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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

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Palavras: 25420
Acessos: 10723   |  Postado em: 31/12/2017

Terceira Temporada - BUSCAS V

 

 

Seyyed entrava no hospital com a mãe. Cumprimentaram Romeu e Silvio. O mecânico usava uma máscara cirúrgica para cobrir o nariz e a boca.

 

--E aí, cara? -- a mecânica perguntou a ele. Lutava para não demonstrar a tristeza em vê-lo tão magro e abatido

 

--E aí, Ed? -- sorriu com tristeza e tossiu um pouco

 

--Romeu, -- Olga segurou no braço dele -- vamos deixá-los conversando a sós? Acho que eles têm muito assunto pra colocar em dia. -- olhava para o homem

 

--Tem razão. -- olhou para os dois mais jovens -- Vamos deixá-los conversando em particular. -- saíram do quarto

 

--Soube que estava viajando. -- Silvio comentou com voz fraca

 

--É... voltamos ontem à noite.

 

--Está bem bronzeada. Foi na praia?

 

--Fui. -- pausou -- E você? Como tem se sentido?

 

--Fraco... mas a diarréia me deu tréguas há uma semana. Agora amargo um princípio de pneumonia, se é que pneumonia tem princípio... -- tossiu

 

Ela segurou a mão do colega. -- Tô sabendo que Renan tem vindo te visitar e que vocês fizeram as pazes... Bom que também tenha se reconciliado com seu pai.

 

--Falta você! -- pausou brevemente -- Ed eu sei que fui um ingrato, um grosso... me perdoe, não sabe o quanto me arrependo por ter te sacaneado e faltado ao respeito daquela maneira...

 

--Não vou negar que fiquei irada contigo mas já passou. Esquece.

 

--Perdoa?

 

--Não tem o que perdoar... esquece. -- respondeu com sinceridade

 

Silvio tossiu, olhou bem para ela e disse: -- Você estava certa o tempo todo...

 

--Quanto ao que?

 

--Sexo não é coisa pra se brincar... -- respirou fundo

 

--Não é mesmo. -- passou a mão nos cabelos

 

--É engraçado como a gente é... -- olhou para o teto e soltou a mão dela -- Quando eu tava bem, não pensava em nada. Eu me sentia acima do bem e do mal. Você tinha razão quando dizia que eu não gostava de mulher, mas de ‘orifícios’. -- olhou para ela -- Nem tenho idéia de com quantas pessoas transei na minha vida. Nem imagino com quem peguei isso... Agora pense em quantas pessoas devo ter contaminado... Minha dívida é  imensa, Ed... -- tossiu

 

A morena não respondeu nada.

 

--Eu... eu via uma mulher e enxergava nela apenas o sex*. Eu me sentia superior, porque um homem mete dentro, um homem fode, um homem dita as regras... -- riu brevemente -- Agora olha só pra mim! Cadê a minha superioridade? -- pausou -- Eu menti pra tantas mulheres, fingi ser uma pessoa que não era... Sacaneei tantos gays... Eu me achava muito melhor do que eles, e olha pra mim... um farrapo humano... -- tossiu

 

--É bom que esteja reconsiderando certas coisas no seu entendimento.

 

--Mas agora é tarde demais pra mim! Não dá pra fazer mais nada...

 

--Não acaba aqui, Silvio. Você ainda tem muito chão, todos nós temos.

 

--Reencarnação... -- tossiu -- Não me fale sobre isso, eu não quero ouvir.

 

--Tudo bem.

 

--Dona Olga te disse que tive um filho? Pelo menos até onde eu saiba foi só um.

 

--Disse. Ela e Mariano têm procurado notícias sobre ele e a mãe só que a coisa anda difícil...

 

--Essa é a coisa que mais me martiriza, Ed... Vitória me falou que estava grávida e eu a tratei feito um lixo. Depois ela foi me procurar com o moleque nos braços. -- tossiu -- Eu nem a deixei me dizer o nome dele, sequer olhei no rostinho do bebê... -- começou a chorar -- Eu não quis assumir a responsabilidade de ser pai... nunca pensei que tão cedo isso fosse me doer tanto... me ajuda, Ed... -- pedia entre lágrimas -- Traz eles aqui pra eu ver, por favor, me ajuda...

 

Seyyed também chorava, só que de forma bastante contida. -- Eu juro que vou tentar!

 

--Eu queria pedir perdão a Vitória e queria olhar no rostinho do meu moleque... -- chorava

 

A morena colocou a mão na cabeça dele e orava mentalmente pedindo a Deus que o ajudasse a se acalmar. Silvio chorava aquele pranto sofrido, típico das pessoas que se dão conta de que desperdiçaram oportunidades preciosas e já não vêem como voltar atrás. Ele finalmente percebia que sua condição de homem não o colocava em patamar superior; ser homem era apenas um dos dois modos de apresentação temporária neste planeta onde o aprendizado é contínuo.

 

Olga e Romeu retornaram e as duas mulheres se despediram. Seyyed saiu do hospital pensando na efemeridade de todas as coisas. Quem diria que Silvio, um homem alto, forte e tão soberbo seria reduzido a uma triste figura esquelética e sem cor. Lembrou-se da última vez em que foi a sua casa, pedindo uma carta de recomendação, e ficou chocada com tamanha diferença entre o ontem e o hoje.

 

***

 

--Filha, mas essa sua temporada fora foi um arraso! -- Ana exclamou excitada -- O festival em Frankfurt e a lua de mel no Egito... Nunca pensei que o Egito fosse tão chique! -- olhou para o nada e começou a gesticular -- Posso até ver você, toda linda, toda ruiva, passeando de iate no Mar Vermelho...

 

--Iate não, mãe, foi lancha! -- Isa corrigiu

 

--Cala a boca, Isa! -- olhou para ela -- Pois é assim que vou dizer pra todo mundo: iate!

 

--Ai, ai... -- riu

 

--Querida, você tem que fazer uma open house pra convidar nossa família e mostrar as fotos do festival e da viagem! -- sugeriu excitada -- Posso até ver! Sua tia vai morrer de inveja...

 

--Open house, mãe? Seyyed e eu já gastamos muito dinheiro até agora. Principalmente ela!

 

Isa e a mãe caminhavam pelo shopping de Botafogo. Ana procurava uma bolsa nova.

 

--Mas só tem bolsinha chinfrim, viu? -- Ana revirou os olhos -- Hum, tenho uma notícia cataplética pra te dar! -- olhou para a filha

 

--E o que seria uma coisa cataplética? -- não conhecia a palavra

 

--Seu pai, minha filha... Ele anda péssimo no trabalho e acabou sendo transferido pra uma agência em Duque de Caxias!

 

--Nossa, que longe!

 

--Longe?! Que pobre, isso sim! Sair do Leblon pra Caxias é muita pobreza, viu? Mas podia ter sido pior! Eu morria de medo que ele fosse demitido! Fiz tudo o que pude pra que isso não acontecesse... -- voltou a olhar as vitrines -- "Só Deus sabe quanto charuto fumei e quanto vexame tive de passar na Ilha do Fundão pra que isso não acontecesse...”

 

--Tudo o que pôde? Como assim? -- perguntou sem entender

 

--Ah, eu... -- pensou -- Fiz promessa!

 

--Promessa??? -- perguntou chocada -- Nossa! Em toda a minha vida nunca te vi nem acendendo uma vela que fosse!

 

--Você não sabe quantas acendi! -- revirou os olhos

 

--Então a promessa foi boa porque afinal de contas papai não está na rua!

 

--Pois é... -- ficou pensativa -- "Mãe Dadá era uma mãe de santo daquelas... que pena que se aposentou e nem quis fazer o trabalho de três mil reais... Onde arrumo outra tão boa quanto ela, hein?” -- pensou

 

--Deixe ele lá em Caxias. Tomara que agora tome jeito e não se meta a besta de arrumar amante de novo!

 

--Ah, isso não! Ele foi amarrado!

 

--Amarrado?? -- olhou para a mãe

 

--No sentido figurado, filha... amarrado pela verdade nua e crua e pela força do meu amor! -- mentiu

 

--Então amarra forte, viu, mãe? Homem que trai uma vez trai sempre!

 

***

 

--Ontem eu colei grau, Ivone. -- Camille disse sorridente

 

--Que maravilha! Então converso com uma engenheira? -- sorriu

 

--Pois é... E quando cheguei em casa havia uma festa surpresa me esperando! Além de mamãe, meu tio e dona Olga, Seyyed, Flávia, Brito, Juliana, Suzana, dona Lourdes, Renan, Tatiana, a falecida e minha colega Aline estavam lá.

 

--A falecida?? -- Ivone não entendeu

 

--É... uma tal de Lady Dy que virou cliente de minha mãe. Ela também faz engenharia de produção e, como se julga minha amiga, acabou indo com Tatiana. Figura doida, só você vendo! -- riu -- Eu nem me incomodei de minha casa ter se convertido em um covil de sapatões!

 

--Você e essa história de covil... -- riu de novo

 

--Seyyed arrumou uma beca, aquele chapeuzinho e fizeram até um canudo pra mim. Eu tive que me vestir, fazer discurso... E quando abri o canudo vi que era uma cartinha assinada por todo mundo. -- sorriu -- Foi bem legal... Melhor ainda que a metidinha não foi!

 

--Metidinha?

 

--Isa, aquela bailarina que se acha o máximo!

 

Ivone não comentou a respeito. -- E agora que se formou o que vai fazer? Continuar na oficina de Seyyed?

 

--Eu queria... ela disse que também me quer pra ajudar a administrar as duas oficinas. Além do mais meu tio vai se aposentar no final do ano. Vou ter trabalho de montão!

 

--E você gosta do que faz?

 

--Gosto! A gente pensa que engenheiro só tem que trabalhar em empresa grande, mas isso não tem nada a ver. Tenho planos de abrir filiais da oficina de Seyyed em vários lugares. Pode anotar! Eu vou transformar aquilo lá em uma baita empresa!

 

--Não tenho dúvidas de que vai! -- pausou -- E como tem sido trabalhar com ela? Como ficam seus sentimentos?

 

Camille respirou fundo e respondeu: -- É uma merd*... Às vezes eu me pego babando por ela e tenho que me policiar pra na hora H não dar tanta bandeira... -- pausou -- Mas eu não quero sair de lá. Ela precisa de mim e eu devo muito.

 

--E você alimenta a antipatia que sente por Isa somente por ciúmes ou por que gostaria de ser igual a ela?

 

--Eu não tenho ciúmes dela e nem nada disso!! -- Ivone olhou-a descrente -- Tá bom, eu morro de inveja dela se quer saber! -- cruzou os braços -- Eu te odeio, Ivone!

 

--Por que me odeia? -- perguntou surpresa

 

--Porque você parece que lê os pensamentos da gente! Ô louco, meu!

 

--São anos trabalhando com pessoas e seus conflitos, meu bem!

 

--E tua vida, é boa? -- perguntou curiosa

 

--Às vezes sim, às vezes não. O normal de todos os seres humanos. -- pausou -- Agora me diga, por que tem inveja de Isabela?

 

--Porque ela é perfeita, Ivone! Ela é bonita, altiva, sensual, sempre elegante, sempre impecável. Eu acho que aquela mulher já acorda maquiada, perfumada e bem vestida! E ela dança muito, tem talento, sabe aparecer... Quando ela chega as pessoas notam! -- pausou -- Agora olha pra mim: uma loura baixinha, perneta... eu nunca tive, nem nos meus áureos tempos, aquela elegância toda! Não dá pra comparar...

 

--E por que precisa se comparar com ela? Para disputar a atenção de Seyyed? -- pausou -- Camille, eu já lhe disse e repito, você precisa aprender a se amar e a se valorizar. Não precisa e nem deve ser igual a Isa e nem a ninguém! Seja você mesma, sempre de cabeça erguida e com muita confiança! Muitas pessoas no seu lugar não conseguiriam o que vem conquistando brilhantemente! Veja quantos jovens com dois braços e duas pernas não conseguem metade do que já conquistou!

 

--Hum... isso é! -- pensava

 

--Se você não aprender a se amar, como pode querer conquistar alguém? Além do mais Seyyed não é a única mulher do mundo. Existem outras mulheres interessantes e você vai conhecer alguém especial!

 

--Ei, mas espera aí! -- olhou para Ivone de cara feia -- Eu não quero ficar com ninguém! Eu posso até ter aceitado assumir que sou lésbica mas serei do tipo inoperante!

 

--Inoperante?! -- a psiquiatra perguntou com estranheza

 

--Quero ser igual a minha mãe: assexuada!

 

--Isso quer dizer que vai viver uma vida celibatária?

 

--Sim!

 

--É isso que você realmente quer?

 

--Sim!

 

--Está preparada pra isso?

 

--Ô meu, mas é pra isso que te pago, pra você me preparar!

 

Ivone riu. -- Ai, Camille, Camille... -- balançou a cabeça -- Já que é o que quer, vamos trabalhando isso.

 

--E sem religião, por favor!

 

--Como quiser.

 

--Ah, lembrei de uma coisa... Na minha festinha, Flávia me comentou sobre Fátima.

 

--E o que ela disse?

 

--Parece que o braço não vai comprometer o desempenho dela. Bom, né? Notícia da hora!

 

--Certamente... -- olhou bem para Camille -- Por que se envolveu com ela? -- perguntou à queima roupa -- Carência, curiosidade, vontade de tirar Seyyed do seu pensamento, admiração?

 

--E se eu disser que foi tudo isso junto? -- abaixou a cabeça -- Fátima era o momento de suavidade na minha vida dura...

 

--E por que não quis continuar?

 

--Porque quero ser inoperante, eu não disse?

 

--Sente saudades dela?

 

--Sinto... e tenho muita vergonha também... Eu a fiz sofrer, eu a fiz chorar... ela não merecia...

 

--Já tentou pedir desculpas?

 

--Eu não quero vê-la, não quero ouvir a voz dela... fico mais confusa que o natural...

 

--Pena... talvez ela pudesse lhe ajudar a se entender melhor.

 

--Não! -- olhou para Ivone -- Prefiro você, que não vai me beijar na boca!

 

--Ah, mas com certeza não vou. -- riu surpresa com aquele comentário -- "Essa menina me inventa cada coisa!” -- pensou achando graça

 

A loura ficou pensando em uma coisa. -- Alguma cliente sapatão já quis te agarrar?

 

--Não! -- respondeu achando a pergunta engraçada

 

--E homem?

 

--Também não!

 

--Ih, Ivone... olha aí, meu! -- Camille falou com estranheza

 

--Pois é... -- afirmou rindo -- Eu estou mal na fita, não é? -- balançou a cabeça

 

 

09:45h. 24 de outubro de 2002, Delegacia de Polícia, Centro, Rio de Janeiro

--Ah!! -- Suzana deu um soco na mesa. Estava excitada

 

--O que foi, chefe? -- Brito se assustou -- Quase me mata de susto!

 

--Deixe de ser frouxo, homem! -- ela se levantou -- Recebi a resposta do meu colega engenheiro cartográfico! Finalmente o mistério se desvendou!

 

--Sobre aquele mapa? Ele já tinha dito que era uma representação típica dos místicos da Idade Média, coisa de mapear estrelas, astros... -- endireitou a camisa -- o que mais agora?

 

--Aquele mapa destaca uma região montanhosa entre o Rio, São Paulo e Minas Gerais. E eu te digo! -- a delegada apontou para ele -- Itatiaia! Parque Nacional do Itatiaia!

 

--É, aquele maluco gosta de se enfiar em meio de mato... Coisa louca, né?

 

--Ele deve estar lá! -- falou pensativa

 

--Mas, delegada... aquele parque é enorme! Como vamos achar nosso homem? Além do mais, quem garante que com tanto lugar pra se esconder ele vai estar justo lá?

 

--Se ele não estivesse lá aquele mapa nem teria chegado às minhas mãos, meu caro. -- olhou para ele -- E nós vamos lá pegá-lo!

 

--Nós vamos? -- perguntou espantado -- Mas... com todo respeito, chefe, não conseguimos prendê-lo na Serra da Tiririca, que era menor... Como vamos pegá-lo em um parque nacional daquele porte?

 

--Agora seremos mais inteligentes. Liga pra Sabrina. Se é pra pegar aquele rato nas montanhas, a gente leva uma montanhista profissional pra nos guiar... -- pensou -- E agora, ele não vai mais me fazer cair ajoelhada sentindo dores como se habituou! Vai se surpreender comigo!

 

--Do que está falando? -- Brito não entendeu

 

--Pergunta muito não, Brito! -- respondeu -- Liga pra garota e manda ela vir aqui agora!

 

***

 

Seyyed estava na casa da mãe. As duas conversavam na sala. Era noite. Isa estava na faculdade e Mariano na casa da irmã.

 

--Silvio está nas últimas, mãe... -- disse com tristeza -- E a gente que nunca acha a moça que teve um filho com ele... Não creio que Silvio terá tempo de vê-los... -- sentou-se de lado na poltrona apoiando a cabeça em uma das mãos

 

--Quer saber, querida? Nem eu creio mais nisso... -- respondeu penalizada -- O que é uma pena... -- olhou para Ed

 

--A garota evaporou, eu, hein? -- pensou -- Mãe, será que ela morreu?

 

--Será? -- Olga perguntou surpresa

 

--A droga é que Silvio nem sabe o sobrenome da garota, que coisa. -- reclamou

 

--Pois é... -- abraçou-se com a almofada

 

--Quem diria, não é? Justo ele, todo metidão, botando banca de garanhão... quem diria...

 

--É a vida, meu bem... é a vida... -- pensou -- Querida, mudando de assunto, não me entenda mal, queria ter uma conversa muito séria com você! Sou sua mãe e não posso me fingir de cega.

 

--Nossa... -- respondeu desconfiada -- Sobre o que se trata? A senhora nunca fala assim... deu até medo! -- riu sem graça

 

--Eu ando muito preocupada com o modo como tem vivido desde que se casou com Isabela.

 

--Por que? -- não entendia

 

--Filha, você nunca foi egoísta mas nunca viveu gastando dinheiro aos borbotões! Fico impressionada com o que vem fazendo. -- afirmou preocupada

 

--Mãe, se diz isso por conta do empréstimo que Renan e eu pedimos...

 

--Seyyed, não queira fingir que não entendeu! -- interrompeu a filha -- Vocês pediram um empréstimo por conta da oficina nova, o que é perfeitamente natural, mas estou falando do que vem fazendo desde que se casou! Você deixou sua casa ociosa e se mudou pra um apartamento em Ipanema! Agora tem contas de duas casas pra pagar!

 

--Mãe, eu não posso alugar aquela casa do Meyer porque ela é integrada com a oficina...

 

--Eu sei mas você foi se mudar justo pra Ipanema, que é um bairro caro! Além de tudo fez aquela festa de casamento cara...

 

--Ah, mãe, não foi tão cara...

 

--Claro que foi, Seyyed! Você fechou a By Marius!! E depois viajou pra Alemanha e pro Egito esbanjando horrores!

 

--Que é isso, mãe? -- perguntou revoltada -- Que papo é esse de esbanjando horrores?

 

--Seyyed, vocês ficaram em um dos resorts mais caros de Sharm el-Sheikh! -- Olga falou enfaticamente -- Vocês alugaram uma lancha pra passear no Mar Vermelho! Eu sei que essas coisas não são baratas!

 

--Mas eu tô pagando à prestação...

 

--E você ainda fez a tal da open house pra se exibir pra família de Isa! Isso também custa dinheiro! E você nunca foi de se ligar nessas bobagens!

 

Seyyed abaixou a cabeça e ficou olhando para as mãos. Não sabia o que dizer.

 

--Querida, entenda. -- segurou as duas mãos dela -- Eu não quero mandar na sua vida, mas não posso deixar de lhe aconselhar porque sou sua mãe. Está gastando muito dinheiro ao mesmo tempo, não pode fazer assim, porque quando precisar não vai ter de onde tirar! Você aprendeu com seu pai a ser comedida sem por isso ser egoísta. Não se transforme numa gastadeira. Será que não percebe que está sendo manipulada?

