Quarta Temporada - TRANSFORMAÇÕES III
Isa estava sentada ao lado da mãe de Joice vendo fotos da bailarina.
--Veja essa, filha! Aqui foi no Festival de Dança de Shangai. Joice se destacou tanto que ganhou um prêmio entregue pelas mãos do próprio Presidente da China!
--Nossa! -- arregalou os olhos -- Eu achava que ela era maravilhosa, tanto que prestava atenção em cada passo da coreografia dela! – admitiu
--E ela era mesmo... -- fechou o álbum -- Joice tinha um futuro brilhante... Acredita que ela foi convidada para ingressar no Boston Ballet? Iria começar dois meses depois daquele espetáculo... -- pausou -- no qual ela não pôde continuar. -- seu olhar era triste
--Olha, dona Lúcia, me perdoe vir a sua casa e fazê-la lembrar de coisas tristes, mas eu queria lhe dizer uma coisa. -- pausou -- Não sei qual o seu contato com as amigas da Joice então... talvez, um dia a senhora ouça algumas coisas desagradáveis e eu queria me explicar.
--Que tipo de coisas? -- olhou para a ruiva com desconfiança
--Neyan andou dizendo que eu fui a responsável pelo acidente de sua filha e tudo por conta de um problema que nós dois tivemos. -- pausou -- Eu assumi o lugar dela depois do acidente e por isso Neyan andou falando essas coisas... Eu tive de ameaçá-lo com meu advogado pra que parasse e eu acho que parou, mas as fofocas, uma vez ditas, se espalham por aí... -- olhou nos olhos de Lúcia -- Eu juro com todas as minhas forças que não tive nada a ver com aquela fatalidade!
--E isso nunca nem me passaria pela cabeça. -- olhou para o álbum em suas mãos com uma expressão indignada -- O que você poderia fazer pra forçá-la a escorregar? -- fez um bico -- Eu jamais acreditaria em qualquer coisa dita por aquela cobra venenosa!
--A senhora não gosta dele, pelo que noto.
--Não mesmo. -- levantou-se e colocou o álbum sobre a mesa da sala -- Joice chegou a ser conhecida como a ‘queridinha de Neyan’, mas tudo mudou quando eles se desentenderam.
--E por que se desentenderam?
--Porque quando ela começou a se destacar muito ele me apareceu com uma bailarina não sei de onde e preteriu minha filha por causa daquela tal. -- olhava para um ponto no infinito -- E ele ainda ficava se desfazendo dela! Os dois discutiram e desde esse desentendimento ele andou implicando com minha filha, só que quebrou a cara porque a Ana gostava dela. -- pausou -- Se alguém realmente pudesse ser acusado de boicotar a vida de Joice, esse alguém seria Neyan e não você. -- seu tom era rancoroso -- Falso, nojento!
Isabela ficou pensando nas coincidências entre o que aconteceu entre Joice e Neyan e sua própria experiência com o coreógrafo. “Estarei criando coisas na minha mente ou...?” -- pensou preocupada
***
Isabela, Priscila e Lady estavam nas areias de Copacabana aguardando o show da cantora Ana Joaquina. Já eram sete horas e ela não iniciava.
--Que coisa, viu? E era pra ter começado às quatro, sacanagem! -- Priscila reclamava
--Ah, minha filha, show de cantora famosa, de graça e na praia não pode sair na hora! -- Isa respondeu
--E a gente nem vê um homem com cara de futuro marido por aqui, né? -- Lady comentava enquanto olhava para todos os lados. Priscila e Isabela se entreolharam
--Você foi hoje na casa da moça que morreu? -- Priscila perguntou
--Fui e fiquei passada com o que soube!
--Gente, olha! -- Lady apontou pulando para o palco -- É a Ana! -- sorriu -- Linda! Maravilhosa!! Uhuu!! – gritou
--Eu, hein? -- Priscila riu
O show começou e as pessoas logo se empolgaram para cantar e dançar. A predominância absoluta entre os presentes era de lésbicas. Isa dançava totalmente absorta do meio e foi abordada por várias mulheres, as quais ela desprezava por completo.
--Essa Isa atrai mulher, Nossa Senhora! -- Lady cochichou com Priscila -- Parece que tem mel! -- olhou novamente para os lados -- E homem casável, que é bom, nada!
--Lady, esquece isso e curte o show, tá?
--Pri, vem cá! -- Isa chamou a amiga -- Fica aqui comigo e finge que a gente namora. -- pediu -- Não agüento mais essas mulheres! – reclamou
--Namora? -- riu -- Sem beijo na boca, tá, amiga? A gente é casal do tempo antigo!
Lady dançava e cantava quando foi abordada por um rapaz. -- Oi, linda! Será que a gente podia conversar um pouco? – sorriu
Ela olhou para quem lhe abordava e se surpreendeu com um rapaz alto, magro, cabelos louros e curtos, olhos azuis e feições delicadas. “Ai, que fofo!” -- pensou -- Olha só, eu vou avisando! -- fez cara feia -- Sou moça pra casar!
--Eu não posso garantir que a gente casa por causa de uma conversa, mas certamente eu vou querer te ver depois de hoje. -- continuava sorrindo
“Hum, ele parece ser sincero!” -- pensou -- Aposto que em um show repleto de mulheres solitárias como esse você deve estar passando o rôdo!
Ele riu. -- Não... Eu me respeito e respeito as mulheres. Você é a primeira que venho abordar e tô aqui há um tempão. Aliás, meu nome é Diego, e o seu?
--Lady Dy.
--Eu gostava da princesa. Ela foi uma mulher e tanto. -- olhou para Lady de cima a baixo -- A homenagem foi muito justa, porque você não fica atrás!
“Ai, meu Deus, um lorde na minha vida!” -- pensou enquanto suspirava
Meia hora depois Isa dava falta de Lady. -- Priscila, cadê a Lady? -- perguntou desconfiada
--Ué? -- olhou para todos os lados -- Ih, meu Deus... -- localizou a garota -- Ah, tá ali, -- apontou -- se pegando com aquele carinha. -- pensou bem -- Carinha?
--Amiga... -- Isa olhou atentamente para o par de Lady -- aquela criatura ali não é homem, não...
--Gente, mas será que Lady mudou de lado?? -- Priscila perguntou estarrecida -- Ah, não! -- ela mesma respondeu -- O desespero pra casar é tanto que ela não nota nem mais a diferença entre macho e fêmea! Tá igual àquele jogador que saiu com travesti sem saber do que se passava!
--Essa mulher deve estar achando que Lady é lésbica. E a pobre tá lá que nem nota!
--Só me faltava essa, viu? -- fez um bico
A bailarina riu. -- E a gente não vai fazer nada? Vai deixar ela acreditando que Vitor não é Vitória?
--É... temos que fazer alguma coisa. -- pegou Isa pelo braço -- Vem comigo!
As duas caminharam até Lady.
--Lady, desculpa interromper esse momento de investigação a dois, -- Lady e Diego interromperam o beijo -- mas, eu acho que a gente precisa conversar. -- Priscila disse
--Ih, eu... -- olhou para Priscila e Isa -- quem são essas, Lady? -- Diego perguntou de cara feia
--Minhas amigas! -- sorriu -- Gente, esse aqui é o Diego, meu mais novo namorado!
--Eu aposto que não é esse nome que tá escrito na tua identidade! -- Isa disse olhando para Diego, que ficou sem graça
--O que??? -- empurrou Diego -- Vocês se conhecem? Não me diga que namoraram e ele usava outro nome naquele tempo? -- olhou para Isa -- Aquele tempo em que você ainda gostava de homem!
--Tem homem aqui, não, Lady! -- Priscila foi logo dizendo -- Isso é mulher! Você tava se amassando aí e não sentiu que faltava um detalhe?
--O que?????? -- Lady gritou -- O que??? -- arregalou os olhos
--Calma, garota, eu pensei que você curtisse... Sabe como é, show da Ana Joaquina, você e mais um casal...
