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  • Quarta Temporada - TRANSFORMAÇÕES II

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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

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Palavras: 34585
Acessos: 11427   |  Postado em: 12/04/2020

Quarta Temporada - TRANSFORMAÇÕES II

 

 

Camille conversava com Renan ao telefone. -- Mas é claro que a gente pega o serviço, meu! Faça uma avaliação pra dar ao cliente um orçamento e mande o carro pra cá! Deixe que eu estudo o custo do frete. -- pausou -- Seyyed não está aqui agora, ela teve que ir em Bonsucesso comprar arame de solda mas eu tenho certeza que ela vai concordar comigo. -- pausou -- Tá, aí você liga pra ela e passa os detalhes técnicos. -- pausou -- Imagina! Pra você também. Tchau! -- desligou

 

--Êpa, que eu ouvi meu santo nome pronunciado em vão! -- Ed chegou repentinamente dando um susto na loura

 

--Cruzes, Ed, quer me matar do coração? -- pôs a mão no peito -- Ô louco!

 

--Ih, tá devendo é, loura? -- riu

 

--Você é uma bobona, viu, Ed? -- passou a mão nos cabelos -- Renan me ligou dizendo que o filho mais velho de seu Marciano apareceu na oficina dele querendo que a ESSALAAM restaure um Lamborghini 350 GTV. É um presente que vai dar ao pai.

 

--Caraca!! -- caiu sentada na cadeira com a mão no peito -- Eu nunca restaurei um Lamborghini na minha vida! E um 350 GTV!! Nossa, que deu até uma coisa aqui dentro! -- sorriu -- É muita emoção!

 

--Mas o que tem esse carro?? -- perguntou surpresa

 

--O que tem?? Camille, olha o respeito! Esse foi simplesmente o primeiro modelo que  Lamborghini lançou no mundo!!! Carro tipo coupé, de 1963, projetado por Franco Scaglione! Eu até pago pra consertar um bicho desses!

 

--Paga não senhora, você cobra! E bem! -- levantou-se -- Vai fazer um serviço de primeira e cobrar um preço bom!

 

--E cadê o carro? -- esfregou as mãos nervosamente -- Cadê? -- levantou-se

 

--Calma, criatura! -- riu -- Renan estava tenso porque em Goiânia não temos estrutura pra isso. Aí eu disse a ele que fizesse uma avaliação pra dar ao cliente um orçamento e mandasse o carro pra cá.  Eu estudo o custo do frete e fica uma cortesia nossa pro cliente. -- pausou -- Achei que você fosse concordar comigo. -- arriscou

 

--Claro que concordo! Nem vou mais dormir esperando esse carro! -- estava ansiosa

 

--Aí quando o carro estiver aqui, Renan vem pra te ajudar e eu vou pra lá cuidar das coisas.

 

Ed olhava para Camille com um sorriso radiante. -- Juro que se eu fosse solteira te pedia em casamento agora! -- brincou

 

A loura corou e abaixou a cabeça. Não conseguia dizer coisa alguma.

 

--Foi só uma brincadeira, Camille... -- disse encabulada -- Eu sei que você não gosta dessas coisas, me perdoe!

 

--Não, eu... -- pausou -- "Quisera me casar com você...” -- pensou

 

--Bem, -- queria mudar de assunto -- quando você vai tirar suas tão merecidas férias?

 

--Pode ser em outubro? Queria levar minha mãe pra Porto Seguro.

 

--Claro que pode. -- sorriu

 

--Aliás, posso faltar amanhã? Mamãe queria ir em Petrópolis ver roupas e tirar umas idéias...

 

--Pode. Você pode tudo que quiser! Só não abusa! -- piscou e saiu da sala dela

 

--Ai, que eu adoraria usar e abusar... -- suspirou. O telefone tocou -- Oficina ESSALAAM, bom dia!

 

--Bom dia, amiga! -- Aline respondeu do outro lado -- Como vai?

 

--Bem e você?

 

--Ótima! -- pausou -- Olha só, eu me inscrevi hoje pra um concurso público. Tô te ligando pra avisar! Eles pagam bem, tem participação nos lucros, plano de saúde... Vou concorrer ao cargo de analista de comércio.

 

--Que bom, Aline! -- exclamou sorridente -- Estuda e manda ver!

 

--Você não se interessa, não? É estabilidade, amiga!

 

--Ah, eu tô satisfeita aqui. Gosto do que faço.

 

--Seja como for, mandei o link do concurso pro teu e-mail. Dá uma lida!

 

--Tá bom.

 

--Beijinho! Tchau!

 

--Tchau! E vê se estuda, viu? -- desligou -- "Eu gosto do que faço ou gosto de com quem faço?” -- pensou -- Eu acho que gosto dos dois... -- suspirou

 

--É... com licença? -- Léo bate na porta aberta -- Será que posso? -- queria entrar

 

--Sim, entre. O que deseja? -- olhou para ele

 

--Eu tenho uma banda de rock... -- colocou uma filipeta na mesa dela -- A gente vai se apresentar lá na Lapa nesse sábado e eu aí eu pensei que talvez você quisesse ir lá nos ver... -- sorriu

 

--Hum... -- pegou o papel e olhou

 

--Se você fosse, eu te daria a maior atenção... -- fez um charme

 

Camille entendeu que se tratava de um convite para sair. -- Léo, escuta. -- olhou para ele -- não vamos misturar as coisas, tá legal?

 

Ele entendeu a negativa e perguntou: -- Você também é... assim... -- pôs as mãos nos bolsos -- Igual a Ed?

 

A loura achou aquela pergunta extremamente inoportuna. -- E você é sempre assim tão inconveniente, é? -- fez cara feia

 

--Desculpe! -- ficou envergonhado

 

--Eu acho que tem uns carros lá no pátio te esperando, não tem, não, ô, meu?

 

Léo nada respondeu e saiu.

 

--Mas é cada coisa, viu? Cara metido! Então se eu fosse hetero era obrigada a querer sair com ele? -- pegou a filipeta e rasgou, jogando os papéis no lixo -- E eu odeio heavy metal!

 

--O que aconteceu aqui? -- Ed entrou novamente na sala de Camille -- Vi que Léo saiu daqui com uma cara estranha! -- cruzou os braços

 

--Ele veio me convidar pra sair e como eu não quis... perguntou se eu era lésbica.

 

--Mas que descarado! Vou ter uma conversinha com ele! -- respondeu de cara feia

 

--Deixe pra lá, Ed. -- fez um gesto com as mãos -- Não vamos dar valor a essa bobagem!

 

--Nada disso, eu vou conversar com ele agora! -- estava com raiva

 

--Esqueça! De mais a mais quase todos os seus mecânicos já me convidaram pra sair...

 

--O que?????? -- debruçou-se sobre a mesa dela -- E você não me diz nada?

 

--Ah, porque eu despachei cada um deles e ficou por isso mesmo! Tá pensando que eu sou dessas minas bobinhas, sou não! -- balançou a cabeça

 

--Ah, mas eu não gostei de saber disso! Não admito que ninguém fique te dando cantada! -- cruzou os braços -- Que negócio é esse?

 

--Nossa... -- sorriu satisfeita -- por que se aborreceu tanto com isso?

 

--Ah, porque... -- não sabia o que dizer -- "Por que?” -- pensou e não sabia responder -- Porque eu acho isso uma pouca vergonha! É isso aí! E vou conversar com esse Léo agora mesmo! -- saiu

 

“Será que ela ficou com ciúmes??” -- sorria empolgada

 

***

Isabela e Seyyed estavam na praia. Ed voltava do mar e Isa a acompanhava com o olhar. Estava sentada em uma cadeira de praia folheando um jornal.

 

--Quando você sai da água todo mundo olha! -- sorriu

 

--É pra ter certeza se a ruiva mais gata do pedaço tá comigo mesmo ou não. -- sorriu e se sentou ao lado dela

 

--Hum... -- soprou um beijinho para a outra -- Eu adoro esses dias assim, com sol gostoso, calor na medida certa, vento pra refrescar... Hoje o dia pedia uma praia!

 

--E quem é a gente pra negar, né? Domingo bom... -- cruzou os braços por trás da cabeça -- Ah, eu acabei de ler aquele livro que você me deu: História do Amor no Brasil. Livraço!

 

--A autora, Mary Del Priore, dá aula na UFRJ. Ela é ótima e já escreveu vários livros! Assisti a uma palestra dela na faculdade e fiquei impressionada.

 

--Eu queria conhecer uma mulher dessas pra conversar com ela...

 

--Amor, eu vou ter que apresentar uma coreografia pra professora amanhã... quando a gente chegar em casa, posso mostrar ela pra você? -- perguntou fingindo inocência

 

--Se quiser ir pra casa agora eu tô dentro! -- virou-se na direção dela

 

--Deixa de ser safada? -- deu um tapa no braço dela e sorriu -- Só mais tarde, tá? Bem mais tarde...

 

--Polícia, prende essa mulher! -- brincou falando alto

 

--Fala baixo! -- deu outro tapa nela e arregalou os olhos -- Doida! -- riu -- Gritando na praia...

 

--Isso não se faz, Isabela Guedes... colocar o doce na boca da criança e depois fazer esse charme... E eu tava de fato doida pra ver a sua... faceta bailarina... -- sorriu

 

A ruiva riu. -- Pra que minha mãe foi falar aquilo na sua frente, hein? -- balançou a cabeça e voltou a folhear o jornal

 

--Por que a mulher mais chique do mundo lê jornal na praia, hein? -- perguntou rindo -- Algo aí não combina muito bem...

 

--Um garotinho passou vendendo, eu tive pena dele e comprei. -- pausou -- É cada notícia... Escuta essa: “Mulher é presa por se passar por mãe de santo e manter terreiro falso no Largo do Machado. A denúncia partiu de sua própria ajudante, que ultimamente sentia-se acometida por sérios problemas de saúde.”

 

--Muita gente não tem o menor respeito pela Umbanda. Uns fazem piada, outros usam pro mal e há esses picaretas aí! Minha segunda namorada era umbandista e foi aí que pude conhecer mais sobre o assunto. Não é a minha linha, mas respeito muito!

 

--Gente, escuta essa: “A farsante, conhecida como mãe Nagôia, vendia pacotes de final de semana a um mês sob o pretexto de transformar seus clientes em filhos de Oionha. Os preços variavam de dois mil a até vinte mil reais.” -- parou de ler -- Onde foi que eu vi isso de Oionha? -- perguntou para si mesma e ficou pensando

 

--Oionha... -- riu -- Eu nunca nem ouvi falar nisso!

 

Isa dobrou o jornal e o colocou dentro da bolsa de praia. Ficaram uns segundos em silêncio até que Ed comentou: -- Sabe... tenho pensado tanto em Suzana... Onde andará aquela criatura?

 

--Sei lá! Eu sei é que ela foi uma ingrata, isso sim! Sumiu, largou a mulher e ainda se foi carregando um rim seu! -- fez cara feia

 

A morena riu. -- Claro, né, Isa? Agora já não dá mais pra devolver...

 

--Você não deveria ter doado! Aquela maluca é capaz de morrer por conta das próprias imprevidências e seu sacrifício terá sido em vão!

 

--Não, isso não... Só aqueles momentos de felicidade que elas viveram já pagaram tudo!

 

--Não tem coisa que eu odeie mais do que ingratidão! -- reclamou

 

--Infidelidade! -- acrescentou

 

--Isso! -- deu um tapa na morena

 

--Ué? Por que eu tô apanhando? -- perguntou sem entender

 

--Não gostei de ter ficado com ciúmes de Camille só porque ela levou uma cantada! -- fez cara feia

 

--Que fiquei com ciúmes, garota? Eu fiquei com raiva da atitude do cara, isso sim! Além do mais se eu estivesse de olho na loura você seria a primeira a saber! Acha que eu iria ficar te sacaneando? -- pausou -- E eu te contei sobre o fato! Se fosse uma traidora de má intenção, eu ia te esconder!

 

--Humpf! -- continuava de cara feia

 

--A gente trabalha bem, eu me identifico com ela, gosto dela, tenho o maior carinho, mas é sem maldade, sem malícia. -- chegou bem perto dela -- Eu amo você e meu tesão é só em você... -- falou no ouvido da ruiva

 

--Sossega, viu? Estamos em público! -- fazia charminho -- Senta direito, vai? -- pediu --Pára de ficar assim, em cima de mim!

 

--Em casa em posso ficar em cima de você? -- pediu sorrindo -- Em baixo eu também gosto...

 

--Pode. Agora senta direito, sua boba! -- riu. A morena obedeceu

 

--E você? -- olhou bem para ela -- Será que minha testa está à salvo? -- brincou

 

--Boba! -- sorriu -- Eu nem me balanço por ninguém!

 

--Nem com todo o assédio que você sofre? -- perguntou sorrindo

 

--Não! -- segurou-a pelo rosto e beijou sua bochecha

 

--Pensei que fosse me beijar na boca! -- falou bem pertinho do rosto dela

 

--Em público, não! -- deu um tapinha no braço dela

 

A mecânica ficou olhando para o mar.

 

--Ed, eu soube de uma coisa muito chata e fiquei possessa! Ainda não te contei a respeito... -- lembrou de um assunto

 

--O que? -- perguntou preocupada olhando para ela

 

--Minha colega me disse que Neyan falou que desconfia que eu tenha algo a ver com o tombo que Joice levou durante aqueles ensaios... -- falou magoada

 

--Mas que desgraçado!! -- ficou revoltada -- Cadê aquele caluniador? Quero ter uma conversinha com ele!!

 

--Calma, Ed! -- segurou o braço dela -- Elaine falou que ninguém deu idéia, mas eu não gostei de ouvir isso!

 

--É lógico! -- estava de cara feia -- Hoje mesmo você vai ligar pra Juliana e pedir o telefone daquele tal de Ruy! Aí a gente conversa com ele pra se instruir. -- pausou -- Quem esse tal de Neyan pensa que é? Safado!

 

--Eu ligo sim. -- beijou a bochecha da morena -- E se ele voltar com esse papo, eu falo com você!

 

--Fala sim! -- olhou para ela -- Ninguém sacaneia você! Só por cima do meu cadáver!

 

--Hum... -- segurou o rosto dela -- É tão difícil não poder beijar você agora... -- fez beicinho

 

***

 

Lady e Fernando se amassavam no carro dele às duas da manhã em frente ao posto 6, em Copacabana.

 

--Fernando, chega! -- ela se recompôs -- Você tenta me enrolar com esse teu jeito maroto, mas não sou desse tipinho que se entrega dentro de carro! -- fez cara feia

 

--Ah, mas é claro que não é! Você é luz, é raio, estrela e luar! Você é minha manhã de sol! Vem pra cá, meu ioiô! -- puxou-a pela cintura

 

--Pare com esses versos melosos! Sei o que quer, e a resposta é uma só: só casando! -- empurrou-o

 

--Ai, ai, Lady, assim você mata o papai... -- suspirou

 

--Eu quero casar, Fernando! Será que não entende?

 

--Mas a gente já noivou! Te dei aliança e tudo! Eu te darei o céu meu bem e o meu amor também!

 

--Mas eu quero ver é o anelzinho nesse dedo aqui! -- apontou para o anelar da mão esquerda -- Eu já fui em um monte de casamentos... menos no meu! Até quando meu vestido vai resistir?

 

--O que? -- não entendeu o comentário

 

--EU QUERO CASAR! Ouviu agora? -- olhou para ele de cara feia

 

--Amor, escute, a vida tá difícil... só agora o país começa a se recuperar! Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado, ninguém respeita a Constituição! Que país é esse? E casar é um passo muito sério. Temos que pensar melhor... -- tentava enrolar -- Pare pra pensar, pense muito bem, olhe que esse dia já vem!

 

--Pensar? Nossa, mas eu penso nisso desde que fiquei mocinha... -- revirou os olhos -- E de mais a mais, ando muito desconfiada de você!

 

--Por que? -- perguntou sem graça

 

--Você nunca tem tempo pra mim! Só vive correndo e adora marcar encontro em hora que tá tudo fechado! É uma da manhã, duas, cinco... Eu tô desconfiada, viu, Fernando?

 

--Que é isso, Lady? Não pense besteiras... O nosso amor é lindo, tão lindo, nada pode ser mais lindo, do que o nosso amor!

 

--E um homem da sua idade ser solteiro até hoje? É difícil... -- olhou para ele

 

--Ah, mas é porque é difícil achar a mulher perfeita! Eu quero um amor maior, um amor maior que eu, quero um amor maior...

 

--E até hoje não encontrou ninguém?

 

--Encontrei você! Você chegou e iluminou o meu olhar! Seus olhos nus, raios de luz, do azul do mar...

 

Lady ficou balançada mas continuava argumentando. -- E antes? Será possível que não encontrou ninguém?

 

--Ah, meu amor, sabe que não é fácil! Jogue suas mãos para o céu, e agradeça se acaso tiver, alguém que você gostaria que estivesse sempre com você, na chuva, na rua, na fazenda ou numa casinha de sapê! De sapê! -- enfatizou a última frase

 

--Hum... -- fez beicinho

 

--Lady, por favor... -- caprichou no olhar -- Deixa eu te amar, faz de conta que sou o primeiro! Na beleza desse teu olhar, eu quero estar o tempo inteiro!

 

--Ai, não, não!! -- resistiu -- Pare de tentar me seduzir! -- pediu com a cara feia

 

--Lady, quero te pegar no colo, te deitar no solo e te fazer mulher!

 

--Quero ir embora!! -- pediu chateada

 

Fernando suspirou e ligou o carro de cara feia.

 

***

--Amiga, lê aí nas suas cartas! -- Lady pedia agoniada -- Fernando é casado ou não?

 

Lady e Lila estavam sentadas no chão do quarto da loura, que fazia um jogo de tarô para a moça casadoira.

 

--Olha, guria, pelo que eu vejo aqui... -- colocou seis cartas sobre o chão -- Ele é, viu? -- olhou desconfiada para a outra

 

--Ah, não!!!!!! -- gritou cobrindo o rosto -- Não pode ser, não, não!! -- levantou-se nervosa

 

--E ele não só tem filhos como tem netos! -- continuava jogando cartas

 

--Ai, meu Deus, que sina essa a minha, que sina!! Ahahahahahahahahahahah!!! -- berrou ensandecida

 

--Te acalma, por favor! -- Lila se levantou assustada -- Calma mulher!!

 

--Ahahahahahahahah!!! -- Lady continuava gritando

 

Priscila chegava em casa no auge da gritaria. -- Mas será possível que quando não ouço aumm é isso? Berros ensurdecedores? -- foi para o quarto de Lila e olhou para as duas pondo as mãos na cintura -- Posso saber o que se passa aqui?

 

--Ai, amiga! -- lançou-se nos braços de Priscila -- Lila viu nas cartas... ela viu, ela viu... -- chorava -- Ai, ai, ai, dói demais, dói demais...

 

--E ela viu o que??

 

--Que Fernando é casado e tem até netos... -- chorava -- Ô meu, Pai, me diz, por que? Por que?

 

--Viu nas cartas? -- olhou para Lila por sobre os ombros de Lady. A loura abaixou a cabeça -- Ela viu junto comigo um dia desses! Eu saía de casa, dei uma carona pra ela e cruzamos com Fernando passeando no aterro de braço dado com a mulher e umas crianças gritando ‘vovô’!

 

--Olha, guria, dessa vez eu faço um desconto e nem te cobro os trezentos reais pelo tarô, daí... -- ofereceu desconfiada -- Fica uma cortesia minha pra ti

 

--Ai, gente, não, não, não!!! -- olhou para Priscila -- E você não ia me dizer nada?! -- perguntou com revolta

 

--Pra que? Você só acredita vendo, como eu ia te mostrar? De mais a mais um homem que só vive se escondendo pelos cantos, só marca encontro em hora erma... Se você não desconfiava, meu bem, quoi faire? (fazer o que?) -- desvencilhou-se da outra

 

--Ai, não, não, não... -- chorava -- Ele me dizia coisas tão lindas... coisas que nunca ouvi ninguém dizer... -- caiu de joelhos no chão -- Ai, ai, ai, ai, ai!!!! -- gritava

 

--“Não se considera bom um cão simplesmente porque late bem; não se considera bom um homem simplesmente porque fala de forma habilidosa.”14

 

--Lila, essa é a primeira vez que te dou razão, sabia? -- Priscila olhou para a mística

 

--Lady, escuta... -- Lila ajoelhou-se ao lado dela -- Você precisa de uma limpeza na aura, de um banho de luz! Tirar esse véu negro que te impede de enxergar o homem perfeito! -- fazia seus gestos -- Eu posso te ajudar! Por apenas quinhentos reais eu te livro dessa coisa que não te deixa encontrar o amor! Arrumo-te um love em 340 horas! -- ofereceu

 

--Ai, ai, ai, ai, ai, ai!!! Ahahahahahahahah!! -- berrava loucamente -- Ai, como sofre esse pobre coração... Ai, não é mole, não... Ai, ai, ai, ai, né não!!!! -- chorava

 

--Eu faço um desconto e fica por trezentos, pronto! -- abraçou-se a ela

 

--E vem aí mais um período de choro e ranger de dentes nessa casa... -- Priscila saiu do quarto sofrendo por antecedência

 

09:00h. 21 de julho de 2003, Serra do Imeri, fronteira Brasil (Roraima) - Venezuela

Suzana chegava ao cume de uma montanha sagrada para sua antiga tribo. A viagem extenuante até aquele ponto foi subitamente compensada pela maravilhosa visão abaixo de si. Valendo-se de suas prerrogativas de delegada, mesmo aposentada, a morena pôde ingressar na região que, atualmente, não passava de uma reserva ecológica desabitada e proibida à visitação. Percorreu uma longa trilha sozinha, levando apenas uma mochila com alguns mantimentos, água e seu conhecimento sobre a floresta.

Olhava tudo ao redor e se permitia devorar a paisagem com todos os sentidos, como se quisesse fazer parte do ambiente de forma completa.

Tirou a mochila, os sapatos e toda a roupa. Queria apresentar-se como realmente era diante de seu antigo lar, sua urihi (terra-floresta).

Entoou alguns cânticos aprendidos com a mãe, ajoelhou-se e começou a falar em língua ianoman: -- Sagrada Nação Ianomâmi, Yamaki Nawapë humildemente pede seu perdão! -- curvou-se -- Sagrada Nação, que já não vive nesta terra, peço perdão por não ter evitado o mal! Perdão por não ter salvo as crianças, protegido os idosos e lutado ao lado de seus bravos guerreiros! Eu já fiz tudo o que podia fazer, dediquei a vida a lutar pelo bem dos filhos da Natureza, agora já não posso mais continuar neste caminho! Comecei esta longa viagem desejando apenas rogar pelo teu perdão, Nação Sagrada, pois sem ele não consigo me sentir em paz... -- calou-se e manteve-se curvada em reverência

O sussurro do vento parecia lhe trazer de longe o som dos membros da tribo cantando e dançando.

 

“Meu Deus... Será?” -- pensou e elevou o tronco, mantendo-se, porém, ainda ajoelhada

 

Viu dezenas de vultos luminosos que se aproximavam dançando e pôde reconhecer sua mãe à frente deles. Uma forte emoção a invadiu de súbito. -- Mãe... -- pôs as mãos sobre os lábios

 

Falavam em língua ianoman.

 

--Que a paz esteja com Yamaki! -- saudou

 

--Que a paz esteja com a senhora minha mãe! -- respondeu emocionada

 

--Não há motivos para pedir perdão. Sua nação nunca a condenou! -- disse com expressão firme e serena

 

--Eu podia ter feito alguma coisa...

 

--Mas você fez! Não naquela época, pois não estava preparada, mas depois, você fez o que podia e deveria ter feito!

 

--Eu tirei vidas... -- chorava -- Roubei da Natureza alguns de seus filhos... um deles era inocente...

 

--E por isso pagou. A Natureza ainda vai lhe trazer estes filhos diante de si, mas não por esse caminho...

 

--Eu me sinto suja e envergonhada...

 

--Não se sinta... é tempo de se perdoar! “É preciso acreditar que a época dos milagres ainda não terminou.”15

 

--Eu te sou motivo de vergonha, minha mãe?

 

A índia sabia porque a filha lhe perguntava isso. -- Nunca foi e nunca será! -- sorriu -- Veja a Luz que te ilumina, Yamaki, peça perdão a Deus e sê liberta... -- sua imagem desaparecia devagar

 

https://www.youtube.com/watch?v=OpSIrCPSq5I

Suzana olhou para o céu e viu um clarão iluminando os espaços.

 

“Como Zaqueu,

Eu quero subir,

O mais alto que eu puder,

Só para te ver,

Olhar para ti,

E chamar Sua atenção para mim...”

 

Via os índios partindo em sua dança cadenciada e rítmica. Seguiam em direção à Luz.

 

“Eu preciso de Ti, Senhor,

Eu preciso de Ti, ó Pai,

Sou pequena demais,

Me dá a tua paz,

Largo tudo pra Te seguir...”

 

De repente lhe pareceu que do céu choviam pequenas flores.

 

“Entra na minha casa,

Entra na minha vida,

Mexe com minha estrutura,

Sara todas as feridas...”

 

As flores tocavam sua pele, desmanchando-se como sonhos fugazes, ao mesmo tempo em que seu toque suave limpava a escuridão em sua alma.

 

“Quero amar somente a Ti,

Porque o Senhor é meu bem maior,

Faz um milagre em mim...”

 

A morena novamente se curvou e agradeceu a Deus muito emocionada. Não sentia dor, vergonha, medo ou qualquer coisa ruim. Finalmente, depois de tantos anos, sentia-se em paz. E livre...

 

“Entra na minha casa,

Entra na minha vida,

Mexe com minha estrutura,

Sara todas as feridas,

Minha ensina a ter santidade,

Quero amar somente a Ti,

Porque o Senhor é meu bem maior,

Faz um milagre em mim...”

Faz um Milagre em Mim – na belíssima voz de Cristiane Ferr [a]

(Nota da autora: “A liberdade é o espaço que a felicidade precisa.”16)

***

 

Mariângela e Olga faziam compras no supermercado. Olga empurrava o carrinho e a cunhada pegava os produtos. Mariano estava mostrando frutas e legumes para Ricardinho.

 

--Ele é engraçado, não é? -- a costureira riu -- Sempre teve essa mania de mostrar frutas e legumes pras crianças. Fez isso com Ricardinho, o mais velho, fez com Camille e agora faz com o Ricardinho neném...

 

--Ele disse que é pra que a criança aprenda a dar valor à comida boa e pra que seja independente no futuro. -- Olga respondeu -- Eu acho seu irmão muito lindo! -- olhou para o marido apaixonada

 

--Ele é... -- sorriu e pensou em um assunto -- Olga, aproveitando que ele está lá tão distraído, queria conversar com você sobre umas coisas...


--Fique à vontade! -- andavam devagar

 

Olhou para todos os lados e perguntou em voz baixa: --Você acha que corro o risco de... de repente acontecer alguma coisa e eu virar lésbica?

 

Olga parou de andar e riu gostosamente. Mariângela parou também, se desesperando com medo que o irmão as visse e se juntasse a elas pensando que era alguma piada.

