Terceira Temporada - BUSCAS IV
Lady chegava em casa com um novo namorado e seguiu direto para a cozinha, onde as amigas estavam.
--Gente, oi, pessoas!! -- exclamou excitada -- Conheçam meu novo namorado! -- apontou para o homem -- Marquinhos!
Priscila e Tatiana lanchavam. Pararam de comer para ver quem era. -- Oi. -- as duas cumprimentaram desconfiadas
Marcos era um homem de seus trinta anos, alto, magro, moreno e sorridente. Carregava um enorme saco nas costas, como se fosse um papai Noel fora de época. -- Oi! -- respondeu eufórico dando beijinhos de comadre nas duas -- Que prazer em conhecer garotas tão simpáticas!
--Imaginem vocês que ele faz curso de inglês justo lá na faculdade! Trabalha em uma loja de material de construção e mora sozinho!
--Legal. -- Tatiana não sabia o que dizer. Priscila ficou quieta e voltou a comer
--Nós pensamos em nos casar em setembro, mês da primavera. -- Lady falou olhando para o namorado
--Nossa, mas já?! -- Priscila quase se engasgou com o café
--Eu quero me casar logo. Não agüento mais lavar, passar, cozinhar e fazer limpeza! Moro sozinho, sabe como é... -- ele respondeu sorridente -- Se fosse por mim, casava hoje!
--Eu acho que você está confundindo esposa com empregada! -- Priscila respondeu sarcástica
--Eu decidi esperar até setembro pois sou uma mulher comedida e criteriosa. Casamento é coisa séria e a gente ainda tem que se conhecer melhor!
--Comedida e criteriosa? -- Tatiana riu
--Marquinhos, vamos pra meu quarto ouvir música e relaxar. Daqui a pouco a gente vai pro barzinho que você me falou que gosta. -- foi levando o homem pela mão
--Lady, à propósito, eu trouxe umas roupas sujas aqui comigo... Será que não podia colocá-las pra lavar enquanto a gente ouve música e relaxa? -- perguntou
--Ouviu isso, fi? -- Tatiana perguntou para Priscila
--Ah, meu Deus... -- esfregou o rosto -- Vai começar tudo de novo...
--Acho que Lady vai virar Amélia...
--Eu só espero que esse aí não seja do tipo que quer comer a nossa comida! Explorador já vi que é!
--Vamos fazer um inventário dos trem que temos na geladeira e no armário. -- levantou-se e pegou um bloco de papel -- Se sumir alguma coisa, a gente vai em cima dela!
--Eu faço o inventário! -- levantou-se e tomou o bloco das mãos da outra -- Senão você vai escrever trem 1, trem 2, trem 3... e não vai adiantar nada!
--Tem base? -- riu
***
Isabela terminava mais uma aula de balé e Mariângela foi conversar com ela.
--Hoje foi difícil, viu, Isabela? Nossa, que me deu até uma dor na panturrilha! -- exclamou
--Ih, mas a senhora acompanhou bem! -- sorriu -- Fico feliz com sua desenvoltura. A dor na panturrilha é normal, por causa da falta de hábito em fazer certos esforços e movimentos. Porém, verá que passa rápido se continuar treinando e alongando.
--Eu fico impressionada com você! -- olhou bem para ela -- Consegue dar aulas, estudar e ainda se apresentar em espetáculos por aí afora. Eu fui assistir a esse novo que vocês estão apresentando agora. Adorei! -- pausou -- Qual o segredo pra tanta disposição?
--Como se a senhora também não fizesse um monte de coisas... -- sorriu
--É... com licença. -- um homem maduro abordou as duas -- Eu não queria incomodar, mas, -- olhou para Mariângela -- flores para minha dama! -- entregou-lhe um pequeno buquê de rosas vermelhas
--Obrigado. -- ela respondeu desconcertada
--Não se esqueça do cartão. -- apontou para um pequeno cartão entre as flores, cumprimentou-as com a cabeça e se afastou
--Ih, dona Mariângela, ganhou um admirador... -- Isabela piscou para ela
--Humpf! Esse homem é pai daquela garota ali. -- apontou para uma das alunas da ruiva -- Desde que me viu, cismou com a minha cara. -- falou contrariada enquanto olhava o cartão -- “Pode contar,” -- começou a ler -- "esse buquê tem onze rosas!” -- contou -- Eu só vejo dez!
--Tem alguma coisa escrita atrás do cartão. -- a ruiva apontou
Mariângela virou o cartão para ler o verso. -- "A décima primeira é você, musa do meu jardim!” -- fez um bico -- Mas que coisa brega! -- reclamou
A ruiva riu. -- Coitado, dona Mari! É o jeito dele de tentar alguma coisa com a senhora.
--Comigo, não! Deus me livre! Não quero mais homem na minha vida nem que ele mije ouro!
--Por que? -- perguntou divertida
--Ah, não! Quero mais saber disso de lavar, passar e cozinhar pra homem, não! Sem contar de que esses homens maduros já são todos sambados, já dormiram com todo mundo que deu sopa, são tudo poluído, Deus me livre! E eles não se cuidam, ficam logo cheios de doença e a gente é que tem que ficar dando sopinha na boca e limpando cocô! Tô fora! -- reclamou
A bailarina riu mais uma vez. -- Calma, dona Mari. Eu não sei como foi seu primeiro casamento mas não quer dizer que todos os homens sejam tão desinteressantes desse jeito. E não precisa fazer os serviços pra marido como se fosse empregada dele! Isso deve ser divido e negociado. As mulheres assumem uma carga muito pesada na divisão de trabalhos e responsabilidades porque deixam que seja assim, mas a gente pode mudar isso. É só querer!
--Ah, mas eu não quero saber, não! Eu não gosto de mulher, você me perdoe, mas homem? Tô fora! Eu virei assexuada!
--Assexuada ou não, -- a ruiva olhou para o homem -- ele está ali na porta esperando a senhora! Tá até piscando um olhinho!
--Como diz minha filha, ô louco, viu? -- revirou os olhos
***
Juliana voltava do almoço quando reparou em um tumulto em uma das enfermarias. Ouvia-se um falatório de gente e pessoas iam e vinham sorridentes como se estivessem em um shopping. Todos usavam uma blusa branca com a mesma imagem estampada na frente.
“Mas o que se passa por aqui?” -- pensou desconfiada -- "Por que todo mundo tem um retrato de cachorro na camisa?”
De repente um homem barbudo e bem vestido sai da enfermaria seguido por outros homens e mulheres carregando bandeirolas. O diretor do hospital vinha a seu lado. O barbudo olhou para Juliana e veio abordá-la esbanjando simpatia. -- Olá moça bonita! -- mostrou os dentes muito brancos -- Eu sou Milton Lopes o seu candidato nas eleições 2002!
--Meu candidato? -- perguntou desconfiada
--Eu vim visitar o hospital, olhar nos olhos do meu povo, sentir o que meu povo sente. -- discursava demagogicamente -- Diga pra mim, o que está faltando pra coisa melhorar? Pode falar porque se eu for reeleito vai ser tudo diferente!
--Se for reeleito... E por que não foi diferente no seu primeiro mandato, posso saber? -- cruzou os braços -- O senhor teve quatro anos pra fazer alguma coisa, fez absolutamente NADA e agora vem pra cá fazendo tumulto com esse monte de puxa sacos e papagaios de pirata! -- apontou para o chão -- Olha aí, sujando o chão do hospital com essa propaganda política!
--Que é isso? -- o diretor do hospital repreendeu revoltado -- Você não tem educação? Não sabe como se dirigir ao nosso político, não?
--Nosso político uma pinóia! Eu não tenho político nenhum! -- olhou para o barbudo --Veio pra cá ver seu povo, meu filho? Então vem ver o que é bom pra tosse! -- pegou o homem pelo braço e foi arrastando-o pelo corredor -- Vou te mostrar o que é o verdadeiro hospital Silva Avelar!
Os seguranças tentaram detê-la mas o próprio político fez sinal para que nada fizessem pois havia muita gente no hospital e uma repreensão a Juliana poderia comprometer sua imagem diante dos eleitores.
--Olha isso aqui! -- apontou para uma enfermaria lotada -- Esse povo tá esperando há um tempão pra operar e nada! -- continuava arrastando ele -- Olha lá quanta gente esperando no corredor. Sabe por que? Porque falta leito! -- mostrou uma sala imunda -- Aquilo ali deveria ser uma UTI neo natal mas o governo alegou falta de verba e deu no que deu: virou essa podriça que você vê!
--Olha, enfermeira, eu sei que são muitos problemas pra resolver mas... -- estava nitidamente constrangido
--Que ‘mas’ o que? -- olhou revoltada pra ele -- Vocês só sabem prometer e roubar, mais nada!
--Mas que falta de respeito! -- ele se indignou
Nesse momento uma mulher aparece apavorada com uma criança passando mal, chegam três pessoas acidentadas, um rapaz com a perna amputada e uma mulher com uma faca enfiada na barriga.
--Falta de respeito é isso aí! -- apontou para as pessoas -- A gente paga imposto, paga todas as taxas que vocês inventam e olha o que se recebe em troca! Essa imagem que você vê agora, meu amor, eu vejo todo dia! Mães sofredoras com seus filhos, idosos largados como se fossem trapos, gente sofrendo de todo tipo de hemorragia, gente quebrada, gente queimada... e nós ficamos feito loucos pra tentar atender bem, mas não conseguimos dar conta! -- falava apaixonada -- Falta tudo! TUDO! Falta recurso, falta salário, falta compromisso, falta VERGONHA! Especialmente do seu pessoal!
Apesar da correria do hospital havia gente prestando atenção nas palavras de Juliana e essas pessoas bateram palmas para ela. A japonesa olhou para todos os lados espantada pois não esperava por aquilo. O diretor do hospital bufava de raiva mas nada dizia.
--Eu... -- o político não sabia onde enfiar a cara -- Eu vou fazer um esforço pra mudar tudo aqui... é que o Rio é uma cidade grande, tem tanta coisa pra consertar...
--Tome uma blusa pra você! -- o cabo eleitoral do homem ofereceu
--Eu não quero essa blusa com esse bicho estampado na frente, não. Cachorro feio, coisa mais horrível! -- a japonesa fez cara feia
--Não é cachorro! -- o diretor respondeu furioso -- É ele! -- apontou para o político
--Dá na mesma! -- ela respondeu naturalmente
A mulher que carregava no colo a criança doente passou pelos seguranças e chegou até eles. -- Por favor, façam alguma coisa! -- pedia aos prantos -- Meu filho está doente, ele está muito mal!
--Oh, meu Deus, é claro que vamos atendê-lo. -- o diretor respondeu fazendo um tipo
--Vamos, gente, abram espaço que essa criança necessita de atendimento! -- o barbudo aproveita a oportunidade para aparecer de bom moço -- Diga, senhora, o que ele tem? --perguntou com cara de preocupação
Nesse momento o menino vomita em cima do político, sujando-o do pescoço aos pés. -- É isso... -- a mãe respondeu sem graça -- Ele não pára de vomitar...
Juliana cobriu os lábios para não rir. -- Toma, papudo! -- disse para si mesma
***
Camille estava com Aline e mais alguns jovens fazendo um trabalho de grupo. Eles estavam debatendo sobre o que já haviam feito e o que faltava fazer, quando um rapaz deixou escapar o que não deveria: -- Ah, o professor gosta da Robocop, então se tiver que pedir pra adiar a entrega, ela pede por nós! -- todos ficaram em silêncio
--Você me chamou de que, ô meu? -- Camille olhou para ele e perguntou com seriedade
--Foi mal... -- ele abaixou a cabeça. O clima era de constrangimento
--Eles te chamam assim pelas costas, Camille. -- Aline falou magoada -- Assim como me chamam de Orca. -- olhou para os outros -- Pensam que eu não sei?
A loura ficou pensando na época em que tinha duas pernas. Ela também costumava a colocar apelidos pejorativos nas pessoas, mas somente agora sabia o quanto isso doía quando se estava do outro lado.
-- Não imaginava que fosse ser diferente. -- respondeu tentando disfarçar a mágoa -- As pessoas têm pouca ou nenhuma tolerância com o que não é perfeito. -- sorriu -- Mas ser Robocop não é pra qualquer uma. -- olhou para eles -- Duvido que algum de vocês tivesse força e coragem de acordar todo dia, colocar a PORRA de uma perna mecânica encaixada num cotoco de perna que sobrou e vir cuidar da vida. Duvido que algum de vocês conseguisse sair da cama sem se deixar apavorar pela imagem de uma composição de metrô, furiosamente passando por cima de sua perna, reverberando na sua cabeça constantemente. Isso não é pra qualquer um, não! Não mesmo! -- catou as folhas de fichário e guardou dentro dele -- Minha parte já tá feita, quem precisar de mais tempo, que peça ao professor! -- preparou-se para sair da sala
--Peraí, Camille! -- uma garota pediu -- Não cai na pilha! Volta, vamos acabar juntos!
