Uma companheira inesperada
Eu fiquei me perguntando qual era o interesse de Amy em mim para ficar insistindo tanto numa aproximação. Não que eu realmente achasse ruim a ideia de a conhecer agora, mas ela parecia tão fixada na ideia de me conhecer que eu me pegava ponderando o quanto ela era confiável.
Será que ela era uma dessas fãs malucas que ficava atrás dos escritores da editora para descobrir a identidade de Isa Miranda? Depois da minha última conversa com Arthur, eu não duvidava de nada. Era uma preocupação que eu não podia me dar ao luxo de esquecer, por mais que Amy fosse interessante. Minha segurança e minha identidade tinham que vir em primeiro lugar, porque ninguém cuidaria disso por mim.
Abri uma taça de vinho e liguei uma música suave e instrumental para preencher o ambiente, relaxando de toda a carga do dia. E que dia... Não estava nos meus planos ter um encontro arranjado por Samuel. Meu celular vibrou no bolso com o nome dele na tela, como que lendo meus pensamentos. Eu atendi, respirando fundo.
— Há quanto tempo, Samuel. — Falo com ironia.
— Eu juro que não estava nos meus planos te deixar sozinha com Amy de repente. Mas você sabe como Manuela é.
— Ah... e como sei. — Digo com pesar.
— É sobre isso que liguei também. Você sabe que só tenho meu quarto em meu apartamento, e eu só conheço uma pessoa confiável com quarto de hóspedes disponível.
— Confiável? Samuel, essa garota vai apertar meu pescoço enquanto durmo.
— Eu sei e sinto muito. Mas não queria que ela pagasse um hotel. Além de que ela não conhece nada na cidade, então achei que fosse ser mais seguro se você ficasse de olho nela. Pelo menos até eu achar um lugar.
— O que ela está fazendo em Canéia? Achei que nunca mais a veria.
— Ela acabou de se formar, minha mãe não a aguentava mais. — Ele riu, mas ainda parecia cansado mesmo pelo telefone. — Enviaram-na por causa da oferta de trabalho. Ela conseguiu uma vaga como editora onde você trabalha, então...
— Oh, que bela notícia. Agora ela trabalha na mesma editora?
— Editora Objetiva, não é?
— A própria.
— Posso levá-la? Por favor.
— E eu tenho escolha? Traga.
— Estou te devendo uma.
— Duas, se for contar com o encontro tramado.
— Então pagarei pelos dois favores. — Ele soltou um risinho.
— Estou esperando vocês, não demorem.
— Ok.
Coloquei uma almofada no rosto e respirei fundo, mas acabei levantando e a socando, chutando o sofá. Aquela garota me traria mais problemas do que me trouxe da primeira vez.
Foi só o tempo de organizar o básico no quarto de hóspedes que Samuel tocou a campainha e eu desci para abrir a porta. Eu só troquei os lençóis pelos mais limpos que eu tinha e abri um pouco a janela para ventilar. Não havia muito a ser feito ali e eu não tiraria o pó da mobília. Somente uma mesinha ao lado da cama com duas gavetas acumulava mais poeira, porque o espelho de parede e o guarda-roupa ficavam lado a lado na frente da cama não retinham qualquer sujeira. Tudo estava alinhado no centro do quarto.
Samuel me sorriu agradecido em meio ao cansaço, então eu vi Manuela. Ela agora era uma mulher, tinha o tom de pele e dos olhos iguais aos de Samuel, os cabelos desciam encaracolados até os ombros, seu rosto era juvenil, mas marcado pela rebeldia. Ela sorriu e me abraçou sem dizer nada por um longo instante, prendendo os braços em minha nuca. Fiquei parada com as mãos na cintura, esperando que ela se afastasse.
— Há quanto tempo Ana!
— Poucos, mas que passaram tão depressa. — Sorrio um pouco, ainda que desconfortável. — Você não mudou tanto assim.
— E você então? Parece que não envelheceu nada! — Ela mirou meu corpo rapidamente, parando em meus olhos com um sorriso maroto.
— Grande ironia. Entre, sinta-se em casa. Não é como se fosse preciso te dizer o mesmo, não é Samuel?
— Eu já sou de casa. Só não usei a chave em caso você estivesse andando nua. — Ela sorriu de maneira sugestiva na minha direção, mas eu o ignorei ou iria socá-lo ali mesmo. — Quer ajuda com as malas, Manuela?
— Não, são só duas. Eu me viro. — Ela respondeu.
— O quarto de hóspedes é a primeira porta à direita. — Indico.
Ela entrou com as duas malas e subiu como se conhecesse minha casa tão bem. Fui com Samuel até a sala, momento que ele quis saber o que houve no resto do encontro com Amy, o que pareceu recuperar seu ânimo, a julgar pela empolgação de ouvir.
— Você foi um amor de pessoa então. — Constatou com um sorriso de lado.
— O que é ser um amor de pessoa? O fato que não arranquei o pescoço dela quando contou dos seus planos?
— Não. Que dizer... Sim? Ela ainda tentou te beijar! Então ela está mesmo afim de você, mesmo sabendo das suas qualidades de se esquivar.
— Espere até chegar aos defeitos. — Isso o fez rir.
Recostei no sofá e escorreguei no assento. Apoio a cabeça para trás e fico olhando o teto, separo minhas pernas e cruzo os dedos sobre a barriga, sentindo-me mais calma.
— Então terá uma próxima vez? — Samuel perguntou sutilmente, talvez em busca de esconder sua expectativa.
— Eu disse para ela ficar conosco na lanchonete.
— O que você disse?! — Ele parecia perplexo. — Você falou isso?
— Ela me encurralou, eu não tive escolha. — Sinto-me mais na defensiva. — E aconteceria de qualquer forma, já que ela tem ido até a Helena todos os dias.
— Mas ainda é uma surpresa vindo de você. Tantas garotas que você já deu o fora... Você podia ter feito o mesmo com ela.
— Poderia realmente, ainda tenho tempo.
— Mas não o fez. Então significa que gostou dela?
— Ela é insistente e teimosa, isso ficou evidente. Mas de um jeito que eu gostei.
— Isso é um grande avanço.
