Após uma época de decadência sobrevém o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este movimento não é gerado pela força. O movimento é natural e surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo é introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano.
“Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz: e no mundo tereis tribulações, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.”1
Quarta Temporada - TRANSFORMAÇÕES I
18:40h. 01 de fevereiro de 2003, Edifício Rubro Negro, Flamengo, Rio de Janeiro
Priscila chegava do hospital universitário. Antes de abrir a porta já era capaz de ouvir a música tocando no último volume. Lady cantava com voz de choro.
-- Mas o que...? -- a morena perguntava para si mesma
--Melhor assim, que apaguei seus sinais, dentro de mim, e tudo que eu fui capaz, mas como amei, sem limites, sem tréguas, ai, ai, ai... sempre vou por onde o amor, me leva!! -- Lady cantava berrando -- Ai, meu Pai, ai,ai,ai!! -- chorava -- Matai-me enquanto sou anjo!!
--Pelo amor de Deus, Lady! -- entrou no quarto da outra, que estava deitada na cama abraçada ao rádio -- Abaixa o volume e grita em silêncio porque daqui a pouco o síndico vem aqui reclamar dessa barulheira! -- pôs as mãos na cintura fazendo cara feia
--O que?? -- a outra perguntou -- Ai, que sofrimento, ai, ai, ai!! -- chorava
--Além de doida ficou surda é?? -- foi até a parede e desplugou o rádio da tomada -- Pronto! Chega disso!
--Priscila, por favor! -- levantou-se da cama chorando e plugou o rádio novamente -- Respeite minha dor! Eu preciso de música pra acalmar esse bicho que me rói no peito!
--Mas até agora sofrendo por causa daquele Antunes reclamão e horroroso? -- pôs as mãos na cintura
--A dor abunda em minh’alma!! Eu preciso cantar, Priscila! Uma força me leva a cantar! Uma força estranha... -- chorava
--Diminui o volume, tá bom? A vizinhança não tem culpa que você arruma esses namorados bomba e depois fica aí nessa agonia toda! -- saiu do quarto da outra e foi direto para o próprio quarto
--Táxi preto!!! Você é feito de aço, fez o meu corpo em pedaço, ai, ai, ai, ai, ai, ai... -- Lady cantava como se estivesse morrendo -- Táxi preto, com o seu ronco maldito, ai, ai, ai é muita dor, ai, ai, ai, é muito amor! -- chorava
--Por que eu tenho que passar por isso, haveria uma explicação?? -- Priscila perguntava aos céus enquanto se despia para tomar banho
A morena tomou banho ao som de muita lamentação e música dor de cotovelo, vestiu-se e foi estender a toalha. Nisso a campanhia toca. -- Hum... -- fez um bico -- Já deve ser o síndico ou algum vizinho pra reclamar! -- foi ver quem era -- Sabrina! -- abriu a porta e sorriu para a garota
--Meu mundo caiu, e me fez ficar assim, você conseguiu, e agora diz que eu sou ridícula... ahahahahahah!!! -- Lady cantava e gritava chorando
--Oi, Priscila. -- sorriu e deu beijos de comadre -- Gente! Nunca imaginei que vocês curtissem esse tipo de música! -- comentou surpresa
--Eu, hein, Sabrina, abre o olho e olha pra minha cara! Isso é coisa da Lady! -- deu espaço para que entrasse
--É a segunda vez que venho aqui e essa garota chora desesperada! -- sentou-se
--Pra você ver que existem outros batismos de fogo fora das montanhas... Esse é o meu! -- sentou-se também -- À propósito, assisti à sua entrevista na Marcília e fiquei impressionada! Cheguei a te aplaudir de pé!
--Nossa! -- exclamou surpresa -- Vindo de você é um tremendo elogio!
--Quem é? -- Lady fazia voz fina -- Sou eu. -- voz grossa -- O que é que você quer? --voz fina -- Você. -- voz grossa -- É tarde. -- voz fina -- Por que? -- voz grossa -- Porque hoje sou eu que não quero mais você. Por isso, fora, esqueça meu rosto, meu nome, esta casa, e siga seu rumo!!! Porque pra esquecer, você tem experiência!!! -- voltava a cantar com voz fina -- Ai, ai, ai, ai, meu Pai, ai, ai, ai!!! -- gritava
Priscila e Sabrina não agüentaram e riram.
--Essa aí é totalmente louca! -- a escaladora balançava a cabeça
--Vem morar aqui, Sabrina? Pelo amor de Deus, a vaga de Tatiana está aí e eu temo pelo meu futuro!
--Ai, ai, meu Pai, é muita dor!! Ai, ai, ai, meu Pai, é muito amor!! Ahahahahahahah!!!!
--Mas eu já tenho casa, mulher! Venho fazer aqui o que??
--Sabrina, agora que você ficou zen bem que podia me fazer essa caridade!! -- pôs as mãos diante da outra como se rezasse
--Não exageremos!! -- riu
--De noite, eu rondo a cidade, a te procurar, sem encontrar, no meio de olhares, espio, por todos os bares, você não está, volto pra casa abatida, desencantada da vida!!! -- cantava com desespero -- Ai, que sina bandida, meu Pai, ai, ai, ai!!! -- chorava
--Eu odeio essa música!! -- Priscila fechou os olhos -- Controla o ódio, Priscila, é pro seu próprio bem! -- disse para si mesma
--Ahahahahahahahahah!!!!!! -- Lady berrou ensandecida
Sabrina deu um pulo na poltrona e olhou na direção do quarto de Lady. -- Qual o problema dela, hein??
--Agora ela já imita até o papagaio do cão! -- Priscila abriu os olhos -- Chegou no fundo do poço! -- fez cara feia -- Ô, meu Pai, manda um marido pra essa criatura e tira ela do meu caminho, por favor! -- pensou -- Ou faz o coração dela parar de bater, uma coisinha assim, desse tipo...
--Será melhor eu voltar em outra hora? -- Sabrina perguntou desconfiada
--Nem se atreva! -- Priscila olhou para ela em pânico -- Não sabe o quanto me controlo pra não cometer uma loucura!! -- olhou na direção do quarto da outra -- Lady, pára com esse lamento infernal!!! -- gritou. Olhou para Sabrina -- Às vezes penso em jogá-la pela janela!
--Que é isso, Priscila, vocês moram no décimo terceiro andar!!
--Qual o problema de ser o décimo terceiro? Eu não sou mulher de ter superstições!! -- respondeu furiosa
--E nesse dia, então, vai dar na primeira edição: cena de sangue num bar, da Avenida São João!!! Não, não, não!!!Ai, ai, ai!!! -- cantava e berrava
--Bem... -- a escaladora ajeitou-se na poltrona -- vamos mudar de assunto. Eu vim aqui pra ver vocês e me despedir da Tati, mas vejo que cheguei um pouquinho tarde...
--Ela foi embora em meados de janeiro. -- suspirou -- Pena...
--Eu não pude vir em janeiro, foi um mês louco... -- passou a mão nos cabelos -- Uma coisa que não falei na entrevista... eu estive com a delegada Suzana quando fizeram a operação que prendeu o velho.
--Sério? -- perguntou surpresa
--Eles queriam a ajuda de montanhistas, então a delegada me chamou. Eu estava arrasada, recém chegada de viagem, mas fui. Duas colegas também foram junto. -- pausou -- Fiquei super triste quando soube que Suzana está entre a vida e a morte no hospital. Eu aprendi a admirá-la!
--É uma merd* o que acontece nesse país! Um monte de corrupto vivendo numa boa, enquanto os bons policiais vivem como se fossem bandidos! É uma distorção!
--Garçom, aqui, nessa mesa de bar, você já cansou de escutar, centenas, de casos de amor!! Ô, ô, ô... ai, ai, ai, ai!!! Ahahahahahahahah!! -- cantava e berrava
--Enquanto isso, tanta gente que podia não estar aqui... está!! -- Priscila tentava controlar a fúria
--Já pensou em aprender a meditar, Priscila?
--Ahahahahahahahahahahahahah!!!!!!!!! -- um grito apavorante ecoa pela casa. Em seguida ouvem-se barulhos de coisas sendo arremessadas contra a parede e se quebrando
Priscila jogou-se de joelhos diante de Sabrina. -- Eu patrocino tua ida pra PQP se você quiser, mas pelo amor do Everest, mora aqui comigo!!! Num dou conta, não!!! -- pediu em desespero
Lady continuava cantando e gritando loucamente.
10:40h. 02 de fevereiro de 2003, Edifício Andre Luis, Ilha do Governador, Rio de Janeiro
A campanhia da casa de Olga tocava com insistência. Ela fazia comida enquanto Mariano dava banho em Ricardinho. Maria de Lourdes fazia fisioterapia com Flávia.
--Pode atender pra nós, Flávia? -- Olga pediu da cozinha
--Eita, que eu quero saber quem é essa pessoa desesperada! -- Flávia dizia enquanto caminhava até a porta. Quando abriu deu de cara com Isabela que entrou como um foguete
--Onde está dona Olga? -- perguntou nervosa
--Bom dia pra você também, Flashdance! Ela tá na cozinha!
A ruiva correu para lá sem dar qualquer resposta.
--Nossa! -- Lourdes exclamou
--Juventude transviada, dona Lourdes! -- a fisioterapeuta brincou -- Vamos voltar ao nosso exercício. -- andou até a idosa
--Dona Olga, -- Isa entrou na cozinha sem cerimônias -- a senhora precisa fazer alguma coisa! Eu já não agüento mais discutir com Seyyed! A senhora precisa tirar da cabeça dela essa idéia maluca de doar um rim pra Suzana! -- parou ao lado do fogão e cruzou os braços
Olga terminou de cuidar do que fazia, fechou as panelas, diminuiu a intensidade da chama nos queimadores e olhou para a jovem tranquilamente. -- Eu sei que ela se decidiu por fazer isso. Ligou pra mim antes de ir no hospital conversar com Juliana.
--E a senhora não fez nada, não falou nada?? -- perguntou escandalizada -- Mas o que há de errado com vocês? -- riu brevemente por estar nervosa -- Dona Olga, a senhora tem noção de que Seyyed pode morrer? E de que pode ser um sacrifício vão porque Suzana pode rejeitar o órgão? Será que essa bitolação religiosa de vocês é tão grande que são incapazes de ver o óbvio? -- olhava para a outra sem compreendê-la
Olga riu, abaixou a cabeça e olhou para a moça novamente: -- Você não consegue entender, não é?
--Jamais!!
--Seyyed não decidiu isso de modo passional. Ela passou os últimos dias pensando e meditando, fez muitas orações e no final se sentiu segura pra fazer a escolha que fez.
--E como a senhora permitiu isso?? Se ela tivesse pedido minha opinião, eu...
--Ela não me pediu opinião! -- interrompeu a fala da ruiva -- Ela me comunicou e pediu minha bênção.
--E a senhora não brigou com ela, não tentou fazê-la mudar de idéia??
--Eu morri de orgulho! Por que iria pedir que voltasse atrás? Dona Lourdes parece que renasceu depois que soube disso, Juliana está de alma nova e, o mais importante, Suzana pode sobreviver! Veja quantas pessoas beneficiadas por uma atitude tão linda!
--Mas, meu Deus do céu!! -- olhou para cima e passou as mãos no rosto -- É tudo muito lindo, muito altruísta, mas e os riscos? -- olhou para Olga -- Ela pode morrer, será que só eu me importo com isso? Será que só eu tenho noção disso?? A senhora parece que não tá nem aí!!
Olga respirou fundo e respondeu depois de alguns segundos em silêncio: -- Seyyed é o que de mais bonito tenho na vida. Ela é meu orgulho, a dose certa de alegria e luz que Deus colocou do meu lado pra tornar minha passagem por essa vida uma coisa mais feliz. Perdê-la seria uma dor... impensável! Mas Seyyed sempre se dedicou a ajudar as pessoas, e isso é dela é a essência dela. Não faz isso porque se sente em falta, em dívida, como é o meu caso. Ela faz porque lhe é natural, tão natural quanto respirar. -- olhou firmemente nos olhos da bailarina -- Se ela decidiu assim eu jamais iria me opor! E eu sei que Deus vai ampará-la e o que vou fazer é ampará-la também, com meu apoio e minhas orações. Ao invés de brigar com ela, você deveria fazer o mesmo que eu. Será possível que ainda não sabe que sua esposa não volta atrás em decisões tomadas? Não sabe que essa teimosia é sua maior qualidade e seu maior defeito? Não a conhece até agora?
Isabela balançou a cabeça e saiu da cozinha sem dizer uma palavra. Passou como uma flecha pela sala, abriu a porta e foi embora.
--Tchau, hein? -- Flávia gritou
--Eu entendo a moça, Flávia. -- Lourdes falou -- Ela age assim por medo. Tem medo de perder Seyyed.
--Ela tem sim, eu também entendo. -- Olga entrou na sala -- Isa foi criada de modo a acreditar que o mundo deve girar ao redor dela. Tem muitas dificuldades em entender o raciocínio de alguém que pensa totalmente diferente disso.
--O que houve aqui? -- Mariano chegava com o bebê
--Isabela. -- Olga olhou para ele -- Queria que eu fizesse minha filha mudar de idéia quanto à doação do rim.
--Mas é assustador mesmo! -- pausou -- Vou falar com minha irmã e nós faremos uma novena pra Virgem. Vai dar tudo certo!
--Eu também quero participar dessa novena. Tenho rezado muito por Suzaninha e desde ontem rezo pra que esse transplante dê certo.
--Gente, eu sou fã da Mad Max, viu? Seyyed é demais! -- sentou-se na poltrona -- Mas também ando muito aflita por causa do Brito.
--Deu na televisão que eles pegaram um bando de cinco homens envolvidos na emboscada que fizeram a Suzaninha!
--Pois é, dona Lourdes, mas esses aí são só os pé rapados! A coisa vem de cima, envolve gente grande! Brito levou um tiro no braço e outro na perna durante a operação que pegou os caras. Macumba está mal no hospital e Lemos tomou um tiro no ombro. -- pausou -- Brito está comprando briga com gente grande! Já foi ameaçado pelo telefone e tudo e não quer mais me ver por causa disso... -- falou com tristeza
--A imprensa tem noticiado que a Polícia Federal também se envolveu no caso e que um caixa alta aí vai ser indiciado. -- Mariano falou enquanto se sentava com o menino no colo
--Mas meu namorado corre perigo... Tenho medo de que seja o próximo...
--Então me dá o nome dele que rezo por ele também. Vou botar tudo que é santo nos encalços desses malditos bandidos e eles não vão ter força e nem modos de fazer maldade com Brito e muito menos com minha Suzaninha! -- Lourdes exclamou com decisão
--Estamos vivendo momentos de tribulações. -- Olga se sentou também -- Temos que nos unir, pedir muita proteção a Deus e muita força! -- pausou -- Mas estou certa de que isso também vai passar!
--Que Deus te ouça, viu? -- Flávia respondeu esperançosa -- A bruxa tá solta...
***
Ana já havia feito uma verdadeira peregrinação por diversos centros de Umbanda e não obtinha sucesso. Conversando apenas com mães de santo sérias não conseguiu quem quisesse ajudá-la em seus intentos, até que, pela segunda vez, depara-se com outra golpista. Estavam no pequeno terreiro da mulher, situado em uma rua estreita próxima ao Largo do Machado.
--Finalmente, mãe Nagôia, eu encontrei alguém como a senhora! Eu tinha minha mãe de santo, sabe? Uma mulher daquelas! Pena foi que se aposentou... Depois estive em negociações com outra mãe de santo aí, mas ela deu pra trás na hora H! Nem chegou a fazer trabalho nenhum comigo! E desde então só venho me deparado com um bando de mãe de santo chinfrim, cheias de falsos pudores e moralismos imbecis! -- pausou -- E a senhora ainda tem um terreiro perto do metrô, olha que maravilha! -- sorriu e perguntou esperançosa -- Será que a senhora teria solução pros meus problemas?
--Mãe Nagôia dá ao sofredô aquilo di qui ele tem pricisão... -- balançou a cabeça enquanto fumava um cigarro de palha
“O problema dessas mães de santo é essa mania de viver fumando!” -- pensou -- É que... olha, são três problemas muito sérios...
--Num fale nada! -- levantou a mão e encarou com Ana -- Deixe que mãe Nagôia pergunta pros búzio! -- pegou um punhado de búzios e os arremessou sobre uma peneira -- Hum... Mãe Nagôia vê que tua minina te é mutivo de preocupação...
--Isso! -- Ana exclamou entusiasmada -- Ela está sendo vítima de perseguição no trabalho! -- afirmou enfática -- "Eita, que essa aí é quente!” -- pensou
--Sófri pirsiguição por parti di um hômi efeminado... -- cuspiu fumaça no ar
--É isso mesmo! -- os olhos de Ana brilhavam -- "E não é que esses búzios dão o serviço todo?” -- pensou impressionada
--O outro pobrema é... hum... us negócio de uma pessoa... -- fez cara de dúvida
--É sim, exatamente isso. Minha filha tem uma... -- ajeitou-se na cadeira -- companheira e... ela tem negócios que não têm ido muito bem...
--E essa cumpanheira vai entrá na faca... Mãe Nagôia pode ver os hômi tudo de branco ao redor dela... -- cuspiu fumaça
--Sim, ela vai doar um órgão... -- estava pasma -- "Gente, essa mãe de santo é o must!!” -- pensou -- Por favor, mãe Nagôia, eu não quero que ela morra. Ela deu um apartamento maravilhoso pra minha filha, deu carro... é uma... genra de ouro. E de mais a mais minha filha ficaria arrasada!
--É muita consumição em tua vida, muié! -- olhou seriamente para Ana -- Tu também anda precisada de um discarrêgo!
--É, eu também acho... como diria mãe Dadá, é muita pururuca em cima da gente!
--Inveja!! -- deu um soco na mesa
--Ah, eu sei... Minha filha e eu somos terrivelmente invejadas. Começa no seio da própria família! -- pensava na irmã
--Mãe Nagôia pode arresulvê tudo isso, e aqui dentro desse terrêro que tu vê! Só que tudo tem um preço... -- cuspiu fumaça
--E quanto seria? -- perguntou receosa
--Como é pobrema qui num si acaba mais... trabáio pra tua minina, trabáio pra tua genra, trabáio pra ti... -- cupiu fumaça no ar -- Mãe Nagôia vai pricisá de uns cinco mil reais...
--O que??????????????? -- Ana gritou apavorada -- Mas é dinheiro demais!!
--A sofredora podi pagá em dez vez sem juro! -- propôs
--Mas, minha mãe... -- passou a mão nos cabelos -- Como é que eu vou arrumar esse dinheirão todo?
--Ah, mas isso é cuntigo! Mãe Nagôia resolve os pobrema dus esprito e a sofredora resolve os pobrema da matéria...
--Ah, mas eu... -- pensou -- Vou precisar voltar outro dia e conversar melhor com a senhora porque eu não sei como vou conseguir tanto dinheiro. Nem tenho a quem pedir! O que eu diria? -- desanimou
--Hum... -- fez um bico
--É melhor eu ir... -- levantou-se -- Infelizmente não tenho condições de lhe dar uma resposta agora...
--Fia, teu sufrimento mi comoveu! -- apagou o cigarro e olhou para Ana -- Fica por dois e quinhentu! Mas aí é pagamento à vista!
--Faria essa caridade por mim? -- perguntou agradecida
--Mãe Nagôia recunheci uma mãe dedicada e sofredora quando vê uma! Teu sufrimento mi tocô! -- levantou-se
--Ah, então, tá ótimo! -- deu pulinhos -- Eu consigo esse dinheiro e venho aqui pra gente começar! -- abraçou a mulher com força
--E quanto tu vem? -- perguntou se desvencilhando dela
--O mais rápido possível! -- sem que a farsante esperasse, abaixou-se para beijar-lhe a mão -- Sua bênção, minha mãe!
--Ah... Deus ti faça fêmea! -- não sabia o que responder
Ana se despediu e foi embora excitada. Acreditava que seus problemas estavam resolvidos.
--Francamente, hein, Domingas? -- outra mulher aparece e dá um tapa na cabeça da dela derrubando seu turbante no chão -- Eu tive o maior trabalho pra conversar com essa maluca e pescar os problemas dela pra te dar tudo de bandeja e você me cobra cinco mil reais a ela logo de cara? Não pode fazer assim, não! -- cruzou os braços -- E ainda propôs pagamento em dez vezes sem juros? Isso aqui não é Casas Bahia, não, minha filha!
--Ah, mas eu reverti a situação a tempo. -- abaixou-se para pegar o turbante e se levantou -- E a maluca nem desconfiou de nada! -- sorriu
--Simplesmente porque ela tá desesperada! Vê se da próxima vez você vai mais devagar! -- fez cara feia
--Se estressa, não, Renata! -- colocou o turbante de volta na cabeça -- Mãe Nagôia dá ao sofredô aquilo di qui ele tem pricisão! -- sorriu
***
Seyyed havia acabado de fechar as portas da oficina. Antes disso, passou as últimas horas do dia instruindo os mecânicos quanto ao que fazer em sua ausência. Mariano e Camille acompanhavam seus movimentos e aguardavam a oportunidade para falar com ela.
--Pronto! -- caminhou até eles -- De agora em diante, até eu voltar, é com vocês! -- sorriu para eles
--Ed, queria que você soubesse que estamos todos orando por você e que eu admiro imensamente o que está fazendo! Vai dar tudo certo e você logo vai voltar! E Suzana vai ficar bem! -- Mariano disse com muita sinceridade -- Acho que você é uma criatura fantástica! -- sorriu
--Que é isso? -- abaixou a cabeça e olhou para ele em seguida -- Eu é que tenho que te agradecer por abrir mão de seus dias de aposentadoria pra me dar uma força. -- sorriu
--Você merece isso e muito mais! -- abriu os braços -- Deixa eu te dar um abraço?