--Alto lá, minha filha, eu curto a Ana mas gosto de homem! O que tem a ver uma coisa com outra? -- Priscila perguntou desaforada
--Não, não pode ser... -- Lady levou a mão aos lábios -- Eu fui beijada por uma mulher, não, não, nããããããããããoooo!!! -- berrou ensandecida
--Essa é a hora em que você some! -- a ruiva disse para Diego, que saiu quase correndo
--Não, não, não!!! -- Lady puxava os próprios cabelos e andava em círculos -- Ai, eu quero ir embora daqui! Eu quero ir embora!!! Ahahahahahahahahahah!! -- gritava -- Ai, meu Pai, que sina macabra!! As profecias da cigana eram verdadeiras, não!!! Meu anel me foi tirado e agora, esse lesbianismo! Ai, meu Deus, não! Nããããããããõoo!!!!!!!!!!! -- gritava desesperada despertando a curiosidade de várias mulheres ao redor
--Ai, meu Deus, agora eu vou ter aturar isso aí por quanto tempo, hein? -- Priscila revirou os olhos
(NOTA DA AUTORA: O entendimento, ou falta dele, quanto aos homens trans é uma questão das personagens)
***
Seyyed e Samira entravam aos beijos na barraca de camping da mulher mais jovem. A mecânica deitou-se sobre ela mordendo seu pescoço e percorrendo as mãos por seu corpo com muita ansiedade.
--Tira essa roupa, eu quero você... -- Samira tentava despir a outra
Ed interrompeu o que fazia e olhou para ela. -- Isso não tá certo... -- de repente sentia-se como quem desperta de um transe -- Eu nem deveria estar aqui! -- levantou-se rapidamente e saiu da barraca -- O que há de errado com você, mulher? -- perguntou para si mesma -- Pelo amor de Deus, que comportamento ridículo é esse?? -- fechou os olhos
--Ed... -- Samira abraçou-a pela cintura -- Pare de se torturar... ninguém nunca vai saber, quem nunca deu uma escapadinha, hein? – sorriu
--Eu vou saber! -- desvencilhou-se dela -- Olha, Samira, eu não deveria ter deixado rolar! Sou casada, amo minha mulher, não quero magoá-la, não quero estragar meu compromisso e não quero sacanear você! -- olhou firmemente para ela -- Se eu fosse solteira, podia ser, mas não sou... Desculpa, mas não dá! -- foi embora
Samira ficou olhando a mecânica partir. -- Não vai faltar oportunidade, Seyyed... mesmo que demore, não vai faltar... -- sorriu maliciosamente
***
Camille estava na internet pesquisando sobre o próximo concurso que Aline comentou, mas seus pensamentos estavam longe. Ela e a mãe haviam chegado da casa de Olga há pouco mais de meia hora e a loura estava muito chateada com uma advertência que ouviu de Isabela. A bailarina havia sido bastante sutil, mas Camille não era burra e entendeu o recado: Seyyed tinha dona.
“O que eu faço? Eu saio da oficina? Mas gosto de lá e devo muito a Seyyed... O que eu faço? Não tá dando pra viver assim...” -- pensou -- "Que merd*!”
Mariângela estava na sala vendo TV e a loura decidiu ir conversar com ela. Precisava de ajuda.
--Mãe... -- estava chorando
--Ô, meu amor, o que houve? -- pegou o controle remoto e desligou a TV
--Reza por mim? -- pediu com muita tristeza
--Vem aqui, meu amor! -- abriu os braços -- Deita no colo de sua mãe, vem! -- Camille foi
--Reza pra tirar uma coisa do meu peito, mãe... -- fechou os olhos -- Tá doendo muito... Reza pra eu esquecer...
--Eu vou pedir pra Virgem, meu amor! -- abraçou-a e beijou a cabeça dela -- Isso vai passar, eu sei! Você é uma boa menina, merece ser feliz! Isso vai passar! -- balançava o corpo devagar como se estivesse ninando a filha -- "Ô minha Virgem Santíssima, tira essa mulher da cabeça de minha filha, ajuda ela a se livrar desse sentimento e dessas idéias! Eu Lhe imploro, não deixa minha filha sofrer nesse caminho tão difícil que é ser homossexual! Eu não quero que ela sofra e ninguém faça mal a ela, por favor! Manda o sofrimento todo pra mim, eu agüento, mas livra minha menina, eu Lhe imploro!” -- orava mentalmente
Camille estava de olhos fechados, chorando com muita tristeza, mas de forma contida.
“Mamãe pode não aceitar a verdade, mas ela me ama... Ela vai rezar por mim, ela vai ficar do meu lado. Eu preciso disso, porque esse sofrimento é demais pra uma pessoa só...” – pensava
Mariângela acreditava que ela sofria por causa de Fátima, mas de modo algum queria ouvir isso.
Os pais, na maioria das vezes, são os melhores amigos que uma pessoa pode ter. Eles têm muitas dificuldades para aceitar uma filha lésbica ou um filho gay, não por maldade ou falta de amor, mas apenas por ignorância, por medo de vê-los sofrendo e por medo de vê-los serem humilhados pela sociedade ainda extremamente cega pela falta de compreensão dos fenômenos da vida. Há que se ter tolerância recíproca, pois não se deve abrir mão do amor da família. Há que se acreditar, com muita convicção, que o amor é a única força capaz de vencer todas as batalhas da vida.
***
Isabela e Seyyed faziam amor no quarto. Ed estava deitada sobre sua mulher e a penetrava e beijava com urgência. Queria convencer a si mesma de que a ruiva era a mulher de sua vida e com ela deveria ficar.
--Ai, ai, ai, amor, ah!!!! -- gemia excitada com a chegada do clímax
A mecânica esperou a parceira goz*r e em seguida voltou a se movimentar dentro dela para que sentisse prazer pela segunda vez.
--Ah, ah, ah!!! -- Isa arranhava as costas da morena e sorria com os olhos fechados -- Ai, mas... você... é o máximo... -- sentia a respiração normalizar
Ed seguia beijando e provocando seus seios.
--Nossa, mas você... -- abriu os olhos e acariciou os cabelos da amante -- Chegou de viagem tão acesa, louca pra fazer amor comigo... -- sorria -- Aposto que nem prestou atenção ao que te contei...
--Prestei sim. -- beijou-a e olhou para ela -- Você falou do cachorro do Neyan e eu quero que tenha atenção redobrada quando estiver ensaiando ou fazendo qualquer coisa no seu trabalho. Vou falar com Suzana pra investigar esse sujeitinho em off e tenho certeza de que ela vai gostar bem de fazer isso. -- beijou-a
--Mas eu presto atenção. -- acariciava o rosto da morena -- Não confio mais nele há muito tempo...
--Quanto a Lady, a coitada só paga mico! -- balançou a cabeça -- E coitada da Priscila que vai ter que aturar muita gritaria dentro de casa. – riu
--Eu nunca tinha ouvido Lady gritar. -- riu -- Nossa, Ed, é horrível! E que potência sonora que ela tem!
--E em relação a sua ida na casa da mamãe, que bom que tenham se divertido. Também fico feliz em saber que Ricardinho melhorou e continua bem. Aquela criança sofre muito!
--Ele tava lindinho de roupinha nova! Sua mãe colocou no quarto dele um porta retratos com uma fotografia de Vitória e outra de Silvio. Achei muito bonito...
--Mamãe é uma pessoa muito bonita. Mariano também. -- riu -- Ele deu conta de tanta mulher dentro de casa? – brincou
--Mariano não é desses homens bestas que não gostam da companhia das mulheres. Ele fica à vontade, conversa e curte bem. Até Flávia apareceu por lá, sabia? Ela anda ainda muito triste por causa do Brito, mas conversou, brincou, fez a gente rir... -- deslizou o dedo sobre a sobrancelha de Seyyed
--Se Deus quiser tudo vai se resolver pra eles também... -- beijou-a
--Você não contou sobre a viagem. Não gostou do evento do motoclube? -- perguntou curiosa
--Gostei. A viagem foi boa, paisagem bonita pra caramba, pessoal maneiro... A pena é que eles têm a mão muito pesada! Apanhei tanto! -- revirou os olhos
--Como assim?! – riu
--Pô, qualquer coisa era soco no braço, tapa nas costas, tapa na perna... Achei que não voltaria viva! -- riu também
--Eu, hein!
--Teve churrasco, sorteios... Ganhei um par de luvas de couro da melhor qualidade, acredita? -- sorriu -- Rolou show de rock pesado e você tinha que ver! Todo mundo gritando, pulando e balançando a cabeça! Parecia que o diabo tinha baixado no corpo de geral!
--Até Suzana fez isso? -- perguntou espantada
--O que?? Aquela ali ficou maluca! Deu medo de ver! – riu
--É cada uma... -- riu e mordeu o queixo da mecânica -- O que importa é que você voltou pra mim sã e salva! -- beijou-a -- E quanto aos contatos? Conheceu muita gente?
--Pra caramba! Vamos ver no que vai dar isso... -- abaixou os olhos e se sentou -- Isa, eu... tenho uma coisa pra te contar.
A bailarina sentou-se também, colocando o travesseiro na cabeceira para se encostar. Puxou o lençol e se cobriu. -- O que é? Apesar de tudo notei você diferente desde que chegou.