— Mas não crie expectativas. — Respiro fundo e inclino a cabeça para o olhar. — Ela é fã de Isa. Você viu hoje. E há fãs malucos por aí. Eu não posso deixar de pensar que isso vai ser um problema. Ela é jovem. Se desconfiar que sou Isa, pode simplesmente espalhar a notícia por próprio mérito e minha carreira estaria acabada.
— Não pense tanto nisso. Concentre-se em a conhecer melhor primeiro. Se ela quiser saber mais sobre o que você escreve, usa o seu antigo blog. Ou arranje um trabalho de meio período só para manter as aparências.
— Sim, talvez eu realmente faça isso, ao menos para me ocupar.
Ele subiu após um tempo para se despedir de sua irmã, então foi embora, porque estava exausto. Fiquei sozinha com Manuela, que se serviu do resto do meu vinho para o meu desprazer.
— E então? Alguma novidade? — Ela me perguntou.
— Não tente agir como se fôssemos amigas.
— Qual é Isa, só estou tentando puxar assunto. Não podemos esquecer o passado e seguir adiante?
— Primeiro que meu nome é Ana. Não me chame por Isa, ninguém pode sequer pensar nisso.
— Eu sempre te chamei assim.
— Agora Isa chama atenção demais e eu quero manter minha identidade à salvo. Estamos entendidas?
— Claro, chefia.
— Ótimo. Então seja bem-vinda. — Abro um rápido sorriso. — Não quero festas aqui, se for trazer alguém me avise e não deixe ficar vagando pela casa nem mexendo nas minhas coisas. Seja organizada e não interrompa minha paz, assim poderemos conviver.
— Sem problemas.
— Sei, é o que veremos. — Porque eu duvidava que ela seguiria minhas regras tão facilmente assim. — Boa noite.
Eu dormi profundamente naquela noite, exausta, e provavelmente o vinho tinha ajudado. Pela manhã senti o cheiro de café quando saí do quarto. Tomei um banho rápido e troquei de roupa, colocando algo mais casual, como uma calça palazzo preta e uma camisa mais lisa branca. Manuela estava cozinhando na minha cozinha, eu me sentei no balcão e a observei; ela acabou sorrindo quando me viu.
— Bom dia! — Falou com empolgação.
— Dia... — Estreito os olhos para o seu ânimo matinal.
— Está com fome? Estou quase terminando.
— Claro. — Suspiro, sentindo outros cheiros. — O que está fazendo?
— Ovos mexidos para mim, para você torrada com queijo derretido.
Eu peguei meu celular para checar as notificações. Eu administrava a página oficial de Isa, mas também tinha uma rede social para contato direto com fãs. Visualizei os e-mails, confirmando o pagamento do mês com alguma satisfação.
Eu estava visualizando o meu site quando vi uma mensagem que me chamou a atenção. Era uma conta privada com a foto de um cachorro, mas a mensagem dizia: “Saudações! Assisti ‘Do outro lado’ finalmente! Queria que soubesse que finalmente pude enxergar os detalhes que deixou escondido na história graças à uma amiga. Eu amei! Não deixe de escrever, eu preciso de mais. Tenha um bom final de semana!” Achei coincidência demais com o encontro da última noite. Seria possível que a mesma situação tivesse se repetido na mesma noite com outras pessoas? Que mal havia responder? Eu respondia a todos que podia quando tinha tempo.
“Você tem bons amigos. Fico contente que a história está se espalhando. Em breve terei mais novidades; não saberia ficar sem escrever mais, então espero que fique bem até lá, odiaria te desapontar.”
— Me dá alguma atenção! — Manuela protestou, eu desviei o olhar do celular para notar que ela tinha me servido um prato com a torrada e uma camada generosa de queijo derretido em cima e esperava por alguma reação.
— Agradeço.
— Finalmente.
— E eu achando que você ficaria menos infantil com o passar do tempo.
“Eu não viveria o suficiente para te ver me desapontando.” Foi o que o tal “AnjoDosPets” me respondeu. Não tive sequer tempo de reagir ao ter o meu celular arrancado das minhas mãos, outra vez minha atenção sendo roubada por Manuela, que tinha a testa franzida em frustração.
— E eu achando que você tivesse ficado menos velha e rabugenta.
— Não estou te obrigando a falar comigo, estou?
Não deixaria que essa garota me atormentasse tão cedo, ela pareceu desistir, devolvendo meu celular e me deixando comer em paz pelos primeiros minutos.
— Afinal de quem estava falando com Samuel ontem?
— Além de tudo é enxerida agora. Preciso dizer que não é da sua conta?
— Para que isso? — Ela pareceu ofendida. — Só estou tentando ser amigável.
— Como da última vez? Dispenso.
— Eu só tinha 17 anos, pode me dar um desconto?
— E eu tinha 25. — Pontuo. — Eu poderia ter sido presa.
— Mas não foi! Minha mãe só estava nervosa por ter nos flagrado e Samuel não deixaria que ela prestasse queixa.
— Você não mede suas atitudes, não é mesmo? Continua sendo incapaz de assumir seus erros.
— Eu estava apaixonada, Ana! Queria que você visse isso, que me visse mais que a irmã de Samuel. Mas eu não sei por que espero que você entenda isso, não importa o quanto o tempo passe, você sempre vai ser um bloco de gelo sem sentimentos.
— Eu não preciso te aturar logo de manhã. — Meus olhos reviraram por instinto. — Cansei. — Afasto-me do balcão e guardo o celular no bolso. — Vou sair. Não estrague minha casa.
Peguei minha carteira e minhas chaves, indo para a garagem e sentindo-me estressada em plena manhã. Onde eu tinha a cabeça quando aceitei que Samuel a trouxesse para a minha casa? Isso nunca vai dar certo. Manuela é imatura demais para eu me obrigar a ter alguma paciência com ela. Foi assim há cinco anos, seria assim novamente se eu não tomasse todas as providências para a manter o mais distante possível de mim.
Dirigi para longe do meu bairro e pela cidade, buscando aliviar o peso dos meus ombros e limpar o turbilhão de pensamentos que corriam em minha cabeça. Era como ter várias vozes gritando suas razões umas com as outras, tornando a simples tarefa manual mais complicada.
Eu ainda lembrava o que a paixão de Manuela me causou naquela época.