--Claro! -- abraçaram-se e Mariano beijou a testa dela
--Ed... nós ainda temos que conversar. Será que teria um tempinho? -- Camille perguntou para a mecânica
--Tenho. -- olhou para ela
--Precisam de mim? -- Mariano perguntou
--Não. -- Camille olhou para ele -- A menos que Seyyed tenha algo pra tratar com você... -- olhou para ela
--Tá safo, Mariano. Pode ir cuidar da maravilhosa esposa que você tem. -- piscou para ele
O homem se despediu e partiu.
--E então, Camille? -- olhou para ela -- O que é que tá pegando? -- sorriu
--Eu sei que você vai se internar amanhã, deveria sair daqui com a cabeça fresca, mas eu tenho que te dizer uma coisa muito importante... -- pausou -- Teremos de fazer alguns cortes orçamentários, algumas mudanças... Nossas contas não estão bem... Seja aqui, seja em Goiânia... Eu quis conversar contigo sobre isso hoje, mas não houve como!
A morena pensou um pouco e colocou as mãos nos bolsos. Olhou para a loura e respondeu seriamente: -- Eu confio em você, Camille. Quero que trabalhe bem de perto com Mariano e Renan e faça o que tiver que fazer. Só te peço que não demita ninguém! Se ficar brabo mesmo, reduza os salários, mas não demita ninguém. E se faltar grana nessa oficina, se ficar insustentável, fala com a Isa. Ela movimenta nosso dinheiro e vai te ajudar com isso.
--Pode confiar em mim! Apesar da minha inexperiência vou me dedicar a essa oficina de corpo e alma! -- respondeu com muito sentimento
-- Eu acredito em cada palavra! -- sorriu -- E me encanto cada vez mais com você!
Verdes e azuis se perderam por uns instantes.
--Por que está fazendo isso? -- os olhares não se desviavam em momento algum
--Isso, o que?
--Essa doação?
--Meu coração me pediu pra fazer. Não havia como negar...
--Você faz tudo que seu coração pede?
--Faço! -- pensou : “Por que eu me prendo no olhar dela de uma forma inexplicável?” -- não entendia
--Não sabe o quanto eu te admiro!
--Não tem mais cismas comigo porque eu sou lésbica? -- perguntou à queima roupa
A loura ficou sem graça com aquela pergunta. -- Eu não sou mais aquela Camille mal humorada, revoltada e preconceituosa que você conheceu...
Ed balançou a cabeça e respondeu: -- Você mudou muito... É uma garota e tanto...
Camille corou e abaixou a cabeça. Olhou para a outra e disse: -- Eu sou atéia mas vou abrir uma exceção... Vou pedir a Deus pra que tudo dê certo nessa operação e que você volte logo...
--Que atéia é essa? -- riu
--Estou abrindo uma exceção... -- sorriu -- Já que você acredita em Deus, se Ele existe, há de te ajudar...
As duas gastaram alguns segundos se olhando sem nada dizer.
--Embora me ache muito barbeira... -- disse para quebrar aquele silêncio -- quer uma carona de moto até sua casa? Mesmo correndo o risco de apanhar da tua mãe, eu encaro. -- pausou -- Pensando bem, ela não teria coragem de bater numa mulher que está prestes a entrar na faca... -- brincou
--Tá, eu quero... -- sorriu -- Mas não corra, vá o mais devagar possível! Eu tenho medo! -- mentiu -- "Se eu pudesse, faria com que a ida até minha casa levasse horas...” -- pensou
***
Seyyed chegou em casa. Isa saía do banho. Já estava de camisola.
--Oi... -- a morena cumprimentou desconfiada
A bailarina olhou para ela e respondeu: -- Oi, Ed...
--Que pena que já tomou banho... -- não sabia o que dizer -- Eu vou fazer isso agora... -- sorriu. Isa não disse coisa alguma
Ed entrou no banheiro, despiu-se e entrou no box. Abriu o chuveiro e ficou pensando: “Isa e eu discutimos praticamente todos os dias por causa dessa operação... ela também anda tão nervosa desde que soube que foi cortada do tal espetáculo...” -- suspirou -- “Queria muito o apoio dela em uma hora como essas mas acho que não posso contar com isso...” -- concluiu com tristeza
A ruiva penteava o cabelo e pensava: “Que tipo de mulher eu sou? O amor da minha vida vai operar amanhã e eu só sei discutir com ela por causa disso...” -- estava com raiva de si mesma
Quando saiu do banheiro, Seyyed encontrou sua mulher sentada na cama. -- Vem cá, vem? -- pediu com delicadeza
A morena se sentou em frente a ela, que se movimentou para sentar-se em seu colo, envolvendo sua cintura com as pernas.
--Por minha causa estamos perdendo tempo demais com bobagens... -- começou a mexer no cordão da outra -- Em uma hora dessas eu deveria estar cuidando de você... -- beijou-a rapidamente
--A gente briga quase todos os dias... -- segurou o rosto dela -- pensei que eu fosse me internar amanhã sem nem trocar qualquer palavra contigo...
Isa abaixou os olhos e continuou brincando com o cordão da outra. -- Eu jamais deixaria isso acontecer... -- beijou-a -- Mas reconheça que ambas erramos. -- olhou para a morena -- Você tomou essa decisão de doar um rim pra Suzana e sequer conversou comigo a respeito... Sua mãe sabia, Juliana sabia e eu soube depois de todo mundo! -- falou chateada
--Foi a terceira a saber.
--Não acha que eu deveria ter sido pelo menos a segunda? Sou sua mulher, Seyyed, esqueceu disso?
--Eu agi errado, desculpe. É que na verdade eu tinha certeza de que você não concordaria e... -- pausou -- É, eu agi mal... -- reconheceu -- Por favor, me perdoe.
--E eu fui errada em ter reagido tão mal... É que morri de medo de te perder e... -- acariciou o rosto dela -- Perdoe, amor, fui uma idiota! Tenho sido uma idiota!
--Tá tudo bem... -- beijou-a -- Mas eu precisava muito contar com seu apoio...
--Você vai contar com meu apoio, sim! -- olhava nos olhos da morena -- Eu vou ficar do seu lado e vou orar muito pra dar tudo certo! -- beijou-a -- Vou cuidar de você... -- envolveu o pescoço dela com os braços -- Eu te amo, te amo, te amo... -- beijou-a mais intensamente
--Não me provoca, garota... -- sorriu enquanto sentia a ruiva mordendo seu queixo -- Eu vou operar amanhã, não posso passar a noite fazendo amor com você e já tô morrendo de vontade de fazer isso... -- beijou-a e mordeu seu lábio inferior
--Então sossega! -- deu um tapinha no braço dela
--Parei! -- beijou-a
--Sossega! -- colocou a mão sobre os lábios da mecânica, que ficou beijando seus dedos
--E o espetáculo de março, hein? Como ficou aquela história, afinal? -- perguntou olhando para ela
--Eu estou totalmente fora... Mas que se dane! -- deu de ombros -- Também, eu nem queria mais participar daquele espetáculo tão sem conteúdo! -- respondeu com despeito -- Outros convites melhores virão!
--Certamente virão, mas não fique se queimando por aí... -- passou a mão nos cabelos dela -- Nunca mais brigue por causa de uma personagem. Isso fica feio pra você e não pros outros.
--Ah, Ed, aquela bailarina sem graça não merecia aquela consideração toda...
--Tudo bem, mas nunca mais faça isso. E nem fique falando do espetáculo desse jeito, porque fica parecendo que está com despeito. Não se queime, garota! As fofocas se espalham muito rapidamente...
--Tá bom, Ed... -- não queria mais ouvir aquilo -- Vamos nos concentrar em você que é muito mais importante que qualquer espetáculo. -- beijou-a
--Mas eu sou um espetáculo! -- brincou
--Hum... -- beijou-a -- O melhor espetáculo de todos... -- sorriu -- E eu queria muito o papel principal dessa super produção... -- beijou-a
--Você é a solista do espetáculo. Papel principal, -- mudou as posições e rapidamente deitou a ambas na cama, ficando por cima de Isa -- único e absoluto! -- beijou-a
--Pensei que quem fosse operar não pudesse fazer amor a noite toda... -- deslizou um pé sobre a perna da amante
--Talvez por meia noite não dê problema... -- sorriu e beijaram-se com paixão
***
Juliana acabava de sair da CTI. Vinha pelos corredores orando fervorosamente para que Suzana resistisse a uma operação que duraria de quatro a seis horas, como é o caso de um transplante. Não se podia esperar mais, era um risco muito alto, porém não havia outra coisa a se fazer. Orava também para que nada de mal acontecesse com Seyyed e para que seu gesto tão bonito não fosse em vão.
Nem percebeu que Brito se aproximava mancando. -- Juliana?
Olhou para ele surpreendida. -- Olá, Brito. O que faz aqui a essa hora da noite?
--Vim saber notícias da chefe e te dizer que finalmente conseguimos que a polícia protegesse ela aqui no hospital. A partir de hoje vai ser assim, e pra começar, nesta noite eu ficarei aqui.
--Ai, graças a Deus! Eu morria de medo que eles viessem aqui pra terminar o servicinho sujo! -- passou a mão nos cabelos -- Suzana está na mesma, Ed se interna amanhã e a operação será depois de amanhã, se Deus quiser. -- olhou bem para ele -- E você, como está? Sei que foi baleado naquela operação...
--Estou bem, só um pouquinho manco. -- sorriu e endireitou a gola da camisa
--E quanto aos outros?
--Lemos está bem e Macumba totalmente fora de perigo. -- pausou -- Eu quero fisgar o peixe grande, Juliana... É só uma questão de tempo...
--Flávia me contou sobre como você está dedicado a isso. E ela está muito chateada porque se afastou dela...
--Estou protegendo ela de sofrer algum mal por minha causa!
Riu brevemente. -- Aprendeu direitinho com sua chefe, não é? Mas, creia no que vou dizer, dói muito quando vocês fazem isso!
--Acha que é fácil pra nós?
--Sei que não é, mas pelo menos telefone... Ou apareça escondido na casa dela, evitando ser seguido, ser visto, sei lá! Mas não desapareça porque isso dói demais!
--Tudo bem, eu vou procurá-la... -- pensou -- Não sabe como sinto falta dela... -- suspirou
--E se cuida, tá? Vocês correm riscos demais...
--Confio em São Jorge guerreiro. -- pegou um patuá pendurado no pescoço e o beijou -- E confio que terei minha chefe de volta!
--Eu também quero minha índia de volta... -- suspirou -- Mesmo que não seja pra ficar comigo...
--Eu, hein, por que diz isso? -- olhou para ela espantado -- Ela te ama, você tem dúvidas?
--Eu sei que ela me ama, só que também sei que não posso competir com certas coisas...
--Competir com quem? Ela não tem outra mulher!
--Tem sim.
--E quem é essa??
--Liberdade... -- respondeu pensativa -- Suzana sempre foi e sempre será dela...
***
Seyyed já estava internada e o processo de transplante estava prestes a ser iniciado. Naquele dia as duas oficinas, a carioca e a goiana, não abriram as portas. Olga, Mariano, Maria de Lourdes, Camille, Renan, Flávia e outras pessoas amigas estavam na entrada do hospital orando pelo sucesso do procedimento cirúrgico. Mariângela havia ficado em casa com Ricardinho, mas orava também. Isabela e Juliana, que ainda não haviam se encontrado desde que toda a história da doação começou, acabaram inevitavelmente se esbarrando nos corredores do Silva Avelar.
--Você... -- a ruiva parou de andar, sorriu sarcasticamente e olhou para a outra de cima a baixo com desprezo -- é incrível como desde que te conheço você só sabe trazer problemas na vida de Seyyed!
--Ah, é? -- olhou para a bailarina com o mesmo desprezo -- Engraçado porque na minha época ela nunca experimentou crise alguma e bastou colar contigo pra viver tendo um problema atrás do outro...
--E quem te disse que ela tem problemas por minha causa, posso saber? -- perguntou desafiadora
--Dona Lourdes está na casa da mãe dela e ouve muito bem!
--Aí ela junta contigo e a fofoca corre solta...
--Escuta aqui, ô medusa do Municipal, -- agarrou Isa pelo braço -- tá chamando minha velhinha de fofoqueira, é?
--Pode me soltando, sua doida! -- deu um safanão na outra para se libertar -- Você não tem vergonha na cara, não? Além de ter feito a Ed aturar seus escândalos e pagar suas contas, já que a madame ficou doentinha, ainda fez chantagem emocional pra ela doar um rim pra sua delegada? -- falou elevando o tom de voz
--Eu nunca fiz chantagem emocional nenhuma e doentinha é sua mãe, que tem mania de grandeza! Maluca, que só sabe pagar mico! -- também falava alto
--E a sua que nem te quer? Acha que pode falar o que da minha mãe, sua mulherzinha baixaria?
--Ah, como se você fosse tão fina só por causa do teu balezinho de merd*!
--Eu sou uma artista, minha querida, ao contrário de você que é uma enfermeirazinha de hospital que não evolui nunca!
--Artista? -- riu -- Você é uma altista, isso sim! Só pensa em si mesma, garota seca, feia, metida, moranguinho dos infernos! -- estava quase aos berros
--Você nunca suportou o fato de que Ed largou você, sua recalcada, e quis ficar comigo!! -- sorriu -- E ela beija o chão que eu piso!
--Eu tenho é muita pena dela por ter caído na esparrela de ficar contigo! Uma bailarina da coxa fina, metida e arrogante, filha de uma megalômana doida e de um coroa ridículo que vive à caça de fofuchas!
--Pelo menos eu tenho uma família, e você que é jogada fora e vive mendigando o amor de uma pessoa e outra?
--Ah, mas eu desejo quebrar tua cara há séculos e é hoje que eu vou fazer isso! -- avançou no pescoço da outra e apertou com força
Isabela sentia falta de ar e no desespero deu uma pernada na japonesa. As duas caíram juntas no chão.
--Mas que diabos é isso aqui? -- Débora vinha de cara feia -- Juliana, você enlouqueceu ou o que? Tem até platéia vendo isso! -- pôs as mãos na cintura
Isabela olhou ao redor de si e viu que várias pessoas assistiram àquela confusão de camarote. -- Meu Deus, que vergonha! -- fechou os olhos
A japonesa se levantou e falou batendo palmas: -- Ô, minha gente, vocês não têm mais o que fazer, não? Circulando, meu povo, isso aqui é um hospital, não é bagunça, não! Eu, hein, tão pensando o que? -- as pessoas foram se dispersando -- "E não é que imitei Suzana e deu certo?” -- pensou
--Vê se não fica dando mole de dar showzinho de vale tudo no hospital! Você sabe que o diretor está por aqui contigo desde o lance do político e dá um vacilo desses? -- Débora perguntou bem próxima a outra enfermeira
--Tem razão, foi um vexame, mas acabou aqui. -- respondeu envergonhada. Débora olhou para ela e Isa, balançou a cabeça e foi embora
A bailarina se levantou e ajeitou sua roupa e os cabelos. -- Nós deveríamos unir forças ao invés de estar batendo boca e digladiando pelos corredores... -- olhou para Juliana -- As mulheres que amamos estão em uma mesa de operação, tem um monte de gente lá fora rezando e a gente aqui atrapalhando a corrente com essas brigas bobas...
--Tem razão... -- considerou -- Mas não fui eu quem comecei!
--HOJE, realmente não foi! Mas aturei calada muita provocação sua!
--É... você tá certa... Suzana e Seyyed ficaram amigas e nós duas, até hoje, temos essas diferenças que nem se justificam mais... -- admitiu -- De verdade eu te peço desculpas por todas as agressões que fiz contra você. -- pediu com sinceridade
--E eu te peço desculpas pelo vexame de hoje e pelas coisas desagradáveis que falei...
A enfermeira olhou para o relógio. -- Calculo que já tenham começado.
--Então vamos rezar pra que tudo dê certo? -- propôs
--Vamos! Elas merecem! -- sorriu
***
--Ivone, meu... Sei lá, viu? -- a loura arregalou os olhos -- Parece que enterraram uma caveira de burro na porta da oficina que tá tudo virando de ponta a cabeça! -- pausou -- Aliás, enterraram uma ossada de burro em várias localidades porque o bicho tá pegando geral! Ô louco!
--Por que diz isso, Camille? -- a psiquiatra perguntou curiosa
--A delegada foi baleada, dona Lourdes passou mal do coração várias vezes, Vitória morreu, Ricardinho teve várias crises, mamãe levou um tombo dentro de casa, a oficina de Goiânia é um problema atrás do outro, a oficina daqui também experimenta uma crise financeira, Brito foi baleado, Flávia foi assaltada ontem quando saía da casa do meu tio... Em suma: tá uma merd*!
--A vida é cíclica, minha querida! Nós experimentamos momentos felizes, cheios de alegria e saúde, depois vêm os momentos de tribulação... É assim mesmo, eles se alternam! O que diferencia uma pessoa da outra é o modo como se encaram estes momentos tão distintos. Há aqueles que na alegria são petulantes e orgulhosos, há outros que na tristeza são depressivos e violentos... O que importa é que de cada estação da vida tiremos um ensinamento! Tem que se ter paciência!
--Eu até que tenho tido paciência... Tive vontade de demitir todos os mecânicos de Goiânia e a metade dos daqui, mas me controlei. Também tive vontade de falar umas poucas e boas pra uns clientes daqui mas engoli em seco. -- pausou -- Acho que tenho aprendido a controlar melhor minha fúria e sede de vingança.
--Que bom! -- sorriu -- Mas, em meio ao que me contou não haveria uma notícia boa sequer? Além da sua paciência redobrada, é claro.
--Ah, sim, claro, como eu poderia não te contar isso? Como você sabe, Seyyed doou um rim pra delegada. Fiquei com uma pá de gente em uma verdadeira concentração espiritual na porta do Silva Avelar por horas, até que Juliana e a metidinha chegam correndo pra avisar que deu tudo certo! A gente pulou tanto, se abraçou e fez uma bagunça tão grande que veio até segurança do hospital pra saber o que se passava. Pensaram que era arrastão, é mole? -- as duas riram -- Juliana e Isabela se abraçaram, dançaram roda e tudo mais... Parecia que eram duas alucinadas... Ô gente doida! -- balançou a cabeça
--Mas, vamos recapitular um detalhe... você estava rezando? Pensei que fosse atéia!
--Eu sou, mas entrei em recesso temporário. Agora já voltei às condições originais!
--Sei... -- sorriu
--Era por uma boa causa, não é?
--Claro. -- pausou -- E como você se sentiu quando soube que Seyyed iria fazer o que fez?
--Eu levei um susto... e me admirei. -- suspirou -- Ela é o máximo... -- gastou uns segundos calada e perguntou: -- Você me acha muito óbvia? Eu digo, no meu caráter sapatônico?
Ivone riu. -- Da onde inventa essas palavras, hein, menina?
--É que quando eu estava em Goiânia, Tamires falou assim na lata que eu era apaixonada por Seyyed. Como pode ter notado? Eu disfarço tão bem...
--Quando se gosta de alguém, deixamos escapar algumas coisas que as pessoas mais atentas percebem...
--Pois é, e ela percebeu... E ainda disse mais! Disse que o casamento de Ed e Isa tem vida curta. Que elas não combinam e que nós duas, ao contrário, temos tudo a ver! -- sorriu
--Vejo que você gostou de ouvir isso...
--Ah... de uma certa forma...
--E se acontecesse? Vamos supor que Tamires tenha razão. Se Seyyed ficasse solteira você estaria disposta a tentar com ela?
--Ah, eu... -- calou-se e olhou para Ivone de cara feia -- Eu não! Sou do tipo inoperante, você não se lembra??
--Ué? Mas até se a mulher que ama ficasse livre??
--Ô, Ivone, você tá querendo me confundir mas eu percebo qual é a sua! Eu estou convicta de minha inoperância! Nem me balança a possibilidade de ver Seyyed solteira! -- respondeu de cara feia
--Se diz isso...
--Eu sou uma solitária! "A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais."2
--“A solidão é um deserto que cada um povoa à sua vontade."3 -- respondeu
--Ah, não, Ivone, não começa porque você sabe mais e aí é covardia, meu!
--Mas eu não fiz coisa alguma. Apenas citei o meu conceito de solidão.
--Humpf! Eu me decepcionei contigo... pensei que você fosse da hora mas não é bem assim, não... -- fez um bico
--E por que? -- perguntou rindo
--Porque você não está me ajudando a minimizar minha homossexualidade! Às vezes eu me pego igual a uma besta olhando pra Ed e quando ela me olha a gente fica um tempo que parece eterno só olhando nos olhos uma da outra! Esse teu tratamento é muito caidinho, viu? -- cruzou os braços
--Mas, meu amor, nem eu e nem psiquiatra algum podemos impedir você de amar alguém ou de se sentir atraída por uma pessoa! Isso é natural...
--Mas vocês são ruins mesmo, hein? Bem fiz eu que não perdi meu tempo nisso e estudei engenharia! Ô louco!
--E além do mais, se até Seyyed já anda balançada aí é que eu não posso fazer nada mesmo!
--Êpa, peraí! Como assim até Seyyed já anda balançada? -- perguntou em choque
--Se vocês duas gastam segundos de encantamento presas sob o olhar uma da outra é porque ela anda balançada! Talvez nem se dê conta disso, mas... indiferente ela não é.
--Será?? -- perguntou esperançosa -- Você é entendida de sapatanice, deve saber... -- pensou e olhou bem para Ivone -- Ô, meu, será que no fundo você também não é das nossas, não, hein?
A psiquiatra riu gostosamente. -- Ai, Camille do céu, você é uma parada...
***
Priscila e Lady esperavam a chegada da nova colega de apartamento. Ela era filha de um amigo do pai da morena.
--Qual é o nome dela, hein, Pri? Da tal gaúcha que vem aí pra morar com a gente? -- Lady perguntou sentada na poltrona. Ainda estava triste pelo fim do namoro
--Jaqueline. -- respondeu entrando na sala -- E eu desejo fortemente que seja uma pessoa normal.
--Ah, é! Não gosto dessa gente louca! -- Lady respondeu mexendo nos cabelos. Priscila olhou para ela indignada
A campanhia toca.