--Fui! -- saiu da sala fechando a porta
Aline também juntou suas coisas e foi atrás dela. -- Espera, Camille! -- pediu
--O que você quer? -- tentou disfarçar que chorava
--Ah, não chora! -- olhou penalizada para ela -- Deixe pra lá!
--Eu não tô nem aí pra eles! -- respondeu chateada
--Isso é novo pra você, Camille, por isso se importa. Você é bonita de cara e de corpo, nunca deve ter sido vítima de zombarias antes de usar essa perna. -- pausou -- Olhe pra mim! Nunca fui bonita, sempre fui gorda... Fui sacaneada a vida toda! Nunca fiz sucesso com os rapazes... Os homens não costumam a valorizar uma garota pelo que ela é, mas pelo que podem ver. As feias sempre sofrem... imagine as gordas e feias... -- falava com tristeza
--Não fale assim! -- olhou para ela -- Você é legal... um pouco inconveniente, mas é legal! -- sorriu
--É muito difícil não ser bonita, não ser uma mulher de acordo com o padrão de estética do seu tempo. Você é rejeitada pelos homens e até por mulheres que não querem ser suas amigas... -- falava pensativa
A loura se lembrou de que quando ainda era ‘perfeita’ não gostava de ser colega das garotas feias, gordas... Ela julgava muito as pessoas somente com base na aparência. “Meu Deus, como eu era esnobe, preconceituosa, ignorante... Como eu era iludida... Vai ver passei e passo por tudo isso pra aprender a dar valor ao que realmente interessa!” -- pensou -- “A educação é o descobrimento progressivo da nossa ignorância.”21
“Engraçado quando você encontra alguém que não é um espelho seu”22; a primeira reação é a de repulsa. Há coisas que nós fazemos tão automaticamente que não nos damos conta. Somos intolerantes por muito pouco, criticamos as pessoas por muito pouco e esquecemos de olhar para nós mesmos. Nenhum de nós é irrepreensível, mas nos achamos no direito de condenar nos outros as atitudes que, muitas vezes, nós também temos. E na atualidade, onde temos aprendido a nos deixar levar apenas pelas sensações superficiais, a aparência torna-se um fator de seleção de parceiros (as) e amigos (as). A beleza e a perfeição estética conferem ou negam status a uma pessoa, o que é um grande equívoco, pois todas estas coisas são passageiras. A forma pode agradar aos olhos, mas o conteúdo, e somente ele, pode tocar a alma.
Aline tropeçou em uma imperfeição no calçamento e deixou cair algumas folhas. -- Ih, meu Deus! -- abaixou-se para pegá-las e nisso mais folhas caíram
--Eita, que você tá com a mão furada! -- Camille brincou para tentar descontrair a ambas. Abaixou-se devagar e ajudou-a com as folhas. De repente reconheceu aquele texto -- "Meu, ela tá lendo meu conto!” -- pensou
--Que cara de espanto é essa? -- perguntou ao se levantar
--Que é isso que você imprimiu pra ler? -- queria saber o que ela diria. Levantou-se também e entregou as folhas a ela
--É um conto lésbico chamado O Despertar de um Desejo. E te digo: maravilhoso!
--Você acha? -- perguntou empolgada, mas caiu em si e disfarçou a satisfação com o elogio -- Mas, por que lê contos lésbicos se você não é lésbica?
--Eu leio romances policiais também e não sou policial e tampouco assassina! -- respondeu convicta
--E que graça tem de ler romances lésbicos? -- voltou a andar
--Gosto de ler bons romances. -- voltou a andar também -- Gosto do tradicional, mas também curto outros estilos. Além do mais o universo feminino é muito rico e vale a pena conhecer o trabalho das autoras lésbicas.
--Ô louco! -- exclamou surpresa -- E você conhece muitas autoras?
--Conheço! Gosto de Hanna K, Raydon Donovan, Astridy Gurgel, Diedra Roiz, Sara Lecter, Lana C... Nossa, há muita gente boa! E essa tal de Crisálida está me surpreendendo! Estou louca pra ler o próximo trabalho dela!
“É, eu tenho que pensar no meu próximo conto...” -- Camille lembrou para si mesma
--A mais nova autora que estou conhecendo é uma tal de Solitudine. Eu ainda não terminei de ler o que está escrevendo mas lembrei de você.
--Como assim, lembrou de mim?! -- perguntou indignada
--A história dela tem deficientes físicos. Tem uma garota que perdeu a perna também.
--E qual é o nome da história?
--Sob o Canto das Raya.
--Que nome infeliz! -- retrucou -- “Vou dar uma olhada nessa história aí.” -- a loura pensou
10:10h. 11 de junho de 2002, Delegacia de Polícia, Centro, Rio de Janeiro
Suzana juntava as peças do quebra cabeças do caso Patrícia Feitosa. Graças a Baltazar ela havia descoberto um imóvel onde Sammael vivia e pôde, após obter um mandado de busca, invadi-lo para investigação. O homem não estava lá e os vestígios indicavam que ele não aparecia naquele apartamento há um bom tempo, mas foram encontradas algumas provas importantíssimas para incriminar os assassinos. Dentro de um cofre haviam duas fotos do corpo da jovem, evidentemente morta, nas quais todos os acusados, exceto o ‘velho’, podiam ser claramente identificados. Encontraram também fotos de outras mulheres mortas e muito material de conteúdo homofóbico.
O que faltava agora era uma coisa só: encontrar Sammael.
--Tenho notícias boas pra você, chefe. -- Brito chega esbaforido -- Eu também andei investigando... -- mostrou uma pasta que trazia nas mãos -- Estava certa. Mateus Damaso teve um irmão gêmeo. E adivinha o nome dele? -- sorriu
--Lucas! -- olhou para ele
--Exatamente! -- jogou a pasta na mesa dela
Suzana abriu a pasta e olhou atentamente seu conteúdo. -- Documentos de um interno de um manicômio... -- continuava analisando
--Lucas Damaso viveu em um manicômio em Belém por muitos anos. Foi internado quando era apenas um menino, -- cruzou os braços -- e saiu de lá aos vinte e cinco anos. -- pausou -- Fugido!
--E a família, na certa, devia ter vergonha disso e daí quase ninguém devia saber que Mateus tinha esse gêmeo! -- pausou -- É muito comum! As pessoas escondem os ‘loucos’ da família por deles se envergonhar. Cruel... -- olhou para Brito -- Na certa ele foi tentar a vida como garimpeiro e depois, por alguma razão, foi viver em Igarassu... -- pensou -- Então era ele que chorava desesperado no enterro, e não Mateus. A senhora com quem conversei em Boa Vista me disse que Mateus não foi no enterro porque passou mal e logo depois ela mesma ficou em dúvida. Lucas foi no enterro e todo mundo deve ter pensado que era Mateus!
--Pois é! Aí Mateus morreu e ficou Lucas, o assassino!
--Mas me diga, Brito, como descobriu isso? -- apontou para a pasta
--Quando estive no Japão com Flávia conheci um paraense em um restaurante, acredita? Ele era chefe dos garçons. Um senhor, muito educado, muito sério... quando percebeu que éramos brasileiros quis conversar com a gente. Conversa vai, conversa vem, falou que foi interno em um manicômio em Belém e que era constantemente barbarizado por um jovem de cujo nome ele nunca esqueceu: Lucas Damaso.
Suzana sorriu. -- Inacreditável!
--Daí, foi fácil obter essas informações. -- pausou e endireitou a gola da camisa -- Quer dizer, fácil não foi, mas eu tinha um rumo pra seguir e investigar. -- sorriu -- Não lhe falei antes sobre isso porque aguardava algumas confirmações...
--Muito bom! -- levantou-se da mesa -- Eu ando pensando em onde ele pode estar escondido, mas não me vem idéia alguma! É muita coisa na cabeça, Brito... -- olhou para ele -- Acho que eu tenho que sair e aliviar a pressão, sabia? Vou conversar com o pessoal do motoclube e ir com eles na viagem que planejam pra esse final de semana.
--Ih... Será que a Juliana vai gostar disso? -- perguntou desconfiado
--Ah, ela é uma mulher compreensiva, vai entender minha necessidade de espaço...
***
--Mas é claro que eu não entendo essa palhaçada, Suzana! -- Juliana circulava furiosa pela sala -- Que graça tem pegar uma moto, sair por aí cercada de homem por todos os lados, chegar em um lugar, pernoitar e depois voltar dirigindo tudo de novo? Bobeira, isso! -- cruzou os braços e olhou para a amante -- Por que não prefere passar seu tempo comigo?
--Amor, não é isso... -- aproximou-se dela -- Você sabe que eu pertenço ao motoclube, sabe que eu curto moto... fazia um tempão que eu não participava de nenhuma viagem...
--Porque você não tinha mulher, agora tem! -- respondeu enfática
--Juliana, não é porque eu tenho mulher que sou obrigada a abrir mão dos meus prazeres. Você acha o que? Que porque estamos juntas eu só tenho que ficar colada contigo? Eu preciso do meu espaço, preciso do meu tempo sozinha!
--Sozinha? E a macharia que vai contigo?
--Eles vão comigo mas não estão comigo, é diferente!
--Ah, então o ‘sozinha’ quer dizer longe de mim? -- perguntou revoltada
--Entende uma coisa, Juliana! -- olhou nos olhos dela -- Eu te amo, te sou fiel, mas preciso de meu espaço, preciso ficar comigo mesma. Essa viagem é coisa de final de semana e por isso é rápida, mas me satisfaz. Eu tô a fim de ir, eu quero ir.
--Ah, quer? -- andou até a porta e a abriu -- Então vai! E escuta uma coisa, quando eu fizer meus programas sem você, não venha reclamar, tá bom?
--Eu nunca restringi a sua liberdade!
--Tá esperando o que pra ir embora? -- perguntou chateada
Suzana respirou fundo, pegou a mochila e foi embora sem se despedir. A japonesa fechou a porta e sentou na poltrona controlando-se para não chorar. Lourdes veio para a sala caminhando devagar com sua bengalinha.
--Minha filha... -- começou a falar -- Posso me sentar aqui com você?
--Claro, não precisa pedir! -- olhou para ela
A idosa se sentou e olhou bem para Juliana. -- Eu não sou surda. Infelizmente ouvi tudo.
Juliana sorriu. -- Tudo bem. -- pausou -- Vexame, não é? Fazê-la ouvir essas coisas...
--Todo casal discute, meu bem. Não imaginei que entre mulheres seria diferente.
--A senhora discutia com seu marido?
--Não muito. Eu era boba demais, sabe? Acostumada a sempre obedecer... Ele decidia quase tudo sozinho, somente me participava.
--Não é o modelo de relação pra mim, perdoe dizer. -- sorriu com tristeza
--Com certeza. -- riu brevemente -- Você é uma mulher de pavio curto.
--O tamanho do pavio até que aumentou, mas continua curto. Antes eu acho que nem pavio tinha...
--Escute o que diz alguém que já viveu muitos anos, se me permite dizer... Não é porque você ama uma pessoa que pode pensar que esta pessoa se torna sua propriedade. Você precisa ter a sua individualidade e ter o seu tempo com Suzaninha. Da mesma forma precisa permitir que ela tenha a individualidade dela.
--Mas... a senhora não acha que se ela me amasse de verdade iria querer passar todo o tempo livre comigo?
--Não! Isso não é prova de amor. -- sorriu -- Conheci casais que passavam o tempo todo juntos e no frigir dos ovos eram dois estranhos.
--Então eu sou uma idiota! -- suspirou -- Gosto de passar todo o tempo possível com ela.
--Não é uma idiota, você se apega muito.
--Creia que já fui pior!
--Acredito, mas ainda assim você se apega muito. -- pausou -- Veja, meu anjo, Suzaninha viveu sozinha consigo mesma por tempo demais. É natural que queira espaço, que precise se sentir livre de vez em quando. Não é falta de amor, é o temperamento dela. Você gosta de gente, ela gosta de quietude. Perceba que ela tem feito um grande esforço pra se integrar com as pessoas da sua vida, pra participar dos eventos que você vai. Deixe que ela tenha seus momentos de solidão também. E se você quiser ter os seus, o relacionamento não vai acabar por causa disso.
--Eu fui grossa com ela, não fui? -- perguntou se sentindo culpada
--Um pouco...
--Será que se eu ligar ela me atende?
--Tente! -- olhou para o relógio -- Já jantei, já tomei banho... -- levantou-se -- Se ela vier pra cá, estarei dormindo.
Juliana percebeu que Lourdes tentava lhes dar privacidade. -- A senhora é um amor, sabia? -- beijou a testa dela
Lourdes também deu um beijinho nela e foi indo para o quarto. A japonesa pegou o telefone e ligou. -- Oi, Su! -- respondeu melosa
--O que foi? Vai me dar mais bronca? -- perguntou chateada
--Volta pra cá... -- pediu dengosa -- Eu fui uma tola com você.
--Você me mandou ir embora... -- falou como uma criança triste
--Volta que eu peço desculpas... -- sorriu -- dou beijinho, faço carinho, faço massagem... -- ofereceu
--Eu... -- estava titubeante
--Uso aquela lingerie que você adora... -- continuou oferecendo
--Segura aí! -- desligou. Juliana deu pulinhos
Em pouco tempo Suzana estava de volta.