Eu já tinha me formado e estava trabalhando na Objetiva como editora, juntando dinheiro enquanto morava num apartamento com Samuel. Eu tinha decorado nossa rotina. Ele chegava mais tarde em alguns dias da semana por causa das reuniões na escola que trabalhava na época, dias que eu aproveitava para demorar no banho. Mas naquele dia em específico foi um erro. Tão logo saí do banheiro, Manuela apareceu, não se contendo em se lançar em mim com seus braços carentes.
— Solte-me garota! — Eu gritava, tentando afastá-la e a praguejando por ter derrubado minha toalha. — Você enlouqueceu? Está bêbada? Se afaste de mim!
— Eu amo você. — Ela sorria para mim, inabalada. — Eu não aguento mais esconder isso de você. Preciso de você, Ana, me faça sua!
— Você é menor de idade e eu nunca te olhei de outra forma. Agora me solte, eu não quero te machucar. Samuel vai chegar em breve.
Ela não parou. Claro que não parou. Ela me lançou no sofá e deitou em cima de mim, tocando onde nunca devia ter tocado. Samuel chegou com a mãe logo em seguida, querendo mostrar o nosso apartamento, e não é preciso ser inteligente o suficiente para saber que a mulher enlouqueceu com a cena e quis prestar queixa contra mim. Eu quase fui presa por causa dessa brincadeira infeliz de Manuela. Se não fosse por Samuel aquilo teria ido parar nos ouvidos dos soldados e seria meu fim.
Como ela tinha conseguido entrar no apartamento sempre foi um mistério que eu nunca me importei em descobrir. Eu só queria esquecê-la e esquecer todo o constrangimento que ela me fez passar por sua atitude inconsequente.
Foi quando eu percebi tarde demais um cachorro atravessando a rua na minha frente. Tentei frear o carro, mas já era tarde. Eu acertei o coitado! Puxei o freio de mão e desci do carro, correndo até a frente do carro. O cachorro estava deitado no chão, olhos abertos, e chorava. Droga, aquilo tinha que ser culpa da Manuela!
— Pobre coitado, você está bem? — Indago sem realmente esperar por resposta.
Abaixei a sua frente, estendendo a mão para ele cheirar. Ele não pareceu achar ruim e abanou o rabo, então toquei sua cabeça e acariciei.
O que eu tinha feito? Ele tinha quebrado algo?
— Consegue ficar em pé, garoto? — Eu assoviei para ele, que foi parando de chorar e respondeu ao chamado. Ficou em pé lentamente, mas somente com as três patas apoiadas no chão, a quarta estava dobrada. — Está bem, ao menos não está mais chorando. Venha, animal, eu te levo no médico e você diz o que quebrou, pode ser?
Vejo pessoas me olhando nas calçadas e escuto as buzinas dos outros carros atrás do meu. As pessoas eram tão estúpidas que me dava vontade de gritar. Ao invés disso eu mostrei o dedo médio para eles. O cachorro mancou quando o chamei até a lateral do carro, então com cuidado e algumas tentativas, ele entrou no banco de trás e se deitou. Percebi que era fêmea. Deixei-a ali, voltei para o banco da frente e dei partida no carro.
Dirigi por alguns quarteirões até parar no meio fio, considerando o que fazer. Ela chorava baixinho, a pata esticada de lado. Eu precisava de um veterinário, mas não conhecia nenhum. Então peguei o celular e liguei para Samuel, porque ele tinha todo o tipo de contato. Ele até me indicou uma ginecologista quando a minha se aposentou.
— Manuela já está aprontando? — Ele perguntou tão logo atendeu.
— Não diretamente. Mas eu acabei de atropelar um cachorro e preciso do endereço de um veterinário.
— Como você pode fazer isso? — Ele não tardou em me julgar. — Ele está vivo?
— Sim! Não sou uma assassina. Diga que conhece alguém, porque acho que ela quebrou a pata.
— Anota aí, conheci uma veterinária recentemente. Vai saber o que fazer.
Ele me falou o endereço e eu marquei no mapa diretamente, desligando a chamada em seguida. Dei novamente partida e o carro saltou para frente, então segui pelo caminho que o aparelho me guiava. Não havia trânsito naquele horário porque era o dia de folga da maioria das pessoas, além de ser muito cedo para movimento. Isso tornou a viagem breve até o estabelecimento. Não diminuiu minha preocupação e nem a culpa por ter dirigido sem plena atenção no volante. Isso nunca tinha acontecido antes! Já era o terceiro acontecimento fora da rotina planejada em menos de 48 horas.
Primeiro o encontro com Amy; então a chegada de Manuela e agora um atropelamento. Era pior que um pesadelo, porque não havia como acordar daquilo.
Quando cheguei, agradeci por já estar aberto. Desci do carro e abri a outra porta, agradecendo que a cadela não fez tanto alarde quando a peguei nos braços. Rosnou um pouco, mas eu expliquei que iria cuidar da dor que sentia; se ela entendeu ou não, ao menos a fez deixar com que a segurasse em meus braços. Eu a atropelei e ela confiava em mim. Tranquei o carro e segui com ela no colo, empurrei a porta de vidro com as costas e entrei. Uma das funcionárias veio até mim rapidamente. Era baixa, com o rosto e o corpo arredondado, um piercing de argola na narina e os cabelos curtos pintados de verde.
— Posso ajudar? — Ela indagou enquanto olhava entre a cachorra e eu. Sua voz era suave e provocou um pouco de alívio em mim.
— Preciso de um veterinário para ela. Acabei de atropelar e acho que quebrou a pata.
— Claro. A Dra. Fontenelle está livre. Siga-me.
Fui com ela até o consultório, seguindo-a de perto porque ela tinha o passo apressado. O petshop era grande, percebi pelo caminho. Tinha quase uns dez corredores com produtos variados de animais à direita, pelo menos dois com brinquedos diversos. Havia a parte de alimentos, de acessórios como coleiras e correntes, além das medicações. Tinha uma vitrine com filhotes de gatos e cachorros para doação perto da entrada, eles se agitaram quando passei por ali. Eram tão fofos que quase parei para olhá-los por mais tempo, se não fosse a cachorra no meu colo eu certamente faria isso. Tinha outra vitrine aos fundos, onde três funcionários faziam o banho e a tosa de cachorros de raças diferentes, um deles um vira-lata cinzento. Os consultórios ficavam à esquerda, todos fechados, mas a mulher abriu a segunda porta e me deixou entrar primeiro.
— Com licença Dra., eu... — Começo a dizer assim que entro.
