Capitulo 35 - Aquilo Fugia do Manual
Capítulo 35 – Aquilo Fugia do Manual.
Em três dias, Miriam descobriu que Rebeca corria demais, falava dormindo e levava a vida inteira dentro da bolsa.
Dentro da bolsa carteiro, Rebeca levava o leitor digital, headphone, celular, carregador, curativos, presilhas, maquiagem completa, caixinhas de balas e chocolates que raramente eram abertos e, o mais importante, a pequena caderneta com uma única anotação: o telefone da Janis. Miriam tinha a sensação de que o resto pudesse ser substituído. Mas, aquilo, não.
Naquela manhã, descobriu outra coisa.
Rebeca tinha medo de dentista.
No carro, veio encolhida no banco da frente.
Sentada um pouco mais distante do que o normal.
Braços cruzados.
Olhando pela janela.
Não olhou para Miriam uma única vez durante o caminho.
Quando estacionaram, ficou alguns segundos parada.
Depois virou o rosto.
A carinha era quase infantil.
— Eu não gosto de dentistas.
Miriam desligou o carro.
— Ninguém gosta.
Pausa.
Mais gentil:
— Mas é importante.
— Vai ajudar você a se sentir melhor.
Rebeca franziu a testa.
— Como?
Miriam abriu a porta.
— Você vai ver.
Do lado de fora, Rebeca não segurou no braço dela.
Não esperou.
Também não correu na frente.
Caminhou só alguns passos distante.
Como quem queria companhia, mas não queria admitir.
Miriam observou.
E a própria cabeça começou a atrapalhar.
“Será que estou apressando tudo? Será que ela vai se sentir traída? Será que eu devia esperar mais?”.
Respirou fundo.
“Coragem, mulher. Você está fazendo a coisa certa.”
E entrou com ela na clínica.
***
Rebeca sentou na pontinha da cadeira.
Coluna reta demais.
Pernas balançando.
Sem parar.
Ritmo constante.
Nervosismo puro
A recepção era silenciosa.
Limpa.
O som dos instrumentos ao fundo.
Rebeca olhou pro chão.
Depois pra porta.
Depois pro relógio.
E continuou:
Balança.
Balança.
Balança.
Miriam ficou observando.
Um tempo.
Até que não aguentou:
— Você está captando a vibração de algum terremoto?
Rebeca lançou um olhar atravessado pra ela.
— Não tem graça.
— Tem um pouco.
— Eu nem estou com dor de dente.
Miriam cruzou os braços.
— Você não precisa esperar estar com dor… pra vir ao dentista.
— Eu sei…
Mas não parou de balançar.
— Sabe?
Olhou pra perna dela e acrescentou.
— Porque não parece.
Rebeca suspirou.
Parou por um segundo.
E recomeçou.
— Rebeca?
Uma assistente apareceu na porta.
Rebeca congelou.
Parou de mexer a perna.
Miriam levantou.
— Vamos.
Rebeca levantou também.
Deu o primeiro passo.
E entrou.
Rebeca sentou na cadeira.
Rígida.
Mãos apoiadas nos braços da cadeira.
O dentista foi simpático.
Calmo.
— Pode abrir a boca pra mim?
Rebeca obedeceu.
Tensa.
Quieta.
Luz direta.
Espelho.
Instrumentos.
O dentista observou com atenção.
— Hm… A gente vai precisar fazer uma limpeza.
Rebeca piscou.
Ele olhou melhor.
— E tem uma coisa aqui…
Chamou a Miriam com o olhar.
— Tá vendo esses desgastes?
Apontou.
— Aqui nos dentes… e esses sinais na gengiva. Isso é típico de apertamento.
Miriam assentiu.
— Eu recomendo uma placa.
O corpo de Rebeca endureceu. Não entendeu tudo, mas sentiu que era algo sério.
Mas não questionou.
Só ficou quieta.
Miriam se afastou.
— Já volto.
Rebeca ficou sozinha com o dentista.
Ainda mais tensa.
— Vamos fazer um molde, tá?
Material estranho.
Sensação esquisita.
Rebeca fechou os olhos.
Respira pelo nariz.
Aguentou.
O som dos aparelhos.
Água.
Sucção.
O tempo passou.
Mas, ela não reclamou.
Só suportou.
O dentista terminou.
— Pronto.
Entregou algo pra ela.
— Pra você.
Um pirulito sem açúcar.
Rebeca olhou.
Pegou.
— Obrigada.
A porta se fechou atrás dela.
Rebeca caminhou até Miriam.
Silenciosa por dois passos.
Três.
Ela parou.
Miriam olhou pra ela.
Então, Rebeca fez um bico.
Enorme.
— Podemos ir embora agora?
Miriam segurou o riso.
— Podemos.
Passos ressentidos até o lado de fora.
— Eu não gostei dele.
Miriam caminhava ao lado.
— Se você não me dissesse, eu jamais adivinharia.
Rebeca bufou.
Olhou o pirulito.
— E essa porcaria nem tem graça.
Mesmo assim, abriu a bolsa.
Guardou o pirulito com cuidado.
Miriam espiou de canto.
— Se é tão ruim, por que guardou?
Rebeca fechou a bolsa.
— Porque é meu.
Miriam quase sorriu.
Quase.
Quando chegaram a clínica, Rebeca foi direto para a sala de descanso.
Luma estava lá, preparando o café.
Rebeca foi para o beliche encostado na parede.
E se largou nele.
Ficou de costas para o mundo.
Como se tivesse sido traída pela vida.
Miriam entrou segundos depois.
Ainda processando o contraste.
Luma perguntou baixinho:
— O que aconteceu?
Miriam olhou para Rebeca.
Olhou para Luma.
Respirou fundo.
— Estou confusa demais pra saber.
Luma espiou o beliche.
— Ela passou mal?
Miriam respondeu seca:
— Só emocionalmente.
Do beliche veio a voz abafada:
— Eu odiei tudo.
Pela primeira vez, desde que Rebeca estava morando com ela, Miriam não sabia o que fazer.
Roupa nova ela resolvia.
Consulta ela marcava.
Problemas ela enfrentava.
Mas aquela menina silenciosamente ofendida, largada no beliche por causa de um dentista…
Aquilo fugia do manual.
Então, sem chamar atenção para si, Luma tomou a direção.
Sentou na beirada da cama, sem invadir demais.
Falou como quem comenta o tempo:
— Eu costumo comer brigadeiro quando estou chateada.
Nenhuma resposta.
Luma seguiu:
— Quer que eu peça alguns pra você?
Pequena pausa.
Da cama veio a voz abafada:
— Quero.
Mas Rebeca não mudou de posição.
Continuou dramaticamente virada para a parede.
Luma conteve um sorriso.
Então ergueu os olhos para Miriam.
Fez apenas um gesto discreto com a mão.
Deixa.
Caminhou até a porta e falou baixo:
— Melhor deixar a raiva passar. Depois a senhora conversa com ela.
Miriam ficou parada por um segundo.
Observando as duas.
Sem responder.
Apenas assentiu e saiu.
No corredor, sentiu uma gratidão quase incômoda subir pelo peito.
Porque, alguém soubera cuidar dela melhor do que a própria Miriam.
Fim do capítulo
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