--Perdoa, amor? -- a japonesa perguntou fazendo beicinho assim que abriu a porta
--Vai deixar eu ir pra viagem?
--Deixo! -- segurou-a pela mão -- Vem, entra! -- tirou a mochila das costas dela e jogou no chão
--Você falou em beijinho, carinho, massagem... -- estava de cabeça baixa
--Hum, que fofinha! -- beijou-a -- Vem, que eu cumpro com tudo! -- andavam em direção ao quarto
--E a dona Lourdes? -- perguntou preocupada
--Está dormindo. -- beijou-a de novo -- Já dei beijinho! Só falta o carinho, a massagem...
--Beijou muito pouco! -- levantou-a no colo e entrou com ela no quarto beijando e mordendo seus lábios e pescoço
--Sem vergonha! -- riu
***
Priscila colocava roupas para lavar na máquina enquanto Tatiana estendia algumas peças no varal. Lady chega com ar de cansaço.
--Oi, amigas! -- sentou-se em um banquinho -- Alguma de vocês sabe o que tira mancha de tinta acrílica da roupa?
--Não tenho a menor idéia! -- Priscila respondeu
--Nem eu! -- Tatiana complementou
Lady deu um suspiro e ficou calada. Priscila ligou a máquina e olhou para a outra. -- Lady, você perdoe a franqueza, mas eu te vou contar, viu? Você tá um bagaço! Que anda fazendo ultimamente pra andar desse jeito toda caída?
--De fato, -- Tatiana também olhou para Lady -- você anda precisando de um trato, viu, fi?
--Ai, gente, é muita consumição na minha vida... É um tal de vai pra faculdade, vai pra casa de Marquinhos, estuda, lava, passa, faz limpeza, cozinha... Às vezes eu fico tão confusa que nem sei pra onde devo ir. Um dia desses peguei o ônibus e quando dei por mim fui parar no Jacarezinho!
--Peraí! -- Priscila puxou outro banquinho e se sentou perto de Lady -- Não me diga que você virou doméstica daquele tal de Marquinhos?? -- perguntou horrorizada
--Ah, amiga, tadinho dele... Você tinha que ver como era a casa dele! Um lixo! Ele é homem, sabe como é... Andava amarrotado, sujo... Agora tanto a casa quanto ele por gosto pode se ver! Cuido com o maior capricho!
--Lady, mas deixa eu te perguntar, você não aprende nunca? -- Tatiana pôs as mãos na cintura -- Não pode dar mole desse jeito pra homem! Ele que se vire com a casa dele! E se quiser ajuda que contrate uma empregada!
--Ah, vocês são feministas demais! Tá até na Bíblia que a mulher tem que servir a seu homem!
--Ah, não, alto lá! -- Priscila se levantou revoltada -- Se é que isso tá escrito na Bíblia tem que se ter um mínimo de bom senso. Aquelas palavras foram escritas há séculos atrás pra uma sociedade atrasada, rude, machista demais! Natural que até os profetas fossem machistas porque eles não tinham o entendimento que se tem hoje!
--Hoje mulher faz tudo que homem faz, Lady! Se existe uma dupla jornada de trabalho é porque a gente deixa! -- Tatiana argumentou -- Eu namoro Renan mas ele cuida da vida dele lá e eu cuido da minha aqui! E quando a gente casar tudo vai ser dividido! Acha que vou assumir sozinha a carga de cuidar de uma casa, filhos e os trem todo? Eu não, uai!
--E esse cara é só seu namorado! -- Priscila se sentou de novo -- Se está assim agora quando se casar com ele vai ficar uma mulher velha, feia e acabada!
--Ai, gente, pára! -- Lady se levantou -- Eu não sou igual a vocês! Uma não quer compromisso, a outra não cuida do homem que tem... Além do mais é claro que aprendi com meus erros e a prova é que só vou cuidar das coisas do casamento em agosto, e não com a antecedência absurda que fiz quando era noiva de Carlão!
--E é só você que se mexe, esse Marquinhos não faz nada? -- Priscila perguntou revoltada
--Ah, coitado, Pri, ele não tem dinheiro. -- abriu a geladeira e tirou uma maçã
--Ué? E ele não trabalha? Você é estudante e tem dinheiro, ele trabalha e não tem. Como é isso?
--Ah, Tati, ele tem a pensão dos filhos pra pagar... -- mordeu a maçã
--Filhos?! No plural?? -- Priscila perguntou chocada
--Ele tem alguns filhos...
--Alguns? -- Tatiana perguntou
--Cinco...
--Cinco?! -- Priscila levantou-se de um salto -- Isso não é ‘alguns’, é uma verdadeira ninhada! Se nascer mais um, monta um time de vôlei!
--Ah, gente, são essas mulheres safadas que armam golpe pra pegar barriga e prender o homem... -- continuava comendo a maçã
--Ah, me poupe, viu, fi? E ele não conhece camisinha? Além de explorador é galinha e safado!
--Lady, você só se pega com merd*, vou te contar... -- Priscila saiu da cozinha revoltada
Tatiana pôs a mão no ombro de Lady e disse olhando para ela: -- Escuta um conselho, amiga! Sai dessa que é fria! -- voltou a estender roupas no varal
“O que será que tira mancha de tinta da roupa, hein?” -- Lady pensava
***
Camille discretamente observava Seyyed consertando um carro. Admirava sua concentração ao trabalhar e a paixão pelo que fazia. Fosse carro novo, fosse carro antigo, a morena sempre sabia como resolver os problemas que a máquina viesse a apresentar. A jovem loura achava que a mecânica era o máximo, além de ser uma pessoa linda sob todos os aspectos. “E além de tudo é divertida...” -- suspirou
Nesse meio tempo um carro pára nas proximidades da oficina e uma mulher elegante e de porte altivo sai de dentro dele. Era Isabela. A ruiva se aproximava sorridente, mas Ed ainda não a tinha percebido. A garota estava impecavelmente arrumada.
“Dá até raiva! Essa bailarina é sempre tão arrumada, tão bem maquiada, tão apresentável...” -- Camille pensou sentindo inveja -- "Concorrência desleal...” -- sacudiu a cabeça -- “Mas, por que eu penso essas coisas se não sou lésbica? Eu hein, Camille, que diabo!” -- revoltou-se
Ed ouviu os passos e virou o rosto na direção daqueles sons. Viu a ruiva se aproximando e sorriu empolgada.
--Oi, amor! -- Isa tirou os óculos escuros -- Não houve ensaio hoje e vim te ver! -- beijou o rosto da morena
--Assim que ouvi seus passos eu já sabia que era você! -- beijou o rosto dela também
--E como sabia que era eu? -- perguntou sorrindo
Aproximou-se dela e sussurrou no ouvido: -- Já te disse isso uma vez... A minha mulher eu conheço pelo andar e pelo cheiro.
--Você me deixa arrepiada quando fala certas coisas... -- deu um tapinha no braço de Ed -- Já almoçou, amor?
--Coloquei a marmita pra esquentar há meia hora atrás. A comida já deve estar boa pra comer. Sobe comigo?
--Subo!
--Eu vou lavar as mãos. -- pausou -- E você, já almoçou?
--Sim. Vá se lavar que eu te espero lá em cima. -- soprou um beijo para a mecânica
Quando se aproximou da escada a bailarina deu de cara com Camille, que disfarçou e entrou no almoxarifado. Isa ficou cismada. “Por que será que essa garota prestava atenção na gente?” -- pensou
Minutos depois Ed subia as escadas. Camille viu isso e ficou revoltada. “Não acredito que Ed vai ficar se acasalando com aquela ruiva em pleno horário de serviço! É o fim do mundo, ô louco!” -- pensava com despeito -- "Que merd*!”
Ed e Isa estavam sentadas à mesa conversando enquanto a morena almoçava.
--Estou contando nos dedos a data da nossa viagem, amor... -- Isa apoiou o queixo sobre a mão -- Nem acredito que ficaremos fora por dezenove dias... -- sorriu
--Eu também tô super ansiosa. -- sorriu -- Mas só posso contar que terei você pra mim depois que o festival de Frankfurt acabar.
--Ah, mas dura só uma semana... Depois disso eu serei todinha sua... -- pausou -- Adorei sua idéia de aproveitar esse festival pra emendar com nossa viagem de lua de mel... E minhas férias coincidem com tudo isso, olha que presente do céu!
--Eu já combinei tudo com Renan. Vai ser bom, porque aí ele vai tocar o barco durante minha ausência e já vai treinando pra quando for cuidar da oficina de Goiânia. E as férias de Mariano começam depois do meu retorno. Além de tudo Camille também estará aqui. -- piscou para a ruiva -- Tá tudo maceteado! Agora é só esperar agosto chegar! -- terminou de almoçar e foi lavar a louça
--Nossa, Ed, você devorou a comida! -- olhou para o relógio -- Só levou 20 minutos!
--Fome! -- brincou -- Eu tava com uma fome louca! Comi como se fosse a última vez!
--Hum... -- levantou-se e abraçou-a por trás -- Seus funcionários tiram uma hora de almoço, por que você não pode fazer o mesmo, hein? -- beijou o ombro dela
A morena terminou de lavar a louça e a colocou para escorrer. -- Com você aqui, eu tiro! -- virou-se de frente para ela -- Deixa eu só escovar os dentes que te dou a maior atenção! -- beijou a testa dela e foi para o banheiro
Isa foi para a sala e ficou reparando naquela casa. O imóvel de Ipanema era bom, mas nem chegava aos pés daquele ali. “Será que eu fui correta em ter insistido pra gente se mudar? Essa casa é tão grande, tão boa...” -- pensou sentindo-se culpada -- "E ela ainda colocou o apartamento no meu nome... Que outra mulher faria isso?”
De repente sente os braços da morena envolvendo sua cintura.
--O que foi? -- beijou a cabeça dela e virou-a de frente para si -- Tá com uma carinha triste...
--Eu estava pensando em como sou sortuda em ter você como minha mulher! -- envolveu o pescoço dela com os braços -- Ficou muito chateada comigo por ter se mudado daqui? -- perguntou preocupada
--Chateada, não... Eu não queria ter saído daqui, mas entendo os seus motivos. -- beijou-a nos lábios -- E com você eu moraria em qualquer lugar... até naquele apartamento cheio de baratas... -- brincou
--Pára, que eu nem dormi no dia que a gente visitou aquele troço! -- riu -- Te amo!
Ed puxou-a para mais perto de si e começaram a se beijar com mais intensidade. Foram se deslocando lentamente até o sofá, até que se deitam sobre ele. A morena ficou sobre a ruiva, que envolveu as pernas ao redor de sua cintura.
Camille já estava agoniada em perceber que Ed não descia e resolveu subir. “Ela não leva nem meia hora almoçando e agora já passam de quarenta e cinco minutos e a sem vergonha não desce!” -- pensou revoltada
Caminhava lentamente para fazer o mínimo de barulho. Quando chega na entrada da sala surpreende Seyyed e Isa no maior amasso no sofá. As duas estavam tão entretidas no que faziam que nem perceberam sua presença. A loura se apressou em descer desesperada para que elas não a vissem. Estava totalmente perturbada. “O que eu tinha que vir fazer aqui??” -- pensou sentindo vontade de chorar
--Ouviu esse barulho? -- Isa interrompeu o que faziam -- Um som metálico, sei lá!
--Eu não... -- olhou para o relógio -- Vou ter que descer, meu amor! -- beijou-a e saiu de cima dela, levantando-se
--Eu sei... -- levantou-se também -- E eu vou aproveitar o tempo que tenho até a hora de ir pra aula pra treinar um pouco. Aqui tem espaço de sobra pra mim. -- passou a mão nos cabelos
--Qualquer coisa, me chama. -- beijou-a -- Só não fico mais tempo contigo porque não dá. -- sorriu
--Eu sei, você tá trabalhando. Pode ir. Eu vou descer também só pra pegar minhas coisas dentro do carro e me trocar.
As duas desceram e Ed voltou ao trabalho. Camille estava no banheiro lavando o rosto para que ninguém percebesse que ela derramou algumas lágrimas. “Não posso viver assim... dói muito...” -- pensava enquanto se olhava no espelho
***
--E então, Camille? -- Ivone perguntou -- Como vão as coisas? A formatura se aproxima... temos mais mudanças em andamento na sua vida, não é?
--O período termina no começo de agosto e eu tenho certeza de que não vou perder matéria nenhuma. Já fiz o relatório de estágio e estou escrevendo o projeto final de curso. Negociei com minha orientadora pra marcar a data da defesa pra dia 12 de agosto. -- respondeu orgulhosa
--Que maravilha! E vai ter festa de formatura?
--Não... -- respondeu fazendo careta
--Por que? -- perguntou curiosa
--Ah, meu, tem umas mina aí agitando uma festa de formatura mas eu não faço parte daquela turma... eles têm uma história juntos, eu cheguei no final. E vai ser uma festa cara, estão pagando há mais de um ano... -- pausou -- Além do mais eles me zoam, me chamam de Robocop... Já pensou se na hora de ir lá na frente buscar o canudo algum babaca grita meu apelido? Eu iria morrer de ódio e vergonha...