Mas paro, recuando um passo com o susto que levei ao ver a tal doutora sentada atrás de uma mesa. Senti as mãos da funcionária impedir que eu recuasse mais, mas a minha vontade foi de voltar para o lado de fora do petshop, assustada em encontrar quem menos eu esperava.
— Calma! — Ela diz e ergue os braços. — Não estou armada!
— Amy?! — Digo sem acreditar. — O que faz aqui?!
— Trabalhando, eu acho. — Ela riu e se levantou. — Eu disse que era veterinária. A questão é: o que você faz aqui?
— Eu... — Perdi o fôlego com a surpresa de vê-la ali; ela pareceu se divertir.
— Calma Ana. Deixe-me ajudá-la.
Ela ficou perto de mim e me indicou a mesa de metal, onde deixei a cadela. Amy pegou um biscoito canino e entregou à cachorra, que comeu esfomeada, engolindo de uma vez. Então permitiu que Amy acariciasse sua cabeça, olhando sua outra mão à espera de um novo biscoito, que não veio.
— O que aconteceu, Ana? Não sabia que tinha cachorro.
— E eu não tenho. Estava distraída no volante e não a vi atravessar, é tudo minha culpa.
— Oh, é cachorro de rua. — Constatou, olhando de volta para a cachorra. — Eu vou ver o que posso fazer.
— Faça tudo o que precisar Amy. — Digo com preocupação, sentindo-me trêmula e angustiada com toda aquela situação. O mínimo que poderia fazer era zelar para que o animal tivesse o melhor tratamento. — Odiaria que algo pior acontecesse a ela por minha causa. Eu pagarei por tudo.
— Não se preocupe. Tenho um sistema para pessoas de baixa renda se precisar. — Ela tocou meu queixo em brincadeira. — Eu vou levar a cadela para o Raio X e verificar se não quebrou alguma coisa.
— Claro, qualquer coisa. — Eu me voltei a cachorra e acariciei sua cabeça. — Viu, garota? Ela vai cuidar de você, então se comporte.
Ela era comprida, alta, parecia ser uma raça misturada de border collie com vira-lata, o peito era branco, mas todo o resto era marrom, olhos castanhos. Ela era peluda demais, mas ainda podia perceber que estava muito magra e fraca.
Amy saiu da sala e pediu que os funcionários levassem a cachorra para fazer o exame. Eu me sentei depois que ela foi levada, inclinando-me para frente para tentar absorver o que tinha acabado de fazer. Minha cabeça estava um turbilhão e eu atropelei um cachorro por causa disso. Eu me sentia péssima. Amy voltou após algum tempo, parando à minha frente.
— Está tudo bem?
— Não! Eu atropelei um cachorro. — E constatar aquilo não tornava o impacto menor.
— Ela vai ficar bem, não se preocupe.
— Claro que me preocupo. Ela estaria levando a vida normalmente se não fosse por minha causa.
Ela se abaixou a minha frente, atraindo meu olhar. Ela estava calma enquanto eu estava uma pilha de nervos. Segurou minhas mãos com aquele olhar condescendente e experiente, compaixão brilhava ali; talvez por isso não tenha me incomodado com a sua proximidade.
— Não se culpe assim. Certas coisas acontecem por uma razão.
— Que razão teria eu desgraçar a vida daquele animal?
Ela sorriu e acariciou meus dedos, imperturbável. Parecia estar acostumada com aquele tipo de situação, era até justificável, se fosse imaginar a quantidade de animais que ela atendia ali.
— Ela não quebrou nada, só foi um susto. Eu posso fazer um curativo, tosá-la, dar banho, as vacinas, mas o que acontece depois você decide.
— O que você quer dizer com isso? Quer que eu a leve?
— Eu não posso jogá-la de volta na rua, querida. Se você não a levar, ela irá para um abrigo e vai esperar para ser adotada.
— Ela está melhor sem mim, eu sequer sei o que fazer com um animal. Eu nunca tive nem um peixe!
— Eu não acho que você seria tão terrível assim. — Ela ainda sorria. — Olha só o tanto que já fez. Você a trouxe aqui, quando podia ter deixado na rua. Você a trouxe e ainda se responsabilizou por ela. Eu não diria que há muitas pessoas que fariam o mesmo.
— E como eu faria isso, Amy? Como eu levaria uma cachorra de repente para casa?
— Se quiser eu posso te ajudar. Você pode me ligar a qualquer momento sempre que tiver uma dúvida e eu sempre cuidarei dela quando você precisar, que tal?
— Vou te ligar a cada cinco minutos, sabe disso, não é?
— E isso lá seria um problema? — Ela riu sutilmente. — Eu iria adorar te acudir a cada vez que precisasse de mim. Seria um bônus.
— Você não perde uma chance. — Constatei, ainda que não achasse algo ruim.
— De ficar perto de você? Não sou idiota. — Ela riu e beijou minhas mãos. — Eu farei tudo por ela. — Garantiu antes de se levantar. — Já volto.
— Tudo bem, obrigada.
Ela saiu e eu fiquei ali, apenas esperando. Samuel me mandou ali, sabia que era o consultório de Amy. Mas agradeci que fosse ela, afinal, nenhum outro veterinário teria me convencido a ficar com a cachorra. Eu não sabia explicar, mas ela tinha uma forma de me fazer ceder... que ninguém antes teve.
Após um tempo, Amy me chamou para acompanhar os cuidados com a cadela e ela ficou comigo nesse meio tempo, falando sobre como decidiu estudar veterinária, seu amor pelos animais. Eu acabei adorando ouvi-la, saber de sua história e ouvir sua voz. Ao que parecia ela conseguia desenvolver uma conversa de maneira natural e não se deixava intimidar quando eu não falava muito sobre a minha própria vida. Não que fosse completamente de propósito, mas eu me vi mais interessada em a conhecer melhor do que buscar algo interessante sobre mim que não envolvesse Isa Miranda.
Nossa conversa foi o tempo de terminar os cuidados com a cachorra, e ela me indicou a ração e os potes para levar, junto ao shampoo, coleira e cama.
— E o que eu faço agora? — Indago a ela já do lado de fora do petshop. Coloquei tudo no porta-malas e ajeitei a cachorra no banco traseiro.
— Você vai para casa, tenta não atropelar outro cachorro, e coloca a cama num lugar quente, de preferência no andar debaixo, por causa da pata.