--Vamos ver! -- Priscila foi abrir a porta
--Namastê! -- a moça cumprimentou no melhor estilo indiano
--Pra você também... Entra aí! -- deu passagem. Olhava para ela com desconfiança
Jaqueline era da altura de Priscila e regulava sua mesma idade. Era loura dos cabelos compridos e cheios de tererês. Os olhos muito azuis contrastavam com a pele branca. A moça vestia-se como hippie e carregava uma enorme mochila de noventa litros nas costas.
--Namastê! -- cumprimentou Lady, que repetiu seu gesto com as mãos
--Ué? -- Priscila olhou para o corredor do prédio e depois para Jaqueline -- Cadê tuas coisas?
--Aqui! -- pôs a mochila no chão
--Só isso? Mas o quarto da Tati está completamente vazio! Não tem móveis e nem nada! Era tudo dela, e ela levou embora! -- a morena respondeu fechando a porta
--Não preciso de móveis. Tenho saco de dormir e isolante térmico. Além de uma barraca de camping pra duas pessoas. -- sorriu
--Gente! Quando eu me mudei pra cá trouxe um monte de coisas! Precisei até da ajuda de primo João e primo Tenório! -- Lady se lembrava -- Como vai se virar somente com o que traz aí nessa mochila, Jaqueline?
--Ah, por favor, gurias, não me chamem de Jaqueline. Jaqueline era uma mulher do mundo e ela morreu!
--Como é?? -- Priscila perguntou sem entender
--Meu nome é Lila Moksha. É um prazer conhecê-las.
--Eu sou Lady Dy. -- levantou-se da poltrona -- Como é isso de mudar de nome, hein? Você é alguma mística? -- perguntou com interesse
--Eu tive uns problemas de saúde, tranquei matrícula na faculdade e lancei-me em peregrinação na Índia por um ano. Voltei no final deste mês de janeiro.
--Nossa! -- Lady exclamou excitada
--Por que não volta pra peregrinar mais um pouco, hein? -- Priscila sugeriu -- Aproveita e leva a Lady que anda precisada de um trato espiritual!
--Bá, mas eu não posso! Estourei os limites do Master, do Visa e do American dos meus pais.
“Bela mística essa aí...” -- Priscila pensou revirando os olhos
--Mas, me conta, garota! -- Lady pegou a loura pelo braço -- Senta aqui e me conta tudo! -- sentaram na poltrona -- Você foi pra Índia, virou Lila Moksha... como foi isso de mudar de nome, de mudar de vida? O que significa esse teu nome novo?
--Uma vez na Índia eu vi a Luz e me converti. -- abriu os braços e olhou para céu. Em seguida olhou para Lady -- Conheci um ancião indiano que me batizou de Lila Moksha. Lila é a atividade criativa do Divino e Moksha é a experiência de libertação da alma. -- falava fazendo gestos
--Gente, que coisa forte! -- Lady exclamou
--Conheci também o Tao, o Zen e me deixei adornar por todas essas preciosidades da alma!
--Humpf! -- Priscila cruzou os braços -- Tudo bem, você vai viver só com essas tuas bugigangas aí, tá ótimo, mas vamos ao que interessa. Teu pai falou pro meu que você vai pagar tua parte no aluguel hoje. Afinal de contas, recusamos um monte de gente esperando você arrumar sua vida no Brasil de novo! -- sentou-se também -- Cadê a grana? -- olhou para a loura
--“A matéria é apenas um modo de movimento.”4 -- balançou a cabeça
--Tá, e aí? Tá querendo dizer que o dinheiro se movimentou e sumiu? -- cruzou o braços
--Tu tens percepção, Priscila. -- balançava a cabeça
--Ah, mas essa é boa! E quando a mulher vier me cobrar pelo aluguel eu vou fazer o que?? -- perguntou de cara feia
--Não-ação!
--Não-ação?? -- Lady perguntou sem entender
--“A não-ação não significa nada fazer e permanecer silencioso. Deixe que tudo ocorra como deve naturalmente ocorrer, de tal forma que sua natureza seja satisfeita.”5 -- Lila citou fazendo salamaleques
--Ah é, eu vou te falar o que vai ocorrer naturalmente se a gente não pagar o aluguel: -- respondeu com deboche -- nós seremos naturalmente despejadas!
--Acalma teus anseios, guria. -- levantou-se e pegou a mochila -- "Aqueles que seguem a ordem natural fluem na corrente do Tao.”6 -- andou para o corredor -- Vou conhecer meu quarto.
--Que garota espiritualizada, né, Pri? Coisa linda de se ver... -- acompanhou a outra com o olhar
--Espiritualizada? Isso aí é uma tremenda 171! -- fez cara feia -- E a gente vai ter problemas com o aluguel de agora em diante!
--Diz isso, não! Ela deve ter sido assalta no caminho, coitada! -- olhou para Priscila
--Ah, é! Com um tremendo relogião daqueles no pulso e uma mochila de uma tonelada nas costas ela foi assaltada e o ladrão só levou o dinheiro do aluguel?
--Aummmmmmmm!!! Aummmmm!!! Aummmmmmmmmmmmmmm!!! -- um estranho som ecoava pela casa, acompanhado por um cheiro de incenso que começava a chegar na sala
--Gente, o que é isso? -- Lady perguntou assustada -- Parece um bando de abelha!
Priscila olhou para o céu e perguntou: -- Por favor, eu pergunto na maior das humildades... Por que, meu Pai, por que?
***
Olga, Maria de Lourdes e Mariângela se divertiam com Ricardinho. Estavam com o bebê no quarto de Olga e Mariano.
--Ai, que coisa mais fofinha da vovó! Coisa linda da vovó! -- Lourdes beijava as mãozinhas dele
--Olha só as roupinhas que Mariano comprou pra ele ontem! Que amor! -- Olga mostrou três roupinhas que colocou sobre a cama
--Ai, que riqueza! -- Mariângela sorriu -- Quando meu braço melhorar em definitivo eu vou fazer umas roupinhas pra ele!
--As crianças são uma alegria na vida da gente, não é? -- Lourdes olhou para as duas mulheres
--Elas são... -- a costureira respondeu -- Pena que um bichinho tão lindo desses vai crescer e virar um canalha...
--Que é isso, Mari?! -- Olga perguntou espantada -- Se depender de mim e de Mariano ele não vai ser nenhum canalha!
--Sendo homem e com o pai que tem... Filho de safado, safadinho é!
--Não diga isso, minha filha!! Um homem não tem que ser canalha por obrigação! -- Lourdes ralhou com Mariângela -- Não diga isso! Além do mais temos que ter respeito pelos mortos!
--Humpf! -- Mariângela fez um bico e decidiu mudar de assunto -- E quanto à saúde dele, hein, Olga? Será que pode ficar curado daquela doença?
--A médica disse que não dá pra dizer nada ainda, mas que pelo menos pode ser assintomático... -- suspirou -- Ah, eu tenho minhas esperanças! Ele é muito novinho, está se tratando desde cedo, então as possibilidades são altas. -- pausou -- Quer dizer, a médica não disse exatamente isso, mas falou que há chances de postergação ou diminuição das conseqüências da infecção pelo vírus. Seja como for, confio em Deus! Ele está tomando remédios, se alimentando como deve e nós oramos muito por ele!
--Ah, mas vai ficar curado, sim, meu nenenzinho lindo! -- Lourdes continuava beijando as mãozinhas do menino -- E as coisas agora estão indo muito bem! -- olhou para Olga e Mariângela -- Seyyed volta pra casa amanhã e Suzaninha já escapou do perigo! -- sorriu -- Vem aí um tempo de felicidade!!
--Ai, dona Lourdes, eu nem dormia direito por causa de tanta coisa... Mal posso esperar pra ter minha Seyyed de volta! -- Olga sorriu
--Ela vai ficar aonde, Olga? -- a costureira perguntou
--Na casa dela. Isa vai cuidar dela e até Ana se ofereceu pra ajudar. Mas é claro que eu vou lá dar carinho pra minha filha!
--Com tanta notícia boa a gente vai poder comemorar o aniversário de um aninho dele! -- Lourdes continuava brincando com o bebê
--E o seu aniversário de oitenta anos também! Afinal de contas os dois aniversariam no mesmo dia! -- Olga lembrou
--Ah, não, Olga! -- olhou para ela -- Comemorar aniversário de uma velha? Tem que comemorar é o primeiro aninho dessa coisinha linda aqui! -- beijou os pezinhos dele
De repente o interfone tocou.
--Deixe eu ver quem é. -- Olga se levantou para atender e depois de um tempo retornou dizendo: -- É Romeu, o avô do menino! -- foi abrir a porta
Romeu chegou trazendo uma bolsa grande com latas de leite e um pequeno cobertor antigo.
--Ai, Romeu, que bom! Esse tipo de leite é tão caro! -- Olga exclamou
--Eu sei. -- pôs a bolsa no chão -- Veja! -- mostrou o cobertor -- Esse cobertor era de Silvio. Foi presente da falecida avó dele! Está velho mas conservado e limpo. -- olhou para ela
--E será de Ricardinho agora! -- sorriu -- Venha vê-lo. Aí você mesmo presenteia ele. -- foram até o quarto -- Dona Lourdes, Mariângela, este é Romeu, o avô do menino, pai de Silvio! Romeu, dona Lourdes é uma grande amiga e Mariângela é minha cunhada! -- apresentou
--Prazer! -- deu tchauzinho para as duas, que lhe retribuíram -- "Essa Mariângela é uma graça! Parece até uma bonequinha!” -- pensou empolgado olhando para a costureira
--“Humpf! Ah, não! Sinto que lá vem bomba!” -- Mariângela pensou fazendo um bico
***
Romeu almoçou na casa de Olga e parecia não querer ir embora. Estavam todos conversando na sala.
--Bem, -- Mariângela olhou para o relógio -- é melhor eu ir embora porque já são quatro e meia da tarde e o ônibus que eu pego é um cavalo de cachaceiro, pára em todo lugar. -- levantou-se da poltrona -- Perdoe ir assim depois do lanche, Olga, mas é o horário... -- olhou para a cunhada
--Já vai? -- Lourdes perguntou -- Espera Mariano!
--É mesmo! Ele pode te levar de carro. -- Olga concordou
--Ah, não, ele vai chegar cansado e eu não quero incomodar. -- deu beijos de comadre em Olga -- É melhor eu ir.
--Ah, mas eu também tenho que ir! -- Romeu entregou o neto no colo de Maria de Lourdes e se levantou de um salto -- Eu cheguei aqui, almocei, lanchei, em suma, dei uma de cara de pau! -- sorriu
--Ué? -- Lourdes perguntou -- Decidiu assim, de repente?
--“Hum... sinto que terei tribulações...” -- Mariângela pensou de cara feia -- Tchau, dona Lourdes. -- cumprimentou a idosa
--Vai com Deus, minha filha. Quando chegar em casa liga pra gente, pra se saber que chegou bem! -- pediu
--Pode deixar! -- ela respondeu
--Eu os acompanho até lá em baixo! -- Olga seguiu com os dois
Depois de se despedir de Olga na portaria do prédio, Mariângela não deu atenção a Romeu e foi indo para o ponto de ônibus. Ele foi correndo atrás.
--Mariângela, aonde mora? -- perguntou curioso ao se emparelhar com ela -- De repente nós vamos pra mesma direção! -- sorriu
--Ah, não mesmo! Nossos caminhos não vão se cruzar! -- afirmava com duplo sentido
--Você... não é casada, é? -- continuava seguindo a costureira
--Eu morri pro mundo, homem! Agora vivo pra minha filha, meu balé e minhas costuras! -- andava de cara feia
--Balé? Que encantador! -- sorriu -- Acho balé uma coisa tão feminina, tão leve, tão poética... -- falava com voz melosa. A loura fez um bico -- Sabe, eu sou sozinho há tanto tempo... qual Romeu não sonha em encontrar uma Julieta?
--Graças a Deus meu nome é Mariângela!
--Gosta de poesia? Eu escrevo algumas!
Chegaram no ponto de ônibus e pararam de andar. -- Você não vai embora, não, é? Vai ficar me seguindo? -- ela perguntou de cara feia
--Agora mesmo pensei em um belo verso! -- agia como se não percebesse que Mariângela estava contrariada -- Vou recitar! -- pigarreou -- Eu sou Romeu, vivia na casa do breu, a vida de mim se esqueceu, eis que te encontro, ó Julieta, perfume de violeta, desejo tua...
--Êta, vamos parando por aqui!! -- interrompeu-o com os olhos arregalados -- Olha lá onde essa rima vai parar!! -- viu que o ônibus se aproximava e fez sinal -- Eu vou embora, você fica aí e não se atreva a me seguir senão eu faço um escândalo! -- o ônibus parou
--Minha Julieta, não se vá desse jeito, não me faça essa falseta! -- olhou para ela com olhos súplices
--Vai fazer rima pro capeta, eu hein? -- entrou no ônibus e olhou para ele de cara feia -- Fica aí! -- passou pela roleta
Romeu suspirou e acompanhou o ônibus de Mariângela partir. -- Ela nem pra me dar um tchau... -- reclamou
“Eu não sei o que anda acontecendo na minha vida que agora, vira e mexe, me aparece uma figura dessa pra me perseguir! Vou dar queixa desse homem pra meu irmão!” -- pensou de cara feia -- "Eu hein? Ainda mais sendo pai daquele safado! Pai de safado, safadão é! Deus me livre, ave Maria!”
12:40h. 09 de março de 2003, Hospital Silva Avelar, Centro, Rio de Janeiro
Suzana se preparava para deixar o hospital. Juliana estava radiante ajudando sua amada a se levantar do leito. No quarto em que estavam, haviam mais três pacientes.
--Vem devagar, amor! -- estava abraçada com ela
--Eu sou pesada pra você, Ju. -- fazia força para não jogar peso sobre a japonesa
--Quando a gente faz amor eu agüento você em cima de mim sem reclamar... -- cochichou no ouvido dela
--Que é isso, menina? -- olhou espantada para todos os lados -- Alguém pode ouvir! -- caminhavam até o banheiro
--Fofinha! -- deu um beijo na bochecha dela
--Esse vestidinho aberto atrás é uma pouca vergonha! -- reclamava de cara feia -- Eu não gosto de usar vestido, ainda mais esse que me deixa com o rabo todo de fora! -- fez um bico
Juliana riu. -- Roupa de internação hospitalar é assim mesmo, sua boba! -- beijou o rosto dela novamente -- Sabia que eu tô feliz demais? -- sorria extasiada
A delegada sorriu também. -- Eu também... Não queria morrer agora sem ter feito um monte de coisas e... -- pausou -- Eu te amo, Ju. -- olhou para ela
--Eu também! Agora vem pro banheiro se vestir! -- entraram
Seyyed e Isa entraram no quarto quando Suzana e Juliana estavam no banheiro. A mecânica deduziu que estavam lá dentro e se aproximou da porta falando para provocar: -- Ué? Mas Suzana mal acaba de levar alta e já tá de sacanagem no banheiro? Fala sério, viu? -- piscou para Isa, que lhe sorriu
--Eu tô ouvindo isso aí! -- reclamou lá de dentro
--Ela tá te sacaneando, sua boba! -- Juliana beijou brevemente os lábios da amante
As duas saíram do banheiro. A delegada usava uma calça de moletom e uma blusa de alças. -- Oi! Tudo bem? -- cumprimentou Seyyed e Isabela sorrindo
--Comigo tudo bem e contigo melhor ainda, né? Ganhando alta hoje, vai pra casa... ô, vidão, hein? -- a mecânica brincou
--Se prepara, Suzana, que você vai receber um monte de visitas ainda hoje! -- Isabela comentou sorrindo -- Uma personalidade como você levando alta em um dia de domingo, já viu!
--Vai ter pagode e tudo! -- Ed brincou
--Ah, não, Ju! -- olhou para a japonesa desesperada -- Eu odeio pagode!
--É brincadeira dela, sua boba! -- beijou-a no rosto e sorriu
***
Suzana pensava que encontraria apenas Maria de Lourdes e, talvez, Olga no apartamento de Juliana, mas levou um susto ao chegar lá e encontrá-las com Mariano, Ricardinho, Flávia, Brito, Macumba, Lemos, Coimbra, Rodolfo e Jailson.
--Nossa, quanta gente! -- sorriu. Caminhava apoiada em Seyyed por um lado e uma bengala pelo outro
--Vamos lá, pessoal, abram alas pra ela entrar! -- Juliana estava radiante
--Ô, meu amor! -- Lourdes veio abraçá-la -- De bengalinha igual a mim? -- sorriu e a abraçou com força -- Rezei tanto por você, meu bem! Tanto!! -- beijou-a na testa
--Eu sei. -- segurou a mão da idosa e a beijou -- A benção, dona Lourdes!
--Deus te abençoe, Suzaninha!
--Ô, chefe, não quis usar uma cadeira de rodas? -- Brito perguntou preocupado
--Eu, hein, Brito, vê lá se eu sou mulher de usar cadeira de rodas? -- respondeu de cara feia -- Só se estivesse morrendo!
--Ela é durona, rapaz... Pra usar a bengala foi um custo! -- Ed respondeu brincando -- E pra usar a Seyyed foi um custo ainda maior!
--Cansada, querida? -- Olga perguntou
--Um pouco... -- a delegada respondeu meio constrangida
--Senta aqui, amor! -- a japonesa chamou e ela obedeceu, sentando-se do lado da amante
--Agora deixa eu te dar um beijo! -- Olga beijou a testa dela -- Que maravilha ter você aqui! -- sorriu
--Seja bem vinda, Suzana! -- Mariano cumprimentou. Segurava Ricardinho no colo
--Posso ver ele? -- a delegada perguntou
--Claro! Quer segurá-lo? -- ele ofereceu
--Pode? -- a delegada perguntou insegura
--Imagina! -- entregou a criança delicadamente nas mãos dela. O menino sorriu assim que ela o segurou
--Viu, Ju? -- Suzana olhou para a outra sorrindo
--Gostou de você! -- a enfermeira sorriu
--Fazia tanto tempo que eu não segurava um neném... -- comentou
--Ih, a delegada tá ficando light! -- Lemos brincou e piscou para os outros policiais
--Light, que light?? -- olhou para eles de cara feia -- Pra segurar criança tem que ter uma delicadeza, eu, hein? Vocês não entendem disso, não, é? -- olhou novamente para o menino e sorriu -- Bonitinho... -- beijou a mão dele
--É isso aí Katy! Esse povo não entende que os brutos também amam! -- Flávia brincou
--Katy?! -- não entendeu
--Você é nossa Katy Mahoney, como não? Ou se quiser uma coisa mais nacional, nossa Justiceira!! -- brincou -- Até que você tem alguma coisa daquela atriz que fazia a Justiceira... -- olhou para ela como se a avaliasse -- A Dalu Father!
--Flávia, você foi tirar essa lá do fundo do baú! -- Mariano riu
--Fala sério, vai? -- Suzana riu e novamente olhou para o bebê -- Só tem doido aqui, não é Ricardinho?
--Será que ela não vai ficar agoniada com essa gente toda aqui logo hoje, hein, Ed? -- Isa perguntou em voz bem baixa
--Daqui a pouco a gente vai, amor. -- beijou o rosto dela -- Por enquanto ela tá curtindo.
--Eu tô sabendo que vocês armaram uma ratoeira e prenderam logo cinco ratos de uma vez, não foi isso? -- Suzana perguntou aos policiais
--E vamos fisgar os peixes grandes também, é só uma questão de tempo! -- Brito respondeu endireitando a gola da camisa
--Eles acharam que ia ficar por isso mesmo, só que a gente mostrou que não tem ninguém aqui de sacanagem! -- Macumba comentou com ênfase
--E a gente tá lhe esperando voltar, chefe! -- Coimbra disse -- Aquele delegado substituto é muito fraco, não tem pulso nenhum!
--Ah, mas eu vou voltar, sim! Daqui a pouco eu melhoro e volto!
--Gente, vamos esquecer assunto de trabalho, pode ser? -- Juliana interferiu de cara feia
--Chefe, o rim novo ficou legal, né? Você tá se sentindo bem? -- Lemos perguntou para mudar de assunto
--Ficou legal... ele fala do rim igual que fosse uma roupa! -- Rodolfo zombou do colega
--Eu tô cansada, mas não sinto nenhuma coisa estranha, não. Tenho feito um monte de exames e até agora deu tudo certo.
--Mas você tá curada, chefe? Não precisa fazer mais nada? -- Jailson perguntou curioso
A delegada olhou para a amante esperando que ela explicasse.
--Ela vai ter que fazer exames semanalmente por um mês e vai ficar sob rigorosos cuidados pelos três primeiros meses, porque é o período no qual ocorre o maior número de infecções e rejeições. -- a enfermeira explicou
--Rejeição?! -- Ed perguntou se fingindo ofendida -- Suzana, você não é nem besta de me fazer essa desfeita! -- a delegada riu
--Não provoca a fera, Mad Max, fica na tua... -- Flávia brincou com a mecânica
--Mad Max, gente... -- Isa balançou a cabeça e riu -- Flávia você só vê filme velho! Katy Mahoney, a Justiceira, Mad Max, Flashdance...
--Ah, vejo que não esqueceu do seu codnome, não é, Flash? -- a fisioterapeuta respondeu brincando
--Pior é Camille, que se ela não chama de maluquete, chama de loura Belzebu! -- Mariano falou sorrindo
--Mas, e depois desses três meses, Juliana? -- Lourdes perguntou curiosa -- Acontece o que?
--Iniciam-se os exames mensais durante 6 meses. Esse controle vai se espaçando conforme a evolução clínica e o estado do rim. No entanto, seja como for, vai ter que fazer exames e tomar remédios pelo resto da vida.