--O problema do bullying nos ambientes estudantis é muito sério! E as instituições de ensino não estão preparadas para combatê-lo até hoje! Muito menos os pais educam seus filhos para saber como tratar os outros. Confunde-se descontração com desrespeito... -- pausou -- Mas não se deixe abater por isso. Se não quer participar da festa, tudo bem, no entanto não abaixe a cabeça.
--Eu sei... -- afirmou pensativa
--E o trabalho? Aposto que anda a mil por hora!
--Já fiz um monte de coisas! E é legal porque Seyyed e Renan me respeitam, me ouvem... Tenho dado sorte até agora pois tudo que proponho dá certo!
--Eu diria que tem tido competência. -- sorriu
--Acredito que a gente abra as portas da oficina nova logo nos primeiros dias de janeiro!
--Estou impressionada!
--Esse desafio me fez bem... -- pensou -- Mas ao mesmo tempo... me consome por dentro...
--Sob que aspecto?
Camille ficou calada.
--Como vai o coração, querida? Seus sentimentos? Isso é o mais importante!
A jovem abaixou a cabeça e depois de uns minutos afirmou: -- Eu escrevi uma história...
--Sobre o que?
--Sobre uma jovem que se vê surpreendida com um amor inesperado em sua vida. Ela passa por situações angustiantes até que se permite viver o que seu coração deseja.
--E essa jovem se apaixonou por outra mulher? -- perguntou com delicadeza
--É... -- pausou -- E essa história fez o maior sucesso na internet... -- olhou desconfiada para Ivone
--Acredito!
--Eu até recebi um monte de e-mails, mensagens das leitoras... E conversei com uma outra autora no MSN... Uma tal de Solitudine.
--Sobre o que conversaram?
--Ela é uma autora ainda mais novata do que eu e tá escrevendo uma história enorme que tem um blábláblá espiritual e um monte de firula... Eu queria saber como pode uma criatura tão zen ser sapatão e ela me disse que “ser lésbica não significa ser dissociada de Deus”.
--Concordo plenamente!
--Disse também que eu nunca deveria ter vergonha de quem eu sou. Que a gente tem que se amar, se aceitar e buscar evoluir sempre. -- riu brevemente -- Até uma caipira desconhecida já me dá conselhos... -- revirou os olhos
--E o que vê de tão absurdo no que ela te disse?
Camille não respondeu.
--Por que se envergonha da pessoa que você é?
A jovem ficou de cabeça baixa olhando para as próprias mãos. -- O que tenho pra me orgulhar?
--Muitas coisas! -- Ivone se levantou e pegou um pequeno espelho. Puxou a cadeira para perto de Camille e pediu: -- Olhe!
--Ivone, eu vejo minha cara todo dia... -- respondeu irritada
--Não, você não vê; apenas visualiza porque não é cega. -- olhou para ela -- Por favor...
A jovem mirou-se no espelho e perguntou impaciente: -- E aí?
--Essa pessoa que você vê é a sua essência! O arcabouço de todas as suas experiências, de tudo o que aprendeu desde que seu espírito foi concebido. Essa pessoa é tudo o que você tem, é a sua individualidade, é um dos incontáveis tesouros que compõem o Universo. Como pode se envergonhar dela? Você acha que as outras pessoas não vivem conflitos? Acha que existe alguém perfeito nesse planeta? Claro que não! -- falava enfatizando seus argumentos -- Camille, não há porque se envergonhar de nada em você!
--Como acha que posso não ter vergonha de ser lésbica?? -- bateu na mão dela fazendo com que o espelho caísse no chão. Estava gritando desesperada -- Como acha que posso não ter vergonha de ter feito amor com uma mulher maravilhosa e depois ter agido como se eu fosse uma vítima? Como acha que posso não ter vergonha de estar apaixonada por uma mulher casada que sequer me considera uma opção?? -- soluçava
Ivone pegou o espelho quebrado no chão, se levantou e voltou trazendo um copinho de chá de camomila. -- Tome, querida. -- estendeu para ela e sentou-se novamente
A loura ficou segurando o copo sem beber o chá. Continuava chorando.
--Não há vergonha alguma em ser lésbica, não há vergonha em ter dúvidas, não há vergonha em se apaixonar. -- afirmou calmamente -- Foi muito importante que você verbalizasse estas coisas que estavam guardadas aí dentro.
A loura bebeu o chá e ficou pensando: “Porque sou tão conflituosa quanto a minha sexualidade? Por que não aceito sequer encarar a realidade? Por que não tenho coragem de assumir a pessoa que eu sou? Por que tanta repulsa? Por que tantas dúvidas?”
--A verdade, minha querida, é que a sociedade ainda discrimina muito o homossexual e a pessoa que quer viver essa escolha experimenta rejeição e críticas por parte de quem, na maioria das vezes, não tem a menor condição de falar coisa alguma. São piadas vulgares e idéias pré concebidas sobre o que não se conhece... Há ainda aqueles que agridem a ponto de matar. A ignorância dominante não permite que os corações sejam beneficiados com as luzes do amor, da tolerância, da fraternidade e da justiça. Quantas pessoas têm autoridade moral para condenar? O Líder Espiritual desse planeta não julgou a quem quer que fosse, nem mesmo quando incitado a isso.
--Isso me assusta... eu não queria ser assim...
--Mas você é assim. -- pausou -- E precisa descobrir se realmente não quer ser ou se são seus preconceitos que a fazem pensar desse jeito.
--Eu preciso de sua ajuda... -- pediu humildemente
--E você a tem e a terá sempre que desejar...
***
Ana e mãe Dadá estavam ajoelhadas em uma encruzilhada na Ilha do Fundão diante de três alguidares abarrotados de frutas. Acendiam velas.
--Minha mãe, será que a gente não podia trocar de point, não? Minha filha estuda nessa ilha e eu já tô virando figurinha conhecida nesse lugar... -- perguntou preocupada
--Ô minhas infia, vosmicê só se preocupa com bobagem! Esse lugar tem muita encruzilhada e ninguém vai vim incomodá! -- falava com um charuto na boca
--Pelo menos hoje a coisa é light e não tem matança de galinha!
--Termina de baforá esse charuto pra tua mãe! -- tirou o charuto da boca e entregou a ela
--Charuto babado, que nojo! -- pegou com a ponta dos dedos
--Se vosmicê quer preservá o emprego de vosso marido faz o que tua mãe te orienta! -- olhou para ela de cara feia -- Levanta, dá baforada e dança o ponto do teu caboclo!
--Ô minha mãe, mas precisa tanto? Hoje tá mais cedo, o dia tá mais claro...
--Tua mãe afastou a amante de vosso marido e deu mansão pra vossa filha! Se até agora minhas infia não acredita no poder de mãe Dadá... Vosso marido vai perder o emprego!
--Não, eu faço! -- levantou-se rapidamente, pôs o charuto na boca e começou dançar -- "O que não faz uma boa esposa e uma mãe zelosa pra preservar a família...” -- pensou revirando os olhos
Nesse momento Isa passa de carro e vê aquela cena. -- Que mulher ridícula! -- disse para si mesma -- Fazendo macumba na Cidade Universitária, fala sério... -- balançou a cabeça contrariada -- A que ponto se chegou?
--Chega minhas infia! Despacha o charuto pra tua mãe!
Ana ajoelhou-se e pôs o charuto na beirada do alguidar. -- Ô mata rato da peste! -- reclamou
--Olha o que fala, minhas infia! -- pegou uma garrafa de espumante -- Dá uma golada! -- estendeu a garrafa para ela
--Até que enfim uma coisa boa! -- bebeu com gosto mas se arrependeu -- Argh, que coisa horrível! Parece vinagre! -- fez careta
--Minhas infia queria o que? Champagne francesa? -- pegou a garrafa e despejou uma parte do conteúdo em uma taça
--Isso garante o emprego de Anselmo, minha mãe?
--Isso e mais três mil reais modi tua mãe fazer os trabalho dela no terreiro.
--Três mil reais??????? -- Ana perguntou chocada -- Mas eu não tenho esse dinheiro todo!
--Num posso fazê nada!
--Ai, meu Pai... Vou pedir pra Isa... de repente Seyyed me ajuda... -- falou para si mesma -- Mas vou ter que inventar uma mentira cabeluda...
***
Mãe Dadá, que na verdade se chamava Neuza, acabava de chegar em casa.
-- Filha? -- chamou -- Está aí? -- não ouviu resposta
Entrou e tirou a roupa de mãe de santo. Foi no banheiro lavar o rosto quando de repente a luz acabou. “Mas que merd*!” -- pensou -- “Pelo menos o luar deixa uma luzinha entrar nesse barraco.”
Ao se olhar no espelho, viu o reflexo de um vulto escuro apavorante. Gritou desesperada: -- Ahahahahahahahah! -- correu para sala -- Quem é você? -- gritava na direção do banheiro -- O faz aqui? -- estava morrendo de medo
--Não deveria ter medo! -- a voz se fez ouvir atrás dela
A falsa mãe de santo se desesperou e gritou mais uma vez jogando-se no sofá. -- Quem é você, pelo amor de Deus? -- começou a chorar
--Chamando por Deus? -- a mulher apareceu ajoelhada a seu lado -- Você engana os outros, brinca com coisa séria, macula a memória de uma mulher honrada e se acha no direito de chamar por Deus? -- seu tom era acusatório
A impostora se jogou no chão e rolou desesperada até a porta mas não conseguiu abri-la.
--Acha que pode fugir, Neuza? -- ouviu a voz da mulher ecoar dentro de sua cabeça
--Por favor, chega, eu prometo que nunca mais engano ninguém, eu acabo com tudo, eu jogo a roupa de mãe de santo fora, eu prometo... -- chorava encolhida e encostada na porta -- Mas vá embora, não me faça mal...
--Eu só vou embora depois que você me ajudar. -- o vulto apareceu diante dela
--Eu ajudo, eu prometo, eu ajudo... -- não conseguia se acalmar ou parar de chorar
13:00h. 06 de julho de 2002, Consultório Médico, Meyer, Rio de Janeiro
--E então, doutor, o que eu tenho? -- Silvio perguntou preocupado -- Não adianta tomar remédio porque quando uma coisa melhora outra escangalha. Já perdi quase seis quilos!
--Acalma-se rapaz. -- escrevia -- Você vai fazer alguns exames e aí eu poderei dizer alguma coisa. -- entregou os pedidos de exame a ele -- Você tem plano de saúde?
--Não, mas meu pai é sargento da Aeronáutica da reserva e eu tenho direito ao hospital militar. Vim aqui no senhor porque me falaram muito bem a seu respeito. -- pensou -- Mas o senhor acha que pode ser o que?
--Não fique tão cismado. Eu não gosto de fazer especulações. Faça os exames o quanto antes e depois volte aqui.
“O que há de errado comigo? Venho me sentindo estranho desde o final do ano passado e isso não muda!” -- Silvio ficou matutando
***
Suzana saía da delegacia para almoçar quando uma mulher veio correndo abordá-la. -- Delegada Suzana!
A morena olhou na direção da mulher e respondeu desconfiada: -- Pois não?
--Eu... -- aproximou-se receosa -- eu nem sei como lhe dizer... Um espírito de uma mulher sofredora me apareceu e... ela me orientou a encontrar isso. -- estendeu um pedaço de papel sujo de terra -- Estava enterrado em um lugar estranho... -- Suzana pegou o papel -- Ela disse que vai lhe ajudar a encontrar quem mais procura. -- olhou para ela receosa -- Acha que sou louca?
--Acho que sei do que se trata. -- abriu o papel e se deparou com uma espécie de mapa. Faltava uma parte pois a folha estava cortada -- A folha já estava cortada assim? -- mostrou a ela
--Sim, eu não fiz nada além de cavar e trazer pra senhora.
--Pode deixar. Tá entregue.
--Então deixe eu ir que agora trabalho em casa de família e não é mole... -- Neuza sorriu constrangida -- Tchau!
--Tchau. -- respondeu -- Um mapa... -- disse para si mesma -- Qual é mesmo o nome daquele colega do motoclube que é engenheiro cartográfico? -- pensou
***
Isa chegava em cima da hora para mais uma aula quando viu Mariângela abaixada do lado de um vaso de uma planta.
--Dona Mari? -- perguntou surpresa -- O que faz escondida aí?
--Tô escondida dele! -- apontou para o final do corredor. Seu admirador estava parado na porta -- E hoje ele ainda veio vestido de homem de macumba! Tá todo de branco e blusa vermelha! -- fez cara feia
--Ah! -- riu -- Vamos lá, levante-se daí e entre na sala comigo! -- estendeu a mão
Mariângela se levantou desconfiada e agarrou-se ao braço de Isa. As duas foram caminhando pelo corredor.
--Esse homem é um encosto na minha vida! Não me deixa em paz! Parece até atração fatal!
A ruiva riu de novo. Entraram na sala.