Eu ri com a sua piada, concordando. Fechei a porta e parei ao lado do banco do motorista, sentindo-me menos preocupada e tensa naquela altura porque a cachorra estava com aparência bem cuidada, sem gem*r por causa de dores. Pelo contrário, ela parecia muito bem, à vontade dentro do carro.
— E se ela precisar ir ao banheiro?
— Use o tapete higiênico, no banheiro. Mas acho que ela só vai dormir quando chegar em casa, por causa dos medicamentos.
— E depois?
— Fique calma. Eu posso passar lá depois do expediente e te ajudo nos primeiros cuidados.
Baixo o olhar por um instante, pensando se isso não seria má ideia. Amy tinha me ajudado em muito mais do que os cuidados com a cachorra, tinha me feito aceitar a maluca ideia de cuidar do animal. Coisa que nunca fiz na vida. Ainda assim eu não podia esquecer que o objetivo principal dela era se aproximar de mim, até então eu estava deixando. Se era uma boa ideia eu não fazia ideia.
— É só para isso, eu juro. — Ela me disse e eu tornei a olhá-la. — Não vou avançar os quarteirões.
Não resisto em rir outra vez, acabando por ceder. Que mal faria ver até onde ela ia e o que queria comigo? Eu podia me livrar daquela situação depois quando bem entendesse.
— Tudo bem, mas só porque estou desesperada. É como se tivesse levando um filho para casa.
— De certa forma está.
— Não brinque com isso. — Sorrio. — Eu iria enlouquecer com uma criança, estou satisfeita com o cachorro.
— Isso é bom, estou tentando te preparar para essa responsabilidade.
— Boa sorte na tentativa.
— Estou tentando muitas coisas contigo no momento.
— Você não vai achar o pote de ouro no fim. Então se espera descobrir algo magnífico... — Deixo que a frase termine inacabada, para que ela interpretasse.
— Garanto a você que não é no fim que estou interessada.
— No que então? Todos só querem saber do fim da história.
— Eu quero saber o que acontece durante a história. Sem isso não teria o fim, e essa é a melhor parte de todas.
Não soube o que dizer, de repente tão refém de suas palavras, e ela pareceu gostar disso. Ela sacou um cartão do bolso do jaleco e o estendeu.
— Uma hora eu vou acabar com todas as suas barreiras e você não terá escapatória.
— Ah, é? Veremos.
Ela apenas sorriu e me entregou o cartão. Tinha o logo do petshop no topo: Meu Querido Pet. Embaixo o nome de Amy e os números para contato, além do endereço. Era simples e prático, branco, mas com algumas patas de animais diversos enfeitando o cartão nas laterais.
— Tem os meus números para contato, então se precisar... Já sabe.
— Obrigada por tudo, Dra. Fontenelle.
— Pode retribuir a isso me dando um autógrafo mais tarde.
— Você lê meus livros? — Indago um tanto alarmada.
— Não, mas vou adquirir.
— Ah, não sei se é uma boa ideia... — E a sensação de tomar um banho de água fria me abateu. Claro que tinha que ser lembrada de Isa naquele momento.
Abri a porta do carro e entrei, dando partida no carro, mas baixei o vidro. Não seria muito educado ir embora sem mais nem menos. Amy parecia genuinamente confusa naquele momento.
— Ei, disse algo errado? — Ela pergunta ao se inclinar na porta.
— De errado? Não. Você só me fez lembrar uma coisa.
— Desculpa? — Sua sobrancelha ergueu.
— Não é culpa sua. Até depois.
— Até...
Ela se afastou e eu liguei a seta antes de manobrar o carro e o guiar para a pista. Tudo estava indo tão bem... Por que Isa sempre era envolvida nos meus assuntos tão insistentemente?
A cachorra tinha um curativo novo na pata dianteira, estava tosada e tinha um lacinho na orelha. Parecia outra cachorra. E estava tão à vontade no banco traseiro que parecia pertencer a aquele lugar, ou como se tivesse passeado no meu carro uma dezena de vezes.
Quando chegamos em casa, não precisei leva-la para dentro, ela simplesmente foi andando como se possuísse o lugar. Foi tão natural e automático, que foi como se ela sempre tivesse feito isso. Por algum motivo isso me lembrou Samuel, com seu jeito todo afobado entrando na minha casa quando bem entendia e ainda vasculhava as gavetas e a geladeira.
Levei o que consegui carregar para dentro de casa, vendo Manuela acariciar entre as orelhas do animal, que abanava o rabo.
— Ah, não, e eu jurava que encontraria ela no seu pescoço.
— Você é tão má. — Ela me revirou os olhos. — O que aconteceu? Não lembro de te ver saindo com um cachorro.
— Vai me ajudar aqui ou está difícil?
Ela suspirou, mas me ajudou, pegamos o restante no carro e organizamos em casa. Coloquei a cama perto da lareira na sala, junto dos potes de comida e água. Ela comeu e bebeu com pressa, teria comido mais se eu colocasse, mas julguei que não deveria engordar o animal no primeiro dia, então sentei do seu lado. Acariciei sua cabeça a espera que dormisse, aos poucos ela se acalmou da urgência de comida e foi relaxando diante do meu carinho. Amy estava certa, afinal, os remédios iriam derrubá-la.
— O que aconteceu? — Manuela insistiu, parada ali perto.
— Eu a atropelei. — Digo com pesar. — Achei que tivesse quebrado a pata, então levei na veterinária. Decidimos que seria melhor eu ficar com ela ou acabaria no canil; e você imagina para onde ela iria depois.
Ela ainda parecia surpresa. Eu não me importei. Fui até a cozinha e peguei uma maçã, sentindo fome. Era tarde já, então comecei a preparar o almoço para ocupar meu tempo. Manuela se prontificou a me ajudar, lembrando-me que eu não podia mais fazer uma porção individual nas refeições. Eu nem sabia o que era realmente morar com outra pessoa. Quando morei com Samuel não nos obrigávamos a nada e não tínhamos exatamente uma rotina, somente um senso de obrigação.
— Terei uma convidada em breve. — Anuncio enquanto comemos. — Agradeço se você se comportar.
— Eu não sou uma criança, Ana. Não se preocupe comigo. Posso saber quem virá?
— A veterinária.
— Para ver seu cachorro?