--Eu conheci uma mulher... -- Isa prendeu a respiração e a mecânica olhou para ela advertindo: -- Não fui pra cama com ela, calma!
--E o que tem essa mulher? -- perguntou esperando pelo pior
--Eu... -- novamente desviou o olhar de Isa -- O nome dela é Samira... Eu me senti atraída por ela e nem sei explicar como... quando dei por mim estávamos aos beijos dentro da barraca de camping mas eu interrompi a coisa e não deixei rolar. Ela sabia que eu sou casada, eu pedi desculpas e fui embora. -- olhou receosa para a ruiva
A bailarina gastou uns segundos em silêncio olhando para Seyyed e finalmente falou: -- Você viaja, conhece uma mulher, se pega com ela e depois chega em casa excitada pra descarregar comigo o tesão que sentiu por outra? -- seu tom era agressivo
--Não foi isso, Isa, não foi! -- falava desesperada -- Eu não sei o que tá acontecendo comigo! Eu sonhei duas vezes com Camille, eu de repente comecei a... -- não sabia se explicar -- Eu não quero mentir pra você! Não é culpa sua, você não fez nada errado, mas não sei o que tá acontecendo comigo, eu...
--Saia daqui! -- Isabela a interrompeu aos berros. Estava chorando -- Saia daqui! -- arremessou o travesseiro contra a amante e se levantou, pegando a camisola que estava no chão -- Você pegue suas coisas e vá dormir na sala porque não quero ver sua cara e nem te ouvir falando essas bobagens pra mim! -- vestiu-se -- Saia desse quarto agora, sua hipócrita, fingida, canalha! – gritava
--Eu não sou fingida! -- levantou-se da cama também e foi até ela -- Eu tô te dizendo toda a verdade, Isa. Por favor, me perdoa, nunca mais vai acontecer, eu te amo!
A ruiva pegou as roupas de Seyyed e arremessou-as contra ela. -- Veste essa roupa e saia daqui, sua fingida! -- chorava -- Você se esconde atrás da sua religião mas não passa de uma mulher sem caráter, sua desgraçada! Só sabe magoar quem se envolve com você! Saia daqui, agora! -- apontou para a porta
A mecânica vestiu-se rapidamente. -- Isa, por favor... -- chorava também -- Eu te amo! Me perdoa, por favor, eu te peço, não vai acontecer mais... -- estava desesperada
--E não vai mesmo porque acabou! -- gritou olhando nos olhos da outra -- Eu não sou a minha mãe e não vou passar pelo que ela passa com meu pai!
--Por favor, Isa, não! -- segurou os braços dela -- Eu faço o que você quiser, mas não toma decisões com a cabeça quente, por favor, meu amor, não me deixa! Eu nunca te traí, juro que nunca mais faço isso! Eu vou me concentrar, vou orar bastante, vou pedir ajuda e Deus vai me socorrer! Eu não faço mais isso, eu juro!! -- falava rapidamente
--Me solta! -- desvencilhou-se dela, secou as lágrimas do rosto e falou em tom moderado: -- Não quero ouvir nada mais de você! -- olhou para a amante com muita mágoa nos olhos -- Eu fui abordada por um monte de mulheres naquele show de praia e nem me ocorreu de olhar para alguma delas com um pingo de interesse! Deveria ter aproveitado mais, não é? -- pausou -- Saia daqui agora! E não se atreva a falar mais nada porque não quero ouvir sua voz!
Seyyed sentiu uma imensa dor no peito e saiu do quarto de cabeça baixa e arrasada. Ouviu a porta se fechar atrás de si e começou a chorar com mais intensidade.
Não sabia o que estava se passando em seu coração e não queria magoar as pessoas, muito menos a si própria. Foi para a sala e sentou-se na poltrona com a cabeça entre as mãos. Pensou em seus relacionamentos anteriores e concluiu que, apesar de nunca ter traído, havia sempre magoado as outras mulheres.
“Deus me ajude, por favor... Tira isso do meu coração, eu Lhe imploro! Não me permita magoar os outros, eu não quero isso... Não deixe que Isa me abandone, por favor, não deixe...” -- chorava a ponto de soluçar
Isabela andava de um lado a outro no quarto. “Eu sabia que isso ia acontecer! Aquela garota sonsa, sempre ali do lado de Ed não podia dar em boa coisa!” -- pensava -- "Onde foi que eu falhei? Será que foi em dar ouvidos aos conselhos de minha mãe e Priscila? Será que me importo demais com a carreira e deixo Seyyed de lado? Não, mas nós temos os nossos momentos, temos diálogo, intimidade...” -- fechou os olhos -- "Eu a amo, não quero perdê-la...”
Após um tempo que lhe pareceu eterno, Ed continuava chorando de cabeça baixa quando ouviu a voz de sua mulher: -- Ed? -- o tom era manso
Levantou a cabeça e se ajoelhou rapidamente diante da outra. -- Eu juro, Isa! Juro que nunca mais faço o que fiz! Juro que vou arrumar a bagunça que anda nos meus pensamentos e Deus vai me ajudar a não fazer mais bobagens! Eu juro que vou ser uma mulher decente pra você e não vou te deixar acreditando que sou uma canalha! -- segurou as mãos dela -- Não me deixe, por favor, não me deixe! Eu te amo!
Soltou as mãos da outra. -- Levanta do chão, Ed. -- pediu e a morena obedeceu -- Preste bastante atenção! -- falava com muita seriedade -- Você não é canalha, fingida ou nada do que falei. Foram palavras ditas na hora da raiva e quanto a isso peço desculpas.
--Eu mereci ouvir!
--Você sabe que eu não aceito traição de forma alguma!
--Não vai mais acontecer, eu juro! -- prometeu com muita sinceridade
--Não vou deixar você porque sei que todas as pessoas erram e eu também já vacilei com você. Não com traição mas com outras coisas que te magoaram e você não desistiu de mim. -- pausou -- Por isso não seria justa se não te desse uma chance agora. E afinal de contas, você me disse a verdade e não deixou acontecer nada mais íntimo com a tal da Samira.
--Não mesmo, eu não menti, não aconteceu! -- olhava nos olhos da amante
--Mas ouça-me bem, Seyyed, -- falava com muita decisão -- não haverá segunda vez!
--Eu juro que não! -- postou as mãos como se rezasse -- Juro que nunca mais vou me colocar numa situação dessas! Não serei indigna de sua confiança, eu prometo! -- pausou -- Eu te amo!
A ruiva respirou fundo e ficou estudando o rosto da morena. Sentia sinceridade nas palavras dela. -- Nós vamos superar isso juntas. Também te amo. -- abriu os braços -- Vem aqui!
As duas se abraçaram com força. Seyyed fechou os olhos e jurava para si mesma que não iria mais repetir aquele tipo de comportamento. Jurava que não iria ferir os sentimentos de sua mulher e nem os de Camille, pois ambas não mereciam isso. A bailarina deslizava as mãos nas costas da morena e prometia a si mesma que não iria mais deixar que quem quer que fosse interferisse em decisões que impactassem no seu relacionamento com ela. Poderia desabafar com alguém, ouvir conselhos, mas as decisões seriam sempre dela mesma.
***
Ana voltava àquele endereço sombrio para encontrar com Àjé que parecia esperá-la, sentada tranquilamente em sua cadeira de palha.
--Eu sabia que você voltaria... -- a mulher afirmou com um sorriso maligno
--Preciso de sua ajuda, Àjé. -- respondeu sem se sentar -- Meu marido está desempregado e não encontra o que fazer, minha filha está correndo perigo por causa de um maldito coreógrafo e seu casamento está ameaçado por uma garota aleijada! Eu não quero que nada de mal aconteça com meu bebê, não quero que ela sofra, não quero ficar pobre, não quero que Anselmo se transforme em algum motorista de táxi ou vendedor ambulante. Seria muita humilhação e eu não estou preparada pra isso! Não mereço isso! -- falava com determinação
--Está disposta a pagar o preço? -- cruzou as pernas
Ana olhou para as duas estátuas, engoliu em seco e respondeu: -- Seja ele qual for!
--Muito bom! -- pausou -- Sente-se. Vamos começar!
Ana sentou-se e respirou fundo. Não tinha idéia das conseqüências que sua decisão teria, não tinha idéia do preço que teria de pagar no futuro. -- Vamos! Não estou para brincadeiras. Anselmo e eu nos acertamos, Isabela é a própria estrela Dalva e os negócios de Seyyed estão se estabilizando. Isso tudo tem que andar pra frente e não pra trás! Não aceito a derrota, não aceito a pobreza!