--Minha dama! -- o homem se curvou diante de Mariângela -- Professora! -- sorriu para Isa
--Bom dia! -- a ruiva respondeu. A mulher mais velha ficou calada
--Será que ele não se manca? -- a costureira se revoltou -- Eu hein? -- foi para bem longe da porta
O homem foi até a costureira e fez um salamaleque. -- Doces para adoçar tua boca, minha musa loira! -- estendeu uma caixa de bombons para ela
--Muito obrigado, mas sou diabética! -- virou-se de costas para ele, que ficou sem graça -- "Musa ‘loira’! Coisa cafona!” -- pensou revoltada
--Senhor Roberto... -- a ruiva abordou o homem -- Será que eu poderia conversar com o senhor por alguns minutinhos?
--Claro! -- ficou olhando para Mariângela de soslaio
--Não sei se já percebeu mas, -- cruzou os braços -- a dona Mari não está gostando desse assédio de sua parte. -- falou diretamente
A costureira ouviu e adorou a atitude da bailarina. “Sai da minha vida, cão das encruza!” -- pensou
--Ah, mas eu... -- ficou sem graça -- Tenho agido no maior respeito... Não sei como minha corte pode deixá-la incomodada...
“Não sabe como me incomoda... E pra completar ainda tem um bafo de onça dos diabos, ô louco!” -- continuava prestando atenção na conversa deles
--Mas ela está incomodada. E à partir do momento que é minha aluna e o senhor vem aqui assediá-la antes ou depois da minha aula eu gostaria muito que parasse com isso e a deixasse em paz!
--Mas, professora, eu sou um homem honrado e...
--Deixe-a em paz! -- repetiu falando cada palavra enfaticamente
“É isso aí!” -- a costureira pensou
A filha do homem se aproximou e perguntou: -- Algum problema? -- não sabia sobre o que conversavam
--Eu estava pedindo a seu pai, -- olhou para a moça -- para não mais assediar dona Mari pois isso a está incomodando.
--Papai, que vergonha! -- olhou para ele de cara feia -- Passando por tarado na minha aula de balé!
--Mas eu não sou tarado! -- respondeu indignado
--É sim! Atração fatal! -- a costureira respondeu zangada -- Daqui a pouco vem com uma faca me matar e frita meu coelho na panela!
--A senhora cria coelho? -- Isa perguntou surpresa
--Ai, papai, depois de adulta o senhor me faz passar por uma dessas... -- cobriu o rosto
--Tudo bem, eu não virei mais aqui. -- passou a mão na cabeça calva
“Maravilha!” -- Mariângela sorriu animada
--Eu lhe seria grata! -- Isa afirmou com seriedade
--Papai, pelo amor de Deus, não me mata de vergonha e some daqui!
--Está certo... sei quando não sou bem vindo! -- deixou a caixa de chocolate sobre uma cadeira e se aproximou de Mariângela
“Ai, não, lá vem!” -- a costureira revirou os olhos -- "Logo hoje que eu não tenho nada pontiagudo dentro da bolsa!”
--A senhora fique sabendo, -- pigarreou -- que transformou uma coisa que podia ter sido muito linda num amor de verão! -- deu as costas e saiu
--Mas é inverno! -- exclamou sem entender aquilo
***
Lourdes olhava um antigo álbum de fotografias. Juliana saiu do banho, estendeu a toalha no varal e foi conversar com ela. -- Viajando no tempo? -- perguntou sorrindo ao se sentar ao lado da idosa
--É... -- olhou para ela sorrindo -- estou matando algumas saudades... Ou então revivendo-as, não sei... -- voltou a olhar para o álbum -- Depois de uma certa idade, uma pessoa guarda recordações demais...
--Ih, eu acho isso legal! -- apontou uma pintura -- Não é um retrato antigo que alguém pintou?
--Sim! Estes são meus pais!
--A senhora é muito parecida com sua mãe!
--Sempre me disseram isso. -- sorriu -- E eu tinha muito orgulho... mamãe era minha melhor amiga... pena que morreu tão cedo... Eu só tinha onze anos...
--Que pena. -- passou a mão na cabeça dela -- A senhora teve irmãos?
--Um só. Mas papai era muito carrancista. Tão logo José fez dezoito anos ele se alistou e sumiu no mundo. Nunca mais soube dele. -- virou mais algumas páginas -- Esta sou eu! -- mostrou
--Nossa, que gata! -- sorriu -- Está vestida de dama antiga, o que é isso?
--Eu queria ser atriz de teatro, mas naquela época isso era tido como coisa de prostituta. Tirei essa foto antes de encenar a única peça da qual participei na vida. -- suspirou -- Mas papai me deu uma surra e me proibiu de seguir a carreira. Pouco tempo depois eu estava casada e tampouco Valadão quis saber de ter mulher atriz.
“Coitada de dona Lourdes...” -- a japonesa pensou sentindo pena dela
--Esse é meu marido e esse aqui é nosso filho Juninho. -- mostrou -- O pai de Gisele.
--Era uma criança bonita. E seu marido era um tipão, viu? -- mexeu com ela
--Valadão era... as mulheres davam em cima dele mas eu nunca soube de aprontar nada. Se fez alguma coisa foi muito discreto. E meu filho... não sei dele há anos... -- virou mais uma página -- Aqui foi no casamento de Juninho. E essa foto aqui é de Gisele neném.
--Ah, que fofinha! -- exclamou -- "Quem diria que uma criança tão lindinha iria virar uma serviçal de termas sem coração!” -- pensou enquanto balançava a cabeça
--Aqui foi nos quinze anos dela. Olha como estava linda!
--É verdade...
--Que pena... -- passou a mão sobre a fotografia -- Podia ter sido tudo tão diferente... -- olhou para Juliana -- Nós satisfazíamos todas as vontades dela, era tudo como queria, a tempo e a hora... Veja no que deu! Ela se transformou em uma pessoa vazia, magoou tanta gente e ainda morreu de um jeito horrível...
--É, dona Lourdes... às vezes por muito amar os pais e a família acostumam as crianças muito mal. Eu vejo cada coisa no hospital que fico besta!
--Não sabe como me arrependo... -- fechou o álbum -- Eu devo ter estragado meu filho também, haja visto como foi tão irresponsável... Largou a família, sumiu no mundo e nunca mais deu um telefonema sequer!
--Não se martirize com coisas que não pode mais mudar. -- deu um abraço nela -- Não se castigue dessa forma!
--Escute uma coisa, filha! -- olhou para Juliana -- A vida não é como uma peça de teatro que você ensaia até ficar bom. Cada cena nesse palco onde estamos é única e nunca mais se repetirá. Tem que fazer bem feito logo de primeira, fazer o melhor que puder, pois depois que passa não tem retorno. -- segurou o rosto dela -- Você é uma boa moça mas às vezes se exalta demais com coisas bobas. Nem sempre poderá voltar atrás e se desculpar. Tente cuidar mais de suas palavras e pensar melhor antes de explodir.
--Está dizendo isso por que briguei com Suzana ontem? -- perguntou encabulada
--Você foi muito rude com ela...
--Ah, mas... -- levantou-se -- Ela trabalha demais, eu trabalho demais e nos nossos tempos livres ela ainda me inventa de ir atrás de engenheiro de mapa pra ficar estudando um papel encardido que uma louca entregou na porta da delegacia...
--Filha, você também não usa uma parte do seu tempo livre comigo? E o seu trabalho voluntário?
--Ah, mas nós moramos juntas é diferente... e o trabalho voluntário são só duas vezes por mês. Suzana sempre me dá uma calça arriada... E quando inventa isso de motoclube eu fico doida! Sede de Sangue... eu que fico com sede de sangue!!!
--Bem, já lhe disse minha opinião. -- levantou-se e pegou o álbum -- Ultimamente vocês têm brigado demais.
--A gente sempre teve um relacionamento meio... explosivo. -- passou a mão nos cabelos
Lourdes andou até a estante e pôs o álbum dentro dela. -- Mas agora está explodindo com vontade e freqüência considerável... -- riu
--Sabe o que é, dona Lourdes, eu não vou mentir... cada vez eu me envolvo mais e não sinto dela muita firmeza...
--Por que Suzaninha não fala em se casar com você? -- olhou para a japonesa
--É... -- abaixou a cabeça
--Por que não toca nesse assunto com ela? Ouça o que ela pensa a respeito.
--E se eu disser que tenho medo da resposta?
--Você?? Com medo de alguma coisa?? Ah, não... Não é a Juliana que eu conheço...
--Pior que é verdade... -- olhou para ela -- Mas um dia, talvez, eu aborde o assunto. Se depender daquela ali acho que não falaremos nisso nunca!
--E não vai procurá-la pra se desculpar por ontem?
--Ah, não! Falei desaforo mesmo praquela índia nhambiquara e tá falado! Eu não sou tão elevada assim e minha fofura tem limites! Se Suzana quiser, ela que venha aqui me pedir arrego! Eu hein? Preferir ficar com um macho barbado e horroroso vendo um papel encardido, podre, sujo de barro, do que ficar comigo? Ah, não! Aí já é querer muito de mim! -- falou desaforada
Lourdes riu.
18:20h. 09 de agosto de 2002, Aeroporto Internacional do Galeão, Rio de Janeiro
Ed e Isa chegavam no aeroporto. A morena vinha empurrando um carrinho com duas malas grandes e uma pequena, enquanto a ruiva trazia sua bolsa tira colo.
--Isa, aquela ali pulando não é sua mãe? -- perguntou intrigada
--E não é? -- tirou os óculos escuros
--Meu bebê, minha estrela Dalva!! -- Ana enforcou a filha em um abraço de urso -- Ai, que emoção! -- segurou o rosto dela com as duas mãos -- E lá vai você mais uma vez mostrar tudo no exterior!! -- sorriu -- Deixe esse povo admirar sua faceta bailarina!!
--Ôpa, mostrar tudo, não, dona Ana! Péra lá... -- Ed brincou fingindo seriedade -- E quanto a ‘faceta’ dela que fique muito bem guardada... -- sentiu um tapa no braço -- Ai!
--É cada uma que você me inventa, mãe... eu, hein, que papo é esse de faceta? -- a bailarina respondeu encabulada enquanto se libertava das mãos da mãe que esmagava suas bochechas
--Eu não invento nada, meu amor, é o seu talento pulando pra fora! -- olhou para a mecânica -- Seyyed, minha filha é uma estrela que só faz brilhar! Uma mulher polivalente, que sabe dançar de um tudo! Desde pequena ela vive mostrando a faceta de sua arte por aí!
--É sério, isso, ruiva? -- olhou para a amante -- Ah, mas eu quero o divórcio!! -- continuou brincando e levou mais outro tapa no braço -- Ai!
--Olha só, gente, vamos deixar minha faceta quietinha que ela está muito bem assim. -- colocou os óculos na cabeça
--Filha vai fazer check in e volta pra cá. Eu e seu pai estamos sentados ali! -- apontou
--Nossa, aquele ali é meu pai?! -- perguntou surpresa -- Nem reconheci!
--Ele emagreceu um pouco... Depois que despacharem as malas vá dar um beijinho nele, meu amor. Anselmo se queixa de que nunca mais a viu desde que saiu de casa.
-- Como nunca mais me viu? Ele foi me ver dançar no último espetáculo... -- respondeu chateada
--E você nem o cumprimentou direito. Eu estava lá, lembra?
--Tá mãe, eu vou pensar no caso dele... -- respondeu impaciente. Olhou para Ed -- Vamos fazer o check in? -- pediu
--Agora! -- empurrou o carrinho em direção a fila. Ficaram paradas aguardando a vez -- Não seja tão dura com seu pai, Isa... -- a mecânica falou com delicadeza -- Está confundindo as coisas... Ele é o homem de sua mãe e seu pai. A traição dele é problema do casal, você não entra nessa história.
--Você não se lembra dos desaforos que ele me disse naquele dia, não? -- perguntou chateada
--Isso é passado, minha gata. -- beijou a testa dela -- Além do mais você sabe que ele tá deprimido, anda mal das pernas no trabalho, perdeu peso...
--Claro, levou um pé da ‘fofucha’! -- falou com deboche
--Fala com ele quando a gente sair dessa fila... Por mim, vai? Dá um abraço nele e um beijinho. Não te custa nada... -- olhou para ela
A ruiva cruzou os braços e fez um bico. -- Tá bom, Ed. Só porque você tá pedindo...
A morena aproximou-se do ouvido dela e sussurrou: -- Se não estivéssemos em público eu saberia como desmanchar esse biquinho lindo...
--Deixa de ser safada, tá? -- deu um tapinha no braço dela e sorriu mordendo o lábio inferior
--Não vale a pena guardar mágoas... -- deu beijo na bochecha dela -- Veja o meu caso por exemplo. Mal chego no aeroporto fico sabendo, pela boca da minha própria sogra, que você vive mostrando a faceta por aí, pra todo mundo ver e desde criancinha... nem guardei mágoa... -- sorriu
--Palhaça! -- ela riu
***
Camille havia acabado de almoçar com Mariângela, Olga e Mariano em um restaurante na Ilha do Governador. Aguardavam o garçom trazer a conta.