--Ah, mas vai dar tudo certo, se Deus quiser! -- a idosa respondeu
--Claro que vai! -- Brito afirmou resoluto -- A delegada ainda tem muito vagabundo pra pegar! -- deu um soco na mão
--Não sabe como eu tô doidinha pra isso! -- ela sorriu
--Bem, Suzana chegou, e chegou muito bem, graças a Deus, agora é hora de deixá-la descansar! -- Olga disse a todos -- Seja bem vinda, meu bem! -- beijou a testa dela de novo -- E relaxe! Você ainda tem que se recuperar e recobrar as forças antes de pensar em trabalhar!
--Obrigada, dona Olga. Obrigada por tudo! -- agradeceu com muita sinceridade -- Tome, leve seu bebezinho! -- levantou o menino para ela pegar -- Desejo tudo de bom pra ele, assim como pra senhora e seu marido.
--Pra todos nós, meu bem! -- ela sorriu e pegou o menino no colo
--Fique com Deus, Suzana. Tudo de bom! -- Mariano apertou a mão dela
--Obrigado! Eu lhe desejo o mesmo! -- ela respondeu
As demais pessoas foram se despedindo e saindo. Ao perceber que Seyyed e Isabela também partiam, a delegada pediu: -- Ed, por favor! Eu queria ter uma conversa séria contigo!
--Ai, meu Deus, vou ser presa! -- brincou
--Isa, dona Lourdes, será que vocês me ajudariam a preparar o quarto pra Suzana? -- Juliana perguntou ao se levantar
--Claro! -- Isa entendeu a intenção da enfermeira -- Vamos ver isso!
--Vamos, dona Lourdes? -- ofereceu o braço para a idosa se apoiar
--Vamos, Juliana! -- Lourdes segurou no braço dela e as três foram andando para o quarto
--Eu... ainda não tive tempo de te agradecer!
--Relaxa! -- sentou-se em frente a ela -- Se cuida, cuida da tua mulher e de dona Lourdes e seja feliz. É o melhor agradecimento que pode me dar. -- sorriu
--Você doou um rim justo pra alguém que alimentou pensamentos tão negativos em relação a sua pessoa. -- balançou a cabeça -- A vida dá voltas, não é? Posso me lembrar de ter dito que morria de vontade de socar tua cara... E era festa de Páscoa... que vergonha!
--Isso é passado!
--Por que, hein? -- olhou no fundo dos olhos dela
--O mundo fica mais legal com você nele. E Juliana e dona Lourdes já estavam sofrendo demais...
--E você decidiu o que ia fazer e simplesmente foi lá doar o órgão?
--Resumidamente...
A delegada riu brevemente. -- Você não existe... Eu não te entendo mesmo!
--“Levante todos aqueles que estiverem caídos em seu redor. Você não sabe onde seus pés tropeçarão.”7
--Tenha certeza de que quando seus pés tropeçarem, eu vou estar por perto pra te segurar! -- respondeu emocionada -- Vou carregar essa parte de você comigo até o fim dos meus dias... -- pausou -- Eu só tive irmãos homens, nenhuma irmã... Pelo menos não pelo sangue. -- olhava fixamente para ela -- Mas pela alma, eu já tenho sim! Tenho você!
--Eu também não tive irmã... -- passou a mão sobre os olhos para secar uma lágrima -- Mas só até há pouco tempo atrás! -- sorriu
--Acho que agora até as nossas mulheres se dão bem... -- sorriu -- Pelo menos já podem conversar numa boa e tudo mais...
--É, delegada... a fase das cismas e antipatias já acabou! Pra todas nós!
Suzana movimentou-se para se levantar e Ed prontamente a ajudou.
--Queria te dar um abraço! -- a delegada pediu
--Vem aqui! -- abraçaram-se emocionadas
--Serei grata a você por toda a vida! Muito obrigada! -- chorava de forma contida
--Família é pra isso! -- chorava também
***
Seyyed e Isa chegaram em casa e foram para o quarto.
--Hoje foi um dia pra lá de bom! -- a morena exclamou enquanto se despia para tomar banho -- Suzana foi pra casa, tá todo mundo feliz... Muito legal! -- olhou para a ruiva -- Agora só falta uma coisa pra completar! -- puxou-a para junto de si e começou a beijá-la
--Hum! -- interrompeu o beijo -- Vai tomar seu banho que eu ainda tenho que fazer umas coisas. -- afastou-se dela sorrindo
--Ah, faz umas coisas aqui comigo! -- abraçou-a por trás e beijou seu pescoço
--Sossega, Ed! -- desvencilhou-se da morena mais uma vez -- Toma seu banho e te aquieta! -- riu e saiu do quarto
--Essa mulher me mata! -- balançou a cabeça e foi tomar banho
Uma hora depois, Seyyed entra no quarto novamente e se surpreende ao ver a mulher usando uma provocante lingerie vermelha. Estava de pé, com uma das pernas sobre a cama, passando creme.
--Ô, que delícia... -- olhou para a ruiva de cima a baixo com desejo. Caminhava para perto dela
--Eu, hein, Ed? -- perguntou fingindo inocência -- Nunca me viu me cuidando?
--Já... -- parou atrás dela e pegou o frasco de creme de suas mãos -- Mas agora, -- e o colocou sobre a mesinha -- quem vai dar um trato em você, -- puxou-a pela cintura de encontro ao próprio corpo -- sou eu! -- falava no ouvido dela
--Ai... -- gem*u arrepiada
A mecânica assaltou o pescoço da ruiva com beijos famintos enquanto suas mãos vagavam por toda parte do corpo da bailarina. -- Eu quero você agora! -- ordenou
--Faz o que quiser comigo, meu amor! -- fechou os olhos e agarrou a nuca da amante
Ed virou Isabela de frente para si e seguiu beijando com desejo ao longo dos seios. Tirou o sutiã dela e mordeu um mamilo.
--Ai! -- a bailarina cruzou uma das pernas ao redor da cintura da morena, que puxou-lhe pela outra perna para que as duas envolvessem seu corpo -- Ah, ah, ah!! -- sentiu que a amante beijava e mordia seus dois seios alternadamente
A morena deitou a ambas na cama e seguiu beijando sua mulher até livrá-la de sua calcinha e mergulhar entre suas pernas.
--Ai, amor... -- Isa gemia sob as provocações de Seyyed
A mecânica interrompeu o que fazia e ajoelhou-se na cama. Tirou a própria blusa e o short.
--Hum... já estava sem calcinha, não é, sua safada? -- a bailarina falou sorrindo
--Achou que eu ia deixar você escapar? -- deitou-se sobre ela e se beijaram. Encaixaram-se de tal forma que os sex*s ficaram em contato direto, se atritando
--Ai, amor, você é o máximo... -- Isa arranhava as costas da outra mulher
--Você é a mulher mais gostosa que eu já tive... -- sussurrava no ouvido dela
Movimentavam-se freneticamente até que Seyyed parou.
--Não... -- a ruiva deu um tapa no braço dela
--Calma... -- começou a se movimentar lentamente -- quem está com pressa? -- sorriu
--Você... não... vale... nada... -- Isa disse entre beijos -- Ah...
Novamente voltaram a se movimentar com fúria e depois de um tempo Seyyed parou.
--Não... -- a ruiva gem*u
A morena segurou-a pela coxa com força e movimentava-se bem devagar. -- Gosta assim? -- perguntou no ouvido da amante
--Não pára, não pára... -- arranhava as costas da morena
Colaram testa com testa e ficaram se olhando enquanto os movimentos mais uma vez se aceleravam. As respirações tornavam-se cada vez mais urgentes até que foram acalmadas por um orgasmo delicioso. Ed começou a estimular a ruiva com os dedos.
--Ah, ah, ah, amor, eu vou goz*r de novo, ai!!! -- chegou ao clímax mais uma vez
--Adoro ver você assim... -- beijava o pescoço dela -- Fica toda dengosinha depois que goz*... -- mordia sua orelha
--Hum... -- sorriu e segurou o rosto dela com uma das mãos -- eu te amo, sabia? -- beijou-a
--Ai de você que fosse diferente! -- sorriu e beijou-a também
***
Seyyed estava deitada na cama, nua e amarrada pelos pulsos na cabeceira. Isa estava igualmente nua e sentada sobre ela.
--Acha que esses paninhos que você usou pra me amarrar vão resistir a minha fúria, gatinha? -- perguntou sorrindo
--Não é a força do tecido, meu bem, mas o modo como se amarra... -- deitou-se sobre ela -- E eu sei amarrar você muito bem! -- beijou-a
Isa seguiu beijando, mordendo e lambendo cada parte do corpo da morena bem devagar.
--Isso é tortura... -- fechou os olhos -- Ah... -- gem*u
--Você vai ver o que é tortura... -- sorriu enquanto se deleitava com os seios da amante
--Ai, ai, ah... -- Ed gemia e tentava se soltar em vão
A ruiva seguiu mordendo e beijando até encontrar seu lugar entre as pernas da amante. -- Você já está excitada desse jeito? -- perguntou sensualmente enquanto arranhava as coxas dela
--Tua sorte é que eu não tô conseguindo me soltar... -- olhou para ela cheia de volúpia
--Mas você nunca vai se desamarrar de mim, meu amor... -- mordeu a coxa da morena -- Nunca! -- mergulhou entre as pernas dela
--Ah, ah, ah... -- gemia sentindo prazer com o que sua mulher fazia
Isa provocou Seyyed até o momento em que ela não agüentasse mais e explodisse de prazer. Ao perceber que a respiração da morena se tranqüilizava, sentou-se sobre ela novamente.
--Quem é sua mulher? -- acariciava os seios da morena
--Isabela Guedes. -- respondeu como se estivesse enfeitiçada
--Quem é sua rainha? -- mordeu-lhe um mamilo
--Isabela Guedes. -- arrepiou-se
--Quem é sua musa? -- mordeu-lhe o queixo
--Isabela Guedes.
--Você é minha, Seyyed! Só minha e de mais ninguém! -- beijou-a
--Me desamarra, vai? -- pediu sorrindo
--Hum... e você merece? -- fingiu estar pensando
--Eu vou ficar mansinha. -- fez cara de inocente -- Prometo...
--Com essa cara de safada? -- riu -- Tá, eu vou desamarrar você. -- desatou os nós que prendiam um braço. Ed ficou quieta, só esperando. Desatou os nós do outro tecido -- Pronto! -- sorriu
Sem que esperasse, Ed mudou as posições e deitou-se sobre ela imobilizando-a pelos pulsos. -- Agora você é MINHA refém! -- sorriu maquiavelicamente
--Hum... -- deslizou o pé ao longo de uma perna da morena -- e eu vou adorar me submeter... -- sentiu que Ed beijava e mordia seu pescoço com desejo. Fechou os olhos e deixou a amante assumir o comando
***
Lady e Lila estavam sentadas no chão do quarto da gaúcha.
--Essa pedra aqui tu tens que banhar com água de sal e deixá-la de molho do lado de fora da janela numa noite de lua cheia. -- Lila entregou uma pedra para Lady -- De agora em diante só tu podes tocar nela.
--Nossa! -- olhou para a pedra com curiosidade -- É um rosa bonito!
--Enquanto a pedra fica no banho tu deves acender esse incenso e deixar queimando até acabar! -- entregou uma caixa com um incenso nas mãos de Lady
--Tem certeza de que isso é suficiente pra chamar marido? -- lia o que estava escrito na caixa do incenso -- Não era melhor pegar mais umas três pedras e uma dúzia de incensos?
--Essa é a pedra do amor e é poderosa. Tu não precisas de quantidade, mas de qualidade! Eu a trouxe do norte da Índia, berço místico do espiritualismo sagrado! Estava lá, aos pés das montanhas nas quais o próprio Krishna inspirou as crenças hindus! -- falava fazendo todo um gestual -- "Vocês vêem o objetivo, a multidão vê apenas um trecho no caminho.” -- citou uma passagem do Baghavadgita
--Nossa, que coisa forte! -- Lady apertou a pedra contra o peito
--Tome também essa estátua! -- colocou uma pequena imagem da deusa Shakti abraçada ao deus Shiva nas mãos da outra -- Tu deves mantê-la na cabeceira da tua cama. Coloque pétalas de rosas e dois incensos ao redor dela todas as noites.
--Gente, que é isso? Que abraço mais... caliente! -- Lady comentou cheia de assanhamento
--Ao contrário da maioria das religiões, o prazer sensual é muito valorizado na religião indiana. O tantrismo medieval, por exemplo, é um modo de busca da iluminação pela experiência profunda do amor sensual. -- fazia seus salamaleques
--Nossa, que coisa louca! -- Lady olhava para estátua extasiada
--Se tu fizeres o que te digo, não demora muito estarás casada! -- Lila afirmou enfática
--Ai, amiga, nem sei como te agradecer! -- sorriu para ela
--Mil reais! -- abriu a mão
--Nossa, que coisa cara! -- arregalou os olhos
--Cara, guria? Mas, bá, tua felicidade tem preço? -- pôs as mãos na cintura -- Além do mais eu trouxe essas coisas de tão longe... tem o imposto de importação, VAT, tudo isso...
--Pôxa, o preço da felicidade é alto, viu? -- Lady se levantou -- Vou ter que te pagar no cheque pré datado. Eu ainda não trabalho, sou uma mera bolsista de iniciação, aí é complicado! -- foi para o próprio quarto. Lila foi atrás
--Não trabalha? -- levantou-se também e começou a falar fazendo mil gestos -- "Trabalhe! Muitos dos seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas. Mas o tempo, que é o mesmo senhor da razão, vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe levará a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão.”8
--Você trabalha em que, afinal? -- terminava de preencher o cheque
--Sou uma emissária da Luz... -- abriu a mão para receber a folha
--Trabalha na Light ou na CERJ? -- não entendeu a resposta. Entregou o cheque na mão da mística
--Lady, vamos esquecer estes detalhes mundanos e meditar. Venha para o meu quarto. -- foi andando
--E meditar ajuda a conseguir marido? -- seguia a outra
--Ajuda! Tu vais te esvaziar de tudo que te atrapalha. Vais ver que é trilegal!
--É, isso é bom! -- considerou
--Cobro noventa e nove centavos por minuto, mais um real por incenso queimado.
Uma hora depois, Priscila chegava.
--Aummmmmm!!! Aummmmmm!! -- ouvia a voz de Lila
--Aummmmmmm!!! Aummmmmm!!! Quero casar, quero casar!!! -- ouvia a voz de Lady
--Oh, não! Elas uniram forças! -- Priscila reclamou para si mesma
Foi para o quarto se despir e tomar banho.
--Aummmmmm!!! Aummmmmm!!
--Aummmmmmm!!! Aummmmmm!!! Quero casar, quero casar!!!
--Mas que inferno! -- Priscila resmungava -- Parecem até abelhas assassinas!
A morena se vestiu e foi para a cozinha lanchar. Ao abrir a geladeira constatou que quase não havia o que comer.
--Mas quem comeu as coisas que eu...? -- pensou -- Claro! -- fechou a porta e foi para o quarto de Lila -- Chega de tanto aum, adois ou atrês! -- entrou como um foguete -- Posso saber por que comeu minha comida e não repôs? -- perguntou para a mística fazendo cara feia
--Paz, paz... -- pedia fazendo o símbolo de paz e amor com os dedos em V
--Responda! -- insistiu furiosa
--Como podes garantir que fui eu? -- olhou para a morena
--Lady não faz isso! Só se ela tiver algum namorado faminto e não é o caso!
--Quisera... -- Lady suspirou
--Já que não repôs, pode me dar o dinheiro que eu mesma compro! -- abriu a mão diante da outra
--Mas, bá, eu nada comi!
--Nada comeu? Até as coisas que Lady comprou desapareceram da geladeira!
--O que??? -- perguntou assustada -- Lila, como pôde? -- olhou para a loura
--“A controvérsia é uma prova de que não se vê com clareza.”9 -- Lila respondeu ao se levantar
--Vai pagar por bem ou por mal? -- Priscila a encarou mal humorada
--Eu dei um cheque a ela de mil reais! Tá com dinheiro! -- Lady falou ao se levantar
--Pelo que?? -- Priscila olhou para ela e perguntou em choque
--Pela pedra do amor, incenso e uma estátua!
--Que é isso???? -- Priscila olhou para Lila
--“O ‘isto’ é também ‘aquilo’. O ‘aquilo’ é também ‘isto’. Que o ‘aquilo’ e o ‘isto’ deixem ser opostos...”10 -- citou cheia de salamaleques
--Mas você é uma tremenda picareta, viu? -- Priscila reclamou
--Gurias, eu tenho que ir pois vou dar uma aula de pompoarismo tântrico para uma separada. -- Lila pegou a mochila -- Volto mais tarde. Bem mais tarde! Tchau! -- saiu
--Tem vezes que ela fala umas coisas que eu não entendo! -- Lady cruzou os braços
--Você é muito trouxa de pagar mil reais por uma pedra, um incenso e uma estátua! -- olhou para ela -- Essa maluca aí é toda espiritual mas adora dinheiro! Só que na hora de pagar o que deve...
--Mas, Pri, ela disse que atrai marido! É a pedra do amor, trazida do pé do morro lá da Índia!
--Se eu soubesse que você pagava tanto por tão pouco, eu mesma ia pegar umas pedras no pé de um morro aqui perto pra te vender! -- saiu do quarto mal humorada
***
Mariângela costurava. Camille estava no quarto, acessando a internet para ler os comentários sobre seu segundo conto: Conflitos.
“Ih, meu, eu tô arrasando!” -- pensou orgulhosa -- "Já sou autora preferida de uma pá de gente!!” -- sorriu
O telefone tocou e Mariângela gritou da sala: -- Camille, atende por favor!
A loura atendeu da extensão: -- Alô?
--Oi, amiga, sou eu, Aline. -- respondeu desanimada
--Oi, Aline. Como vai? Você parece triste...
--Tô chateada. Não passei no processo seletivo que me inscrevi. Eu tinha capacidade, mas tenho certeza que perdi por causa da aparência.
--Por que diz isso? -- perguntou revoltada com a situação
--Não é neura, eu senti. Tudo muito velado, mas eu senti. Só chamaram os que tinham melhor condição financeira e aparência.
--Eu sei que essas coisas rolam. Já ouvi cada história! Mas não desanima! Continue tentando que uma oportunidade melhor vai aparecer. -- pausou -- Você continua no banco, não é?
--Sim... -- respondeu pensativa -- E que saco!
--É... mas é melhor isso que ficar desempregada, não é?
--Isso é! Hum, falando no banco, vamos fofocar um pouco. -- riu -- Meu gerente arrumou uma amante! Eu ri muito!
--Por que?! E uma sacanagem dessas tem graça?
--Ah, minha filha, é porque a amante dele é a Marizé e ela é a maior figura! Pensa que é a Suxa, é mole? Ele a chama de Loirucha, vê se pode? -- riu
--E como é que você sabe disso?
--Porque fui no banheiro e eles tavam se pegando lá dentro.
--Eu hein, ô louco! -- revirou os olhos -- Aline, mudando de assunto, tem lido seus contos ultimamente? -- queria saber da opinião da outra
--Garota, estou lendo Conflitos, da Crisálida, e o que é aquilo????
--Ruim? -- perguntou receosa
--Maravilhoso!! -- exclamou enfática -- Eu rio e choro ao mesmo tempo. Muito bom!
Camille riu de satisfação.
--Hum, escuta só amiga... Meu primo viu tua foto aqui nas minhas coisas e tá doidinho pra te conhecer!
--Ai, não, Aline! Não bastou você ter vindo aqui pra arrumar homem pra minha mãe? -- perguntou revoltada -- Meu, que mina louca!
--Mas, Camille, ele é gatinho! Alto, forte, bonitão, pegador...
--Pegador é um sinônimo machista para galinha ou piranhudo! Se eu já não queria se fosse calmo, faz idéia sendo sem vergonha!
--Amiga, não seja radical...
--Aline, olha, eu vou desligar que minha mãe tá chamando, tá bom? Tchau!
--Tchau... -- respondeu desanimada
A loura desligou revoltada. -- Coisa feia isso, meu! Mina alcoviteira! -- desligou o computador e foi para a sala -- Mãe, acredita que Aline me ligou pra no final vir me oferecer o primo?
--Nossa, mas essa menina anda doida pra casar a gente com os homens da família dela, cruzes! -- falava enquanto costurava
--E olha que eu já disse pra ela que não quero saber de homem! -- sentou-se na poltrona
Mariângela terminou de costurar, tirou os óculos e olhou para a filha. -- Por que?
--Ora, você também não quer e eu não pergunto porque!
--Mas eu fui casada por longos anos, tive você... Ainda não reparou que a maioria das mulheres é assim: louca pra casar, aí casa, fica viúva e então decide que nunca mais quer saber de homem?
--Ah, mas é porque primeiro vocês dão um valor exagerado ao casamento, como se fosse o objetivo máximo de toda mulher. Depois dão valor exagerado aos maridos e passam a vida cuidando deles, os quais, na maior parte dos casos, não valorizam nada disso. Aí quando eles morrem, e vocês sentem o gostinho da liberdade, não querem saber de outra coisa!
--Tudo bem, mas e o seu caso é o que? Ficou tão marcada e ferida com a canalhice de Augusto que decidiu que não quer mais ninguém?
Camille pensou se aquele não seria o momento de finalmente se abrir com a mãe. -- E se eu dissesse que... nunca amei Augusto e nem homem algum?
Mariângela ficou calada por alguns minutos. -- Seu pai sempre achou que você não o amava... Ele achava que você ia se casar só pela festa, pela novidade, mas não por amor. Ele tinha muito medo que vocês sofressem por causa disso. -- pausou -- Talvez pela experiência própria de saber o que é ter uma mulher que não o ama.
--Mãe... eu queria dizer que eu...
--Vamos lanchar? -- levantou-se e a interrompeu -- Eu fiz bolo de fubá! Tem suco na geladeira... -- foi para a cozinha -- Arrume a mesa que eu trago as coisas!
A loura percebeu que Mariângela não queria ouvir o que ela tinha a dizer e de repente se conscientizou de que a mãe, talvez, já soubesse da realidade há muito tempo. “Será que ela já sabia?” -- pensou -- "Será que ela sabe e não aceita? Será que é isso?”