--Você não conhecerá o que significa pobreza. Muito menos sua filha! -- sorria -- De agora em diante, sucesso será sua palavra de ordem! – prometeu
***
Era terça-feira e Ed trabalhava. Na hora do almoço decidiu ligar para a mãe. Após conversarem sobre Ricardinho, a morena resolveu pedir ajuda.
--Mãe, depois eu vou precisar conversar com a senhora pessoalmente, ainda não tive tempo, mas queria muito que orasse por mim, por Isa e por Camille. – pediu
--Por que, meu amor? O que está acontecendo? -- perguntou preocupada
--Não quero que nada de mal aconteça com minha mulher. Desconfio daquele coreógrafo safado, o tal do Neyan, e não quero que ele faça nada que a prejudique. Depois eu conto o que Isa me disse quando voltei de viagem.
--Tudo bem. Confie em Deus. Nada vai acontecer de mal!
--Preciso que ore pela Camille, pra que ela me esqueça e pra que nada de mal também aconteça com ela. Nós continuamos trabalhando bem, mas nos afastamos e, não sei dizer, desde ontem sinto um imenso desejo de pedir pelo bem dela.
--Finalmente você percebeu que ela a ama, não é?
--Mas até a senhora...? É, eu devo ser uma completa idiota, mesmo! -- riu brevemente
--Eu já oro por ela há tempos, pois não gostaria de vê-la sofrendo por sua causa. No mais, eu oro pelo bem dessa menina desde que a conheço e vou continuar fazendo isso!
--E ore por mim também, mãe. Não sei o que se passa comigo. Meus sentimentos estão confusos!
--Hum... -- balançou a cabeça -- "Será que minha filha começa a se apaixonar por Camille?” -- pensou -- Eu vou orar, sim, é claro, e você é minha filha está em minhas orações desde que nasceu. -- pausou -- Entenda uma coisa, Seyyed, o mal precisa de espaço pra acontecer. É como as moscas. Se não há sujeira, elas não se proliferam, se há, elas dominam. Mantenha-se limpa! Camille pode ser atéia, mas é uma moça muito digna e reta. Ela aprendeu muito com o sofrimento e tem o coração puro. Nada de mal vai acontecer com ela. E o que tiver de acontecer, e nos pareça um mal, pode ser um remédio. Confie em Deus e ore por você mesma também!
--Eu sei, mãe. Mas é que confio mais nas orações que saem da senhora. -- sorriu -- Têm mais força.
--Nada disso. -- sorriu também -- Cuide-se e não esqueça de que Deus está sempre presente.
--Beijo, mãe. Obrigada! – agradeceu
--Beijo, querida. Fique com Deus. – desligou
Depois do almoço, a mecânica foi procurar Camille em sua sala. -- Será que podemos conversar? -- perguntou receosa
“Ai, que coisa, o que será que ela quer? Ô, meu Deus, o coraçãozinho tá igual queijo suíço, viu?” -- pensou -- Podemos. -- respondeu sem saber o que pensar
Ed pegou um banquinho e se sentou bem diante da mesa da loura. -- Escuta, Camille, eu acho que seu trabalho aqui é imprescindível, tenho a maior confiança em você, sei que a gente vai deslanchar com as duas oficinas e isso se deve muito ao seu esforço e ao seu empreendedorismo. -- olhava nos olhos dela -- Eu não quero te perder!
“Quando ela fala assim dá até um troço nas coisas...” – pensou
--Eu sei que tenho andado diferente com você, um dia desses até te dei uma resposta não muito boa, mas é que... -- pausou -- "E agora, eu falo o que?” -- pensou -- Queria me desculpar e pedir pra você não desistir de trabalhar aqui. -- pausou -- Quer dizer, a menos que encontre uma oportunidade melhor e mais interessante pro seu futuro! Você é inteligente, esforçada, safa, competente, maravilhosa... -- calou-se -- "Eita, mulher, não se empolga muito, não!” -- pensou se repreendendo
--Meu, você acha tudo isso de mim? -- perguntou empolgada
--Isso e muito mais! -- calou-se novamente -- "Cala essa maldita boca, Ed!”
“Não maltrata esse coração cansado...” -- pensou -- Ô louco! -- sorriu -- Eu não penso em sair daqui. Ainda temos que visitar seu Marciano, consertar motos e fazer mais tanta coisa... -- pausou -- Não tem porque se desculpar!
--Que bom que você está empolgada com nosso trabalho! – sorriu
“Ela se arrependeu por aquele fora, mas eu sei que não tenho chances e nem quero ter! Não quero, apesar de tudo...” -- pensou -- "Tenho que dar um basta nisso e não deixar que trabalho e vida pessoal se misturem!” -- decidiu -- E de mais a mais eu nem teria porque me aborrecer com você. Só andei te achando estranha, mas tudo bem. Sei que não aconteceu nada entre nós, que nada vai acontecer e nem eu quero que aconteça! Às vezes algum mal entendido pode dar margens à interpretações equivocadas das coisas, não é?
“Nossa, levei um fora!” -- pensou constrangida e se levantou -- Ótimo! Já que está tudo certo, voltemos ao trabalho! -- piscou para ela e saiu da sala -- "Acho que, se bobear, tava todo mundo enganado, e eu acabei me empolgando demais em coisas que não deveria. Chega dessa história, Seyyed! Morre aqui!” -- pensou decidida
“Só eu sei o quanto me custa tomar certas decisões na minha vida, mas... chega de tanto sofrimento!” -- Camille pensou antes de novamente se concentrar no trabalho
09:00h. 07 de março de 2004, Pedra Bonita, Floresta da Tijuca, Rio de Janeiro
--Ai, amor, você tem certeza que a gente devia ter permitido isso? -- Juliana perguntava preocupada -- E se der alguma coisa errada? Eu não confio nessas coisas, é muito arriscado!
--Esse troço é seguro, minha linda! Mas relaxa que eu vou conversar com o cara numa boa. Espera aí. -- beijou a testa da outra e foi até o instrutor -- Preciso falar contigo! -- fez sinal para ele segui-la
--Só um segundo. -- olhou para Maria de Lourdes -- Minha querida, coloca o capacete como ensinei e me espera que já volto, tudo bem?
--Pode deixar! -- a idosa respondeu sorridente
O homem se aproximou de Suzana. -- Pois não?
--Tem certeza de que esse troço é seguro? -- perguntou de cara feia
--Claro! Faço isso quase diariamente, várias vezes por dia, tenho muita responsabilidade e nenhum acidente registrado! – sorria
--Ah, acho bom! -- aproximou-se dele e falou bem baixinho -- Se ela quebrar uma unha que seja, eu te pego e corto tuas bolas com uma faca cega e enferrujada, passo água de sal com vinagre e te faço descer ribanceira abaixo com caco de vidro e areia enfiados onde não deve, entendeu? – sorriu
O homem perdeu a fala e arregalou os olhos. A delegada voltou para junto de sua japonesa. -- Ele garantiu que vai dar tudo certo. -- disse a ela
Lourdes e o instrutor vestiram os equipamentos de segurança e foram para o local adequado aguardar o momento certo. Juliana e Suzana esperavam sentadas em bancos de madeira dispostos como arquibancadas em um nível abaixo de onde a idosa estava. A enfermeira falava com ela: -- Dona Lourdes, pelo amor de Deus, se segura bem presa, obedece ao instrutor e se ele fizer alguma bobagem fala que a gente mete os cacetes nesse cara! -- olhou para ele -- Tá ouvindo, né, meu filho? Amarra ela aí, bonitinha, prende tudo muito bem seguro que eu não quero saber de ver acidente!
“Eu tô ferrado com essa mulherada louca!” -- o instrutor pensou
Quando as condições estavam propícias, Maria de Lourdes e o instrutor correram do modo como a idosa podia fazer e pularam a rampa.
--Ai, meu Pai! -- Juliana gritou
--Ahahahahahahahahah!! -- Lourdes gritava -- Eu tô voando, eu tô voando!! Uhuuu!!! -- estava enlouquecida e emocionada
--Minha nossa, como pode isso, Suzana? -- pôs as mãos na cintura -- Essa velhinha danada tem oitenta anos de pura safadeza! Onde já se viu? – riu
--E olha lá! A danada não tem medo de voar de parapente, não! -- riu também -- Eles vão pousar na praia e tem gente de carro pra trazê-los pra cá, não é isso? -- olhou para a japonesa
--Voltam nem que não queiram! E quero dona Lourdes bonitinha de volta, arrumada e bem penteada porque se qualquer coisa ruim acontecer com minha velhinha...