 

--Olga, pelo amor de Deus, pare de rir desse jeito! Não quero que Mariano escute essa conversa! -- ralhou

 

--Ai, Mari... -- passou a mão nos olhos -- Desculpe, mas essa foi boa... -- balançou a cabeça -- Por que anda pensando nisso? Fala como se houvesse um vírus do lesbianismo no ar capaz de infectar você...

 

--É que eu me desgostei de homem em absoluto! Não quero saber de nenhum! Só de pensar em sentir aquela coisa de novo roçando lá na minha dita cuja me dá arrepios... Acha que posso estar mudando de lado? -- perguntou temerosa

 


--Aquela coisa na dita cuja... -- riu brevemente -- E por acaso se sente atraída por mulheres?

 

--Eu não! -- respondeu convicta

 

--Então... -- voltou a andar e olhar as ofertas -- Nem deveria pensar nisso. Se quer ficar sozinha é uma escolha sua. -- olhou para ela -- Sofre por causa disso?

 

--Juro que não.

 

--Ah, então não pense nisso e vá vivendo sua vida. -- sorriu -- E aí, no futuro, pode surgir um homem que te encante, por que não? -- pegou dois vidros de azeitona

 

--Mas... e Camille, hein? -- pegou dois vidros de champignon -- Será que ela não é...?

 

Olga pensou antes de responder. Já havia percebido que a loura estava apaixonada por Seyyed mas manteve isso em segredo. -- Camille é um mar de conflitos, Mari. -- pegou uma lata de azeite -- Ela melhorou sensivelmente mas ainda vive em uma reclusão interior. Deixe que ela vá se descobrindo aos poucos e aí naturalmente você terá essa resposta. -- voltou a andar


Mariângela pegou azeite e vinagre. Foi até Olga e colocou os produtos no carrinho. -- Às vezes eu desconfio dela, mas morro de medo! Um dia desses ela me disse que não se interessava por homens e ia dizer mais alguma coisa, só que eu não a deixei falar. -- olhava para frente

 

--Por que? -- olhou para a cunhada

 

--Desconfiei que se confessaria lésbica!

 

--E por que não a deixou desabafar?

 

--Ai, Olga, eu não queria ouvir! -- olhou para a cunhada contrariada -- Eu não queria! Já bastava Antônio pra me azucrinar a vida com essas suspeitas!


--Seu marido desconfiava?

 

--Desde que ela era moça! -- olhou para frente -- Ele sequer acreditava no casamento dela com Augusto. Não levava a menor fé quando ela dizia que amava aquele rapaz!

 

--Nunca imaginei que ele pensasse isso! -- respondeu pensativa -- Embora nem o tenha conhecido...

 

--Eu nunca disse pra ninguém o que ele pensava. Ele também só falava sobre isso comigo e a gente sempre discutia quando o assunto vinha. -- rememorou -- Só que naquela época eu achava que ela nem pensava nessa hipótese! Hoje em dia, tenho minhas dúvidas... -- olhou para os enlatados -- Gente, esse atum tá de graça! -- pegou várias latas

 

--Mari, seja lá o que for que ela queira te dizer, deixe ela desabafar!

 

--Eu não quero ouvir! -- colocou as latas no carrinho


--Mari, olha pra mim! -- a costureira obedeceu -- É muito difícil pra uma moça chegar pra mãe e desabafar sobre essas questões! Sempre fica aquela coisa na cabeça de que a mãe vai julgar, vai condenar, achar feio... Não dificulte ainda mais o que já é tão complicado!

 

--Mas, Olga... e se ela me disser que é? Eu faço o que? -- perguntou de cara feia

 

--Abrace ela e diga que não a condena! Diga que não se envergonha, que não julga e que nunca vai deixar de se orgulhar dela, muito menos de amá-la! Diga que será sempre sua filha, aconteça o que acontecer!

 

--Eu não toleraria vê-la com outra mulher. -- respondeu de cara feia -- Minha única filha... -- abaixou a cabeça -- Seria muita vergonha... Já pensou o que a família diria?


--E se ela for mesmo lésbica e se assumir? O que você vai fazer? Expulsá-la de casa como os pais de Juliana fizeram? Vai sair da vida dela? Vai ficar de mal?


--Não, isso não. -- olhou para um ponto no infinito -- Mas também não seria tão compreensiva quanto você.

***

Maria de Lourdes rezava fervorosamente diante de suas quatro velinhas. Desde que conheceu Ricardinho, havia acrescentado mais uma vela pedindo para que Deus ‘incendiasse’ o HIV do corpo do menino. Após alguns minutos levantou-se com dificuldade, benzeu-se e foi para a sala. Juliana estava lendo um livro.

 

--Estudando? – perguntou

 

--Sim, quero entender mais sobre o mal de Alzheimer. Tenho percebido um aumento considerável do número de pacientes com essa doença chegando lá no Silva Avelar. - fechou o livro -- Mas agora que está aqui vou dar um tempo na leitura. -- sorriu

 

--Não, eu não quero lhe atrapalhar. -- respondeu preocupada -- Vou pro meu quarto e lhe deixo quietinha aí!

 

--Nada disso! -- pôs o livro na mesa de centro e se levantou -- Que acha de irmos no shopping dar uma olhada nas novidades?


--Agora? -- olhou para o relógio. Eram oito e meia da noite


--Por que não? Só fecha às dez! -- sorriu -- A menos que a senhora esteja com sono ou muito cansada.

 

--Não, eu quero ir! -- sorriu -- Vou colocar aquele conjuntinho trans*do que Olga me deu! Hoje nem tá frio!

 

--Conjuntinho trans*do? -- riu -- Com o tempo a senhora está ficando bem saidinha, viu? -- beijou a testa dela -- Vamos nos arrumar!


Foram para o Ilha Plaza e circulavam dando uma olhada nas lojas. A enfermeira empurrava a cadeira de rodas da idosa.

 

-- É cada moda doida! -- Lourdes riu -- Olha essa roupa aí! – apontou


--Moda feminina é danada, dona Lourdes! Quando uma novela decide lançar um modelito só dá isso em tudo que é loja! E se você não gosta da roupa tem que rebol*r pra achar algo que te agrade. Eu fico possessa com isso! -- andavam


--Juliana, pare! -- pediu e ela obedeceu -- Aquele vestido ali tava bom pra você, querida! – apontou

 

--Vestido bonito! -- concordou -- Bom pra uma festa, um casamento!


--Prova! -- propôs excitada -- Compra!

 

--Que é isso, menina? -- riu -- Ainda não recebi pagamento.


--É presente meu! -- olhou para ela sorrindo


--E eu lá sou exploradora de idosos, dona Lourdes? -- respondeu constrangida


--Por que não posso lhe dar um presente? A gente nem tem mais aluguel pra pagar!

 

--Dona Lourdes...

 

--Anda, menina, me obedeça! Entre nessa loja e prove esse vestido! -- ralhou

 

Juliana desistiu de argumentar e acabou entrando na loja com a idosa. Mal pôs os pés lá dentro foi abordada por uma vendedora.

 

--Oi fofa! Meu nome é Keyla e eu estou a sua disposição! -- sorria forçadamente


--Keyla, por favor, eu queria ver aquele vestido. É tamanho único? -- a enfermeira perguntou

 

--É sim, fofa! Vem que eu pego pra você! -- continuava com aquele mesmo sorriso artificial

 

“Eu não agüento essas vendedoras que parecem uma mistura de mulher de sorteio com assistente de mágico!” -- pensou revirando os olhos


Keyla entregou o vestido a Juliana que foi prová-lo na cabine. Maria de Lourdes esperava curiosa.

 

--Serviu, fofa?? -- Keyla meteu a mão na cortina


--Ô, minha filha, eu acabei de entrar! -- reclamou fechando a cortina novamente -- Quer me deixar exposta pro povo todo ver? -- Keyla ficou sem graça e saiu de perto


Dois segundos depois ela voltava. -- Ô fofa!

 

--Garota, se você abrir essa cortina de novo toda minha fofura se acabará! -- ameaçou


--Deixa ela! -- Lourdes deu um tapa na bunda de Keyla, que se afastou de novo


--Dona Lourdes, se ela voltar dá um grito pra me alertar! -- Juliana advertiu -- Tô a ponto de enforcar essa maluca!

 

--Pode deixar!

 

Keyla ouviu e ficou esperando encostada no balcão. Depois de uns segundos, a japonesa abriu as cortinas sorrindo. -- Que tal? -- perguntou à idosa


--Tá linda, fofa!! -- Keyla deu dois pulinhos -- É dinheiro ou cartão? Parcela em até três vezes sem juros! -- sorria no mesmo estilo falso

 

--Tá muito linda! -- Lourdes respondeu sorrindo -- Você gostou?


--Ai, eu tô me sentindo poderosa! -- sorriu e se olhou no espelho novamente


--Então é seu! -- a idosa respondeu batendo uma palma


--É dinheiro ou cartão, senhora? -- olhou para Lourdes -- Parcela até em três vezes sem juros! -- sorria

 

--Guarde esse vestido pra uma ocasião especial!


--Ai, dona Lourdes... -- suspirou -- A ocasião especial na qual eu adoraria usar esse vestido nunca vai acontecer... -- pensava em Suzana

 

--É dinheiro ou cartão, senhoras? -- olhou para as duas -- Parcela até em três vezes sem juros! -- continuava sorrindo

 

Juliana olhou para Keyla e respondeu impaciente: -- Se você disser isso mais uma vez, juro que eu...

 

--Vai ser no dinheiro, bicha! Corre que eu tô podendo! -- bateu na bunda de Keyla novamente. A vendedora ficou sem graça e correu para preparar a nota


--No dinheiro, dona Lourdes? -- perguntou espantada -- Então já veio na intenção de gastar, não é? -- riu

 

--Eu tenho muita fé nas minhas rezas, Juliana. Seu momento especial vai acontecer! Seus momentos especiais; todos eles! -- sorriu

 

***

Flávia e Camille passeavam no Norte Shopping.


--Esse é o melhor shopping do Rio, sabia? -- Flávia comentou -- Aqui o povo compra com vontade!

 

--Já notei isso! -- respondeu -- Só não gosto dos olhares furtivos pra nossas pernas! Ô louco, viu, gente bisbilhoteira, meu!

 

--Ah, mas esses olhares acontecem em todo lugar... -- pausou -- Aqui, tua mãe leva o maior jeito pra porr*da, viu? A baixinha chega lá e consome o saco de areia. Dá até medo! -- riu

 

--Minha mãe é boa em tudo o que faz! -- afirmou admirada -- Ela cozinha bem, costura pra caramba, dança bem, segundo a metidinha, e agora você me diz que ela leva jeito pro boxe! Tô impressionada!

 

--Pois é, maluquete! É por isso que você também é sinistrinha! Como diz a Mad Max, tua família tem poder!


--Mad Max... -- balançou a cabeça

 

Flávia gastou uns segundos calada e perguntou: -- Por que não gosta da Flashdance?

 

--Flashdance? -- perguntou sem entender


--Isabela! Você nunca fala o nome dela. Sempre a chama de metidinha!


--Ah, Flávia, e ela é simpática? Maior patricinha da zona sul... -- falou com desdém


--Sabia que isso também é preconceito? Uma mulher não se torna pior que as outras se ela é patricinha. É só mais um estilo, ué! E a Isa é uma garota culta, companheira, batalhadora. Eu não curto essas paradas de balé mas ela dança pra caramba, se destaca... Não entendo tua cisma com ela!

 

--Ah... -- deu de ombros -- Deixe ela pra lá! -- mudou de assunto -- E o Brito, como vai?


--Ih, garota, você não sabe de nada! -- revirou os olhos -- Aquele ali já foi tão sacaneado... Ele tá muito desestimulado, sabe? Especialmente depois que Katy Mahoney sumiu!

 

--Quanto tempo faz que Suzana foi embora?


--Mais de um mês! A Japa San e dona Lourdes também estão sentindo muitas saudades! Tadinhas...

 

--Brito ficou com problema na perna depois que tomou aquele tiro?


--É, ele manca... mas eu tenho feito fisioterapia nele e metido agulha! -- riu


--Falando nessas malditas agulhas, minhas mãos têm dado o ar da graça... Será que você poderia me fazer uma sessão de acupuntura?


--O que?? -- parou de andar e pôs a mão na testa dela -- Tá com febre não, aí! Quem é você? O que fez com a loura Belzebu?

 

--Deixa de ser palhaça, meu! -- deu um tapinha na mão dela -- Eu sei que essa porcaria funciona e minhas mãos têm doído!

 

--Pode deixar. -- voltou a andar -- Amanhã passo lá na tua casa e faço. -- pausou -- Você ainda faz natação? -- olhou para ela -- O povo no ginásio nunca mais te viu!


--Reduzi por causa do trabalho. Estamos dando uma geral na casa também, sabe? Cuidando do quintal que anda caidinho... Ano que vem acho que vou pagar uma obra!


--Eita, lelê, mulher poderosa! -- olhou para as propagandas dos filmes em cartaz -- Ih, maluquete, eu quero ver Crepúsculo!!!! Essa garota aí só pega homem diferente: é vampiro, lobisomem... Vamos? -- olhou para ela esperançosa


--Flávia, você não cresce, não, meu? – riu

***

Isa estava no Theatro ensaiando quando percebe a presença de Priscila esperando na porta da sala. Parecia agoniada. Pediu licença e se afastou do grupo para ver a amiga.


--Que foi, Pri? -- perguntou preocupada -- Que cara é essa?


--Ai, Isa, eu preciso da sua ajuda! -- segurou as mãos dela -- Por favor, não me abandona! -- seus olhos eram súplices


--Calma, amiga! O que foi que aconteceu? -- estava preocupada -- Desde que te conheço nunca a vi desse jeito!

 

--Amiga, olha... eu sei que você tá ensaiando e isso é coisa séria, é seu trabalho. Eu te espero terminar e a gente conversa.

 

--Ah, e eu vou ter cabeça pra me concentrar sabendo que você tá agoniada assim? Ah, não! Vou falar com o coreógrafo e com a Ana e saio agora mesmo contigo!


--Não, pelo amor de Deus! Isso vai te prejudicar e eu não quero...


--Priscila, chega! -- interrompeu-a -- Você é minha amiga e se está desse jeito é porque a coisa é braba! Espere um minuto que já volto! -- afastou-se dela e foi conversar com o coreógrafo

 

O grupo não gostou muito do fato da ruiva ter que sair mais cedo porém ninguém se opôs. Isa pegou suas coisas, trocou de roupa e saiu de lá com Priscila.

 

***

Lady caminhava pela beira da praia, pensando na vida. Lembrava-se dos ex namorados e sofria ao acreditar que o sonho de se casar estava cada vez mais longe. Depois do término com Fernando havia perdido a concentração totalmente e com isso sabia que seria reprovada em algumas matérias importantes na faculdade; agora sua vida acadêmica era uma bagunça. Havia feito as contas e percebeu que levaria três períodos a mais para se formar.

 

“Minha vida está horrível! Ruim no amor, ruim nos estudos... É, Lady, Antunes tinha razão: você é ridícula!” -- pensava e chorava, porém de forma contida


Ela pensava que Priscila, Tatiana, Lila e todas as outras mulheres por certo deviam considerá-la ridícula da mesma maneira. Sentia-se muito mal.


Uma cigana repara na garota e decide se aproximar. -- Olá moça? Será que posso ler sua mão? -- ofereceu sorrindo

 

--Pra que? Pra ser mais uma a constatar que minha vida é um fiasco total? -- respondeu chorando

 

--Tudo depende do ponto de vista, não é?


--Eu sou cismada com ciganas! E nem tenho dinheiro se quer saber! -- levantou as mãos -- Sou como Caetano: sem lenço e sem documento! -- abaixou os braços


--Eu posso ler de graça. Aí da próxima vez você me paga o tanto que seu coração mandar!

 

--Hum...

 

--Dê sua mão? -- abriu a própria mão esperando a reação da outra -- Não gostaria de lançar um luz sobre o futuro?

 

--Ah, acender uma luz! Acender uma velinha, você quer dizer. E isso se der certo e você realmente enxergar a coisa certa!

 

--"Melhor é acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão."17


Lady acabou colocando sua mão aberta sobre a da mulher, que começou a falar: -- Vejo que você sofre muito por um sonho não realizado. -- olhou para ela -- Ainda! -- voltou a olhar para a mão -- Mas precisa aprender a esperar...


--Pôxa, mais do que eu espero? Filha, tô nessa desde os quinze anos! Como diria uma grande amiga, num dou conta, não!

 

--Calma, querida... Somente quando relaxar e deixar de se iludir, encontrará aquilo que procura!

 

--Se eu relaxar aí é que não encontro mesmo! Depois de uma certa idade, meu bem, babau!

 

--Você terá um homem em sua vida. Ele vem de longe, depois de uma crise muito séria.


--O que?? -- arregalou os olhos -- Crise? Será que ele vem doente? Mal vou casar, ficarei viúva?

 

--E passará um bom tempo ao lado de uma mulher. Aliás, vejo uma outra mulher do seu lado que ficará contigo a vida toda.

 

--Ih, sai! -- fez cara feia e recolheu a mão -- Eu, aqui, toda me consumindo em sofrimento e você vem dizer que vou virar sapatão, eu hein?


--Eu apenas disse o que vi. -- respondeu naturalmente -- E cuidado. Vi alguma coisa que lhe será tirada.

 

--Bate na boca, seu mau agouro! -- respondeu revoltada -- Eu, aqui, sofrendo como uma cachorra devassada e você só me vem com papo brabo, eu hein? Só te uma digo uma, minha filha, que eu descubro dia a dia: ninguém é mulher impunemente! -- afastou-se revoltada

 

A cigana ficou olhando Lady seguir seu rumo. -- Se você entendesse pouparia tanto sofrimento, garota... -- balançou a cabeça

 

***

 

Isabela e Juliana estavam no carro da ruiva, que vinha dirigindo.


--Juliana, você não sabe como te sou grata por me ajudar nessa! -- sorriu olhando rapidamente para ela -- Obrigada por gastar esse dia de folga comigo!


--Eu achei que você escolheu a pessoa errada, mas... fazer o que? Paciência com certas coisas ainda não é a minha maior virtude, e esses salões de festa são uma boa pouca vergonha, viu? -- reclamou

 

--Mas quem eu poderia chamar? Dona Olga acabaria dando na pinta, mamãe iria querer que eu pegasse o salão mais caro e chique, Priscila anda a mil com os estudos, Lady é louca... Somente você poderia me ajudar!


--Só aceitei porque você quer fazer uma festinha pra Ed, porque se não fosse isso... Esses salões abusam! Onde já se viu? Só alugam se for pra mais de cem convidados, se você contratar o DJ deles, a decoradora deles... Ah, vai roubar outra! -- reclamou


--Prometo que esse é o último por hoje. Eu tô na maior esperança porque ele é muito bonito e nem tão caro, segundo me disseram!

 

--Se empolga muito, não! Depois dos precinhos que te cobraram nos outros... sei não!


--É aqui! -- manobrou para estacionar

 

--Aqui??? -- perguntou chocada -- Isa, mas se nos outros lugares cobravam os olhos da cara, em um lugar desses eles cobram os olhos, o nariz, a boca e otras cositas más!


A ruiva riu. -- Quem sabe? -- abriu a porta do carro -- Vamos ver! -- desceram. Isabela pegou o celular e telefonou. -- Dona Judite? Sou eu, Isabela. Acabamos de chegar. -- pausou -- Ah, tá. Até logo! -- desligou


Pararam na porta do salão.

 

--E aí? -- Juliana perguntou

 

--Ela pediu uns minutinhos porque tá vendo umas coisas lá nos fundos. -- respondeu e silenciou por alguns segundos -- O tempo voa, né menina? Já estamos em agosto!


--Pois é...

 

Cinco minutos depois...

 

--Ô, Isa, cadê a vaca dessa mulher, hein? -- perguntou revoltada


--Calma, criatura! -- pegou o celular e ligou de novo -- Alô! Cadê a senhora? -- pausou -- Ah, tá! -- desligou

 

--E cadê a égua? -- cruzou os braços

 

--Ela tá vindo. É que tem mais gente vendo o salão.


--Você é mansa demais, mulher! -- pegou Isa pelos braços e chacoalhou -- Deixe de ser tão fina e liga pra essa peste de novo! Xinga ela, fala desaforo!


--Calma! -- desvencilhou-se dela -- Você é assim no hospital também, é? -- fez cara feia


--Sou assim com quem merece! Os pacientes não, mas gente como essa cachorra, -- gritou na direção da porta -- me tira a paciência!


De repente Ed aparece escondida na sacada do segundo andar e joga as chaves para Isa. Juliana não a viu e se espantou com a ruiva pegando as chaves no ar.


--Ué? -- olhou para cima e viu ninguém -- Como se não bastasse deixar a gente aqui plantada, a safada ainda joga a chave, é? -- pôs as mãos na cintura


--Vamos entrar, que é o que interessa! -- abriu a porta e entraram. Lá dentro tudo escuro

 

--Isa, essa desgraçada ainda é caloteira! Não pagou a luz e cortaram tudo! Vamos embora que esse salão é roubada!

 

--Pára de reclamar e me dá o braço. Se uma cair, caem as duas. -- foram andando pelo corredor até chegar em um espaço amplo. Tudo continuava escuro


--Mas que diabo! -- a japonesa reclamou

 

--Dona Judite? -- Isa gritou -- Chegamos! -- as luzes se acenderam


--Surpresa!! -- todos gritaram

 

Juliana ficou boquiaberta. Maria de Lourdes, Seyyed, Olga, Mariano, Ricardinho, Mariângela, Camille, Ivone, Flavia, Brito, Macumba, Jailson, Rodolfo, Coimbra, Lemos, pessoas do Sede de Sangue, Renan, Tatiana, Sabrina, Priscila, Lady, Pedro com os pais, Débora, gente do Silva Avelar, Selma, Ruy e outros membros do PCons estavam lá.

 

--Gente! -- a japonesa exclamou -- Nossa, mas vocês... eu nunca podia esperar por isso... -- sorriu

 

A enfermeira reparou no salão e viu tudo belamente decorado com rosas vermelhas e brancas, gravinas amarelinhas e violetas. Havia também uma mesa de doces com um bolo ornamentado com biscuit. Olhou mais ao fundo do salão e percebeu que garçons já se movimentavam para servir salgados e bebidas a qualquer momento. Reparou ainda que dois violinistas, um violoncelista, um pianista e um baterista preparavam os instrumentos. Quatro mulheres seguravam microfones como se fossem cantoras aguardando alguma instrução para começar. Um DJ montava sua parafernália.

 

--Gente, eu... -- estava confusa -- não tô entendendo nada... -- riu -- Meu aniversário não é exatamente agora, e... nossa, tem gente aqui que eu nem conheço!


--Você nunca tem tempo de nada! -- Ed respondeu -- A gente teve que improvisar! -- sorriu

 

--Juliana, veste a roupa! -- Lourdes segurava o vestido comprado no shopping


--Mas, dona Lourdes, eu tô suada, unhas sem pintar, rosto lavado...

 

--E não me enrola! -- a idosa insistiu

 

--Vamos, criatura! -- Isa pegou o vestido -- Vem! -- levou a outra para o banheiro

 

--Ela não tá entendendo nada! -- Renan ria

 

--Vamos lá, gente, preparando as coisas! -- Brito falou para os músicos


Minutos depois a enfermeira voltava.

 

--Olha, eu nem me produzi direito... -- estava ainda desorientada


--Nem diga isso porque eu te maquiei no capricho! -- Isa disse

 

--Metidinha... -- Camille resmungou

 

--Agora sim! -- Seyyed bateu palmas -- Manda ver!

 

https://www.youtube.com/watch?v=gCadlN8fexk

Os músicos começaram a tocar, as cantoras estalavam os dedos e uma voz muito bonita se fez ouvir: -- I gotta take a little time, a little time to think things over,
I better read between the lines, In case I need it when I'm older…


--Meu Deus! -- Juliana reconheceu a voz e pôs a mão sobre o peito. Não podia acreditar

 

Suzana surge segurando um microfone. Vestia-se com uma calça de linho preta, uma blusa branca cintada de mangas compridas e sapatos de salto médio, no seu estilo delegada de ser.

 

A morena cantava com muita emoção, fazendo a japonesa começar a chorar.  -- In my life, there's been heartache and pain, I don't know, if I can face it again, can't stop now, I've traveled so far, to change this lonely life… -- caminhava lentamente até a enfermeira e parou diante dela olhando profundamente em seus olhos -- I wanna know what love is, I want you to show me, I wanna feel what love is, I know you can show me! -- estava se declarando

 

--Gente que coisa romântica! É mulher com mulher mas tá me dando um troço aqui no peito! -- Lady falou para Priscila

 

--Cala a boca, Lady! -- estava emocionada

 

--Gonna take a little time… -- Suzana continuava

 

--Take a litlle time… -- as cantoras ao fundo acompanhavam


--A little time to look around me… -- mantinha os olhos sobre a amada


--Ooh!

 

--I've got nowhere left to hide -- Juliana não conseguia parar de chorar


--Nowhere left to hide…

 

--It looks like love's finally found me, oooh! -- fechou os olhos e cantou como se a música fora escrita para si mesma -- In my life, there's been heartache and pain, I don't know, if I can face it again, can't stop now, I've traveled so far, to change this lonely life, aaah! -- fez sinal para as cantoras continuarem sozinhas


--I wanna know what love is…

 

--Ooooh-oh…

 

Suzana tirou uma caixinha do bolso e ficou segurando. Olhava fixamente para sua japonesa e falou: -- Eu não tinha condições de me casar com você, então tive que me preparar pra isso!

 

--I want you to show me…

 

--Meeeeee-ee…

 

--Você não tem idéia do que vivi nos últimos dias, mas posso te dizer que estou limpa, Juliana! Estou pronta pra te dar tudo o que você merece!

 

--I wanna feel what love is…

 

--Feel what love is...

 

--Sei que te magoei demais, que fugi de você em vários momentos e tenho consciência de que minhas inseguranças te trouxeram muita dor, mas a fase dos temores acabou. Estou aqui pra você e não fujo nunca mais! -- ergueu a mão que segurava a caixinha


--And I know you can show me…

 

--Show me, I wanna know…

 

--Casa comigo! -- abriu a caixinha -- E me dê a honra de ser a mulher mais feliz do mundo, vivendo a seu lado!

 

--I wanna know what love is …

 

--I wanna know...

 

--I want you to show me…

 

--And I feel you so much love…

 

--Sua nhambiquara safada, sem vergonha, danada! -- Juliana deu um tapa no braço da delegada. Continuava chorando -- Como você desaparece daquele jeito e depois prepara essa festa de casamento assim?

 

--Você não quer? -- perguntou com tristeza

 

--I wanna feel what love is...

 

--And I know you can show me…

 

--É tudo que eu quero, Suzana Mello!! -- chorava -- É tudo que eu quero, Yamaki Nawapë! -- abraçou-a com força e a beijou com paixão. A delegada retribuiu com a mesma intensidade. Algumas poucas pessoas ficaram constrangidas mas nada fizeram


--I wanna know what love is (I wanna know),

 

--I want you to show me (And I feel you so much love),

 

--I wanna feel what love is,

 

--And I know you can show me,

 

Suzana colocava a aliança no dedo de sua amada. -- Ficou bem em você! -- sorriu e beijou a mão dela

 

Juliana fez o mesmo. -- Em você também! -- sentiu a mão da delegada suavemente secando suas lágrimas -- Nunca na minha vida imaginava que fosse viver algo assim... -- olhou para ela emocionada -- E também não sabia que a senhora tinha uma voz tão bonita pra cantar, delegada!