***
Suzana recolhia suas coisas dentro de duas bolsas. Olhava para sua sala sentindo saudades por antecipação.
A delegada foi rapidamente aposentada por invalidez e sentia que aquela decisão fora tomada como uma punição por várias razões. Inclusive por ter confessado seus crimes do passado.
A maioria dos policiais estava muito triste com o afastamento dela, porém havia aqueles que, dentro de si mesmos, comemoravam.
Olhou para a porta e viu que seus homens fiéis estavam todos parados lá.
--Que é isso aqui? -- perguntou se fazendo de durona -- Ninguém trabalha mais não?
--Hoje a gente tá de luto! -- Brito respondeu seriamente
Ela abaixou a cabeça, riu um pouco e levantou em seguida. -- Eu não seria eterna... Tem uma hora que a gente tem que sair, não é?
--Eu levo pra você, chefe! -- Coimbra pegou as bolsas das mãos dela
--Se fosse filme de americano seria uma caixa. -- Suzana brincou
--Se fosse filme de americano, você saía daqui com honras e louvores. -- Coimbra afirmou chateado
--É ilusão da gente acreditar que todos os esforços serão reconhecidos. -- ela disse -- O que importa é que a gente saiba que o dever foi cumprido! E disso eu sei muito bem!
--Pena que tive tão pouco tempo trabalhando com você! -- abraçou-se com ela. Suzana levou um susto mas não evitou o abraço
--Faça a diferença aqui dentro! -- olhou para ele -- E nunca se envolva com o que não deve!
--Chefe, eu queria que soubesse que tem minha estima e respeito! -- Jailson falou
--Eu sei. -- olhou para ele -- E você o meu... vê se compra a bicicleta que teu garoto te pediu!
--Vou comprar... -- estava emocionado e abraçou-se com ela. -- Fica com Deus, chefe!
--Você também!
--Chefe! -- Lemos chamou – Não esquece de fazer os exames! E de tomar os remédios! Ainda vai fazer um mês que você levou alta! Os três primeiros meses são críticos! -- advertiu com seriedade
--Claro que não esqueço! Nem se eu quisesse minha japonesa não deixaria! -- abraçaram-se -- E você pára de comer doce! -- ele riu
--Eu nem sei o que dizer, chefia! -- Rodolfo disse pesaroso -- Eu queria meter a porr*da em um monte de gente e prender outros tantos...
--Eu também! -- ela olhou para o colega, que deu um soco na mesa e saiu da sala revoltado com aquela situação
--Nunca mais vai ser como era antes... Esse delegado novo que vai ficar no seu lugar não tem firmeza! Não sabe nem dar um soco direito!
--Reclama, não, Macumba! Podia ser pior! Ele podia ser corrupto. -- ela respondeu
--E ele nem tem intuição! Eu que não vou confiar em me meter em nada com ele!
--Não seja bobo! E não abandona o motoclube! -- levantou a mão para saudá-lo
--Nunca! Sede de Sangue! Uhu! -- deu um tapa forte na mão dela, repetindo a saudação do motoclube
Brito estava muito emocionado. Suzana olhou para ele e percebeu seus olhos marejados.
--Mas você tá muito frouxo, viu, Brito? Coragem, homem! Que cara de enterro é essa? -- lutava para não se emocionar
--Eu não concordo com isso! Você tinha que ficar! -- uma lágrima rolou-lhe pelos olhos
--Meu tempo já passou, rapaz! Agora é hora de continuar por outro caminho! -- sentiu os próprios olhos marejarem
--Não importa quem venha no seu lugar. -- mais uma lágrima escapou -- Será sempre minha delegada e eu sempre seguirei as suas ordens!
--Sem choro, Brito! -- falou mais alto, mas não conseguiu evitar a fuga de uma lágrima
--Não consigo, chefe! -- abraçou-se com ela e os dois choraram emocionados
***
--Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida, êêêêê!!! -- todos cantavam -- É big, é big, é big, é big, é big, é hora, é hora, é hora, é hora, é hora, ra, ti, bum! Dona Lourdes, Ricardinho, Ricardinho, dona Lourdes!!!
Maria de Lourdes estava de pé ao lado de Juliana e em frente à mesa do bolo. Olga e Mariano estavam ao lado delas segurando o menino.
--Vai ter discurso minha gente? -- Ed brincava -- Fala aí, dona Lourdes! Mariano, dubla o garoto!
--Boba! -- Isa abraçou-se com a mecânica. Camille reparava nisso e disfarçava
--Vem aqui, Suzaninha! -- Lourdes chamou
--Eu? -- perguntou sem graça
--Vai lá Katy! Justiceira, uhu!! -- Flávia incentivava. Suzana foi
Lourdes abraçou-se com Juliana de um lado e Suzana do outro. -- Eu queria agradecer a todos por terem vindo e dizer três coisinhas rápidas. A primeira, é que eu nunca tive uma festa de aniversário e achei lindo que fosse agora, aos oitenta anos. A segunda é que eu nunca imaginei que os anos mais felizes e tranqüilos da minha vida seriam justamente os da minha velhice. E a terceira é que a razão da minha felicidade, as razões, melhor dizendo, são essas duas aqui! Juliana -- beijou o rosto dela -- e Suzaninha! -- beijou o rosto da delegada
As pessoas aplaudiram.
--Bem, então acho que é a hora da dublagem, não é isso? -- Mariano brincou -- Eu queria dizer que fico feliz por vocês estarem aqui e que é um enorme prazer me sentir pai de novo, criando uma criança. E um prazer ainda maior tendo Olga a meu lado!
--Falou bonito! -- Renan brincou
--Hora de cortar o bolo! -- Olga pegou a espátula e olhou para Lourdes -- Posso?
--Claro! -- ela respondeu -- O primeiro pedaço é de Juliana e o segundo de Suzaninha!
--Pôxa... -- a delegada fingiu-se magoada
--Deixa de ser boba, Suzana! -- Juliana deu um tapa no braço dela -- Eu sou unanimidade com a terceira idade!
--Filha, quero sentar! -- Lourdes pediu para Suzana
--Vamos lá! -- deu o braço a ela e foram até a cadeira
--Feliz, meu bem? -- Olga perguntou a Juliana
--Muito! -- beijou a testa dela
--O que foi, mãe? -- Camille perguntou desconfiada -- Por que está tentando se esconder atrás de mim?
--Aquele tal de Romeu! Não tirou os olhos de mim a festa inteira! Olha lá ele só bispando...
--Eu notei o interesse dele! -- ela riu -- É um coroa pintoso...
--Deus me livre! -- agarrou-se no braço de Camille -- Se ele vier pra cá com gracinhas você manda ele a merd*!
A loura arregalou os olhos. -- Ué? -- riu -- Eu não posso xingar um palavrão que você ralha comigo!
--Ah, mas nesse caso eu não vou brigar! Tá liberada! Pode descarregar o arsenal de A a Z!
--Ô louco, palavrão com Z! -- riu -- Zaralho!
--Deixa eu te contar, adorei essa festinha! -- Tatiana disse para Isa -- Muito animada, cheia de gente! Adorei os trem que vocês distribuíram, tudo piscando, bonitinho! -- divertia-se com um anel que acendia e apagava mudando de cor -- Quem organizou tudo?
--A maior parte das coisas foram idéias minhas! -- a bailarina sorriu -- Dona Olga arrumou a moça que fez salgados e doces, Juliana arrumou o lugar e Suzana pagou praticamente tudo!
--Eu vou passar na Priscila amanhã pra ver ela e Lady. E conhecer a tal mística picareta! -- riu
--E o novo namorado de Lady! -- Isa lembrou -- Priscila falou que é um coroa marrento e cheio de somebody love! -- riu
--Nem me fale! Eu nunca dou conta disso! -- ela revirou os olhos
--Ed, finalmente as coisas começam a entrar nos eixos naquela oficina. -- Renan falou -- E você não sabe quem me apareceu por lá pedindo emprego pro filho!
--Quem?
--Seu Marciano! Ele pediu que eu empregasse o mais novo como mecânico. Disse que era pra ser coisa pesada, trabalho duro, pra ele deixar de ser moleque e aprender a ser homem.
--E por que isso? -- perguntou desconfiada
--Porque já não agüenta mais as trapalhadas do cara. Ele se envolveu em uma confusão que nem sei!
--E você? Respondeu o que?
--Ele ajudou muito pagando aquela grana pelo conserto do Porsche, e eu fiquei com vontade de fazer o que me pede. Mas disse que ia falar contigo antes.
--Tem condição de empregar o cara?
--Tenho. Seu Marciano disse que era pra pagar salário mínimo! -- riu
--Então emprega, mas fica de olho! -- Seyyed advertiu
--Olha só pra chefe, Flávia! -- Brito falou -- Ela está com a aparência boa mas não tem aquele viço! É nítido que anda triste! -- pausou -- Acha que eu devia dizer a ela que eles mudaram quase todos os policiais da nossa delegacia?
--Ela vai saber mais cedo ou mais tarde! -- Flávia respondeu -- Hoje é dia de festa, meu amor! Deixe quieto! -- pausou -- O que eu vou fazer é convidar ela pra ser instrutora na minha micro academia de boxe feminino!
--Ah,sim! Disso ela vai gostar! -- ele riu -- A chefe é como nós: adora uma pancadaria!
--E então, Mariano? -- Romeu perguntou -- Como vai a saúde do meu neto?
--As crises já diminuíram bastante, mas ele ainda tem muitas cólicas.
--Será que vai curar daquela doença maldita? Não tenho coragem de falar nem o nome! -- benzeu-se
--Vai curar, sim! Se Deus quiser! Nós vamos no hospital todo mês e fazemos tudo que a doutora manda. Vai curar, sim!
--Deus te ouça!
--Romeu, à propósito, Mariângela falou comigo e eu quero que você pare de assediá-la!
Romeu ficou morto de vergonha. -- Que é isso, homem? E eu lá assedio alguém?
--Então o que faz com esse buquê nas mãos desde que chegou aqui? -- cruzou os braços desconfiado -- Não vai negar que esperava a melhor oportunidade de entregá-lo a minha irmã. Ou vai?
--O buquê? -- olhou para as flores -- Eu... essas flores são para... -- olhou para os lados e viu que Maria de Lourdes conversava com Olga e Renan -- dona Lourdes! -- foi até ela e entregou as flores. A idosa as recebeu sorridente
--Sei... -- Mariano ficou balançando a cabeça
--Eu não sabia que você gostava tanto de criança! -- Juliana comentou surpreendida
--Ah, mas é legal! -- Suzana segurava Ricardinho -- Olha como ele é enorme com apenas um ano! Vai ser um policial e tanto! -- sorriu
--Qual é, Suzana? -- Ed brincou -- Farei com esse menino o que faço com todas as criaturas que cruzam meu caminho! Roubarei sua pequena alma pra trabalhar comigo na oficina! Háháhá! -- fez uma risada macabra e beijou a barriga dele
--E se ele quiser trabalhar na área da saúde? Pode ser um excelente enfermeiro! -- Juliana afirmou
--Por que não bailarino? -- Isa perguntou provocando as três
--Será que Mariano tem preparo pra filho bailarino? -- Ed riu -- Já notaram como as pessoas têm preconceitos com essas coisas? Nada há mais frágil na Terra do que a masculinidade de um homem, que tem que ser defendida desde a mais tenra infância!
--Pois é. Até hoje eu só tive dois alunos homens. -- a ruiva comentou
--Enquanto isso eu cruzei com muitos durões, do tipo que chegam dando soco e pontapé na porta, e que no entanto eram gays! -- Suzana falou
--E eu! -- Juliana disse -- Acreditam que no hospital o cara mais machão de todos é namorado de um anão? -- ela riu -- Eles se conheceram por minha causa. Virei cupido, é mole?
--Por que? -- Suzana perguntou
--Esse anão é advogado e candidato do PCons pra 2004! Ele e Selma se uniram pra me convencer a entrar pro partido.
--E por que não entra? -- Isa perguntou
--Eu dou força! Meu voto já tem! -- Ed reforçou
--Todo mundo dá força. Deixe estar, que minha japonesa vai acabar se filiando nesse partido! E se ganhar, vai virar o Congresso Nacional de cabeça pra baixo!
--Eu, hein, gente? Bate na madeira, porque de política eu quero distância! -- levantou os braços
--Olga, eu me sinto tão feliz! Agora falta pouco pra eu me sentir realmente em paz! -- Lourdes olhava para Juliana
--O que falta, dona Lourdes? -- perguntou curiosa
--Que Suzaninha finalmente se case com Juliana e que a mãe dela venha lhe pedir perdão. -- olhou para Olga -- Eu rezo todo dia pra que a luz de Deus ilumine os olhos da mãe dela!
--O que for pra felicidade dela, vai acontecer! -- Olga olhou para Juliana -- Ela merece!
***
Depois de muito tempo forçando oportunidades, Isa finalmente conseguiu conversar com Ana Fluminense.
--Olá, Ana. Será que eu poderia lhe falar por alguns minutinhos? -- a ruiva perguntou timidamente
--Claro, venha! -- fez sinal para que entrasse na sala -- O que deseja?
--Ana, eu... -- abraçou-se com a própria bolsa -- eu fui muito imatura com Neyan e tive uma discussão com ele, que acabou me cortando desse espetáculo que estreou em março. Ele estava certo. -- pausou -- Eu temo ficar em uma situação delicada por conta disso e ainda não tive oportunidade de me desculpar com ele...
--E o que quer que eu faça? -- Ana ainda não entendia aonde a ruiva queria chegar
--Eu gostaria de lhe pedir uma oportunidade no seu espetáculo de junho. Imagino que já tenha completado o elenco mas eu ficaria imensamente agradecida se me deixasse dançar com vocês mesmo que fosse por dez segundos! -- olhou para a outra esperançosa
--De fato o elenco está completo mesmo.
Isa sentiu as bochechas queimarem. “Eu não deveria ter vindo falar com ela! Pra receber mais um não? Que humilhante!”
--Mas virá outro espetáculo em dezembro. -- pausou -- Quer dizer, estou batalhando patrocínio e você sabe como difícil é conseguir verba pra cultura nesse país. -- Isa olhou para ela empolgada -- Se tudo der certo e o espetáculo obtiver os recursos necessários, você será convidada. -- sorriu
--Ai, Ana, que maravilha! -- deu pulinhos -- Eu nem sei como te agradecer!
--Eu me lembro de você salvando a pátria quando Joice se acidentou. -- cruzou as pernas -- Um dia, você será uma bailarina experiente e vai receber a visita de uma jovem talentosa, que pode até pecar pela ansiedade, mas que vai te inspirar a dar a ela uma oportunidade. -- pausou -- Lembre-se de que um dia você foi essa jovem! -- aconselhou
--Juro que não esquecerei! -- sorriu
--Aninha, meu bem, temos que conversar! -- Neyan entrava na sala de Ana quando dá de cara com Isa -- Humpf! -- fez um bico -- Eu volto depois... -- preparava-se para sair
--Espere, Neyan! -- Isa falou com ele -- Estou de saída e queria aproveitar pra lhe pedir desculpas e dizer que você tinha razão o tempo todo! -- falava com humildade
--Você me disse coisas muito pesadas, viu? -- passou a mão no cabelo e jogou para trás -- Nunca fui tão insultado!
--Perdoe. Foi imaturidade minha! -- falava com muita educação
--Neyan, não seja tão duro! Já tivemos a idade dela, sabemos como a juventude é!
--Tá bom! Eu aceito as suas desculpas. -- ergueu um dedo -- Só porque foi a Aninha que pediu!
--Obrigado, Neyan. -- olhou para a outra bailarina -- Obrigada, Ana! Agora vou deixá-los a sós. -- cumprimentou os dois com a cabeça e saiu
--Eu já gostei muito dessa garota, mas não confio mais nela! -- olhou para Ana -- É muito talentosa, eu não nego, mas é muito ambiciosa, petulante, capaz de tudo pra ter sucesso!
--Que é isso, Neyan? -- riu -- Diz isso porque está com seus brios afetados. Aposto que ela te disse coisas que muitas outras quiseram dizer e não tiveram coragem!
--Tá, tudo bem, mas não é só isso... Você vai ver! Ela terá sucesso um dia, mas não será admirável como você! Nem todos sabem vencer, Ana!
Isa andava pelos corredores do Theatro desejando ardentemente que o espetáculo de dezembro pudesse acontecer. “Tem que acontecer! Eu não posso passar o ano todo sem participar de nada! Não posso passar o ano todo somente dando aulas de balé e assistindo às aulas na faculdade! Ai, meu Deus, tem que acontecer, por favor! Tem que acontecer!”
***
Ana conversava com mãe Nagôia no terreiro dela.
--Olha, minha mãe, eu não queria mas tenho que desabafar! -- cruzou as pernas -- Estou decepcionada!
--Pur que, sofredora? -- cuspiu uma nuvem de fumaça da cara de Ana, que tossiu um pouco
“Quando não é cigarro de palha, é charuto!” -- pensou revoltada -- Eu fiz a minha parte, paguei por três objetivos e a senhora só concretizou um e meio!
--Um e mei?
--Seyyed não morreu e passa bem, isso tá ótimo! Isa aguarda um espetáculo pra dezembro, que ela nem sabe se vai acontecer ou não! Isso tá péssimo! As coisas na oficina de Goiânia se normalizaram mas lucro que é bom, nada! E aqui no Rio a maré também não está pra peixe gordo! Isso é o fim! Paguei por três e a senhora me deu um e meio! -- reclamou
--Mas a culpa é da sofredora! As coisa di saúde mãe Nagôia arresulveu mas a coisa do dinhêro... -- cuspiu fumaça -- Faltô fé!
--Faltou fé??? -- perguntou revoltada -- Isso é até uma calúnia! -- cruzou os braços -- A coisa anda tão feia pro meu lado que já desconfio até que meu marido tá de amante de novo! Anda se arrumando, usando perfume... ele andava numa tristeza só! -- balançou a cabeça -- Nem entendo como isso pôde acontecer... Mãe Dadá tinha amarrado ele tão bem...
--Falta é fé! -- cuspiu fumaça de novo
--Então, me diga, minha mãe, o que eu tenho que fazer?
--A sofredora tem qui si submetê a um ritual...
--Que ritual? -- perguntou com medo
--Tem que si torná uma fia de Oionha! -- inventou
--Filha de quem??? -- perguntou sem entender
--Oionha! Uma entidadi poderosa que pode trazê o dinhêro de volta pra teu lar. -- cuspiu fumaça novamente -- E acalmá teu hômi!
--Hum... -- pensou -- E como é isso de virar filha de... Oionha? -- perguntou interessada
--Tem que passá o finar di semana aqui cum mãe Nagôia. Vai ficá riclusa, sendo purificada cum erva santa e fumaça de charuto. Dipois toma um banho di discarrêgo e tá tudo bem!
--E daí meus problemas serão resolvidos?
--Daí mãe Nagôia vai ripiti os trabáio pra trazer dinhêro nus negócio de tua genra, dá sucesso a tua minina e vai fazê um trabáio pra prender teu hômi!
--Tá... e em quanto isso tudo vai ficar? -- perguntou desconfiada
A falsa mãe santo fumou mais um pouco e respondeu: -- Teu sufrimento comove tua mãe! Vai ficar em mil e quinhentus pra ser fia de Oionha, quinzentus a diária no terreiro e pros trabáio faço um precinho de custo: mil reais!
--Nossa, minha mãe! -- arregalou os olhos -- Três mil reais?! Pelo amor do Pai! E a diária do seu terreiro é mais cara que a de muito hotel, viu?
--Podi pagá em dez vez sem juro. -- cuspiu fumaça -- É pegá ô largá!
--Tá, eu vou ver isso aí e lhe digo. -- pensou -- Podemos fazer assim, uma coisa de cada vez? Primeiro eu faço os rituais aqui e depois contrato o resto?
--Podi sê! -- respondeu mordendo o charuto
--Então está ótimo! -- pegou a mão dela e beijou -- Sua bênção, minha mãe!
--Deus ti faça fêmea!
Ana se despediu e foi embora. Renata entrou logo depois.
--Domingas, você não acha que tá exagerando demais, não? Teu sotaque hoje tava forte aos extremos!
--Ela se impressiona é com isso. -- jogou o charuto fora -- Ô, coisa horrível! Argh! -- fez careta
--E esse negócio de filha de Oionha! Nem existe isso! -- fez cara feia
--Ela não vai pesquisar pra saber! É metida a inteligente e culta mas é uma burra! -- riu
--No fundo, ela é uma pobre mulher que acha que faz o melhor pra família desse jeito!
--Humpf! Que foi? -- levantou-se chateada -- Vai ficar com pena dos trouxas agora, é?
--Tenho medo de onde isso tudo vai dar... é muita mentira, Domingas! E esse tal ritual de final de semana? O que vai ser isso?
--Ah, macumba tem dessas coisas mesmo! A gente deixa ela deitada em um colchonete, dá uns banhos de erva, cospe umas fumaças em cima dela, acende uma velas, toca uns tambores, dá uns tremeliques e está resolvido! -- sorriu
--E você ainda diz “Deus te faça fêmea” quando ela pede a bênção! Nunca vi disso! E brincando com o nome de Deus? Isso não se faz!
--Ela nem estranha essa resposta, e eu sempre disse isso! -- foi até o banheiro -- Você se preocupa demais!
--Ai, ai... -- suspirou -- Eu não devia ter me metido nisso... A gente ainda vai se dar muito mal por mexer com essas coisas desse jeito... -- disse para si mesma
***
Lila terminava de dar uma aula de meditação para quatro mulheres e dois homens em seu quarto.
--Agora, vocês podem voltar pra casa em paz que está tudo luzindo em suas almas. Eu só vejo luz ao redor... -- fazia seus gestos -- Mas, antes de sair, vamos deixando nosso contributo de duzentos reais por pessoa por causa da meditação e mais um real por incenso queimado. – sorriu -- Quem quiser levar uma pedrinha tocada pelo Buda em pessoa, -- apontou para uma cuia cheia de pedras coloridas -- paga só cem reais por cada uma!