— Também.
— Oh.
Ela riu, entendendo, mas agradeci que ela guardou os comentários para si. Não precisava da sua curiosidade, sequer sabia se queria alguma relação amigável com ela, mas como estávamos vivendo debaixo do mesmo teto por não sei quanto tempo, julguei um progresso a demonstração de controle dela. Talvez não fosse mais uma adolescente, afinal.
Liguei para Samuel depois do almoço para atualizar sobre a cachorra e sobre a visita de Amy. Eu não sabia o que pensar mais sobre aquela situação, estava tão recente e agora havia um cachorro que me ligava a ela. Muita coisa em pouco tempo, eu não sabia o que fazer sobre isso.
— Assume que está gostando. — Samuel me provocou. — Ela está caidinha por você.
— Não é como se eu tivesse dado aberturas para ela. Eu devo ser uma conquista somente. Sou mais velha e ela não sabe muito sobre mim. Pode simplesmente ser um passatempo para ela.
— Não seja tão pessimista. E mesmo que seja isso, faça a mesma coisa! Se ela quer somente diversão, você devia ter uma conversa com ela, mantenham as coisas casuais. Se ela quiser algo mais sério, ao menos você estará preparada, na mesma página que ela.
— Sim, acho que você tem razão. É melhor tirar o curativo de uma vez do que esperar. — Respiro fundo. — É só tão de repente. Não estava esperando que fosse aparecer alguém como Amy.
— Algo bom?
— Sim, espero que sim. Eu só fico pensando que quanto mais próxima ela se manter, mais próxima de descobrir sobre Isa.
— Não é um assunto tão problemático. As pessoas adoram você, o que escreve ao menos. — Ele riu enquanto eu revirava os olhos. — Vai ser só questão de a fazer entender a importância de manter segredo. Se até Manuela foi capaz de manter segredo por todos esses anos apesar de tudo, Amy pode manter também.
— Espero que sim. — Fecho os olhos quando o escuto comemorar do outro lado, quase abafando o som da campainha. — Ai, droga! Ela chegou. Deve estar com a orelha quente.
— Vá agradecê-la por derreter esse coração gelado. — Ele me provocou.
— Muito engraçado. Boa noite.
— Boa noite.
A cachorra estava na porta, abanando o rabo, parecendo adivinhar quem era do outro lado. Caminhei até lá e respirei fundo antes de abrir, vendo Amy outra vez. Seu sorriso abriu antes de qualquer coisa, mas antes de falar ela se abaixou e afagou a cabeça da cachorra.
— Ei garota! Eu já estava com saudades de você! — Falou animada enquanto recebia lambidas no queixo e no pescoço. — Vejo que está muito bem. Está sendo bem tratada na sua nova casa?
— Se ela disser que não ela está mentindo. — Isso a fez rir, então se levantou e beijou minha bochecha.
— E ela está te tratando bem?
— Eu não sei, acho que ela prefere você. — E parecia preferir mesmo, porque ela tinha pulado e tinha as patas na cintura de Amy.
— Está vendo isso? Ela está com ciúmes. — Amy falou com a cachorra para me provocar.
— Anda, entre antes que ela resolva fugir com você.
— Isso não seria uma má ideia. Lênin iria adorar conhece-la.
— Quem é Lênin? — Perguntei enquanto ela entrava e eu fechava a porta. — Seu irmão?
— Meu cachorro. Desculpa pela demora, aliás, eu passei em casa para deixar comida para ele e checar as coisas, trocar de roupa para não vir aqui cheirando a animal.
— Sem problemas. Mas você podia tê-lo trazido para não o deixar sozinho.
— Ah, ele é independente. Quando o adotei ele era como ela. — Ela apontou a cachorra entre nós na entrada. — No primeiro dia ele fugiu, mas voltou de noite, e tem sido assim desde então.
— Um cachorro esperto. Não consegue ficar preso.
— Você pode dizer isso.
— Você quer tirar o casaco? Está quente.
— Claro, obrigada.
Ela me entregou o casaco, eu reparei na regata vermelha justa que estava usando, marcando bem sua carne. Amy tinha seios pequenos, mas não menos atraentes, principalmente quando ela colocou aquela camisa que valorizava o contorno deles. A calça slim de ginástica a deixou com ar informal, diferente do traje com jaleco que ela usava no petshop mais cedo. Talvez tenha reparado demais no seu corpo, porque ela se mexeu no lugar. Quando olhei seu rosto, suas bochechas estavam rosadas. Que péssima atitude a minha.
— Desculpa por isso, eu me distraí. — Digo enquanto pendurava o casaco atrás da porta. — Mas você está diferente. Você sabe... sem o jaleco. — Isso Ana, piore ainda mais a sua situação.
— Estou feliz que tenha gostado. — Ela riu, virando-me as costas enquanto gesticulava para ela seguir à frente, em direção à sala.
Ela tinha me pego ali, realmente. Reparei numa tatuagem em seu ombro enquanto via suas costas. Era uma mão segurando um mastro, mas não havia qualquer bandeira na ponta. Nunca tinha visto uma tatuagem daquela forma.
Ela se sentou no sofá e prendeu o cabelo num coque no topo da cabeça, duas mechas caindo ao lado do rosto. Por que ela tinha que ser tão atraente? Era tão fácil me distrair desse jeito.
— Você quer beber ou comer algo? — Ofereço.
— Não, obrigada.
Sentei do seu lado então, respirando fundo. Por onde começava uma conversa? Fazia tanto tempo que eu não conversava com pessoas novas que sequer sabia como iniciava assuntos casuais. Será que eu perguntava sobre o trabalho dela, aproveitando que a tinha visto no local em que trabalhava? Ou perguntava mais sobre o seu cachorro e tentava descobrir se morava sozinha ou se tinha família? Seria muito intrusivo já perguntar sobre a família?
— Você já escolheu um nome?
— Para quem? — Perguntei sem entender, demorando a esquecer meu raciocínio de como puxar assunto.
— Para ela. — Indicou a cadela, deitada aos nossos pés.
— Ah... — Baixo a cabeça e respiro fundo. — Ela precisa de um nome. Não posso chamá-la de cachorro?
— Você não me chama de humana. Logo, tem que dar um nome a ela.
— Está bem, não deve ser difícil, eu dou nome à personagens o tempo inteiro.