--Ai, meu amor, estou tão orgulhosa de você! -- Mariângela afirmou emocionada -- Eu não entendi nada mas sua defesa de fim de curso foi um espetáculo! Ficou todo mundo de boca aberta e quase nem te mandaram consertar coisa alguma!
--Eu também fiquei orgulhoso! Notei que sua orientadora quase soltava foguetes!
--Também não entendo dessas coisas mas notei que você impressionou, Camille. -- Olga concordou
--Ah, é que... -- sorriu encabulada -- Não é comum que os alunos apresentem casos reais onde eles tenham uma participação... relevante...
--Isso não é pra qualquer um, meu bem! -- Olga disse -- Não mesmo!
A loura ficou olhando para eles e de repente sentiu vontade de desabafar. -- Sabe, eu... acho que finalmente entendo o que todas aquelas pessoas que conheci no ginásio diziam sobre os acidentes terem mudado suas vidas. Não é que seja bom se acidentar e ficar sem um braço, uma perna, não é isso... É que às vezes é preciso que alguma coisa traumática aconteça pra que a gente dê valor às coisas, ao que realmente interessa... -- pausou -- Hoje eu vejo o quanto era esnobe, metida, arrogante, o quanto me sentia dona do mundo! -- riu brevemente -- Como eu era iludida... Depois de perder uma perna e quase morrer por minha própria culpa, fui aprendendo aos poucos a dar valor aos tesouros que estavam diante de mim o tempo todo e eu não via. Depois de muito sofrimento eu aprendi que “coisas que não custam nada são as mais caras. Elas nos custam o esforço de entender porque são de graça.”23
--Filha, que coisa linda! -- Mariângela estava boquiaberta
--E eu queria agradecer a todos vocês... -- lágrimas aos poucos rolavam-lhe pelos olhos -- por nunca terem me abandonado, por nunca terem desistido de mim, mesmo quando eu fazia as maiores ignorâncias e era ingrata. -- pausou -- Eu te agradeço muito, mãe, -- olhou para ela -- por ter sido sempre uma mulher incansável lutando a meu lado, e te agradeço muito, tio -- virou-se na direção dele -- por ter me adotado como filha do seu coração e também devo lhe agradecer muito, dona Olga -- olhou para ela -- por ter me aberto tantas portas e por ter mudado a vida da gente com sua presença sempre tão marcante. Gostaria de pedir perdão a vocês três por todas as vezes em que fui uma grossa e dizer que, apesar de ainda ter muitas dúvidas e angústias no meu coração, de hoje em diante eu vou me esforçar ao máximo pra ser uma pessoa melhor!
Os três não sabiam o que dizer, dada a emoção que sentiam e a felicidade em ver que finalmente aquela jovem parecia disposta a cumprir com o destino que cabe a todo ser humano: ser feliz.
Nesse momento o garçom chega com a conta e a entrega a Camille: -- O que??????? -- arregala os olhos -- Isso aqui tá errado, meu! -- reclamou furiosa
--O que houve, senhora? -- o garçom perguntou sem graça. Mariano, Mariângela e Olga tinham pontos de interrogação na cabeça
--Vocês registraram cinco cervejas!! -- olhou para ele de cara feia -- Tá maluco, meu? Viu alguém enchendo a cara aqui?? E ainda colocaram que a gente pediu cheesecake! Eu odeio esse doce, não suporto nem sentir o cheiro!!
--Calma, menina! -- sua mãe pediu
--Que calma, nada! -- olhava furiosa para o garçom -- Ou vocês consertam isso aqui ou vai dar treta!! Vocês vão ver cenas de destruição nesse restaurante!!
--Calma, senhora! -- o garçom pegou a conta de volta -- Nós vamos resolver esse equívoco agora mesmo. -- afastou-se da mesa quase correndo
--Eu hein? -- ela resmungava -- A gente sai pra comemorar e se aborrece! Eu aqui toda sentimento e esse safado me dá uma dessas! Ô louco, que merd*! Puta que pariu!
--Camille, olha a boca! -- Mariângela e Mariano ralharam ao mesmo tempo
--As mudanças sempre são graduais... -- Olga disse enquanto ria
***
Juliana se dirigia ao estacionamento do hospital quando uma mulher negra, regulando sua idade, vem abordá-la. -- Enfermeira Juliana?
--Sim? -- olhou desconfiada -- "Não me diga que é mais gente da parte daquele maldito velho querendo me matar?” -- pensou
--Meu nome é Selma. Eu sou repórter e gostaria de saber se teria um minutinho pra conversar comigo.
--Repórter? Eu, hein? -- olhou para o relógio -- Olha só, moça, está tarde, estou indo pra casa e não tenho tempo pra ficar conversando, você me perdoe. -- continuou andando
--Não fique tão desconfiada. -- ela seguia atrás -- É que estava aqui no dia em que você chamou o candidato Milton Lopes à real e achei o máximo!
--Humpf, aquele cara de cachorro? Foi bom pra ele ter visto o que é um hospital. E melhor ainda por ter sido batizado com vômito de criança!
--Eu sou de um partido político que está começando com uma proposta nova! Somos o PCons, Partido da Conscientização. Veja só! -- estendeu a ela um prospecto do partido
Juliana pegou o papel e leu algumas linhas. “Tenho que despachar essa mulher porque não quero entrar no carro com ela do meu lado. Vai que isso é golpe e tem mais gente esperando pra me seqüestrar?” -- pensou alarmada e parou de andar -- Selma, eu não sei porque está me abordando pra falar de seu partido mas eu não suporto política! -- olhou para ela -- É tanta pouca vergonha, tanto roubo que eu...
--Mas a proposta do nosso partido é fazer algo diferente! Tudo começou com um sonho de meia dúzia de patriotas entusiastas e agora conseguimos formar um partido! Nós não temos candidato pra essas eleições 2002 mas prepararemos as pessoas pra 2004. Estamos garimpando gente que pode fazer a diferença, gente honesta, gente comprometida com o que faz e você me chamou a atenção!
--Eu?! -- riu -- Ah, minha filha, escolheu a pessoa errada! -- devolveu o papel à repórter -- Agora, se me dá licença, tenho que ir embora. -- voltou a andar -- E não venha andando atrás de mim! -- pediu sem olhar para trás
Selma ficou parada vendo a japonesa se afastar. -- Ah, não, Juliana, você tem muito potencial e carisma! Não vou desistir tão fácil... -- disse para si mesma
***
Ed e Isa entravam no quarto do hotel após os eventos da estréia do espetáculo na Alemanha.
--Uff, que cansaço! -- a morena tirou os saltos dos pés -- E esses sapatos estavam me matando! -- fez careta -- Qual o nome do infeliz que inventou os saltos altos, hein? Quero rogar uma praga das mais medonhas nessa criatura!
--Amor, foi tudo maravilhoso, mas tem horas que enche o saco, viu? -- sentou-se na cama aborrecida -- Eles só tinham olhos pra Ana Fluminense!
--Isso é natural, Isa. -- tirou o vestido e ficou apenas de roupa íntima -- Afinal ela é Primeira Bailarina há tempos e o nome mais conhecido no país quando se pensa em dança.
--Ah, mas só dá ela? -- estava revoltada -- Todo mundo fez bonito mas na hora das honrarias só dá ela? Os holofotes banhavam ela o tempo quase todo... -- tirou os sapatos e os arremessou com ódio no chão
--Isa... -- Ed olhou para ela surpreendida -- Está com inveja do sucesso da Ana?
A ruiva corou ao ouvir aquilo. -- Inveja? -- levantou-se revoltada -- Você fala cada idiotice! -- foi para o banheiro e fechou a porta
A morena pegou um short e uma blusinha no armário e esperou a outra sair do banheiro. Quando saiu, ela entrou e foi tomar banho. Não se falaram.
“Acho que Ed ficou magoada comigo...” -- pensou arrependida -- "Falei com ela com muita rispidez...”
Quando a morena saiu do banheiro Isa foi até ela e a abraçou por trás. -- Perdoe por minha grosseria... -- beijou o ombro dela -- Perdoe, por favor...
A morena virou-se de frente para ela. -- Está perdoada. -- beijou-a -- Vem aqui. -- sentou-se na cama e colocou-a em seu colo -- Escuta uma coisa, ter ambição não é ruim, mas tudo em excesso é veneno. -- acariciou o rosto -- A Ana não é uma pessoa pra você invejar, mas para admirar. Ela não chegou onde está à toa, ela batalhou muito e hoje colhe os frutos desse trabalho. Você é jovem e já tem um currículo invejável. Poucas são as bailarinas que sabem o que você já viveu e vive. Um dia, você será como a Ana Fluminense, mas pra isso tem que trabalhar com a garra que tem mostrado até agora e ter paciência. Não a inveje e nem a ninguém e não persiga as luzes dos holofotes, pra que não te aconteça como os insetos, que de tanto orbitarem ao redor das luminárias morrem torrados e cegos.
--Eu sei... -- estava envergonhada
--Não estou humilhando você. -- beijou-a -- Só não quero que se deixe contaminar por uma ambição negativa. Fama, sucesso, tudo isso passa, meu bem...
--É, eu sei que fui... invejosa... -- olhou para ela -- Está muito decepcionada comigo?
--Eu não quero que seja perfeita porque também não sou. -- beijou-a -- Só não quero que fique mostrando sua faceta por aí. -- brincou
--Hum, mas você cismou com isso!! -- riu e mordeu o lábio inferior da morena -- Esquece essa história de faceta!
--O que? Esquecer dessa faceta aí? -- mudou as posições e deitou-se sobre ela -- Impossível! -- beijou-a
--Hum... -- beijou a amante apaixonadamente e se entregaram a um gostoso amasso
***
Priscila chegou em casa e se surpreendeu com a imagem de Tatiana estática com o telefone fora do gancho. Como pano de fundo Lady gritava e chorava em desespero.
--Minha nossa, mas o que acontece nessa casa?? -- perguntou espantada -- De lá de fora ouvi os grunhidos de Lady! Pensei que era alguém morrendo nesse prédio!
--Ela terminou com Marquinhos... -- Tatiana falava como se fosse um robô
--Ai,ai,ai,ai,ai,ai... tanta dedicação, tanto amor, pra que? Pra nada, meu Pai, pra nada, ai, ai,ai... -- Lady berrava
--Ela terminou?? -- perguntou surpresa
--Apareceu uma mulher mãe de trigêmeos pedindo pra fazer DNA e Lady desistiu do casamento... -- Tatiana continuava bestificada
--Trigêmeos?? Meu Deus, a ninhada daquele bisco já subiu pra oito filhos?? -- Priscila perguntou em choque
--Ai,ai,ai,ai,ai,ai... fiz tanta limpeza, passei tanta roupa, pra que? Pra nada, meu Pai, pra nada, ai, ai,ai... -- Lady berrava
--E você, hein? -- foi até ela e tirou o telefone de sua mão colocando-o no gancho novamente -- Que aconteceu contigo que tá igual a uma pomba lesa parada no meio da sala? -- pôs as mãos na cintura
--Não sabe do que aconteceu... -- balançou a cabeça desanimada
--Minha nossa, o que foi que aconteceu? -- estava preocupada
--Elas vêm aí...
--Elas, quem?? -- Priscila não entendia nada
--Ai,ai,ai,ai,ai,ai... fiz tanta comida, lavei tanta roupa, pra que? Pra nada, meu Pai, pra nada, ai, ai,ai... -- Lady berrava
--Ô, mas que lamento dos infernos!! -- Priscila gritou -- Lady, -- virou o rosto na direção do quarto da outra -- pelo amor de Deus, cala a boca!!
--Você vai sentir saudades desse lamento quando elas chegarem... -- Tatiana afirmava profética
--Elas quem??? -- Priscila já estava impaciente -- Com quem você falava ao telefone?
--Com mamãe, e ela me deu uma notícia bombástica... -- seu olhar estava perdido no infinito
--Tatiana, se você continuar com esse suspense eu juro que...
--Ai,ai,ai,ai,ai,ai... eu me doei toda por amor, pra que? Ai, ai, ai, que a dor abunda no meu peito... -- Lady berrava
--Elas vêm aí, Priscila... -- olhou para a amiga -- As verdadeiras, as originais, as caipiras de Pau d’Arco...
--O que???????????? -- Priscila deu um berro
--Elas ficaram sabendo que me formo no final desse ano e como não poderão vir na formatura, decidiram que passarão uns dias aqui em casa comigo; quer dizer, conosco... -- continuava em estado de choque
--Mas... -- pôs as mãos na cintura -- E elas chegam quando???
--Ai,ai,ai,ai,ai,ai... quando que isso vai acabar? Quanta dor, quanto sofrimento... -- Lady berrava
--Setembro... eita, mês fatídico...
--E quantas são???
--Três, mas são uma verdadeira legião...
--Ah, Tatiana, me perdoe mas vão dormir todas no SEU quarto! Não quero nenhuma dessas doidas dividindo espaço comigo!