--Fique tranqüila! -- interrompeu-a com calma -- Eu já conversei com o instrutor e ele não vai dar bobeira.
--Isso é muito legal!!! -- Lourdes gritava -- Tô voando, tô voando!!! Ahahahahah!!! -- sentia-se muito feliz
***
Suzana e Juliana estavam na cama, nuas e deitadas de lado. A delegada beijava e mordia o pescoço e a orelha da japonesa, que gemia de prazer sentindo sua penetração vigorosa.
--Ai, amor, ai... delegada sem vergonha, tarada, ai...
--Você me deixa louca... louca... -- sussurrava no ouvido dela
Quando percebeu que a amante beirava o clímax, virou-a para ficar de barriga para cima e invadiu seu sex* tomando-a com a boca e os dedos.
--Ai, Su, ai!!! -- gritou e delirou em um orgasmo delicioso
Suzana seguia percorrendo seu corpo com suaves mordidas.
--Sua nhambiquara danada... -- sorria -- Me diz por que eu cuido de você por uma, duas, três vezes e não apago esse teu fogo, hein? -- acariciava seus cabelos
--Sinal de que vai ter que ficar comigo por muitos anos... -- mordiscava os mamilos dela
--Acha que eu quero outra coisa? -- perguntou sorrindo -- Vem cá, olha pra mim! -- pediu
--Seus desejos são uma ordem! -- sorriu e mordeu o queixo dela
--O que vivo hoje com você, com nossa velhinha aventureira, é simplesmente a fase mais linda que já experimentei na vida. -- olhou no fundo dos olhos da morena -- Nem quando era casada com Ed, e gostava de ser, não me lembro de ter me sentido desse jeito. -- acariciou o rosto de Suzana -- Minha vida me parece perfeita...
--Eu também nunca vivi isso. -- beijou a mão da outra -- Nunca me senti assim, tão feliz e tão livre. Eu te amo, Juliana! -- beijou-a
--Também te amo... -- sorriu -- Não tenho mais inseguranças, não tenho mais aquela psicose de querer que dure pra sempre. Quero que dure o quanto for possível e vivo cada dia como se fosse o meu último!
--Eu também... -- beijou-a -- Agora só falta você se libertar e estaremos completas.
--O que quer dizer? -- acariciava os ombros dela
--Quando perdoar sua mãe e sua família, você estará livre! E daí nada mais nos fará infelizes, mesmo quando as adversidades vierem.
Ela gastou uns segundos em silêncio e respondeu: -- Ainda não me sinto preparada...
--Seu momento vai chegar! O meu chegou, o seu também chegará. -- sorriu -- E eu estarei do seu lado!
--Eu sei... eu sei... -- beijaram-se com muito carinho
***
Olga e Mariano estavam no hospital com Ricardinho para o rotineiro acompanhamento clínico e laboratorial. O menino já havia feito os exames e o casal aguardava a médica com os resultados.
--Dona Olga, seu Mariano, venham comigo! -- a médica chamou. Eles entraram em sua sala com o menino no colo do pai -- Sentem-se, por favor! -- gentilmente ofereceu
--E então, doutora? -- Olga perguntou ao se sentar -- Como foram os resultados?
--Estamos ansiosos! Ele tem ido muito bem nestes últimos três meses! Temos esperanças! -- Mariano sorria
--Calma, meus queridos! -- ela sorriu -- Uma coisa de cada vez! Precisamos conversar ainda!
Olga e Mariano se entreolharam preocupados. Ricardinho brincava com um cachorrinho de pelúcia e fazia os barulhinhos de criança pequena, tentando repetir uma musiquinha que Seyyed costumava a cantar para ele.
A médica pegou a ficha da criança. -- Com a aposentadoria da minha colega comecei a cuidar do Ricardinho nos últimos seis meses e estudo o caso dele com muito interesse. -- Denise falava -- Quando o menino foi trazido aqui e examinado pela primeira vez, ele foi diagnosticado como soropositivo categoria moderada e, apesar da idade reduzida, a equipe médica, muito prudentemente, optou pelo o início imediato da terapia tríplice. Do acompanhamento dele percebe-se que os principais sintomas apresentados ao longo do período foram hepatomegalia e infecções persistentes ou recorrentes das vias aéreas superiores. -- pausou -- Como o tratamento serve para controlar a multiplicação do vírus e permitir a recuperação do sistema imunológico, a resposta do organismo precisa ser monitorada desde o início. Caso não esteja dando os resultados esperados, é necessário trocar a combinação dos medicamentos, chamado de esquema de terapia. Ultimamente Ricardinho vinha apresentando um quadro de quase não progressão da doença.
--E essas crises têm se tornado cada vez menos freqüentes, doutora Denise! Como meu marido lhe disse, há três meses o menino está ótimo! -- Olga afirmou sorrindo
--Eu sei. -- sorriu e silenciou por alguns segundos -- Devo lhes salientar que até o presente, os esquemas terapêuticos potentes NÃO resultaram na erradicação da infecção pelo HIV. Portanto, os objetivos do tratamento são, por meio do controle da replicação viral, preservar ou restaurar a integridade imunológica e impedir, postergar ou diminuir as conseqüências da infecção, proporcionando maior sobrevida com qualidade. Esses objetivos podem ser alcançados mesmo quando não se consegue uma redução da carga viral a níveis indetectáveis. 29
--E como está a carga viral dele? Como que mede a saúde dele? -- Mariano perguntou ansioso -- Eu não entendo dessas coisas nem pra lhe perguntar como se deve, mas como ele está agora?
--A mensuração da carga viral, em conjunto com a determinação do grau de imunossupressão pela contagem de linfócitos T-CD4+ constituem os nossos parâmetros de avaliação. Ricardinho, aos nove, dez meses de idade foi diagnosticado como categoria moderada, inspirando muitos cuidados. -- pausou -- Eu não sei como explicar isso, mas... Os exames encontraram alterações imunológicas ausentes. -- olhou firmemente para os dois
--O que isso quer dizer? -- o coração de Olga disparou e ela se levantou nervosa -- Que ele está curado?? -- seus olhos encheram-se de lágrimas
--Meu Deus, minha Nossa Senhora!! -- Mariano já se levantou chorando. Com seu movimento brusco o brinquedo do menino caiu no chão
--Calma, queridos. -- Denise começava a se emocionar também -- Pode-se dizer que sim, mas a recomendação é de acompanhamento clínico e laboratorial regulares.
--Meu Deus, Olga! -- Mariano chorava e olhava para ela e o menino -- Minha Virgem Santíssima!
--Vamos agradecer, meu amor! -- beijou os lábios dele e a cabeça do menino -- Vamos agradecer!!! – chorava
--Nossa, eu... -- a médica não sabia o que dizer
Mariano e Olga se ajoelharam no chão. Denise chorava também e se levantou sem saber o que fazer.
--Venha doutora! -- Olga estendeu a mão para ela -- Ajoelhe-se aqui e venha! A senhora e seus colegas foram os instrumentos de cura que Deus colocou em nossos caminhos! Vamos também agradecer pelos bons profissionais de saúde que nos proporcionam momentos lindos como este!
A médica se ajoelhou e segurou a mão de Olga, que segurava a mão de Mariano. Denise nunca tinha vivido uma situação daquelas e sentia-se orgulhosa de seu papel na Terra como ainda não havia experimentado.
Eles oravam agradecendo a Deus com os rostos banhados por lágrimas de emoção e reconhecimento. Eles sentiam a grandeza do Altíssimo manifestada naquela cura, a qual certamente foi suportada pelo tratamento médico, mas, inegavelmente, havia sido potencializada pelo poder regenerador do Grande Medico das Almas.
A fé, não aquela crença cega e irracional, mas fé, no sentido de estar em sintonia com as Forças Maiores, é capaz de maravilhas tão admiráveis, que o ser humano sequer pode imaginar. “Pedi e obtereis; procurai e achareis; batei e abrir-se vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe, quem procura, acha; e a quem bate, abrir-se-lhe-á.” 30
02:40h. 10 de março de 2004, Edifício Rubro Negro, Flamengo, Rio de Janeiro
Lady dormia em sua cama. Estava sonhando.
“Andava sorridente por um campo verdejante e cheio de flores. Seu vestido de noiva era branco e brilhante, com uma enorme cauda cujo tecido parecia bailar ao sabor da brisa. O dia estava lindo e Lady rodopiava com um buquê de fartas rosas vermelhas nas mãos.
--Nossa, que coisa romântica! -- suspirava
Animais saltitavam ao seu redor e ela se sentia a própria filha da mãe Natureza.