As pessoas se agitavam para pegar o dinheiro.
--Meus queridos, -- Priscila entrava no quarto de Lila com uma sacola azul nas mãos -- podem ir depositando esse contributo aqui nesta sacolinha porque nossa mística do coração nem põe a mão em dinheiro pra não se contaminar com a coisa mundana. Não é, Lila? -- piscou para ela -- É muita pureza, viu? -- olhou para a mística que lhe lançou fogo pelos olhos
O grupo colocou o dinheiro na sacola de Priscila e todos foram se preparando para sair. Lila os acompanhou até a porta.
--Olha, meus guris, na próxima vez podem deixar o dinheiro comigo logo na entrada. Só os incensos é que vão pagar no final, viu? -- despediu-se de cada um -- Namastê! -- fechou a porta e olhou furiosa para Priscila -- Mas, bá, quem tu pensas que é pra entrar no meu quarto e extorquir dinheiro dos meus alunos daquela maneira? -- pôs as mãos na cintura
--Extorquindo? Eu? -- riu -- Se manca, garota, eu aproveitei uma oportunidade de ouro pra receber teus dois meses de aluguel atrasado, isso sim! Esse dinheiro aqui, -- sacudiu a sacola -- você perdeu!
--Isso é muita mesquinharia, viu Priscila? -- cruzou os braços enfurecida
A porta se abre e Lady entra com o namorado. -- Boa noite! -- olhou para as colegas de apartamento -- Oi! -- sorria como se estivesse louca
--Oi! -- as duas responderam de cara feia
--Oi, meninas lindas! -- Fernando, namorado de Lady, cumprimentou as duas com beijos de comadre -- Que maravilha, nós todos aqui reunidos! -- sorriu -- Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo! De frente pra vocês e tantas emoções sentindo!
Lila olhou para ele de cima a baixo. Era um homem de uns sessenta anos, branco, calvo, magro e bem vestido. “Deve ter grana” -- ela pensou -- Tu já fizeste aula de meditação? Eu sou professora disso e dou aulas de pompoarismo tântrico, cristalografia, cromoterapia, massagem e faço mapa astral na hora! -- Lila ofereceu
--Não, eu não tenho interesse, me perdoe! -- puxou Lady pela cintura -- Minha meditação é essa aqui! Todo o homem que sabe o que quer, sabe dar e querer da mulher. Ele faz desse amor sua vida, a comida, a bebida, na justa medida!
--Ai, Fernando! -- sorriu toda melosa -- Você inventa cada coisa tão linda pra me dizer...
--Já contou pra elas, Lady?
--Ai, eu ia falar amanhã, mas... -- entreolharam-se -- Estamos noivos! -- ela mostrou o anel no dedo
--Bá, mas é pedra cara, tchê! -- Lila pegou a mão da outra para apreciar de perto
--Carérrima! -- sorriu -- Fernando não poupou comigo!
-- Me leva pro quarto, Lady Dy! -- sorriu -- Vamos meditar um pouco, hein? -- fez um bico para beijá-la -- Enquanto outros fazem amor, nós faremos paixão!
--Pro quarto sim, -- beijou-o -- mas essa meditação a gente só faz depois de casar! Nada de fazer paixão! -- pegou-o pela mão e foram indo para o quarto -- Aliás, por que sumiu no final de semana?
--Você não sabe o quanto eu caminhei, pra chegar até aqui! Percorri milhas e milhas antes de dormir! Eu nem cochilei... E também minha avó está mal no hospital.
--Ai, que triste... -- pensou -- Ué, mas você ainda tem vó??
--Tenho! Mãe, vó, bisavó...
--Nossa, mas a mulherada na sua família dura, viu? -- fechou a porta do quarto
--Humpf! -- Priscila balançou a cabeça -- Bem, o que eu queria já consegui! -- sacudiu o saco de dinheiro na frente de Lila -- Boa noite! Ou melhor... -- imitou a outra -- Namastê! -- foi para o quarto
--Droga! -- Lila deu um chute no sofá e foi para o quarto também
19:20h. 31 de maio de 2003, Motel Fogo das Deusas, Avenida Brasil , Rio de Janeiro
--Ai, minha índia sem vergonha... -- sorria de olhos fechados -- você não deixa de ser um animal faminto!
A delegada vinha lentamente beijando o corpo da enfermeira até que se deteve nos seios dela. -- Queria que... -- mordeu um mamilo -- eu tivesse ficado mais... -- mordeu novamente -- devagar?
--Não mesmo... -- acariciava os cabelos dela -- mas precisa me deixar recuperar o fôlego... -- abriu os olhos
Suzana continuava beijando o corpo da amada e permitindo que suas mãos vagassem ansiosas por todas as partes.
--Ai, mas essas suas mãos são... -- sentia a morena mordendo sua orelha -- você toda é tarada e indecente... – sorriu novamente
--Como se não gostasse... -- beijou-a
--Amo! -- envolveu o pescoço dela com os braços
Deleitavam-se em um gostoso amasso até que a japonesa resolveu interromper. -- Ai, amor, sossega! -- mordeu o queixo dela -- Eu preciso me recuperar de você!
--Hoje não tem a desculpa de cuidar da nossa velhinha... -- beijou-a -- Ela tá na dona Olga... -- beijou-a novamente
--Eu... preciso... me... recuperar... -- disse entre beijos -- Chega! -- deu um tapinha na bunda dela -- Pára! -- riu e saiu de debaixo dela
Suzana deitou-se de barriga para cima, pegou dois travesseiros e cruzou um braço atrás da cabeça. Olhou para o teto e se viu no espelho. -- Eu não entendo pra que motel tem tanto espelho! Só dá gente narcisista no meio dessa sacanagem!
--Eu gosto de me ver no espelho! -- deitou-se sobre a outra -- Mas quando a gente faz amor eu mal consigo pensar, faz idéia olhar em espelho e entender o que tô vendo! -- beijou-a
O celular de Juliana tocou. -- Eu hein, que hora pra ligar? -- ela se levantou e pegou o aparelho na bolsa -- Ah, não! É a Selma! Vou desligar! -- desligou
--E aí? A candidatura sai ou não sai? A eleição 2004 tá aí! -- brincou
--Tô fora de política! -- deitou-se do lado de Suzana -- Eu nem me filiei ao partido e nem pretendo!
--Não descarte a possibilidade de todo. A gente nunca sabe do dia de amanhã. -- beijou a cabeça dela
--E você, amor? -- virou-se de lado e deitou metade do corpo sobre a amante -- Como anda esse coração depois da aposentadoria? Mais conformada?
--Ah, linda... -- acariciou o rosto dela -- Eu nunca imaginei que minha carreira ia terminar assim e que ainda pegariam meus homens de confiança e os espalhariam por aí afora... -- pausou -- Os caras que me emboscaram foram presos mas os mandantes estão soltos e ficou tudo por isso mesmo! Dá ódio, dá uma revolta dos diabos, mas... a vida segue, não é?
--É... -- beijou-a -- Mas, e hoje em dia? Você ainda se sente tão suja, tão indigna de perdão quanto antes? -- olhou para ela atentamente
--Sim... e hoje eu tenho tempo pra pensar nas coisas... acho que dói ainda mais... -- beijou-a -- Vamos mudar de assunto, tá legal? -- pediu com delicadeza
--Tá bom... -- beijou-a -- Mas sabe que eu tô do seu lado sempre, não sabe?
--Sei... -- beijou-a -- Minha sorte é essa! -- sorriram
--Você é meu nenenzinho, sabia? -- mordeu o lábio inferior da índia
--Você me pediu um tempo... -- ameaçou brincando
--Meu nenenzinho fofo! -- beijou-a -- Sua enfermeira gosta de cuidar de você... -- beijou-a novamente
--Aqui não tem fofura nenhuma... -- fez cara feia -- E nem sou neném! -- apesar de não admitir adorava aquele dengo
--Ai, mas que indiazinha braba, gente! -- falou fazendo voz de criança e a beijou -- O que você passa na pele, hein? Tua pele é ótima! -- mordeu a bochecha da outra
--Passo nada! Só lavo o rosto com sabonete e é isso. -- beijou-a -- Sou filha de índia e negro, Ju. Uma mistura dessas não podia dar em coisa ruim! -- sorriu e a beijou
--Ah, mas não podia mesmo... -- beijaram-se demoradamente
--Bom dia, meu gatucho, já estou aqui!! Tenho sacanagens pra te divertir!! Que ouvir você, vou cantar êêê!!! Lá, lá, lá, lá, lá, ai, ai, ai, ai, ai!!! -- uma voz fina se destacou cantando
--Loirucha, Loirucha, Loirucha!! -- uma voz masculina clamava
--Mas que...? -- Suzana perguntou olhando para a outra -- Tá ouvindo isso no quarto do lado?
--Ai, ai, ai, ai!!! -- a mulher gritava -- Comigo! Vai! -- batia palmas
--Loirucha, Loirucha, Loirucha!! -- a voz masculina continuava clamando
--Mas é cada coisa... -- Juliana riu -- Loirucha, gente!
--Tá na hora, tá na hora, lá, lá, lá, lá, lá, lá, tá na hora de nhanhar! Lá, lá, lá, lá, lá, lá!! Pula, pula rebol*ndo, ai, ai, ai, ai, ai, ai, se danando sem parar! -- a mulher cantava
--Loirucha!! Loirucha!! Ai, ai, ai, ai!!! -- o homem fazia voz fina
Suzana ria. -- Fala sério!
--Fica quieta, vamos ouvir que tá divertido! -- cobriu os lábios da outra
--A loirucha dá pra frente!! Laiá, laiá, laiá! A loirucha dá pra trás!! Laiá, laiá, laiá! -- a mulher cantava bem alto -- Toda linda, toda loira!!! Ai, ai, ai, laiá, laiá!!
--Toda loira! -- Juliana riu
--Vem cá, Loirucha! Senta no foguete do gatucho e decola! -- falava com voz fina
--Mas o foguetinho não tá nem pronto! Loirucha nem tá vendo ele apontando pro céu... Faltou combustível pro foguete levantar? -- riu -- Tá na hora, tá hora, laiá, laiá, laiá, do foguete levantar, laiá, laiá, laiá, voa, voa, foguetinho, a loirucha quer nhanhar!! Ai, ai, ai!!
(Adaptação de Ilariê - Xuxa [a])
--Que sacanagem... -- a delegada ria
--Que palhaçada! -- a japonesa ria também
--Ju, será que ouviram a gente enquanto...? -- perguntou preocupada
--A gente? Você quase não faz barulho... Eu é que fico gem*ndo com minha índia canibal... -- sorriu e beijou-a
--Loirucha, tá dando certo! -- o homem gritou com voz fina -- Foguetinho quer voar, olha só! Tá levantando!!! -- riu -- Lá, lá, lá, lá, lá, lá, ai, ai, ai, ai, ai!!! -- gritou
--Isso é felicidade em uma ereç*o! -- Suzana falou
--Esse aí tá na base daquele remédio novo que lançaram: Siagra! -- a japonesa disse
--Loirucha vai tomar seu lugar no foguetinho! Tchau, gente, tchau meus lindinhos!!! Uhuuuu!!! -- gritava
--Vem loichura... senta, senta, senta! -- batia palmas
--Ai, que foguete gostoso!!! Ah, ah, ah!!! -- gemia fazendo escândalo. Alguma coisa batia contra a parede do quarto
--Tá ouvindo essas batidas aí? Será que a cama do quarto deles tem cabeceira metálica? -- perguntou curiosa
--Já viu cama de motel com cabeceira metálica, Suzana? -- riu
--Ah, eu não tenho experiência com isso de motel! -- fez um bico -- Só vim contigo!
--Hum, que fofinha... -- beijou-a novamente -- Meu nenenzinho... -- mordeu o queixo dela e fez cócegas na cintura
--Olha... -- segurou os pulsos dela -- me provoca pra ver o que eu faço contigo... -- puxou-a para mais perto e a beijou com paixão
--Ai! -- interrompeu o beijo com falta de ar -- Ai, Su, você me mata...
--Ainda quer um tempo? Hum? -- mordia a orelha dela
--Quero... pára. -- deu um tapinha no ombro dela
--Ai, ai, ai!!! -- a mulher gritava com raça -- Ai, ele sobe, ai, ele desce, ai, ele sobe, ai, ele desce!!!
--Gente, isso é homem ou elevador? -- a japonesa perguntou rindo
--Ela grita, né? Se fosse comigo eu ia desconfiar que era fingimento!
--Ah, Suzana, mas isso aí é puro fingimento! -- a japonesa disse -- E palhaçada total!
-- Ai, ele sobe, ai, ele desce, ai... que ele pula pro lado!! -- gritava
--Pula pro lado? -- a delegada perguntou intrigada -- Como pode?
--Nem quero saber disso aí! -- a enfermeira riu
E de repente uma barulheira louca se ouviu do outro lado.
--Caraca! -- Juliana disse -- Isso é o que eu chamo de orgasmo bombástico! -- riu
--Eu tô muito preocupada... -- a delegada afirmou com uma expressão séria
--Por que? -- perguntou receosa -- Tá sentindo alguma coisa ruim, meu amor?
--Eu nunca fiz você ter um orgasmo bombástico desses... -- continuava fingindo preocupação
--Deixa de ser boba! -- beijou-a -- Esse exagero todo é o mais puro fingimento!
--Ah, mas preocupou! -- inverteu as posições e ficou sobre ela na cama -- Quero ver se consigo te fazer goz*r assim! -- começou a beijá-la e provocá-la com as mãos freneticamente
--Ai, Su, ai!!! -- gem*u!! -- Ai, amor, ah!!! -- gritou e riu
--Ih, tem sapatão no quarto do lado! -- Marizé falou
--Mas que diabo! -- Anselmo reclamou de cara feia -- "Já é a segunda vez que isso me acontece, que merd*! Mas pelo menos dessa vez não é a minha filha e nem ninguém conhecida!” -- pensou
***
Juliana e Suzana saíam do motel quando um carro enguiça na frente do veículo delas.
--Mas é muito azar, viu? Enguiçar o carro na saída do motel! -- a japonesa reclamou -- Vexame!
A delegada vinha no banco do carona e abriu a porta. -- Eu vou ajudar a empurrar porque ficar parada aqui é que não dá! -- saiu
--Suzana, você não pode ficar fazendo força, pelo amor de Deus! -- saiu do carro atrás dela
--Mas que merd*! -- Anselmo tentava ligar o carro -- Não funciona!
--Igualzinho o dono... dá Siagra pra ele! -- Marizé resmungou
--O que? -- ele perguntou impaciente
--Eu disse pra você dar um jeito porque sou mulher de religião e Deus me defenda de ser vista por alguém aqui! -- olhava para todos os lados
--Olha só, gente! -- Suzana abaixa e olha para dentro do carro pela janela do carona -- Vou empurrar pra vocês saírem daqui! -- bateu no vidro
--Ai, que vergonha! -- Marizé cobriu o rosto
“Eu, hein?” -- a delegada pensou fazendo um bico
--Suzana, você não empurra nada! -- foi até a janela do motorista e bateu -- Meu amigo, sai do carro e passa o volante pra ela... -- olhou bem para Anselmo -- Você? -- perguntou rindo -- Fofucho, há quanto tempo? -- continuou rindo. O homem corou completamente
--Da onde conhece esse, Ju? -- a morena perguntou intrigada
--Vocês se conhecem da onde, gatucho? -- Marizé perguntou aborrecida. Anselmo desceu do carro correndo
--É o ex da serviçal... -- pausou e se arrependeu por usar um apelido -- É o ex da Gisele. -- olhou para ele -- Você adora esses apelidos com ‘ucho’, viu? Vou te contar... -- riu
--Olha aqui! -- ele falava baixo -- Nem uma palavra sobre isso, tá legal? -- pediu para a enfermeira
--Você estava no casamento da Tati! -- Suzana lembrou olhando para ele -- E com uma mulher que não era essa aí, não! -- fez cara feia
--Esse gato murcho aí é o pai da Isa! -- a japonesa falou
--Como é? -- Marizé saía do carro -- Você é casado? -- perguntou com as mãos na cintura
--Olha, loirucha, eu posso explicar... -- suava frio
--Ele é casado e pai, sua boba! Não tá vendo pela cara de piranha velha? É muito difícil um homem dessa idade ser solteiro. Eles falam muito, fazem um tipo danado, mas não ficam solteiros, não! -- a japonesa entregou
--Você falou que era separado... -- a mulher disse com voz de choro
--Loirucha, eu... -- Anselmo não sabia o que fazer
--E você acreditou? Esse papo é mais velho que andar pra frente! -- a japonesa continuava jogando lenha na fogueira
--Olha aqui. -- Suzana interferiu -- Chega dessa baixaria aqui na porta do motel que já tem mais dois carros parados atrás de nós! -- olhou para Anselmo -- Malandragem, vem empurrar o carro comigo! E você! -- olhou para Marizé -- Assume a direção e vaza. Em outro lugar você desce o sarrafo no elemento! -- olhou para Juliana -- Assume, lá, amor!
--Mas que porr* é essa, aí, ô! Sai com esse carro! -- um homem gritou e buzinou. O outro carro também buzinava
--Gente, que vergonha! -- Anselmo cobriu o rosto com as mãos
--Deixe de ser lerdo, bicho besta! -- a delegada deu um tapa na cabeça dele -- Faz o que eu mandei e toma teu rumo!
Marizé correu para dentro do carro e tomou o assento do motorista. Juliana fez o mesmo. Anselmo e Suzana empurraram o veículo do homem, que acabou pegando no tranco.
--Agora vaza, safado! -- deu outro tapa na cabeça dele
--Não falem nada pra minha filha, por favor! -- pediu desesperado e correu entrando no carro. Partiram
--Eu, hein, que situação absurda! -- a delegada entrava no carro reclamando -- Passar por uma dessas na saída de um motel. Acontece cada coisa na minha vida que parece mentira... -- fez cara feia
A japonesa riu e arrancou. -- Isso foi, no mínimo, a coisa mais impossível que já aconteceu comigo! E olha que eu tenho história pra contar... -- balançou a cabeça rindo -- Eu não vou comentar sobre isso nem com Ed, nem com dona Olga e muito menos com a Isa. -- olhou rapidamente para a morena -- E você?
--Eu não! -- pausou -- Nisso tudo só me arrependi de uma coisa... -- falou pensativa
--O que?
--Não perguntei à loirucha como é a fofoca do ‘pula pro lado’!
***
Isabela e mãe passeavam na Torre do Rio Sul.
--Que bom que você não teve aula hoje! Queria mesmo sua ajuda pra escolher uma roupa nova. Não posso fazer feio nesse aniversário de casamento de sua tia. -- Ana exclamou para a filha
--Eu não sei se vou nessa festa aí. Depois do vexame que eles deram na minha casa... -- fez cara feia
--Ai, não, Isa! -- olhou para a filha de cara feia -- Seja superior! Você e Seyyed chegarão lá mais lindas e maravilhosas do que nunca! -- fazia seus gestos -- Aproveite e use aquele colar caro que Seyyed te deu! Sua tia vai morrer de inveja! Nesses anos todos o marido dela só lhe deu bugiganga e bijuteria barata de camelô! -- voltou a olhar para as vitrines
--Eu me arrependi tanto de ter pedido aquele colar pra Ed... -- a ruiva falou
--Mas por que? Não há mal algum! Ela tem dinheiro!
--Mãe, não é bem assim, não... Ed não tem mais quase nada no banco. Hoje em dia minha conta tem mais dinheiro que a dela...
--Por que??? -- perguntou chocada
--Ela cismou e pagou o empréstimo do banco todo de uma vez! Ontem à noite Ed tava toda compenetrada fazendo contas...
--Que empréstimo? -- perguntou interessada
--Pra pagar o imóvel!
--Quer dizer que o seu apartamento está todo quitado? -- olhou para Isa extasiada
--NOSSO apartamento, mãe. -- olhou para Ana -- Meu e dela. E sim, está quitado. -- pausou -- Ed ficou muito agoniada e saiu pagando tudo. Só não fez isso com o empréstimo pra oficina de Goiás. A parte dela na dívida ainda não foi quitada porque é muita grana...
--Ah, mas as coisas vão se resolver bem! Essas oficinas logo, logo pagarão o investimento e ela vai matar todas as dívidas! -- pausou -- Hum... eu tenho que resolver isso aí! -- pensou cerrando os olhos
--Você??? Como? -- perguntou sem entender
--Como? -- não sabia o que responder -- Como...? Ah! Rezando e fazendo promessa! Minhas promessas estão tiro e queda, meu amor! Veja como Seyyed se recuperou rapidamente da cirurgia e como você conseguiu um espetáculo relevante pra participar! -- pausou -- "E Anselmo, com toda certeza, está sem amante!” -- sorriu vitoriosa -- "Tenho que falar com mãe Nagôia pra fazer chover dinheiro nas oficinas de Seyyed! Agora que sou filha de Oionha minhas macumbas vão bombar!”
--Então faça suas promessas porque a gente precisa! Eu mesma tenho orado muito... Depois de vê-la ontem daquele jeito eu me senti a pior das mulheres...
--Não, meu bebê, não se sinta assim! Tudo vai dar certo! -- viu um vestido -- Olha aquele ali! Eu quero provar! -- entraram na loja
Ana experimentou a roupa, gostou e Isa deu a ela de presente. Quando saíam da loja a bolsa de Ana cai no chão e algumas coisas se espalham. As vendedoras e Isa juntam tudo.
--Ai, gente, muito obrigada! -- a mulher mais velha agradeceu -- Vocês são uns amores!
--Ô, mãe, o que é isso aqui? -- a ruiva olhava desconfiada para um patuá
--Menina, me dê isso! -- arregalou os olhos e estendeu a mão para receber o objeto
--Tem uma coisa escrita aqui! -- leu -- “Proteção pra uma filha de Oionha.” Oionha?! Que diabo é isso, mãe? -- olhou para Ana desconfiada
--Isso é tira mofo pra deixar na bolsa! -- tomou o patuá da mão da ruiva -- Proteção anti mofo! -- guardou o objeto na bolsa
--Anti mofo? -- perguntou descrente -- E esse negócio de Oionha?