 

--Acha que sou manipulada pela Isa? -- perguntou chateada

 

--Você é! E ela é manipulada pela mãe! Começa em Ana e termina em você. E é assim desde que ela te conheceu. Aquela mulher é interesseira! Ela manipula a cabeça da filha e a filha faz a sua cabeça. -- pausou -- Não precisa dizer sim a Isabela o tempo todo! Isso não é sinônimo de amor!

 

Ed se levantou e esfregou as mãos no rosto. -- Sei que a senhora tem razão... mas... eu tenho medo de perdê-la...

 

--E aí, por isso, por medo de perdê-la, você compra sua mulher?

 

--Mãe! -- olhou para ela chateada

 

--Não é o que está fazendo? -- levantou-se também -- Isa tem que te amar mesmo se você disser não a ela em algum momento! Se os sentimentos dela dependem de sua total conivência com tudo, significa que ela não te ama! -- olhou bem para ela -- Quer fazer dela uma Gisele? Quer fazer o papel de Anselmo?

 

--Claro que não!

 

--Então pense no que lhe falei. -- foi até ela e segurou seu rosto -- Amor verdadeiro é incondicional minha filha!

 

***

 

Isa e Priscila almoçavam no Verdinho da Cinelândia.

 

--A única coisa que eu não gosto aqui nesse lugar é comer no meio dessa pombilha! -- Priscila reclamou -- Dá um medo de algum sair voando e despejar o que não deve no meu prato! Ou na minha cabeça, o que seria pior...

 

--Esses pombos da Cinelândia também me irritam. Acredita que um dia desses um pombo veio ciscar no meu prato? -- Isa comentou enquanto cortava a carne

 

--E pombo cisca?

 

--Aquele sim! -- estava de cara feia

 

--Você parece chateada... O que houve, Isa? -- bebeu um gole de refrigerante

 

--Ed e eu fizemos uma open house pra mostrar as fotos do festival de Frankfurt e da lua de mel pra minha família... -- respirou fundo -- E só serviu pra me aborrecer...

 

--Por que?

 

--Porque lá pelas tantas vieram as piadinhas... E meu primo ainda me chamou de bailarina sapatão. -- deu uma garfada -- Eu ouvi apesar dele ter disfarçado. E ficou um clima, sabe? Parecia que todo mundo tava achando aquilo ridículo. -- pausou -- No final ainda discuti com meu tio, minha tia se meteu... rolou um estresse, amiga! Se não fosse por minha mãe teria sido pior!

 

--Isso foi um misto de inveja com preconceito! -- deu uma garfada -- As fotos de vocês estão um arraso, aí já viu...

 

--Também achei... mas quando estivemos com eles no ano novo não foi assim. -- pausou -- Não vou te dizer que aquele réveillon foi legal, mas não tão desagradável!

 

Priscila parou de comer e olhou bem para a amiga. --Mas você também pensava o que? Isa, se situa na vida, filha! Você pensa que todo mundo é dona Olga e companhia limitada que aceita o homossexualismo, assim, na boa? O pessoal de Ed parece até gente de novela, mas a vida real não é desse jeito! As pessoas zombam, têm preconceito e você será reduzida a ser uma ‘sapatão’ por várias vezes na sua vida! Acostume-se com isso! -- pegou os talheres de volta -- E se a sua profissão fosse um pouquinho mais tradicional aí é que você ia ter que engolir muito sapo! Não sei como até hoje nenhum homem se ofereceu pra trans*r com você e Ed! -- voltou a comer

 

--E quem disse que não? -- limpou os lábios no guardanapo -- Seyyed não quebrou a cara dele somente porque não deixei. -- pausou -- Mas, vamos mudar de assunto. Conte-me suas novidades! -- sorriu

 

--Hum... -- balançou a cabeça -- Na faculdade a vida anda uma correria, terminei com o gatinho com quem eu saía por causa disso, Tatiana anda a mil com a formatura, o casamento e o retorno pra Goiânia...

 

--É, Seyyed me disse que Tati e Renan marcaram o casamento pra 29 de dezembro. E ainda disse assim: “-- Depois Renan veio dizer que eu casei no susto. Olha só ele, marcou a data assim de uma hora pra outra!” -- riu

 

--Eles se empolgaram porque o projeto da oficina nova tá muito bem encaminhado. -- bebeu um gole de refrigerante -- O pessoal da Tati é católico então vai ter cerimônia na igreja. Renan vai bancar a parada toda: igreja e festa.

 

--E ele nem quis ajuda de ninguém... Disse que juntou dinheiro por muito tempo pra quando fosse formar uma família. -- olhou para Priscila -- Achei bonito isso.

 

--Acho que no fundo Renan é uma versão masculina, e mais comedida, de nossa amiguinha Lady Dy da Silva. -- riu

 

--Falando nela, como vai a peça? -- riu também

 

--Nem te conto... arrumou um namorado novo... -- revirou os olhos

 

--Outra figura? -- riu

 

--Um taxista quarentão, barrigudo, calvo e divorciado que reclama de tudo. Veja, eu disse, de TUDO! -- frisou essa última palavra -- Mas, pelo menos ele não vive lá em casa porque tem que trabalhar.

 

--Que bom! -- riu

 

--E graças a Sessé de La Carmo e Floriano nós nos livramos da maior roubada do mundo! -- terminou de comer

 

--Qual? -- perguntou curiosa

 

--As famosas caipiras de Pau d’Arco, as legítimas e originais, ficaram de passar uns dias lá em casa no mês passado, mas como torraram toda a grana que tinham pra ir ver o show da dupla sertaneja nós ficamos livre delas. -- olhou para o céu -- Graças a Deus! -- pausou -- E à Sessé de La Carmo e Floriano também!

 

--Sorte sua, viu? Quando a americana foi lá pra casa passar dias eu fiquei doida! Ela era tão inconveniente, relaxada, espaçosa... -- relembrou -- E a maldita mania de mascar rapé! -- revirou os olhos -- Ai, que nojo! -- deu a última garfada

 

--Agora que Tati está pra ir embora tenho que arrumar mais alguém pra dividir o apartamento. -- ficou pensativa -- Sabe, Isa... isso me dá uma nostalgia... Tenho tantas saudades da época em que éramos Pat, Tati e eu... E agora que a Tati vai embora... nunca mais vai ser como antes...

 

--“Eu só posso dizer duas coisas contraditórias: que bom que o tempo passa porque tudo muda, e que pena que o tempo passa, porque tudo muda!”24 -- olhou para a amiga

 

--Pois é... Tomara que eu arrume alguém legal... outra Lady na minha vida é expiação demais...

 

***

 

Suzana estava pronta para sair quando sentiu as mãos de Juliana envolvendo sua cintura. Sorriu. -- Vem cá! -- puxou a japonesa para um abraço apertado -- Te amo, viu? -- sussurrou no ouvido dela

 

--Também te amo! -- segurou o rosto da morena -- Tenha muito cuidado, tenha fé e não se deixe levar pelo ódio ou pela cólera! Ele se alimenta disso!

 

--Eu sei!

 

--Dona Lourdes e eu vamos ficar orando por você!

 

--Tá muito cedo, Ju. Vai dormir, vai? -- beijou-a

 

--Perdi o sono. -- fechou um dos botões da blusa dela

 

O celular da delegada vibrou. Ela olhou e disse para a japonesa: -- Hora de ir. -- beijou-a de novo

 

Juliana foi com ela até a porta e se despediu. A delegada não quis esperar o elevador e desceu as escadas correndo.

 

 

05:05h. 27 de outubro de 2002, Parque Nacional de Itatiaia, Itatiaia, Rio de Janeiro

Suzana e mais treze homens seguiam Sabrina e outras duas escaladoras, Bruna e Renata, por uma trilha no Parque de Itatiaia.

 

--E agora, Sabrina? -- Suzana perguntou à escaladora quando ela parou de caminhar

 

--É isso que quero lhe mostrar. Ali, -- a moça apontou -- são as Prateleiras e do outro lado, -- apontou em outra direção -- temos as Agulhas Negras. Pelo que entendi do seu mapa e do que seu colega explicou, o lugar que procuramos está compreendido entre essas duas montanhas.

 

--Nossa, mas temos um baita espaço pra cercar! -- Macumba reclamou -- Eu já tô morto de tanto andar e ainda teremos de andar mais?

 

--Sempre reclamando... -- Suzana comentou. Olhou para Sabrina -- Em qual das duas montanhas temos a melhor visão da lua?

 

--Agulhas  Negras, com certeza. É a mais alta.

 

--Precisamos fazer um reconhecimento da área antes de começarmos. -- a delegada olhou para alguns homens -- Vocês ficam aqui com Renata separando o material de escalada, água e o farnel. Aproveitem pra testar os rádios e, Silas, você testa o equipamento de visão noturna.

 

--Sim senhora. -- eles responderam

 

--Quantas pessoas a administração do parque te disse que estarão aqui hoje? -- Suzana perguntou para Sabrina

 

--Trinta e três. Mas à noite eles vão ficar todos no abrigo.

 

--Sabrina e Bruna, vocês guiam Brito, Coimbra, Lemos e eu pra fazer um reconhecimento rápido nessa região entre as duas montanhas e nós vamos marcando onde os homens montarão guarda. -- olhou para Macumba e Josué -- Vocês ficarão no abrigo de olho no pessoal. Finjam de montanhistas e prestem atenção em tudo.

 

Todos consentiram com a cabeça.

 

--Quando nós acabarmos de dar uma olhada na região vamos voltar aqui e aí nos dividiremos. -- dirigiu-se aos homens -- Quando anoitecer cada um de nós vai colar a fita prata no capacete pra que Silas possa nos identificar com a visão noturna e nos diferenciar de qualquer outra pessoa que não esteja conosco. -- olhou para o grupo -- Todos prontos?

 

--Sim! -- responderam quase ao mesmo tempo

 

--Então vamos embora! A gente não sai daqui hoje sem Lucas Damaso!

 

***

 

Era noite. Suzana, Brito e Sabrina aguardavam escondidos em uma das fissuras que dividiam o cume das Agulhas Negras em vários pequenos cumes. A posição era desconfortável e o cansaço começava a dificultar as coisas mas nenhum deles se dava por vencido. Não ligaram as lanternas, pois a luz refletida pela lua clareava o ambiente. De repente um cântico fez-se ouvir.

 

--É o nosso homem! -- Brito exclamou excitado

 

--E não está sozinho. Reconheço mais umas duas vozes cantando com ele. -- Suzana cochichou

 

--Nossos psicopatas têm preparo físico... -- Sabrina sussurrou

 

--Vamos sair daqui e esperá-los um pouco mais abaixo. Quando eu der o sinal, vou subir. Brito, proteja Sabrina e prenda quem descer sem mim. -- eles obedeceram

 

Suzana comunicou-se com o resto do grupo avisando que os homens estavam no cume das Agulhas Negras. Um dos policiais informou que haviam mais três homens nas Prateleiras e Lemos avisou que mais uns cinco praticavam um ritual em uma das trilhas entre as duas montanhas.

 

--Peguem todos! -- ela ordenou e desligou o rádio. Tirou um pedaço de metal do bolso e o arremessou com força contra uma parede de rocha. Seus parceiros entenderam que era o sinal. Subiu para o cume

 

Lucas estava de pé, com os braços abertos e olhando para a lua, repetindo palavras em uma língua desconhecida. Outros dois homens estavam prostrados reverenciando o maníaco.

 

--Acabou, Lucas! -- empunhou a arma na direção dele -- Essa tua mania de ser Deus acaba aqui!

 

Ele deu uma risada escandalosa. Os outros dois homens permaneceram na posição em que estavam. -- Você não aprende mesmo, não é? -- olhou para ela buscando fazê-la sofrer

 

A delegada sentiu uma dor na altura dos rins, mas buscou se concentrar e não deixá-lo vencer. Lembrou-se das coisas que aprendeu com a mãe e começou a cantar um dos cânticos xamânicos de sua tribo.

 

--Está ficando esperta, Yamaki... mas nem tanto! -- revirou os olhos depressa fazendo com que Suzana se sentisse tonta. Ela quase caiu e nesse curto intervalo de tempo Lucas pulou dentro de uma fissura.

 

--Ah, não! -- ela reclamou com ódio -- Droga!

 

Os dois homens que estavam prostrados se levantaram como dois zumbis e ficaram olhando para ela. A morena correu de encontro a eles e deu uma trombada nos dois fazendo-os cair. Em seguida pulou na mesma fissura na qual Lucas se atirou. Ralou o pé na parede de rocha e machucou a mão. “Eu tô ficando velha pra essas coisas...” -- pensou

 

--Chefe, -- Brito chamou no rádio -- o miserável passou por mim agora. Não pude pegá-lo porque senti uma dor de cabeça repentina!

 

--Copiado. Tem mais dois deles no cume. Tô indo atrás de Lucas! -- continuava se esquivando por entre as pedras

 

Suzana viu o vulto de Lucas descendo a montanha apressado e atirou contra ele. O homem se desequilibrou e caiu fora do alcance dela. A mulher continuou avançando e quando chegou onde ele estava não viu quem quer que fosse.

 

--Mas que...

 

--Yamaki! -- ele gritou

 

Ela virou-se na direção dele e recebeu o mesmo olhar perturbador de sempre. Lutava para não se render à dor e não deixá-la crescer.

 

--Está ficando mais forte, mais esperta... mas não resistirá por muito tempo! -- sorriu maquiavelicamente

 

A morena caiu no chão e o homem aproveitou para fugir. Fazendo um esforço hercúleo, a delegada se levantou e seguiu adiante, esforçando-se para não perdê-lo de vista. Ligou o rádio e chamou pelos homens que estavam naquela direção. Lucas percebeu o movimento deles e teve de mudar sua trajetória. Suzana atirou contra ele de novo, que se jogou no chão. Ela se aproximou mais uma vez, porém escorregou em um trecho lamacento derrubando o revólver no meio do mato.

 

--Você é um fiasco! -- ele disse ao se levantar -- Poderia matá-la se quisesse! -- lançou-lhe novamente aquele olhar macabro. A mulher sentiu as pernas tremerem de dor

 

--Onde aprendeu a manipular a dor dessa forma? -- ela perguntou com dificuldade -- Ensinavam isso no hospício?

 

Ele se surpreendeu com a pergunta.

 

--Dói ficar longe da família, não é, Lucas? -- tentava se controlar

 

--Ah... sabe meu nome... -- tentava não demonstrar seu espanto

 

--Dói ver as pessoas que a gente gosta morrerem, não é? Irineu, Mateus, Catarina...

 

--Não se atreva a dizer os nomes deles! -- berrou. Começava a se desconcentrar

 

--Você sofreu tanto com a morte de Irineu, não foi? Tão jovem, tão inocente... -- aproximava-se dele lentamente

 

--Desgraçada! -- berrou

 

--Eu imagino o que você sentia... -- falava mansamente -- em uma família onde todos tinham vergonha de você, o louco, somente Irineu te aceitava do jeito como você era...

 

--E você o matou!! Maldita seja, maldita seja!! -- olhou furioso para ela

 

Suzana sentiu uma dor horrível pelo corpo inteiro, mas ainda podia permanecer de pé. Continuava com sua aproximação lenta.

 

--Quantos anos você passou no hospício? Dez? Vinte?

 

Ele se descontrolava.

 

--Eu sei como eles tratam as pessoas... aqueles remédios, eletrochoques...

 

--Maldita!!!!!! -- caiu de joelhos no chão

 

A delegada avançou sobre ele e o pegou pelo pescoço. -- Poderia matá-lo se quisesse! -- vociferou

 

--Vá em frente! -- respondeu com voz trêmula -- Eu vou te perseguir por toda a eternidade!

 

--Por sua causa, minha família e tudo o que eu tinha se perdeu! Eu só tinha quinze anos! Por sua causa, sofri como não saberia explicar... -- continuava apertando o pescoço dele

 

--Eu não matei aqueles índios... eu só disse o que meu irmão precisava saber... Eu não queria mortes, eu queria ouro!

 

--Eu também não queria mortes! E não matei seu sobrinho por querer. Eu queria pegar seu irmão assassino, mas o garoto quis salvar a vida daquele traste!

 

--E eu o amava... -- uma lágrima rolou do rosto dele

 

--Eu também amava minha família e a todos a quem seu irmão e os amigos dele mataram!

 

--Mateus e Catarina também morreram por sua causa... eles eram tudo o que eu tinha...

 

--Então sabe como me sinto! -- ela também chorava de forma contida

 

--Não podia ter feito o que fez! -- tentava gritar -- Você não tinha o direito...

 

--E você por acaso tinha o direito de fazer o que fez?? -- gritou

 

--Eu não matei aqueles índios...

 

--Mas preparou o terreno!! -- gritou novamente -- Foi a mesma coisa!

 

--Tenho ódio das mulheres que são como você! Eu pesquisei sobre você por anos a fio e quando descobri do que você gostava criei minha seita com o objetivo de erradicar essa doença que se chama lesbianismo! Matei aquela moça, matei várias outras e mesmo que me mate agora, o ódio não acabou! Todos os dias mulheres da sua espécie morrerão. Há outros que também pensam como eu!

 

--Mas isso vai acabar... mais cedo ou mais tarde, vai acabar. -- soltou o pescoço dele. O homem caiu no chão

 

Suzana passou as costas das mãos nos olhos. -- Mas ainda há algo que eu preciso te dizer, apesar de tudo... Perdoe-me, Lucas. -- pediu com sinceridade -- Eu sinto muito que tenha sido assim. Eu juro que não queria ter matado seu sobrinho. Foi um acidente infeliz.

 

Ele olhou para ela com estranheza. -- Por que me pede perdão? -- não acreditava no que ouvia

 

--Da mesma forma como você não queria a morte dos índios, eu não queria a morte dos seus parentes inocentes. -- pegou um cordelete -- Também não vou matar você... apenas te levar preso. -- foi até ele e amarrou seus pés. Estranhamente o homem não opôs resistência

 

Ele perguntou desconfiado. -- Está louca, Yamaki?

 

--Acho que sim... -- levantou-se olhando para ele -- Acabou, Lucas. Esse é o fim da sua seita!

 

Lucas não esperava que as coisas se desenrolassem daquela forma. Ele não esperava que Suzana soubesse tanto sobre sua vida e muito menos que ela lhe pedisse perdão. Decidiu parar de tentar dominá-la e ficou quieto. A mente de um psicopata segue uma lógica diversa da que normalmente podemos entender e naquele momento, ele não sabia o que fazer.

 

A delegada chamou os outros pelo rádio, anunciando onde os dois estavam. Sentia dores pelo corpo todo, não por causa de Lucas, mas por exaustão.

 

--Olhe só você, se sentindo dona da situação... -- falou com deboche -- Sua obrigação era confessar seus crimes! -- ele falou -- Você gosta de se passar por uma paladina da justiça mas é uma assassina imunda... -- pausou -- como eu...

 

--Se eu confessar, você confessa? -- propôs

 

Ele pensou e respondeu simplesmente: -- Sim.

 

--Tem minha palavra.

***

 

A prisão de Lucas Damaso foi noticiada por todos os telejornais brasileiros. Suzana foi abordada pela imprensa no dia seguinte à captura do psicopata e diante de todas as perguntas que ouvia se limitou a fazer o pronunciamento que julgava ser sua obrigação naquele momento.

 

--Depois de exaustivas investigações conseguimos encontrar e prender Lucas Damaso e mais outros dez homens no Parque Nacional de Itatiaia. Com isso todos os assassinos envolvidos no caso Patrícia Feitosa estão presos, excetuando-se, é lógico, os que estão mortos. Consideramos também que a seita fundada por Lucas Damaso foi totalmente desestruturada. -- respirou fundo -- Mas eu tenho uma coisa a dizer. -- pausou -- Meu nome é Yamaki Nawapë, sou a única sobrevivente do genocídio de uma comunidade Ianomâmi que aconteceu em 1975, e por causa disso, no período entre 1978 e 1979 eu matei treze dos quatorze homens que lideraram esse massacre, além de ter sido responsável pelo assassinato do jovem Irineu dos Santos. Este último morreu quando tentava defender seu tio, Aristides Damaso, o qual era o último dos líderes que me faltava eliminar e o único que eu não matei. -- pausou e olhou para as câmeras -- Coloco-me à disposição da Justiça. E era isso o que eu tinha a dizer. -- afastou-se

 

Juliana estava de folga em casa assistindo TV com Maria de Lourdes.