--Onde andará o meu amor? -- perguntou ao passarinho que cantava
Olhou para o horizonte e viu que um belo homem se aproximava correndo. Ele vinha de terno preto, cabelos penteados para o lado, brilhando de tanto gel. De rosto limpo e barbeado, mostrava um sorriso brilhante.
--Oh, meu Deus, é o meu noivo! -- lançou-se pelos campos correndo de encontro a ele -- "Pega, Lady, pega, pega!” -- gritava mentalmente
Encontrou-se com seu príncipe e deram-se as mãos.
--Oh, meu bem! Espero por você desde os quinze anos! -- sorria embevecida
--Não precisa mais esperar! Eu cheguei! Você será minha deusa daqui pra frente! -- puxou-a para um beijo intenso
Podia ouvir a canção:
“Como uma deusa,
Você me mantém,
E as coisas que você me diz,
Me levam além...”
--Oh, meu amor, que emoção encontrar você neste lugar paradisíaco! -- falou embasbacada
--Vamos Lady! -- deitou-a no chão -- Vamos nos entregar e rolar por esta relva de meu Deus...
--Nossa, que coisa verde! -- beijou-o e rolou com ele pelo meio do mato florido. Em momento algum, porém, Lady largou o buquê
“Aqui nesse lugar,
Não há rainha ou rei,
Há uma mulher e um homem,
Trocando sonhos,
Fora da lei...”
--Oh, mas estou tão feliz! -- ela disse -- E a gente casa quando? -- perguntou ansiosa
Ele se levantou e disse: -- Agora! -- estalou os dedos. Nesse instante aparece um padre, padrinhos e muitos convidados sorridentes
--Gente, que homem é esse? -- levantou-se e puxou-o novamente para um beijo intenso
“Como uma deusa,
Você me mantém,
E as coisas que você me diz,
Me levam além...”
--Lady, fique certa de que de hoje em diante, sua vida será plena de amor e poder! -- o rapaz afirmou com olhos apaixonados
--Nossa, que coisa forte! -- beijou-o mais uma vez
“Tão perto das lendas,
Tão longe do fim,
A fim de dividir,
No fundo do prazer,
O amor e o poder...”
O Amor e o Poder - Rosana [a]
E de repente a música muda e Lady interrompe o beijo dando por si que o noivo se tratava de uma mulher.
“I kissed a girl and I liked it,
The taste of her cherry chapstick,
I kissed a girl just to try it,
I hope my boyfriend don't mind it...”
--Nossa, que coisa lésbica! -- exclamou apavorada empurrando a outra para longe -- Sai coisa ruim!
--Por que não, Lady? -- ela perguntou -- Teu destino é esse, mulher! Solta essa franga louca!!
--Não!!!Não!! -- gritava enlouquecida
O padre, os padrinhos e os convidados se transformaram em mulheres de biquínis que se aproximavam para formar um círculo ao redor dela.
“It felt so wrong, it felt so right,
Don't mean I'm in love tonight,
I kissed a girl and I liked it,
I liked it...”
Lady, ensandecida, joga o buquê para o alto, levanta a saia do vestido e corre apavorada. As mulheres correm atrás dela cantando:
“Us girls, we are so magical,
Soft skin, red lips, so kissable,
Hard to resist, so touchable,
Too good to deny it,
Ain't no big deal, it's innocent...”
As mulheres alcançam Lady e a derrubam no chão. Deitam ao redor dela e começam a cantar:
“I kissed a girl and I liked it,
The taste of her cherry chapstick,
I kissed a girl just to try it,
I hope my boyfriend don't mind it...”
I Kissed a Girl – Katy Perry [b]
E todas começam a passar as mãos em seu corpo e a beijá-la cheias de desejo.
--Não, não, não, parem!! -- ela se debatia e gritava -- Nãããããããããããããoooo!!!!”
--Mas que gritaria é essa? -- Priscila aparece no quarto da outra apavorada -- Lady, são três da manhã, isso não é hora de chorar por namorado! -- pôs as mãos na cintura
--Não é isso amiga! -- sentou-se na cama com expressão cansada -- Tive o pesadelo mais horrível do mundo! -- fungou -- Eu ia casar e na hora H descobria que meu noivo era mulher! E vinha mais mulher de tudo que é cor e cara dançando e cantando atrás de mim!
--Lady, pelo amor de Deus, esquece isso! -- Priscila pedia -- Já se passou tempo e você ainda com isso na cabeça, criatura?
--É trauma demais pra uma mulher só, Pri! -- respondeu chorando -- Não, não, não, não!! Eu não sou sapatão! Não, não, não, não!! -- lamuriava
--Mas, bá, eu tenho a solução! -- Lila chegava trazendo um incenso e uma estátua de Shiva em sua dança celestial -- Por apenas seiscentos reais tu adquires este verdadeiro kit de limpeza dos sonhos! Nunca mais tu vais experimentar pesadelos em tua vida! -- ofereceu
--Gente, vocês não entendem! -- passou a mão no rosto -- As profecias da cigana, estão todas acontecendo... As lésbicas estão invadindo minha vida, elas querem me pegar! Elas querem me tarar!!
--Que conversa é essa, mulher? -- Priscila perguntou -- Quem quer te pegar? Quem quer te tarar? As lésbicas que a gente conhece não te dão a mínima!
--São as lésbicas anônimas, amiga! São elas! Ai, Pri, eu tô com tanto medo! -- estendeu as mãos na direção dela -- Dorme aqui abraçadinha comigo, eu preciso de proteção!
--Que dormir abraçadinha, o que, eu, hein? Lady, vê se tira isso da cabeça e vai dormir! -- saiu do quarto dela
--Amiga, escuta! -- Lila colocou a estátua e o incenso na mesa de cabeceira da outra e sentou na beirada de sua cama -- Sei do que tu precisas, guria. Deves fazer um realinhamento do chakra genésico para resolver de vez esse problema. -- olhou bem para a outra -- Por apenas novecentos reais eu te realinho toda!
--Lila, pára, tá bom? Eu não sei do que preciso! Eu nem sei mais qual é a coisa mais importante agora! -- passou a mão nos cabelos
--“A coisa mais importante a encontrar é a coisa mais importante.”31 -- citou fazendo seus salamaleques
--Ô, meu Pai... dai-me forças... -- pediu olhando para o alto
21:00h. 12 de março de 2004, Praia de Ramos, Ramos, Rio de Janeiro
Ana acabava de se submeter aos rituais macabros de Àjé. Sentia-se exausta e ao mesmo tempo vitoriosa. Estava ajoelhada e cercada de velas.
--Pronto! -- a feiticeira falou -- Finalmente você foi submetida a tudo o que deveria ser para que eu comece a cuidar do que me pediu. De hoje em diante, sabe a quem deve obediência.
--Sei, sim senhora. -- respondeu de olhos fechados -- "Já posso sentir o brilho do sucesso!” -- pensou radiante
--Nunca em sua vida comente com quem quer que seja sobre o que fizemos até então! -- olhou bem para ela -- Nem mesmo com sua filha!
--Tem minha palavra. -- olhou para a outra mulher -- Isa jamais entenderia.
--De agora em diante vou trabalhar para seu marido conseguir um emprego muito bem remunerado, vou fazer sua filha virar uma grande estrela, acabar com a vida do coreógrafo que a persegue, eliminar a aleijada do caminho da companheira de sua filha e torná-la bem sucedida nos negócios. Não se preocupe, pois estará sempre cercada de luxo e será não menos que uma rainha! -- sorriu diabolicamente
“Minha irmã vai morrer de inveja!” -- pensou sorridente
--Amanhã mesmo esteja preparada! Vamos matar um cabrito e oferecer em sacrifício!
--Cabrito?! -- arregalou os olhos -- "Ai, meu Deus, e eu que reclamava das galinhas...” -- pensou desesperada -- É... deixa eu só fazer uma perguntinha... Nesse esquema aqui também tem aquelas coisas de charuto, pinga e vela pra eu despachar?
--Não. Essa parte é comigo!
--Uff! -- respirou aliviada
--Você fica com os sacrifícios e a parte do sangue!
“Ave Maria!” -- pensou -- É... será que não dá pra trocar, não? É que eu já tenho experiência com isso de charuto e correlatos... Esse negócio de sangue é meio esquisito...