--Quem me deu isso foi a empregada e você sabe que aquilo ali é uma analfabeta! Queria escrever o nome de sua avó e deu nisso! -- mentiu descaradamente
--O nome da vovó? Mas o nome dela é Odete! De Odete pra Oionha vai uma diferença absurda! -- acabou rindo -- Ai, mãe, não me diga que agora você anda fazendo feitiço?
--Que feitiço, o que? Eu, hein? -- fingiu-se muito ofendida -- Veja lá se uma mulher de minha estirpe e classe vai andar por aí nessas macumbinhas chinfrins! Eu sou muito é da católica e apostólica e romana!
--Mãe, não tem esse bando de ‘e’! É católica, apostólica, romana! Como você pode ser romana? Tremenda carioca, eu, hein? -- riu
--Isa, minha filha, respeite sua mãe! -- jogou os cabelos e deu uma palmada no braço dela -- Você nem parece que me conhece!
--Você é muito louca, mãe... -- balançou a cabeça
--Muito louca... -- repetiu de cara feia -- Se soubesse dos sacrifícios que já fiz por você e por seu pai, nunca me diria isso! -- estava contrariada
--Tá bom, mãe! Perdoe! -- beijou-lhe o rosto -- Você é a mãe perfeita pra mim! -- riu
--Hum! -- fez charme -- Pensei que você achasse que Olga é a mãe perfeita... -- disse com despeito
--Mas ela é... pra Seyyed! Pra mim, é você! -- sorriu
--Olga pode ser muito boazinha mas não sabe nem se vestir! Nunca a vi usando uma roupa de marca sequer! -- calou-se -- Um dia eu a chamo pra uma conversa e instruo aquela criatura inculta!
Isa riu.
***
--Ivone, mas eu me aborreci tanto com aquela caipira da internet! Meu, mas que ódio! -- Camille falava cheia de revolta
--Que caipira da internet? -- não entendeu
--Aquela autora com quem eu teclo de vez em quando! A Solitudine!
--Por que você a chama assim? -- perguntou curiosa
--Porque ela veio de umas roças brabas aí e se acha o máximo só porque escreve uma porr* de uma história infinita e cheia de firula. Ela ficou doente ou sei lá o que, e eu acho que escreve feito uma condenada por medo de morrer! Ô louco, viu? -- fez cara feia
--Mas o que ela te disse, afinal?
--Acredita que a cachorra me disse que eu vivo em meus contos virtuais o que não tenho coragem de viver na vida real? -- pôs as mãos na cintura -- Não é uma descarada? Ah, mas eu fiquei puta! A treta foi feia, viu? Só não bati nela porque não dava, mas bits e bytes voaram por todo canto do mundo virtual!
--E por que se sentiu tão ofendida?
--Ora, meu! Ela me chamou de frustrada, não percebe?
--Diga-me, Camille, por que escreve?
--Ah, Ivone, nem vem! -- cruzou os braços
--Não afirmei coisa alguma, apenas lhe fiz uma pergunta. Aliás, -- pegou uns papéis -- eu me dei a liberdade de ler seus contos e fiquei surpresa. -- olhou para ela -- Você tem talento!
--Você leu... -- afirmou constrangida. Não imaginava que a psiquiatra um dia tivesse tal curiosidade -- Você não tem o que fazer em casa, não, é Ivone? Como teve tempo de ler meus contos? -- não sabia o que dizer
--Tenho mil coisas pra fazer, é claro, e não penso que seja necessário ser uma pessoa ociosa pra poder ler ou escrever algo de bom. -- olhou para as folhas -- Eu fiquei tocada com o modo como você se entrega ao que faz!
--Sério?
--Sim. E o que eu percebi nestas páginas, é que tudo o que você quer é viver um grande amor. Você não quer farra, bagunça ou experimentar sensações... você quer algo de verdade! Algo com significado, algo bonito!
--É, eu... escrever é uma espécie de diálogo entre eu e eu mesma... Louco, não? -- olhou para baixo
--Não vejo loucura alguma. -- pausou -- Quando escreve? Que momentos inspirados são estes?
--Quando a dor aperta, quando sinto vontade de gritar e não posso, quando sinto vontade de receber um beijo, um abraço e ninguém está por perto pra fazer isso... Escrevo quando o coração pede... -- respirou fundo -- Eu escrevo nos meus momentos de solidão, mas não aquela solidão de estar sem gente ao redor, não sei se você entende... “Há um tipo de solidão que extrapola todas as coisas. É a solidão no meio de muitos.”11
--E por que escreve?
A loura gastou longos minutos calada e finalmente respondeu de cabeça baixa: -- Escrevo o que não tenho coragem de viver e desejaria ardentemente fazê-lo...
--Então a tal caipira estava certa?
--É... ela estava! -- continuava cabisbaixa
--E por que assume isso assim, de cabeça baixa? Qual a vergonha?
--Incompetência pura, não acha? -- olhou para a psiquiatra
--Incompetente é a última coisa que você é. -- afirmou com muita sinceridade -- Nunca mais diga isso!
--Mas eu não quero me permitir viver o que você leu! O que eu escrevo.
--Por que?
--Porque eu não quero! -- foi o que se limitou a dizer
--Tudo bem.
--Ivone, tenho outra coisa pra te dizer! Acho que minha mãe sabe de mim!
--O que aconteceu?
--Eu ia dizer a ela mas na hora em que ia falar, mamãe se levantou com uma conversa e foi pra cozinha. Foi nítido que ela não queria ouvir.
--Muitas pessoas são assim, meu bem. Ante ao que não querem que seja verdade, fingem-se de cegas e surdas. É uma reação de negação muito comum entre os pais de jovens homossexuais. As famílias fingem não saber e todo mundo vive normalmente em um eterno teatro. -- pausou -- Mas, não a condene por isso. Ela ama você. Apenas não sabe como lidar com essa realidade.
--Você acha que eu devo tentar criar uma situação e dizer a ela?
--É o que quer fazer?
--Acho que eu me sentiria mais leve e mais verdadeira.
--Então tente. Mas tenha tato, não seja agressiva com ela.
--Não serei. -- pausou -- Eu vou criar uma oportunidade e... vamos ver. -- pensou -- Ivone, você tem certeza de que não é lésbica?
--Tenho, por que? -- riu
--Nada... só tô te testando!
--E por que me testa? -- perguntou curiosa
--Não quero que se apaixone por mim!
--Ah! -- ela riu -- E eu aqui pensando que sua auto estima andava em baixa... -- balançou a cabeça
***
Ed discutia com o mecânico que Renan treinou. -- João, eu tenho essa oficina há anos e ninguém aqui nunca aplicou golpe nos clientes! Não admito que um cara que chegou outro dia faça isso! -- falou com rispidez
--Eu não dei golpe nenhum! É esse bando de retardado fofoqueiro que tem aqui dentro que fica inventando história!
--Não chame meus ajudantes de retardados! -- ameaçou com um tom assustador
--Pois é o que eles são! Eu não dei golpe! É fofoca! -- gritou
--Fofoca? Pois fiquei sabendo que você disse pra três clientes que o óleo dos motores estava com viscosidade baixa! Parece que você mede viscosidade nos dedos... -- riu -- A menos que tenha um Saybolt universal nas pontas dos seus dedinhos ninguém consegue fazer isso! -- ironizou
--Você me viu fazer isso? É conversa dos seus retardados!
--Conversa? -- pegou ele pelo braço e o arrastou até um Renault Clio parado perto deles -- E isso aqui? É golpe ou não é? Pintura fosca, ondulada... -- deu um tapa na lataria do carro -- Fiquei aqui até tarde ontem conferindo todos os carros e constatei que o senhor usou durepox no serviço de funelaria desse Clio! Isso é inadmissível!
João desvencilhou-se dela com um movimento brusco de braço. -- Como sabe que fui eu que mexi nesse carro?
--Sei porque Camille registra tudo! E não acabou! -- pegou-o pelo braço novamente e foi até outro carro -- Você soldou o silencioso do escapamento desse Polo. Sabe muito bem que o certo é trocar a peça toda!
--Não tinha porque trocar tudo! -- argumentou
--Você registrou que fez a troca! Foi desonesto!
--Então foi porque acabei trocando depois!
--Mentira, João! Eu localizei o cordão de solda! -- continuava falando com rispidez -- Seus colegas me disseram que você quis usar peças recondicionadas naquele Corsa Sedan! -- apontou -- Você sabe que nessa oficina não fazemos isso! Usamos peças novas e com etiquetas de garantia!
--Isso é frescura! Tudo quanto é oficina que trabalhei usa peça recondicionada!
--Usa? -- perguntou encarando com ele -- Mas eu sou fresca mesmo! E aqui não se completa fluído de freio! A gente pesquisa onde tá o vazamento e conserta! E também não trocamos peças sem necessidade!
--Ah, é! Isso aqui nem é uma oficina, é uma igreja! Só tem gente santa! -- debochou
--É isso mesmo, isso aqui é uma igreja, MINHA igreja, -- bateu no peito -- e você tá fora! -- gritou com ele
--O que? -- perguntou incrédulo -- Seyyed, você não pode me demitir! Minha mulher tá grávida!
--Sinto muito por isso, mas eu não trabalho com gente desonesta! Não posso confiar em você!
--Eu sou camarada do teu irmão! Ele me conhece há anos! -- gritou -- Não pode me demitir quando mais preciso de dinheiro!
--Você nem merecia, mas vai receber o que te é devido! Não vou te cobrar pelos consertos que teremos que dar ao teu serviço porco. -- olhou bem para ele -- Amanhã você fala com a Camille e ela vai cuidar de tudo! Mas teu vínculo com a ESSALAAM acaba aqui!
João passou a mão na cabeça chateado. Sentia-se injustiçado. -- Você me pediu pra ficar até mais tarde hoje pra me dar esporro... -- olhou magoado para ela
--Preferia que essa conversa acontecesse na frente dos seus colegas?
--Vai se arrepender por isso! -- deu um soco na porta, pegou a mochila e foi embora
Seyyed começou a abaixar as portas para fechar a oficina. Camille veio para junto dela.
--Eu nunca fui com a cara desse homem, desde o primeiro dia em que o vi! -- cruzou os braços
--Eu sei. -- continuava fechando as portas -- Nunca senti nada ruim nele, mas desconfiei de sua honestidade com o tempo. João é malandro! -- terminou de fechar tudo -- Ele começou no padrão e com o tempo foi botando as asinhas de fora!
--Como descobriu o que ele andava fazendo?
--Fiquei até tarde aqui ontem e repassei todos os carros; daí constatei as falhas. Na época de Silvio e Renan a gente se alternava nesse serviço, hoje em dia faço isso sozinha. -- limpava as mãos com estopa -- Imprensei uns funcionários mais antigos hoje cedo e eles me entregaram alguns furos do cara. E antes de ir embora Julinho me contou que João metia o dedão no óleo dos carros e alegava pras pessoas que tava fraco, sem viscosidade... -- balançou a cabeça -- Eu não admito que se engane o cliente aqui dentro! Jamais!
--Tem que ter cuidado, Ed. -- olhou bem para ela -- Você não sabe quem ele é. Pode querer se vingar!
--Não vai se vingar, se Deus quiser. Paga o que devo a ele e essa história acaba. Dá uns vinte por cento a mais por conta do neném que vem por aí. A criança não tem culpa da canalhice do pai!
--Hum... -- sorriu e mudou de assunto -- Eu tenho lido sobre carros, sabia? Já que trabalho com máquinas, tenho que conhecê-las.
--Legal! -- sorriu também -- Quando quiser conversar a respeito, estarei às ordens! -- jogou a estopa no saco de trapos -- Vamos de moto pra casa? -- ofereceu
--Só se prometer que não vai muito depressa! -- fez charminho
--Prometo que vou bem devagar com você!
--Então tá bom!
--Ainda não ouvi você falar aquela expressão tão característica... -- brincou
--Ô louco!
--Isso... -- sorriu. Verdes e azuis se prenderam -- "Esse olhar que ela tem...” -- Ed pensava -- "Parece uma hipnose...” -- balançou a cabeça -- Vambora que tá na hora! -- bateu palmas e foi indo para a porta
Camille suspirou. “Será que Ivone tem razão? Que ela também está balançada comigo?” -- pensou esperançosa e sorriu
***
Juliana estava em plantão noturno. Era quase uma da manhã e ela entra em uma enfermaria. Ouviu barulhos estranhos quando andava pelos corredores e decidiu averiguar. Surpreendeu uma cuidadora de idosos batendo na senhora que ela deveria cuidar.
--Sua cachorra! -- deu um soco na cabeça da mulher -- Batendo na idosa, sua filha de uma égua! Canalha, sem vergonha, filha da puta! -- continuava batendo
De repente a maior confusão se formou naquele andar.
--Gente, gente, chama o segurança! -- uma paciente gritou
--Sua louca! -- a mulher se desvencilhou de Juliana -- Como pode entrar aqui e me bater desse jeito? -- passava as mãos na cabeça. Sentia dor. Estava unhada e arranhada
--Ah, mas eu vou te denunciar, sua desgraçada! -- foi até a idosa -- Como a senhora está, dona Elza? -- perguntou com delicadeza
--Eu queria fazer xixi no vaso, mas me urinei toda... -- respondeu chorando -- Ela não quis me levar no banheiro! -- chorava
--Chora, não, meu amor, eu troco as roupas de cama e seu vestidinho. Vem, meu bem, chora não! -- ajudou-a se levantar -- Vamos no banheiro, nos lavar um pouco? -- a idosa consentiu com a cabeça
--Mas o que tá havendo aqui? -- um médico residente apareceu
--Essa calhorda, aí! -- Juliana fez sinal com a cabeça -- Batendo na idosa! Eu cheguei aqui e peguei no flagra.
--É mentira! -- a mulher gritou -- Não, é, dona Elza? Eu não bati na senhora, não foi?
A idosa permaneceu calada.
--Você bate nela! -- outra paciente confirmou -- Eu já falei com o filho de dona Elza mas aquilo ali só não é mais besta por falta de espaço!
--É mentira! -- afirmou com medo -- Ela foi quem me bateu! -- apontou para Juliana
--Bati e bato mais! Só não te quebrei no pau porque estamos aqui dentro! -- a enfermeira assumiu
--Então eu vou chamar a polícia! -- o médico decidiu -- Isso é inadmissível! Bater na idosa, eu hein, que desumanidade!
--Chama mesmo! -- outra paciente deu força
Juliana entrou no banheiro com a idosa. Enquanto isso, a cuidadora fugiu.
***
Juliana e Suzana estavam na delegacia. A enfermeira depunha contra a cuidadora de idosos, identificada pelo filho de Elza como Maria da Penha Assunção.
--E a desgraçada ainda teve a cara de pau de negar tudo! -- a japonesa acabava de narrar sua versão dos fatos
--É... duas pacientes do Silva Avelar confirmam sua versão. -- o delegado falou -- E o filho de dona Elza assume que foi advertido por uma delas mas não acreditou porque a mãe não lhe dizia nada!
--O idoso tem medo, delegado! É como a criança que sofre agressões e fica calada! -- Juliana respondeu
--Essa mulher tem que ser presa, delegado! -- Suzana falou -- Nós sabemos que o que ela fez pode resultar em até oito meses de prisão! Não temos notícias dela?
--Tomara que seja presa! -- a japonesa desejou -- E quando chegar na cadeia as outras presas farão dela paçoca!
--Nós estamos investigando, delegada Suzana. -- ele respondeu cheio de pose -- A mulher saiu de casa de um jeito que nem a filha suspeita por onde ela anda!
--Aposto que se minha Suzana estivesse sentada nessa cadeira aí a desgraçada já tava algemada e tirando foto no RJ TV! -- Juliana resmungou para si mesma
--O que? -- o homem perguntou
--Ah, eu disse que com a sua competência daqui a pouco essa mulher vai ser presa! -- respondeu em voz alta -- Bota aí uns dez anos... -- resmungou. Suzana ouviu e se controlou para não rir
***
Juliana e Suzana saíam da delegacia de mãos dadas. Selma apareceu e veio correndo atrás.
--Juliana, Juliana! -- chamava
--Ai, não, Selma! -- a japonesa reconheceu a voz e revirou os olhos
Suzana olhou para ver a mulher que se aproximava.
--Nós temos que conversar! -- olhou para Suzana -- Ih, você é... -- cobriu os lábios com uma das mãos -- delegada Suzana Mello, não é isso?
--Sim. -- respondeu desconfiada
--Acabou que a gente ainda não se conhecia pessoalmente... Que emoção te conhecer! -- deu um beijo no rosto dela e um abraço apertado. Suzana ficou em estado de choque com os braços abertos sem abraçá-la
--Ô, Selma, pode ir parando com esse excesso de chamego, tá bom? -- separou Selma da delegada -- Eu, hein? -- fez cara feia
A repórter endireitou a roupa e falou: -- Juliana, nós temos que conversar! -- olhou para a japonesa -- Eu vi sua movimentação pra que a polícia prenda a cuidadora Maria da Penha e fiquei maravilhada! Adorei o que você falou pra imprensa! -- segurou as duas mãos dela -- Filie-se ao nosso partido! Você pode ser a candidata dos idosos! Eles te adoram e você tem o maior carisma nesse hospital!
--Selma, por favor! -- soltou as mãos da mulher -- Eu não vou me candidatar em 2004! -- pegou Suzana pela mão e foi andando para o carro
--Então filie-se ao partido e se candidate em 2006! -- foi seguindo as duas e falando
--Não!
--Em 2008!
--Não!
--Em 2010? -- perguntou -- Você terá tempo de sobra...
--Selma, não! -- levantou o braço e disse sem olhar para trás: -- E não me siga!
Selma parou de andar e pensou: “Eu não vou desistir de você...” -- cruzou os braços
***
Isabela aguardava o início da primeira aula do dia quando encontra com Elaine, uma bailarina que conhecia do Municipal.
--Elaine! -- chamou. A ruiva estava sentada em um banco de concreto -- Oi! -- acenou
A moça andou até ela e sentou-se ao seu lado. -- Oi, tudo bem? -- deu beijos de comadre
--Tudo, e você? Não sabia que era aluna daqui.
--E não sou, meu irmão que é. Ele é calouro de vocês no curso de dança. -- pausou -- Mas não é gay!
--Nossa, eu nem pensei nisso! -- sorriu -- Soube que você arrasou no espetáculo que estreou em março! -- comentou
--Nada! -- sorriu timidamente -- Quem sou eu? -- olhou para ela -- Soube do que se passou com a Joice? Eu fiquei arrasada!
Isa sentiu uma enorme tristeza ao se lembrar do episódio. -- Eu também! Cheguei a chorar...
--Eu achei aquilo tudo tão suspeito... aquele tombo, sabe? Deus me livre, às vezes acho que alguém armou!
--Como assim? -- perguntou desconfiada
--Acho que uma dessas bailarinas que morrem de inveja da Ana queria que ela escorregasse e aí fez alguma coisa no palco pra ficar escorregadio! Acabou que Joice foi quem pagou o pato!
--Que é isso, Elaine? -- fez uma cara feia -- Quem faria um troço desses? E como?
--Sei lá! Tem gente que parece ter cada artimanha do arco da velha!
--Duvido muito que alguém tenha se prestado a um papel tão infeliz!
--Pois não sou a única que pensa assim! Sabia que Neyan já andou dizendo isso por aí?
--Sério? -- perguntou surpresa
--Sim. -- calou-se por uns instantes -- Eu não deveria dizer isso, mas... -- respirou fundo -- Em um dos ensaios que fizemos antes desse último espetáculo... -- olhou para o chão constrangida -- ele falou que desconfiava de você...
--O que????? -- ficou ofendida a ponto de se levantar -- Neyan acha que pode sair por aí acusando os outros sem provas?? Eu podia processá-lo por isso, sabia?
--Relaxa, Isa! -- olhou para a ruiva -- Ninguém levou fé no que ele falou porque todos sabíamos que vocês tinham discutido e ele é rancoroso, qual a novidade?
--Ah, mas isso não pode ficar assim! -- cruzou os braços
--Amiga, olha! -- levantou-se -- Esquece isso! Foram palavras que o vento já levou. Até já me arrependi por ter te contado! -- pausou -- Só te contei pra que não fosse pega de surpresa se um dia ouvisse isso por aí! Mas esquece, foi papo que ninguém alimentou e nem vai alimentar!
Isa nada respondeu.
--Bem, deixa eu só te falar uma coisa antes de ir embora. -- sorriu -- Tenho feito aulas de canto no Conservatório de Música e acredito que isso vá dar um incremento na minha carreira! Bailarinos que cantam e dançam sempre se destacam! Já pensou em fazer canto também?
--Eu nunca tinha pensado nisso... -- respondeu
--Pois pense! -- sorriu -- É a minha hora! -- deu beijos de comadre na ruiva -- Prazer revê-la!
--Igualmente, Elaine!
--Não comenta pra ninguém que te falei do lance do Neyan, tá?
--Pode deixar! -- sorriu
Elaine partiu e Isa sentou-se novamente. Ficou pensando no que a moça contou sobre Neyan e ficou muito preocupada. “E se outras pessoas derem ouvidos a ele porque fui eu quem ficou no lugar dela?”-- pensou -- "Em compensação, Elaine disse que todos entenderam o comentário como despeito dele por causa de nossa discussão... Ai, mas isso não é nada bom pra mim! Meu nome envolvido numa suspeita de algo que terminou em tragédia... Neyan é um maldito invejoso! Cobra venenosa!”
***
Quatro meses já haviam se passado após a cirurgia e Suzana evoluía muito bem de saúde, porém não conseguia se sentir feliz. Vivia na casa de Juliana e tinha seus programas com ela, saía com Maria de Lourdes todas as manhãs, ia na academia de Flávia, conversava com Brito, visitava Ricardinho, passava na oficina de Seyyed... não ficava parada à toa, mas parecia que lhe faltava fazer alguma coisa a mais.