— Já é um começo. Como você decide os nomes dos seus personagens?
— Eu procuro nomes menos usados de cada região. — Olho para a cachorra, chamando por ela até que ela subisse no sofá, então acariciei seu rosto enquanto ela lambia meus pulsos. — Depois basta ver alguns significados para tentar agregar na personalidade do personagem.
— Por exemplo? Não parece tão simples.
— Não, não é realmente. — Sorrio. — Há um personagem que fiz há muito tempo. Ele queria lutar contra dragões. Os dragões dessa história eram gananciosos, violentos e impiedosos, mas mesmo que todos soubessem de sua natureza, eles tinham aliados, pessoas que levavam ouro e joias para agradá-los, porque dragões tem um grande ego. Mas esse personagem queria acabar com os dragões porque eles só destruíam e acumulavam todas as riquezas das terras. Mas eu achei que dando um nome de guerreiro a ele seria muito óbvio. Então eu pesquisei por antigos nomes de dragões em contos das mais diversas culturas e mitologias.
— Você deu um nome de dragão à um personagem que queria derrotá-los? — Ela parecia achar graça, eu sabia que era uma ideia maluca.
— Havia uma maldição na história, também. No fim eu dei um sentido ao nome de dragão dele. O primeiro que acabasse com o domínio dos dragões, se tornaria um.
— Aí não, você não fez isso com o coitado.
— Ah eu fiz. Então bastava outro guerreiro vir e derrotá-lo.
— E algum veio?
— Não. O dragão se condenou no fundo de uma montanha, para não cair na tentação como os demais dragões.
— Mas é um fim tão solitário.
— Realmente, não foi o meu maior sucesso. — Admito, erguendo os olhos para ela. — Mas é só um exemplo de como seguir a linha de um nome nos livros, ao menos nos meus. Agora pensando nela...
— Ela com certeza é animada.
— E confiada. Ela não tentou me morder em momento algum, fiquei me perguntando se ela já não pertencia a alguém. Mas pelo estado dela já estava na rua há muito tempo.
— Sim, estava. E ela também não é tão velha ou tão nova mais. Eu diria 3 ou 4 anos.
— Bastante tempo para um cachorro, não é? — Olho para a cachorra, que recebia sem reclamar meus carinhos. — Já deve ter passado por muita coisa, não é mesmo? Mas ela se comporta de forma tão decente para um cachorro.
— Meu cachorro seria mal exemplo para ela então. Ele é um verdadeiro menino cheio de energia.
— Eu imagino que sim. Mas eu queria um nome que mostrasse o que ela está representando para mim agora, eu só não sei se ela vai gostar.
— Tente. — Incentivou-me ao acariciar as costas da cachorra, que virou a cabeça para a olhar com a língua de fora.
— Aurora. — Digo, então assobio para ela para chamar a atenção. — Você quer ser chamada de Aurora, garota? — Sorrio quando ela late, como se entendesse.
— Parece que ela gostou. — Amy olhava para o rabo dela, que abanava.
— Então você se chamará Aurora. — Brinco com as orelhas dela. — Você quer um biscoito? Você tem sido uma boa garota, Aurora, merece um biscoito.
— Oh, um biscoito! — Amy brincou comigo. — Você já se tornou uma dona exemplar.
— Você diz isso a todos, eu aposto.
Ela somente riu enquanto eu pegava o saco em cima da mesinha e abria o lacre, pegando um biscoito e entregando à Aurora, que o pegou e levou à própria cama.
— Não que eu seja intrometida, mas fiquei curiosa com algo. — Amy chamou minha atenção e eu me voltei aos seus olhos. — Você disse mais cedo que se distraiu no volante quando atropelou Aurora. E você não me parece o tipo que se distraia facilmente.
— Você acha? — Sorrio.
— Sim... Ao menos sempre parece atenta a qualquer tentativa de aproximação. — Ela tinha um sorriso zombeteiro nos lábios que a fazia insuportavelmente sexy, mas eu me esforcei para parecer ofendida.
— Você não é uma simples veterinária, é?
— Não, eu sou a super veterinária que está tentando entender a dona da Aurora.
— Está bem, vou te dar crédito por sua capacidade de observação. Eu saí cedo daqui com a cabeça cheia e nervosa por causa da irmã de Samuel. Ela é tão irritante. E está lá em cima. — Aponto um dedo para cima.
— Morreu? — Brincou, fazendo-me rir.
— Você está cheia das piadas hoje, vet.
— Vet, é? Está tudo bem, eu vou te deixar falar isso, mas só porque meus planos estão dando certo e você está me contemplando com o som da sua risada. O seu sorriso.
Ela era tão espontânea, senti meu rosto esquentar diante do elogio, minha cabeça baixando automaticamente. Ela tocou meu rosto, e eu a olhei, vendo um sorriso nos seus lábios ameaçando se abrir vitorioso.
— Você é linda sorrindo, Ana.
— Você está enganada.
— Eu tenho plena certeza de que estou certa dessa vez. — Ela se aproximou de mim, eu senti meu estômago contrair e meu coração acelerar diante de sua proximidade. — E conheço alguém que concordaria comigo.
— Samuel? — Era o que conseguia pensar.
— Não, alguém mais... neutro.
— Neutro? — Repeti.
Eu conhecia aquela sensação, tão quente e familiar. Amy ainda se aproximava, eu somente esperei, pronta para a afastar, mas ela desviou o rumo que traçava e pressionou os lábios na minha testa, olhando-me de perto com um pequeno sorriso, como se esperasse que eu terminasse com o resto da distância de outra forma.
— O espelho! — Falou animada, então se afastou e segurou minha mão para me levantar junto a ela. — Agora me leve até ele.
— Eu não tenho um espelho mágico em casa.
Ela balançou a cabeça negativamente, e eu não vi escolha senão atender ao seu pedido. Como o banheiro debaixo não tinha um grande espelho e o de cima estava ocupado quando subimos, eu a levei para o meu quarto, tendo a educação de apresentar minha casa para ela, apontando os cômodos.
Ela me parou em frente à porta do meu armário onde o espelho mostrava todo o meu corpo, então parou atrás de mim e me segurou pela cintura, onde apoiou o queixo no meu ombro. Tínhamos a mesma altura, mas ela fazia parecer como se fosse menor.
— Agora me diz o que está vendo.
— Duas mulheres? — Provoquei.