 

--E agora, dona Lourdes? -- Juliana olhou para a idosa -- O que vai acontecer com ela depois disso? Já se passaram tantos anos e ela era só uma garota... Não é justo que vá presa!

 

--Com certeza ela não vai passar impune... Suzaninha é honesta, incomoda a muita gente, da mesma forma como meu marido incomodava. Eles vão fazer alguma coisa pra tirá-la de jogada, mas não sei se vão prendê-la. Não sei se podem ou como seria isso.

 

--Eu vou organizar um levante! -- pegou o telefone -- Aquela tal de Selma não vive me perturbando pra me filiar em partido? Vamos ver se ela me ajuda a fazer barulho nesse caso aí!

 

--Alô! -- Selma respondeu do outro lado

 

--Alô, Selma, sou eu, Juliana. Vocês não dizem que o PCons luta pela justiça nesse país? Preciso de sua ajuda!

***

 

Juliana e os membros do PCons mobilizaram a opinião pública a favor de Suzana. Os amigos de Patrícia e demais pessoas que Tatiana conseguiu catequizar para a causa atuaram no mesmo sentido.

 

Lucas Damaso prestou um depoimento revelador e descreveu o assassinato de Patrícia com detalhes, além de ter confessado outros assassinatos praticados por sua seita. A Polícia Federal prendeu os últimos membros ainda em liberdade. O caso voltou a ocupar as manchetes nacionais e reacendeu os debates relativos à homofobia, liberdade de expressão e censura.

 

Suzana continuou trabalhando enquanto não recebia qualquer notificação ou comunicado proveniente das instâncias superiores de sua instituição.

***

 

Camille estava em uma loja de material de escritório no bairro de Benfica. Sabia o que desejava e procurou alguém para lhe atender. Uma moça bastante magra arrumava grampeadores em uma estante.

 

--Bom dia. Será que poderia me ajudar? -- a loura perguntou

 

A moça virou-se de frente para ela e respondeu: -- Bom dia, senhora. O que deseja? -- sorriu

 

“Ô, meu... senhora é sacanagem!” -- Camille pensou e reparou no nome dela no crachá. Chamava-se Vitória. -- Tudo o que está nessa lista. -- entregou o papel a ela

 

--Vamos ver. Pode usar um carrinho daqueles se quiser. -- apontou -- Quer que eu pegue?

 

--Por favor.

 

Vitória pegou um carrinho e foi buscando os artigos que a loura queria. -- Ai, meu Deus, está vazando... -- pôs a mão sobre os seios

 

--O que? -- não entendeu

 

--Leite. -- respondeu sem graça -- Tenho um filho com nove meses... -- olhou para a loura -- A senhora tem filhos?

 

--Ô meu, chega disso de senhora! -- reclamou fazendo a vendedora ficar encabulada -- E não, eu não tenho filho.

 

--Desculpe, mas é que recebemos essa orientação da chefia... -- respondeu constrangida -- Se uma moça de treze anos vier me abordar eu tenho de chamá-la de senhora...

 

--Ah, mas comigo você esquece essas bobagens e pode me chamar de você. Senhora é muito final de carreira, viu?

 

Vitória achou graça e riu por alguns segundos. Continuou selecionando os itens que a loura desejava.

 

Camille ficou pensando em uma conversa que ouviu na oficina entre Seyyed e Mariano. “A tal mulher que eles procuram se chama Vitória e o menino dela tem nove meses... Será possível? Não custa nada arriscar...” -- conjecturou -- É... desculpa te perguntar isso, mas... O pai do teu filho se chama Silvio?

 

Vitória olhou para ela em choque. -- Por que pergunta?

 

--Olha, meu, eu não sou indiscreta assim, mas é que Silvio procura desesperadamente por uma mulher chamada Vitória e seu filho de nove meses. Ele tá internado e queria muito ver os dois.

 

--E você quem é? -- perguntou desconfiada

 

--A mulher do meu tio é muito amiga desse Silvio aí. Ele pediu pra ela te achar. Estão te procurando há tempos... -- pelas perguntas da vendedora deduziu que aquela era a mulher

 

--Jura? -- não acreditava

 

--Pode acreditar. Parece até mentira te encontrar assim do nada. -- riu brevemente -- E justo eu que nem tava envolvida nessa fofoca. Ô louco!

 

--E por que ele tá internado? O que ele tem?

 

Camille pensou antes de responder mas confessou: -- AIDS... -- Vitória sentiu o sangue gelar -- Você... quer vê-lo? -- ela balançou a cabeça titubeante -- Dá um minuto. -- Camille pegou o celular e ligou para Mariano -- Alô, tio? Se eu te contar quem acabo de conhecer você não vai acreditar...

***

 

Silvio morreu nos braços do pai no mesmo dia em que Camille encontrou Vitória. Não teve tempo de vê-la e nem ao filho. O enterro aconteceu no dia seguinte e a moça esteve presente. Havia deixado o filho com uma colega, com quem dividia um pobre apartamento. Durante a cerimônia não derramou uma lágrima sequer. Seu coração estava endurecido pela mágoa e por todo o sofrimento que experimentava.

 

Nessa ocasião Vitória conheceu Romeu, alguns outros parentes de Silvio, Olga e Mariano e conversou um pouco com eles. Romeu se interessou em conhecer o neto e em registrá-lo no nome de Silvio, porém, sentia-se velho e cansado demais para assumir responsabilidade com criança.

 

Vitória vinha se sentindo mal há um tempo e havia emagrecido bastante. Ela agora temia estar contaminada.

 

--Será que meu filho também pode estar contaminado, dona Olga? -- perguntou agoniada

 

--Eu não sei, Vitória. Vocês dois deveriam fazer um exame para ver isso. -- ela respondeu preocupada -- Existe um centro de testes de qualidade e gratuito na Presidente Vargas. Sei também de outro no Mallet.

 

--Meu Deus. -- fechou os olhos -- Se eu morrer o que vai ser do meu filho? Ninguém da minha família o quer e não notei interesse por parte dos parentes de Silvio... Eles são pessoas estranhas... Seu Romeu quer conhecer o neto mas não vai querer cuidar do menino.

 

--Calma, querida. -- Olga segurou as mãos dela -- Não fique pensando no pior. E à propósito, também gostaria muito de conhecer seu bebê. -- sorriu -- Qual é o nome dele?

 

--Ricardo.

 

Mariano sentiu um arrepio pelo corpo. -- É o nome do meu filho também.

 

--Como está vivendo com essa criança? -- Olga perguntou -- Desculpe perguntar isso, mas é importante saber. Nós procuramos você por toda parte e sabemos que não conta com ajuda da família.

 

--Não sabe o que tenho passado. -- lutava para não se emocionar -- É tão difícil ser mãe solteira e pobre... Nos últimos tempos divido um verdadeiro cortiço com uma amiga e enquanto trabalho, deixo meu filho em uma creche da prefeitura. O dinheiro mal dá pra pagar as contas...

 

--Nós vamos ajudar você. -- Mariano ofereceu

 

--De agora em diante não está mais somente por sua conta, querida. -- Olga olhou para Mariano

 

--Não mesmo... -- ele respondeu

 

--Minha filha era amiga de Silvio e ela só não está aqui porque teve de ir para Goiânia com o irmão. Tenho certeza de que também vai lhe ajudar no que precisar.

 

--Nossa, eu... nem sei como agradecer... -- sorriu encabulada

 

--Tudo vai ficar bem, meu amor... Tudo vai ficar bem... -- Olga segurou o rosto dela com delicadeza

***

 

O namorado de Lady fazia ponto de táxi na entrada da Escola de Engenharia. Os dois conversavam.

 

--Antunes, tenho uma amiga que vai se formar agora em dezembro e vai faltar carro pra conduzir a família dela que vem aí. Será que você poderia atender e ficar disponível no dia 20 de dezembro? -- Lady perguntou melosa -- Tô te avisando com pouco mais de um mês de antecedência...

 

--Humpf! -- fez um bico -- Odeio formaturas... É todo mundo emperiquitado, usando gomex ou laquê no cabelo. Isso mancha o encosto de cabeça dos bancos do carro...

 

--Ah, amor... -- fez beicinho

 

--De onde eles são?

 

--Goiânia e arredores. Por que?

 

--Odeio essa gente de Goiás. Só querem saber de ficar comendo pequi! E pequi deixa uma nódoa que mancha o assento do carro...

 

--Ah, Antunes, aceita... É um dinheirinho que entra... E eles não vão comer nada, não... Nunca nem vi minha amiga Tati comendo isso, não sei como é esse troço de pequi.

 

--Tá bom, Lady. Eu vou marcar na minha agenda. -- respondeu contrariado

 

--Amor, e amanhã? A gente vai naquele barzinho legal que eu te falei?

 

--Que barzinho, o que, Lady? Quem freqüenta bar é bebum. Se eu quisesse ir em bar sentava no boteco perto lá de casa e ficava tomando umas e outras... -- reclamou

 

--E no show do Cadu Santos, a gente vai?

 

--Que show de Cadu, o que, garota? Se eu quisesse ver maluco sentava na porta do hospício! De mais a mais nesses shows só dá gente  maconheira! Teu cabelo vai ficar com o fedor impregnado!

 

-- Ai, Antunes, você é sério demais, viu?

 

--E você não quer um homem sério? Homem que fica de gracinha, indo em barzinho, em showzinho, não é homem que quer casar! -- argumentou

 

--Mas e então? -- perguntou animada -- Quando nós casaremos?

 

--Ah, Lady... -- suspirou -- Eu preciso de um tempo. Sabe que me separei de pouco... é necessário superar o trauma...

 

--Tá certo. -- olhou para o relógio -- Agora é hora de aula e eu tenho que ir.

 

--E quando a gente vai... você sabe... curtir uma intimidade... -- fez cara de malandro

 

--Ah, Antunes, a gente nem tem data pra casar! Eu não saio por aí pulando de cama em cama, não.

 

--Humpf! -- fez um bico novamente

 

Lady se despediu e foi caminhando para sua sala de aula. “Ah, não... tenho me mantido firme no meu propósito. Não sou mais virgem, mas agora eu só corro pro abraço com casamento marcado e sacramentado. Pensa que eu sou burra? Pois sim! Sou uma mulher muito da esperta e descolada!” -- pensava

***

 

Olga e Mariano visitavam Vitória. Eles levaram mantimentos e roupinhas novas para o garoto. Estavam penalizados com a pobreza do local em que ela vivia, um apartamento triste e maltratado no Complexo do Alemão.

 

A moça veio trazendo o bebê e mostrou a eles. -- Este é Ricardinho.

 

--Ah, meu Deus, que coisinha linda. -- Olga exclamou ao se levantar de um banquinho -- Deixa eu segurá-lo? -- pediu. Mariano se levantou também

 

--Claro! -- respondeu orgulhosa entregando o menino nos braços da mulher mais velha

 

--Olha que lindo, querido! -- mostrou o rosto do bebê a Mariano

 

--Ricardinho... -- repetiu emocionado enquanto segurava a mãozinha da criança -- Oi, neném... -- brincava com ele

 

--Romeu veio vê-lo? -- Olga perguntou

 

--Veio sim. Ele segurou o neto, chorou, me deu um dinheiro pra algumas despesas... Foi muito emocionante. -- cruzou os braços -- Ele disse que eu poderia morar no apartamento de Silvio depois que providenciasse algumas coisas. Parece que quer colocar o imóvel no nome de Ricardinho, não sei... -- pausou. Parecia constrangida em aceitar a oferta de Romeu -- Falou que não quer mais saber de voltar pra lá por causa de muitas lembranças.

 

--Que bom! -- Mariano exclamou enquanto brincava com o menino -- Não fique constrangida e aceite essa proposta. Ele é avô do menino e sabe que tem obrigações com essa criança.

 

--Eu perguntei se ele ficaria com o neto se eu morresse. Ele já tinha dito que não, mas achei que talvez mudasse de idéia depois de ver Ricardinho. -- pausou -- E eu me enganei... ele não mudou de idéia.

 

--Já fizeram os exames, querida? -- Olga perguntou

 

--Ainda não tive tempo de ver isso mas vou fazer... -- passou a mão nos cabelos -- Tenho certeza de que estou doente, mas tenho pedido a Deus todos os dias que meu filho não esteja.

 

--Se Deus quiser, não estará. -- Mariano olhou para Olga -- Posso segurar ele um pouquinho? -- olhou para Vitória -- Você deixa?

 

--Claro que sim. -- estava feliz pelo carinho deles com o garoto

 

Olga colocou o bebê no colo de Mariano que, à princípio estava desajeitado, mas depois ficou fazendo carinho na cabeça dele. -- São muitos anos sem segurar um bebê... -- sorriu

 

--A pessoa que é soro positivo pode viver por muitos anos, Vitória. -- Olga explicou -- Hoje em dia existe tratamento que ajuda a garantir uma vida digna ao paciente... Não sei de detalhes mas, se for o caso, podemos procurar saber.

 

--Eu não sei o que esperar do futuro, dona Olga...

 

Olga olhou para Mariano embevecido com o bebê no colo, pensou por uns instantes e disse: -- Nós podemos criar seu filho pra você... se precisar disso.

 

Mariano olhou para ela e depois para Vitória. -- Eu só tive um filho e acho que não soube criá-lo... Sempre desejei ter uma segunda chance... -- mordeu os lábios receoso

 

Vitória ficou emocionada. -- Eu sei que não duro muito... eu... -- olhou comovida para os dois -- Não vou esperar o pior acontecer. Eu... dôo ele pra vocês em adoção...

 

Mariano se emocionou. -- Aconteça o que for, Ricardinho saberá que a mãe dele é uma mulher forte, honrada, que não desistiu dele e que lutou com muita dignidade pra dar a ele o melhor... E ele saberá que teve um pai, que cometeu erros, mas que morreu desejoso por vê-lo e pedir-lhe perdão, mesmo sabendo que ele ainda não tinha entendimento pra julgar ou perdoar quem quer que fosse.

 

--Ficaremos com vocês até o fim, Vitória. -- Olga também falou emocionada e puxou a moça para um abraço que selou o início de uma ligação que se estenderia indefinidamente

***

 

Suzana estava nua e deitada de bruços enquanto Juliana massageava seus ombros. A japonesa usava apenas uma camisolinha de tecido leve. As duas estavam na casa da enfermeira, enquanto que dona Lourdes estava na casa de Olga e Mariano conhecendo o filho de Silvio.

 

--Você tinha que ver a empolgação de dona Lourdes quando Mariano chegou aqui pra buscá-la. Falou em ver neném as velhinhas endoidam! -- riu

 

--Neném de quem? -- perguntou curiosa

 

--De Silvio, o ex mecânico de Seyyed que você prendeu uma vez. A mãe do garotinho está internada por conta de uma crise de diarréia e ele ficou com dona Olga e Mariano. Já está lá por dois dias.

 

--Você já visitou o neném?

 

--Ontem. Tem que ver que coisa das mais fofinhas... -- continuava massageando os ombros da delegada

 

--Ju, você é o melhor remédio que uma mulher poderia querer. -- virou o rosto para o lado e sorriu -- Adoro quando fica sentada em cima de mim fazendo massagem...

 

--Hum... -- abaixou-se rapidamente e beijou o rosto dela -- Você anda muito tensa, delegada. Olha só como estão esses músculos deliciosos que você tem... -- continuava massageando

 

--Não sei o que vai ser de mim, meu amor. Eu vou trabalhar todo dia mas, sei lá, sinto que alguma coisa vai acontecer...

 

--Depois do bafafá que Tatiana e eu arrumamos por sua causa não creio que nada de mal acontecerá. Já se passou um mês que você disse aquilo pros repórteres e nada fizeram contigo. -- massageava os músculos na altura da cintura da morena

 

--Eles não são idiotas, meu bem. Ou estão dando tempo ao tempo ou estão ainda decidindo o que fazer...

 

--Por que fez aquilo? Não precisava ter dito aquelas coisas...

 

--Amor, escuta. -- virou-se de barriga para cima e segurou as duas mãos dela -- Eu tinha que fazer aquilo. Foi um acordo entre Lucas Damaso e eu. Além do mais, eu precisava...

 

--Pra se sentir livre? -- as mãos delas se acariciavam

 

--Sim... e ainda tenho que fazer mais algumas coisas...

 

--O que?

 

--Tenho que ajustar as contas com o passado de uma vez por todas... -- sentou-se e abraçou-a pela cintura -- Só aguardo o momento certo pra isso. -- pausou -- E tem mais uma coisa que eu queria te dizer. -- olhava fixamente em seus olhos

 

--O que? -- envolveu o pescoço da outra com os braços

 

--Nunca duvide do meu amor por você, haja o que houver... Eu sei que sou uma mulher estranha, que não correspondo às suas expectativas mas... faço o melhor que posso, -- deslizava as mãos pelas costas dela -- ainda que não te pareça...

 

Juliana sentiu sinceridade nas palavras dela. -- Eu exijo muito, não é? -- perguntou encabulada -- Perdoe-me pelas grosserias que já fiz com você...

 

--Todas merecidas...

 

--Não, você nunca mereceu. -- beijou-a -- São as minhas inseguranças...

 

--Eu tenho ainda mais inseguranças... mas quero resolver isso. Dê um tempo pra mim e não vai se arrepender.

 

--Nunca me arrependi por ter você na minha vida, Suzana...

 

--Muito menos eu... -- beijou-a com muito carinho -- Faz amor comigo, Juliana. -- pediu -- Quero que sinta tudo que eu sinto por você e que nunca mais se deixe corroer por qualquer sombra de dúvida em relação a mim. Eu te amo, você é o que de mais precioso e bonito tenho na minha vida. -- olhava intensamente em seus olhos

 

--Ai, Suzana, eu também te amo tanto... -- beijou-a com total entrega

 

https://www.youtube.com/watch?v=US55HORLhYw

“Eu quero ser pra você

A alegria de uma chegada

Clarão trazendo o dia

Iluminando a sacada...”

 

A delegada tirou lentamente a camisola de Juliana. Continuavam se beijando.

 

“Eu quero ser pra você

A confiança, o que te faz

Te faz sonhar todo dia

Sabendo que pode mais...”

 

Deitou a japonesa de barriga para cima e seguia beijando seu corpo. Não havia urgência no seu modo de amar, ao contrário do que sempre foi. Suzana beijava e acariciava sua amante como seu fizesse uma delicada declaração de amor.

 

“Eu quero ser ao teu lado

Encontro inesperado

O arrepio de um beijo bom

Eu quero ser sua paz a melodia capaz

De fazer você dançar...”

 

Mergulhou entre suas pernas e provocou-a como se provasse a mais rara iguaria do mundo. Juliana gemia e segurava uma das mãos da morena sobre seu seio.

 

“Eu quero ser pra você

A lua iluminando o sol

Quero acordar todo dia

Pra te fazer todo o meu amor...”

 

Levantou a cabeça e novamente seguiu beijando o corpo da amada. A enfermeira segurou-a pelos cabelos com delicadeza.

 

--Ai, meu amor... -- gemia

 

“Eu quero ser pra você

Braços abertos a te envolver

E a cada novo sorriso teu

Serei feliz por amar você...”

 

Suzana beijava e mordia os seios da japonesa enquanto uma das mãos buscava dar prazer a ela. Mordeu seu queixo e a olhou nos olhos. -- Eu te amo...

 

--Também te amo... -- abraçou-a com força e fechou os olhos sentindo prazer

 

“Se eu vivo pra você

Se eu canto pra você

Pra você .”

Pra Você – Paula Fernandes [a]

 

 

23:50h. 18 de dezembro de 2002, Edifício Rubro Negro, Flamengo, Rio de Janeiro

Tatiana dormia em seu quarto. O dia seguinte seria cheio, pois seus pais, irmãs e mais nove parentes chegariam na cidade por conta de sua formatura. Ela também andava nervosa por conta do casamento com Renan, da mudança de retorno para Goiânia e da inauguração da oficina nova, prevista para meados de janeiro. Ainda não havia conseguido emprego mas não estava desanimada. Faria uma entrevista na sede da afiliada da TV Mundo em sua cidade e confiava que se sairia bem.