 

--I wanna know what love is…

 

--Ooooh-oh…

 

--Fazia muitos anos que eu não cantava... Nunca havia feito isso no meio dos ‘brancos’... -- riu

 

--Agora tudo vai ser diferente, meu bem! Viveremos uma nova fase, cheia de muita alegria e felicidade! -- a enfermeira respondeu emocionada


--Como me foi dito: “É preciso acreditar que a época dos milagres ainda não terminou.”


--I wanna know what love is (I wanna know),

 

--I want you to show me...

 

--Gente, é muita emoção, viu? -- Lady chorava -- Que coisa tocante! Ai, ai, ai, quero casar também... -- agarrou-se com Priscila, que revirou os olhos


--Você tá chorando, Brito? -- Macumba perguntou revoltado, disfarçando as próprias lágrimas -- Bem que a chefe dizia que depois de Flávia você tinha ficado muito frouxo!


--Emoção, Macumba, emoção! -- endireitou a gola da blusa -- Eu sou um homem romântico... seco e suave!

 

--I wanna feel what love is,

 

--And I know you can show me,

 

--Oh, let's talk about love…

 

***

--É, eu tenho que reconhecer... -- Seyyed puxou Isabela pela cintura para que ficasse mais próxima -- Suzana tem categoria! Nunca pensei que um mero rim fosse fazer tanta diferença na vida de uma mulher! -- olhou para a ruiva -- Eu não fui tão alto nível assim quando te pedi em casamento...

 

--Não diz isso, você foi perfeita... -- sorriu para ela -- Eu é que era uma idiota naquela época!

 

--Sabia que esse romantismo todo me deixou com a maior vontade de te seqüestrar pra romantizar até o dia amanhecer? -- sussurrou no ouvido dela

 

--Hum... -- deu um tapinha no braço dela -- Eu quero... -- olhou para a morena -- Mas, vamos curtir a festinha primeiro porque elas merecem!


--Você se saiu muito bem no papel de enrolar Juliana. Ela nem desconfiava!


--Não mesmo! E ela já tava a ponto de virar essa casa de festa de cabeça pra baixo! -- riu

 

--Se fosse o contrário, Suzana sendo engabelada, com certeza essa casa de festa não existiria mais... Sorte da verdadeira dona Judite! -- riu


--Nossa, dona Lourdes! -- Olga abordou a idosa -- Que sorriso de felicidade, hein? -- sorriu

 

--Eu disse que tinha fé! -- afirmou -- Agora pra Juliana só falta uma coisa!


--Imagino o que seja. -- sorriu

 

--E em relação a você, falta me dar a notícia de que seu menino se curou.


--Ele tem andado com doenças persistentes do tipo infecção respiratória e otite, mas acredito fortemente que um dia eu lhe direi que ele está curado! -- sorriu -- Se Deus quiser!

 

--Olha, mas eu vou dizer! -- Flávia conversava com as pessoas -- Eu sou fã de carteirinha da Katy Mahoney brasileira! A mulher abalou os alicerces do romantismo, viu? Eu fiquei passada! E aquele beijo, hein? Eita, lelê! -- olhou para Mariano -- O único casamento que tinha me feito chorar foi o teu! Abalou na categoria hetero! -- olhou na direção de Juliana e Suzana -- Hoje essas duas abalaram na categoria homo!


--Foi realmente muito bonito! -- Mariano afirmou -- E eu cada vez mais me convenço de que entre iguais pode haver amor verdadeiro mesmo!


--Pôxa, Flávia! Você não chorou no meu casamento? -- Renan perguntou fingindo decepção

 

--Ah, teu casamento foi O evento do ano passado, meu filho! Festa boa pra caramba e mais ainda em Goiânia! -- sorriu -- Eu chorei sim, mas de rir! Ri muito com as loucuras daquelas três primas da tua mulher! -- riu

 

--Fala baixo, Flávia! -- olhou na direção da esposa -- Tati morre de vergonha só de lembrar!

 

--Deixa eu te perguntar, Sabrina, e a excursão pro Anna sei lá qual? Foi boa, fi?


--Annapurna, Tatiana. -- riu -- Foi, boa sim! As condições climáticas foram muito favoráveis, o grupo foi bastante coeso e todo mundo fez o cume! Eu tive queimaduras de segundo grau no nariz e perdi todas as unhas dos dedos dos pés, mas nada que comprometesse a empreitada. Quando chegamos lá, consegui fazer funcionar meu radinho a simplesmente 8091m de altitude e botei pra tocar a música Now we are free, da Enya. Ficamos no cume só durante o tempo da canção e foi uma experiência linda! Voltei renovada e pronta pra próxima, embora o corpo volte em frangalhos. -- riu


--Queimaduras de segundo grau no nariz e perda de unhas? -- Priscila revirou os olhos -- Mas, afinal, por que escolheu essa música?

 

--É pra Patrícia. Ela ficou muito emocionada no final do filme do gladiador, quando essa música tocou.

 

--Sabrina, me perdoe a franqueza, mas você não acha que essa coisa de se apaixonar por alguém que já morreu é muito deprê, não?

 

--É loucura, Priscila, eu sei, mas... sei lá!

 

--Podia começar a pensar em namorar alguém... não seria traição!


--E ainda faltam quantos cumes? -- Tatiana perguntou para mudar de assunto


--Nanga Parbat, Manaslu, Dhaulagiri, Cho Oyu, Makalu, Lhotse, Kanchenjunga, K2 e o objetivo máximo: Everest!

 

--Ave Maria, nove montanhas... -- Priscila revirou os olhos -- Aqui, filha, só te sobraram oito dedos nos pés, viu? Vê se preserva pra restar pelo menos um dedão! E fica esperta porque nariz é um só! Se perder, já era...

 

Camille olhava alternadamente para Seyyed e Isabela e Juliana e Suzana. Adoraria um dia sentir o que elas sentiam naquele momento. Mariângela percebeu a frustração da filha e tentou animá-la. -- Camille, a música pra gente dançar vai começar! -- falou sorridente -- Vamos pra pista? -- olhou para a filha

 

--Eu, hein, mãe, que pista? Quem vai pra pista é automóvel! Vê lá se eu vou dançar com essa perna mecânica? Ô louco! -- respondeu constrangida


--Flávia dança! Não há nada de mais!

 

--Ah, mãe... eu não vou... -- cruzou os braços -- Vai você!

 

--Nunca mais vai voltar a dançar, minha filha? Podia ao menos tentar...


Isabela e Seyyed já se encaminhavam para dançar e a loura olhava para as duas morrendo de inveja. -- Talvez um dia, mãe... talvez um dia...


Minutos depois olhou para Ivone apreciando o que se passava e resolveu abordá-la. -- Ivone, você podia estar aqui vendo isso, ô meu? -- olhou para ela desconfiada


--À rigor, não, Camille. Mas eu não poderia deixar de comparecer em um evento destes. -- respondeu tranquilamente

 

--Humpf! -- fez um bico -- Vê se não vai sair por aí dizendo pra esse pessoal as coisas que a gente conversa, viu? Se eu souber que fez isso vai haver cenas apocalípticas nesse salão de festa!

 

--Jamais faria isso! -- pausou -- E você? O que sente ao presenciar algo assim, tão romântico? Percebi que você congelou quando elas se beijaram.


--Ah, não, pára, vai? Você tava me analisando? Consulta aqui, não! -- saiu de cara feia. A psiquiatra ficou rindo

 

--Juliana e Suzana, que casal tudo a ver! -- Selma disse. Ela e Ruy chegavam juntos para abordá-las

 

--Eu tô até agora em estado de choque... -- sorria olhando para a delegada -- Como você aprontou tudo isso, hein? Chamar essa gente, cuidar dos detalhes... Chegou desde quando, afinal?

 

--Foi tudo muito interessante! -- Ruy disse -- A doutora chegou no finalzinho de julho, foi tramando tudo às escondidas e você nem percebeu nada!


--Doutora, não, Ruy! -- Suzana pediu -- Nunca fui chegada a esses tratamentos...


--Ela montou uma verdadeira rede de contatos pra cuidar dessa festa! Parecia até uma operação bélica! -- ele riu

 

--Você se escondeu aonde, hein, sua nhambiquara danada? -- perguntou curiosa

 

--Na casa da Ed! -- respondeu naturalmente

 

--O que?? -- perguntou com os olhos arregalados -- E aquela mecânica sem vergonha nem pra me dizer nada!!! Ah, mas eu vou comer o fígado dela! O fígado não, o rim que sobrou!  -- falou revoltada

 

--Não briga com ela, meu bem. Eu pedi pra que ninguém dissesse nada. Queria fazer uma surpresa bacana pra você.

 

--E eu achei tudo muito lindo, mas depois a gente tem que ter uma conversinha bem séria, Suzana Mello! -- olhou para a morena com olhos inquisidores -- E eu quero saber direitinho se anda tomando os remédios e se fez algum exame nesse período todo!


--Lá vem chumbo grosso... -- olhou para o alto


--Juliana, Suzana, -- olhou para as duas -- Selma e eu estivemos pensando... por que as duas não se filiam ao partido e se candidatam, hein? -- Ruy ofereceu sorrindo


--Eu?! -- a delegada reagiu com surpresa

 

--Eu posso até ver! -- Selma fazia gestos -- Juliana, a candidata dos idosos e dos gays! Suzana, a candidata dos transplantados e dos gays também! Ambas, candidatas do povo!!

 

--Mas será possível que nem no meu casamento vocês me dão um refresco, gente? -- Juliana perguntou revoltada

 

--É... com licença? -- Pedro e os pais de Patrícia se aproximavam para abordar a delegada. Cumprimentaram Juliana e os demais, que responderam e se afastaram para deixá-los mais à vontade

 

--E então? -- a morena sorria

 

--Minha família e eu ainda não tivemos a oportunidade de agradecer por tudo que a delegada fez no caso de minha irmã. A senhora não arredou pé e lutou até botar um por um daqueles cabras safados atrás das grades e... -- Pedro tentava não se emocionar -- Eu me sinto vingado, não sabe?

 

--Não tem porque me agradecer! Era minha obrigação e uma questão de honra pra mim! -- respondeu com muita sinceridade

 

--Eu mudei muito meus pensamentos em relação às mulheres iguais a vocês. Hoje vejo que fui ignorante demais... Só que, eu achava que tava fazendo o certo... -- Roberto, pai de Patrícia e Pedro, começou a falar -- Ainda sinto aquele aperreio no peito, um arrependimento da peste, mas fiquei satisfeito de ver que aquele bando de pistinga dos infernos tão presos e pagando pelo que fizeram. No Brasil se vê tanta impunidade... Graças a Deus e a senhora essa história não terminou em pizza!

 


--Não me chamem de senhora, por favor. -- pediu constrangida -- Como disse, era minha obrigação.

 

--Eu não tenho o que dizer... -- Vânia, mãe da jovem, disse emocionada -- mas queria dar um abraço na delegada... -- pediu

 

Suzana deu um abraço nela. Pedro e Roberto se uniram naquele gesto.


--Tati, vem cá, menina! -- Pedro chamou -- Abraça a gente aqui! -- pediu

 

Tatiana foi e os cinco ficaram envolvidos em um emocionado abraço grupal.

 

***

Juliana e Suzana haviam acabado de chegar em casa. A japonesa correu para perto da cama, enquanto que a morena caminhava lentamente em sua direção.

 

--Vai mesmo aturar uma delegada aposentada, -- tirou os sapatos -- transplantada -- tirou a blusa -- e velha em sua casa, Juliana? -- perguntou brincando, mas no fundo sentia uma certa insegurança

 

--Aposentada, significa que terá tempo pra mim... -- foi para perto dela -- transplantada, significa que vai precisar dos meus cuidados profissionais e eu adoro meu trabalho... -- abriu a calça dela -- e velha... -- empurrou a calça para baixo, removendo inclusive sua calcinha -- você não é velha, mas quando ficar... -- sorriu -- sabe que eu amo os idosos, não sabe? -- beijou-a

 

--Então... quer dizer que não vai se arrepender de ter me dito sim? -- perguntou enquanto tirava o vestido dela

 

--Jamais! -- beijaram-se com carinho

 

Suzana despiu a amante de suas roupas íntimas enquanto a beijava e se movimentava para deitar a ambas na cama. Ficou sobre ela e olhou no fundo de seus olhos. -- Quero que saiba que eu te amo e que estarei do seu lado enquanto Deus assim me permitir. Juro que farei um esforço tremendo pra ser a companheira que sempre desejou!


--Você não precisa fazer esforço algum... -- segurou seu rosto com as duas mãos -- Você já é essa companheira! -- beijou-a e sorriu -- Vem, meu amor... -- a japonesa pediu -- eu tava morrendo de saudades desse seu jeito safado e faminto na cama...


--E eu tô morrendo de fome de você... -- sussurrou no ouvido dela e seguiu beijando seu corpo com muito desejo e urgência

 

--Ai, amor, ai... -- fechou os olhos e segurou a amante pelos cabelos

 

Suzana mergulhou entre as pernas da enfermeira e provocou-a de todas as formas. Juliana sorria e gemia de prazer, invadida pela satisfação em ter seu grande amor de volta em sua vida. Não tinha a mínima idéia de quanto tempo teriam juntas mas não se importava mais com isso; o que realmente interessava era a felicidade de poder viver momentos intensos e verdadeiros como o que experimentava. Agora ela conhecia o amor verdadeiro, sem cobranças, sem medos e sem apegos, e isso lhe bastava.

 

***

Seyyed acordava preguiçosamente, constatando que estava sozinha na cama. Levantou-se para escovar os dentes e lavar no rosto. Em seguida foi até a cozinha, onde encontrou sua mulher cantando e preparando o café da manhã. Encostou-se na porta, cruzou os braços e ficou admirando o carinho da ruiva ao preparar o desjejum de ambas. Isa vinha praticando aulas de canto no Conservatório de Música e a morena gostava de ouvi-la cantarolando os clássicos. Após alguns minutos de contemplação, a bailarina finalmente percebeu a presença da outra mulher.

 

--Bom dia! -- sorriu -- Há quanto tempo está aí?


--Tempo suficiente pra ter certeza de que você é a delícia do meu coração! -- foi até ela, abraçou-a e beijou seus lábios


--Hum... -- envolveu o pescoço da morena com os braços -- A noite de romantismo foi o máximo... Eu te amo, sabia?

 

--Eu também... -- beijou-a novamente -- Quando é que você entra de férias mesmo?

 

--Na próxima semana, depois dessa que vai começar amanhã.


--Vai passar em tudo? -- fingiu seriedade

 

--Vou! -- respondeu convicta

 

--Acho bom! -- beijou-a

 

--Vem, vamos tomar café! -- as duas se sentaram


--Então quer dizer que a senhora se forma no ano que vem? -- sorriu enquanto servia a ambas com salada de frutas


--É tão legal, não, é, Ed? Parece que foi ontem que nós conversávamos naquela danceteria e eu te falava das minhas dúvidas entre o clássico e o contemporâneo... -- pegou sorvete para colocar sobre as frutas


--Pois é... e naquela noite eu levei um tôco! -- riu -- Toma!


--Não... -- colocou sorvete no prato da morena -- Eu tava achando você um charme só que ainda não tava preparada pra tentar algo com uma mulher.


--E depois ainda levou um tempo maltratando esse pobre coração... Uma mulher apaixonada sofre, viu? Ô destino ingrato... – brincava


--Mas você me conquistou inteiramente, Seyyed Khazni... não consegui resistir ao seu tempero bem brasileiro com pitadas de Oriente Médio. -- deu uma colherada

 

--Quando você entrar de férias, vamos dar uma fugida de final de semana? Queria ficar te curtindo... -- deu uma colherada


--Só se você me permitir pagar a conta dessa fuga! -- Ed não respondeu -- Amor, qual o problema nisso, hein? -- perguntou com delicadeza


--Você acha que eu tô mal de grana, não é? -- estava chateada


--Acho não, tenho certeza! -- olhou para ela -- E sei que tenho muita responsabilidade sobre isso! Faço você gastar além da conta... -- assumiu com certo constrangimento

 

--Você não me obriga a gastar. Gasto porque quero. -- continuava comendo


Isa parou de comer e segurou o rosto da morena delicadamente com as duas mãos. -- Olha pra mim, meu amor! -- pediu e a outra obedeceu -- Eu não estou com você porque me dá as coisas, porque me proporciona uma vida bacana e por nada que seja material. Ed, eu sei que sou uma pessoa mimada, que não gosta de estar por baixo no que diz respeito a trabalho, que sonha com a fama, eu sei que somos bem diferentes sob vários aspectos, mas eu venho me esforçando todos os dias pra corresponder ao que você espera de uma companheira. Pra corresponder ao que você merece de uma companheira! -- pausou -- Eu adoro ser casada com você, tenho o maior orgulho de ser sua mulher e isso vale na riqueza e na pobreza, que fique bem claro nessa sua cabecinha dura! – sorriu

 

--Então... quer dizer que ficaria comigo mesmo se eu não pudesse manter a vida que temos? -- perguntou insegura

 

--Claro que sim! Eu te amo, não duvide! Posso ter sido imatura no passado mas a gente evolui, não é? Eu te amo! -- levantou-se rapidamente para beijá-la e voltou a se sentar para voltar ao café

 

--Beijo com gosto de sorvete... -- Ed brincou

 

--Você aceita que eu pague dessa vez? Hum? -- perguntou sorrindo


--Tá legal... -- pausou. Depois de uns segundos lembrou-se de uma coisa -- Mas quando a gente terminar com o Lamborghini do Marciano vai entrar um dinheiro de responsa no caixa! – sorriu

 

--Dinheiro esse que você vai guardar! -- pausou e pensou no caso -- Só de curiosidade, o que tá faltando? Não é de hoje que te ouço falar nesse carro! Renan anda numa ponte aérea Rio-Goiânia que me deixa tonta! – riu

 

--A parte dele já acabou. Eu tô só esperando ver o problema da tinta. Se Deus quiser, nessa semana que vai entrar eu acabo com isso! -- terminou de comer -- É que eles me trazem os carros muito avariados, sabe? Aquele Porsche tava destruído e esse Lamborghini parecia até o carro do Freddy Krueger! Não sei como esse povo consegue fazer essas coisas!

 

--Deixe que façam! Aí você conserta e ganha dinheiro! -- sorriu ao dar a última colherada

 

--Pois é! -- pegou a louça de ambas e se levantou para lavar -- Camille tá querendo que eu cobre uma grana! Ela falou que minhas horas têm que ser mais caras nesses casos especiais pra poder valorizar o passe. -- abriu a torneira da pia e começou a lavar os pratos e talheres

 

--Falando nela... -- levantou-se também e abraçou a mecânica por trás -- Eu achei que ela tava a ponto de chorar no casamento de Suzana e Juliana


--Por que? -- perguntou curiosa

 

--Aquela garota é a maior enrustida, Ed! Ela vive louca pra viver a mesma coisa que nós. -- pausou -- O problema é que ela quer viver isso com você!


--Ai, mas você cisma com isso, hein? -- colocou a louça para escorrer


--Ed, você é mesmo tão cega ou se finge de cega, hein? Parece até a Lady!


Seyyed virou-se de frente para ela. -- Parece a Lady é sacanagem... -- riu e olhou para a ruiva -- Vamos deixar esses assuntos de lado! Eu tenho mulher, que é você, e mesmo gostando muito da loura ela não tem chances comigo! -- abraçou-a pela cintura -- Tô amarrada na minha gata! -- beijou-a -- Sou fiel e tô satisfeita com o que tenho em casa!


--Acho muito bom! -- mordeu o lábio inferior da morena -- Você é só minha, Seyyed! Eu sou egoísta com o que é meu, não divido você com mulher alguma! -- beijou-a com paixão

***

Camille falou para a mãe que iria no shopping almoçar com Aline mas havia mentido. Nunca mentiu quanto a este tipo de coisa, mas precisava ficar sozinha. O casamento de Suzana e Juliana havia mexido muito com ela e abalado algumas certezas. Queria mesmo permanecer sozinha? E se não quisesse, Seyyed certamente não seria a mulher com a qual manteria um relacionamento. Ela era de Isabela, não havia motivos para continuar alimentando esperanças vãs.

 

Caminhava pelo parque do Grajaú e pensava: “Eu não posso viver assim, me contentando com migalhas da atenção de Seyyed. Não posso continuar estudando com minúcias cada atitude dela pra ver se tenho chances ou não. Isso é um sofrimento muito grande! Eu fico babando por ela, me embebedando com suas palavras, me encantando com seus gestos de delicadeza que não me prometem coisa alguma... Não posso continuar me refugiando em contos publicados na internet, criando uma realidade paralela que me inebria mas somente existe em meus pensamentos...” -- suspirou -- "Que merd*...”

 

Rememorava as cenas do casamento. Nitidamente via Isabela e Seyyed dançando juntas. Lembrava-se de vê-las assim também no casamento delas e no de seu tio.

 

--Queria poder dançar... -- disse para si mesma -- Mas com você, Ed...


Caminhava de cabeça baixa, tentando disfarçar que chorava.

https://www.youtube.com/watch?v=pPQkWeNhk1o


“Como pode ser,

Gostar de alguém,

E esse tal alguém,

Não ser seu,

Fico desejando nós, gastando o mar,

Pôr do sol postal, mais ninguém...”


Enquanto isso, Fátima caminhava sozinha com sua bengala no Ibirapuera e seus pensamentos estavam em Camille. Ela também chorava.


“Peço tanto a Deus,

Para lhe esquecer,

Mas só de pedir,

Me lembro,

Minha linda flor

Meu jasmim será,

Meus melhores beijos serão seus...”


De repente, a loura lembrou-se da nadadora e sentiu-se muito culpada pelo modo como a havia tratado no passado. Gostaria muito de vê-la, mesmo sabendo que poderia fraquejar e novamente magoá-la.


“Sempre que estou indo,

Volta atrás,

Estou entregue a ponto,

De estar sempre só,

Esperando um sim ou nunca mais...”


Fátima desenhava o rosto de Camille em sua mente, o rosto que ela construiu com seus sentidos e sentimentos.


“É tanta graça,

Lá fora, passa

O tempo, sem você...”


Mas a nadadora estava decidida. Era para o bem de ambas que deveria deixar a loura em paz. Não a procuraria e nem iria voltar atrás quanto a isso.

 

Camille viu um casal que brincava perto dos bancos de piquenique, dançando ao redor dos filhos. Ela voltou a pensar em Seyyed e na sua imensa vontade de dançar com ela.

“Quero dançar com você,

Dançar com você,

Quero dançar com você,

Dançar com você,

Iêe, iê...”

Amado – Vanessa da Mata [b]

***

 

--Mãe! -- abre a porta de casa e entra -- Cheguei!

 

--Surpresa!!!! -- Ligia surge diante dela com Mateus e os filhos


--Ahahahahahah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! -- a loura deu um berro assustador, encostando-se na porta com a mão no peito e os olhos arregalados


--Gente, é incrível como Camille sempre fica emocionada com a visita de vocês! -- Mariângela falava para disfarçar

 

--Ai, priminha linda!!!!! -- Ligia gritou abraçando-a com força -- Há quanto tempo!!! A última vez que a gente se viu foi há uns dois anos! Quantas saudades!! -- segurou o rosto dela -- Ai, mas olha pra você! -- olhou-a de cima a baixo -- Andando novamente, poderosa, engenheira formada, que luxo! -- deu-lhe um tapão no braço


--Hã... -- estava sem fala

 

--Garota, que coisa boa! -- Mateus abraçou-a com o mesmo entusiasmo -- Sabia que a gente vem brincando de um jogo de gato e rato? -- sorria


--Gato e rato... -- repetiu abestalhada

 

--Camille, Camille, Camille!!! -- Michael e Caroline cantavam e pulavam


--E olha o seu fã clube fiel, aí! -- Ligia apontou -- Já estão com nove anos!


--Nove anos com o diabo no corpo... -- balançava a cabeça resmungando para si própria

 

--Filha, você acredita que eles vieram aqui duas vezes e deram com a cara na porta? -- a costureira perguntou

 

--Pois é! Chegamos aqui de mala e cuia pra passar o natal com vocês no ano passado e nada! -- Ligia explicou

 

--E depois a gente veio no ano novo e nada também! -- Mateus complementou

 

--Acho que vou começar a acreditar que Deus existe...


--Mas agora que encontramos vocês, pra matar todas as saudades... -- Ligia olhou para o marido

 

--Ficaremos aqui por um mês! -- ele disse


--O que???????????????? -- seguiu deslizando as costas na porta até cair sentada no chão -- Um mês????? Um mês???????? -- gritava apavorada


--Calma prima! -- Ligia sorria

 

--Gente, mas é incrível como Camille não se agüenta nem em pé de tanta felicidade! -- Mariângela disse

 

--Felicidadezinha filha da puta, viu? -- não conseguia se levantar


--Olha a boca, menina! -- a costureira ralhou


--Deixa tia, é muita saudade, é muita emoção, tudo junto! -- olhou para o marido -- Querido, vamos ajudá-la a se levantar!

 

Quando o casal veio segurar os braços de Camille, Michael e Caroline vieram junto. A menina pegou a perna mecânica da loura e puxou, sendo ajudada pelo irmão. Os dois saíram pulando pela casa com a prótese nas mãos.


--Pega, pega, pega!!!! -- Camille gritava como louca -- Pega eles, mãe, pega eles!!! Pega minha perna!!! -- lutava para levantar-se sozinha como uma lagartixa se esfregando pela porta

 

--Caroline, Michael, -- Ligia dizia sem autoridade -- devolvam a perna da prima de vocês agora!

 

--Devolvam essa perna, crianças! -- Mariângela corria atrás deles -- Isso é coisa séria e cara! -- olhou para Mateus -- Faz alguma coisa homem!


--Crianças, ai, ai, ai, que coisa feia... -- o homem ralhava como se estivesse morrendo

 

Caroline e Michael pulavam na poltrona com a perna erguida sobre suas cabeças.

 

***

Isabela andava pelos corredores do Municipal tentando acalmar sua fúria. Já havia sido avisada, por parte de várias colegas, que Neyan continuava insinuando que ela era a culpada pelo acidente de Joice.

 

Encontrou o coreógrafo conversando com dois professores e o abordou. -- Boa tarde. -- cumprimentou os três e virou-se para Neyan -- Será que nós poderíamos conversar uns minutinhos em particular, por favor?

 

Ele a olhou de cima a baixo e respondeu: -- Se não for demorar muito...


Os professores pediram licença e se retiraram. Quando já estavam longe o coreógrafo perguntou: -- Sobre o que se trata?

 

--Quero que você me explique com que objetivo anda dizendo por aí que eu armei pra Joice escorregar! -- encarou-o com seriedade

 

--Eu? -- apontou para si mesmo -- As pessoas é que têm falado, meu bem!