--Ana, -- a mulher segurou-a pelo queixo -- acho que você ainda não entendeu! Você sabe a quem deve obediência! Eles gostam de sangue e é isso que vai dar a eles: sangue! -- fez uma expressão diabólica
--Posso fazer isso todo mês sem esforço algum... Pelo menos até a menopausa chegar... Pra que cabrito, não é mesmo? -- perguntou sem graça
Àjé soltou o queixo dela e riu. -- Você é louca! Levante-se agora e vamos. Sem piadinhas e besteirol! Isso aqui é coisa séria!
--E quem disse que eu faço piada? -- levantou-se -- Se é coisa que não faço é piada! -- tirou a areia dos joelhos fazendo cara feia
--Faça o que eu lhe disser e não me questione! Quer sucesso, não quer? -- olhou firmemente para Ana
--Claro! -- respondeu convicta
--Então jamais me questione! -- lançou-lhe um olhar macabro
06:35h. 13 de março de 2004, Basílica Nova de Aparecida, Aparecida, São Paulo
--Dona Olga, vou te contar, viu? -- Camille reclamava de cara feia -- A senhora deve amar muito meu tio, porque faça-me o favor! Eu achei uma sacanagem! Meu tio faz promessa pra santa e inclui a família toda! Até eu tive que vir nessa furada! -- fez um bico
Os quatro andavam em direção a Basílica Nova.
Olga riu. -- Não reclame, meu bem. -- ela olhava para Mariano que seguia à frente com Ricardinho no colo. Mariângela ia ao lado dele -- Seu tio é devoto fervoroso de Maria, assim como sua mãe. Eles fizeram a promessa pra Ricardinho se curar, então já que aconteceu, estamos aqui.
--A senhora não liga? Não é católica e topou fazer essa viagem chata pra chegar aqui e professar uma fé que nem é a sua! -- olhou para ela
--Não, eu não ligo! -- respondeu com sinceridade -- Admiro e respeito a mulher que trouxe Cristo para esse planeta, e se meu marido fez uma promessa e me incluiu, não vejo nada de mais em acompanhá-lo pra pagar a tal promessa. Ele não quer que façamos nenhuma penitência, só quer agradecer a Maria. Eu entro na igreja e agradeço também.
--Eu não vou entrar! -- continuava de cara feia -- Sou atéia!
--Não entre. Fique do lado de fora, mas não desapareça. -- pausou -- Aliás, em um lugar cheio de devotos você bem pode ter o seu encontro com Deus. É um clima de oração muito forte e isso trás boas influências. Não precisa estar dentro de um templo pra isso acontecer. -- olhou para a loura
--Eu, hein! Em um lugar como esse, cheio de devotos e de bitolados, é mais fácil eu ter um encontro com um picareta do que com Deus. E se algum deles vier me abordar vai ouvir muito desaforo porque eu tô danada! Ai de quem venha me vender um patuá!
Olga riu de novo. -- Calma, menina... -- passou a mão na cabeça dela
Chegaram na porta da Basílica e os dois irmãos pararam de andar. Olharam para trás esperando pelas outras duas.
--Eu não vou entrar! -- a loura veio falando
--Por que, filha? -- a mãe perguntou decepcionada
--Eu sou atéia, mãe, e só vim nessa porque você insistiu! -- cruzou os braços
--Camille... -- Mariano começou a falar
--Querido, -- Olga o interrompeu – entre com sua irmã e nosso filho. Deixe-me uns segundos à sós com Camille e daqui a pouco eu entro, tudo bem? -- pediu sorrindo
Os dois se entreolharam e deram-se por vencidos entrando na igreja.
--Não vai me convencer a entrar! -- olhou para a mulher mais velha de cara feia
--Nem pensei nisso. -- segurou o rosto dela -- Só queria te dizer uma coisa, te contar uma história minha. -- soltou-a -- Sabia que já fui como você?
--A senhora?! -- perguntou em choque -- "Que será que ela quer dizer??” -- pensou intrigada -- "Será que dona Olga é sapatão aposentada?!”
--Já fui revoltada, descrente e cheia de conflitos interiores exatamente como você. Eu não acreditava em Deus porque não conseguia vê-lO. Eu queria uma manifestação poderosa pra poder me convencer, mas essa manifestação não me aparecia. Levei alguns anos procurando Deus nas tempestades, nos ventos fortes, no ronco poderoso dos trovões, no mar furioso... -- sorriu -- Mas levei tempo pra descobrir que Ele estava na brisa. Naquele vento suave que invade os espaços e está em todo lugar. Eu demorei a entender que a manifestação que eu buscava, a grande manifestação, acontecia diante de mim o tempo todo.
--Por que está me dizendo isso? -- não entendia -- Quer me catequizar nessa altura do campeonato?
--Não. Apenas quero que saiba que você pode sair desse estado de tensão e tristeza em que se encontra. -- acariciou o rosto dela -- Olhe atentamente pra sua vida e vai perceber que Deus esteve com você o tempo todo.
--Não entendo aonde quer chegar!
--Você sofre, Camille. E sofre muito! Não é de hoje... Não quer se libertar disso? -- olhava nos olhos da jovem
--E por acaso quem acredita em Deus não sofre?
--Claro que sim, mas o fardo é mais leve. O amor torna qualquer fardo mais leve.
--Amor... -- a engenheira respirou fundo e depois de uns segundos calada confessou: -- Uma coisa que me balançou muito foi essa cura de Ricardinho... Confesso que aceitei vir aqui também por causa disso.
--A própria médica disse pra nós que os tratamentos não têm histórico de cura. -- Olga relembrou
--Pois é... -- pausou e olhou bem para a outra -- Como pode um casal maduro adotar o filho dos outros, uma criança aidética, e se dedicar ao tratamento dela como se fosse a coisa mais importante de suas vidas? O amor tornou o fardo mais leve?
--O que posso lhe dizer? -- sorriu e balançou a cabeça -- Acho que sim!
--Como pode alguém como Juliana adotar uma idosa e levá-la pra casa? Uma idosa doente do coração e praticamente deficiente física? Como pode Seyyed se dispor a doar um rim pra Suzana não morrer? Como pode Suzana arriscar a vida tantas vezes pra prender o assassino de uma garota que ela nem conheceu?
--Por que se faz todas essas perguntas? -- Olga perguntou com delicadeza -- O que gostaria de encontrar, Camille?
--Não sei, dona Olga... Não sei responder essa pergunta. -- pausou -- Eu já pensei mais de uma vez nessas coisas todas e vi que, apesar da ingratidão dos outros ser uma coisa que machuca e faz sofrer... é maravilhoso fazer uma doação de si mesma que possa ser capaz de mudar a vida de alguém. Eu não sei dizer, é como... é como fazer um milagre!
--Uma atéia falando em milagres? -- provocou
--Não dê uma de Ivone, por favor! -- sorriu e ficou olhando para as próprias mãos -- Eu queria ser uma pessoa assim... A senhora buscava Deus em manifestações de força pra poder acreditar... eu queria ver um milagre acontecer por minha causa pra poder ter fé...
--Você já viu! -- afirmou enfaticamente
--Eu?! Quando? -- olhou para ela -- Qual foi o milagre?
Apontou para a jovem. -- Eis aqui! VOCÊ é o próprio milagre!
A loura nada respondeu.
--Camille, pense em tudo o que aconteceu desde o acidente até os dias de hoje e você verá que VOCÊ é o próprio milagre que buscava ver para acreditar.
Ela balançou a cabeça contrariada e respondeu: -- Eu não sou aquele tipo de pessoa que pega uma Bíblia, pega um livro e sai acreditando porque o mestre tal, o discípulo tal disseram isso ou aquilo. O ateísmo é a minha própria essência!
Olga novamente segurou o rosto dela e respondeu recitando: --"Tenhais confiança não no mestre, mas no ensinamento. Tenhais confiança não no ensinamento, mas no espírito das palavras. Tenhais confiança não na teoria, mas na experiência. Não creiais em algo simplesmente porque vós ouvistes. Não creiais nas tradições simplesmente porque elas têm sido mantidas de geração para geração. Não creiais em algo simplesmente porque foi falado e comentado por muitos. Não creiais em algo simplesmente porque está escrito em livros sagrados; não creiais no que imaginais, pensando que um Deus vos inspirou. Não creiais em algo meramente baseado na autoridade de seus mestres e anciãos. Mas após contemplação e reflexão, quando vós percebeis que algo é conforme ao que é razoável e leva ao que é bom e benéfico tanto para vós quanto para os outros, então o aceiteis e façais disto a base de sua vida."32 -- beijou a testa dela -- Não desapareça. Eu vou entrar agora. -- afastou-se dela e foi para dentro da Basílica
https://www.youtube.com/watch?v=5WNhEprbbmk
Camille ficou pensando naquelas palavras e refletindo sobre a própria vida enquanto caminhava pelo pátio externo da igreja. Mais adiante havia um grupo de pessoas sentadas em uma roda cantando e tocando violão. De repente parecia-lhe que a música soava como um convite.