--Elas são espaçosas, amiga... Você entenderá quando for a hora...
--Eu devo ter feito algo de muito ruim em outra vida, viu? -- foi indo para seu quarto -- Aturar esse pelotão de malucas e mais Lady gem*ndo noite e dia no meu ouvido é uma prova muito pesada pra uma mulher só!
***
Isabela estava deitada de bruços na proa de uma lancha tomando sol. Seyyed sai de dentro da água e se deita a seu lado. -- Vidão, hein? -- sorriu
--Eu tô simplesmente amando essa lua de mel no Egito! -- a ruiva afirmou sorrindo ao virar o rosto na direção da outra
--Pois é... começamos com dias de cultura e poeira na turbulenta cidade do Cairo e agora estamos aqui tomando banho nessa maravilha que é o Mar Vermelho...
--Não se cansa de nadar? Parece até uma sereia...
--Adoro o mar e Sharm el-Sheikh é o que há! -- sorriu -- Eu vou morrer endividada depois dessa mas vai valer pena passar fome por esses momentos com você no paraíso... -- brincou
--Não seja boba! -- deu um tapinha no braço dela -- A única pena é que neste país eu não posso quase nem te tocar direito...
--Em público, não, mas no hotel... -- piscou para ela -- E de mais a mais a gente tem se curtido todas as noites. -- olhou para o céu -- E muito obrigada por ter adiantado nossos momentos sanguíneos pra semana anterior...
--Ai, nem me fale, isso foi presente mesmo... -- concordou
-- Ontem, enquanto você dormia, eu papeei um pouco no MSN com mamãe. Ela me disse que tudo está bem com eles, que Renan tem dado conta do recado e que Camille se formou super bem. Vai colar grau no começo do mês que vem!
--Boas notícias... -- respondeu pensativa -- Sabe, Ed... eu sou muito desconfiada com aquela garota...
--Sob que aspecto? -- olhou para ela espantada
--Acho que Camille se apaixonou por você...
--Que é isso, Isa? -- perguntou rindo -- Ela sente é gratidão, é super comprometida com o trabalho, mas Camille não tem nada de lésbica!
--Como pode afirmar com tanta certeza, hein?
--Ah, não... isso é viagem sua!
--O jeito como te olha...
--Admiração, só isso! E mudou muito porque antes ela me odiava! -- revirou os olhos
--Acho que ela nunca te odiou...
--Eu, hein, Isa? -- balançou a cabeça
--Seja lá como for, que ela saiba que eu cheguei primeiro é o que me interessa.
--Relaxa... eu não sou como umas e outras que saem mostrando tudo por aí e deixam suas facetas expostas pro povo admirar... -- brincou e levou um tapa no braço -- Ai! Essa doeu... -- esfregava o braço
***
Olga seguia um enfermeiro apressado pelos corredores do hospital da Aeronáutica. -- Ali está ele, senhora. -- apontou para um rapaz tristonho que olhava para a janela e foi embora
Ela estarreceu de surpresa ao vê-lo mas fez um esforço para não demonstrar isso. Caminhou até ele e chamou com delicadeza: -- Silvio?
--Dona Olga! -- mostrou um sorriso triste -- Como fico feliz por ter vindo!
Silvio estava magro, com algumas feridas nos lábios e o rosto pálido.
--Querido. -- buscou a mão dele -- O que há com você?
--Não me toque, dona Olga! -- escondeu as mãos apavorado -- Deus me livre lhe contaminar! -- pausou -- Estou com AIDS...
--E AIDS não se transmite assim. -- segurou a mão dele com gentileza -- O que tem sentido pra ter sido internado? Está aqui há muito tempo?
--Uma semana... -- suspirou -- Eu tive uma crise de vômitos e diarréia e por isso vim pra cá. Foi um desespero, vim sozinho... Trouxe praticamente nada. -- pausou -- Não estou mais vomitando mas ainda não melhorei do intestino. Nem tenho idéia de quantos quilos perdi.
--E como se descobriu soropositivo? Foi aqui? Tem certeza de que é realmente isso? -- perguntou preocupada
--Eu andava me sentindo mal há tempos mas a gente nem pára pra pensar que pode ser alguma coisa séria... E sabe como é homem, não se cuida... -- pausou -- Um médico me passou uns exames e foi aí que descobri. Não sei se foi psicológico mas piorei muito depois de saber.
--E como se sente agora?
--Péssimo... -- silenciou e olhou bem para ela -- Quando o pessoal do hospital me pediu telefones de contato eu só conseguia me lembrar do número da oficina de Ed e do seu... Os dois únicos números de telefone que estavam vivos na minha cabeça... -- pausou -- Tive vergonha de pedir pra ligarem pra Ed, mas tive esperança de que a senhora viria se lhe chamassem... -- sorriu
--E por que não viria? -- sorriu também
Após uns minutos de silêncio ele pediu: -- Dona Olga, eu preciso de sua ajuda! Por favor, eu preciso muito da senhora!
--No que eu puder lhe ajudar... -- ofereceu
--Preciso que vá a minha casa. -- soltou a mão dela e com muita dificuldade abriu uma gaveta na mesinha ao lado. Procurava alguma coisa -- Preciso que pegue meu caderno de telefone que está dentro do meu armário e procure o telefone do meu tio, com quem meu pai mora. O nome dele é Onofre. Preciso também que procure, está em alguma página, o nome de uma garota chamada Vitória. É muito importante... -- encontrou um molho de chaves e pôs na mão dela -- A chave da porta é essa maior. A senhora sabe meu endereço. -- falava como se estivesse muito cansado
--Pode deixar. -- apertou as chaves nas mãos -- Como é esse caderno?
--Tem uma mulher nua na capa sentada numa moto.
--Vou me lembrar disso... -- riu
--Preciso pedir perdão a meu pai. Preciso pedir perdão a Vitória... -- começou a chorar de forma contida -- Tive um filho com ela... eu nem sei o nome do moleque... -- olhou para Olga -- Ela trouxe ele pra eu ver, mas eu não quis nem olhar o rostinho do bebê... Ah, dona Olga, se soubesse como me arrependo... Eu disse coisas terríveis a Vitória, coisas que machucariam muito a qualquer mulher... -- passou a mão nos olhos -- Preciso pedir perdão a Seyyed e preciso pedir perdão a senhora... Eu devo muito às duas e fui um ingrato!
--A mim não deve nada. -- secou as lágrimas dele
--Perdoe-me!
--Eu não tenho raiva ou rancor de você. Não há o que perdoar. Quanto a Seyyed, ela está viajando, mas quando voltar certamente virá lhe ver. E ela também não lhe guarda mágoas.
--Pede pro Renan vir me ver? -- pediu como se fosse um menino
--Ele virá, meu bem...
--E por favor, dona Olga. Procure meu pai e Vitória o quanto antes, porque não tenho muito tempo. Tenho certeza de que não saio daqui com vida.
--Que é isso, rapaz? -- perguntou com tristeza
--Chegou minha hora, dona Olga. Eu estava iludido e perdi tempo demais... agora ele me falta.
***
Olga foi para a casa de Silvio e encontrou o caderno apesar da bagunça do armário dele. Conseguiu falar com Romeu e o pai do mecânico se propôs a vir para o Rio logo no dia seguinte. Com muita dificuldade encontrou o telefone de Vitória e descobriu que ela não morava mais com os pais. Um homem rude simplesmente informou que ela trabalhava na C&A da Tijuca e que não saberia dizer nada mais.
No dia seguinte, Olga encontrou com Romeu e assistiu ao emocionado reencontro de pai e filho. Renan também foi visitá-lo e os dois conversaram muito.
Romeu ficou direto no hospital com o filho e Olga procurava por Vitória sem sucesso. Ela não trabalhava mais na C&A e não quiseram lhe passar informações sobre a moça.
--O que houve, minha querida? -- Mariano perguntou enquanto lanchavam no final do dia
--Estou pensando em como encontrar Vitória... -- suspirou -- A família não sabe dela e eu mal consegui que me dessem cinco minutos de atenção ao telefone. Enquanto isso na loja em que trabalhou ninguém me disse nada, nem o sobrenome da moça. Soube apenas que saiu de lá.
Mariano sorriu e balançou a cabeça. -- Olga, você se importa demais com os outros, cuida demais dos outros. Se não consegue encontrar a moça o que pode fazer além de rezar pra Deus lhe ajudar? Silvio faz as bobagens e depois vem dar trabalho pra você?
--Isso é uma coisa muito séria, querido. Ele não pode morrer sem ver o menino e sem pedir perdão a moça! Seria triste demais!
--Castigo muito do bem merecido pra ele. -- terminou de comer -- Eu sou homem e nem por isso me dei ao direito de sair por aí trans*ndo a torto e a direito. Quem mandou ele fazer tanta besteira?
--Mariano, não seja tão duro! Ele não precisa de nossa condenação, já está sofrendo o suficiente! -- respondeu um pouco chateada -- Além do mais eu conheço aquele menino há tanto tempo...
--Um ex drogado! -- Mariano a interrompeu -- Um ex viciado em quem vocês confiaram demais e ele sacaneou.
--Isso é passado!
--E por ser passado a gente age como se nunca tivesse acontecido? -- perguntou chateado
--Mariano, essa moça pode estar com a doença e o menino também! Não pensa nisso?
--E isso é problema nosso, Olga?
--Não é por aí, Mariano!
--Olga, quer saber? Eu acho que você cuida dos outros demais! É Juliana, é dona Lourdes, é Silvio ou qualquer um que venha a bater em sua porta! O que pretende com isso? E quanto a nós? Por que não cuida de mim também? -- estava se exaltando
--E por acaso não lhe dou atenção? Tanto você quanto sua família têm minha atenção e sabe disso!
--Tenho sua atenção no tempo que te sobra, não é, Olga? Você está sempre metida em alguma coisa. Seja no centro, seja cuidando da vida de alguém... O que pretende com isso? Pensa que vai virar santa? Pensa que vai ser canonizada?
Olga terminou de comer e olhou seriamente para ele. -- Eu sou assim, goste ou não, e já era assim quando me conheceu. Se isso te incomoda tanto não deveria ter se casado comigo. E chega dessa conversa pois você já está se exaltando e eu não quero perder a cabeça e lhe dizer coisas que me fariam me arrepender depois. Já basta o que estou ouvindo de você. -- levantou-se e levou sua louça para a pia
Mariano esfregou o rosto e se levantou. Olga lavava a louça e ele parou ao lado dela.
--Olga, por favor, me perdoe pelo que eu disse... -- pediu constrangido
--Tudo bem, Mariano. -- terminou de lavar e colocou a louça para escorrer
--Eu... me sinto... -- pausou -- Eu acho você uma jóia rara, Olga... tenho ciúmes, me perdoe...
Ela olhou bem para ele. -- Não precisa ter ciúmes. Você é meu homem e não o coloco de lado. Só que... é mais forte do que eu, querido. Eu não consigo não me importar...
--É porque você é uma pessoa maravilhosa!
--Eu não sou maravilhosa, homem! -- respondeu quase gritando e pausou para se acalmar -- Já sofri muito, Mariano... Eu sei como é se sentir sozinha, abandonada... Quando tive que sair de casa eu era jovem, ingênua, pobre... Tantos homens quiseram me prostituir e ganhar dinheiro com meu corpo... -- olhou para ele -- Não sabe o que já fiz no passado... E eu também não fui honesta sempre! Já roubei pra ter dinheiro e mais de uma vez... Eu não tinha nada e precisava comer! Eu dormia na rua, debaixo de viadutos... -- apoiou-se na pia com as duas mãos e abaixou a cabeça -- Seyyed é uma pessoa maravilhosa, porque ela sempre foi como você a conhece; não eu! Não tenho coragem de lhe contar tudo... -- olhou para ele de novo -- Não julgo a ninguém porque por muitas vezes fui julgada e sei o quanto isso é horrível. Silvio errou, mas quem não erra? E agora ele está morrendo... -- emocionou-se -- Eu não consigo ser indiferente ao sofrimento, Mariano. Há muito tempo eu não consigo...
--Tudo bem, querida. -- abraçou-a -- Tudo bem... eu não me importo com o que fez no passado, seja lá o que for! E vou ajudar você a encontrar essa moça, tem minha palavra. -- beijou a cabeça dela
***
Flávia fazia fisioterapia em Camille.
--Eita lelê, maluquete! -- ela exclamou orgulhosa -- Tua peruca tá cheia de força! Tô gostando de ver! Tá dominando no uso da perna! Tua desenvoltura me surpreendeu, sabia?
--Tá pensando o que, meu? Que só você é descolada? Eu já fui lesadinha mas hoje sou outra mulher! -- brincou
--Tô vendo... Olha aí dona Mari! -- olhou para a costureira -- Foram dar poder a essa mulher e olha o resultado: ficou mais abusada do que eu! -- Mariângela riu enquanto colocava um carretel de linha na máquina
--Daqui a pouco eu colo grau e tiro meu CREA. Aí ninguém mais vai me segurar! -- continuava brincando enquanto movimentava a perna
--Agora vamos cuidar das mãos, loura Belzebu. -- abriu a mala -- E tome de pegar agulha... -- riu
--Minha diferença é só essa... odeio essas agulhas! -- sentou-se de cara feia
--E as aulas de boxe, Flávia? Saem ou não saem? -- Mariângela perguntou curiosa. Enfiava a linha no buraco da agulha
--Falta pouco, dona Mari. Só tenho que resolver uns probleminhas técnicos e tudo se resolverá.