--As pessoas? -- perguntou descrente -- Então porque será que quando essas mesmas pessoas me advertem sobre tais comentários sempre dizem que é você quem anda dizendo, hein?

 

--Olha só, garota, eu não te devo satisfações! -- preparou-se para ir embora


--Deve sim, porque se não me responder vai ter que conversar diretamente com meu advogado! – ameaçou

 

Ele olhou para ela com cara feia e disse: -- Pois eu acho que aquilo ali foi coisa sua mesmo! Foi tudo muito conveniente, não é? Joice escorrega, fica fora do show e você era a única que podia substituí-la simplesmente porque conhecia a coreografia dela quase toda! Que feliz coincidência, não foi, Isa?

 

--Engraçado que você só percebeu essa tal coincidência depois que nós discutimos, não é, Neyan? Antes disso você não falava nada! As meninas até diziam que eu era sua queridinha!

 

--Porque foi depois daquela discussão que eu te conheci realmente! Vi como era ambiciosa e arrogante! Como pôde falar de Marta Défaux daquela maneira? Você ainda tem que ralar muito pra chegar aos pés dela! -- estava se exaltando

 


--Eu reconheci que fui errada, infantil e anti ética no caso da Marta, só que não tem nada a ver com ela ou com Joice! Você está de marcação comigo e eu quero entender porque! -- falava mais alto

 

--Não perco meu tempo de marcação com novatas, meu amor! -- falou com desdém


--Se não perde seu precioso tempo com novatas por que gasta tempo pra falar mal de mim? O que pretende? Quer acabar com a minha carreira, com a minha reputação, é isso? Você nem pensa no que fala! Como eu poderia fazer Joice escorregar? Sou faxineira do teatro? Ou você, na sua loucura, vai dizer que entrei aqui na calada da noite pra passar cera exatamente no local onde Joice iria dançar? Quem sabia a exata posição da gente no palco era você, o coreógrafo principal do espetáculo!


--Olha aqui, Isa, chega dessa conversa! Não perco mais meu tempo batendo boca contigo! Isso é muita pobreza!

 

--Fique ciente de uma coisa: se ouvir um sussurro sequer sobre essa história novamente, se eu souber que insiste em falar essas mentiras eu te processo por  crime de calúnia! Meu advogado já tem tudo pronto pra isso e eu tenho testemunhas! -- lançou-lhe um olhar de desprezo -- Minha mulher anda doida pra pegar você! -- sorriu -- E você não tem preparo pra ela! -- deu as costas e foi embora

 

Neyan ficou olhando para a ruiva com ódio nos olhos. -- Cachorra!


***

Ana andava contrariada. Como não lia coisa alguma além das colunas sociais e fofocas sobre artistas não sabia da verdade sobre mãe Nagôia.

 

“Essas mães de santo boas são muito temperamentais... Mãe Dadá se aposentou de uma hora pra outra e mãe Nagôia se mudou e nem pra me dar o endereço novo!” -- pensava chateada -- "E o trabalho dela estava indo tão bem... Isabela vai participar de um mega espetáculo, Seyyed se recuperou da operação, apareceu um carro caro pra ela restaurar, Anselmo largou a amante... Depois que virei filha de Oionha a maré de azar foi toda embora. Mas e daqui pra frente? Como fazer pra manter essa fase de sucesso?” -- tentava encontrar uma solução

 

Ana, assim como muitas outras pessoas, habituou-se a confiar em feitiços para resolver o que considerava como problemas. Ela não ponderava sobre a legitimidade de seus objetivos e nem pensava em buscar conquistar as coisas à custa de esforço digno ou mesmo de orações sinceras. Acostumada a se preocupar apenas com coisas que passam, não pensava no ridículo a que se expunha em tantas ocasiões.

 

Em seu íntimo, acreditava que seria boa mãe se usasse de subterfúgios para abrir os caminhos da filha. Tampouco entendia que Isabela deveria batalhar pelo que desejava conquistar. Quanto ao marido, insistia em um casamento falido apenas por vergonha de se mostrar incapaz de manter um homem do seu lado. Não entendia que se desvalorizava e feria a própria auto estima em permanecer com um companheiro infiel e desinteressado.

 

--É aqui! -- disse para si enquanto conferia o endereço

 

Bateu na porta mas ninguém atendeu. Forçou a maçaneta e viu que estava aberta. Entrou e seguiu caminhando por um corredor estreito, cujas paredes eram pintadas de vermelho e ornamentadas com pequenos altares, onde repousavam estátuas assustadoras e velas apagadas.

 

--Cruzes! -- benzeu-se

 

Ao final do corredor deparou-se com uma sala vazia, igualmente pintada em vermelho, onde se viam duas cadeiras de palha, uma de frente para a outra, e uma pequena mesa entre elas. Duas enormes e apavorantes estátuas, de uma mulher e de um homem, ladeavam uma das cadeiras e um altar cheio de velas ocupava um espaço considerável no canto direito daquele cômodo.

 

--Mas não tem ninguém... -- Ana constatava com preocupação -- Lugarzinho esquisito, esse...

 

--Esta casa nunca está vazia! -- uma voz de mulher afirmou resoluta

 

Ana deu um salto e virou-se para ver quem lhe falava. -- Meu Deus, que susto! -- sentia o coração acelerado -- Quer me matar?

 

--Por que não se senta? -- indicou uma cadeira enquanto foi se sentar naquela que era ladeada pelas estátuas

 

Ana pensou um pouco e acabou se sentando no lugar indicado. Olhava atentamente para a mulher diante de si, a qual regulava uns sessenta anos, era magra, baixa e morena com longos cabelos pretos matizados por fios brancos. Sua expressão era séria e um tanto assustadora. Não tinha os modos exagerados de suas outras duas mães de santo e nem se vestia da mesma forma que elas.

 

--Eu... – ajeitou-se na cadeira -- Soube da senhora através da minha empregada. -- pausou -- Quer dizer, ex empregada porque ela ficou muito mal e teve que se afastar do trabalho. -- pausou -- Como posso chamá-la?

 

--Àjé. -- pausou -- E o que deseja... Ana?

 

“Nossa, essa aí é tão boa que sabe até meu nome sem eu dizer!”-- pensou impressionada -- Ah, um monte de coisas! -- respondeu contando nos dedos -- Quero que o maldito coreógrafo que persegue minha filha vá pro quinto dos infernos, quero que a tal da Camille também saia do caminho dela, quero que os negócios de Seyyed prosperem, quero que Anselmo fique broxa, quero riqueza, luxo, glamour e por aí vai...

 

--Hum... -- balançou a cabeça

 

--Será que a senhora poderia me ajudar? -- sorriu -- Olha, fique sabendo que já tenho experiência na coisa! Sou filha de Oionha! -- afirmou orgulhosa


--Será que você tem idéia do lugar onde está? -- a mulher perguntou com olhar enigmático

 

--Claro que tenho, eu, hein? -- sentiu-se ofendida -- Estou diante de uma mãe de santo não convencional em seu logradouro de trabalho. -- calou-se para olhar novamente para a sala -- O ambiente aqui é um tanto sombrio, eu não gostei muito da decoração, mas já percebi que seu estilo é meio heavy... Eu prefiro uma coisa mais vintage, sabe? Um toque retrô?

 

A mulher riu e olhou fixamente para o rosto de Ana. -- Eu trabalho com magia negra, meu bem. Isso aqui não é Umbanda é magia negra! Posso resolver seus problemas, mas o preço a pagar será bem alto. Está realmente disposta a isso?


--Se puder pagar à prestação...

 

Ela riu de novo. -- Acho que ainda não entendeu de todo. Não me refiro a seu dinheiro, mas a sua alma!

 

--Ave Maria! -- benzeu-se apavorada com os olhos arregalados


--Não sou mulher de brincadeiras! -- deu um soco na mesa -- Posso fazer de sua filha uma estrela, posso fazer o tal coreógrafo morrer, posso afastar a tal Camille para bem longe, posso tornar os negócios de sua família muito prósperos, posso fazer seu marido pegar nojo das mulheres mas pedirei sua alma em troca! -- sua voz havia mudado de tom, assim como a expressão de seu rosto, que havia se tornado ainda mais assustadora


--E quer fazer o que com a minha alma? -- perguntou apavorada


--Eu nada farei, mas eles... -- mostrou as duas estátuas -- eles desejarão sua fidelidade incondicional! Deverá servi-los para todos os propósitos que desejarem!


--Mas eu nem conheço esse pessoal aí, então... fica um troço meio chato, sabe como é? -- respondeu com voz trêmula

 

--Será apresentada a eles em seu batismo de sangue!


"Nossa Senhora, essa mulher é o Bicho Ruim em pessoa! Tenho que fugir daqui!” -- pensou desesperada

 

--Você quer poder, Ana! Você quer riqueza, glória, sucesso! Pode ter tudo isso... -- lançou-lhe um olhar maldoso

 

--Olha, eu me lembrei que tenho um compromisso urgentíssimo! -- levantou-se quase de um pulo -- Depois eu passo aqui pra conversar melhor com a senhora e... -- olhou para as estátuas -- fala pra eles dois não me levarem a mal, mas é que... -- estava tremendo -- Eu tenho que ir! – correu

 

Àjé respirou fundo e cruzou as pernas. -- Mulherzinha louca! -- riu -- Como tantas pessoas que me procuram, não é movida por nada mais que a ânsia de conquistar coisas com facilidade. “A ambição universal dos Homens é viver colhendo o que nunca plantaram.”18

 

--Minha Nossa Senhora da Penha, Deus me defenda! -- Ana benzia-se andando rapidamente pelas ruas da cidade -- Eu queria uma macumbinha light pra resolver a vida mas esse negócio de magia negra, tô fora, cruzes! Mulherzinha maligna! -- benzeu-se novamente

 

***

Lady estava deitada na cama, abraçada ao rádio e cantando. Estava triste por seu desempenho acadêmico e, principalmente, por ainda não ter conseguido se casar.

 

--Choooora coração, iêiêiêiêiêô, choooora coração, passarinho na gaiola, feito gente na prisão, ai, ai, ai, ai, ai!!!!

 

--Olha aqui, Lady, que trilegal! -- Lila entrava em seu quarto -- Eu fiquei tão preocupada contigo que decidi abrir mão de meu amuleto pessoal em favor de ti! -- mostrou uma pedra branca e semi transparente, muito bonita -- Repara que dentro dela pode-se ver as diferentes direções de cristalização!

 

Lady diminuiu o volume do rádio e se sentou na cama olhando para a pedra. -- Que pedra bonita!

 

--É uma opala africana que foi levada pra Índia pelas mãos do próprio Dalai Lama! -- sentou-se ao lado dela

 

--Gente, que coisa viajada!

 

--Coisa poderosa, tu queres dizer! -- sorriu -- Esta pedra esteve comigo durante toda a minha peregrinação, filtrando as energias negativas, amplificando as positivas e resolvendo todos os meus problemas.

 

--Mas eu quero casar, Lila! Você não é casada, então essa pedra não me serve! -- olhou bem para ela -- Aliás, aquela pedra do amor e as outras coisas que você me vendeu não serviram de nada! Só pra me arrumar homem casado! -- fez cara feia

 

--Foi porque tu não especificaste, guria! A pedra não entendeu que era pro homem se casar contigo, mas pra já chegar casado! Tu tens que meditar direito e te concentrar mais! -- segurou a mão dela e entregou-lhe a pedra -- Essa pedra te dará o que tu quiseres. Não sou casada porque não quis, mas o que eu queria ela me deu!


--Pôxa... -- respondeu comovida -- nem sei como te agradecer... -- sorriu


--Dois mil reais! -- abriu a mão esperando pagamento

 

--Ah, não, Lila! -- devolveu a pedra -- Nem te pedi nada e você ainda quer me cobrar? -- respondeu chateada -- Eu tô aqui sofrendo, abandonada e você só pensa em dinheiro, que coisa!

 

--Eu aceitaria aquele teu anel de noivado como pagamento...


--Ah, não, Lila! Ainda não tô preparada pra me desfazer daquele anel! -- deitou-se novamente -- Agora me deixe que preciso ficar sozinha com minha dor. -- ligou o rádio

 

--Lady, me escuta... – pediu

 

-- Até parece que o amor morreu, que o amor morreu, até parece que não soube amar, ahahahahahah, você reclama do meu apogeeeeu, do meu apogeu, e todo o céu vai desabar, aiaiai, aiaiai, ai, desabou, me iludiu!!! -- cantava a plenos pulmões


Lila percebeu que o diálogo havia se encerrado ali e se levantou com a pedra nas mãos, saindo do quarto da outra de cara amarrada.

***

Suzana estava deitada na cama reparando em cada movimento de Juliana. A japonesa usava uma camisola branca.

 

--Vem aqui, Ju? -- chamou com carinho -- Eu tô pensando em fazer um monte de coisas e queria conversar com você! – sorriu

 

--Hum, então vamos conversar! -- sorriu e foi até a cama indo se deitar sobre ela -- O que é, hein, meu amor? -- beijou-a

 

--A gente podia comprar uns móveis novos e fazer uma reforma na cozinha, que acha? Dar um trato nos banheiros, pintar o apartamento... -- olhou para ela


A enfermeira sorriu empolgada. -- Nossa, mas eu nunca fiz isso porque não tenho dinheiro! E também não queria pedir ajuda pra dona Lourdes porque o dinheiro dela é só dela. E a coitada gasta muito com a saúde. -- beijou-a -- Mas eu quero sim! Fico tão feliz de ver você se interessando pelas coisas da gente! -- beijou-a de novo


--Eu queria abrir uma conta conjunta pra nós, assim, pros gastos em comum, sabe? Aí você pode movimentar o dinheiro, ter liberdade... Eu pedi um cartão de crédito adicional pra você e deve chegar daqui a uns dias.

 

--Não precisa fazer isso, amor, eu não quero dinheiro!


--Eu quero dar uma vida boa pra você, por que não? Tenho um bom salário, Ju! Além do mais fui sozinha por muitos anos, não tirava férias, sempre gastei pouco... Tenho um bom dinheiro no banco.

 

--Deve ter mesmo, você comprou esse apartamento praticamente à vista.


--Aceita, vai? -- pediu -- Você é minha mulher...

 

A japonesa ficou toda prosa. -- Hum, que lindinha... -- beijou-a -- Tá bom, eu aceito...

 

--Eu vou comprar uma moto nova e pedir pra Seyyed montar um sidecar. Também vou comprar uma sissi-bar pra te dar conforto. Aí posso passear de moto com você e dona Lourdes sem problema algum! – sorriu

 

--Que são essas coisas? Sidecar e sissi-bar?

 

--Sidecar é aquele carrinho lateral que a gente acopla na moto e aí qualquer pessoa pode viajar bem e sissi-bar é um encosto. Coloco um pro carona e aí você viaja segura e sem dor nas costas. Vou comprar um capacete pra cada uma! -- falava empolgada -- Aí a gente pode ir juntas em eventos do motoclube!

 

--Ai, mas o meu nenenzinho tá cheio de idéias... -- beijou-a -- Uma coisa de cada vez, viu, meu amor? -- beijou-a novamente -- "Ela está realmente comprometida comigo!! Agora está!!” -- pensou com muita alegria

 

--E eu tô mesmo cheia de idéias. -- mudou de posição bruscamente, deitando-se sobre ela -- Cheia de idéias... -- começou a beijá-la com desejo


--Você... precisa... de... repouso! -- afirmou entre beijos

 

--Não tô cansada! -- mordia a orelha dela -- Eu sei muito bem do que preciso e não é de repouso e nem descanso! -- mordeu seu queixo -- Eu quero você! -- puxou-a para um beijo apaixonado

 

Juliana quase deixou rolar mas interrompeu o beijo desvencilhando-se da outra. -- Suzana Mello, comporte-se! -- ajeitou a camisola -- A senhora ouviu muito bem o que o médico falou ontem! Repouso! -- fez uma cara bem séria

 

--Mas, amor, a gente casou e nem teve nem uma lua de mel! -- reclamou

 

--Ah, mas a senhora saiu por aí fazendo estripulia e não tomou os remédios, não fez os exames... Você ouviu a bronca que o médico te deu!

 

--Ele jamais entenderia! Eu não precisava de remédios e nem de exames quando estava em Roraima. Meus xapiripës me protegiam!

 

--E antes de chegar nas suas terras, hein? E depois de sair de lá? O que você fez é inaceitável! -- fez cara feia -- Podia ter morrido!

 

--Mas eu não morri! Tô aqui e bem viva! -- puxou-a e ficou deitada por sobre ela novamente -- E te querendo toda. -- beijou-a

 

--Pára... com... isso... -- pediu entre beijos -- Ai, delegada safada... – gem*u

 

--Eu quero você... -- sussurrou no ouvido dela enquanto as mãos cuidavam de despi-la


--Pára, Suzana! -- recobrou as forças e desvencilhou-se da morena sentando-se na cama -- Você é terrível! -- puxou as cobertas para se proteger da outra -- "Ai, que me deu até uma câimbra na passarinha...” – pensou

 

--Ah, meu amor, não me deixa nessa secura, vai? -- sentou-se também -- Isso é demais comigo! -- pegou o pé da enfermeira e começou a beijar, subindo por sua perna


--Hum... ai, Suzana... -- reconsiderou -- então... só se for... uma vez!


Ela balançou a cabeça e continuou beijando até chegar no sex* da amante. Suas mãos se meteram por baixo da camisola buscando os seios da japonesa.


--Ai, mas você é um animal... Ai, ai... – gemia


--Vamos tirar essa camisola... -- despiu a enfermeira e impôs seu peso sobre ela para fazê-la se deitar

 

--Tira essa blusa... -- puxou a blusa da morena e arremessou-a no chão -- e essa calça... -- empurrou o moletom para baixo com os pés

 

--Vem! -- começou a estimular a amante com os dedos


--Ai, minha índia canibal... -- mordeu a orelha dela


Sem que esperasse, a morena mergulhou entre suas pernas devorando seu sex*, enquanto uma das mãos estimulava um seio. -- Ah, ah, ah, ah!!! -- gemia

 

Quando a enfermeira estava à beira do clímax, Suzana interrompeu o que fazia e seguiu beijando seu corpo até se deleitar-se com um seio. Deslizou a mão para entre as pernas da japonesa.

 

--Meu Deus, Suzana, você me mata!! Ai, ai, ah!!! -- sentiu o corpo estremecer em um orgasmo violento

 

--Adoro te dar prazer... -- sussurrou no ouvido dela


--Sem vergonha! -- mordeu o queixo dela -- Agora sua enfermeira vai cuidar de você, meu nenenzinho! -- beijou-a -- Você quer que a sua enfermeira cuide de você, hum? -- mordeu o lábio inferior da outra

 

--Quero... – sorriu

 

--Então, eu vou cuidar... -- empurrou-a para que se deitasse de barriga para cima -- Minha índia guerreira... -- beijou-a


Suzana segurou a japonesa pelos cabelos como se fizesse um rabo de cavalo. -- Adoro esse teu cabelo bonito... Adoro tudo em você... -- beijou-a


--Eu vou te deixar louca... -- beijava e arranhava o corpo da amada, fazendo-a sentir um misto de cócegas e dor

 

--Você é demais... ah... -- continuava segurando os cabelos dela


Juliana se posicionou entre as pernas da delegada e começou a brincar provocando-a com a língua e os dedos.

 

--Ai, Ju... -- agarrou-se nos lençóis -- isso é pra me matar, ah, ah... -- a voz era embargada pelo prazer

 

--Você quer que a sua enfermeira deixe você bem louca? -- mordeu e arranhou a coxa dela

 

A morena não conseguia responder.

 

--Hum... -- voltou a provocá-la alternadamente

 

Suzana explodiu de prazer aos cuidados de sua mulher.


***

Seyyed havia acabado de almoçar e desceu as escadas. Reparou que Camille já estava na sala. A jovem lia algo atentamente olhando para a tela do computador. Ed não imaginava que naquele momento ela aproveitava os últimos minutos do horário de almoço debatendo sobre o homossexualismo em um fórum virtual.

 

--E afinal, qual a explicação que vocês acham mais lógica? Esta que expus é a versão da minha psiquiatra. -- ela escreveu


--“A condição homossexual é uma característica como outra qualquer, estabelecida como forma de experiência e aprendizado. Por exemplo, como mulher, vivencio diversas histórias que, geralmente, não as teria como homem, e vice versa. Da mesma forma, tendo uma encarnação gay também terei lições e aprendizados diferentes. Resumindo, a condição da minha sexualidade faz parte do meu plano reencarnatório, sendo portanto algo perfeitamente natural e resultado do que necessito aprender na existência na qual terei a condição homossexual. O que pode ser desarmonizado é como se vivencia a sexualidade, e isso tanto pode se dar nas relações hetero quanto homossexuais.”19 -- uma participante escreveu

 

--Eu acho que é algum problema hormonal ou genético. -- uma garota se manifestou


--Não é doença, isso já está comprovado pela medicina! -- Camille argumentou


--Deve ser fruto de algum trauma de infância, do tipo mãe ou pai muito repressor, abuso sexual, por aí. Tudo que é homossexual é complexado e conflituoso. -- um homem argumentou

 

--Até parece que os heterossexuais não têm problemas!! -- outro retrucou


--Eu acho que é falta de surra, isso sim! Dá porr*da e bota pra trabalhar pra ver se não cura! -- alguém postou

 

--Sempre tem um estraga raça, viu? Ô louco! -- resmungou em voz alta


--Estraga raça de que? -- a morena perguntou se aproximando


Camille se desesperou e fechou bruscamente a página da internet. -- Você agora só vive pra me dar susto, que coisa! -- reclamou com as bochechas coradas


--Calma, mulher, você está em seu horário de almoço. Pode fazer o que quiser na internet desde que não pegue vírus e nem nos comprometa com o que não deve. – sorriu


--Eu estava em um fórum virtual, nada de mais... -- não olhava para a morena -- “Será que ela chegou a ler alguma coisa?” -- pensou desconfiada


--Tenho notado você tão estranha... -- sentou-se em frente a ela -- O que foi, está passando por momentos difíceis? -- perguntou delicadamente


--Os quatro cavaleiros do Apocalipse estão instalados na minha casa!! -- respondeu enfaticamente -- Vivo uma mistura de sete pragas do Egito com o dilúvio de Noé!


--Nossa, mas o que está havendo lá? – riu


--Ligia, o marido e seus filhos possuídos chegaram sem avisar!! Mas isso é o esperado porque desgraça não dá aviso prédio, ela simplesmente se estabelece! -- pausou -- Acredita que eles decretaram que ficarão aqui por um mês??


--Ué? Mas eles não trabalham? E os filhos, não estudam? Não é época de férias escolares! -- perguntou com espanto


--Ligia e Mateus estão de férias e decretaram por eles mesmos as férias dos filhos. Já sabem que o futuro dos dois é a contravenção e por isso não se incomodam com o estudo deles.

 

--Eu hein! Esse povo não dá o menor valor ao estudo dos filhos, aí quando eles crescem e viram vagabundos os pais reclamam!


--Vagabundos?! Quisera! Caroline e Michael serão psicopatas consagrados! Nunca se viu coisa assim na história desse país! Espere como daqui a alguns anos os dois estarão arrancando fiapo de carne dos dentes com canivete!


A mecânica riu. -- E por que vocês deixam eles ficarem? -- perguntou curiosa


--Vocês, uma ova, isso é coisa de minha mãe! Ela acha que fica chato recusar porque eles são parentes e blábláblá! -- pausou -- Ed, me manda pra Goiânia, vai? Não tem nada pra eu fazer lá, não? Eu aceito fazer até faxina na casa do Renan, se ele precisar, mas preciso fugir desse tormento. Eu tô a ponto de cometer assassinatos! -- pediu desesperada

 

--Ah, mas eu não te quero longe! Preciso de você aqui, do meu lado! -- olhou para ela


Verdes e azuis se prenderam.


“Ela fala umas coisas que o coraçãozinho endoida...” – pensou


--Mas até que... pensando bem eu tinha que ir resolver umas coisas em São Paulo. Quer ir no meu lugar? -- ofereceu -- É por pouco tempo, três dias no máximo!


--Qualquer coisa pra mim já é lucro!


--Então, tá fechado! Terça que vem a senhora estará em Sampa, se Deus quiser. -- levantou-se -- Aí aproveita pra matar a saudade de sua terra! -- piscou para ela e saiu da sala

 

Camille sorriu satisfeita. “Ai, Ed, nem meu amor por você me dá forças pra aturar aquela gente na minha casa! Vou sentir saudades dos seus olhos azuis, mas... É isso ou a desgraça total!” – pensou


***

Seyyed chegou em casa e encontrou tudo às escuras.


--Ué? Hoje é o último dia de aula e ela ainda não chegou? -- disse para si mesma


Tirou os sapatos e foi direto para o banheiro. Após o banho vestiu um short e uma blusinha de alças. Ouviu sons vindos do quarto e pensou sorridente: “Agora sim!”


Saiu ansiosa para ver a esposa e surpreendeu-se com a ruiva vestida com um corpete e uma calcinha de couro preto e botas de salto altíssimo. Usava uma máscara preta que lhe cobria apenas parte do rosto. Nas mãos segurava um pequeno chicote.


--Você quer me matar essa noite, não é? -- olhou-a de cima a baixo com desejo


--Eu sou a inspetora. -- caminhava sensualmente até ela -- Vim até aqui porque me disseram que você anda se comportando muito mal! -- parou a uma certa distância


--Terrivelmente mal... -- respondeu quase babando


--Isso não é nada bom... -- andou ao redor dela -- Sabia que eu castigo severamente aquelas que não sabem se comportar? -- parou bem próxima a morena


--Eu tô precisando muito de um castigo! -- lutava para não agarrá-la naquele momento. Sabia que a ruiva gostava daqueles jogos


--Ah, é? -- segurou-a pela blusa e a empurrou na cama -- Então você vai ter aquilo que merece!

 

--O que eu mereço... -- sentou-se e ficou olhando para ela totalmente excitada


Isa continuava de pé. Deu três chicotadas nela e ordenou: --Tire a blusa!


A morena sorriu. O chicote era tão leve que parecia um carinho ao tocar na pele. Tirou a blusa e jogou-a no chão.


Deu mais chicotadas e falou: -- Tire esse short! Quero que fique nua!


--Você manda! -- respondeu sorrindo


--Você? Você? -- fingiu-se escandalizada e segurou o rosto da morena -- Senhora, entendeu?

 

--A senhora manda! -- corrigiu-se


--Tire a roupa, como lhe ordenei!


--Agora! – obedeceu


Afastou-se da cama e foi até a parede. -- Vem aqui!


Ed se levantou e foi.


--Encosta aí! De costas pra mim! -- empurrou-a -- Ponha as duas mãos espalmadas contra a parede! -- a mecânica obedeceu


Isa colou o corpo no dela e começou a arranhar um de seus braços desde a mão até o ombro enquanto perguntava no seu ouvido: -- Você tem sido uma menina muito má, não tem?


--Bastante! -- estava muito excitada


--Eu vou te dar uma lição! -- mordeu a orelha dela


A ruiva bateu em suas costas com o chicotinho e novamente colou seu corpo no dela.