 

Sonhava com os fatos que estavam mais presentes em sua cabeça até que se vê em um lugar ermo, triste e desolado.

 

“Viu que uma mulher caminhava em sua direção e ficou esperando até que se aproximasse. Logo reconheceu que se tratava de Patrícia, já não tão obscura, mas aparentando alguém que chega ao seu destino após uma longa e extenuante viagem.

 

--Pat... -- cobriu os lábios emocionada

 

--Foi um longo caminho, Tati... -- respondeu como se estivesse cansada

 

--Foram todos pegos... -- Tatiana afirmou com lágrimas nos olhos

 

--Eu não descansei enquanto não vi isso acontecer, mas sei que agi errado. Gastei tempo demais presa ao que deveria ter deixado passar... Não sabe como sofri e ainda sofro...

 

--Agora isso acabou, amiga. -- tentou segurar as mãos dela, que se esquivou -- Vá em paz, querida! Liberte-se!

 

--Eu queria te agradecer por nunca ter esquecido de mim e por ter lutado tanto... -- começou a chorar contidamente -- Queria agradecer por todas as orações que você e sua sogra fizeram por mim... Cada vez que faziam isso era como se bálsamos de luz aos poucos curassem minhas feridas...

 

--Não há o que agradecer... somos amigas, lembra?

 

--Agradeça também à delegada... ela foi incansável...

 

--Eu sinto tanto, Patrícia... não sabe como me sinto culpada pelo que te aconteceu... eu...

 

--Não diga isso, mulher... -- interrompeu-a com delicadeza -- Eu é que sempre fui muito tinhosa... custosa, como dizem na sua terra... -- deu um sorriso triste -- Agora é minha hora de ir e você não me verá mais... Porém, saiba que te desejo o melhor e acredite que sua vida será marcada por muita felicidade e paz!

 

--Deixa eu te dar um abraço? -- pediu emocionada

 

--Você vai acordar se sentindo mal. Eu ainda tenho...

 

--Sempre custosa! -- foi até ela e a abraçou com força

 

Patrícia fechou os olhos e chorou.”

 

Tatiana acordou tensa e ofegante. O coração batia apressado. Levantou-se e correu para o quarto de Priscila.

 

--Acorda, amiga! -- pediu enquanto sacolejava a outra devagar. Chorava

 

--Ai, meu Pai, dai-me forças... -- reclamou. Ao encarar Tatiana sentou-se preocupada -- O que foi? Por que tá chorando?

 

--Patrícia está livre, Priscila... -- respondeu emocionada e se sentou na cama da outra -- Ela está livre...

 

--Nossa, eu... -- passou a mão nos cabelos -- Eu nunca levei fé nessas coisas de espírito e vida após a morte, mas depois de tudo que vi acontecer, dos seus sonhos reveladores eu... -- olhou para Tatiana emocionada -- Ai, abraça aqui, amiga! -- abraçaram-se e choraram

 

--Eu vou sentir muito a sua falta, viu, fi?

 

--Também vou, Tati, também vou... -- olhou para ela -- Mas a vida tem seguir, não é?

 

--Ela segue... -- segurou o rosto da outra -- E mesmo com a distância, a amizade vai continuar. Seremos sempre um trio: você, Pat e eu, não importa onde cada uma esteja! --- sorriu com os olhos marejados

 

--Sempre! -- sorriu também

***

 

Seyyed estava fechando a oficina. Despediu-se de Renan que, antes de partir, advertiu-a que Camille ainda estava lá. A morena foi na sala dela e a encontrou ocupada com um monte de planilhas Excel.

 

--Hora de ir, mocinha. -- encostou-se na porta sorrindo para ela -- Sua patroa é mão de vaca e não paga hora extra. -- brincou

 

A loura sorriu e passou as duas mãos no rosto. -- Eu ainda não terminei isso aqui...

 

--Salva os arquivos e termina segunda. As emergências estão todas safas, então não há motivo pra pânico. -- foi até ela -- Tem trabalhado demais... -- puxou um banquinho e sentou-se a seu lado -- Admiro seu compromisso com a gente e te sou muito grata por isso.

 

Camille corou e foi desligando o computador. -- Eu sou paga pra isso, não é? Além do mais todo mundo aqui trabalha muito...

 

A morena ficou olhando para ela e disse: -- É notável a mudança em você. Fico muito feliz com isso...

 

--Sério? -- perguntou sorrindo e empolgada -- "Ô, Camille, não dá bandeira, meu...” -- pensou se repreendendo

 

--Sério... -- Ed respondeu sorrindo -- "Essa garota realmente me surpreendeu! Ela é uma pessoa muito especial...” -- pensou com ternura

 

--Acha que aquele cara que Renan anda treinando vai mesmo ficar no lugar dele? -- perguntou para mudar de assunto

 

--Vai. Ele tem se saído bem. Mas ainda tenho que contratar mais outro. Embora já tenha preenchido a vaga de Silvio, a saída de Renan é um golpe e tanto. É como perder uns cinco mecânicos... -- riu -- Mas não dá pra eu contratar mais cinco. Tenho que me contentar somente com mais um. -- levantou-se -- Hoje você vai pra onde? Tua casa ou pra Ilha?

 

--Pôxa, Ed, eu já me formei há tanto tempo e você não sabe que eu vou pra casa? -- perguntou chateada enquanto se levantava -- "Ela nem presta atenção em nada meu!” -- pensou decepcionada

 

--Não é isso, mas é que de repente você podia ter que dar uma passada lá no teu tio, sei lá. -- pausou -- Eu sei que você se formou há o maior tempão, -- brincou -- e que não precisa disso de ficar indo pra faculdade e tal e por isso não precisa mais dormir na Ilha. Tô sabendo que é uma engenheira renomada, como não? Eu não ia contratar qualquer engenheirazinha de porta de cadeia pra trabalhar aqui! -- sorriu

 

--Você é muito boba, meu. -- riu

 

--Vem que eu te levo de moto. É pertinho, você nem vai sentir o vento bagunçar teu cabelo bonito. -- foi andando para a porta

 

--De moto? Eu nunca andei de moto, ô louco! -- arregalou os olhos

 

--Até tua mãe já andou!

 

--E disse que gritou um monte porque você correu demais.

 

--Eu? Que é isso? Sou motociclista, não sou motoqueira! -- brincou -- Deixa de cagaço e vem comigo, vem! -- chamou olhando para ela. Em seguida saiu da sala

 

“Assim o coraçãozinho não aguenta...” -- pensou enquanto seguia a morena

***

 

Camille sentou-se na garupa e abraçou a cintura de Seyyed. A morena pediu para que usasse seu capacete e ela obedeceu.

 

--É só acompanhar os movimentos do meu corpo. -- orientou

 

--Acompanho... -- suspirou

 

Conforme a mecânica acelerou a moto, Camille deitou a cabeça no seu ombro e fechou os olhos. Sentia-se no paraíso. Parecia que voavam nos céus da cidade.

 

--Camille. -- Ed chamou -- Camille? -- insistiu desconfiada

 

--Sim... -- respondeu com os olhos fechados

 

--Chegamos. Não me diga que você conseguiu dormir aí onde está?

 

--Ah, eu... -- pensou -- Chegamos?! -- arregalou os olhos e pulou da moto -- Graças a Deus, ô louco! -- tirou o capacete -- Você corre como uma tarada, meu! -- devolveu o capacete a ela e passou a mão nos cabelos -- Eu fechei os olhos e entreguei a alma achando que seria meu fim! -- disse nervosamente -- "Ai, Camille, mas você me dá cada furo, viu?” -- pensou revoltada consigo mesma

 

--Que é isso? -- riu -- Você é doida, garota! -- olhou para ela -- Mas é bom que seja doida mesmo porque pra trabalhar comigo tem que ter um diferencial. -- brincou

 

Mariângela saía para jogar o lixo fora quando deu de cara com as duas. -- Oi! -- sorriu -- Eu já tava preocupada que essa menina não vinha! -- olhou para a filha

 

--Funcionária dedicada é isso! Só saiu de lá porque mandei. Vê lá se vou ficar pagando hora extra! -- brincou

 

--Mãe, ela é muito barbeira! -- falou o que primeiro lhe veio à cabeça -- Pensei que fosse morrer!

 

--E isso porque andou daqui ali. -- olhou para Mariângela -- Você encarou com mais bravura! -- a morena sorriu

 

--Vocês são todas loucas, isso sim! -- riu também e calou-se por uns segundos -- Mas não quero saber de Camille andando de moto, Seyyed, por favor! -- pediu com seriedade

 

--Pode deixar. -- Ed respondeu sem graça -- Vou indo, meninas. -- colocou o capacete que a loura usou -- Vejo vocês na formatura da Tati.

 

--Não quer entrar? -- Camille ofereceu

 

--Fica pra próxima. -- piscou para ela -- Tchau! -- foi embora

 

A loura entrou em casa chateada e arrependida pelo comentário que fez para a mãe. “Eu sou uma idiota mesmo!” -- pensou

 

Mariângela entrou atrás dela e disse: -- Olha lá, hein, Camille, esse negócio de ficar andando de moto com Seyyed!

 

--Mãe, você foi tão mal educada! Ela me traz de carona e você nem a convida pra entrar, além de ainda ter dado bronca nela como se eu fosse uma criancinha! -- sentou-se na poltrona de braços cruzados

 

--E não foi você quem disse que ela era barbeira? -- perguntou sem entender a atitude da filha

 

--Ah, mas não era pra você fazer o que fez!

 

--Mas eu não fiz nada de mais. Também não a convidei porque não tinha o que servir a ela; ainda não fizemos compras.

 

--Ah, mas foi uma grande falta de educação! -- reclamou de cara feia

 

--Camille... -- Mariângela parou diante dela de braços cruzados -- Você sempre fez um monte de grosserias com ela e agora vem me acusar de ser mal educada? Que houve contigo?

 

A loura teve medo de que a mãe desconfiasse de alguma coisa e se levantou nervosa. -- Eu não entendo vocês... -- tentava reverter a situação -- Quando eu sou grossa, reclamam, quando eu sou educada, estranham. -- foi andando para o quarto -- Eu hein, vai entender... ô louco!

 

Mariângela balançou a cabeça e foi para o banheiro.

***

 

Isabela recebeu os últimos resultados que lhe faltavam e constatou que mais uma vez não perdeu disciplina alguma. “Mas foi por pouco...” -- pensou

 

Andou até o carro e na hora em que estava abrindo a porta foi abordada por duas colegas.

 

--Isa, pode dar uma carona pra gente? -- uma delas perguntou

 

--Claro, Gabi. -- olhou para as duas -- Entrem! -- convidou

 

--Ai, Isa, valeu! -- Carolina respondeu -- Voltar pra casa de ônibus na sexta-feira à noite é uma merd*! -- entrou no carro. Gabriela sentou-se no banco do carona

 

--Vocês moram em Botafogo, não é? -- Isa perguntou enquanto ligava o carro

 

--Em casas separadas, diga-se de passagem. -- Gabriela brincou

 

--Estou sabendo. -- a ruiva riu e manobrou para sair. Quando entrou na via ligou o som

 

--Que música é essa? -- Carolina perguntou -- É bonita!

 

--Habibi, da cantora Elissa. -- respondeu

 

--E quem é essa? -- Gabriela perguntou curiosa

 

--Uma cantora libanesa. É uma das artistas mais conhecidas do mundo árabe. Eu adoro a discografia dela.

 

--Você fez uma coreografia com uma música dessa mulher no trabalho que a professora Vilma passou. Tô reconhecendo pela voz. -- Carolina comentou

 

--O nome daquela música é Salemli Aleh. É deliciosa pra dançar.

 

--Você tem parentesco com aquele povo? -- Gabriela continuou perguntando -- Tivemos uma breve febre de música árabe no Brasil mas nem naquela época eu ouvi falar nessa cantora.

 

--Minha mulher é filha de pai libanês e foi com ela que aprendi a curtir as músicas que encantam as pessoas no mundo árabe. -- respondeu naturalmente -- Linha Vermelha engarrafada na sexta à noite, ninguém merece... -- reclamou

 

--Então é verdade que você é... -- Carolina disse

 

--Lésbica? -- olhou para ela -- Sim. -- voltou a olhar para o trânsito parado

 

--Eu não acho nada de mais... -- Gabriela respondeu -- Até prefiro porque é menos uma pra dar em cima do meu namorado.

 

A ruiva riu. -- Com certeza eu não vou fazer isso. -- balançou a cabeça -- Não dou em cima de ninguém, homem ou mulher. Sou muito bem casada!

 

--Eu sempre achei que relacionamento gay fosse a maior putaria. -- Carolina disse

 

--Que é isso?? -- Isa olhou para ela horrorizada

 

--Não, desculpa a franqueza... -- a garota respondeu sem graça -- Mas é a impressão que a gente tem, sabe? Homem com homem, mulher com mulher... não tem estabilidade, não segura e é a maior putaria. Mas eu devo estar enganada, não é?

 

--Totalmente! Existem relacionamentos sérios ou avacalhados tanto no meio dos hetero quanto entre os homossexuais. Isso é um preconceito que esse pessoal que fala demais inventa. -- a ruiva respondeu chateada -- Eu sou super bem casada e meu relacionamento é uma coisa sólida!

 

--Humpf! Eu vejo putaria dentro de minha própria casa... -- Gabriela comentou se lembrando do pai

 

--É, a gente traz certos preconceitos bobos na cabeça, não é? -- Carolina tentava consertar o que havia dito

 

Gabriela puxou conversa sobre a faculdade e as três ficaram envolvidas nesse diálogo até o momento em que a moça desceu do carro e se despediu. -- Tchau, Isa, bom final de semana!

 

--Tchau, Gabi! -- saiu com o carro e olhou para Carolina -- Agora você me guia até sua casa.

 

--Tá. Entra ali, por favor. -- apontou a rua. Depois de um tempo perguntou -- Sua mulher faz o que?

 

--Mecânica de automóveis. Sabe tudo e mais um pouco sobre carros, além de restaurar os modelos antigos. -- respondeu orgulhosa

 

--Hum... agora vira à esquerda, por favor. -- pediu e Isa assim o fez -- É ali. -- apontou. A ruiva parou o carro

 

--Pronto. -- olhou para a colega -- Está entregue. -- sorriu

 

--Eu moro sozinha. -- ela disse

 

--E? -- não entendeu

 

--Se um dia quiser... assim, provar um sabor diferente... -- pôs a mão na coxa da bailarina -- eu tenho algumas curiosidades e... estaria totalmente disponível pra você. -- sorriu maliciosa

 

--Ah. -- Isa ficou pasma -- Você não tinha um namorado? -- tirou a mão da outra de cima de sua coxa

 

--Tenho. Mas... quem vai dizer a ele? -- continuava sorrindo

 

--E depois os relacionamentos homossexuais é que são putaria? -- abriu a porta do lado do carona -- Francamente, garota. -- olhou para ela -- Eu não estou disponível. Sai do meu carro e tenha um bom final de semana! -- falou de cara feia

 

Carolina desmanchou o sorriso e desceu do carro sem falar nada. Isa foi embora dali. -- Eu não agüento a hipocrisia das pessoas! -- desabafou para si mesma -- E olha que essa aí é mulher de religião!!

***

 

Tatiana discursava em sua formatura. -- E além de tudo o que, respeitosamente, eu disse às senhoras e aos senhores em nome da nossa turma, peço a licença de todos aqui para falar algumas palavras em nome de mim mesma. -- pausou -- Talvez ninguém tenha percebido o que representa o fato de eu ser a única negra dentre os formandos. Isso não é uma simples ocorrência sem significado, mas um reflexo de uma sociedade desigual onde as pessoas ainda não goz*m das mesmas oportunidades.  No Brasil, os trezentos anos de escravidão africana criaram problemas bem mais graves e profundos do que geralmente se imagina. A abolição da escravatura substituiu apenas o escravo pelo mal assalariado dentro do mesmo sistema cultural escravagista. Bem disse Rui Barbosa: “Deixaram-no estiolar nas senzalas, de onde ausentara o interesse pela sua antiga mercadoria, pelo gado humano de outrora. Executada assim, a abolição era um agonia atroz. Dar liberdade ao negro, desinteressando-se absolutamente de sua sorte, não vinha a ser mais que alforriar os senhores.” -- foi interrompida pelos aplausos de algumas pessoas -- Dados referentes ao ano 2000 mostram que enquanto 22,7% dos brancos com 18 anos ou mais concluíram o Ensino Médio, somente cerca de 13% dos negros o fizeram. Mais de 60% da população de baixa renda é composta por negros e atualmente, os negros ganham, em média, apenas 53% da renda do branco.25, 26 E por que? Por ignorância, preconceito e um apartheid velado nos corações de todos nós mesmo que não percebamos. O que é ser negro? O que é ser branco? Qual a importância da cor da pele? Nós nascemos, vivemos nossas vidas, sorrimos, choramos, ficamos doentes, nos curamos, trabalhamos, constituímos família ou não, deixamos um legado e um dia morremos. E não importa o tipo físico, felicidade e dor não escolhem cor de pele... nem a morte. Somos todos iguais, quem ainda não sabe disso? -- pausou -- Eu vou seguir o exemplo de Martin Luther King e dizer que tenho um sonho. Sonho com o dia em que veremos brancos e negros em igualdade, não somente no discurso mas na vivência em sociedade, como cidadãos e seres humanos. Sonho com o dia em que o conhecimento será plenamente acessível em universidades públicas e de qualidade, não por causa de um sistema de cotas, mas porque a sociedade se transformou, e uma pessoa, homem ou mulher, passou a ser valorizada pelo ser e não pelo ter. Sonho com o dia em que nunca mais aconteça de uma pessoa ser assassinada simplesmente por viver a própria vida, ainda que esta vida não siga o que consideramos natural. Como profissional de Comunicação, sonho com o dia em que a informação será transmitida sem o intuito de controlar ou iludir as massas, sem deturpações, sem juízo de valor, para que cada um possa fazer sua própria análise. Sonho com o dia em que seremos um país nação e ocuparemos nosso justo lugar dentre os povos, finalmente livres da maldita corrupção que nos assola. Sonho com o dia em que realmente entenderemos que somos filhos de Deus e que nossa obrigação é de sermos felizes e de ajudar os outros neste mesmo objetivo. -- emocionou-se -- Eu acredito que as coisas podem mudar, que podem melhorar e foi com muita emoção que recebi a notícia de que, depois de tanto sofrimento e de tanta espera, todos os homens envolvidos no assassinado de Patrícia Feitosa foram presos hoje, HOJE, no dia da minha formatura... -- respirou fundo -- Vocês podem achar que isso não tem nada a ver com o que eu dizia, mas tem. Eu acredito que se a gente luta por uma causa, sem desistir dela jamais, grandes transformações podem acontecer. Quem disse que não podemos mudar a sociedade? Nós somos a sociedade! -- novos aplausos -- Em nome de todos os formandos agradeço aos familiares, cônjuges, namorados, namoradas, amigos e a todos aqueles que possibilitaram que o dia de hoje acontecesse em nossas vidas. Agradeço a Deus acima de tudo e desejo que todos nós, os formandos, possamos contribuir para o engrandecimento do país, trabalhando com ética e muita honra. Obrigado! -- salvas de palmas ecoaram na concha acústica da universidade

 

Tatiana sentou-se junto aos demais colegas de turma e os aplausos não paravam.

 

--Essa é a minha menina, meu povo!! -- Claudio gritou enquanto aplaudia

 

--Eu vou me casar com ela... -- Renan aplaudia orgulhoso -- Eu vou me casar com ela... -- sorria

 

--Escolheu bem, garoto. -- Ed deu um tapinha nas costas dele

 

--Tati, Tati, Tati... -- Tânia e Tamires cantavam e dançavam

 

--Eu gosto dessa garota! Gosto mesmo! -- Juliana falou enquanto aplaudia

 

--Eu também! E vou sentir falta dela! -- Suzana respondeu para a japonesa -- Foi uma guerreira incansável lutando ao meu lado... -- balançou a cabeça

 

--Arrasou amiga!!! -- Priscila gritou -- Uhuuu!!!

