Capitulo 40 - Pregando Sozinho
Capítulo 40 — Pregando Sozinho
ATO I — A Mesa
Moisés sentou-se à mesa como fazia todas as manhãs.
A cadeira rangeu.
A xícara já estava servida.
O pão cortado.
A manteiga aberta.
Tudo no lugar.
Menos uma coisa.
Ele olhou de relance para a cadeira vazia ao lado.
Nenhuma mochila jogada no chão.
Nenhuma cabeça baixa.
Nenhuma menina esperando o humor dele para saber se podia respirar.
A ausência de Rebeca parecia fazer barulho.
Débora estava em pé perto da pia. Quietíssima. Medindo o ar da cozinha como quem teme qualquer movimento brusco.
Moisés passou manteiga no pão devagar.
Mastigou sem pressa.
Tomou café olhando nada.
Nem uma vez encarou Débora.
Nem uma vez perguntou por ninguém.
Mas havia algo no maxilar duro, no jeito de apertar a xícara, no silêncio exagerado.
Quando terminou, empurrou a cadeira para trás.
Levantou.
Pegou a chave.
Saiu sem dizer palavra.
A porta bateu.
Débora ficou imóvel por dois segundos.
Depois soltou a respiração que segurava desde que ele entrara na cozinha.
***
ATO II — A Rua
O sol ainda subia quando Moisés começou a caminhar.
Gente o cumprimentou de longe sem se aproximar demais.
Ele respondeu apenas com um aceno duro.
Ao passar em frente à casa de Janis.
Parou.
O portão fechado.
As janelas quietas.
Nenhum sinal dela.
O rosto dele endureceu mais.
Cuspiu em direção ao portão.
A saliva acertou a calçada.
Seguiu andando.
Não era caminho do trabalho.
Nunca fora.
Mas nas últimas semanas passara a usar aquela rota por costume. Ou obsessão.
Era o trajeto por onde podia vigiar horários, passos e encontros.
Sem perceber, continuava andando pelo mapa daquilo que perdera.
Tomou rumo do parque.
***
ATO III — O Muro
Ele viu o mural antes de chegar perto.
No grande muro da quadra de vôlei, um balanço vazio parecia mover-se sozinho.
As correntes inclinadas.
A sombra viva no chão.
O assento prestes a ir para frente ou voltar.
Havia ausência ali.
E havia intenção.
Moisés parou no meio da calçada.
Leu a assinatura.
The Ghost.
O peito subiu rápido.
— Deboche.
Chegou mais perto.
Olhou ao redor como se procurasse testemunhas da ofensa.
Entendeu.
Aquilo viera depois do beijo.
Depois do “não”.
Depois da menina olhar para ele sem medo.
O balanço vazio.
A criança que já não obedecia.
— Deboche! — repetiu mais alto.
Começou a andar de um lado para outro.
Falando.
Primeiro baixo.
Depois alto.
Depois para ninguém e para todos.
— O mundo virou festa do pecado.
— Sinais. Sinais por toda parte.
— Escárnio público.
— Deus não dorme.
— Deus pesa mãos rebeldes.
Uma senhora puxou o neto para o outro lado da rua.
Dois rapazes riram nervosos e aceleraram o passo.
Moisés continuou.
Andou falando.
Virou esquinas falando.
Apontou para o céu falando.
Discutiu com lembranças falando.
Quando o sangue finalmente esfriou, ele estava do outro lado da cidade.
Parou.
Olhou em volta.
Respirou fundo.
Alisou a camisa.
Endireitou o cinto.
Passou a mão no cabelo.
Tomou rumo do mercado.
***
ATO IV — O Caixa
No mercado, o gerente o observou entrar cinco minutos atrasado e decidiu não comentar.
Moisés foi para o caixa.
Passou códigos de barra sem olhar para os produtos.
Arroz.
Sabão em pó.
Biscoito.
Detergente.
— Bom dia — disse uma cliente.
Ele demorou dois segundos para responder.
— Bom dia.
Uma criança apontou para ele.
— Mãe, é o homem que grita na praça.
A mãe puxou o menino pelo braço.
Moisés apertou a mandíbula.
Passou uma lata de milho com força demais e ela caiu no chão.
No horário do almoço, não comeu.
Ficou sentado nos fundos olhando a parede.
***
ATO V — A Ligação
No meio da tarde, Dalila apareceu no mercado com a falsa naturalidade de quem levava notícia por esporte.
Parou diante do caixa.
— Irmão Moisés, preciso lhe falar.
— O que você quer?
Ela fingiu ofensa.
— Credo. Vim ajudar.
Inclinou-se um pouco.
— Acabei de ver Ester e aquela menina perdida enchendo o carro de coisas.
Silêncio.
— E daí?
Dalila arregalou os olhos com inocência teatral.
— O senhor não entende. Tenho motivos para crer que a menina vai embora.
Ele ficou imóvel.
— Embora?
— Eu acho que sim. E sei que isso pode ser muito perigoso para a pobre Rebeca.
Ela sorriu pequeno.
— Ester é uma mulher ardilosa. Aposto que levou aquela filha dela para a Capital... Para continuar o trabalho sujo que começou aqui.
Moisés se levantou. Foi até o balcão e segurou o telefone com a mão trêmula.
Ligou para Miriam.
Ela atendeu já ocupada com algo.
— Alô?
Do outro lado, a voz dura de Moisés.
— Quero que traga Rebeca de volta hoje.
Miriam nem mudou o tom.
— Boa tarde pra você também.
— Não estou brincando. Você sabe que lugar de Rebeca é com a família.
— Finalmente concordamos em alguma coisa.
Silêncio pesado.
— Então devolva ela.
— Rebeca está com a família.
Pausa.
— Uma família que cuida dela com carinho e que respeita a dignidade dela.
— Você não tem direito de manter minha filha aí.
— Se acredita nisso, procure um advogado. Um bom advogado. Porque só assim alguém tira a Rebeca da minha casa.
Respiração irritada do outro lado.
— Especialmente depois do que eu vi e ouvi nos últimos dias.
Silêncio.
— Mais alguma coisa?
ATO VI — O Barro
Moisés saiu do mercado sem pedir licença.
Andou sem rumo.
Rua após rua.
Sol descendo.
Sapato sujo.
Respiração curta.
Quando percebeu, estava no parque de novo.
O mural seguia lá.
Sereno.
Intocado.
O balanço ainda parecia se mover.
Aquilo o enfureceu de novo.
Olhou ao redor.
Não havia ninguém perto.
Abaixou-se junto a um canteiro molhado.
Enfiou as mãos na terra escura.
Barro grosso grudou nos dedos.
Levantou e lançou no muro.
A lama escorreu pela pintura.
Pegou mais.
Esfregou com a palma da mão.
As correntes desapareceram.
A sombra também.
Mas o balanço continuava ali.
Mais barro.
Mais força.
Mais desespero.
Quando cansou, recuou arfando.
As mãos sujas.
A camisa manchada.
A testa molhada.
No muro, apesar da lama, ainda dava para ver.
Ainda balançava.
Ainda vazio.
Moisés olhou em volta.
Ninguém o assistia.
Ninguém o temia.
Ninguém o seguia.
Só o vento mexia nas árvores.
Ele baixou as mãos lentamente.
Pela primeira vez em muito tempo, parecia pequeno.
Fim do capítulo
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