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Otherside - Como a vida deveria ser por Elin Varen

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Palavras: 717
Acessos: 75   |  Postado em: 30/04/2026

Capitulo 41 - O Que Ela Já Levou

Capítulo 41 – O Que Ela Já Levou

Enquanto Moisés gritava pela cidade, Débora dobrava lençóis.

A casa estava limpa demais.

Mesa brilhando.
Pia vazia.
Azulejo seco.
Chão sem um grão de poeira.

Silêncio arrumado.

Embaixo da escada, atrás de uma caixa velha de ferramentas, estava a mala.

Pequena.

Um vestido.
Duas saias.
Três blusas.
Roupa íntima.
Dois pares de sapato.
Dinheiro escondido num envelope.
Documentos dobrados em pasta plástica.

Tudo pronto.

Faltava só o telefonema de Ester.

Débora passou pano no corrimão pela segunda vez.

Não porque precisava.

Porque esperar em pé era pior.

Naquele mesmo dia em que Moisés saiu transtornado por causa de Rebeca, Débora sentou à mesa com uma caixa de fotografias antigas.

Abriu devagar.

Natal.
Aniversário.
Bebê no colo.
Almoço de domingo.
Pessoas que ainda sorriam umas para as outras.

Separou em pilhas.

Uma para deixar na casa.

Uma para Rute.

Outra para Rebeca.

Nessa última colocou as melhores.

A menina pequena de vestido torto.
No carrinho de bebê.
Dormindo no sofá.
Segurando bolo com cara séria.

Parou numa foto em que as duas apareciam juntas na cozinha.

Guardou no bolso do avental.

Essa era dela.

No fim da tarde, pegou os envelopes e saiu.

Andou sem olhar para os lados.

Não queria perguntas.
Nem pena.
Nem curiosidade.

Só queria atravessar a rua sem virar assunto.

***

Rute estendia roupas no varal quando ouviu a voz do pai ecoando pela rua.

Congelou por um segundo.

Depois largou tudo e correu para dentro de casa.

No corredor encontrou Josué.

— O que foi?

— É o meu pai.

Ele foi até a janela por instinto.

— Nem pensa. Fica quieto.

— Rute...

— Eu já fui julgada pelos meus próprios pecados. Não quero acumular os pecados dele na minha lista.

Josué tentou segurar o riso.

Lá fora, a voz de Moisés seguiu rua abaixo, cada vez mais distante.

Depois silêncio.

Mesmo assim, Rute não se moveu.

Ficou parada no meio da sala, escutando o nada como se o nada pudesse mentir.

—  Acho que ele foi embora.

—  Acho não é certeza.

Então a campainha tocou.

Rute empalideceu.

—  Ele voltou.

—  Ele nunca toca campainha.

A segunda vez veio mais curta.

Josué foi até a porta.

Rute segurou o braço dele.

—  Não abre.

—  Amor…

Abriu mesmo assim.

Do lado de fora estava Débora, com uma bolsa no ombro, um envelope nas mãos e um cansaço antigo no rosto.

—  Se vocês pretendiam fingir que não estavam em casa, deveriam sussurrar mais baixo.

Rute levou a mão à boca.

— Mãe?

Débora estendeu os envelopes.

— Preciso que me façam um favor.

***

Na sala pequena, Rute servia café enquanto Débora aceitava alguns biscoitos sem realmente sentir gosto de nada.

Josué falava pouco, percebendo que era visita de peso.

Depois de alguns minutos, Débora puxou dois envelopes da bolsa.

Empurrou o primeiro para Rute.

— Essas são suas.

Rute abriu.

Fotos antigas.

Aniversários. Quintal. Sorrisos raros. Dias comuns que agora brilhavam.

Os olhos dela encheram.

Débora então entregou o segundo.

— E esse… é pra Rebeca.

Rute segurou com cuidado.

— Esse era o favor.

— Levar pra ela?

Débora assentiu.

Respirou fundo.

— Eu gostaria que Rebeca lembrasse dos momentos felizes que viveu conosco. A vida não foi só tristeza. Ela também teve alegrias.

Rute, curiosa, não abriu.

Só assentiu.

— Nós vamos amanhã. Eu entrego.

Josué levantou de repente.

— Acabei de lembrar um compromisso importantíssimo na igreja.

Ninguém impediu.

Quando a porta fechou, o silêncio ficou mais honesto.

Débora mexeu na xícara vazia.

— Sobre o futuro…

— Eu entendo. A senhora não precisa se justificar pra mim.

Olhou direto para ela.

— É um milagre ter ficado tanto tempo.

Débora sorriu sem humor.

— Eu fiquei por vocês.

Rute engoliu seco.

— Então o milagre foi maior ainda.

Débora respirou trêmula.

— Vocês não precisam ter meu sangue pra serem minhas filhas.

As duas se abraçaram forte.

— Eu quero manter contato.

— Eu aviso quando conseguir me estabelecer.

Rute já sabia.

As fotos eram só a confirmação.

Débora virou para ir embora.

Chegou à porta.

Então ouviu atrás de si:

— Mãe.

Ela parou.

Sem coragem de virar ainda.

— Vai dar certo.

Débora não respondeu.

Mas, no caminho de volta, andou um pouco mais ereta.

 

 

Fim do capítulo


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