 

--É isso aí!! Maravilhosa, amiga!!! -- Lady gritou. Olhou para o namorado -- Ela não foi o máximo, Antunes?

 

--Humpf! Se eu gostasse de ouvir discurso assistia a horário político...-- ele resmungou

***

 

Flávia conhecia várias pessoas que alugavam casa na região dos lagos, e por isso, no começo do mês de dezembro, alugou junto com Brito, Suzana, Seyyed, Renan, Mariano e os pais de Tatiana um imóvel de dois andares em Cabo Frio, na praia das Conchas. A idéia era chegar lá no dia seguinte à formatura de Tatiana, passar o natal e retornar no dia 26.

 

Renan contratou uma van para transportar a família da noiva e o restante do grupo viajou de carro.

 

--Ai, amor, eu tô tão empolgada com esse natal! Mesmo sabendo que Juliana vai eu nem ligo. Só penso em como vai ser legal! -- Isa falou animada

 

--Ah, minha gata, já era tempo de vocês duas pararem com essas cismas. Suzana e eu já resolvemos nossas diferenças. -- a morena falou

 

--Talvez um dia... -- respondeu olhando para a rua -- Ed, onde que essa Vitória mora? -- perguntou preocupada

 

--Tá chegando. É logo ali. -- apontou para o prédio maltratado

 

--Coitada... -- a ruiva olhou penalizada -- Ela melhorou mesmo, Ed? -- olhou para a mecânica

 

--Ela está com AIDS, Isa. Vai ter momentos complicados, melhorar, piorar de novo, melhorar... Ela e o filho estão fazendo tratamento lá no hospital da Presidente Vargas; Juliana foi quem arrumou. Vamos ver o que vai acontecer. -- parou o carro

 

Vitória veio andando com o filho no colo e duas bolsas pesadas. -- Deixa que eu vou lá ajudá-la. -- a bailarina rapidamente desceu do carro e foi ajudar a moça

 

--Oi, Vitória! -- assoprou um beijinho para ela -- Deixa eu pegar essas bolsas aqui e depois te cumprimento direito. -- olhou para o menino -- Oi, lindinho! -- beijou o bracinho dele

 

--Oi, Isabela! -- respondeu animada -- Acredita que nem dormi pensando nessa festa de natal? Eu tô feliz e animada mas ao mesmo tempo com vergonha. Não tenho roupa boa nem nada...

 

--Relaxa, Vitória. Você estará entre amigos. -- andaram até o carro

 

--Grande Vitória! -- Ed cumprimentou quando ela entrou -- Oi, Ricardinho! -- pegou a mão do menino e a beijou

 

--Oi, Seyyed! -- ela respondeu sorridente -- Sua mãe e seu Mariano já foram? -- fechou a porta do carro

 

--Já. Eles foram junto com Flávia e a caravana de Renan. -- riu. Isa entrou e então a morena ligou o carro de novo

 

--Quantos seremos? -- ela perguntou curiosa

 

--Eita... Quantos, Isa? -- olhou rapidamente para a bailarina enquanto dirigia

 

--Nós quatro aqui, dona Olga, Mariano, Camille, dona Mari, Flávia, Brito, Suzana, Juliana, dona Lourdes, Renan, Tatiana, os pais dela, as duas irmãs e mais nove parentes... Vinte e nove pessoas! -- olhou para Vitória

 

--Nossa... legal! Mas... será que alguém vai ficar melindrado porque eu... eu sou... -- perguntou receosa

 

--Vitória, ninguém vai ficar anunciando se você é ou não é soro positivo. E quanto aos que sabem, se alguém vier de graça, fala comigo que eu resolvo e fim! -- Seyyed respondeu com decisão

 

--Nossa, que mulher! -- Isa brincou com ela

 

--Tá pensando o que? Mexe com quem tá quieta... -- brincou

***

 

Suzana passeava com Maria de Lourdes no aterro do Flamengo. Empurrava a cadeira dela.

 

--Que pena que Juliana vai trabalhar no ano novo, né, dona Lourdes? Ela adoraria ir na festança que o pessoal da Tatiana vai fazer em Goiás!

 

--É mesmo... Mas nós vamos no casamento amanhã, isso é o que vale! -- pausou -- Acho que pior seria se ela tivesse trabalhado no natal. Já pensou perder aquela festa linda? Eu adorei! Casa cheia, animação, felicidade e um nenenzinho pra eu brincar!

 

“Juliana tem razão, falou em neném as velhinhas endoidam...” -- pensou e sorriu -- Mas ela aproveitou muito pouco...

 

--Vocês duas aproveitaram pouco! Eu é que fui sortuda por ter ido de carro com Flávia. São as vantagens da terceira idade... não trabalho, pago meia entrada, não pego fila... Hoje em dia tenho vida de rainha! -- riu

 

--É, Brito emprestou o carro pra Flávia... -- riu -- Nunca imaginei que um dia fosse vê-lo emprestando carro a alguém!

 

--Ele está apaixonado! É notório. Aliás aqueles dois têm tudo a ver.

 

--Se têm! Mas acho que Brito ficou muito frouxo depois desse namoro e não entendi isso. Ele não quebra mais nada, nunca mais apertou pescoço de malandro... disso aí eu não gostei. -- reclamou -- Imagino depois que se casar! -- revirou os olhos

 

Lourdes riu. -- E você, Suzaninha? Quando vai se casar com Juliana?

 

--Mas até a senhora? -- perguntou contrariada

 

--Vamos parar ali naquela sombra. -- apontou -- Quero conversar com você!

 

“Ih! Sinto que vem chumbo grosso por aí...” -- Suzana pensou enquanto fazia o que a idosa lhe pediu -- Pronto! -- parou a cadeira e se sentou na grama olhando para Lourdes

 

--Olha, Suzaninha, eu não vou mentir pra você. -- olhou para ela -- Se tivesse poder sobre as coisas, você e Juliana se apaixonariam por bons homens, se casariam e teriam filhinhos. Mas eu não tenho poder algum e depois de quase oitenta anos de vida “descobri que nós não precisamos entender tudo, que nós não devemos esperar que todas as pessoas sigam os caminhos que julgamos os melhores e que amar um amigo, uma amiga, também significa respeitar as escolhas individuais e aceitar que as pessoas podem ser felizes de diversas formas.”27 -- pausou -- Eu respeito vocês, as escolhas de vocês e lhes serei eternamente grata por toda a alegria que me dão nestes momentos em que meu corpo se enfraquece e o inverno chega cada vez mais rigoroso na minha vida. -- sorriu para a morena -- Eu reconheço amor quando vejo e sei que vocês se amam de verdade.

 

--Pode acreditar nisso... -- arrancou um pedacinho de grama do chão e ficou brincando com ele -- Eu amo aquela japonesa como nem sei explicar... -- sorriu e abaixou a cabeça

 

--Então por que o medo de assumir um relacionamento pra valer? Por que o medo de se casar com ela? Se acha que eu incomodo a privacidade de vocês, posso me mudar para um asilo sem problema algum. Desde de que prometam que vão me visitar...

 

--A senhora não vai pra asilo, não! -- respondeu franzindo o cenho. Respirou fundo  -- Não tem nada a ver com a senhora... sou eu. -- olhou para ela

 

--O que você tem que a impede de se casar com a mulher que ama?

 

--Ainda não ajustei contas com o passado. Ainda me sinto suja, pesada, assassina... Eu tenho que resolver essas coisas, e aí sim posso pensar em me casar com ela e dar-lhe o que merece.

 

--Não leve uma eternidade pra fazer isso, meu bem! A gente nunca sabe quando nossa hora vai chegar. Veja o caso de minha neta! Jovem, inteligente, bonita, um mundo de possibilidades pela frente, e ela tanto que fez que encontrou a morte nos Estados Unidos. Quem poderia imaginar? -- olhou para as crianças brincando na quadra ali perto -- A vida é um espetáculo onde a gente entra pra fazer o melhor logo de cara! Do contrário, vira um fiasco e motivo de vergonha e arrependimento... -- olhou para Suzana -- Sei que você é uma mulher que carrega um monte de conflitos dentro do coração, mas não perca tempo! A pior coisa do mundo é desejar mais tempo e não o ter!

 

Suzana ficou pensando naquelas palavras e nada respondeu.

***

 

Isabela jogou-se na cama. -- Ed, que final de ano frenético! E olha que o réveillon ainda vem aí!

 

--Pois é! -- jogou-se na cama do lado dela -- E mais uma festança de casamento em Goiás! Anota o que eu te digo, essa festa vai estender até sabe-se lá quando! -- riu

 

--A formatura da Tati foi o máximo, -- virou-se de lado e abraçou a morena pela cintura, colocando a cabeça no ombro dela -- o casamento deles hoje foi maravilhoso, imagino o que nos aguarda em Goiânia. Festa até não mais poder! Casamento e réveillon, imagina? -- sorriu

 

--É garota, e hoje mesmo a gente já viaja. Preparou as malas? -- beijou-a e riu

 

--Hoje?? -- arregalou os olhos e levantou a cabeça

 

--Renan e Tati casaram ontem, minha gata! Hoje é dia 30! Madrugada, mas é! -- olhava para ela

 

--Meu Deus... -- riu e novamente deitou a cabeça no ombro da morena  -- Ainda bem que o vôo é no final do dia... -- pensou -- Ed, agora me ocorreu, e quanto a Vitória e Ricardinho? Vão passar o final do ano aonde?

 

--Romeu deixou os dois irem morar no apartamento de Silvio e eles se mudaram pra lá hoje; quer dizer, ontem. Foi até um amigo de Renan que fez a mudança deles. Vão ficar lá.

 

--Coitada dela... Sabe, se eu pegasse AIDS com alguém acho que morreria mais rápido pelo ódio que teria dessa pessoa.

 

--É uma situação difícil, não é? E tem um monte de mulher casada que pega AIDS com o marido... Vitória me disse que é tanta mulher contaminada que aparece no hospital... -- pausou -- Eu já falei pra Mariano, ai dele que ponha doença na minha mãe! Ai dele! -- fez cara feia

 

A ruiva riu. -- Mariano não é de bagunça, Ed. Isso é óbvio! -- levantou a cabeça e olhou para ela

 

--Mas foi avisado...

 

--Hum, que morena braba, a minha... -- beijou-a

 

--E tua família, Isa? -- acariciava as costas dela -- Tua mãe não reclamou de você passar natal e ano novo sem eles?

 

--Depois daquele estresse na nossa open house ela achou até melhor. -- pausou -- Ela ficou foi chateada de papai não querer ir pra Goiânia no casamento parte 2. Principalmente porque até os pais de Priscila estarão lá. -- riu

 

--Até que seu pai veio no parte 1... -- riu -- Sabe se gostaram?

 

--Mamãe adorou! Quanto a ele eu não sei, não fico de conversa com meu pai. -- pausou -- Já até sei que mamãe vai dizer pro pessoal da família que foi em um mega casamento que por sua vez continuaria por todo o estado de Goiás.

 

--E mais Tocantins! -- a morena brincou

 

--Talvez até o Pará. -- continuou brincando -- Ai, ai, eu amo minha mãe mas ela é tão exagerada...

 

“Mentirosa, eu diria. “ -- Seyyed pensou

 

--Sabia que Tati me falou que nós conheceremos as originais, as verdadeiras, aquelas que deram origem às nossas brincadeiras?

 

--Quem? -- a morena perguntou curiosa

 

--As caipiras de Pau d’Arco! -- sorriu para a mecânica -- Tati está apavorada! Soube hoje que elas iriam na festa. Quer dizer, ontem. Parece que um parente ligou e disse ao pai dela, sei lá. -- pausou -- Já pensou se elas ficarem amigas de Lady? Vai ser uma loucura total! -- riu

 

--E aquele resmungão namorado de Lady também vai?

 

--Não. Ele disse que não pode deixar de trabalhar no táxi em pleno período de final de ano.

 

--Isso é verdade... Mas, me responda,  o que as tais caipiras tanto fazem pra serem tão temidas?? -- perguntou curiosíssima

 

--Você vai ver com seus próprios olhos. Nós veremos. -- beijou-a

 

--Pior que o medo de Tatiana com essas mulheres é só Camille com a prima Ligia, o marido e os filhos. -- riu -- Mas aquelas crianças são realmente punk!

 

Isa desmanchou o sorriso e perguntou enquanto mexia na gola da blusa da amante: -- Ela vai pra Goiânia? -- olhava para o pescoço da outra

 

--Vai, ué! Foi convidada junto com o tio e a mãe. -- levantou delicadamente o rosto da ruiva com os dedos -- Por que essa pergunta, hein?

 

--Eu... Ah, Ed, ela gosta de você...

 

--Ah, Isa, pára com isso. Ela gosta mas não como mulher. Camille não é lésbica!

 

--Tudo bem, Ed. -- beijou-a -- Se tem tanta certeza. -- deitou-se de lado ficando de costas para ela -- Vamos dormir enquanto temos tempo.

 

--Vamos. -- abraçou-a -- Vamos. -- beijou a cabeça da ruiva -- Isa?

 

--Hum.

 

--Eu tenho dona e ninguém tem a menor chance comigo, tá bom?

 

--Acho bom! -- respondeu de olhos fechados e sorrindo

 

 

22:00h. 03 de janeiro de 2003, Rua Arquias Cordeiro, casa 6, Engenho,  Rio de Janeiro

Mariângela ligou a TV. Queria assistir ao primeiro programa de Marcília Rafaela em 2003.

 

--Camille, vem ver! Está começando.

 

--Quem ela entrevista hoje? -- perguntou curiosa ao se sentar ao lado da mãe

 

--Aquela escaladora Sabrina. -- respondeu

 

--Mas que diabo! Por que esse povo dá tanto valor a essa garota só porque sobe um morro e outro? Ô louco, só vive sendo entrevistada! Daquela vez foi o Lô Tavares, agora a Marcília... -- fez um bico

 

--Fica quieta aí que já vai começar! -- a costureira olhava atentamente para a televisão

 

Sabrina chegou e cumprimentou a apresentadora. Usava um macacão branco tipo pantalona decotado no busto e justo na cintura. Os cabelos estavam escovados e a maquiagem muito bem feita.

 

--Eu gostei desse macacão dela. Quer que te faça um desses, filha?

 

--Ah, mãe, eu não tenho corpo pra isso... -- respondeu balançando a cabeça

 

--Que não tem, o que? -- olhou para a jovem e depois para a TV novamente

 

Marcília olhava para a câmera. -- Hoje o nosso bate papo é com a escaladora Sabrina Magalhães, uma jovem e corajosa mulher que vem surpreendendo o país e o mundo com sua obstinação em concluir o projeto dos quatorze cumes. -- olhou para a moça -- Olá, Sabrina, boa noite!

 

--Boa noite, Marcília. É uma honra estar aqui no seu programa e logo no primeiro do ano! -- sorriu

 

--Ah, mas você fez por merecer, afinal de contas quantas mulheres brasileiras podem se orgulhar de dizer que têm atingido o teto do mundo em sucessivas excursões? Eu fiquei surpresa quando soube o que você fez em 2002. Conte os detalhes pra gente porque todo mundo quer saber que história é essa de, em uma mesma temporada, você ter conquistado os cumes do -- leu em um papel -- Gasherbrum I, Gasherbrum II e do Broad Peak. -- olhou para ela -- Estamos falando aqui de montanhas de 8068, 8035 e 8047 m de altitude, respectivamente!

 

--Nossa! -- Mariângela exclamou

 

--Grandes coisas... -- Camille fez um bico

 

--É uma longa história, Marcília, mas eu participei de uma excursão nepalesa-americana e recebi o patrocínio de duas ONGs norte americanas pra poder integrar a equipe. Os nepaleses tinham a intenção de fazer somente um cume, o que por si só já representa uma empreitada dificílima, porém consegui convencê-los a investir nos três. Alguns escaladores norte americanos se empolgaram com o projeto e aderiram ao grupo. No final tivemos a adesão de mais três escaladores: uma inglesa, uma neo zelandesa e um finlandês. Éramos vinte e um escaladores, além dos sherpas, uma gerente de acampamento e dois médicos.

 

--Quantas mulheres ao todo? -- a entrevistadora perguntou

 

--Sete. Sendo que uma era médica de acampamento.

 

--E todos conseguiram conquistar os três cumes?

 

--Não... -- balançou a cabeça -- No final das contas deu tudo errado. -- Marcília riu -- Na investida ao Gasherbrum I foi tudo perfeito como nunca vi em uma excursão; acho que por isso ficaram quase todos muito seguros de si e foi daí que os problemas começaram. No final, somente três sherpas, uma médica, dois escaladores nepaleses e eu completamos o projeto. Mas, graças a Deus, ninguém morreu.

 

--Mas que tipo de problemas aconteceram? Problemas de convivência, condições climáticas,  o que foi?

 

--Tudo isso! E mais a ganância de alguns, a arrogância de outros, falta de planejamento... Eu também errei, pensei que tinha previsto todos os detalhes mas não... Quem manda é a montanha, não adianta pensar diferente! E na montanha, Marcília, você é o que é. Não existem truques e os vernizes sociais que usamos aqui embaixo vão todos por terra. O cansaço, o estresse, a força da natureza se impõem sobre você e seu verdadeiro eu aflora. Pro bem e pro mal.

 

--E você deve ter terminado esgotada, imagino eu!

 

--Totalmente, mas pra mim foi um batismo de fogo, mesmo feito em um ambiente cheio de gelo. -- sorriu

 

--Sabrina tá diferente nessa entrevista. -- Tatiana comentou com Renan. Estavam na casa dos pais da moça -- Parece mais madura, menos deslumbrada...

 

--Quanto tempo isso levou, Sabrina? -- Marcília perguntou curiosa

 

--Setenta e quatro longos dias. -- respondeu naturalmente

 

--Ô louco! -- Camille exclamou -- Setenta e quatro dias de vida bandida, eu hein? Isso é muita falta do que fazer, viu?

 

--E antes disso, você tinha ido ‘somente’ -- fez aspas com os dedos -- em uma montanha de mais de oito mil metros, o Shishapangma.

 

--Isso. E calculei muito mal naquela ocasião. Eu ainda estava iludida demais e me super estimei. Tive de amputar um dedo mindinho de cada pé.

 

Marcília arregalou os olhos.

 

--Ô louco, meu, que mina maluca! Daqui a pouco vai cortando tanto que vai ficar pior do que eu! Um cotôco de perna pra cada lado! -- Camille riu

 

--Piadinha sem graça, Camille! -- Mariângela protestou -- Coitada da moça!

 

--Coitada nada, mãe. Ela foi se meter a subir morro na terra dos outros porque quis! -- a loura retrucou

 

--E por que tentar três cumes de uma vez depois desse problema no Shishapangma? -- olhou para a câmera -- Gente, os nomes dessas montanhas quase me embolam a língua! -- as duas riram

 

--Sabe, Marcília, quando eu concebi esse projeto na minha mente nem sabia se ele era humanamente possível. O que acontece é que pra conseguir patrocínio você precisa fazer alguma coisa diferente senão ninguém te dá um centavo sequer. -- riu brevemente -- Minhas outras excursões, no projeto dos sete cumes, eram mais baratas, vamos dizer assim, e o caso da Antártida foi a minha sorte de estar no lugar certo no momento certo. Eu sabia que se conseguisse atingir o objetivo numa excursão tão ousada quanto essa não teria tantos problemas em obter patrocínio para as próximas. -- pausou -- E não me enganei: já tenho patrocínio pra investir no Annapurna neste ano!

 

--Mas você podia ter morrido... Não acha que arriscou demais? -- perguntou olhando fixamente para ela

 

--Sim... mas eu precisava fazer isso.

 

--Mas... é muito sofrimento, não? -- fotos dos três cumes eram exibidas no telão -- Muita neve, gelo, vento frio, falta de um mínimo de conforto... Uma montanha fica longe da outra... São lindas, a gente vê nessas  fotos que você nos trouxe, -- apontou para o telão -- mas ter essa visão tem um preço muito alto...