--Ai, mãe, não me diga que agora também pensa em fazer aulas de boxe? -- perguntou indignada -- Ai! -- sentiu uma agulha ser introduzida
--E por que não? -- respondeu decidida -- Agora que você trabalha eu já não preciso mais costurar como louca. Posso fazer coisas diferentes. E eu me interesso por isso de saber me defender!
--Humpf! Bailarina e boxeadora... Ai! -- reclamou da outra agulha
--Maluquete, deixa ela. Ela já ralou demais a vida toda. Agora é você que vai ralar e vai dar um refresco pra tua mãe loura. E tome agulha! -- espetou mais uma
--Ai!
--Isso dói mesmo, Flávia? -- a costureira perguntou intrigada
--Que nada! Se introduzida nos pontos certos elas não doem. O problema é que a maluquete sente a dor antes mesmo da agulha espetar! -- riu
--Ah, tá... eu que sei o que sinto com essa tortura chinesa!
--E o namorado, Flávia? -- Mariângela continuou perguntando
--Ô louco, mãe, olha a indiscrição! -- Camille não gostava de tocar nesses assuntos para que ela não entrasse na berlinda em algum momento
--Tudo muito bem, dona Mari. Brito é um cavalheiro! Homem de decisão, sabe? E é um companheiro muito bom. Me deu uma tremenda força quando perdi pra tarada do boxe lá no Japão.
--Que bom! -- respondeu
--E eu achando que Fábio era a melhor coisa... -- riu -- Fábio tinha medo de rato, Brito mata os bichos com as próprias mãos... ou pés, se for barata.
--Cruzes, matar rato com as mãos, ô louco! -- Camille disse horrorizada -- Esse aí é doido que nem você! -- riu
--E você, loura Belzebu? Não namora por que?
--Eu também não entendo isso, Flávia!
“Eu sabia que ia sobrar pra mim...” -- pensou chateada -- Gente, olha... eu não tô pra namorar, tá bom? Já estou fazendo esforço demais pra recomeçar e ser uma boa menina, não venham me cobrar namorado, por favor!
--Relaxa loura... Na hora certa o homem certo aparece...
--Se Deus quiser minha filha vai namorar um bom rapaz e formar uma bela família. -- a costureira desejou. Ligou a máquina
Camille ficou pensando naquelas palavras. Todos os pais esperam por isso, que seus filhos encontrem alguém interessante e se casem para formar família. Nenhum deles espera que o filho ou filha se apaixone justo por alguém do mesmo sex*. “O que será que mamãe faria se soubesse de mim? Se soubesse que não estou interessada em homens de forma alguma? Se soubesse que na verdade eu amo Seyyed?” -- pensou com tristeza a ponto de nem sentir o tempo passar
--Olha aí, dona Mari. Tô tirando as agulhas e a maluquete nem se deu conta... -- Flávia riu
--Ah, eu estava aqui pensando na minha colação de grau e na burocracia que vou encarar pra tirar o CREA. -- mentiu
--Tudo no seu tempo, garotinha. -- tirou a última agulha -- De mais a mais, queria dizer umas coisas a vocês. -- olhou para as duas -- Eu seria muito desonesta se não dissesse que a loura já não precisa mais de mim. -- olhou para Camille -- Você está totalmente preparada para andar por seus próprios pés e as mãos estão muito bem. Conhece os exercícios e pode praticá-los a qualquer tempo. -- sorriu -- Eu sinto minha obrigação cumprida contigo, maluquete. Você nem de longe se parece com aquela Camille que eu conheci quando pisei nessa casa pela primeira vez.
--E eu devo muito a você por isso!
--Nós devemos. -- Mariângela se levantou -- Se soubesse como eu a admiro e como lhe sou grata, Flávia... -- sorria
--Sem muita emoção, louras! -- Flávia pediu brincando -- Quero chorar, não! E de mais a mais vocês não vão se livrar de mim. A gente mantém o contato e a senhora vai ser minha aluna mais cedo ou mais tarde mesmo... -- sorriu
--Dá um abraço, sua doida! -- Camille pediu
--Eu também quero! -- Mariângela veio para junto delas
--Vamos pular!!! -- Flávia gritou
As três mulheres se abraçaram e ficaram pulando no meio da sala.
***
--Ivone, minha filha, vou te contar uma que parece duas! -- Juliana disse
--O que foi? -- ela riu
--Tem uma repórter me perseguindo! E você nem adivinha porque!
--Não mesmo!
--Querem que eu seja política! Vê se pode? Eu?? -- apontou para si mesma -- Política? -- cruzou os braços
--Desenvolva o assunto... -- pediu curiosa
--Inventaram um tal de PCons, Partido da Conscientização, e os membros do partido andam por aí a caça de candidatos pra 2004. Aí uma repórter totalmente louca chamada Selma vive me perturbando pra eu me filiar ao PCons. Você acredita que ela fez uma verdadeira investigação sobre a minha vida? Sabe de tudo e mais um pouco sobre mim. Se bobear, sabe até o que eu comi no almoço!
--E como esta repórter chegou até você?
--Ah, minha filha... Você não sabe quem apareceu no hospital pra fazer campanha política!
--Quem?
--O safado do Milton Lopes! Chegou lá com uma barba que parecia até aquele bicho cabeludo da família Adams, fazendo tipo de homem santo, cercado de puxa sacos por todo lado e mais o diretor do hospital bajulando ele até dizer chega. Eu estava bela e formosa trabalhando, porque eu vou trabalhar muito da bem apresentável, diga-se de passagem, e ele veio fazer média comigo! -- riu -- Aí, Ivone, eu não conversei: peguei o lobisomem dos infernos pelo braço e fui mostrando o que é o Silva Avelar. Ele viu cada coisa que ficou até besta! Eu também falei umas boas verdades pra ele ouvir!
--Imagino que sim! -- riu
--No final, o cachorro do cão ainda levou uma vomitada certeira de uma criança que passava mal. Eu adorei! -- riu -- O diretor do hospital ficou louco! Parecia até que tinha pulga na cueca!
--E onde essa repórter se encaixa nessa história toda?
--Ela estava lá e viu tudo. Desde então não me dá sossego!
--E por que não pensa na possibilidade? O Brasil precisa de gente como você defendendo os interesses do povo em Brasília. Chega de tantos corruptos no poder! É hora de renovação! Junte-se aos políticos do bem!
--Ah, Ivone, eu não teria a menor condição de ser política, não! Quando eu visse aquele bando de gente corrupta, aprontando todas as sacanagens possíveis e imagináveis contra o Brasil e contra o povo eu iria rodar cada baiana magistral! Ia ressuscitar toda a fúria original do meu espírito e mandar geral tomar aqui e ali! Sabe o que ia acontecer no final? Eu ia meter um bom tapa nas fuças de algum safado, seria presa e passaria o resto dos meus dias esfregando uma caneca de alumínio nas grades da prisão!
--Juliana, nós precisamos de uma política assim! Alguém que faça a coisa certa e combata essa corrupção que nos assola! -- pausou -- Sem o detalhe do ‘tapa nas fuças’, é claro.
--Ah... não é pra mim... -- balançou a cabeça
--Acho que não custaria se você pelo menos estudasse a possibilidade.
--É, talvez um dia eu pense um pouco mais no assunto...
--E no mais, o que me diz?
--Tudo bem em casa, no trabalho é o de sempre, a droga é meu relacionamento com Suzana.
--Estão tendo problemas, querida? -- perguntou preocupada
--Ah, Ivone, a gente tem discutido muito, sabe? -- começou a mexer na alça da bolsa -- Até dona Lourdes me disse que nossas discussões estão freqüentes demais...
--E por que isso?
--Por várias coisas... -- ficou pensativa -- Eu fico muito chateada, sabe? Ela decide as coisas sozinha, me avisa em cima da hora, inventa umas saídas com o pessoal do motoclube... Eu dou o maior valor ao relacionamento, busco ficar a maior parte do tempo livre com ela, evito fazer as coisas que ela não gosta... Suzana não age assim! Ela parece que inventa coisa pra me aborrecer! E eu também não sinto muita firmeza nela. Nunca nem considerou a hipótese da gente se casar...
--Seu relacionamento com Suzana deixou de ser novidade e é natural que a rotina traga alguns contratempos. Pense bem se não está repetindo os mesmos erros que cometeu quando estava casada com Seyyed.
--Ah, não... Eu não faço cenas de ciúmes com Suzana como fazia com Ed, nem tem comparação. Também não sou dependente dela. -- pausou -- Dona Lourdes disse que eu, ainda assim, me apego demais.
--Concordo com ela. -- pausou -- Juliana, você precisa aprender que as pessoas não são suas; elas apenas estão com você. Também precisa descobrir as diferenças de expectativas entre você e Suzana. O que você espera de alguém que seja o seu par? O que ela espera? Aliás, você precisa conversar com ela sobre o que te incomoda, sobre o que você sente...
--Suzana é pior que homem, Ivone. Ela não fala dos próprios sentimentos e não gosta de conversar sobre a relação. Eu fico sem espaço pra trazer esses assuntos!
--Já tentou?
--Já! E aí a gente acaba brigando e depois faz as pazes na cama sem resolver nada.
--Diga-me, se ela se casasse com você, o que acha que iria mudar?
--Eu me sentiria mais segura.
--Casamento não garante nada, Juliana. Ninguém tem garantias nessa vida. O negócio é viver e fim!
--Sei que você tem razão, mas... eu não sinto assim.
--Já parou pra pensar que Suzana pode ter medo de se casar com você por medo que o casamento seja o início do fim? Muitas pessoas sentem esse pânico em relação a compromissos sérios.
--Eu não sei o que ela pensa... realmente não sei.
--Tente conversar com ela sobre essas coisas, mas mude sua abordagem. Tente tornar a conversa mais leve, menos assustadora, menos belicosa. E de sua parte, não se ponha nessa posição de mulher que está sempre criando expectativas e sofrendo quando elas não se concretizam. Não idealize uma Suzana, veja a pessoa que ela realmente é!
--É muito difícil, Ivone... pra você ter uma idéia, apareceu uma louca na porta da delegacia e deu pra ela um mapa todo desgraçado, comido, sujo de barro, em suma, papel higiênico usado é mais bonito que aquele mapa. Imagine você que Suzana me arrumou um cabeludo horrível do motoclube, um engenheiro de mapa, e os dois estão frequentemente reunidos tentando desvendar o mistério escrito naquela podriça! Eu agüento isso?
--E esse mapa tem algo a ver com o trabalho dela?
--Ela diz que espera encontrar o velho que matou aquela moça e tentou me matar através das informações daquele mapa miserável. Suzana está obcecada! Ela só pensa em prender aquele maldito velho!
--E isso é condenável? É uma causa justa, é o trabalho dela, uma história que marcou muito ela... Não seja tão dura com as coisas, querida. Ela está investigando porque chamou pra si essa responsabilidade. Triste seria se estivesse fazendo bobagens...
--Eu sei... o pior é que você tá certa! -- respirou fundo -- Ai, Ivone, tem jeito pra mim, tem?
--Calma, Juliana... Não há nada de errado com você, são só uns pequenos ajustes que as duas têm de fazer no relacionamento. No mais, do jeito como você é, se um dia se candidatar, já tem o meu voto!
--Pra dar um coro em quem te engana, vote em Juliana! -- brincou -- Já tenho até o slogan da campanha!
Fim do capítulo
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jake
Em: 18/03/2024
Eita que Lady não aprende Morro de rir com ela quero ver as moças q estão vindo ,Pri e Tati se prepara kkkk. Ju me divirto com ela Cami tomando jeito parabéns .
Solitudine
Em: 22/03/2024
Autora da história
Lady começou antipatizada pelas leitoras mas depois caiu no agrado. Doidinha, o pessoal gosta! rs
Juliana é outra que só apronta e fala muita coisa louca!
Camille está no caminho dela. Vamos ver onde vai chegar?
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 07/10/2023
Também acertei uns portuguêses huahuahua Também falo bem quando quero habibem Data venia huahuahua
Solitudine
Em: 11/11/2023
Autora da história
Eu sei! kkkk
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 23/03/2023
Começando a missão em Maya!
Solitudine
Em: 26/03/2023
Autora da história
Oh, my! kkk
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Samira Haddad
Em: 23/04/2020
Gabi não bota só lenha. Constela!
Resposta do autor:
Bem que achei que você estava muito calada enquanto eu fazia o lanche. Nesse meio tempo um bocado de comentário!
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Solitudine Em: 15/06/2024 Autora da história
Boa noite ou madrugada!
Fico muito feliz em saber que você está gostando. E também gostei de saber que Juliana te agrada tanto.
Beijos,
Sol