 

-- Você não vale nada, sua mecânica sem vergonha! -- sussurrou no ouvido nela e começou a morder, beijar e arranhar suas costas enquanto uma das mãos a estimulava


--Ah... -- Ed gem*u


A bailarina seguiu percorrendo o corpo da morena até que se ajoelhou e começou morder as nádegas e coxas dela. Deixou as mãos seguirem arranhando suas pernas. -- Vire-se de frente! -- ordenou


--Isa, eu não tô mais agüentando! -- disse tomada pelo desejo


--Você falou alguma coisa? -- pegou o chicote de volta e levantou-se rapidamente -- Vai ser punida por seu abuso! -- deu chicotadas em seus braços


Ed não resistiu mais e puxou-a pela cintura beijando-a com volúpia. Virou-se e imprensou-a contra a parede. Suas mãos tateavam o corpo da ruiva, descobrindo que as roupas dela eram presas por velcro. Com facilidade deixou-a totalmente nua, a menos das botas. -- Você me deixa louca, Isa, louca! -- sussurrou no ouvido dela


--Vem! -- beijaram-se


A morena segurou-a pelas coxas e Isa envolveu suas pernas na cintura dela.

 

Penetrava a ruiva com os dedos e pressionava seu corpo com força contra a parede.

 

--Ai, eu adoro quando você vem assim! Ai, ai, ai, amor... -- gemia puxando os cabelos dela com uma das mãos e arranhando as costas com outra


Durante seu jogo, a bailarina quase havia levado sua amante ao orgasmo. As duas acabaram goz*ndo juntas.

 

 

13:30h. 01 de dezembro de 2003, Hospital Silva Avelar, Centro , Rio de Janeiro

Juliana conversava com um idoso humilde que aguardava ser operado. -- Como lhe prometi, seu Jeremias, tanto que infernizei a vida do chefe da ortopedia que ele pôs seu nome na agendinha. Sua operação está marcada pra depois de amanhã! – sorriu


--Ah, enfermeira... -- segurou as mãos dela emocionado -- você é uma menina valiosa, Deus lhe abençoe, viu, filha?


--Eu ajudo a quem merece! -- beijou as mãos dele -- Agora reza pra dar tudo certo!


--Ah, mas eu vou orar, sim! Sou cristão fervoroso, confio no Altíssimo!


--E depois da operação, quando der tudo certo e o senhor receber alta, respeite seu repouso! Nada de sair por aí fazendo pintura! – advertiu


--Mas enfermeira, eu preciso! Só o dinheiro da aposentaria não dá e a família é grande! Minha esposa era diarista, coitada, mas ela faleceu no ano passado. Agora é só o meu dinheiro e olhe lá!

 

--Mas o senhor não me disse que seus quatro filhos são adultos? Já são independentes!


--Eles são adultos sim... -- respondeu constrangido -- mas sou eu quem sustenta a casa...


--O que?? -- perguntou abismada colocando as mãos na cintura -- O senhor tem sessenta e cinco anos, já se aposentou, mas trabalha como pintor até hoje pra sustentar esses quatro marmanjos??


--Não só eles, mas também as noras, os genros e netos. É muita gente, não dá pra ficar só na minha aposentadoria... Afinal de contas, tenho oito netos e aí já viu...


--Seu Jeremias, que é isso?? E por que essa gente não trabalha?? -- não conseguia aceitar aquela situação


--Coitados, minha filha, é que a vida tá difícil... Eles tão batalhando pra conseguir aquele auxílio do Governo, o Bolsa Partilha.


--Mas, gente! O Bolsa Partilha não é cabide pra sustentar quem faz corpo mole, não! Por que esse povo não trabalha? Eu não entendo!


Nesse momento, os quatro filhos dele chegam para visitá-lo. Um dos netos veio junto com a mãe.


--Boa tarde! -- eles cumprimentaram Juliana. A enfermeira respondeu e se afastou para assistir os outros pacientes daquela enfermaria. Ainda assim prestava atenção ao que conversavam; havia ficado revoltada com a família daquele idoso.


Ela olhou atentamente para aquele pessoal e constatou que eram duas mulheres e dois homens de aparência pobre porém saudável, regulando entre os 30 e 40anos.


“É por isso que os planos assistenciais do Governo ficam desacreditados e a classe média critica!” -- pensou -- "Tem muita gente trabalhadeira que precisa de um auxílio, e esses auxílios são uma redistribuição de renda que equilibram a economia e movimentam o mercado interno, mas infelizmente existem esses aproveitadores! Essa patota bem que poderia fazer alguma coisa útil ao invés de querer dinheiro de Governo e deitar nas costas do pobre pai!” -- estava indignada

 

--Papai, depois que o senhor operar volta quando, hein? -- um filho perguntou impaciente -- Cortaram a TV à cabo! Agora só se vê TV Mundo lá em casa! – reclamou


--Não sei, filho. O médico é que vai dizer. -- ele respondeu


“Agora veja só! O sem vergonha tá mais preocupado com TV à cabo do que com a saúde do pai! Tinha que enfiar um cabo é no fiofó de um canalha desses! ” -- pensava fazendo cara feia


--Pôxa, pai, tá faltando tudo lá em casa! -- outro falou -- Já não agüento mais comer sem uma mistura! E eu queria ir no Maraca ver o Fla-Flu e nem vou poder; não tem dinheiro!

 

“Mas que sujeitinho cara de pau! Vai trabalhar, vagabundo!” -- Juliana desacreditava do que ouvia


--Pai, eu nunca mais alisei o cabelo! Olha pras unhas! Daqui a pouco o marido me larga! -- uma filha reclamou


“Mas só me faltava essa!” -- A japonesa sentia sua fúria aumentar progressivamente

 

--Papai, Juninho quer lhe pedir uma coisa! -- a segunda filha segurava o menino pelos ombros -- Fala pro vovô, Juninho!


--Vô, eu quero um tênis da Nike de presente de natal! -- o garoto pediu


“Mas até o menino já entrou na escolinha da sacanagem??” -- a enfermeira sentia o sangue lhe ferver


--Calma, meus filhos! Quando eu ganhar alta vou ter que ficar de repouso por uns tempos. Não vou poder ficar pegando serviço de pintura, não! -- respondeu constrangido


--Isso é muita sacanagem! Pra que o senhor não prestou atenção no que fazia, hein, pai? Quem mandou cair do andaime? Que coisa! -- um filho reclamou de novo


“Juliana, não se meta nisso, você não tem nada com isso, fique calada, fique calada!!” -- a enfermeira tentava se controlar


--Ah, mas foi um tombinho à toa! O senhor tá é fazendo drama! -- uma filha falou de cara feia


“Calma, Juliana, não pense em enforcar todos eles, não pense em meter a mão na cara deles, não pense em puxar os cabelos deles, não pense em furar os olhos deles, não pense, não pense!!” -- sentia-se chegando ao limite de sua paciência


Os outros pacientes da enfermaria prestavam atenção naquela conversa e estavam igualmente horrorizados.


--Meus filhos, pelo amor de Deus, olha o respeito pelo pai de vocês! -- o idoso pedia -- Vocês foram educados na fé cristã!


--É por isso que eu digo, viu? Velho só serve pra aborrecer! -- um dos filhos disse -- Se papai não puder mais trabalhar vamos botar ele num asilo! Velho tem mais é que se...


--Êpa!!!!!!! Olha lá o que fala, seu ch*pim de idoso!! -- a japonesa não conseguiu se conter -- Vocês não têm vergonha nessas caras, não, é? -- pôs as mãos na cintura -- Tudo um bando de bicho gordo e bem nutrido que podia muito bem trabalhar mas só sabe ficar aí sugando o dinheiro do pai! Gente horrorosa!


--Não se mete nisso, não, minha filha! -- a mãe do menino respondeu desaforada -- Isso é problema de família!


--Isso é problema de saúde pública, isso sim! Um bando de preguiçosos que não move uma palha e vem pra cá pra reclamar das coisas! Quer TV à cabo, meu filho, quer? Pega o cabo e enfia no rabinho pra ver se funciona! Quer cuidar da beleza, filha? Vai trabalhar pra ganhar dinheiro! Ou então desiste, que teu caso não tem solução! Quer ver Fla-Flu? Quer comer mistura? Vai trabalhar, vagabundo! Parece até um boi castrado, eu hein? -- olhava para cada um dos quatro -- E você? -- olhou para o menino -- Tão novo já virou vampirinho também, é? Toma vergonha, garoto! -- olhou para o idoso -- Me perdoe, seu Jeremias, mas que filhos que o senhor tem, hein? Vou te contar! É uma família triste, viu?


--Eu vou dar queixa de você! -- um dos filhos falou aos berros -- Não pode se meter nisso e nem falar com a gente desse jeito! Onde já viu isso?


--Eu é que vou dar queixa de todos vocês à polícia! Extorsão e exploração de idoso! Sabia que dá cadeia?


--Mas o que está acontecendo aqui? -- o chefe da ortopedia passava pelo corredor e ouviu a confusão


--Essa enfermeira, doutor! -- a mulher respondeu abraçada com o filho -- Destratando a gente! -- fez cara de choro -- Somos uma família cristã e ela nos ofende com palavras agressivas!

 

--Família cristã?! -- perguntou revoltada -- Família satã, isso sim! Seu pai é cristão, a gente nota, mas, vocês? Vocês quatro e esse aprendiz de sangue suga aí não passam de um bando de exploradores de idoso! Já pensaram em fazer figuração naquela saga de Crepúsculo? Dizem que precisam de vampiros novos!


--Tá vendo, doutor? Tá ouvindo isso? Ela ofende até o pobre do meu sobrinho, que só tem doze aninhos! -- um dos filhos se fazia de vítima


--Ela tá é certa! -- um dos pacientes falou -- Vocês têm que ser denunciados! Minha mulher é assistente social da Prefeitura e eu vou contar tudo pra ela! – ameaçou


--Eu vou denunciar essa família monstro por exploração de idoso! Tenho uma delegada de polícia poderosa dentro de casa, vocês vão ver! -- falava exaltada


--Juliana, -- o médico se aproximou dela -- será que poderia vir comigo, por favor? -- falava baixo


Juliana saiu da enfermaria com o médico. Os filhos de Jeremias ficaram desconfiados e, em poucos minutos foram embora com medo.


***

--Juliana, você vai acabar se dando muito mal! Já não é a primeira vez que você briga com família de paciente idoso! Será que esqueceu que está sendo processada pela filha daquela cuidadora que você agrediu aqui dentro? -- o médico perguntou de cara feia


--Aquilo já se resolveu. Fizemos um acordo na audiência de conciliação que aconteceu há dias atrás e deu em nada. A filha da Coisa Ruim teve que recuar!


--Seja como for, não pode continuar com esse tipo de comportamento aqui dentro! Entendo que você se importe, que se revolte, mas isso não te dá o direito de sair por aí puxando briga com todo mundo!


--Com todo mundo, não! Com essa gentinha salafrária! -- cruzou os braços -- Acredita que aquela corja toda, e mais os genros e noras e demais netos são sustentados por seu Jeremias? Um idoso aposentado que trabalha pesado como pintor até hoje só pra sustentar aquela gangue de vampiro? Ele quebrou a bacia porque caiu de um andaime de 5 metros de altura!


--E isso é problema seu? Se esse senhor passa por isso foi porque acostumou a família assim! Você não pode se meter e nem interferir! É a vida deles!


Ela respirou fundo e nada respondeu.


--Você devia tentar aprender a se controlar mais. Não pode sair explodindo assim! Reconheço que sua intenção é nobre, sei que você é uma excelente enfermeira, os pacientes te adoram, mas estou lhe advertindo na maior das boas intenções. -- pausou e olhou bem para ela -- Sabia que o diretor do hospital não te engole desde que você fez o que fez com aquele político?


--Fiz e não me arrependo! Nunca mais aquele bicho da família Adams vai vir pra cá fazendo tipo de bom moço! E bem feito que não foi reeleito! Roguei uma praga nele e deu certo!


O médico riu e balançou a cabeça. -- Bem, eu avisei. Fique esperta e controle-se. Você pensa que pode mudar o mundo mas não pode. Pare de lutar contra tudo o que acha errado e viva sua vida! Essas lutas não te levarão a lugar algum, só vão te trazer é aborrecimentos!

 

--"Sonha e serás livre de espírito... luta e serás livre na vida".20 -- respondeu resoluta

 

Ele olhou para a japonesa e pensou. -- Entra pra política! Vai que você é eleita? -- deu um tapinha no braço dela e se retirou


--Mas até tu, Brutus? -- perguntou espantada

 

 

09:00h. 02 de dezembro de 2003, consultório ginecológico, Ilha do Governador, Rio de Janeiro


Suzana aguardava com Maria de Lourdes na sala de espera. A delegada havia marcado uma consulta.


--Dona Lourdes, cá pra nós, não há nada que eu odeie mais do que vir em ginecologista! -- desabafou em voz baixa -- Ficar naquela posição infeliz pra ser cutucada e tomar dedada por uma desconhecida... pra mim é o fim!


--Eu também não gosto, mas é necessário! E tem que fazer o preventivo. -- olhou para Suzana -- Eu tive uma vizinha que nunca ia em ginecologista porque achava uma coisa desagradável. Conclusão: ela teve câncer no colo do útero e quando soube disso já era tarde demais. Sofreu, que foi uma coisa horrível!


--É, eu sei, a gente tem que se cuidar, né? -- coçou a cabeça -- Essa médica daqui é recomendada por Juliana, então eu acredito que deva ser boa.


--Eu tinha uma ginecologista de confiança, mas a danada foi inventar de se aposentar nesse ano! -- fez um bico -- Sorte que me consultou antes.


--Eu também tinha uma e a danada foi me inventar de morrer! -- revirou os olhos -- E não me consultou antes!


--Suzana Mello, a doutora Deusa lhe aguarda! -- a atendente chamou


A delegada deu um beijo na testa da idosa e se levantou -- Daqui a pouco estou de volta! Se precisar de alguma coisa...


--Pode ficar sossegada, Suzaninha. Vai lá!


A morena entrou no consultório da médica, que a aguardava sentada fazendo uma pose ensaiada. A mulher era uma loura de meia idade, cabelos compridos e encaracolados, magra e alta. A sala dela era grande e dividida em duas partes: uma para as consultas e outra para os exames. Nas paredes haviam dezenas de fotos de bebês recém nascidos misturadas com fotografias de Madonna, Britney Spears e Carla Perez.


“Eu, hein!” -- pensou estranhando


--E você deve ser Suzana Mello? -- colocou óculos que mais pareciam a máscara da mulher gato


--Sim.

 

--Ótimo, vamos preencher a sua fichinha. -- deslizou a cadeira e foi para o computador -- Vai falando tudo aí!


--Falando tudo? -- perguntou desconfiada


--É! Nome completo, endereço, idade, estado civil, quantos filhos teve... – digitava


A delegada respondeu às perguntas nessa ordem.


--Ih, mas tu tá bem pra uma quarentona, viu, nêga? Tipo eu, assim, que ninguém diz que tenho cinqüenta e tantos! – sorriu


“Ah, tá! Cheia de plástica...” -- Suzana revirou os olhos


--Beleza, agora me conta! -- olhou para ela e piscou -- E os homens, hein?


--Homens? -- riu -- Eu sou lésbica.


--Ah, meu Pai... -- levou um susto -- E é bom, hein, nêga? -- perguntou curiosa -- Não fica aquele gosmeiro na cama, não?


--Na minha, não! -- respondeu indignada -- “Mas onde é que Juliana tava com a cabeça quando recomendou essa maluca?” -- não entendia


--Gente, eu fico tão curiosa com essas coisas! Mulher com mulher... -- pausou -- Vamos ver como anda essa perereca! -- levantou-se e tirou os óculos -- Vem comigo! -- entrou na segunda parte da sala


“Mas que diabo de médica é essa?” -- a delegada seguiu a mulher


--Vai ficando peladona que tá na hora! -- estalou os dedos


A morena tirou a roupa e vestiu o roupão de TNT que lhe foi entregue. Deitou na cama.

 

Deusa sentou-se em um banquinho para examinar Suzana, bateu palmas e gritou: -- Meninas!

 

“Meninas?” -- pensou desconfiada


Nesse momento as três mulheres da recepção entram na sala usando uma portinha escondida por uma cortina.


--Vamos lá crianças, vamos trabalhar! -- levantou as mãos


--Mas que negócio é esse? – reclamou


--Relaxa, nêga! -- Deusa respondeu enquanto as mulheres vestiam suas mãos com as luvas -- Peitinhos! – falou


Enquanto a médica usava o bico de pato em Suzana, duas atendentes apertavam seus seios.

 

--Que sacanagem é essa? -- perguntou de cara feia


--Aqui é exame holístico e integrado, boba, relaxa! -- Deusa respondeu -- Cadê meu pote?

 

A atendente que estava desocupada pegou um frasco e entregou na mão de Deusa.


--Olha aí e diz o que tu acha? -- perguntou – Diz se não é uma perereca exemplar!


--Ah, doutora. -- se abaixou para olhar -- Tá bonito!


--Mas que diabo é isso????? -- Suzana estava possessa -- "Juliana estava emaconhada quando veio nessa mulher, será possível!!! E ainda me recomenda essa peste!!” -- pensou revoltada


--Meninas!! -- Deusa bateu palmas e as mulheres voltaram para a recepção


A delegada estava em estado de choque.


--Meu amor, pode se levantar. Com você tá tudo bem, viu? Perereca bonitinha, saudável, peitinhos sem caroço... um espetáculo! Coletei material e o resultado do exame sai na semana que vem! -- voltou para a sala de consulta


Suzana levantou-se e vestiu suas roupas. Foi para a sala de consulta e pegou a médica pelo braço. -- Quero ver comprovação de tua medicina agora! -- ordenou furiosa


--Que é isso, nêga?? -- perguntou apavorada


--Delegada Suzana Mello. -- jogou a identificação sobre a mesa -- Ou apresenta documentação ou vai presa!! -- largou o braço dela com raiva


--Delegada?! -- arregalou os olhos -- Olha... -- levantou-se nervosamente -- Eu... -- pegou a bolsa -- Eu tenho meu cartão médico aqui... -- estendeu o documento para a morena ver


--Você não é ginecologista nem aqui e nem em lugar nenhum. -- pegou o documento dela e telefonou -- Brito, entra no sistema de habilitação e pesquisa um CPF aí agora!


--Isso é um acinte! Vou falar com meus advogados! -- ameaçou -- Além do mais tenho outras pacientes me esperando aí fora! – reclamou


--Fica quieta aí! -- falou de cara feia


--Chefe, esse CPF é de Deusa Palhares, uma médica que já faleceu há dois anos.


--Ah... -- olhou para a impostora -- Então quer dizer que minha ginecologista morreu há dois anos? -- a falsa médica congelou -- Brito, tô indo pra aí com a falecida! -- desligou e olhou para a mulher -- Exercer a profissão de médica sem ter formação universitária específica é crime previsto no artigo 282 do Código Penal Brasileiro. Tá presa por falsidade ideológica, exercício ilegal da Medicina e estelionato, viu, nêga? -- pegou-a pelo braço -- Você pode ficar presa por um período de seis meses a dois anos e ainda vai responder na Justiça por crimes de falsidade ideológica e uso de documento falso, que podem te render mais anos de cadeia. -- falou para ela


--Mas, mas... eu posso explicar, delegada... -- respondeu desesperada


--Vai explicar na delegacia, bicha impostora! Vai fazer exame holístico e grupal com tuas futuras colegas de cela! -- saiu com ela da sala, levando-a pelo braço


***

--Juliana, mas você tem o que na cabeça? -- Suzana reclamava de cara feia -- Tua ginecologista era uma tremenda impostora! Levei ela pra delegacia e na verdade a mulher nem profissão tinha!


--Como é??? -- perguntou chocada


--Minha filha, você tinha que ver! -- Maria de Lourdes exclamou -- Foi uma loucura total naquele consultório! As pacientes queriam bater na safada e as atendentes não sabiam o que fazer! Como dizem por aí, foi barata voa total!


--Mas gente... -- a enfermeira ficou boquiaberta


--Aquela maluca da tua ginecologista é uma criminosa que assumiu a identidade de uma médica falecida há dois anos! -- colocou as mãos na cintura -- Eu só quero ver se vai acontecer o de praxe: a Polícia prende e a Justiça solta! -- balançou a cabeça -- E o consultório dela? Cheio de fotos de bebês recém nascidos misturadas com fotografias de Madonna, Britney Spears e Carla Perez.


-- Madonna, Britney Spears e Carla Perez??? -- perguntou chocada -- Eu nunca vi isso lá!

 

--Suzaninha, se fosse comigo e você não estivesse junto, o que eu teria que fazer? -- Maria de Lourdes perguntou preocupada


--No dia que a senhora notar qualquer coisa estranha e anti ética da parte de um profissional desses, tem que denunciar! Entrar em contato com o Conselho Regional de Medicina, fazer boletim de ocorrência em qualquer delegacia ou ligar no disque-denúncia (181) são os caminhos.21  E vou lhe dizer, apesar da punição prevista ser dura, isso não impede que os falsários do jaleco apareçam a cada dia.


--Gente, será que dá pra vocês me explicarem isso melhor?


--Juliana, tua médica é picareta, mulher!! E o nome dela é Dandica Peixoto! -- a delegada exclamou revoltada -- Como pode haver gente salafrária desse jeito?


--Dandica Peixoto?? -- a japonesa se perdia naquela conversa -- Suzana, me responda uma coisa: qual o nome da médica que você procurou? -- cruzou os braços


--O nome que você me deu: doutora Deusa Palhares. Consultório naquele centro médico daqui, sala 2324!


--Mas, criatura!!! -- reclamou -- Eu disse que o nome dela é Neuza Tavares, sala 2342!! -- fez cara feia -- Eu digo que você não presta atenção no que eu falo, e olha a prova aí!


--Neuza...? -- perguntou sem graça -- Ah, mas... -- não sabia o que dizer


--Ih, mas foi uma infeliz coincidência que acabou bem! Graças a esse engano, Suzaninha tirou mais uma sem vergonha das ruas! -- Lourdes tentou defendê-la


--Vai ter que ir na ginecologista de novo porque aquele exame não valeu! Só que vai na certa dessa vez! -- a japonesa afirmou resoluta

 

--Ô, meu Pai, me defenda... -- clamou desanimada


--Isso foi bem feito pra aprender a prestar atenção no que eu falo! – reclamou


--Mas o que você fazia na hora em que ela te falou da médica, hein, Suzaninha? Por que não prestava atenção? -- Lourdes perguntou intrigada


A enfermeira olhou para Suzana. “Quero ver se ela vai ter coragem de dizer que estava me agarrando, doida pra me comer na cozinha na calada da noite.” -- sorriu maliciosa


--Ah, eu... eu... -- coçou a cabeça -- Lembro não... – mentiu


***

Brito estava na delegacia quando seu celular tocou. -- Número desconhecido... -- decidiu atender -- Alô?


--Sou eu, Macumba! -- estava nervoso -- Escuta, vou falar rápido porque essa ligação pode estar sendo interceptada por alguém! Lemos voltava da padaria hoje de manhã quando foi encurralado por dois elementos em uma moto. Os caras já chegaram atirando e ele só se salvou porque pulou no valão. Em compensação quebrou a perna em dois lugares e agora tá no hospital!


--Putz, que merd*! Ontem Coimbra me disse que foi seguido por um carro e que escapou por pouco!


--Eles deram um tempo pra disfarçar mas estão vindo atrás de nós! Querem nos tirar de jogada, como quase fizeram com nossa chefe!!


--Mas eles acabaram tirando ela de jogada, Macumba! E aquela aposentadoria, você acha que foi o que? -- deu um soco na mesa


--A gente tem que se encontrar no lugar de sempre hoje à noite pra conversar sobre isso! Tá dando, não!


--Me espera que estarei lá, na hora de costume. Esses caras só sabem falar na língua de bandido, então é nessa língua que a gente vai falar! -- endireitou a gola da camisa -- De agora em diante o negócio vai ficar pesado! Chega de ser policial bonzinho!

 

 

22:40h. 04 de dezembro de 2003, Theatro Municipal, Centro, Rio de Janeiro

Ana Fluminense e os demais bailarinos acabavam de se apresentar. O teatro estava cheio e as pessoas aplaudiam entusiasmadamente de pé. O Presidente e a Primeira Dama foram até o palco e entregaram à Primeira Bailarina um imenso buquê de rosas, além de terem pousado com ela para várias fotografias. Eles também tiraram fotos com todo elenco reunido.


--Ei, você! -- o Presidente chamou por Isabela


--Eu? -- apontou para si mesma. Não estava acreditando


--Minha esposa gostou de você! Vamos tirar uma foto nós três juntos! -- ele falou sorrindo

 

O coração da ruiva disparou. Ela abriu um lindo sorriso e posicionou-se entre o casal presidencial para tirar uma foto.


--Você tem futuro, filha! -- a Primeira Dama exclamou -- Parece até uma bonequinha!


--Obrigada!!! -- a bailarina lutava para não chorar de emoção


--Ai, meu Deus, Anselmo, me segura que é muita emoção no meu peito de mãe! -- Ana agarrou o braço do marido -- Isabela tirando fotos com o Presidente e a Primeira Dama, meu Deus que emoção!!! “Ai, mãe Nagôia, muito obrigada!! Obrigada, minha mãe Oionha!! Valeu por cada charuto baforado!!” -- pensou agradecida


--É muita emoção, muita emoção... -- Anselmo começou a chorar -- "A princesinha do papai...” – pensou


--Presidente, eu votei no senhor!!! Luiz Horácio presidente, Luiz Horácio presidente!! Vota nele, minha gente, vota nele!!! -- Ana gritava -- Reelege!!!


--Ana, que mentira!! -- o marido repreendeu -- Você sempre foi de direita!!!


--Cala a boca, Anselmo!! Eu mudei de lado! Agora sou de esquerda! -- respondeu resoluta -- É minha filha, aquela ali é minha filha!!! -- gritava alucinada -- Sobe estrela Dalva, sobe!!


Olga ria enquanto aplaudia. -- Ana enlouqueceu! -- disse para Seyyed -- Está a ponto de cair dura no chão! -- olhou na direção da família da ruiva -- Eita, que tá todo mundo doido naquela família! Olha o fuzuê que eles estão fazendo? -- achava graça


--Ah, mãe, mas eu tô emocionada também... -- Ed aplaudia chorando -- Minha ruiva tirando foto com Luiz Horácio e dona Raíza... Não é pra qualquer uma!!! -- encheu o peito de ar -- Uhhuuuu!!!!! – gritou


--Que pena que Camille não veio, não é, Mari? -- Mariano comentou aplaudindo -- Eu fiquei orgulhoso por ela ter se oferecido pra cuidar de Ricardinho, mas acho que se tivesse vindo iria ter gostado. Foi um espetáculo muito bonito!


--Camille não é muito de balé, não é, meu irmão? – aplaudia


--Isso é... -- ele respondeu -- E você, o que achou?


--Eu achei que eu é que estou bem! -- exclamou orgulhosa -- Minha professora de boxe foi finalista no Mundial de Boxe Amador e minha professora de balé tirou foto com o casal mais poderoso do Brasil! -- sorria -- Da próxima vez que encontrar com tia Rosa e ela vier se exibir eu vou esnobar muito!!!