 

--Altíssimo. -- falou com muita ênfase -- Você sofre demais, você chega ao limite do que um ser humano pode chegar, você sente calor, porque naquela região faz muito calor, depois morre de frio, tem que se proteger da exposição dos raios ultra violeta, tem que beber muito líquido, tem que levar um monte de equipamentos e mantimentos, tem que pensar em tudo e no final a natureza mostra sua força pra você e você percebe que o plano não era tão perfeito quanto parecia... -- pausou -- E essa excursão, acredite, ela me matou... A Sabrina que todos conheciam morreu lá, no pico do Broad Peak, que foi a última montanha atacada por nós. Aquilo foi meu batismo, eu voltei diferente, voltei uma outra mulher.

 

--E por que você quer concluir esse projeto dos quatorze cumes? Eu sei que é possível concluí-lo, pois outros escaladores de alto nível como você investiram e obtiveram sucesso, mas eu queria entender, o pessoal que te assiste queria entender, o que te motiva, o que te move pra se arriscar e sofrer desse modo? Por que passar voluntariamente por tanto sofrimento?

 

--É uma resposta longa... -- advertiu

 

--Pode falar, se faltar tempo eu te aviso. -- sorriu -- Eu sou muito curiosa, quero saber!

 

--No começo, eu queria a fama e a glória de ser a primeira mulher jovem e lésbica a completar este projeto. Naquela época, eu ainda não sabia que “a fama é uma armadilha criada pela mídia para explorar os complacentes, se dando conta demasiadamente tarde de que a verdade e a honra não vivem na mesma casa que a notoriedade.”28

 

--Nossa! -- Priscila exclamou. Estava na casa dos pais -- Nem parece Sabrina. Que será que ela bebeu antes de ir pra essa entrevista?

 

--E então aconteceu uma tragédia na minha vida que acabou por alavancar minha carreira.

 

--Você se refere ao assassinato de sua companheira Patrícia Feitosa... -- Marcília afirmou com delicadeza

 

--Essa é outra questão. -- abaixou a cabeça e depois olhou para as câmeras -- Patrícia Feitosa não era minha companheira, ao contrário do que deixei transparecer na entrevista com Lô Tavares. -- pausou -- Eu me aproveitei que ficou essa impressão mas, infelizmente, ela nunca foi minha companheira.

 

--Gente! -- Tatiana exclamou de queixo caído -- Tá ouvindo isso, fi? -- perguntou para Renan

 

--Mas... -- Marcília tinha um ponto de interrogação na cabeça -- Não havia nada entre vocês?

 

--Nós saíamos juntas e tínhamos intimidade mas... nenhum compromisso. -- suspirou -- Ela queria tentar um relacionamento bacana comigo, mas eu era muito rude e dura no que dizia respeito ao amor. Eu... eu me deixei transformar em uma egoísta máquina de prazer e não soube dar valor, no momento certo, à pessoa maravilhosa que cruzou meu caminho. -- pausou -- E aí aconteceu aquela fatalidade e eu me senti em dívida com ela... por isso fui reconhecer o corpo. O caso ganhou repercussão no país, porque uma grande amiga dela, Tatiana Queiroz, lutou bravamente pra que aquele assassinato não passasse impune, e com isso eu acabei aparecendo e... mesmo sem provocar isso, me favoreci. No segundo momento me aproveitei do fato.

 

--Aí, Tati, ela falou teu nome! -- Renan deu um beijo nela

 

--Num dou conta disso não... -- Tatiana estava abobalhada

 

--Nossa, eu... -- Marcília não esperava por aquela revelação -- E por que você diz que era tão dura e rude em relação ao amor?

 

Sabrina olhou para as próprias mãos e cruzou as pernas. Respirou fundo e olhou para as câmeras. -- Aos treze anos eu era completamente apaixonada por uma prima bem mais velha do que eu. O pai dela, meu tio... -- emocionou-se -- ele me estuprou em uma das festas da nossa família e eu fiquei arrasada. A única pessoa pra quem tive coragem de tocar no assunto foi essa prima e ela disse que a culpa era minha, porque minhas roupas eram sempre muito escandalosas. -- passou a mão nos olhos -- Aquilo pra mim foi uma dor tão grande quanto o próprio estupro que sofri e depois que isso aconteceu eu me fechei totalmente pro amor.

 

--Ai, meu Deus! -- Tatiana deu um pulo no sofá

 

--Sabrina... pôxa e eu te julgava tão mal... -- Priscila solidarizou-se ao sofrimento da escaladora

 

--Pôxa... -- Camille afirmou penalizada -- Coitada dessa mina...

 

--Camille, alguém de nossa família fez isso com você? -- agarrou a filha pelos braços -- Fale agora! -- olhou para ela desesperada

 

--Cruzes, mãe, que é isso? -- a jovem se desvencilhou dela -- Ninguém nunca fez uma desgraça dessas comigo, não, ô louco!

 

--Ah, porque tem que saber. -- Mariângela ajeitou-se no sofá -- Tem que saber!

 

--Meu Deus, Sabrina... -- Marcília lamentou -- Eu considero que o estupro é a pior violência que se pode cometer contra uma mulher, e dentre todos os atos condenáveis, é o único para o qual eu não encontro justificativas. -- olhou para as câmeras -- É incrível como essa mentalidade pequena e machista que permeia todos os níveis da sociedade faz com que até mesmo as mulheres condenem outras mulheres, que de vítimas passam a ser vistas como culpadas pela agressão sofrida! -- olhou para Sabrina -- E sua família soube do que aconteceu?

 

--Eu nunca toquei neste assunto com outra pessoa além de minha prima em todos esses anos... -- pausou -- Mas eu queria dizer também que, depois que Patrícia morreu, eu fui conhecendo aos poucos a pessoa que ela era e, -- riu -- veja que loucura: me apaixonei. -- pausou -- Quando sofri como uma desgraçada pra conquistar o cume do Shishapangma, eu repensei um monte de coisas da minha vida, sabe? E vou te dizer outra: eu ia receber o patrocínio de uma ONG norte americana pra concretizar este último projeto e as dirigentes da organização marcaram uma reunião comigo no dia 11 de setembro de 2001 no World Trade Center. Tive problemas ao sair do hotel, peguei um trânsito péssimo, discuti com um taxista, resumindo, deu tudo errado! Mas, veja só, foi porque deu tudo ‘errado’ -- fez aspas com os dedos -- que eu estou aqui.

 

--Sabrina do céu, você não cansa de me surpreender! Eu nem imaginava! -- olhou para as câmeras -- Gente, por favor, vamos reconhecer: -- apontou para a escaladora -- é uma mulher especial!

 

--Naquele dia eu senti que Deus tinha olhado pra mim, de um modo como até então nunca havia sentido. Eu fiquei pasma no momento em que vi as torres caindo como se fossem nada.

 

--Mas, gente, eu tô passada! -- Priscila começava a se emocionar -- Sabrina...

 

--Meu, essa mina aí nasceu com o rabo virado pra lua! Por isso que não ligou pros dedinhos que perdeu!

 

--Camille, isso são modos de falar da moça? -- Mariângela ralhou

 

“Humpf! Já vi que mamãe virou fã dessa maluca!” -- a jovem pensou

 

--E por fim, Marcília, depois de todo o sofrimento que passei nesta última excursão, eu questionei mais ainda o propósito que me movia para os cumes, o propósito que move minha vida. Eu estava lá, lutando arduamente pra estender todos os meus limites, eu queria ser bem sucedida... “contudo, em certas horas eu me perguntava se não teria vindo assim tão longe só para descobrir que aquilo que estava de fato procurando era algo que eu havia deixado para trás.”29 E era, era sim... ao longo da vida eu deixei pra trás Deus, amor, família, tudo, por uma revolta contra uma violência sofrida, por uma perseguição inveterada pela fama, só que eu não quero mais isso... Eu enterrei aquela triste Sabrina sob as neves do Broad Peak, a bela e magistral montanha sino-paquistanesa na qual nasci de novo, e agora tudo mudou pra mim. Eu... -- olhou para as câmeras -- eu quero pedir perdão a meus pais por todas as vezes em que os tratei mal, e quero dizer que eles não têm culpa do que meu tio fez. Ele já até morreu, morreu miseravelmente mal, e eu... -- emocionou-se -- eu o perdôo pelo mal que me fez. E perdôo minha prima também. Não quero mais saber de lixo no meu coração.

 

--Sabrina... -- Marcília estava emocionada -- eu nem sei o que dizer...

 

--E finalmente respondendo a sua pergunta, o que me motiva a continuar o projeto não é mais a vaidade mas uma necessidade. Necessidade de me encontrar, de me conhecer melhor, de me adornar com os encantos da natureza. Pode parecer piegas, é piegas, mas é isso. E em cada cume que eu conquistar sempre dedicarei essa vitória a Patrícia Feitosa por ter sido a pessoa a finalmente me despertar. -- secou as lágrimas que lhe escorriam

 

--Sabrina, eu tenho que te dizer... Não imaginava que essa entrevista fosse ser assim... Eu trabalho entrevistando pessoas há anos e já perdi as contas de com quantos tive ótimas conversas, mas eu te juro que nunca uma entrevista mexeu tanto comigo quanto essa! Enquanto você falava eu mesma fiquei reconsiderando um monte de coisas e percebi que posso e devo ser uma pessoa melhor... Qual o nosso objetivo senão ser feliz, não é?

 

--Com toda certeza... Nós perdemos tempo demais com bobagens.

 

--Ai, garota, deixa eu te abraçar porque virei sua fã! -- ela se levantou e a escaladora também. Deram-se as mãos -- Não importa quantos cumes você conquiste! Você já escalou montanhas com muito mais de oito mil metros! Aquelas montanhas que a gente carrega dentro da alma... Sou sua fã!

 

--E eu sua! -- abraçaram-se ao som dos aplausos da platéia

 

--Ai, Camille, eu tô emocionada... -- Mariângela falou com os olhos marejados

 

--Você se emociona com cada bobagem! -- a loura enxugava disfarçadamente suas lágrimas

 

Tatiana se levantou e aplaudiu Sabrina. -- Só me arrependo de não ter te convidado pro meu casamento, viu, fi? -- falou como se a escaladora pudesse ouvi-la

 

Priscila também se levantou e aplaudiu. -- Você é muito mulher, Sabrina! Muito mulher... -- balançava a cabeça

 

 

10:20h. 12 de janeiro de 2003, Aeroporto Internacional do Galeão, Rio de Janeiro

Renan e Tatiana estavam carregados de malas no aeroporto. Partiam em definitivo para Goiânia. Camille iria junto por conta da inauguração da oficina marcada para dali a dois dias. Olga, Mariano, Ricardinho, Mariângela, Seyyed, Isabela, Priscila e Lady estavam lá para se despedir. Antunes, acompanhava um pouco de longe.

 

--Meu filho... -- Olga segurava o rosto dele emocionada -- Parece que foi ontem que você entrou na minha vida... -- estava emocionada -- Agora é um homem casado, vai gerenciar o próprio negócio... ah, eu vou morrer de saudade! -- abraçou-o

 

--Eu também, mãe! -- fechou os olhos. Algumas lágrimas rolaram por sua face -- Eu a amo muito, muito, muito! -- olhou para ela e beijou seu rosto -- E lhe serei sempre grato. Prometo que nunca te darei motivo de desgosto!

 

--Eu sei que não... -- respondeu emocionada. Beijou-o no rosto mais de uma vez

 

--Rapaz... -- Mariano se aproximou com Ricardinho no colo -- eu te desejo tudo de bom! Você e Tatiana, -- olhou para ambos -- são um casal abençoado! E sei que você vai prosperar muito com a oficina!

 

--Dá um abraço aqui, cara! -- Renan pediu. Eles se abraçaram com cuidado por causa do bebê -- Façam com esse garotinho o mesmo que foi feito comigo! Façam ele feliz! -- olhou para Olga e depois para Mariano de volta -- E cuida bem da minha mãe! Qualquer deslize eu volto pra te pegar! -- falou com seriedade

 

--Renan, que é isso?! -- Olga perguntou surpresa

 

--Creia que já recebi advertências como essa em outras ocasiões! -- olhou para ela e sorriu

 

--Tá tudo muito bonito, muito emocionante mas eu fico só de olho no que tá acontecendo aqui! -- Seyyed brincava -- Mariano se aposentou, Renan se manda voando pra Goiânia... Vocês estão todos me apunhalando pelas costas, viu? É uma pouca vergonha...

 

--Deixa de ser boba, minha irmã! -- puxou-a para um abraço -- Se eu tô voando pra longe foi você quem me deu as asas! -- segurou o rosto dela e beijou sua testa -- Eu não vou te decepcionar e quando precisar de mim, vou estar do seu lado!

 

--Eu sei, garoto. Vem cá e me abraça de novo! -- abraçaram-se -- Vê se não deixa o poder subir tua cabeça! -- sorriu para ele e beijou seu rosto -- E não desapareça!

 

--Com toda certeza! -- ele sorriu -- Será que vai dar conta da oficina daqui sem mim? -- brincou com ela

 

--Ô, mãe, olha esse moleque! -- fingiu estar ofendida

 

--Ai, amiga... -- Priscila e Tatiana se abraçavam -- Eu vou morrer de saudade de você!!!

 

--Eu também, Pri! -- olhou para a morena -- Sentirei falta do seu estilo Patricinha culta e sem papas na língua! -- sorriu

 

--Quem vai ficar me dizendo: deixa eu te falar, num dou conta, quando é fé, trem, tem base? Vou sentir muita falta da minha amiga custosa, viu, fi? Chega a dói, uai!

 

--Vejo que te ensinei direitinho, viu, fi? -- riu -- Lembra da nossa promessa: pra sempre nós três! -- segurou a mão dela

 

--Vou lembrar... -- sorriu -- Vê lá se não vai ficar besta depois que se tornar uma profissional conhecida na TV Mundo!

 

--E você também, quando for uma dentista renomada que deixa todo mundo de boca aberta! -- sorriu

 

--Hum hum... -- Isa fingiu que pigarreava

 

--Ah, mas é claro que eu vou te abraçar apertado, uai! -- as duas se abraçaram -- Esquece da gente não e leva tua dança pra nós!

 

--Lógico que não vou te esquecer... Vê se vai me ver quando eu dançar em Brasília! -- sorriu -- Quando eu ficar igual a Ana Fluminense você me entrevista no programa de TV que vai apresentar um dia!

 

--Pode deixar. Vou te fazer perguntas das mais indiscretas! -- as duas riram

 

--Ai, amiga, agora sou eu! -- Lady se manifestou -- Eu nunca vou esquecer dos teus conselhos, da tua amizade sincera! -- abraçaram-se -- Já sou outra mulher, sabe? Madura, consciente, totalmente antenada!

 

--Ah, é... -- Priscila riu e piscou para Isa, que riu também -- Só o namorado já fala por si só! -- cochichou

 

--Toma jeito, viu, fi? Não fica dando rata por causa de homem! -- Tatiana olhou para ela sorrindo

 

--Você vem no meu casamento? -- Lady perguntou -- Vai ser uma festa de arromba!

 

--E quando é?? -- perguntou surpresa

 

--Deixa Antunes superar o trauma da separação... -- cochichou para a outra

 

--Lady, você falou que ele é separado há oito anos!! -- afirmou revoltada

 

--Ah, mas o tempo passa diferente pra homem, sabe como é!

 

--Tem base isso? -- Tatiana revirou os olhos

 

--Se cuida, viu, Camille? -- Mariângela segurava o rosto dela -- Come direitinho, não vai dormir tão tarde, cuidado com bandido...

 

--Pode deixar...

 

--E não fica trabalhando feito louca por causa dessa oficina nova! Faz a coisa bem feitinha, mas se cuida! Você é igual a seu pai nessa coisa de trabalhar demais!

 

--Olha quem fala! A vida toda eu te vi debruçada sobre uma máquina de costura... -- abraçou a mãe -- Relaxa que vai dar tudo certo!

 

Após umas últimas despedidas os três entraram no setor de embarque. Olga voltava chorando de braços dados com Seyyed. Mariano vinha um pouco mais atrás com Ricardinho no colo e ao lado de Mariângela.

 

--Calma, dona Olga... -- Ed tentava dissimular sua emoção -- Ele vai pra logo ali!

 

--Os filhos não são nossos, Seyyed, eu sei, mas eu sinto saudades do meu pretinho... -- continuava chorando

 

--Veja pelo lado bom, mãe! Renan parte e Ricardinho chega pra alegrar sua vida. -- beijou a cabeça dela

 

--Mariano, deixa eu segurar ele? -- Mariângela pediu

 

--Vamos lá. -- parou de caminhar e entregou o bebê para ela. Voltaram a andar

 

--Que coisa lindinha!!! -- a costureira brincava com o garoto

 

--Vitória está tão mal, minha irmã... -- falou pensativo -- Ela se internou anteontem e de lá pra cá parece que envelheceu dez anos...

 

--Que doença maldita! -- ela disse -- É por essas e outras que não quero mais saber de homem nem pintado de ouro!

 

Ele riu. -- Eu, hein, Mari? Nem todo homem é safado, não! Veja Renan, Brito, eu, papai...

 

--Meia dúzia em meio a milhões! Não, meu irmão, eu tô fora! Não sou lésbica mas nada de homem na minha vida! Já casei, já tive uma filha, chegou! Ô louco, eu hein?

 

Mariano riu mais uma vez.

 

--Que deu em você pra não estar viajando em pleno mês de janeiro, hein, Pri? -- Isabela perguntou curiosa

 

--Ah, amiga, tô indo pro sétimo período, né? Tenho que passar uma temporada em hospital senão como é que eu vou ser uma dentista rica e poderosa no futuro? Tenho que ter competência...

 

--Temporada em hospital... -- riu -- Não seria um estágio?

 

--Hum! Almoça comigo hoje? -- Priscila propôs

 

--Hoje, eu tô de bobeira até às duas da tarde... dá pra gente almoçar, sim!

 

--Amor, você viu que coisa emocionante essa despedida? Não achou linda? -- Lady vinha de braços dados com o namorado

 

--Humpf! Se eu gostasse de me emocionar ficava parado em porta de igreja ouvindo testemunho! -- reclamou

 

--Ai, mas você é tão frio! -- ralhou com ele -- Ah, olha só, uns colegas da faculdade tão marcando de ir tomar banho em uma cachoeira na Floresta da Tijuca. Vamos também?

 

--Eu, hein, Lady! Se eu gostasse de ver água caindo abria a torneira e ficava espiando. Prefiro tomar banho no meu chuveiro!

***

 

--Ahá! -- Brito gritou enquanto lia o jornal -- Chefe, você está de parabéns! -- olhou para ela -- E eu que pensava que na sua cabeça nada mais se passava além de pegar Lucas Damaso... -- riu -- Você desmascarou essa quadrilha de colarinho branco praticamente sozinha!

 

--Ninguém faz coisa alguma sozinho, Brito. -- levantou-se e pegou o blazer -- Agora tá nas mãos do STJ. -- olhou o relógio -- E nosso expediente termina aqui! -- sorriu

 

--Tá certo! -- fechou o jornal -- Vai pra casa da Ju?

 

--Ju?? -- olhou para ele de cara feia -- Que intimidades são essas com minha mulher, hein, Brito? -- perguntou revoltada

 

--Calma, chefe! -- endireitou a gola da blusa -- Juliana, devo dizer...

 

--É, eu vou pra casa da minha japonesa, sim. -- colocou a mochila nas costas

 

--Até amanhã! -- sorriu

 

--Até! -- saiu da sala

 

Suzana dirigia para a casa de Juliana quando reparou que estava sendo seguida. -- Que negócio é esse? -- desviou bruscamente do caminho causando distúrbio no trânsito

 

A morena corria alucinada costurando seu trajeto na contramão entre vários carros. Seus perseguidores não conseguiram acompanhá-la

 

Pouco mais a frente um carro colide com o dela propositadamente. A delegada perdeu o controle da direção e rodou na pista. Quando seu carro parou, ela pegou o revólver e desceu atirando contra o veículo agressor. Trocava tiros com dois homens.

 

Um outro carro parou e mais dois homens desceram apontando suas armas na direção dela. A delegada não estava pronta para aquilo. Faltava-lhe munição. Suzana sentiu o impacto dos projéteis dilacerantes contra seu corpo e a primeira imagem que lhe veio à mente foi a de Juliana.