— Muito engraçado. Fale sobre você. O que está vendo? Quero detalhes.
Eu não sabia exatamente o que ela queria que eu falasse. Eu não tinha nada de impressionante, era uma pessoa comum. Não tinha o corpo modelo, mas eu controlava meu peso. Era fato que eu tinha um quadril maior e seios médios que nunca facilitaram minha vida, mas depois que os livros de Isa começaram a vender, eu pude investir em roupas melhores, de forma que sabia me vestir bem melhor agora. Meus lábios eram finos, eu tinha sardas por todo o rosto, não costumava usar maquiagem além de um protetor labial ou batom claro, de forma que as marcas em minha pele ficavam visíveis. Mas não era a minha aparência que ela estava pedindo, tive essa impressão, seria fácil demais e eu julguei que ela não me pediria coisas simples.
— Eu não sei, Amy. — Falo com sinceridade. — Metade do tempo eu tenho que tomar cuidado com o que digo, como me porto e principalmente com o que escrevo, então sim, você pode dizer que tenho cautela com quem se aproxima. Eu já perdi demais nessa vida, então sou apegada às poucas coisas que se mantém perto. Sei que sou rabugenta e desconfiada, às vezes ácida demais, mas esse é simplesmente o meu jeito. Eu não sei o que você veria de atraente aqui.
— Colocando assim, realmente, eu seria maluca. — Isso me fez erguer a sobrancelha para ela antes de me virar para a olhar. — Qual é, você é mais que isso. Você é inteligente e observadora, ao menos me pareceu ser ontem quando me ajudou a enxergar toda a situação por trás daquele filme. E você é atraente, claro que é. Você manteve Samuel perto por bastante tempo, se você fosse ruim, ele não ficaria perto de você. Eu só fico imaginando quem foi que aprontou com os seus sentimentos para você ter tanta resistência a alguém perto de você.
— A vida, eu acho. — Ofereço um meio sorriso. — Então tenho que saber de você. O que está esperando encontrar aqui? Você deve conseguir garotas que se entreguem a você sem esforço. Por que se esforçar para chegar até aqui?
— Oh, eu entendo. — Ela se afastou um passo, cruzando os braços. — O que uma garota como eu estaria fazendo atrás de uma mulher como você?
— Amy... — Mordo o lábio, notando que ela tinha se ofendido.
— Eu entendo seu julgamento, Ana. Não ache que é a primeira. — Ela suspirou, desconfortável. — Não será a última.
— Eu não quero julgar você, por isso achei melhor ser direta contigo. Para saber se estamos na mesma página aqui.
— Eu entendo seu julgamento, e não quero te julgar por ele. Só entenda, Ana, isso me ofende. Eu não quero ganhar nada de você, não quero te usar. — Ela suspirou. — Então tudo bem, é melhor que estejamos na mesma página aqui.
— Parece que estamos. — Ofereço uma mão para ela, que aceita, mesmo que eu sentisse que continuasse um pouco irritada. — Eu não vou mais te julgar.
— Já é um avanço. — Ela apertou meus dedos. — Eu não vou te forçar a nada que não queira fazer aqui. Então se não está procurando por um relacionamento, eu vou entender e me afastar.
— Eu não estava procurando, realmente. Você apareceu num momento conturbado na minha carreira e eu estou mais paranoica em relação a isso, eu admito. Mas eu vou te dar um voto de confiança, não é a única a querer algo disso. — Indico nossas mãos. — Eu só aviso que-
— Que você é uma mulher exigente para quem tenta se aproximar. Certo, anotado. — Ela finalmente sorriu, soltando minha mão. — Eu ainda vou terminar a distância e passar por todas as suas barreiras, escritora.
— Eu sei, vet. — Rio baixo. — Fica para o jantar?
— Eu iria adorar.
Fico aliviada que ela aceitasse tão facilmente passar mais tempo em minha casa, comigo. Indiquei para que ela me seguisse, então saímos do meu quarto, mas paramos no meio do corredor em direção as escadas. Manuela tinha acabado de sair do banheiro, enrolada numa toalha e os cabelos úmidos soltos sobre os ombros.
— Ei garotas. — Ela diz, olhando entre nós.
— Manuela, essa é Amy, a convidada de quem falei.
— Ah, a garota que você disse que gosta. — Ela sorriu como uma cretina, estendendo a mão para Amy. — Prazer em conhecer.
— O prazer é todo meu.
Eu quis que abrisse um portal bem ali para eu desaparecer, mas só me restava enfrentar.
— Eu vou preparar o jantar. — Resolvo mudar o foco. — Você vai sair?
— Não, mas se quiser eu saio.
— Oh, Deus.
Desisto, descendo as escadas enquanto ouvia o risinho de ambas. Amy me ajudou com o jantar enquanto Manuela se entretinha em brincar com Aurora. Foi uma noite agradável, que compensava o jeito que meu dia começou. Amy era uma boa companhia que deixava as coisas mais leves, então era fácil me acostumar com a sua presença ali. Quando ela foi embora, mais tarde, me fiz uma promessa de não tentar afastá-la.
Fim do capítulo
Esse é um dos meus capítulos favoritos. Aurora é um amorzinho e vai nos acompanhar a história toda :)
Para quem ficou traumatizado com o Loup de "Sweet Surrender" kkk não se preocupem!
Seus comentários são sempre bem-vindos ;)
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kasvattaja Forty-Nine
Em: 26/02/2022
Olá! Tudo bem?
Vejamos: Aurora, na mitologia romana, era a deusa da manhã — anunciava sempre o chegar de um novo amanhecer — e uma titânide.
Nossa, que ''peso'' para uma cachorra, não acha Autora?
Será que Kasvattaja ''navegou'' aqui e o nome foi aleatório?
Esperar para ver.
É isso!
Post Scriptum:
''Todo dia é um novo dia...
Amanhã não é tão importante, ontem não foi tão importante.
Todo dia é um novo dia... ''
Andrew 'Andy Warhol' Warhola,
Pintor.
Resposta do autor:
Olá Kas! Sempre bom te ver por aqui!
Pois não foi aleatório :) mas também não acho um peso.
Querendo ou não, Aurora já marcou um novo amanhecer para a Ana, porque já mudou a rotina, mudou o zelo dela pelas coisas, e acaba deixando ela mais leve.
Beijos!
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