Nem mesmo a companhia de Juliana acalmava sua agonia silenciosa. A japonesa percebia o que se passava, mas preferia acreditar que tudo se devia a um período de depressão pós cirúrgica. Entendia que a delegada também se ressentia de não poder mais trabalhar e achava que aquela frustração iria passar logo.
Era noite, Juliana dormia e Suzana se preparava para partir. Deixou uma carta na mesa de cabeceira e olhou para ela com imenso pesar. Sabia que a faria sofrer, mas do jeito como estavam, tampouco a faria feliz.
Foi para o quarto de Maria de Lourdes e a acordou com delicadeza.
--Suzaninha... -- olhou para ela com espanto -- Pra onde vai a essa hora? -- não entendia
--Dona Lourdes, -- ajoelhou-se em frente a ela -- eu não estou bem. Não pelo corpo, mas pela alma e ainda há algumas coisas que eu preciso fazer.
--Está partindo, não é? -- perguntou com tristeza
--Eu sei que Juliana vai sofrer e sei que ela não vai entender, mas preciso ir. Não tá dando pra mim... -- estava triste
Lourdes suspirou e balançou a cabeça. -- Eu também não entendo, mas se quer ir... Sabe que não pode deixar de tomar os remédios e fazer os exames. Sabe que uma rejeição pode acontecer a qualquer momento...
--Eu sei. Tô ciente!
--Pra onde vai?
--Pra bem longe...
--E volta?
--Deus é quem sabe.
--Suzaninha... -- olhou para ela com muita tristeza
--Por favor, me dê sua bênção pois preciso dela. -- abaixou a cabeça -- Tenho que exorcizar meus últimos demônios. Não dá mais pra adiar...
--Deus te abençoe, minha filha, te dê juízo e te faça encontrar o que procura. Que Deus te ajude a ser feliz um dia! -- beijou a cabeça dela
--Tchau, dona Lourdes. Cuide da minha japonesa e diga a ela que eu a amo muito! E saiba que também amo muito a senhora, como se fosse minha mãe! -- beijou as mãos da idosa, levantou-se e foi embora. Lourdes fechou os olhos e chorou
Suzana desceu as escadas do prédio e foi para a garagem. Sentou-se na moto com a mochila nas costas, colocou o capacete e saiu. Não sabia o que seria de sua vida dali para frente, mas não queria pensar.
Quando entrou na linha Vermelha, acelerou e pensou em Juliana. Sabia que sempre estava decepcionando aquela mulher.
Lembrou-se de como se conheceram, de quando ia na casa dela e morria de medo de um simples beijo. Lembrou dos momentos de amor, das brigas, das dificuldades. Mais uma vez constatou que estava fugindo; aquela seria sua última fuga.
Juliana queria casamento, queria estabilidade, queria uma vida como a de Seyyed e Isa, mas Suzana sabia que ainda não tinha condições de lhe dar isso. Era demais para ela.
Talvez um dia voltasse, mas não sabia se o corpo agüentaria o que estava disposta a fazer. O risco de morrer no caminho não a assustava. Seria como sempre foi: estaria só.
Acelerou uma vez mais e foi embora.
***
--Ivone, eu sabia que isso ia acontecer! Aquela visão me mostrou! Eu pensei que ela morreria no hospital mas não... Graças a Deus não foi assim... -- suspirou -- O que aconteceu foi que ela me deixou mesmo... -- falava com muita tristeza
Ivone acabou de ler a carta que a delegada escreveu. --Não tem idéia do que ela pode ter ido fazer?
--Não! E o pior é que, me diz uma coisa? Como essa criatura vai se cuidar? Ela não vai tomar os remédios e nem fazer os exames... -- esfregou o rosto com as mãos -- Eu também não poderia esperar que alguém que viveu o que ela viveu não fosse uma pessoa extremamente complicada, não é?
--Dificilmente não seria. Nós, os seres humanos, somos complicados por natureza! “A maioria dos Homens vive uma existência de tranquilo desespero.”12
--EU tenho vivido em tranquilo desespero... Dona Lourdes também. Ela reza noite e dia e eu sei que é por causa de Suzana... -- suspirou -- Ai, Ivone, aquela índia nhambiquara sem vergonha não vai voltar... Sabia que ela comprou meu apartamento e me deu?
--Não, eu não sabia! -- respondeu surpresa
--Ela convenceu o proprietário a vender, nem quero saber como, resolveu tudo com a imobiliária e me apareceu com a escritura dias antes de partir. De quebra ainda vendeu o apartamento que tinha, os móveis e praticamente tudo. -- balançou a cabeça -- E a otária aqui, cheia de esperanças achando que ela ia viver comigo... -- estava muito triste -- Quando ela chegou lá em casa de mala e cuia, meu coração parecia que ia explodir de felicidade!
--E quando ela partiu levou todos os seus pertences?
--Pertences... -- riu -- Suzana é espartana demais, Ivone. Mesmo na casa dela tinha pouquíssimas coisas. Deixou lá algumas roupas, sapatos, objetos de uso pessoal... Deixou o que não queria mais, como eu, por exemplo... -- abaixou a cabeça
--Dê tempo ao tempo, querida. Só Deus sabe o que virá! Não sofra por antecipação. Você fez isso tantas vezes e viu que as coisas não se desenrolaram como pensou que fosse ser!
--Mas agora é claro demais, Ivone.
--Ela quer voltar, meu bem. A carta dela deixa isso muito claro. -- devolveu a carta a Juliana -- Ela vai fazer algum ajuste de contas, coisa bem dela, bem particular, e vai voltar pra você! Se não voltar é só porque não pôde, mas é o que ela quer!
--Sei lá, Ivone... eu sou péssima em ler nas entrelinhas, especialmente depois de ter chorado como uma bezerra desmamada!
--Seja como for confie em Deus, ore por ela, por dona Lourdes e por você também. Aconteça o que for, não vacile na sua fé! Estou orgulhosa com o modo como tem sabido lidar com os momentos difíceis.
--Foi questão de sobrevivência, Ivone...
--Nem todos aprendem a sobreviver, meu amor.
--Vamos mudar de assunto? Tá doendo muito e meus olhos já andam desidratados! Já pensou ficar enrugada igual a um Shar-pei? Largada e feia já é demais, né?
Ivone riu. -- Como quiser!
--Ontem recebi uma intimação. Estou sendo processada pela filha daquela cuidadora dos infernos!
--Aquela que foi presa?
--Sim. A filha da papuda me processa por ter metido o cacete na mãe dela.
--Você bateu na mãe dela? -- perguntou surpresa
--Bati e com muito gosto! Dei-lhe cada moca violenta! E o pescotapa? Ah, minha filha, doeu até em mim!
--Juliana, você não pode sair por aí batendo nas pessoas! Como será que vai terminar esse processo, hein? -- Ivone perguntou alarmada
--Bati naquela desgraçada e bato de novo se me deram chance! Ainda bati pouco! Sorte a dela que Suzana não era mais a delegada no comando naquela delegacia, porque se fosse, ela ia ser presa mais cedo e levaria mais cacetes in off!
Ivone acabou rindo. -- Ai, meu Pai... -- balançou a cabeça -- E quem é seu advogado nessa história?
--Contratei Ruy! Quer dizer, quis contratar. Bastou falar com ele sobre o caso e o maluco quis fazer de graça. Mas eu sei que tudo isso é pra me catequizar pro tal PCons.
--Quem é Ruy? -- perguntou curiosa
--O anão, criatura! Selma e ele vivem nos meus encalços pra eu entrar pro PCons!
--E eles ainda vão conseguir... -- sorriu
--Deus me livre! -- deu três batidas na mesa -- Odeio política! Tô fora! -- fez uma careta
***
Olga lia uma historinha para Ricardinho, que estava deitado na cama do casal.
--E então o menininho sentiu muito medo do escuro e chorou assustado atrás de uma árvore durante a noite inteira. -- mostrava as figuras do livro para a criança -- Só que quando o sol nasceu, ele pôde ver que a floresta era bonita, cheia de verde, flores e bichos, e finalmente percebeu que não havia porque ter medo. -- virou a página -- Deus, a Força Criadora por trás de todas as coisas, nos protege e ampara sempre. “O choro pode durar por uma noite, mas a alegria vem pela manhã.”13 -- mostrou a última página
Mariano estava em pé, encostado na porta olhando para os dois.
--Oi, meu amor! -- Olga sorriu e olhou para ele -- Vem cá! -- chamou -- Olha o papai, neném! Olha papai! -- falou com voz fininha
Ele sentou-se na cama e beijou a cabeça do menino. -- Eu estava assistindo vocês... -- sorriu -- Acho curioso que leia historinhas pra ele. -- olhou para a criança -- Hoje é um livrinho religioso! -- riu
--Eu leio várias historinhas. Comprei esse livrinho porque achei uma graça.
--Acha que ele entende?
--As crianças aprendem muito rápido e nós sempre podemos nos surpreender. -- pegou um ursinho e ficou brincando com Ricardinho -- Além do mais é desde cedo que se deve ensinar coisas boas.
--Foi difícil criar Renan? -- olhou para ela
--Mais ou menos. Quando ele chegou nas nossas vidas tinha treze anos e péssimos hábitos. Mas era um menino sonhador e muito carente, uma alma tranqüila, de boa índole e isso ajudou. Só que eu acho que criar meninos é muito mais difícil que criar meninas. -- continuava brincando com Ricardinho
--Ah, mas eu também acho! As pessoas marcam muito mais as mulheres. Desde garoto ouço falar mal das ‘moças de hoje em dia’ mas nunca se fala dos rapazes em igual medida.
--As ‘moças de hoje em dia’ são mal faladas há séculos, a começar pela boca das próprias mulheres! -- Olga comentou -- Acho que a evolução de mentalidades nesse sentido é extremamente lenta!
--Pois é! Ninguém repara com a mesma severidade que se faz com as garotas, se um menino é levado, relaxado, mal educado e violento. As pessoas entendem que estas coisas fazem parte da manifestação natural da masculinidade. E as pessoas também não se importam muito se um homem é promíscuo, desde que ele não seja gay. Podem chamar um rapaz de galinha, mas ele não deixa de ser respeitado. A moça galinha é desrespeitada por homens e mulheres; ela é uma figura sem status algum. E um homem pode sair pra beber, zoar com os outros rapazes, ‘comer’ um monte de moças... É tudo esperado e aceitável, a menos que se torne absurdo demais. Uma moça que faça a mesma coisa é bastante criticada. Sempre achei que a diferença entre o garanhão e a piranha está no julgamento social. -- balançou a cabeça -- Lembro bem das críticas que recebia por ser o único rapaz do grupo que não freqüentava os inferninhos da Rua Augusta...
--É isso mesmo. E aí, quando o homem chega na maturidade, todos esperam que ele seja bom marido e bom pai. Comparo isso com criar um analfabeto a vida toda e, repentinamente, querer que ele se torne um doutor.
--Ser homem também é difícil, Olga, muito difícil! E apesar das mulheres sofrerem com os homens, muitas vezes no papel de mãe são exímias professoras em formar futuros canalhas. -- pegou o garoto e o colocou no colo -- Mas eu não queria que fosse assim com ele. Eu me sinto tão frustrado como pai... queria que Ricardinho fosse um homem de bem! -- beijou a mãozinha dele
--Papapapa! -- a criança balbuciou
--Ouviu isso, Olga? -- olhou para ela extasiado
--Ih, vai te chamar de pai antes de me chamar de mãe! -- beijou a testa dele -- Seu danadinho... -- o menino segurou um dedo dela -- Ele será um bom homem, Mariano. E o mais importante, será livre, útil e feliz! -- sorriu olhando para o marido -- Em breve, receberemos a notícia de que está curado. Tenho fé!
--Eu peço por isso todos os dias! Fiz uma promessa a Virgem e vou pagá-la em Aparecida se tudo der certo!
Olga sorriu, pegou o ursinho e voltou a brincar com o garoto. Ele balbuciava sons típicos de criança muito pequena.
--Você se incomoda que eu seja católico ao invés de kardecista? -- Mariano perguntou -- Eu não me incomodo com sua religião...
--Eu não! -- riu -- Casei com você, lembra?
--Então você iria em Aparecida comigo pagar a promessa? -- perguntou esperançoso
--Sim. -- beijou-o -- Ôpa... -- fez uma careta divertida -- sinto cheiro de problemas...
--Eu também! -- olhou para Ricardinho -- Hora de trocar a fralda, meu chapa!
Olga se levantou para pegar uma fralda nova, papel higiênico e lenços umedecidos. Mariano deitou o menino na cama e tirava sua roupinha.
--Olga, como você sabe, hoje dei uma passada na oficina de Seyyed. Acabou que conheci o mecânico novo, o tal do Léo, que ela empregou no lugar de João, aquele safado. -- abriu a fralda -- Eita, que tá danado! -- riu
--E o que achou dele? -- sentou-se ao lado de Mariano e pegou a fralda suja para descartar. Ele começou a limpar a criança
--Parece ter muita experiência, sabe falar bem, é sério... pelo menos é o que demonstra. Eu acho que agora vai! Sinto firmeza nele!
--Que bom! Tomara que esse Léo seja um bom profissional. Silvio e Renan fazem muita falta a Seyyed. É complicadíssimo achar bons mecânicos no mercado.
--Eu sei. Não sabe o que já sofri com conserto de carro antes de conhecer vocês. -- terminou de colocar a fralda nova -- Pronto!
--Depois que me conheceu seus sofrimentos acabaram! -- brincou e olhou para Ricardinho -- Limpinho! -- beijou a barriga dele
--Acabaram mesmo! -- respondeu levando a sério -- Depois que te conheci minha vida mudou tanto... foi como se eu tivesse nascido de novo! -- olhou para ela -- Eu te amo muito, Olga!
--Você também deu muita cor a minha vida, meu querido! -- passou a mão no rosto dele -- Também te amo muito, Mariano! -- beijou-o
Fim do capítulo
Músicas do Capítulo:
Choro de Lady:
Onde o Amor me Leva - Intérprete: Rosana. Compositores: Claudio Rabello / Marcos Valle;
Força Estranha - Intérprete: Gal Costa. Compositor: Caetano Veloso;
Fuscão Preto - Intérprete: Almir Rogério. Compositor: Gilberto Felicio Silveira;
Meu Mundo Caiu - Intérprete e Compositora: Maysa;
Siga Seu Rumo - Intérprete: Jane e Herondy. Compositor (es): não encontrei informações;
Ronda - Intérprete: Maria Bethânia. Compositor: Paulo Vanzolini;
Garçom - Intérprete e Compositor: Reginaldo Rossi.
Diálogo Lady e Fernado:
Emoções - Intérprete: Roberto Carlos. Compositores: Roberto e Erasmo Carlos;
Cama e Mesa - Intérprete: Roberto Carlos. Compositores: Roberto e Erasmo Carlos;
Fazendo Paixão - Intérprete: Benito di Paula. Compositores: Carlos Colla e Chico Roque;
A Estrada - Intérprete: Cidade Negra. Compositor: Da Gama.
Marizé canta:
Adaptação de Amiguinha Xuxa - Intérprete: Xuxa. Compositores: Messias Correa/ Rogério Endé
[a] Ilariê. Intérprete: Xuxa. Compositores: Cid Guerreiro / Dito / Ceinha. In: Xou da Xuxa 3. Intérprete: Xuxa. Som Livre, 1988. 1 disco vinil, lado A, faixa 1 (5min35)
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NovaAqui
Em: 16/06/2024
Priscila só arruma peças raras para morar com ela okkk
Continuo não gostando de Isa! Ela só faz o que a mãe quer
Legal demais a Ed fazer a doação para Suzana
Suzana, minha filha! Resolva seus BOs do passado e volte para Ju! Ela não merece ficar longe de você
Ricardinho será muito amado
Mariangela só atrai umas figuras kkkk
Camille toda felizinha com o que Tamires falou. Tomara que concretize.
Queria a Camille com a Ed.
Solitudine
Em: 16/06/2024
Autora da história
Olá querida!
Não é Priscila quem arruma, são os pais dela; ela sente as consequências! kkk
Isa ainda está em um processo de amadurecimento. Vejamos como será. O "triângulo" Isabela-Seyyed-Camille dividiu as leitoras quase meio a meio na época em que o conto estava sendo postado (no abcLés).
Suzana partiu em uma busca interior. Vejamos o que ela encontrará.
Ricardinho encontrou um lar. E sim, Mari atrai! kkkk
Beijos,
Sol
Solitudine
Em: 16/06/2024
Autora da história
Samira, você voltou a atacar? E o retiro, cadê? kkkk
Não racha a caipira, mulher...
Beijos,
Sol
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jake
Em: 19/03/2024
Oie Autora esse cap foi maravilhoso, foi em todos os sentidos curiosa pra saber o motivo q levou a Delegada fugir....Parabéns !!!
jake
Em: 19/03/2024
bom em todos os sentidos.
Solitudine
Em: 22/03/2024
Autora da história
Olá querida!
A quarta temporada é muito especial para mim. Fico feliz que o primeiro capítulo tenha te envolvido.
Some não! Volte para me dizer o que está achando!
Beijos,
Sol
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Femines666
Em: 10/03/2023
Vou começar a ler essa. Os textinhos que tu põe no início de cada temporada já me arrepiam!
Resposta do autor:
Obrigada! Fico feliz em saber disso.
Eu os escolhia com muito cuidado.
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 13/09/2022
Eu não aguento Lady!!! Hahaha Minha sogra e suas mantinha-se também me matam....mas a minha ruiva é foda fala sério fico toda hot,Hot hot!!! E eu também sou foda vamo combinar! Haha esse fofucho nos motéis me raaaacha
Resposta do autor:
Lady também te encantou, pelo que vejo! rs E sua sogra apelou para todo santo!
Sua ruiva não se furtava de experimentar e você estava sempre mais que disposta em embarcar junto dela nestas viagens.
Anselmo dava um azar, não? kkk
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 13/09/2022
Já começou foda com Lady e minha sogra me fazendo rir depois as gatas caindo no pau por minha causa no hospital hehehe E essa gaúcha picareta que tu me arrumou! Hahaha
Resposta do autor:
Esse capítulo veio cheio de novidades! rs
Gaúcha picareta? Lila é outra figurinha que tinha que chegar!
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 19/04/2020
Olá Solzinha!!
Lady, Lady... Ô criatura engraçada... Kkkkkkk... Pow mas rolou uma músicas de fundo de poço, muito boas, Ronda, Meu mundo caiu... Figurinha rara essa moça.
Jaqueline e Lady na mesma casa, tadinha da Priscila.
“--Sou uma emissária da Luz... -- abriu a mão para receber a folha
--Trabalha na Light ou na CERJ? -- não entendeu a resposta. Entregou o cheque na mão da mística.” Surreal...Kkkkkkkkkkkkkkkkk.....
Dona Olga tem razão quando diz que a Isa quer que o mundo gire em torno dela, porém, no caso da doação de rim, também ficaria preocupada, por mais altruísta que seja a atitude da Ed, dá um medinho né? Sempre há riscos .
Isa é infantil às vezes, não sei como Seyyed aguentou.
Ana caminhando para um caminho sem volta...
E os nomes continuam.. Kathy Mahoney, Dalu Father, Flashdance. Mad Max... Kkkkkk...
Fofucho não aprende!
Camille tem bom gosto, é fã daquela autora caipira, você conhece né? Muito boa!!! Sob o manto das rayas, parece ser bom.
Beijos
Resposta do autor:
kkkkkkk Esse comentário me fez rir!
Trilha sonora foi o que não faltou neste conto.
Seyyed aguentou porque a ruiva sempre a teve nas mãos. Aí...
Eu me divertia muito com as garotas do Edifício Rubro Negro. Sou tão boba que nessa revisão cheguei a rir de minhas próprias bestagens! Pense!
Beijos, Sol
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Irina
Em: 11/04/2020
Kotinha!!!
Não disse antes mas Camille em Ivone!!! Giro!!! Parei aqui naquela parte em que ela fala da cabeça de burro na oficina. Mandingas. haha
Este conto é magnífico! Lamento que tenha fim
Estou a ver muitas bilhas pois não quero terminar. Oh céus!!
Resposta do autor:
Eu disse que era que o tempo, não falei? rs
Obrigada por me deixar estes comentários. Eu adoro! Mesmo que demore a responder, sempre o faço.
Beijos,
Sol
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Gagia
Em: 05/02/2018
Transformações foi uma temporada marcante. Depois dela passei a usar ultrabook e celular juntos pois desejava sentir o efeito da trilha musical. E foi marcante. Daí parei e voltei a reler as outras temporadas fazendo o mesmo. A experiência sensorial foi incrível. Decerto deves ter feito esse posto porque duvido que não soubesses dos efeitos.
Sabrina foi outra grande transformação. Comecei antipatizando e depois mudei de ideia. Patricia durou pouco mas do que vi gostei.
Sobre os pais... Olga, que mulher! Em quem te inspiraste? Mariângela é inocente e divertida, especialmente fugindo ou criticando os homens. Concordo com ela em tudo devo dizer. rs Ana me diverte horrores. Especialmente investindo em mandigas artificiais com mães de santo postiças. Oh, como ri! E porque todas as falsas falavam erradamente? Alguma semelhança com a realidade?
Anselmo e suas amantes no motel me fizeram rir. Lembrou-me de certos senhores hipócritas que conheço. Dias atrás chamei a um deles de fofucho e ri; ele nada entendeu! rs
Resposta do autor:
É uma pena que o áudio implique em não ler simultaneamente. Juntos, me envolvia muito e gostaria demais que vocês conseguissem casar os dois e me dissessem a sensação.
Gostaria de ter visto a reação deste "fofucho ". Kkk
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Samirao Em: 16/06/2024
Amoreee já vi que vc se encantou com Maya huahuahua Não esquece de favoritar a história! Dá uma força pra nossa caipira!
Na época do ABC essa história teve simplesmente 2000 comments
Bjuss