mundo era maior do que o Moisés dizia.

— Como?

— Livro espalhado. Filme passando. Música diferente. Programa besta na televisão.

— Devia ser divertido.

Rebeca acariciou o anel de resina.

— Ela nunca implicou porque eu não conhecia nada. Só me mostrava.

— Raro.

— Eu sei.

Chegaram ao pequeno bosque.

Árvores suficientes para fazer sombra e dar nome ao lugar. Um banco de madeira gasto no meio da trilha.

Sentaram.

Rebeca mexia nos dedos.

— Na casa dela eu podia sentar de qualquer jeito.

— Como assim?

— Torta. Com as pernas pra cima. Com os pés no sofá.

Miriam levou a mão ao peito.

— Menina rebelde.

Rebeca sorriu.

— Parece bobo.

— Não parece.

Ela esperou.

Rebeca falou baixo:

— Em casa eu tinha que pensar em como sentava... como falava... como olhava. Lá eu esquecia de pensar um pouco.

Miriam assentiu devagar.

— Então não era sobre o sofá.

— Não.

Silêncio bom.

— Aquelas duas horas foram ficando necessárias.

— Eu imagino.

Rebeca apertou as mãos entre os joelhos.

— Quando Moisés começou a me castigar com comida... as pessoas sabiam.

Miriam ficou imóvel.

— Mas preferiam só falar a respeito.

Miriam apertou o maxilar.

— Ninguém fez nada?

Rebeca ergueu os olhos marejados.

— Ela fez.

Pausa curta.

— Levava meu café da manhã para a escola. E eu almoçava na casa dela. Era muito bom.

Miriam olhou para as árvores antes de responder.

— Imagino que sim.

Rebeca respirou fundo.

De repente, um esquilo atravessou correndo a trilha, subiu metade de uma árvore, desceu de novo e disparou para o outro lado sem objetivo aparente.

Rebeca começou a rir.

Primeiro baixo.

Depois perdeu o controle.

Tentou falar e não conseguiu. Só apontava.

— Ele...

Miriam acompanhou o dedo dela. Observou o animal por dois segundos.

— Amigo seu?

Rebeca dobrou no banco de tanto rir.

— Para...

— Eu nem comecei.

Quando conseguiu respirar, enxugou os olhos.

— Promete que não vai rir?

Miriam cruzou as pernas.

— Eu posso tentar.

Rebeca já sabia que não.

— A Janis gosta de me chamar de Esquilinho.

— Estou ouvindo.

— Ela me deu uma bicicleta.

Miriam ergueu a sobrancelha.

— Perigosa.

— Vermelha. Com banco pra carona atrás e farol na frente.

— Extravagante.

— Eu fiquei tão feliz... que andava igual doida.

— Explique.

— Quando aprendi a me equilibrar, percebi que não tinha ninguém me segurando pela primeira vez na vida. Então eu fui rápido demais...

Miriam já segurava o riso.

— Rebeca...

— Eu não sabia que dava pra ficar feliz daquele jeito.

A voz dela amoleceu.

— Como se eu tivesse asas... e eu sempre ficava com muita energia.

Miriam a olhou por um instante longo.

Rebeca continuou:

— A Janis dizia que eu parecia um esquilo depois de tomar café.

Miriam perdeu a compostura e riu.

— Correto diagnóstico.

— E o que aconteceu com sua bicicleta?

— Tá quebrada.

— Quebrada como?

— Eu caí. Amassou o guidão e quebrou o farol.

Miriam virou o rosto devagar.

— E por que eu não estou sabendo disso?

Rebeca deu de ombros.

— Achei que não era importante.

— Segunda-feira, quando a clínica estiver aberta, você me explica os detalhes.

— Não precisa...

— Precisa sim.

Silêncio curto.

Depois Miriam perguntou:

— Gostaria de uma bicicleta nova?

— Não.

— Não?

— Eu gostaria de ter um skate.

Miriam virou de novo.

— Skate?

— A gente dividia o da Janis pra andar pela cidade. Ela ia guiando e eu ia na parte de trás da prancha. Era muito bom.

Miriam soltou um “hum” analítico.

— Agora eu entendo por que você se apaixonou por ela.

Rebeca arregalou os olhos.

— Tia!

As duas ficaram em silêncio por um segundo.

— Esquilinho combina com você.

— Não combina.

— Corre sem necessidade, arregala os olhos quando assusta e guarda a própria vida naquela bolsa.

Olhou melhor.

— Só falta o rabinho.

Rebeca quase caiu do banco de rir.

O riso foi indo embora aos poucos.

As folhas voltaram a ocupar o espaço do bosque.

Ao longe, uma bola batia na quadra e algum cachorro insistia em existir.