--Uhuu!!! Isa!! Mandou bem!!!! -- Priscila gritava


--Gente, Priscila, você viu, que coisa? -- Lady agarrou a amiga pelo braço -- Isa tirando foto com a Presidência da República!! Ah, quando eu estiver de férias e chegar em casa pra contar que minha melhor amiga é figurinha conhecida em Brasília o pessoal vai pirar!!!

 

--Sua melhor amiga?? -- Priscila olhou chocada para ela -- Que mentira, garota!!


--Ficou com ciúmes? -- perguntou sorrindo -- Você também é das minhas melhores amigas!!

 

--Eu, hein, Lady, sai dessa... -- fez um bico


Seyyed aguardava ansiosamente que Isabela terminasse de responder às perguntas de dois repórteres que vieram entrevistá-la.


--Olha lá, Seyyed! -- Ana veio e agarrou o braço dela -- Olha minha filha mostrando a faceta artística na TV! -- sorriu -- Mostra tudo, minha filha, bota pra fora pra eles verem! – gritou


--Bota não, Isa, bota não!! -- a mecânica falou rindo


--Ah, mas você tinha que ver! Mamãe ficou nervosa de tanto orgulho da neta e minha irmã morreu de inveja! -- Ana comentou olhando para a morena -- Meus sobrinhos nunca tiraram foto nem com o síndico do prédio!


Ed riu de novo.


Isabela terminou a entrevista e veio caminhando na direção delas.


--Vem cá, meu amor, abraça mamãe! -- as duas se abraçaram emocionadas -- Seu pai tá tão emocionado que quase desmaiou! Olha ele lá sentado do lado de sua vó! -- apontou para eles -- Vamos lá pra gente se exibir bastante na frente de sua tia!


--Espera um pouco, mãe. Eu queria falar com a Ed. -- olhou para a morena


--Tudo bem. -- pausou -- Vou deixá-las a sós por uns instantes, mas não deixe de vir falar conosco. E você também, Seyyed! -- olhou para a morena -- Quero que minha irmã ouça umas verdades que vou dizer pra ela saber do seu sucesso empresarial! Os filhos dela só arrumam assalariado e é bom que ela saiba que minha filha não se pega com qualquer marmota! -- saiu para se juntar à família


--E então, minha gata famosa? -- a morena sorria -- Agora que já tira até foto com a Presidência ainda quer alguma coisa com essa marmota aqui?


Ela sorriu. -- Eu amo a minha marmota sem vergonha! -- abraçou-a com força -- Dedico essa vitória a você, meu amor!


--Eu tô muito orgulhosa de você! -- segurou o rosto dela -- E morrendo de vontade de te beijar... -- seu olhar se alternava entre os lábios dela e os olhos -- Quero fazer amor com você a noite toda... -- disse com voz rouca de desejo


--Você me deixa louca quando fala assim... -- sorriu excitada -- E o que teria de mais a gente se beijar nos corredores do teatro, hein?


--E se algum homofóbico aparecer? -- perguntou sorrindo


--Vai morrer de inveja! -- beijou-a com paixão


Uma mulher madura e muito elegante prestava atenção naquela cena. “Então ela é lésbica...” -- pensou sorrindo

 

 

18:00h. 06 de dezembro de 2003, Clube Ginástico Paulistano, Cerqueira César, São Paulo

--Ô, mãe, a gente bem que podia ter feito como tio Mariano, viu? Dava uma desculpa, mandava uma lembrancinha pelo correio e fugia dessa roubada no melhor estilo leão da montanha! -- Camille cochichava com a mãe


--Ficaria muito feio! É nossa família, Camille! Não podemos nos esquecer que eles foram prestigiar o casamento do seu tio. Achei muito mixuruca essa atitude de Mariano em não querer vir. Acredita que ele nem contou pra Olga sobre essa formatura? -- ela cochichou de volta


--No que fez ele muito bem! E além do mais eles não foram prestigiar nada! Foram é fofocar e aproveitar uma boca livre!


--Agora fica quieta que vai começar! -- Mariângela pediu


Reginaldo, marido de Vanda, havia feito um curso técnico de segurança no trabalho e estava se formando. Rosa e Alípio convidaram Mariângela, Camille, Mariano e Olga para o evento, mas o tio da loura não quis saber.


Mãe e filha estavam de pé em um auditório lotado, sendo espremidas por vários outros convidados. Chegaram atrasadas por conta de um engarrafamento e ainda não haviam localizado a família dentre os presentes.


--Olha lá o Reginaldo! -- Camille apontou, mostrando para a mãe


--Onde? -- não conseguia encontrá-lo


--Ali, mãe! O único formando de cabelo branco! -- apontou para o palco onde os formandos estavam sentados -- Não sei como não tem vergonha. Nunca trabalhou e decidiu estudar segurança do trabalho! Vai fazer segurança de que, se não gosta de pegar no batente?


--Cala a boca, menina! -- ralhou -- Você já achou tia Rosa, tio Alípio e Vanda no meio dessa pá de gente?


--Ainda não!


A cerimônia durou por duas horas, deixando a jovem loura impaciente. Ao final, Camille conseguiu localizar os parentes no meio da multidão. -- Olha o pessoal lá, mãe!


--Tô vendo! Vamos lá! -- as duas caminharam na direção deles


O clube estava cheio de gente e as duas tinham dificuldade em se locomover. Camille ficava cada vez mais impaciente. -- Mãe, me leva na corcunda que eu arranco minha perna e vou metendo ela na cabeça dessa gente toda!


--Que leva na corcunda o que, menina, eu, hein? Fica quieta e continua andando!


Depois de muito sacrifício elas chegam onde os parentes estavam.

 

-- Ué? Cadê eles? -- Mariângela perguntou chateada


--Ah, mas que droga, olha eles ali do outro lado! -- Camille apontou -- Mãe, liga pra Vanda e manda ela sossegar o facho em algum lugar pra gente alcançar eles!


--E eu tenho o telefone de Vanda? Tio Alípio e tia Rosa não têm celular!


--E Reginaldo?


--E eu vou pegar telefone de marido dos outros, menina? -- respondeu indignada


--Ô louco, viu? – reclamou


Andaram tudo de volta para alcançar os parentes, porém dessa vez os perderam de vista.


--Eu vou perguntar para o segurança. -- Mariângela disse e foi abordar o homem -- Camille, ele disse que os formandos entraram ali, -- apontou um lugar cheio de gente -- pra tirar foto com a família. Devem estar todos lá!


--Ai, mas que merd*! Lá vamos nós de novo! – reclamou


--Olha a boca, menina! -- deu um tapa no braço dela


--Segura minha mão e vem comigo que tenho uma tática! -- foram andando -- Gente, corre que isso aqui tá cheio de barata! Olha a barata, barata, barata!!! – gritava


Algumas pessoas se assustavam e davam pulinhos abrindo caminho. A costureira não conseguia parar de rir da idéia maluca de sua filha, que estava dando certo.


--Finalmente! -- Camille e a mãe chegaram em um lugar menos cheio. Soltou a mão dela e perguntou: -- Cadê eles, mãe? Não vejo Reginaldo no meio dos outros formandos!

 

--Vamos ficar aqui e esperar um pouco. Eles não têm como sair se não for por esse corredor. Vamos nos encontrar querendo ou não.


Meia hora depois...


--Ô mãe, já foi uma pá de gente embora e nós aqui comendo mosca! – reclamou


--Tá estranho isso, viu? Vamos perguntar a algum formando.


--Ei! -- Camille abordou uma moça -- Desculpa te abordar desse modo mas você sabe do Reginaldo? – perguntou


--Reginaldo, o boa vida? -- ela perguntou


--Com certeza deve ser esse!


--Ih, meu, ele foi embora com a família há o maior tempão! Nem vieram aqui pra foto!


Camille ficou sem palavras.


--Tem certeza, filha? -- a costureira perguntou -- Eles não podem ter ido embora! Tia Rosa sabia que nós viríamos, eles não podem ter sido tão sem consideração assim!


--Olha, senhora, eu não sei quem é tia Rosa mas o Reginaldo foi o primeiro a ir embora sim! -- a moça respondeu e pediu licença a elas para se unir aos amigos


--Mãe, vamos embora daqui agora!! -- pediu revoltada -- Ah, mas quando eu penso que gastei dinheiro de avião, peguei engarrafamento dentro de um táxi, fiquei duas horas em pé, no calor, espremida por uma pá de gente pra depois de tudo isso aqueles miseráveis terem ido embora... Ah, mas que merd*!!! Que merd*!!! -- gritou


--Que merd*!! Que merd*!! -- Mariângela gritava também


***

Mariângela e Camille estavam em um hotel na avenida Paulista.


--Quando eu penso que tô gastando dinheiro de hotel por causa de nossos parentes... -- Camille falava revoltada -- Bem fez o tio de não ter vindo! Bem fez ele! -- vestia a camisola


--É... -- a costureira respondeu -- Tia Rosa e seu pessoal nos deram uma tremenda calça arriada...

 

--Isso é bom pra você aprender a parar com essa bobagem com a família. Mãe, a gente tem que dar valor a quem merece! Sua família sou eu, tio Mariano, dona Olga, Seyyed, Renan, Ricardinho e Flávia! Até a família da Tatiana eu considero mais do que a eles! O resto é o resto! Me diz o que eles fizeram por nós quando papai morreu, hein? O que?? -- sentou-se na cama e tirou a perna


--Tem razão... -- respondeu arrumando a cama


--E você atura Ligia e os abutres lá em casa só por causa disso de família, e eu fico louca!!! Mãe, pelo amor de Deus, Caroline e Michael são a própria mistura de Poltergeist com brinquedo assassino! Nunca vou esquecer de que seqüestraram minha perna! Ô louco, viu?


Mariângela riu. -- Ai, menina... -- balançou a cabeça -- Mas isso me serviu de lição! Quando Ligia e o marido forem pra lá pra casa querendo ficar por muito tempo eu vou botar todo mundo pra correr! -- afirmou resoluta


--Ai, Deus existe! -- exclamou satisfeita -- E se eles forem pra lá querendo pouso pra passar o final do ano vão quebrar a cara! -- riu e se deitou


--Graças a Deus que a gente vai pra região dos lagos de novo! Adorei aquela casa que Flávia arrumou no ano passado! E novamente passaremos um natal com muita gente, eu gosto disso! -- deitou-se também


--E a gente vai passar o réveillon em Goiânia! Ai, que bom! Festinha da hora aquela na casa dos pais da Tatiana!


--Eles são legais, né? -- olhou para a filha -- Eu gostei de comer frango com pequi. Dessa vez vou comprar um vidro de pequi pra trazer. Eu mesma vou inventar umas receitinhas da hora!


Após alguns segundos de silêncio, Camille falou: -- Mãe, vamos aproveitar que estamos aqui e visitar Fátima amanhã cedo? -- propôs receosa. Ela havia pensado bastante antes de considerar essa possibilidade


--Pode ser. -- respondeu preparando-se para dormir


--Eu precisava muito falar com ela...


--Tudo bem. -- fechou os olhos


“Tomara que eu não estrague tudo dessa vez...” -- a loura pensou


***

Fátima estava em seu quarto ouvindo música enquanto arrumava o armário. Eram dez da manhã. Tão distraída que estava nem percebeu a campanhia tocar.


--Quem será? -- Jurema foi atender curiosa. Olhou pela janela e reconheceu Camille e Mariângela do lado de fora -- Meu Deus, que surpresa! -- foi abrir a porta


A nadadora continuava entretida no que fazia. A música não lhe permitiu ouvir os sons que vinham da sala. De repente, ouve uma voz conhecida: -- Bom dia.


--Camille? -- virou o rosto na direção do som -- Meu Deus! -- sentiu o coração acelerar

 

A loura olhou para ela e achou que o corpo da nadadora estava muito mais atlético do que quando a conheceu. Os cabelos estavam curtos e mais lisos.


--Está mais bonita, Fátima. -- disse. Continuava na porta, sem entrar


--Eu não... -- foi até o rádio e abaixou o volume da música -- não ouvi você chegar. Nem ouvi o barulho de suas muletas... Vejo que perdi meus super sentidos... -- sorriu encabulada. Não sabia o que dizer. Estava feliz, nervosa e ao mesmo tempo receosa


--Eu não uso mais muletas. Agora caminho com uma prótese, uma espécie de perna mecânica.

 

--Meu Deus! -- exclamou emocionada -- Que lindo, Camille!!


--Muita coisa mudou, Fátima... Estou formada, trabalho gerenciando as oficinas de Seyyed e não sou mais aquela pessoa de mal com a vida que você conheceu... -- pausou -- Mamãe e eu viemos pra um fiasco de formatura aqui na cidade e decidimos aparecer pra ver vocês. Ela está na sala conversando com sua mãe.


--Eu vou lá falar com ela. -- respondeu sorrindo


--Não me dá um abraço, meu? – pediu


--Pequena... -- foi até ela e a abraçou -- "Quantas saudades...” – pensou


“Ela continua com aquele mesmo cheiro gostoso...” -- a loura pensou


--Veja que surpresa boa, Fátima. -- Jurema e Mariângela vinham de braços dados -- Eu já as convidei para almoçar mas as danadas não querem!


Fátima e Camille interromperam o abraço e a nadadora cumprimentou Mariângela. -- É um prazer tê-las aqui! Por favor, fiquem pro almoço! – pediu


--Ah, não querida! Não queremos incomodar. E de mais a mais precisamos voltar pro Rio ainda hoje.


--Mas não é Ponte Aérea? Você não comprou passagens com horário flexível, Camille? -- Fátima perguntou


--É, eu comprei, sim. -- ela respondeu um pouco constrangida


--Então vocês ficam pro almoço, por favor! -- Jurema insistiu


--Só se me deixar te ajudar na cozinha! -- a costureira pediu


--Aceito. -- Jurema respondeu sorrindo

 

Enquanto as mulheres mais velhas preparavam o almoço e conversavam sobre as novidades, Fátima e Camille caminhavam pelo bairro.


--Que está achando de morar em São Paulo, Fátima? Já se habituou, carioca?


--Eu não tenho problemas em me adaptar às mudanças. Fiz amigos interessantes no clube onde treino, tenho competido bastante e a vida vai indo bem, graças a Deus. -- respondeu sorrindo


--E as Paraolimpíadas do ano que vem? Está preparada? -- olhou para ela


--Às vezes acho que sim, em outras acho que não. Estou fazendo a minha parte e quando chegar a hora, veremos no que vai dar...


--Eu vou torcer por você acompanhando pela televisão. Se ganhar medalha quero que dedique uma delas a mim. – brincou


--Dedico quantas quiser. -- ficou em silêncio por alguns segundos -- E como tem sido trabalhar para Seyyed? -- queria saber o que a loura ainda sentia pela morena


--Muito bom e muito difícil ao mesmo tempo.... -- pausou -- Quando eu te disse que muita coisa mudou eu não exagerei. Como falei, aquela Camille de mal com a vida não existe mais. Estou fazendo terapia e já assumi diante de mim mesma que sou lésbica.


--Muito bom! – sorriu


--Só que do tipo inoperante.


--É o que?? – riu


--Decidi que não queria me envolver com ninguém.


--Ah! Isso é o inoperante. -- riu de novo


--Mas ando meio balançada quanto a essa decisão... -- suspirou -- Eu não sei o que fazer...

 

--Sua mãe já sabe de você?


--Tenho certeza que se não sabe desconfia fortemente. Mas finge o contrário e temos vivido assim. Não encontro um jeito de introduzir o assunto porque ela sempre foge.


--Dê um tempo a ela. É difícil para as mães entenderem que os sonhos que tiveram com as filhas não se concretizarão. Quando as ilusões se desmancham sempre tentamos lutar contra a realidade. O ser humano tem esse doloroso hábito em lutar contra o inexorável...

 

--Eu sei... -- pausou -- E eu entendi porque me perguntou quanto a trabalhar com Ed... Não vou mentir, Fátima, ainda sou apaixonada por ela, que continua mais casada do que nunca... -- a nadadora permaneceu calada. Após alguns minutos de silêncio Camille perguntou: -- E você? Tem saído com alguém?


--Cheguei a tentar alguma coisa com uma colega do clube, mas... não deu certo. E não foi por culpa dela. -- pausou -- “Não consigo esquecê-la, minha pequena...” -- pensou com tristeza


--Fátima... eu queria que você soubesse que pedi pra mamãe vir até aqui comigo porque eu precisava te dizer algumas coisas.


--Não precisa me dizer coisa alguma, Camille...


--Por favor! -- interrompeu-a gentilmente -- Deixe-me falar porque não é de hoje que me sinto nessa obrigação. -- pausou e respirou fundo -- Você foi a primeira pessoa que abriu meus olhos quanto a uma série de coisas em mim, especialmente quanto a minha sexualidade. Eu era agressiva por não querer aceitar a verdade que se mostrava diante dos meus olhos. Eu queria negar a mim mesma...


--Que bom que soube superar isso...


--Não vou mentir... -- tentava cuidar das palavras -- eu me deixei envolver com você por carência, curiosidade, vontade de tirar Seyyed do meu pensamento, admiração... Eu deixei acontecer entre nós porque você era a coisa mais linda que existia na minha vida triste... -- parou de andar e olhou para ela -- Aquela noite que tivemos foi especial, maravilhosa, doce... Eu não soube administrar o que viria depois, eu não soube lidar com uma situação totalmente inusitada na minha vida e... ao mesmo tempo não queria abusar dos seus sentimentos, porque eu achava que estava abusando. -- pausou -- Existem várias formas de amar alguém, Fátima, e eu sei que amo você. Talvez não da forma que você mais quisesse, -- estava se emocionando -- não da forma como mereça... mas amo! -- segurou o rosto dela -- E queria muito que pudesse me perdoar por todo mal que te fiz e por tê-la feito chorar... Por favor, me perdoe!


Fátima puxou a loura para um abraço emocionado e respondeu no seu ouvido: -- Nunca lhe condenei, não preciso perdoá-la. Eu te amo, Camille! Eu te amo!


***

 

Sabrina palestrava em uma universidade. Lia o trecho de um livro para um auditório lotado de jovens estudantes e professores: -- “Havia uma vez uma cidade no coração da América onde toda vida parecia viver em harmonia com seu ambiente. (...) Então uma estranha influência maligna se arrastou sobre a área e tudo começou a mudar. Algum encanto maligno havia se estabelecido na comunidade: misteriosas enfermidades eliminaram os bandos de galinhas; o gado e as ovelhas adoeceram e morreram. Por todo lugar havia uma sombra de morte. Os fazendeiros falavam de muita doença entre seus familiares. (...) Havia uma estranha calma. Os pássaros, por exemplo – onde tinham ido? Era uma primavera sem vozes. (...) Nenhuma feitiçaria, nenhuma ação inimiga havia silenciado o renascimento de nova vida no mundo afetado. As próprias pessoas haviam feito isso.” -- fechou o livro, colocou-o sobre o púlpito e olhou para a platéia -- Eu li pra vocês um trecho de Uma Fábula para o Amanhã, o mais contundente capítulo do livro Primavera Silenciosa, Silent Spring, de Rachel Carson, lançado em 1962. Este livro, que foi saudado como um dos marcos iniciais do movimento ambientalista, mudou a história do mundo pois simplesmente forçou a proibição do DDT, um inseticida largamente utilizado naquela época. O livro instigou mudanças revolucionárias nas leis que dizem respeito ao nosso ar, terra e água. A preocupação apaixonada de Carson com o futuro de nosso planeta reverberou poderosamente por todo o mundo e este trabalho foi considerado no ano 2000, pela Escola de Jornalismo de Nova York, como uma das maiores reportagens investigativas do século XX. 22 -- pausou -- Em muitas ocasiões na vida a gente pensa que não tem poder pra mudar o rumo das coisas. A gente pensa que nada se pode fazer diante de tanta coisa errada que se vê por aí, mas isso é o que querem que a gente pense. E vocês hão de se perguntar: ‘Quem quer isso?’ e eu digo: aqueles que se favorecem com o estado atual das coisas. E isso vale para o machismo, o racismo e toda forma de preconceito que desvalorize um segmento em detrimento da valorização exagerada de outro. -- começou a andar pelo auditório -- Vocês já ouviram falar de George Orwell? Alguém aqui já leu 1984, Nineteen Eighty Four? -- perguntou aos presentes


--Eu li! -- uma jovem levantou a mão -- Ele mostra claramente suas preocupações ideológicas quanto ao controle da população pelo autoritarismo do Estado. -- ela respondeu

 

--Isso mesmo! -- a escaladora respondeu -- Ele queria advertir às pessoas que elas acabariam sendo controladas pelo medo, ou seja, o Estado forçaria um comportamento padrão por parte da população usando o medo e o poder da força. -- pausou -- Mas, o tempo passou e os dominadores viram que o controle pela força era muito dispendioso e dava um trabalho danado. E aí, considero que Aldous Huxley conseguiu prever os dias que vivemos hoje com muito mais exatidão. Ele escreveu seu livro magistral muito antes de Orwell, e profeticamente nos alertou que o controle seria realizado pela alienação das pessoas, por um triste processo de formatação de cérebros.


--Acho que você se refere ao livro Admirável Mundo Novo, Brave New World. -- um rapaz falou


--Exatamente! -- Sabrina respondeu -- Huxley alertou sobre a desinformação. Ele disse que nós seríamos orientados sobre como pensar e nem nos daríamos conta disso. Ele mostrou que o excesso de tecnologia nos tornaria passivos e egoístas, ele mostrou que a verdade seria soterrada sob um mar de irrelevância, que nossa cultura seria dominada por um culto ao fútil e por um infinito apetite por distrações. Ele disse que seríamos controlados pelo prazer e que seríamos arruinados pela mediocridade e não pelas armas.23 Digam-me se não é o que acontece? -- parou diante de todos cruzando os braços

 

--Não entendi o que isso se relaciona com o movimento ecológico. -- um rapaz desafiou


--Muito bem, vou te dizer. -- olhou para ele -- Se a tecnologia é usada pra nos controlar, pra formatar nossas mentes, e isso tem acontecido ao longo dos anos, é muito natural que cada vez mais acreditemos no discurso conformista de que não temos poder pra mudar o que é relevante no mundo. É muito natural que a gente veja o mal acontecer e reclame dentro de casa ou junto com os amigos sem fazer efetivamente coisa alguma! Não é o que você observa? -- olhou para todos -- Vendem a idéia de que a degradação ambiental é o preço do progresso e os cálculos econômicos não computam esse passivo em seus balancetes. Algumas empresas plantam umas árvores e fazem umas gracinhas politicamente corretas e querem nos convencer de que são “empresas verdes”. -- fez aspas com os dedos -- São mesmo? -- pausou -- Gente, por favor, querem que nós não pensemos e eu me entristeço vendo que esse plano tem dado certo! “Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele.”24

 

--Você está certa! Mas o que podemos fazer? -- uma professora perguntou com interesse


--Mobilização popular! -- olhou para a professora e em seguida para os demais -- Eu vim aqui, inclusive, pra convocá-los para uma mobilização no próximo sábado, em frente à Candelária, pra que nós façamos um abaixo assinado e demonstremos nossa insatisfação com o que vem acontecendo com os lixões. Nós vamos apresentar muito claramente a questão dos lixões no Rio de Janeiro e no Brasil todo e gostaríamos de contar com a participação de vocês. Quando eu digo nós, estou me referindo a meus amigos montanhistas, ecologistas e membros de um partido político novo e muito sério chamado PCons, Partido da Conscientização. Eu não sou filiada a este partido mas eles vêm abraçando a causa junto conosco.


--Eu não gosto dessas mobilizações e nem acredito nelas porque a polícia vem, bate em todo mundo e os ânimos esfriam lá pelas tantas. E pra variar, não dá em nada! -- um professor desabafou -- Foi-se o tempo! Não estamos mais em 1968!


Sabrina olhou para o homem. -- Professor, eu só digo uma coisa: “Nunca no mundo uma bala matou uma idéia.” 25 Não vai ser agora! -- foi para o púlpito novamente e dirigiu-se ao auditório -- Gente, eu não sou boa de palestras, é a primeira vez que faço isso e agradeço muito por me darem tamanha atenção. Mas o que eu queria dizer é que se Rachel Carson mudou o rumo da história com um livro, por que nós não podemos fazer a diferença? Por que não podemos salvar a natureza de nossa cidade, de nosso país? Sei que a repressão existe, e sempre existirá, mas também sei que “os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter uma primavera inteira.” 26 Obrigada! -- ao contrário do que esperava, a escaladora foi bastante aplaudida e muitos vieram procurá-la para uma conversa e confirmar sua participação no ato do sábado


--Parabéns! -- um rapaz cumprimentou -- Para quem não costuma a palestrar você foi ótima! -- sorriu -- Quem lhe inspirou a agir assim e falar tão bem?


--Alguém muito especial... alguém que abriu meus olhos, alguém que mudou minha vida pra sempre... -- pensava em Patrícia


***

Mais um final de semana chegava e Isa se preparava para uma apresentação do espetáculo junto com o corpo de balé do qual fazia parte. Ed decidiu que iria trabalhar na oficina sozinha naquele sábado.


Graças ao trabalho dedicado e atencioso de Léo, a mecânica não encontrou irregularidades ao  repassar os carros e podia se dedicar exclusivamente ao conserto de duas Mercedes-Benz que estavam lhe dando dor de cabeça. Ela também queria ficar um pouco sozinha para pensar em suas atitudes e sentimentos.


“Às vezes acho que Isa tem razão quando diz que Camille gosta de mim, e eu mesma não me entendo nessa de ficar presa ao olhar dela como se estivesse hipnotizada.” -- pensava --  “Camille é uma verdadeira Fênix renascida das cinzas e eu a admiro pra caramba! Ela é legal, companheira, séria e, vamos admitir, Seyyed, muito gata!” -- parou de mexer no motor do carro -- Seyyed, você sabe que desejo sempre foi seu maior problema... Se tem conseguido se manter fiel até aqui não é hora de estragar tudo! -- aconselhava-se em voz alta -- Nunca traí namorada alguma, não vai ser a Isa que eu vou sacanear! -- saiu de perto do carro e foi beber água


Isabela era, sem dúvida, tudo o que Seyyed sempre desejou em uma mulher. Além de bonita era culta, inteligente, elegante, sofisticada, vaidosa e bailarina. “Eu sempre tive o maior tesão em bailarinas... E a Isa é gostosa, boa de cama e cheia de joguinhos que me deixam maluca...” -- pensava com um sorriso malicioso nos lábios -- “Eu tenho que mudar minha atitude com Camille e parar de alimentar nela falsas esperanças. Daqui pra frente vou evitar muita conversa fora de assuntos de trabalho e quando rolar aquele lance de ficar lá olhando pra ela eu corto!” – decidiu


Na noite anterior, pela primeira vez na vida a mecânica havia tido um sonho erótico com a loura e isso a incomodou bastante. “Não posso deixar essas coisas evoluírem! Eu amo minha ruiva, quero somente ela e não posso arriscar meu casamento por um sentimento passageiro. Já senti tesão ou interesse por outras mulheres e não deixei rolar. Não vai ser agora!” – pensou


Decidiu parar de pensar em mulheres e ligou para a mãe. Queria saber do irmão. -- Oi, dona Olga! Como vai Ricardinho? Melhorou?