 

“Por favor, Senhor, não diga que meu tempo acabou...” -- implorava em pensamento

 

Sentiu que as forças lhe esvaíam e não mais se agüentou de pé. Durante os poucos segundos que antecederam sua queda no chão, um filme rápido de suas memórias passou diante de seus olhos.

 

Viu a floresta, o céu estralado, a tribo, os pais, as cerimônias, viu a escola, a faculdade, sua formatura, seu primeiro dia como delegada, pessoas conhecidas, Juliana e a noite de amor mais bonita de toda sua vida.

 

“Eu te amo, Juliana!” -- pensou com saudades

 

Quando seu rosto tocou o asfalto duro e quente, espalmou as mãos contra o solo. Não aceitava que era sua hora. Podia ouvir o barulho das sirenes de viaturas policiais se aproximando e o ronco de um dos carros arrancando em disparada.  Virou-se de barriga para cima e viu que um dos homens veio até ela. Usava meia fina sobre o rosto para se disfarçar. Apontou o revólver em direção a sua cabeça e engatilhou.

 

“Senhor, eu Lhe imploro, me dê mais uma chance, por favor!” -- suplicou em pensamento -- “Mas se é pra morrer, vou morrer pelo que eu sou!” -- olhava nos olhos do bandido sem demonstrar qualquer temor

 

O homem disparou mas nada aconteceu. Parecia ter ficado sem munição. O som das sirenes parecia mais próximo e ele correu para longe.

 

“Obrigado, meu Deus... obrigado...” -- viu uma luz vinda do céu que se aproximava. Os sentidos faliram devagar e tudo se apagou.

***

 

--Suzana é fogo! -- Juliana reclamava recolocando o telefone no gancho -- Ela não atende o celular de jeito nenhum! -- fez uma cara feia

 

--Deve estar dirigindo! O trânsito nessa cidade é um caos. Talvez esteja presa em um engarrafamento. -- Lourdes opinou

 

--A gente fez nhoque por causa dela e a safada não chega! -- sentou-se de braços cruzados -- E eu aqui doida pra cair de boca nos nhoques... -- a idosa riu

 

De repente o telefone tocou.

 

--Deve ser a Suzaninha!

 

--Vamos ver! -- a japonesa atendeu

 

--Alô, Juliana? -- uma voz de mulher perguntava do outro lado

 

--Sim, quem deseja? -- respondeu desconfiada

 

--É a Carmem, do Silva Avelar... -- seu tom era sóbrio

 

--Oi, Carmem. O que foi? Você nunca me liga... -- sentiu um mau pressentimento

 

--É a Suzana... Ela acabou de dar entrada aqui...

 

--O que??? -- perguntou aflita. Maria de Lourdes ficou sobressaltada -- O que aconteceu com ela?? -- começou a chorar

 

--Foi vítima de alguma emboscada... -- pausou -- Eu não vou mentir, Juliana, ela está muito mal...

 

--Ai, meu Deus... eu tô indo pra aí.

 

--Venha com alguém. Você tá muito nervosa!

 

Juliana não disse mais nada e desligou o telefone apavorada. Não conseguia parar de chorar.

 

--Pelo amor de Deus, Juliana, o que foi? -- a idosa perguntou nervosa

 

--Suzana, dona Lourdes, ela foi internada... -- cobriu os lábios -- Ai, meu Deus, tenho que me arrumar e ir pro hospital. -- falava enquanto chorava -- Vou chamar dona Olga pra ir comigo! -- pegou o telefone de novo

 

Maria de Lourdes sentiu o coração acelerar demais e imaginou que a delegada tivesse sofrido alguma emboscada. Começou a chorar e mentalmente pediu a Deus: “Por favor, meu Pai amado, não deixe Suzaninha morrer assim! Já bastou meu marido, eu Lhe imploro... não quero passar por isso novamente! É muito doloroso... Não deixe que Suzaninha morra desse jeito, por favor!”

***

 

Camille e Tamires passeavam no Araguaia Shopping.

 

--Deixa eu te falar, pra você que veio de São Paulo esse shopping deve ser um trem minúsculo! -- sorriu

 

--Pra mim não é trem, é shopping mesmo. -- brincou com a outra

 

--Engraçadinha... -- avistou um banco vazio -- Vamos sentar ali? -- apontou

 

--Vamos, porque eu tô cansada. -- andaram até o banco e se sentaram -- Ô louco, meu... o dia foi infernal, viu? -- olhou para a outra com cara de cansaço

 

--A oficina tem dado problemas, não é? -- perguntou preocupada

 

--E ela só tem uma semana de funcionamento! Eu já deveria estar de volta em casa... Puta que pariu, esses mecânicos daqui são difíceis de se lidar! -- exclamou revoltada -- E ainda tem a prefeitura pra infernizar com exigências de última hora!

 

--Deixa isso comigo. O que me preocupa mesmo são os mecânicos! Bando de gente custosa!

 

--Custosa? Eu diria tenebrosa! Bem que Ed falou que este sempre foi o maior problema dela: conseguir mão-de-obra qualificada e comprometida! -- balançou a cabeça e passou a mão nos cabelos

 

--Tati me disse que Renan e você têm trabalhado como loucos!

 

--Eu ando muito preocupada... Eles pediram empréstimos, Seyyed também anda toda endividada... Nós vamos passar um bom tempo mal de grana, sabe? O lucro vai ser mínimo e eu tenho medo que... -- calou-se e respirou fundo -- Não, a gente tem que pensar positivo! Nós vamos conseguir resolver tudo e dar conta do recado!

 

Tamires ficou olhando para a loura. -- Devo confessar que me surpreendi muito positivamente com você. Quando Renan me disse que era você quem iria conduzir o projeto da oficina eu fiquei receosa; vejo que fui precipitada em minhas conclusões. Você é ótima! -- sorriu

 

--Nossa... -- sorriu sem graça -- Obrigada, mas eu erro muito, Tamires... Só que acho que o principal é querer acertar e se esforçar pra isso. -- olhou para ela -- Também te acho muito competente e capaz!

 

--Obrigada. -- pausou -- Deixa eu te perguntar, que achou da festa do casamento da minha irmã junto com réveillon aqui na cidade?

 

--Baita festão, meu! Eu fiquei até perdida no meio daquela pá de gente e tanta comida e bebida! -- exclamou

 

--Meus pais e a madrinha da Tati mandaram ver naquela festa... agora é passar fome até o final do ano! -- riu -- O casamento da Tânia vai ser no mesmo estilo, tenho certeza. Ela já está namorando sério e quando é fé... já viu!

 

--E o seu casamento?

 

--Eu não quero casar, Camille. Gosto de namorar, de estar com um boyzinho legal, mas não quero me casar. Gosto da vida de solteira. E eu também não tenho afinidade com esse negócio de ser mãe. Isso não é pra qualquer uma!

 

--Imagino que as pessoas da sua família não gostem muito dessas suas idéias... -- Camille sorriu

 

--Não mesmo! Meus pais reclamam de vez em quando e sempre tem uma tia pra perguntar quando eu caso. Mas não dou conversa e o assunto não dura.

 

--Eu também não quero casar. Mamãe não me cobra isso mas eu sei que ela sonha que eu arrume um bom rapaz, me case e tenha uns bacurizinhos.


--A sociedade exige muito que uma mulher se case, não é? E que seja mãe! É como se você provasse sua competência como mulher apenas se fisgasse um marido e engravidasse. Não entendo porque as pessoas não vêem que casamento e filhos não são escolhas obrigatórias. Pense nessa gente louca que se casa e só sabe trair. Não são pessoas preparadas pra compromisso, nunca deveriam casar! E esses pais que maltratam as crianças? São pessoas que deveriam ter pensado melhor antes de pôr filho no mundo. Mas a sociedade só vem em cima de quem não casa e fica quieto no seu canto vivendo a própria vida. Não sabe o quanto minha mãe tem medo que digam que eu fiquei pra titia. -- revirou os olhos -- Lá no Rio e em São Paulo é assim também?

 

--As pessoas são machistas e casadoiras no mundo inteiro, Tamires. Só muda o idioma ou o sotaque. -- riu

 

--Pois é! A mesma coisa acontece com as lésbicas e os gays. As pessoas se metem com eles! Deixa cada um viver a própria vida, uai! Mania de se meter na vida dos outros!

 

--Você não tem preconceito com lésbicas e gays? -- perguntou curiosa

 

--Eu não! Sabe do que eu não gosto? É de gente mau caráter e salafrária! É disso que num dou conta! -- olhou para Camille -- Vou te contar um segredo. Jura que não conta pra ninguém?

 

--Juro!

 

--Quando Renan veio aqui pela primeira vez, papai o chamou pra conversar e encheu ele de cachaça. Aí ficou sabendo sobre Seyyed. Na hora ele não ligou, mas depois ficou só matutando nisso e depois quase forçou Tatiana a terminar com Renan. Precisou mamãe falar muita coisa! -- pausou -- Ele e eu brigamos muito naquela época por causa disso.

 

--Seus pais não foram no casamento de Seyyed e Isabela por preconceito, não é?

 

--Foi. E nem queriam deixar a gente ir. Depois de muita argumentação é que nós fomos.

 

“É por isso que eu não me assumo! É muito difícil encarar tanta intolerância...” -- Camille pensou

 

--Quando a Tati voltou de férias da faculdade pela primeira vez e mostrou uma foto dela  com as duas colegas de apartamento papai ficou fulo da vida. Ele logo notou que a finada Patrícia era lésbica e morreu de medo que ela agarrasse minha irmã durante a noite. Ele dizia assim: “-- Essa garota vai tarar você, minha filha! Saia desse apartamento, deixe de ser tão custosa!” -- riu -- E no entanto as três sempre se deram tão bem e no maior respeito...

 

--Ô louco, meu! Não é porque uma mina é lésbica que ela é tarada e vai sair por aí pegando as outras a torto e a direito! Eu nunca agarrei ninguém! -- calou-se -- "Camille, sua louca, ouve o que você tá dizendo!!” -- pensou apavorada -- Eu nunca agarrei homem nenhum e sou muito mulher! Por que uma lésbica tem que agarrar alguém? -- tentou disfarçar

 

--Engraçado, fi... -- ajeitou os cabelos -- E eu que sempre achei que você era apaixonada pela Ed!

 

Camille corou e sentiu as bochechas queimarem. “Meu Deus, será assim tão óbvio?” -- pensou em estado de choque

 

--Fique tranqüila, Camille. -- colocou a mão no ombro dela -- Eu nunca comentei isso com ninguém, ninguém mesmo! Confie em mim! -- falou de uma forma que inspirava confiança

 

--Por que pensa assim? -- foi o que teve coragem de perguntar

 

--Pelo jeito como você olha pra ela, como fala com ela... Acho tão nítido... Não sei como Seyyed não percebe!

 

“Porque ela é uma idiota, só por isso!” -- Camille pensou com raiva -- "Ou eu é quem sou, sei lá!”

 

--Ed e Isa não ficarão juntas por muito tempo, Camille.

 

--Por que diz isso? -- perguntou cheia de esperanças

 

--Porque Ed é uma árvore. Ela tem raízes, ela dá frutos, ela abriga os outros em seus galhos ou sob sua sombra. Isa é um pássaro. Ela quer voar para cada vez mais alto. Não importa se fará esse vôo sozinha. -- pausou -- Elas não combinam, elas são apenas deslumbradas uma com a outra... é só uma questão de tempo pra cada uma seguir seu rumo.

 

--Como pode dizer isso se nem convive com elas? Eu as vejo sempre se olhando apaixonadas ou se agarrando com duas doninhas no cio! -- lembrou-se do dia em que viu as duas namorando no sofá

 

--Eu sou extremamente observadora. Posso me enganar às vezes, como aconteceu no julgamento que fiz de você, mas costumo a acertar na maior parte do tempo. -- piscou para ela -- Vocês duas têm tudo a ver! Aguarde e verá! -- sorriu

 

“Será?” -- pensou esperançosa

***

 

Isabela chegava na casa da mãe. Estava com o semblante abatido.

 

--O que foi, meu bebê? -- Ana olhou para ela fazendo beicinho

 

--Ai, mãe, eu preciso de um colo! -- respondeu como se fosse uma criancinha

 

--Vem, mamãe, vem, meu amor! -- abraçou-a e foram andando até o sofá. Isa deitou no colo da mãe

 

--O mundo tá desabando sobre as nossas cabeças, mãe!

 

--Conta pra mim, o que foi? -- acariciava a cabeça da ruiva

 

--Eu discuti com Neyan e acho que ele vai me cortar do espetáculo que vai estrear em março...

 

--Mas, meu Deus! -- arregalou os olhos -- Mas por que? Por que discutiram?

 

--Porque ele deu a personagem que eu queria pra uma bailarina chata, metida e sem graça chamada Marta Défaux. Aí eu reclamei e foi por isso que a discussão começou!

 

--Ah, você fez muito bem em ter reclamado! -- respondeu com firmeza -- E o que aquela bicha esquelética e horrorosa alegou pra não ter lhe dado o papel?

 

--Ele disse que a Marta é mais experiente e mais madura do que eu...

 

--Pois sim! -- respondeu com despeito -- Eu aposto que ele só fez isso porque essa tal de Marta tem sobrenome francês! Esse povo é assim, minha filha, basta aparecer alguém com nome estrangeiro que eles montam um pedestal e louvam!

 

--Agora eu acho que serei cortada do espetáculo. -- começou a chorar

 

--Não vai, não, meu bebê! Ah, mas não vai mesmo!

 

--Outra coisa é que a oficina de Goiânia só tem dado problemas e Camille até hoje nem pôde voltar pra casa. Seyyed anda uma pilha!

 

--Que tipo de problemas? -- Ana perguntou preocupada

 

--Problemas com os mecânicos, exigências da prefeitura e umas taxas, contas e outros imprevistos!

 

--Ah, mas isso vai melhorar, com certeza vai! -- afirmou enfática -- “Tenho que procurar minha nova mãe de santo o mais rápido possível...” -- pensou resoluta

 

--Pra completar a maré de azar, você sabe que Suzana foi baleada e está entre a vida e a morte...

 

--É, e eu tive pena! Só tem gente safada por aí e justo uma delegada honesta sofre uma desgraça dessas...

 

--Dona Lourdes estava na casa de dona Olga desde que isso aconteceu, mas ela passou mal do coração ontem à noite e teve de ser internada às pressas. Mariano a levou pra clínica e dona Olga ligou pra nós muito assustada. Ela estava em casa com Ricardinho, mas não deu muito o menino passou mal com diarréia e teve de ser internado também. Ed passou a noite com eles na clínica e nem abriu a oficina hoje!

 

--Gente!!

 

--E pra fechar com chave de ouro, dona Mari levou um tombo dentro de casa hoje de manhã e me ligou desesperada. Ela não conseguia falar com o irmão e estava muito assustada. Eu a levei pro Morgado Filho e voltamos de lá agora há pouco. Graças a Deus não foi nada grave, mas ela enfaixou o braço e está cheia de hematomas! Comprei comida pra nós na padaria e só fui embora depois que comemos. Deu pena deixá-la sozinha em casa, mas eu ainda tinha que passar na escola de dança.

 

--A bruxa tá solta! Isso é muito olho gordo, muita inveja que esse povo tem do sucesso de vocês! -- ficou preocupada -- E sabia que depois que seu pai foi trabalhar naquela agência de Caxias ele tá ganhando menos? Mais essa...

 

--Eu tô um caco, mãe!

 

--Ah, não, vem cá! -- fez com que se sentasse -- Olha pra mamãe! -- ela olhou. Ana secou as lágrimas dela com os dedos -- Nós vamos tirar toda essa pururuca de cima de vocês!

 

--Pururuca?? -- perguntou espantada -- Que é isso??

 

--Ah, é essa nuvem de coisa pesada e de inveja que nos cerca. Mas tenha fé! Eu vou fazer uma coisa que vai afastar todo esse mal!

 

--O que?? -- perguntou curiosa

 

--Eu vou, eu vou... -- pensou -- Vou rezar e fazer promessa pra santa! -- mentiu

 

--Promessa e reza?? Mãe, eu não sabia que você ia ficar tão católica com o tempo...

 

--Ah, mas eu fiquei e das mais fervorosas! Você vai ver! Você vai ganhar o papel que quer e as oficinas de Seyyed vão dar muito dinheiro! Ah, se vão! -- afirmou decidida -- “Nem que eu tenha que macumbar noite e dia, dia e noite essa menina pega o papel que ela quer! E as oficinas vão transbordar de dinheiro! Nem que eu tenha que fumar uma caixa de charuto!” -- pensou

 

***

 

Lady e Antunes se agarravam dentro do táxi que estava estacionado em uma rua estreita de Braz de Pina.

 

--Antunes, vamos parando com isso! -- ela interrompeu -- É muito mixuruca essa coisa de ficar assim nesse amasso dentro de carro!

 

--Ah, Lady, pára de fazer doce, vai? Você não é mais virgem e nem eu sou moleque pra namorar só na base de beijinho e abraço! -- insistia

 

--Chega, Antunes, eu falo sério! -- ajeitou-se no banco do carona -- A gente nem marcou data de casamento e nem nada!

 

--Casamento não é assim, não, menina! E eu ainda não superei o trauma da separação!

 

--E vai superar quando, hein? -- cruzou os braços e perguntou chateada

 

--Pra que essa pressa? -- fez cara feia -- E além do mais não me agrada esse namorinho de adolescente!

 

--Você nunca se agrada de nada! Está sempre reclamando...

 

Antunes ficou olhando para Lady e falou com agressividade: -- Quer saber, garota? Você é ridícula!

 

--O que?? -- olhou para ele ofendida

 

--É isso mesmo que você ouviu! Você é ridícula e serve de chacota pros seus colegas!

 

--O que está dizendo??

 

--Eu fico ali no meu ponto de táxi e várias vezes já ouvi os rapazes e as outras moças zombando de você! Duvido que exista outra Lady Dy naquela faculdade! Eles ficam no ponto esperando o ônibus e metendo o malho em você. E todos eles têm razão: você é ridícula! -- abriu a porta do carro -- Desce do meu táxi e vai embora!

 

Lady estava com os olhos marejados. -- Eu não acredito no que está me dizendo! Não acredito no que está fazendo!!

 

--Eu não quero casar com você! Nunca quis! Eu só queria uma xotinha nova pra comer, e já que não me dá nem isso some da minha vida!

 

Lady olhou para ele enfurecida e, sem que o homem esperasse, deu-lhe um tremendo tapa no rosto. -- Velho ridículo! Tomara que fique broxa! -- desceu do carro apressada

 

Antunes xingou um monte de palavrões e partiu com o carro enfurecido. Lady andava pela rua chorando. Sentia-se sem chão. Pegou o celular e ligou para Priscila aos prantos. -- Ai, amiga, vem me buscar, vem aqui por favor... -- chorava -- A dor é tamanha e abunda n’alma...

 

--Que conversa é essa, Lady?? -- perguntava do outro lado -- Onde você tá, sua louca?

 

--Em uma rua triste, onde tudo é tão cinza, tão sem cor...

 

--E onde é essa rua??

 

--Eu não sei... É tudo tão diferente... Ai, meu Pai, where am I, where am I? -- chorava

 

--Seja mais específica, pode ser? -- estava perdendo a paciência

 

--Vem me ajudar, amiga... -- chorava -- Eu tô a ponto de morrer por amor... -- pôs a mão sobre o peito -- Ai, meu Pai, -- caiu de joelhos no chão -- como sofre esse coração de mulher!! Ai, ai, ai, ai, ai!!! -- berrou

 

--Trata de ler o nome da rua e pergunta pra alguém qual é esse bairro aí!

 

--Ai, amiga... eu sofro demais... Ô meu Pai, where am I, where am I??

 

--Eu joguei cocô na cruz, será possível!!! -- Priscila reclamava furiosa

 

***

 

Juliana olhava para a delegada deitada no leito e sendo mantida por um monte de aparelhos. Pensava em como a vida era cíclica. Há um tempo atrás era ela quem estava naquela posição, agora era a vez de seu grande amor.