Rebeca mexia na ponta do cadarço sem olhar para Miriam.

Depois de um tempo, perguntou baixo:

— Eu vou ver a Janis de novo?

Miriam respondeu sem hesitar.

— Se você quiser.

Rebeca abaixou os olhos na mesma hora.

Miriam percebeu que a pergunta não tinha terminado.

Virou o corpo inteiro para ela.

— Aquele homem não manda na minha casa.

Rebeca ergueu o rosto devagar.

— E, pelo que pude perceber... a Janis te faz bem.

A voz dela saiu pequena, quase envergonhada.

— Ela é menina.

Miriam sustentou o olhar.

— Rebeca... não tem nada de errado com você.

Os olhos dela encheram.

— Nem com a Janis.

Pausa curta.

— Vocês não precisam de conserto.

Mais suave:

— Precisam de acolhimento.

Rebeca ficou imóvel.

Piscou rápido demais.

Tentou engolir o choro e não conseguiu.

A voz saiu falhando:

— Eu achei que nunca mais podia ver ela de novo.

Miriam respirou fundo.

— Escuta uma coisa.

Esperou até Rebeca olhar de novo.

— Não foi por isso que eu te trouxe pra cá.

Rebeca franziu a testa, perdida.

Miriam continuou:

— Sua mãe e sua irmã estavam preocupadas com você.

Pausa.

— Não por causa da Janis.

Mais firme:

— Por causa do Moisés.

Rebeca não se mexeu.

Como se a frase precisasse de tempo para entrar.

Miriam seguiu, sem dureza:

— Na verdade... quem mencionou a Janis foi você.

— Eu?

— Você.

Um canto de sorriso apareceu nela.

— Eu nem conhecia a menina e já sabia que era importante.

— Como?

Miriam soltou um meio sorriso.

— Porque você quase pulou pela janela do carro pra olhar pra ela.

Rebeca arregalou os olhos.

— Eu não pulei.

— Quase.

Então continuou:

— Eu só vi uma menina se aproximando pra se despedir... e você virou outra pessoa.

Silêncio curto.

— Mas eu não fazia ideia de quem ela era.

Pausa.

— Muito menos que era filha da Ester.

Rebeca abaixou a cabeça, envergonhada.

— Eu mudei tanto assim?

Miriam respondeu sem pensar muito:

— Seu rosto acendeu.

As lágrimas vieram de novo, quietas.

— Eu sinto falta dela.

Miriam deixou a frase repousar entre as árvores.

Rebeca apertou as mãos entre os joelhos.

— Do jeito que ela tem de fazer tudo parecer fácil... mesmo quando é difícil.

Respirou torto.

— Quando ela tá por perto... o mundo não parece tão grande.

Baixou os olhos.

— E as coisas fazem mais sentido.

Miriam assentiu devagar.

— Tem gente que entra na vida da gente e divide a carga.

Rebeca ergueu o rosto.

— Pelo que você me contou... essa menina faz isso há anos.

Ela chorou em silêncio.

Miriam se levantou primeiro e estendeu a mão.

— Vamos pra casa.

Rebeca segurou a mão dela.

— Pra quê?

— Pra eu fazer almoço.

Puxou-a com cuidado para levantar.

Começaram a andar pela trilha.

Depois de alguns passos, Miriam completou:

— E pra você parar de achar que amor decente precisa pedir desculpa.

Elas já andavam de volta, mais leves.

Miriam falou casualmente:

— O Moisés sabe sobre a Janis?

Rebeca demorou um pouco.

— Só o que contaram pra ele.

Miriam franziu a testa.

— Vocês nunca conversaram a respeito?

Rebeca deu de ombros.

— Ele não é muito de conversar.

Miriam parou de andar.

Virou o rosto devagar.

— Então ele não tem direito de te punir por coisa alguma.

Rebeca travou.

Rebeca andou mais dois passos em silêncio.

Depois perguntou, cautelosa:

— Então... eu não estou de castigo?

Miriam parou.

Levantou uma sobrancelha.

— A minha casa parece algum tipo de masmorra?

Rebeca mordeu o lábio.

— Não...

Miriam voltou a andar.

— Ótimo. Não estou com cabeça pra redecorar.

Rebeca riu da própria pergunta.

Miriam completou, mais suave:

— Você não tá de castigo.

Pausa.

— Tá segura.

Elas continuaram andando.

Rebeca ficou em silêncio por alguns passos.

Então, sem pensar muito, alcançou a mão de Miriam.

Entrelaçou os dedos de leve.

Miriam olhou para baixo por um segundo.

Depois seguiu andando como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Não apertou demais.

Não comentou.

Só ajustou a mão para caber melhor a dela.

 

 

Fim do capítulo


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