--Oi, meu amor! Graças a Deus ele melhorou sim! Parou de chorar e está dormindo. Mariano está no quarto rezando ao lado dele.


--E a senhora certamente fazia o mesmo e eu interrompi. Volta pra lá, mãe. Vocês levaram ele na médica, dão os remédios direitinho, ele vai melhorar! Quando sair daqui passo aí pra ver vocês.


--Eu me preocupei porque já eram três dias assim, mas acho que agora ele vai ficar bem. Se Deus quiser!


--Vai sim, mãe. Vai lá ver seu filhinho. Não demora muito, estarei aí. Beijo!

 

--Beijo, querida! Espero você! – desligou


Seyyed voltou para seus carros e deu o assunto Camille por encerrado. “De agora em diante, chega desse negócio, Ed! Você tem mulher, tá muito bem casada e fim!”


O celular dela tocou. Olhou e viu que era Isa. -- Oi, meu amor! – sorriu


--Oi, Ed! Você vem me buscar ao final do espetáculo? -- perguntou receosa


--E quando não fiz isso, querida? Ainda mais agora que você é íntima do Presidente, não pode ficar andando por aí sem guarda costas! – sorriu


--Íntima do Presidente... -- riu -- Você tá falando igual mamãe! Acredita que ela contou pra todo mundo da nossa família que o Presidente e a Primeira Dama convidaram a gente pra passar um final de semana no Palácio da Alvorada?


--Caraca! -- riu -- E eles acreditaram?


--Eles acreditam em tudo que mamãe diz!


“Ô gente maluca!” -- Ed pensou -- Ai, ai... Olha só, amor. Eu vou sair daqui dentro de uma ou duas horas, passo na mamãe pra ver meu irmãozinho e depois vou pra casa me arrumar. Vocês acabam aí quase às onze, então tenho tempo de sobra. Relaxa que eu vou!

 

--E Ricardinho? Melhorou? -- perguntou preocupada


--Graças a Deus. Acabei de falar com mamãe sobre ele. Mas escuta aqui, fica tranqüila, mais uma vez arrebenta no palco e mostra pra todo mundo que você é o máximo! -- pausou -- Mas a faceta você só mostra pra mim, tá? – brincou


--Minha... ‘faceta’ é só sua, Seyyed. -- falou de um modo muito sensual


--Não fala assim que eu fico querendo... – sorriu


--De repente... quando acabar o show...

 

--Eu vou cobrar, viu?


--Cobra, então... Talvez eu seja boazinha com você... – brincou


--Hum, mas você gosta de ser má comigo!


--E você adora! – sorria


--Amo! -- a morena respondeu com convicção


--Também te amo! Te espero aqui, tá?


--E eu vou te pegar. Sob todos os aspectos...


--Sem vergonha! -- riu -- Até mais, amor! Beijo!


--Até mais! Beijo! -- desligou -- Não, eu não tenho dúvidas! Minha mulher é ela e é ela que eu quero ter. -- disse para si mesma


***

--Brito, por que você não vai passar o natal com a gente? -- Flávia perguntava chateada -- Suzana também vai! Só você vai ficar de fora?


--Eu não posso ir, meu bem! Tenho assuntos inacabados pra resolver! -- estava se arrumando para sair


--Você só vive com assuntos inacabados pra resolver! -- respondeu chateada


--Flávia, você sabe o que tá acontecendo, não sabe? Eu não escondi nada de você! -- olhou para ela com cara feia -- Mataram Rodolfo, será que não entende? Tentaram matar todos nós! Só falta eu! -- bateu no peito -- Só a mim ainda não tentaram matar, nem sei porque! Temos que cortar o mal pela raiz!


--Cortar o mal pela raiz, Brito? Cortar o mal?! Você alimenta o mal o tempo inteiro! -- pegou o homem pelo braço -- O que aconteceu foi que você virou um assassino! Você e seus amigos!


--E por culpa de quem? -- desvencilhou-se dela -- Daqueles malditos que tentaram matar a chefe. Esses mesmos malditos que mataram Rodolfo! A gente tem que fazer justiça!

 

--E quando essa justiça de sangue vai terminar?? -- gritou emocionada -- Isso nunca vai ter fim, será que não entende? Vocês vão ficar eternamente se destruindo uns aos outros! -- olhou bem para ele -- Brito, sua vida já terminou, ainda não viu isso?


Ele endireitou a gola da camisa e respondeu no seu tom normal. -- A chefe goz* de certa imunidade, Flávia. Eles não vão matá-la. O assunto delegada Suzana Mello já gerou polêmica e movimentação demais. Só que eu não tenho a mesma força e o mesmo carisma que ela. Nenhum de nós tem! Estão comendo pelas beiradas! Eu não vou ser uma isca. Se querem me matar, que morram antes!


--Pelas suas mãos? -- perguntou decepcionada


--Que seja! – gritou


A fisioterapeuta ficou uns segundos calada observando o namorado arrumar as próprias coisas. -- Brito, só Deus sabe quanto me custa isso mas... é melhor a gente parar de se ver! -- olhou para ele com lágrimas nos olhos -- Você tem me feito muito mal desde que começou com essa história toda de vingança.


Ele sentiu muita dor ao ouvir aquilo mas não se opôs. -- Está certo. Você tem razão. Inclusive, está salvando a própria pele e é o que deve fazer. Você não tem culpa de nada.

 

--Eu te amo, Brito. -- uma lágrima rolou-lhe pelos olhos -- Mas não vou deixar que meu amor por você me mate. E eu não falo de morte do corpo. Falo de morte da alma!


--Também te amo, Flávia. -- foi até a porta e quando estava para sair olhou para ela e disse: -- Talvez minha alma já esteja morta! – partiu


A fisioterapeuta fechou os olhos e chorou com muita tristeza.

 

 

13:15h. 29 de dezembro de 2003, Shopping da Gávea, Gávea, Rio de Janeiro

Anselmo andava cabisbaixo pelo shopping. Havia acabado de ser demitido do banco onde trabalhava e não sabia o que fazer. “E só faltavam cinco anos e meio pra eu me aposentar...” -- pensava arrasado


Seu desempenho no trabalho vinha sendo considerado insatisfatório desde que Gisele o deixou. Para completar, após o infeliz encontro com Juliana e Suzana quando saía do motel, Marizé terminou com ele e mais tarde o denunciou por assédio sexual, contando com testemunhas. Tal situação foi considerada inaceitável e Anselmo acabou demitido. O banco alegou mau desempenho no trabalho e problemas de relacionamento com os colegas.

 

“Como vou dizer isso a Ana? Meu Deus, o que eu faço?” -- estava muito nervoso


Ana passeava pelo shopping procurando roupa, bolsa e um novo par de sapatos. Havia sido convidada pelas amigas do clube para passar o réveillon na cobertura de uma delas, cujo marido havia sido promovido no trabalho. “Agora é convencer Anselmo! Sem homem é que não posso ir! Vou e ainda levo as fotos de Isa com o Presidente e a Primeira Dama pra mostrar pra todo mundo! Vou me exibir bastante!” -- pensava orgulhosa -- “E se alguém perguntar porque Anselmo foi transferido da zona sul pra Caxias eu digo que foi pra ganhar o triplo do salário!”


Lila estava no shopping aproveitando uma pequena mostra de produtos indianos para catequizar pessoas para um tratamento áurico. Ela havia feito um acordo com uma das expositoras e montou seu ‘Espaço Zen’ ao lado do stand da mulher.


--Vamos, meus queridos!! -- ela clamava fazendo gestos -- Venham fazer o novo tratamento áurico trazido da Índia para começar um 2004 cheio de muitas energias positivas e muita luz!! Rah!! -- levantou uma das mãos com a palma bem aberta


Ana avistou a exposição e decidiu ver o que seria aquilo. “Vai que funciona? Ainda mais agora que ando sem mãe de santo, preciso me cuidar pra descarregar as pururucas...” – pensou


Anselmo não prestava atenção em coisa alguma e nem percebeu que caminhava na direção da mostra. Ele e Ana se esbarraram em frente ao Espaço Zen de Lila.


--Oh, senhora, me perdoe... -- olhou para Ana e congelou


--Anselmo??? -- perguntou chocada -- O que faz aqui a essa hora? Por que não está no trabalho??

 

Decidiu que não iria mentir. -- Fui demitido hoje... -- respondeu de cabeça baixa -- Não sabia pra onde ir, rodei por lá e cá e parei aqui.


--Demitido???? -- pôs a mão sobre o peito -- Meu Deus, Anselmo!! Mas faltava tão pouco pra você aposentar... -- estava nervosa -- Por que foi demitido??


--Baixo desempenho... -- não teve coragem de falar da denúncia de assédio


--Minha nossa!!! -- colocou as mãos na cabeça -- E agora, como vai ser isso?? Com que cara vou olhar pra minha irmã? E quanto às minhas amigas??? Como vamos na festa na cobertura de Quiqui Tavares depois dessa, meu Deus??? -- olhou para ele -- E agora, hein, Anselmo? -- deu um tapa no braço dele -- E agora??


--Ana, por favor... -- olhava para todos os lados nervosamente -- estamos em um shopping...

 

--Eu sei! -- olhou para os lados também e começou a falar mais baixo -- Mas isso tudo só aconteceu por causa dessa tua palhaçada de arrumar amantes! -- olhou para ele -- Seu idiota! Pra que tinha que fazer isso? Eu não entendo essa palhaçada dos homens de nunca se contentar com a mulher que têm! No que faltei pra você, hein? No que? Acha que o tempo passou só pra mim? Você também envelheceu! – desabafou


Ele nada respondeu. Lila prestava atenção no que se passava entre os dois e pensava: “Hummmm...”

 

--Ana, eu... -- não tinha o que dizer -- Eu vou embora. Estou arrasado, deprimido... Preciso de um tempo pra mim... -- olhou para ela


--Seu tempo é sempre só seu, idiota, será que não se toca disso? -- perguntou magoada


--Ana, por favor, não me venha fazendo cenas aqui e em público! -- respondeu irritado -- Eu vou embora!


--Não se vá! -- Lila chegou cheia de salamaleques -- Fique, meu amigo! -- olhou para ele -- Namastê! -- cumprimentou-o no estilo indiano e em seguida olhou para Ana -- Namastê! -- repetiu o gesto -- Meu nome é Lila, e eu gostaria de convidá-los para fazer um tratamento áurico no meu Espaço Zen. -- apontou para o lugar


--Tratamento áurico? -- Ana perguntou curiosa


--Ah, eu não perco tempo com essas bobagens! -- Anselmo novamente se movimentava para ir embora


--Amigo, por favor! -- Lila se meteu na frente dele -- Acalma teus anseios de mudanças constantes! Posso ver pela tua aura que passas por problemas financeiros e, o que é pior, por problemas sentimentais! -- fazia salamaleques -- E tu, -- virou-se para Ana -- apesar de muito chique e estilosa, passas por problemas amorosos. -- pausou -- Aliás, teu cabelo é trilindo!


Ana jogou os cabelos toda prosa. “Gostei dessa mística!” – pensou


--Olha, garota, eu... -- Anselmo estava mal humorado e não queria ficar ali


--Por favor, meu amigo, não te entregues a esta apatia! -- Lila o interrompeu com seus salamaleques -- Chega de ilusão! Tu te prendes demais a coisas que passam. Tu precisas aprender a viver no presente! Remova o véu da ilusão que te empana a vista! É preciso recuperar o prazer de viver!


Anselmo ficou parado olhando para ela. “Será que essa garota pode me ajudar?” – considerou -- Que é isso de tratamento áurico? -- perguntou curioso


--É! Como seria este tratamento? O que é isso? -- Ana perguntou interessada

 

--“Quando curiosamente te perguntarem, buscando saber o que é Isso, não deves afirmar ou negar nada.” -- recitava fazendo gestos estudados -- "Pois o que quer que seja afirmado não é a verdade, e o que quer que seja negado não é verdadeiro. Como alguém poderá dizer com certeza o que Isso possa ser, enquanto por si mesmo não tiver compreendido plenamente o que é? E, após tê-lo compreendido, que palavra deve ser enviada de uma região onde a carruagem da palavra não encontra uma trilha por onde possa seguir? Portanto, aos seus questionamentos oferece-lhes apenas o silêncio. Silêncio! -- apontou para seu espaço -- E um dedo apontando o Caminho.” 27 -- Lila deu braços a Ana e Anselmo e veio conduzindo os dois. -- Vamos para o Espaço Zen e descortinemos nossas almas. Vamos nos purificar. Vocês são um casal, é hora de reacender aquele fogo de outrora! -- sorria -- "Mas, bá, é hoje que eu vou faturar muito!!!” -- pensou animada


“Eu preciso de paz, eu preciso de um caminho... já não agüento essa vida de decepções... Vamos ver no que isso vai dar!” -- Anselmo pensava esperançoso


“Gente, será que essa mística pode ser minha nova personal prayer?” -- Ana pensou empolgada

***

 

Seyyed estava reunida com Camille para uma avaliação dos negócios. Renan conversava com as duas por telefone. Ed colocou o aparelho no viva voz para que ambas pudessem ouvi-lo e conversar com ele.


--Camille, por favor, -- Renan pedia -- explica pra gente o que você quer nos dizer, mas em vocabulário menos técnico porque tem coisas que você fala e eu demoro a entender. -- riu -- De minha parte fico feliz porque pelo menos resolvemos nossos problemas com pessoal e isso pra mim já é uma grande coisa!


--Nem me fale! -- Ed revirou os olhos


--Tudo bem, meu, eu explico melhor. -- pausou -- As contas das duas oficinas começam a se equilibrar, mas ainda não temos lucro relevante. Após a revisão orçamentária que fizemos a evolução foi bem mais rápida, porém precisamos quitar nossos empréstimos, ou pelo menos, a maior parte deles para podermos respirar aliviados.


--E o que você sugere? -- a mecânica perguntou


--Podemos e devemos ousar! Perdoem-me dizer, mas vocês chegaram a um ponto que se acomodaram e não trouxeram mais nada novo pros negócios. Temos alguns segmentos desatendidos e precisamos acabar com essa carência.


--Como quais, por exemplo? -- Renan perguntou curioso


--Restauro de carros antigos em Goiânia! Está na hora de fazermos uma visitinha à coleção gigantesca de seu Marciano e montarmos uma estrutura local para atendê-lo.


--Com que dinheiro, Camille? -- Ed perguntou -- E a gente tem que ter mão-de-obra qualificada e apoio local.


--Vocês dois podem dar um cursinho pra uns três mecânicos da oficina do Renan. Eu até pensei em Raul, Marcos e Paulinho. Depois eles fariam, um de cada vez, um curso em São Paulo. Quanto ao apoio local e ao dinheiro, é aí que Marciano entra: ele vai ser nosso sócio.


--Sócio?? -- Renan perguntou surpreso


--Claro! Como colecionador apaixonado por carros ele terá todo interesse em ter uma verdadeira oficina particular em Goiás pra cuidar de suas preciosidades. Podem deixar que sei convencê-lo com bons números quanto à atratividade dessa idéia.


A morena riu. -- E qual o outro segmento desatendido?


--Motos! Você entende de motos e até hoje só vi uma chegando aqui pra conserto.


--É, de fato... Minha eletricista de automóveis entende de motos também e mais um dos rapazes daqui.


--Você podia investir nesse segmento, Ed! -- Camille olhou para ela -- Renan investe nos restauro dos carros antigos lá, com seu apoio, e você investe em motos aqui. Depois Renan também entra nesse nicho.


--Boa idéia. -- Renan respondeu -- E eu já era doido pra fazer restauro aqui!


--Você podia muito bem fazer umas viagens com o pessoal do motoclube de Suzana pra já ir catequizando uns clientes!


--Caraca! -- ela riu -- Ouve só que capitalismo agressivo, Renan! – brincou


--É sério! -- sorriu para ela -- Por que não vai? Faz pelo menos uma viagem e conhece o pessoal. Os motoclubes se encontram e você teria um baita canal de divulgação do nosso trabalho!


--Eu ando de moto há mais de quinze anos mas nunca pertenci a motoclube. -- constatou -- Tá, eu falo com Suzana.


--Outra coisa, nós temos de nos conscientizar de que estamos na era digital! Precisamos aprender a resolver as coisas pela internet. Queira contratar alguém pra cuidar da nossa Home Page. Nossos clientes têm que ter comodidade pra resolver problemas on line e ainda encontrar dicas sobre automóveis, motos e por aí vai.


--Eu concordo! -- Ed respondeu  -- "Cara, ela é demais!” – pensou


--Eu também! -- pausou -- Camille, quando vai ser a visita ao seu  Marciano?


--Ano que vem, logo em fevereiro, mas antes do carnaval. Ou seja, daqui a pouco! -- riu -- Vamos deixar passar estas festas de final de ano e dar um tempo a ele para voltar à carga e se concentrar nos negócios. Antes do carnaval será um momento de relativa tranqüilidade e ele nos dará atenção. Estou certa!


--Beleza! -- a morena deu um tapinha na mesa -- Por mim tá tudo safo! E vocês? Mais alguma coisa?


--Por mim, tudo OK aqui no centro do Brasil. -- Renan brincou


--Então, vamos trabalhar que o tempo urge. Beijinho, Renan!


--Tchau, Camille. Tchau Ed!


--Valeu, garoto! -- desligou o telefone -- Vamos trabalhar, né? -- levantou-se e foi até a porta da sala


A loura ficou olhando para ela e perguntou receosa : -- O que houve, Ed?


--Nada, por que? -- respondeu sem olhar diretamente para ela


--Você já está indo assim.... pelo seu natural ainda iria ficar conversando um pouco comigo... Está zangada? Aconteceu alguma coisa? -- pausou -- "Ela anda tão diferente comigo...” – pensou


--Camille, não aconteceu e nem vai acontecer nada entre nós. Tá tudo certo do jeito que tá! -- sorriu e saiu da sala


Aquela resposta, aparentemente inofensiva, soou como um grande ‘fora’ aos ouvidos da jovem engenheira. Ela abaixou a cabeça e ficou muito triste pensando na afirmação de que nada aconteceu e nem ia acontecer entre elas. “Ela já percebeu... está me deixando claro que não me quer...” -- respirou fundo -- "Ô louco, que vergonha...” -- cobriu o rosto com as mãos. Queria chorar


De repente o telefone tocou. -- Oficina ESSALAAM, boa tarde! -- a loura atendeu


--Oi, amiga! Sou eu, Aline! -- estava empolgada


--Oi, Aline. -- tentou disfarçar a tristeza – Tudo bem com você? O que me conta de novo?

 

--Tudo ótimo!!! Espero que com você também! Liguei pra te contar que passei no concurso e vou começar um treinamento na segunda quinzena de janeiro.


--Que maravilha! -- exclamou -- Meu, fiquei muito feliz por você, viu? Vai enricar, ô louco! -- brincou com ela


--Enricar, que nada! -- riu -- Mas nem precisa disso, estou feliz demais e isso dinheiro não compra! Olha só, amiga, vai ter outro concurso no ano que vem. Por que você não faz, hein? Duvido que você não passe!


A loura ficou pensando. -- Vou pensar... Talvez seja o melhor a fazer mesmo! Talvez seja melhor eu ir pra outro lugar... – suspirou


Seyyed mexia no motor de um carro. “Eu não devia ter dito aquilo pra ela. Pelo menos não da forma como falei... Droga, Ed, você só faz besteira...” -- pensava se condenando quando ouviu uma voz conhecida


--Fala, Ed!


--Fala, delegada! Você não morre tão cedo, sabia? -- sorriu e virou-se de frente para ela -- A que devo a honra? Não veio me enquadrar não, né? -- brincou. As duas se abraçaram

 

--Falando de mim, é? -- sorriu


--É. Eu tava a fim de fazer uma viagem de final de semana contigo e seu motoclube. Você me convidaria? -- perguntou receosa


--Claro! -- respondeu empolgada -- Já tava na hora de você conhecer um motoclube sério! Quando tiver uma viagem rápida e boa eu te falo. -- pausou -- E aliás, eu queria conversar contigo sobre motos. Quero comprar uma nova.


--Pega um banquinho ali! -- apontou -- Senta e vamos conversando. -- pausou -- Se incomoda que eu continue mexendo nessa belezinha aqui enquanto a gente conversa?


--Claro que não! -- pegou o banquinho e se sentou -- Eu é que tô no seu trabalho tomando seu tempo!


Virou-se para o carro novamente -- E no que anda pensando? Qual tipo de moto que quer?

 

--Eu queria uma moto legal pra viajar, uma custom de altas cilindradas, sabe? Quero que você acople nela um sidecar e também instale uma sissi-bar pro carona.


--Vai levar Juliana e dona Lourdes pra estrada? – sorriu


--A idéia é essa!


--E a tua moto, cadê? Quando você sumiu, foi embora montada na possante, mas quando apareceu lá em casa tava à pé. Onde escondeu aquela maravilha? -- continuava mexendo no motor do carro


--Vendi. -- respondeu naturalmente


--Vendeu??? -- olhou para ela em choque


--Eu cheguei em Roraima e vendi. Fui pra região do Imeri de carona, voltei de lá de carona de novo e em Boa Vista peguei um avião pro Rio. Já não agüentava mais! -- relembrou

 

--Pô, Suzana, você deve ter vendido aquela moto por qualquer dinheiro! -- colocou as mãos na cintura


--Dez mil!


--Caraca! -- fez cara feia -- Vender uma Honda Four 750 de 1973 por dez mil reais... O ronco mais bonito dentre todas as motos! -- balançou a cabeça -- Você tinha que ser presa!

 

A delegada riu. -- Aquela moto combinava com meu passado solitário e sombrio, agora minha vida é outra! Tenho minha mulher, minha idosa pra cuidar... tem que ter responsabilidade!

 

--Humpf! Eu tenho mulher e responsabilidade e minha moto é uma R1 1000! Nada a ver! -- voltou a se concentrar no trabalho


--Você é muito louca, Ed. Eu sou comportada e mulher de uma só.


--Como assim, eu sou muito louca? -- olhou para a outra -- Eu não ando por aí com um monte de mulher, não! Nunca nem traí ninguém e nem traio!


--Não faz isso só porque você se segura, mas pensa que eu não noto qual é a sua? Tua vontade era se pegar com um monte de mulher! -- olhou para todos os lados e falou mais baixo -- E você acha que eu não manjo que você é doida pra ficar com a Camille?


--Que é isso??? -- saiu de perto do carro e foi até ela -- Eu, hein, Suzana, tá doida? -- olhou para ela de cara feia


--Eu passei minha vida quase toda fazendo investigações, Seyyed. Não venha negar porque não sou trouxa. -- cruzou os braços e olhou bem para a outra -- Você tá a fim da loura que eu sei!


Seyyed respirou fundo e respondeu com seriedade: -- Eu amo a Isa, Suzana!


--Você gosta dela, é amiga dela, deseja ela... Até ama, só que não é como eu e a Ju, por exemplo. Você está iludida, Ed. Você se apaixonou pela forma, pelo que ela faz, mas não por ela realmente. Isa é uma garota legal, uma pessoa boa, mas... você combina mais com a Camille. -- pausou -- De repente do lado dela você até acalmaria esse fogo todo que tem.


--Eu, hein, delegada, você anda muito saidinha pro meu gosto! -- voltou de cara feia para junto do carro -- Você veio aqui pra falar de moto, não foi? Compra uma Suzuki M 1500 Intruder com sissi-bar de fábrica e eu me viro com o sidecar pra você. -- voltou a mexer no carro -- E vê se não fala coisas como o que me disse aqui pra outras pessoas, pode ser? -- continuava de cara feia


--Pode. -- sorriu -- Mas, talvez um dia você me dê razão.


***

 

Após sair da oficina de Seyyed, Suzana passou na delegacia para conversar com Brito.

 

--Brito! -- entrou na sala


--Chefe! -- ele se levantou sorrindo -- O que te traz aqui?


--Flávia desabafou com a gente no natal e eu fiquei sabendo de umas coisas preocupantes a seu respeito. -- cruzou os braços


--Ela não tinha nada que ter falado! -- ficou nervoso e endireitou a gola da camisa


--Vamos sair e conversar. Já tá na sua hora. -- olhou para o relógio


--Não tem o que conversar, chefe! E já tá na minha hora mesmo. -- preparou-se para sair


--Você vai sair sim, mas pra conversar comigo! -- segurou-o pelo braço -- Eu não tô brincando, cara! Rodolfo está morto, Coimbra largou a polícia e você é chefe de um grupo de extermínio! Não era esse o destino que os meus homens mereciam! Não era pra terminar assim que a gente ralava tanto! -- falou furiosa entre dentes e largou o braço dele


--Tá bom, a gente vai conversar. -- endireitou a camisa -- Vamos no meu carro! -- saiu. Suzana foi atrás


***

Brito e Suzana estavam em um terreno baldio no Caju. O policial andava de mãos nos bolsos chutando pequenas pedras.


--Quando eles te pegaram, eu juntei os homens pra te vingar. Armamos a ratoeira e pegamos os vagabundos que te emboscaram. Não matamos os caras, eles foram presos. Investiguei como um desgraçado, obtive provas e por isso os caras foram presos. Só que a gente começou a ser ameaçado pelos peixes grandes. -- pausou -- A Federal se envolveu, indiciou o principal mandante, mas esses caras são escorregadios...


--Eu sei! Fui emboscada exatamente porque alguns deles não conseguiram escorregar.

 

--Pois é... -- pausou -- Espalharam a gente, cada um foi mandado pra um lugar, eles deram um tempo e depois voltaram a nos perseguir. Emboscaram o Lemos, seguiram o Coimbra de carro e aí Macumba me ligou desesperado...


--E foi então que você decidiu que ia mudar de tática. -- fez o colega parar de andar e olhou bem para ele -- E aí abriu mão da própria vida e da mulher que ama!


--Não pode me repreender! Você fez o mesmo que eu!


--Ah, não! -- riu brevemente -- Foi totalmente diferente! -- segurou a camisa dele -- Vocês começaram tudo isso por minha causa, então é hora de parar!


--Certos caminhos não têm volta, chefe! -- desvencilhou-se dela -- Não vai acontecer mais nada contigo! Já entregou tudo o que sabia, já foi notícia demais na TV, ninguém tem interesse em te pegar! E eles te anularam mesmo, chefe, não pode investigar, não pode fazer mais nada! A gente não tá nessa mesma situação. Essa droga vai continuar até eles ou nós cairmos mortos!


--A vida vale muito pra ser desperdiçada desse jeito, Brito!


--Então me diz, o que eu faço? -- gritou e olhou para ela em desespero -- Porque eu não sei! -- andou um pouco e parou chutando uma pedra -- Eu não quero ser preso! E nem quero morrer! Não seria justo!


--Faz uma denúncia, com tudo o que você tem e com tudo que eu tinha, pro Ministério Público e entra no programa de proteção às testemunhas. Todos vocês têm que fazer isso!

 

--E acredita nisso?? -- andou até ela e a encarou -- Sabe que não vão proteger a gente e muito menos às famílias! Chefe, só nos dez primeiros meses do ano 2000, um levantamento da Secretaria de Segurança revelou que 80 policiais civis tinham sido assassinados no estado!


