Capitulo 34 - Do Jeito Dela
Capítulo 34 - Do Jeito Dela
A porta abriu.
Miriam entrou primeiro.
Rebeca veio logo atrás.
Braços cheios de sacolas.
Elas caminharam direto para a área de serviço.
As sacolas foram colocadas no chão.
Uma a uma.
Roupas novas.
Etiquetas foram arrancadas.
Miriam começou a separar as peças
— Isso aqui a gente lava antes de usar.
Rebeca tentou pegar um dos pijamas da pilha.
Miriam seguiu prática:
— Seus pijamas também.
Rebeca olhou rápido para o conjunto novo dobrado.
Depois se aproximou devagar.
— Mas… eu queria usar hoje…
Miriam nem olhou.
— Amanhã estarão limpos.
A voz veio doce. Alongada.
— Por favooor…
Miriam parou o que está fazendo.
Lentamente ergueu os olhos.
Rebeca estava parada.
Mãos para trás.
Cara de anjo recém-fabricada.
Miriam reconheceu imediatamente.
Perigo!
— Não.
Rebeca inclinou a cabeça.
— Só esse…
— Não.
Mais doce ainda e mais arrastado:
— Por favoooor…
Miriam pensou por um segundo: a menina já passou por tanta coisa...
Suspirou.
— Pegue aqui.
Rebeca sorriu.
— Sério?
— Antes que eu recupere o juízo.
Miriam abriu a tábua de passar.
Ligou o ferro.
— Isso está sujo de loja. Estou apenas improvisando.
Rebeca sorriu daquele jeito raro.
— Obrigada.
Miriam sem olhar:
— Não se acostume.
As duas sabiam que era tarde demais para isso.
Rebeca abraçou o pijama no peito.
— A senhora é boazinha.
Miriam sorriu:
— Não espalhe boatos.
Rebeca observava.
— A senhora costuma fazer tudo sozinha?
Sem parar o que estava fazendo:
— Temos uma moça que ajuda na limpeza da casa. E o jardineiro vem uma vez por semana, cuidar dos jardins.
Pausa.
— Mas, no geral… eu gosto de cuidar de tudo. Estou acostumada a fazer as coisas do meu jeito.
Rebeca assentiu.
Miriam se virou pra ela.
— Vá até o carro e pegue seus sapatos.
Rebeca piscou.
— Agora?
— Agora. Organizar o seu closet é tarefa sua. Você decide como e onde vai guardar suas coisas.
Rebeca ficou um segundo parada. Ninguém nunca havia dito isso pra ela
— Tá…
E foi.
Rebeca subiu as escadas com os braços carregados de caixas e sacolas.
Um pouco desajeitada.
Entre as coisas que ganhou: Uma mochila nova, bordada com uma clave de sol nada discreta, cheia de lantejoulas que brilhavam conforme a luz batia. Uma bolsa carteiro, grande e cheia de bolsos. E uma pequena bolsa social para usar quando fosse a igreja.
Rebeca olhou tudo.
Coisas espalhadas pelo quarto.
Que precisavam ser colocadas em ordem.
Ela pegou uma das caixas.
E seguiu para o closet.
Abriu a porta e parou...
No chão... encontrou as roupas que trouxera de casa...
Do jeito que caíram.
Amontoadas.
Silenciosas.
Rebeca não se aproximou de imediato.
Só olhou.
Mas não pegou.
Deu um passo.
Outro.
E então, com o pé…
Empurrou.
As roupas deslizaram.
E foram todas para o fundo do closet.
Encostaram na parede.
Amassadas.
Escondidas.
Ela não organizou.
Não dobrou.
Não separou.
Só afastou, como quem afasta uma lembrança ruim.
Rebeca não estava apenas organizando, estava começando a construir um novo lugar.
***
Mochila.
Bolsa.
Caixas.
Tudo foi guardado.
A única que permaneceu na cama foi a bolsa carteiro.
Os olhos de Rebeca brilharam.
— Perfeita.
Ela abriu.
Um bolso.
Outro.
Outro.
Pegou o leitor digital.
Guardou.
O tablet.
O celular.
Carregador.
Presilhas.
Caderneta.
Tudo foi entrando.
Sem critério.
Mas com entusiasmo.
Ela testou o peso.
— Dá. – resmungou para si.
A bolsa agora estava:
Cheia.
Pesada.
Mas organizada…
do jeito dela.
Ela colocou no ombro.
Ajustou.
Andou dois passos.
E aprovou.
— Agora sim.
Depois entrou no banheiro.
Banho demorado.
Água caindo.
Sem pressa pra pensar.
Alguns minutos depois, ela saiu.
Cabelo úmido.
Pegou o pijama novo.
Vestiu.
Calçou o chinelo fofo.
Macio.
Confortável.
Aprovou na hora.
***
Rebeca apareceu no topo da escada.
E desceu.
Correndo.
De novo.
Passos rápidos demais.
Sem nem olhar, Miriam falou:
— Eu vou ter que colocar um radar de velocidade nessa escada?
Rebeca freou no último degrau.
Rindo.
— Desculpa!
Miriam olhou pra ela.
— Se você cair… eu não vou saber explicar isso pra sua mãe.
— Eu não vou cair!
Mas desceu mais devagar o último degrau.
Ela entrou na cozinha.
Ainda sorrindo.
Sem aquele peso de antes
Miriam estava organizando as coisas para o jantar.
— O que eu faço?
— Primeiro! Anda.
Rebeca tentou disfarçar um sorriso.
— Tá bom…
— Segundo! Comece a arrumar a mesa.
Então, Rebeca começou a ajudar.
A mesa estava posta.
Simples.
Aconchegante.
Rebeca se sentou.
Olhou o prato.
Respirou.
Ela pegou a comida.
Levou à boca.
E parou.
Fechou os olhos.
Processando: sabor, textura, o momento...
Miriam observou.
Rebeca comeu outra garfada.
Mais devagar.
Sem pressa.
Daí, pegou um pedaço de carne.
Mordeu.
E... fez uma discreta dancinha.
Quase imperceptível.
Mas real.
Miriam levantou uma sobrancelha.
Viu, mas não comentou.
Quando as duas terminaram de jantar, Miriam levantou.
Foi até a geladeira.
E pegou três potes de sorvete.
Colocou na mesa.
E entregou três colheres.
— Prova.
Rebeca pegou uma colher.
Primeiro sabor.
— Hm…
Segundo.
Mais análise.
Terceiro.
— Chocolate.
Ela pegou uma colherada.
Levou à boca.
Virou levemente o rosto.
Fechou os olhos.
E ficou.
Degustando.
Com calma.
Miriam intrigada:
— Você está com dor?
Rebeca respondeu de boca cheia:
— Não… Estou ótima.
Miriam assentiu.
Rebeca continuou comendo.
Do jeitinho dela.
E Miriam…
Pensou: Mais uma… das muitas Rebequices que eu vou ter que aprender a conviver.
Fim do capítulo
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Elin Varen Em: 27/04/2026 Autora da história
O gosto da liberdade de escolher por si mesma é difícil até de explicar… depois que se prova, nada parece tão valioso quanto isso.