 

Saiu da CTI e ficou caminhando pelos corredores de cabeça baixa. Lembrava-se da visão que teve. Hoje Camille andava, trabalhava com Ed e havia se tornado uma pessoa legal, Vitória havia morrido e Olga e Mariano criavam um menino... Tudo estava se concretizando.

 

--Juliana? -- a japonesa ouviu uma voz conhecida. Era Seyyed -- Que carinha é essa? Força, mulher! -- abriu os braços -- Vem cá! -- abraçaram-se

 

--Ela está morrendo, Ed... -- Juliana fechou os olhos

 

--Mas está viva! Cadê sua fé, criatura? Enquanto a delegada estiver viva devemos ter esperanças!

 

A japonesa olhou para a outra. -- Eu não sei se ela vai resistir...

 

--Também diziam o mesmo quando você estava de coma e olha no que deu? -- sorriu -- Além do mais Suzana é durona! Tudo que é policial que cai em emboscada morre, mas olha o caso dela! A danada teve tino pra escapar da armadilha e lutou bravamente até o fim! Ela é guerreira, Ju, índia guerreira da melhor qualidade! Suzana não vai me fazer uma vergonha dessas de nadar, nadar e morrer na praia! -- sorriu

 

--Não leva na brincadeira, sua boba! -- deu um sorriso desanimado -- Eu sei que ela é o máximo mas...

 

--Que ‘mas’ o que? Eu nunca soube de você se pegar com mulher fraca! -- sorriu --Suzana vai melhorar e ainda vai me meter o cacete quando souber que estive abraçada contigo pelos corredores do hospital!

 

--Só você pra me fazer rir numa hora como essa... -- riu balançando a cabeça -- E dona Lourdes? E Ricardinho? Como vão todos? Soube que até Mariângela se machucou...

 

--Dona Lourdes e Ricardinho já estão em casa e passam bem, graças a Deus. Mariano levou o menino praquele hospital onde ele se trata e a médica passou um remédio novo. Mariângela está bem também; só não vai poder costurar por um tempinho.

 

--E as coisas em Goiás?

 

--Camille ainda está lá, mas já resolveu muita coisa. -- segurou o rosto dela -- Mamãe está fazendo o mesmo que fez quando você estava aqui. Há muita gente orando por Suzana e ela vai ficar bem! Acredite!

 

--Seyyed, há uma coisa que você não sabe... eu mesma só fiquei sabendo hoje!

 

--O que é? -- perguntou surpresa

 

--Suzana só tinha um rim. -- colocou as mãos na cintura -- Acredita que ela nunca me disse isso?? -- perguntou revoltada

 

--Ninguém sai por aí enumerando quantos órgãos tem, Juliana!

 

--Seja como for... -- passou a mão no cabelo -- Ela vai precisar de um transplante...

 

--Como é???

 

--Agora você entende o meu desânimo? -- passou as mãos no rosto e deu uma pequena caminhada em círculo -- Isso é um inferno! Temos que encontrar um doador compatível e isso demora demais! -- suspirou e olhou para Ed -- Temo que ela não consiga resistir por tanto tempo...

 

--Mas por que demora tanto?

 

--Porque faltam doadores!! Hoje, no Brasil, aproximadamente 35000 pacientes necessitam de um transplante de rim e somente 10% deles consegue.

 

Seyyed não sabia o que dizer. Ficou calada e pensando em mil coisas.

***

 

Flávia seguia Brito pela casa desesperada. -- Homem, pelo amor de Deus, não se resolve nada assim de cabeça quente!

 

--Não estou fazendo nada de olhos fechados, Flávia! -- ele vestia o colete à prova de balas -- Desde que pegaram minha chefe eu tenho investigado! Sei quem fez aquilo e eu não vou descansar enquanto não pegar um por um!

 

--Eu sei que é isso que tem que ser feito, mas você está sendo passional! -- parou diante dele -- Vocês levam desvantagem em relação a esses malditos! Falta tudo pra vocês, até munição!

 

--Flávia, meu amor, -- colocou o revólver junto ao corpo -- Macumba, Lemos, Rodolfo, Jailson, Coimbra e eu estamos juntos nessa! -- olhou para ela com intensidade -- Nós somos fiéis a nossa delegada! Todos devemos muito a ela e vamos pegar os malditos que fizeram aquilo!

 

--Não se transforme em um assassino! -- segurou-o pelos braços -- Suzana jamais iria querer isso de você ou de qualquer um dos homens dela!

 

--Isso é uma guerra, meu amor! E uma guerra é uma guerra! -- beijou-a -- Reze por nós! -- Brito foi embora deixando a fisioterapeuta agoniada

***

 

Aline visitava Mariângela em sua casa.

 

--Foi muita gentileza sua ter vindo me visitar. -- a costureira sorriu -- E gostei muito das flores que me trouxe.

 

--Quando recebi aquele e-mail de sua filha dizendo que a senhora se machucou eu fiquei preocupada. Ficar aqui, sozinha, nessa casa grande... Achei que deveria vir vê-la.

 

--Mas já estou bem melhor. Tanto é que voltei a fazer meu balé. -- pausou -- Só o braço é que anda meio dolorido mas vai passar, se Deus quiser.

 

--Camille ficou possessa porque ninguém contou a ela do que estava acontecendo aqui no Rio... -- a garota riu

 

--Pra que? Ela voltaria correndo e não poderia resolver nada. -- pausou -- Ela reclamou comigo sobre isso mas eu não dei atenção. Se tem que fazer um trabalho em outra cidade, que faça o trabalho. De mais a mais ela volta na semana que vem! E graças a Deus porque eu já morria de saudades!

 

--É, eu imagino que sim...

 

--E você? O que anda fazendo agora que se formou?

 

--Eu estou trabalhando em um banco lá em Duque de Caxias. É tão longe da minha casa... E o gerente é um sujeito esquisito, desanimado... Ando louca pra sair de lá porque não queria trabalhar em banco! Ainda mais com aquele gerente sem sal!

 

--Por que tantos engenheiros trabalham em bancos, hein? Camille me dizia que morria de medo que isso acontecesse com ela.

 

--É por causa da crise, dona Mari. Nossos últimos presidentes só fizeram privatizar e arrochar as contas e o social por causa dessa maldita moeda! Muitas empresas fecharam as portas e a indústria de base foi definhando ano após ano. Sabia que o Brasil tinha uma navegação de cabotagem de respeito e hoje em dia quase tudo virou sucata? Sobram poucas oportunidades pra um engenheiro trabalhar. Vamos ver se com esse novo governo a coisa muda!

 

--Tomara! Eu torço muito pra ver esse país crescer e ser respeitado aí fora!

 

--Eu sonho com o dia em que o Brasil vai ser a bola da vez! -- pausou -- Seja como for, vai abrir um processo seletivo pra Snell, aquela empresa de petróleo, e eu vou tentar.

 

--É isso mesmo, minha filha! Tenta que você consegue. Depois me dá seu nome completo que eu vou fazer uma promessa pra Virgem pra você passar nesse emprego.

 

--Faria isso? -- sorriu animada -- A senhora é um amor... -- calou-se e pensou antes de falar novamente -- Sabe, dona Mari... eu estava mostrando as fotos daquela festinha que fizemos pra Camille depois que ela se formou... Meu tio Lúcio viu a senhora e a achou encantadora!

 

--Sei...  -- fez um bico -- “Eu sabia que a visita dessa menina tinha um propósito escuso...” -- pensou chateada

 

--Ele tem mais ou menos a sua idade, é da sua altura, meio gordinho, calvo... quer dizer, ele é bem gordo, mas o coração acompanha as dimensões do corpo!

 

--Sei... -- continuava fazendo um bico

 

--Ele é divorciado e tem dois filhos. Um casal, sabe? Um tem vinte anos e a minha prima tem vinte e seis. Ambos se dão super bem com o pai e dão força pra ele casar de novo!

 

--Sei...

 

--Ele se separou por causa da mulher! Ela era má pra ele! Não cuidava direito da casa, deixava o coitado ir trabalhar com a roupa amarrotada... Foi tudo culpa dela!

 

--Sei... -- continuava mau humorada -- "Já vi que é daquele tipo que fica sentado no sofá todo escanchelado e só pedindo coisa!”

 

--Ele está louco para conhecer a senhora! Só não veio visitá-la comigo porque achei que seria uma abordagem muito brusca. Por isso me propus a vir primeiro e conversar com a senhora. -- abriu a bolsa -- Olha como ele é! -- mostrou um retrato do homem

 

--Olha só, minha filha, -- Mariângela nem olhou para a foto e se levantou -- eu sou viúva há três anos e não quero mais saber de homem nenhum na minha vida! Agradece a seu tio pela preferência, mas eu não quero saber de ninguém!

 

--Mas, dona Mari... -- ficou desanimada e se levantou também -- Vocês fazem um casal tão bonito! Eu faço tanto gosto nessa união...

 

--Ah, minha filha, esqueça, porque a única pessoa com quem vou me casar é com aquela criatura do vestido preto, cara de caveira e foice nas costas, ou seja, a morte! E isso mais tarde, porque ainda quero fazer muita coisa nessa vida! -- foi andando para a porta

 

--Pense melhor, dona Mari! -- Aline seguia seus passos -- Foi ele quem lhe mandou as flores e a senhora gostou! Veja como rolou uma compatibilidade!

 

--Que nada, menina! -- abriu a porta -- Eu agradeço tamanha atenção mas tenho um monte de coisas pra fazer ainda hoje e você também deve ter, não é mesmo? -- olhou para ela -- Seu tio pode ser um espetáculo mas eu não estou interessada!

 

--Que pena! -- suspirou desanimada -- Adoraria ser prima da Camille... -- deu beijos de comadre na outra -- Mas eu vou deixar o retratinho dele aqui com a senhora. -- colocou a foto na mão da costureira -- Vai que muda de idéia? -- sorriu desanimada -- Tchau!

 

--Tchau! -- Mariângela fechou a porta e olhou para a fotografia -- Eu, hein? Não sei o que há hoje em dia que vira e mexe aparece uma praga dessa pra infernizar meu juízo! -- jogou a foto no lixo -- Deus me livre! Quero lá saber de homem? -- resmungou

***

 

Seyyed vinha dirigindo sua moto rumo ao hospital Silva Avelar. Nos pensamentos, assolavam-se dúvidas e temores quanto ao que estava prestes a se propor a fazer, porém, mantinha-se firme em sua decisão. Sabia que momentos drásticos exigem medidas drásticas e que muitas vezes precisamos nos sacrificar por um bem maior.

 

Estacionou a moto e seguia pelos corredores do hospital de cabeça erguida, o capacete em uma das mãos, os óculos na cabeça e o coração explodindo em sentimentos conflituosos. Avistou Juliana e seguiu em direção a ela.

 

--Ed! -- ela sorriu -- Boa noite! Como conseguiu entrar aqui?

 

--Boa noite! -- sorriu e deu beijos de comadre -- Foi a Débora que me abriu as portas! Novidades?

 

--Tudo na mesma. E você?

 

--As coisas estão se estabilizando.

 

--Sua mãe esteve aqui. Ela me trouxe lanche e muda de roupa.

 

--Eu sei... -- respirou fundo -- Juliana, eu vim direto da oficina... Vim aqui porque precisava te falar quanto ao que acabei de decidir! Eu tenho pensando nisso noite e dia e estou muito certa do que vou te dizer! -- olhou bem para ela -- Eu sou saudável, tenho mesmo tipo sanguíneo de Suzana e dois rins que são um espetáculo! Vou doar um a ela! -- disse com muita convicção

 

--Ed, meu Deus! -- a japonesa levou a mão aos lábios totalmente surpresa e emocionada -- Você... Você tem noção do que está me dizendo? Ed... -- balançou a cabeça com os olhos marejados -- Eu acho o máximo que esteja me dizendo isso, meu coração disparou de felicidade nesse momento, mas eu não quero que nenhum mal te aconteça e nem quero que você pense que a coisa é fácil... Vai ter que viver com um rim a menos pelo resto da vida e depois de uma cirurgia o corpo da gente muda, fica mais sensível...

 

--Eu mantenho minha decisão!

 

--Vai ter que fazer etapas em grande série de exames pra constatar a compatibilidade com ela e, se os resultados forem positivos, um tratamento pré cirúrgico com imunossupressores.

 

--Moleza pra nós! -- sorriu

 

--Não brinca, sua doida! -- sorriu chorando -- Isso é coisa séria! -- estava cheia de esperanças

 

--E eu lá sou mulher de brincadeira? -- sorriu -- Você a ama, não é? -- uma lágrima rolou pelo seu rosto -- No que depender de mim, você a terá! Esse será o meu presente pelos anos maravilhosos em que estive do seu lado. Eu te fiz sofrer muito, agora quero te dar uma alegria verdadeira!

 

--Ah, meu amor, você não me deve nada, por favor! -- chorava

 

--E Suzana merece! Ela é muito mulher, e alguém assim vale qualquer sacrifício! Eu não vou voltar atrás! Seyyed Khazni jamais volta atrás na palavra dada!

 

Juliana lançou-se nos braços de Ed e abraçou-a tão emocionada como não imaginava que pudesse se sentir um dia. Um lampejo de esperança iluminava seu coração e ela, mais que nunca, amava a mecânica. Não o amor sensual que um dia devotou a ela, mas aquele amor puro, verdadeiro e que une as almas em laços indestrutíveis que se estendem por toda a eternidade.

 

 

FIM DA TERCEIRA TEMPORADA – pensou que acabou tudo? Que nada! Ainda tem é proseado de caipira disponível para a leitura por parte das sobreviventes que resistiram firmes e fortes até aqui. Interessada na quarta temporada?  Tem fé na caipira que a bichinha “rodopeia mais num freia”.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Citações

Abertura: Parágrafo baseado na obra de Joanna de Angelis.

1- Sófocles

2 – Emmanuel

3- Goethe

4- Mateus, 7:6

5- Anton Pavlovitch Tchekhov

6- Lucas, 12:34

7- Luis Fernando Veríssimo

8- Goethe

9- Daudet

10- Emmanuel

11e 12 - Baseado na obra de Américo Domingos Nunes Filho: Sexualidade à Luz da Doutrina Espírita. Ed CELD, 2004

13- Manzoni

14- Rute, 1:16-17

15- Henry Ford

16- Hanna K

17- Levítico 20;13

18- Cecília Meireles

19- Gandhi

20- Mateus, 7:3-5

21- Will Durant

22- Hanna K

23 – Cesare Pavese

24 – Raydon Donovan

25 – Inspirado na obra de Marx Golgher

26 – Inspirado na obra de Lorenna Rodrigues

27 - Raydon Donovan

28 - Marko Prezelj

29 – Thomas F Hornbein

 

Música do Capítulo:

 

[a] Pra Você. Intérprete: Paula Fernandes. Compositores: Paula Fernandes / Zezé di Camargo. In: Paula Fernandes Ao Vivo. Intérprete: Paula Fernandes. Universal Music Brasil, 2010. 1 CD, faixa 3 (3min35)

 


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Comentários para 14 - Terceira Temporada - BUSCAS V:
NovaAqui
NovaAqui

Em: 15/06/2024

Capítulo primoroso 

Quase impossível acompanhar sem se emocionar 

 


Solitudine

Solitudine Em: 15/06/2024 Autora da história
Olá querida!

Você terminou agora a terceira temporada. Estas três primeiras tiveram por objetivo mostrar como uma série de mudanças na vida de várias pessoas, foram capazes de entrelaçá-las, mesmo que muitas dessas mudanças não tenham sido bem vindas. E todas elas continuaram vivendo e tentando superar, mas ainda assim em vários momentos buscando por coisas que deveriam ter sido deixadas para trás.

A partir da quarta temporada que você vai iniciar, cada personagem a seu ritmo, começa a se transformar. E nesse longo caminho vão descobrir que a felicidade não está no "final" da trajetória mas na própria construção dessa trajetória.

Espero que continue acompanhando e se envolvendo. As emoções seguirão num crescente mas tem muito bobeirol também! kkkk

Obrigada por tudo!

Beijos,
Sol


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jake
jake

Em: 19/03/2024

Oie querida autora, oque dizer em palavras oque acabei de sentir ao ler São muitas emoções lições e aprendizado,sem palavras. Parabéns vc é SIMPLESMENTE DEMAIS.!!!!

Parabéns e Gratidão. 


Solitudine

Solitudine Em: 22/03/2024 Autora da história
Fico feliz em saber que gostou de mais essa temporada. Força e coragem pois ainda faltam outras! rs

Beijos,
Sol


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Hana Stewart
Hana Stewart

Em: 31/03/2023

Essa temporada lindíssima fecha ciclos importantes e ata alguns laços indissoluveis. E daqui pra frente o que já era lindo fica perfeito!


Solitudine

Solitudine Em: 31/03/2023 Autora da história
Olá querida,
É verdade! A Terceira Temporada faz exatamente isso. E a Quarta abre as portas para o desfecho que gradualmente se constrói na última.
Beijos,
Sol


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Femines666
Femines666

Em: 10/03/2023

Essa série é incrível!!! Terminei a terceira temporada agora e sigo pra próxima!


Resposta do autor:

Olá querida!

Continue lendo e me dizendo o que achou! rs

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 12/09/2022

Essa temporada foi maravilhosa!! É o bixo!! Amei tudo e gargalhei com a sapatão inoperante! Hehehe vou ter que trabalhar depois tem mais. Vê se me responde!!


Resposta do autor:

Que bom que você chegou até aqui e na mesma empolgação do começo!

Beijos,

Sol

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 19/04/2020

O site fez sanagem comigo . É sério a história sumiu mesmo, quando eu pesquisava só aparecia suas histórias a última e Tao. Cheguei a pensar que você tinha tirado a história sei lá...

Beijos


Resposta do autor:

Tirei não, uai! Estou revisando mas não tiro.

Beijos, Sol

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 19/04/2020

Olá Solzinha!! Tudo bem aí?

Ontem eu escrevi um comentário e quando envie, deu que eu não estava logada. Loguei de novo e quando fui ver a história tinha sumido, que doideira!!

 

Beijos

 

Ps. Capítulo belíssimo!!

Ps2. Abandono não, ô loco meu!

 

Beijos


Resposta do autor:

Amiguinha!!!!

Ih, mas o site não pode comer meus comentários! Qualquer coisa, repete! rs

Estou revisando. Vou para Felicidade VIII.

Beijos,

Sol

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 19/04/2020

Solzinha!!

 

Cade meu comentário? Postei ontem e não tá aqui... Oxi!


Resposta do autor:

Uai? Eu respondi seus comentários e os vejo aqui. A não ser que sejam outros.

Some não!

Beijos,

Sol

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Gagia
Gagia

Em: 05/02/2018

Oh, o transplante de rim. Como me pus a chorar neste final. Seyyed trazendo o amor de volta a Juliana uma vez que sentia-se como alguém que havia feito exatamente o contrário. Eu me apaixonei por ela, foi inevitável...

Outra coisa que devo comentar, as citações. Como podias conhecer tantas, tão oportunas e adequadas ao momento? Tenho comigo praticamente todas elas. E tenho tuas próprias que agora usarei, reconhecendo-lhe autoria decerto.


Resposta do autor:

A maioria das citações estavam na minha mente. Frases que eu admirava e admiro pelo sentido.

Como associei a cada momento do conto? Não sei dizer.

 

Já que você gostou, são presentes para a Gagia. Estão no Ar.

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FoxyLady
FoxyLady

Em: 04/01/2018

Estou totalmente viciada e encantada com esta saga! Parabéns pelo texto e as inúmeras lições que tem dado.


Resposta do autor:

Saiu repetido. Vou aproveitar para agradecer por ter feito a gentileza de comentar.

Obrigada!

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FoxyLady
FoxyLady

Em: 04/01/2018

Estou totalmente viciada e encantada com esta saga! Parabéns pelo texto e as inúmeras lições que tem dado.


Resposta do autor:

Olá!!

Espero que esteja gostando até agora. E que goste do final também. Mais que tudo, espere que este conto te faça algum bem. Ao menos que te faça rir, ajudando a aliviar o pesso das obrigações do dia a dia.

 

Beijos

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