--Ou faz o que eu falei, ou vai viver nessa agonia até ser surpreendido por uma emboscada e morrer. -- pegou-o pela gola da camisa -- Cara, eu sei o que é cair numa emboscada dessas e ver a morte de perto! Não sabe o que é desejar ter mais tempo e não ter! Deus me deu tempo, nem sei porque, mas Ele me deu. Escuta, Brito, -- olhou bem nos olhos dele -- a gente vai na imprensa, vai atrás daqueles malucos do PCons, vai em centro, em igreja, em terreiro de Umbanda, onde você quiser! Mas por favor, não desperdice sua vida desse jeito!


--Por que se importa? -- gritava sob um choro contido -- Eu não tenho família, não tenho ninguém, não faço a menor falta pra quem quer que seja!


--Faz sim, droga! -- seus olhos estavam marejados -- Você é meu parceiro, meu irmão e eu quero você bem vivo! E tua mulher também quer!


--Ela não me ama mais... – chorava


--Ela ama sim! Ela só tá com medo de você, o que é natural... Ela tá assustada, Brito, mas te ama, sim! -- pausou -- Cara, por favor, sai desse caminho porque ele não é pra você!


--Chefe... eu tô com medo! -- continuava chorando


Suzana puxou o amigo para um abraço e ele chorou como um menino assustado.

 

***

Juliana prestava atenção em Maria de Lourdes e suas velinhas. A idosa terminava suas orações e vinha andando com sua bengala.


--Por que voltaram a ser três velinhas, dona Lourdes? -- perguntou sorrindo


--Porque Suzaninha já não precisa mais. Agora aguardo a cura de Ricardinho e o despertar de sua mãe. Quanto a Gisele, ela terá essa luz enquanto eu viver. -- pausou -- Eu achei que a casa ficou tão bonita depois da reforma, não foi? – sorriu


--Pois é! -- olhou ao redor -- E os móveis novos, hein? Ficou tudo lindo! -- sorriu -- Mas fiquei preocupada em Suzana gastando esse dinheiro assim todo de uma vez. -- olhou para ela


--Suzaninha sabe o que está fazendo, não se preocupe. -- segurou-a pelo braço -- Vamos para a sala? – propôs


--Vamos. -- foram andando -- Falando naquela nhambiquara safada, ela está demorando tanto pra voltar da oficina de Ed, que nem sei! – reclamou


--Ela chega daqui a pouco, tenho certeza. Além do mais esse negócio de moto deve dar trabalho mesmo.


--Ela cismou com isso, não é? -- balançou a cabeça -- Querer levar a gente pra evento de motoclube... Ai, minha índia safada é muito maluca! -- riu e sentaram-se na poltrona


--Pois eu tô doida pra ir! Já pensou? Eu andando de moto, vento nos cabelos, velocidade... Quero um coletinho preto e um anel de caveira. Radical! -- fez um sinal com a mão levantando o dedo indicador e o anelar


--Ih! É mole? -- riu -- Ô dona Lourdes, eu não conhecia esse seu lado, não, viu? -- olhou para ela


--Ah, minha filha, eu sempre fui apaixonada por essas coisas assim, sabe? Amava o teatro, mas também era doida por uma adrenalina!


--Nossa! -- balançou a cabeça -- Então foram as circunstâncias que fizeram da senhora uma doce velhinha? -- beijou a bochecha dela


--É, eu acho. Mas agora que tenho vocês e tudo está maravilhoso nessa casa eu quero viver tudo o que tenho direito. O coração já anda bem melhor, posso andar com minha bengala um pouco, mas ao menos posso... Acho que ainda dá pra radicalizar um pouco antes de bater as botas! – sorriu


--Que negócio é esse de bater bota, menina, eu, hein? -- fez cara feia -- A senhora ainda tem muita lenha pra queimar!


Lourdes olhou para Juliana e suspirou. -- Que pena que você vai trabalhar no ano novo de novo! Queria tanto você aqui com a gente! -- acariciou o rosto dela


--Ah, eu também queria ficar com vocês, mas é melhor passar o natal junto, não acha? -- sorriu

 

--Isso é! E a festa é bonita, né? Cheia de gente, um neném pra eu brincar...


--Ricardinho já vai fazer dois anos no ano que vem! Dona Lourdes o tempo voa... -- pensou -- Ai, meu Deus!! -- exclamou apavorada


--O que?? -- respondeu assustada


--Eu vou fazer quarenta no ano que vem!! -- deu um tapa nas próprias pernas -- Olha, eu não devia admitir, mas vou lhe confessar um segredo! -- olhou bem para ela -- As celulites estão me tomando por inteiro! Tenho celulite nas coxas, na bunda e até na gengiva, se bobear! Encontrei alguns cabelos brancos até onde não devia!


Lourdes riu. -- Que nada! Você parece até uma menina! Pode muito bem dizer que tem uns vinte e poucos anos que dá pra acreditar.


--Que é isso, dona Lourdes? A força da gravidade se impõe sobre mim assustadoramente! Vejo tudo caindo dia a dia! Meus seios parecem duas meias cheias de água! E meus pés de galinha? Já são verdadeiras pernas galináceas a me tomar o rosto! -- pausou -- Acho que uma plástica ia bem, não é? -- esticou a pele do rosto com as mãos


--Mas você vê tanta coisa que não existe! Que peito caído? Que pé de galinha, menina? Que plástica? -- riu de novo


--E a barriga? Olha pra isso! – apertou a própria barriga – Olha só pra esse ventre! Pareço até aquelas mulheres de filme de terror que esperam um enviado!


--Espera um enviado... -- riu -- Você não devia se preocupar com nada disso, porque está muito bem! -- levantou-se para ir ao banheiro e foi caminhando devagar -- Além do mais Suzaninha vive dizendo que você é gostosa, maravilhosa, toda boa... ela vive aí babando por você, então tá tudo bem!


--Ah! -- riu -- Mas essa velhinha tá ficando tão safada! Bastou Suzana se aposentar que deu nisso! -- balançou a cabeça

 


17:30h. 19 de janeiro de 2004, Shopping Fashion Mall, São Conrado, Rio de Janeiro

Isa e Priscila passeavam pelo shopping.


--E então, Pri? Como vão as coisas? Tenho achado você tão diferente desde que aquilo tudo aconteceu... Às vezes me lembro do jeito desesperado que você apareceu naquele dia me procurando e me preocupo. Você só estuda, trabalha, nunca mais saiu à noite, nunca mais saiu com ninguém. Eu acho até estranho ver você mais do que dois meses sem um gatinho pra azucrinar! – brincou


--Ah, Isa, eu tô dando um tempo. Depois volto ao normal... eu acho. -- sorriu e mudou de assunto -- Além do mais esse ano é concentração total! Afinal de contas eu me formo! -- levantou as mãos -- Aleluia!


--Eu também! Vamos nos formar juntas no final do ano! -- olhou para ela sorrindo -- Parece mentira, né?


--Pois pra mim parece verdade das mais verdadeiras! Eu vou fazer especialização na área de implantodontia, vou trabalhar uns tempos aqui no Rio e depois voltar pra minha cidade e firmar meu consultório lá.


--Faz bem. As capitais estão saturadas de bons profissionais, enquanto que há várias cidades que necessitam do básico.


--Amiga, eu li algumas coisas que me deixaram horrorizada! Acredita que no ano passado o IBGE divulgou que cerca de 30 milhões de brasileiros, ou seja, 16% da população, nunca estiveram em um consultório odontológico? -- olhou para a outra


--Gente! Que coisa, hein? -- ficou pasma -- E por que isso?


--É que, além da falta de recursos no caso de muitas pessoas, ainda há muita gente acreditando que os problemas bucais estejam limitados apenas às cáries. Pois a boca é o órgão do corpo humano mais exposto a processos infecciosos e traumáticos!


--Humpf! Você acredita que eu tive um aluno que não escovava os dentes depois das refeições? Depois não sabia porque vivia cheio de doenças. -- Isa lembrou-se de Adauto


--A falta de higiene e de cuidados essenciais com a limpeza dos dentes e de toda a cavidade bucal é a principal responsável por doenças que vão desde uma simples gengivite até tumores. Traumas e outros agentes externos também causam complicações. Dentes quebrados ou mal posicionados, restaurações dentárias em excesso, próteses e dentaduras que machucam provocam lesões e infecções crônicas. --pausou -- A boca também serve de porta de entrada pra levar encrenca a outras partes do corpo. Infecções crônicas da gengiva, por exemplo, podem danificar fígado e rins. Por meio de abscessos na boca, aquele acúmulo de pus causado por inflamações, agentes nocivos podem se alojar no coração provocando até a morte. -- explicava -- É por isso que pacientes cardíacos são orientados a tomar antibióticos antes de cada procedimento dentário. 28

 

--Pois é, e tem tanta gente que não liga pra higiene bucal!


--Isa, olha só, pode acontecer com todo mundo, mas vocês que são lésbicas têm que ter um cuidado especial. -- aproximou-se dela para falar mais baixo -- Eu sei que vocês usam muito a boca e a língua na hora H, e o herpes é uma doença infectocontagiosa, sexualmente transmissível. Tem cada tipo de herpes medonho, amiga! Tem que ter cuidado! Ficar com a perseguida cheia de pereba não é mole!


A ruiva riu. -- Eu só faço amor com a Ed e sei que ela só faz comigo, a gente cuida da saúde, então não me preocupo!


--É, mas é bom sempre ficar esperta. Eu sei que ela beija o chão que você pisa mas, me perdoe a franqueza, Ed tem uma cara de sem vergonha...


--Ela é, mas é fiel! -- respondeu convicta -- Minha mecânica sem vergonha...  – sorriu


--E então? Depois de voltar do réveillon em Goiânia você foi passar um final de semana no Palácio da Alvorada? Brasília tava tão perto... -- deu um beliscão de leve no braço da outra

 

--Ai, pára, isso é coisa da mamãe. -- riu -- Aliás, acredita que ela e meu pai se encontraram sem querer no Shopping da Gávea, fizeram um tal de um tratamento áurico e agora estão numa boa? Vê se eu posso como isso? -- revirou os olhos -- Ela ainda comprou um tal de um anel que dizem ter vindo das mãos do Buda e vive com ele pra lá e pra cá. Acho que não tira nem pra dormir! -- riu de novo. A ruiva ainda não sabia que o pai estava desempregado


--Falando em anel, Lady quase enlouqueceu porque o anel que o namorado somebody love deu pra ela sumiu. Foi uma gritaria dentro de casa que parecia até que alguém enforcava um gato!


--Nossa! -- Isa riu -- E a maluca da Lila?


--Ah, ela pegou a mochila dela de noventa litros e foi passar as férias em Porto Alegre com a família. Aliás, nem sei férias de quê, porque aquela garota não faz nada além da picaretagem!

 

--Ela faz curso de que na faculdade? -- perguntou curiosa


--E eu sei? Acho que deve ser de estelionatária! -- riram

 

 

22:00h. 23 de janeiro de 2004, Ceasa, Estrada Nova Friburgo -Teresópolis, Nova Friburgo

Suzana e Seyyed acabavam de chegar no local onde ocorreria o encontro de motoclubes. Haviam muitas barracas de camping e dezenas de pessoas.


--Gostei de ver! -- Ed tirou o capacete e brincou com a delegada -- Já tá íntima da Suzuki, hein?


--Meu negócio é uma japonesa, não tem jeito! -- sorriu e tirou o capacete


--E como foi que ela reagiu com essa tua vinda aqui? -- perguntou curiosa


--Ah, ela não gostou muito, mas não brigou comigo e me deixou vir. Acho que hoje em dia ela se sente mais segura em relação a mim. -- desceu da moto -- E a Isa? -- perguntou

 

--Ela não me prende, não. Ficou meio preocupada com a viagem, mas, sem estresse. Amanhã ela vai pra um show na praia com as amigas. -- desceu da moto também -- Eu é que tenho ciúmes porque com certeza um monte de gente vai dar idéia nela! -- pausou -- Eita, que não é bom nem pensar! -- balançou a cabeça e riu


--Juliana vai folgar amanhã e no domingo dona Lourdes vai passar o dia com sua mãe. -- olhou para a mecânica -- Chegando do hospital, minha linda vai direto pra lá, pra casa da dona Olga.


--Eu sei. Minha mãe vira e mexe inventa esses negócios reunir as pessoas na casa dela. Isa vai pra lá;  Mariângela e Camille também.


Cachorrão, o presidente do Sede de Sangue, se aproximou com mais dois homens. -- Até que a tua convidada desenvolve bem, Suzana! -- olhou para a mecânica


--Viajar com uma R1 não é muito confortável! -- um deles disse para Ed


--Eu curto moto esportiva. -- respondeu simplesmente -- E então, falem pra novata aqui o que vai rolar nesse encontro! -- pediu sorrindo


--Bandas de rock, churrasco, entrega de troféus pra alguns motoclubes, sorteio de brindes e por aí vai. -- Cachorrão respondeu -- Suzana, aquela banda cover do Nazareth vai tocar!


--O que?? -- seus olhos brilharam -- Então nem precisa de mais nada! -- deu um soco no braço de Seyyed


“Eita, que mão pesada!” -- a mecânica pensava enquanto esfregava o braço


--Aí, você curte rock pesado? -- um dos homens perguntou a Ed


--Ah, eu... Legião Urbana conta? – sorriu


Os quatro riram e cada um deu um soco nos braços da morena. “Acho que não volto viva desse encontro.” -- pensou sentindo dores


***

Enquanto as bandas se preparavam para tocar, Seyyed prestava atenção nos motoclubes.


--Que clube é aquele ali, Suzana? -- apontou com o queixo


--Ah, são os Aventureiros do Norte! São os caras que curtem moto esportiva como você, mas eles radicalizam demais na minha opinião.


--Caraca, e aquele ali cheio de sidecars que parecem caixões? -- arregalou os olhos


--São os Excluídos. É o pessoal punk e gótico. -- olhou para outro lado -- Tá vendo aquele motoclube cheio de mulheres com motos cor de rosa? São as Charmosas do Asfalto. Só mulheres podem fazer parte.


A mecânica continuava prestando atenção a tudo até que sua atenção se volta para uma mulher morena, da altura de Isabela, cabelos castanhos lisos e repicados, magra e aparentando uns vinte e cinco anos. Ela estava junto com várias outras mulheres. -- E aquelas? -- perguntou sem tirar os olhos da morena


--São o LClub. Motoclube apenas de lésbicas. -- olhou para o palco -- Vai começar! -- puxou a mecânica pelo braço e foi andando


Antes de ir, Ed percebeu que a morena olhou para ela e sorriu. “Pare com isso, Ed!” -- pensou -- "O que diabos tá acontecendo com você?” -- balançou a cabeça como se quisesse expulsar os pensamentos e seguiu Suzana


***

Seyyed não conseguiu assistir nem ao primeiro show. As pessoas, inclusive a delegada, começaram a gritar e balançar a cabeça alucinadamente e a mecânica ficou completamente confusa. Afastou-se do tumulto e ficou andando pelo local, mãos nos bolsos e olhando as motos. De repente deparou-se com uma Harley Davidson que a enfeitiçou.

 

--Mas o que é isso?? -- perguntou para si mesma. Chegou bem perto da moto e ficou rodando ao redor dela -- Harley Davidson XL 1200 Custom, motor bi-cilíndrico em V a quatro tempos! Linda! -- falava sozinha


--Vejo que entende de motos! -- ouviu uma voz de mulher atrás de si


--É, eu... -- virou-se de frente para a mulher e percebeu que era a morena -- sou mecânica. -- calou-se -- "Nossa, mas ela ainda é mais gata do que eu achava!” -- pensou -- É difícil ver uma pessoa jovem de Harley. Geralmente o público preferencial está na casa dos quarenta anos.


--Eu gosto de Harley desde adolescente. Juntei dinheiro por anos pra poder comprar essa moto. -- sorriu -- Meu nome é Samira, e o seu? -- estendeu a mão


Samira vestia-se com uma calça de couro e uma blusa branca de alças finas bem colada no corpo.


--Seyyed. -- apertou a mão dela -- Prazer! – sorriu


--Seyyed... -- soltou a mão dela como se não desejasse fazê-lo -- Origem libanesa?


--Sim. Por parte de pai.


--Eu também. Meus pais são libaneses. -- calou-se por uns segundos e olhou bem para a morena -- Fala árabe?


--Pouco. Não tenho com quem praticar e já esqueci um monte de coisas. E você?


--Nada! Meus pais nunca me ensinaram. – riu


Ficaram uns instantes apenas se olhando. -- Você é convidada do pessoal do Sede? Da Suzana?

 

--Ah, então você conhece a delegada? -- sorriu cruzando os braços


--Como não conhecer? Meio LClub vivia atrás dela, mas aquela delegada nunca deu abertura pra ninguém! -- sorriu


“E pensar que Suzana disse que tinha inveja de mim por causa do meu sucesso com as mulheres!” -- pensou -- E agora ela é casada; assim como eu. -- pôs as mãos nos bolsos

 

Samira agiu como se não tivesse ouvido o comentário. -- Você é uma PP?


--Eu visto números maiores... -- não sabia o que ela queria dizer com aquilo


A garota riu. -- PP, sua doida, quer dizer Próspera Pretendente, uma candidata a fazer parte do Sede de Sangue.


--Ah, ainda bem que é isso porque cheguei a pensar que podia ser coisa pior. -- riu -- Não, por enquanto eu sou apenas simpatizante.


--Eu não acho que o Sede faça muito o seu estilo. Você tem muito mais o perfil do LClub.

 

--Eu qual seria esse perfil?


--Mulheres, lésbicas, interessantes e decididas! – sorriu


--Hum... -- sorriu -- Acho que se eu traísse o Sede de Sangue a Suzana ia ficar magoada comigo.

 

--E você não trai? Nunca? -- sorriu maliciosamente


Ed sabia o que ela insinuava. -- Não. Até hoje não.


--Sempre tem uma primeira vez, não é? -- aproximou-se dela sensualmente


--Olha, Samira. -- afastou-se -- É melhor eu ir porque o pessoal do Sede pode ficar preocupado comigo. -- passou a mão nos cabelos -- Foi um prazer te conhecer. -- piscou para ela e foi embora


Samira acompanhava a morena com o olhar e pensou em voz alta: -- Eu quero uma noite com você, Seyyed. E se quero, eu vou ter! – sorriu


***

Seyyed já havia conversado com várias pessoas do motoclube e até ganhou um par de luvas em um dos sorteios. Suzana fazia sua propaganda para todos os que conhecia.
As duas estavam sentadas em um banquinho almoçando no churrasco.


--Quero ver se vai dar conta de atender meu pessoal! -- a delegada brincou enquanto comia

 

--Eu posso me embananar toda, mas vou dar meu jeito. -- riu -- Loucura, nem tenho estrutura pra trabalhar com moto ainda... Vamos ver como vou resolver isso! -- deu uma garfada

 

--Diz uma coisa, por onde andou ontem? Você sumiu! -- bebeu um gole de suco


--Ah, eu... circulei por ai e depois fiquei conversando com uma garota do LClub. Ela até te conhece. É a Samira. -- deu outra garfada


--Sei... aquela que você comia com os olhos quando percebeu que existia. -- cortava a carne

 

Ed ficou sem graça e nada respondeu.


--Escuta uma coisa, Ed, eu não tenho nada com sua vida, mas se sabe que sua carne é fraca não dá abertura pra situações que te deixem vulnerável. -- deu uma garfada -- Isa não merece isso!


--Eu sei. -- olhou para a outra -- Eu nunca alimento situações, Suzana, te juro, tanto que nunca traí. Mas eu não sei o que anda acontecendo comigo... -- olhou para frente -- Na véspera da nossa viagem tive um sonho meio... quente, com outra mulher e isso... sei lá! -- deu uma garfada -- "Já foi a segunda vez que sonhei com Camille!” – pensou


--Você é uma pessoa espiritualizada, Ed. Reza, pede pra Deus te ajudar a não fazer besteira! -- parou de comer e olhou para a morena -- Se você tiver um caso com Samira, uma noite que seja, isso vai mudar sua vida! E pode mudar pra muito pior! Vale a pena um sofrimento desnecessário por conta de alguns minutos de prazer? Vale a pena perder a confiança da  Isa por causa de uma noite com alguém que você mal conhece? Acho que não. -- voltou a se concentrar no almoço


--Você tá certa e eu sei disso! -- balançou a cabeça -- Não vou alimentar situações com mulher alguma que não seja a minha. -- bebeu um gole de suco


--Até porque se você fizer besteira, isso vai acabar chegando aos ouvidos da minha mulher e ela pode pensar que eu tava na sacanagem também, e aí a coisa vai ficar ruim pra mim! -- olhou para Ed novamente -- E se isso acontecer, eu te dou uns cacetes, viu? -- ameaçou e voltou a comer


“Eita, que eu acho que realmente não volto viva desse encontro!” – pensou

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Músicas do Capítulo:

Diálogo Lady e Fernando:

Fogo e Paixão - Intérprete: Wando. Compositora: Rose Marie Burcci;

Eu te Darei o Céu - Intérprete: Roberto Carlos. Compositores: Roberto e Erasmo Carlos;

Que País É Esse? - Intérprete: Legião Urbana. Compositor: Renato Russo;

Ele Está Pra Chegar - Intérprete: Roberto Carlos. Compositores: Roberto e Erasmo Carlos;

Fica Comigo - Intérprete: Placa Luminosa. Compositor: Arnaldo Saccomani / Thomas Roth;

Amor Maior - Intérprete: Jota Quest. Compositor: Rogério Flausino;

Raios de Luz - Intérprete: Simone. Compositores: Cristóvão Bastos / Abel Silva;

Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda - Intérprete: Kid Abelha. Compositor: Hyldon;

Deixa Eu Te Amor - Intérprete: Agepê. Compositores: Agepê / Camillo / Mauro Silva.

 

Diálogo Lady e Lila:

Chora Coração. Intérprete: Wando. Compositores: Pedrinho Medeiros / Wando;

 

Temporal. Intérprete: Art Popular. Compositor: Leandro Lehart

 

Suzana canta:

I Wanna Know What Love Is.Intérprete: Mariah Carey. Compositores: Mick Jones / Lou Gramm. In: Memoirs of an Imperfect Angel. Intérprete: Mariah Carey. Island Records, 2009. 1 CD, faixa 17 (3min27)

 

[a] Faz Um Milagre Em Mim. Intérprete: Cristiane Ferr. Compositores: Kelly Danese / Joselito. In: Pérolas – Voltando Ao Primeiro Amor. Intérprete: Cristiane Ferr. 2012. 1 CD, faixa 5 (5min38). Não encontrei a gravadora

[b] Amado. Intérprete: Vanessa da Mata. Compositores: Vanessa da Mata / Marcelo Jeneci. In: Sim. Intérprete: Vanessa da Mata. Sony BMG, 2007. 1 CD, faixa 5 (4min11)

 


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Comentários para 16 - Quarta Temporada - TRANSFORMAÇÕES II:
NovaAqui
NovaAqui

Em: 16/06/2024

Será que Ed está começando a enjoar da Isa?

Sonhando com Camille! Dando papo para outras meninas!

Suzana já mandou a letra para ela 

 


Solitudine

Solitudine Em: 16/06/2024 Autora da história
Olá querida,

Seyyed está confusa e balançada. Vamos ver no que isso vai dar?

Beijos,
Sol


Responder

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jake
jake

Em: 23/03/2024

Eita cap .maravilhoso ,perfeito.

PS:   Ed tá que tá  na balança....!!!

Obrigada por cada palavra escrita nesse cap.Grata.

 

 


Solitudine

Solitudine Em: 24/03/2024 Autora da história
Olá querida!

Fico feliz que continue empolgada com o conto!

E Seyyed balançou tanto para lá e para cá... você verá no que tudo vai dar.

Beijos,
Sol


Responder

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Samirao
Samirao

Em: 23/03/2023

Falta um tico! Huahuahia


Solitudine

Solitudine Em: 26/03/2023 Autora da história
Eita boi!! kkkk


Responder

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Samirao
Samirao

Em: 23/03/2023

Amore lets go!


Solitudine

Solitudine Em: 26/03/2023 Autora da história
Lets go!


Responder

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Alexape
Alexape

Em: 10/12/2022

E a cada temporada vai ficando melhor! Viciei!


Resposta do autor:

Olá querida!

Que bom!!!

Aprecie sem moderação, mas não deixe de se alimentar tampouco de beber água!

Beijos.

Sol

Responder

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Seyyed
Seyyed

Em: 13/09/2022

Cararra temporada já tá foda demais!!! Ei tô no cio? Tô querendo pegar geral? A ruiva não dorme no ponto mas tá foda hehe


Resposta do autor:

Você andava meio confusa... Aí, se assanhou meio demais da conta! rs

Que bom que as temporadas continuaram te prendendo aqui.

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 13/09/2022

Uhuhuhu a delega me fez chorar e depois mandou ver no casamento QUE DEMAIS!!! Olha eu com ciúmes da loura, uia... Lady Lady hehe minha sogra nem falo nada... Cami com esses parentes ninguém merece hahaha

Eu comi o outro capítulo com farinha e tô doida nesse aqui e agora confundiu vou reler os dois


Resposta do autor:

A delegada só precisava colocar a casa interior em ordem. E quando o fez, concretizou o que faltava.

Você andava meio dividida e perdida em sentimentos que não conseguia traduzir. rs

Confundiu? Fiquei tranquila que relendo você se esclarecerá. E se não, pode perguntar.

Beijos,

Sol

Responder

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Samira Haddad
Samira Haddad

Em: 23/04/2020

A quarta e a sétima temporada são as que eu mais AMO!


Resposta do autor:

Também são as que eu mais gosto.

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 20/04/2020

Solzinha!

 

Se começasse a ler hoje, com certeza seria team Cayyed... Rola uma química entre elas, aquela história dos verdes quando se encontram com os azuis, o mundo até para!

Masssss... 

Lembro quando juntei Isa e Camille, que confusão! Kkkkkk... Não dá pra imaginar as duas juntas nem por decreto!

 

Beijossss


Resposta do autor:

Gabinha!

Tem isso de Cayyed? kkk

Eu ri muito daquela confusão.

Beijos,

Sol

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 19/04/2020

Olá Solzinha!!

 

Começou a fase fofa da Ed e da Camille... Lembro que eu torcia tanto por elas... São fofas.

Hoje em dia, se me permitisse mudaria a música que a Camille queria dançar com a Ed (a da história é maravilhosa), mas hoje pra mim seria “Dançando” da Pitty.

 

Juliana... Juliana, por isso sempre gostei dela!

 

A Deusa... Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk......

 

Olha a Samira decidida! Humm...

 

Beijos

 

 


Resposta do autor:

Olá Gabinha!

Lembro que você era da campanha da Javel Ed e Camille forevers! kkkk E o grupo das Ed e Isa tinha Bibih como a mais árdua defensora. Aí um dia você bobeou e escreveu: Isa e Camille e foi um fuzuê de revolta no meio da mulherada! kkkkk

 

A música de Seyyed e Camille não foi escolhida em vão. Pode levar fé! ;)

Beijos,

Sol

 

 

Responder

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