“Deus está aqui neste momento
Sua presença é real em meu viver,
Entregue sua vida e seus problemas,
Fale com Deus, Ele vai ajudar você...”
“Sim, eu preciso de ajuda...” -- pensava. À sua mente, surge vívida a imagem de seu pai sendo esfaqueado pelo bandido. As lágrimas são mais fortes que seu desejo de retê-las
“Ô, ô, Deus te trouxe aqui,
Para aliviar o teu sofrimento...”
Lembrou-se da composição do metrô amputando sua perna e de todas as dores.
“Ô, ô, é Ele o autor da Fé,
Do princípio ao fim,
Em todos os seus tormentos...”
Lembrou-se do abandono de Augusto, dos problemas com as dívidas do pai, de seus enganos ao julgar os sentimentos de sua mãe. Lembrou-se da tentativa de suicídio, suas revoltas e frustrações. Não conseguia parar de chorar.
“E ainda se vier noites traiçoeiras,
Se a cruz pesada for,
Cristo estará contigo,
O mundo pode até, fazer você chorar,
Mas Deus te quer sorrindo...”
Lembrou-se dos esforços da mãe e do tio para vê-la se reerguer, do apoio de Juliana no hospital, de Olga trazendo Flávia para sua vida, dos conselhos da fisioterapeuta e dos deficientes que conheceu no ginásio e seus exemplos de superação.
“Seja qual for o seu problema,
Fale com Deus,
Ele vai ajudar você,
Após a dor vem a alegria,
Pois Deus é amor,
E não te deixará sofrer...”
Lembrou-se do amor de Fátima, de Tatiana e Priscila intermediando seu contato com Conceição, do apoio de Geni, da festinha de formatura em casa, de Seyyed dando-lhe oportunidade de trabalho e o dinheiro que faltava para pagar a prótese.
“Ô, ô, Deus te trouxe aqui,
Para aliviar o seu sofrimento...”
Constatou emocionada que nunca esteve só.
“Ô, ô, é Ele o autor da Fé,
Do princípio ao fim,
Em todos os seus tormentos...”
Lembrou-se do seu trabalho concretizado na oficina de Goiânia e na geração de empregos que isso proporcionou. Sentia-se orgulhosa.
“E ainda se vier noites traiçoeiras,
Se a cruz pesada for, Cristo estará contigo,
O mundo pode até, fazer você chorar,
Mas Deus te quer sorrindo...”
--Eu vi o milagre, eu sou o milagre... -- ajoelhou-se cuidadosamente no chão e olhou para o céu com o rosto banhado de lágrimas -- Eu acredito! Eu acredito!
“E ainda se vier noites traiçoeiras,
Se a cruz pesada for, Cristo estará contigo,
O mundo pode até fazer você chorar,
Mas Deus te quer sorrindo.”
Noites Traiçoeiras [c]
Camille finalmente podia agora entender que Deus se esconde sob o véu transparente de todas as coisas como para nos forçar a buscá-lO e a nos proporcionar, em seguida, a alegria de Sua descoberta. Ela percebeu o quanto havia se transformado.
15:00h. 13 de março de 2004, Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro
Seyyed e Isabela acabavam de meditar sob a sombra de uma árvore frondosa. Estavam sentadas na grama de pernas cruzadas, uma de frente para a outra, usando roupas de ginástica.
--Isso foi muito bom... -- Isabela sorriu -- Sinto-me leve...
Ed segurou as duas mãos dela. -- Temos uma conexão maravilhosa. Na cama e fora dela. -- sorriu e pensou -- Pena que eu quase estraguei tudo isso, não foi? -- abaixou a cabeça encabulada
--Será que agora que o tempo passou e estamos relaxadas podemos conversar melhor sobre o que aconteceu? -- pediu com delicadeza. Acariciava as mãos da amante
--Claro que sim. -- olhou para ela
--Por que? -- olhou nos olhos da outra -- Foi culpa minha?
--Não... -- balançou a cabeça negativamente -- Não concordo em se culpar uma pessoa pelas atitudes de outra. Sempre temos escolhas, e nenhuma delas é obrigatória. -- pausou -- Sabe, Isa? -- abaixou a cabeça novamente -- Nunca escondi de você que minha fraqueza sempre foi o desejo. -- afirmou envergonhada -- Se minha mãe não tivesse me criado dentro da doutrina e eu não quisesse verdadeiramente ter uma vida equilibrada, certamente seria uma mulher de muitas amantes...
--Eu sei que você já desejou outras mulheres neste tempo em que estamos juntas. Não vou dizer que não me importo com isso, mas não entendi porque somente Camille desequilibrou você.
--Talvez por causa do convívio e da admiração. Talvez porque você esteja certa e ela também goste de mim. Eu aprendi a gostar da Camille, a admirá-la... -- olhou para ela -- E ela é bonita, interessante... eu misturei as coisas. -- continuavam acariciando as mãos -- Samira foi uma fuga de uma confusão que se estabeleceu em mim... só que graças a Deus, e às coisas que Suzana me falou, eu evitei a tempo de coisa mais séria acontecer... -- respirou fundo -- Não tem idéia do quanto me arrependo e envergonho por isso. Você não merecia. -- beijou-lhe as mãos -- Perdoe-me, Isa, por favor! -- falava com muita sinceridade
--Já disse que estava perdoada. Não precisa ter medo. -- beijou as mãos dela também -- Em relação à Camille, não quero que tire ela da oficina e nem da sua vida, mas gostaria muito que não alimentasse intimidades demais.
--Tem minha palavra!
--E se reencontrar com a tal da Samira...
--Não acontecerá coisa alguma! -- afirmou com ênfase -- Juro que não!
A bailarina ficou olhando para a morena e depois de uns instantes calada afirmou: -- Acho que também devo ser bastante sincera uma vez que você é sempre transparente comigo... -- pausou por uns segundos -- Eu menti pra você em muitas ocasiões... é hora de acabar com isso! Aliás, menti pra outras pessoas além de você...
--Todos mentimos ou omitimos a verdade em alguns momentos...
--É, mas eu não quero mais isso! Pelo menos não com você! -- afirmou com convicção
Seyyed ficou calada olhando para a ruiva sem saber quais seriam tais mentiras.
--Sua fraqueza é o desejo pelo sex*, a minha é o desejo pelo sucesso. -- pausou e esfregou as mãos no rosto -- Sabe que eu não queria me apaixonar e nem ter um relacionamento sério. Sempre quis que minha vida fosse dedicada à dança, sabe disso. Meu sonho sempre foi ser a melhor, a número um do mundo, a bailarina mais famosa do meu tempo.
--Não há mal nisso se você lutar pra chegar lá com dignidade.
--Esse é o ponto... -- pausou -- Quando eu fiz a audição pra dançar em Paris, na Academia Giffé, fui aprovada com louvor e depois disso, ainda no Brasil, conheci Beatrice, que é Primeira Bailarina de lá e certamente uma pessoa de muitas influências. Ela não pôde participar da audição mas ficou sabendo que eu fui a bailarina que mais se destacou no processo e por isso ela fez questão de vir falar comigo. Durante a conversa notei que ela se impressionou não somente pelo meu talento... Ela disse que eu poderia ficar além do tempo pré estipulado de um ano se meu desempenho fosse satisfatório... -- virou o rosto para outra direção -- e eu entendi desde o começo que a proposta dela era sexual...
--Então não foi pega de surpresa pelo assédio dela? -- concluiu
--Não... -- abaixou a cabeça -- O que aconteceu foi que na hora H eu me arrependi e não tive coragem... eu vi que eu não queria aquilo pra mim.
--E aí ela te sacaneou por vingança, despeitada por não ter conseguido nada?
--Isso...
Levantou o rosto dela com uma das mãos delicadamente. -- Não se envergonhe. Você voltou atrás e ficou lá por um ano, que foi o tempo que conquistou pra ficar com seu talento, sem interferência de ninguém!
--Não ficou decepcionada?
--Não... Eu sei como que é difícil não ceder ao que nos atrai... -- sorriu com cumplicidade -- O importante é que não deu mole pra ela. -- piscou
--Mas com toda minha ambição pelo sucesso eu juro que não tenho nada a ver com o que aconteceu com Joice! -- olhou no fundo dos olhos da morena
--Isso nunca nem me passou pela cabeça! -- beijou as mãos dela novamente -- Você tem caráter e eu sei que não faria mal a quem quer que fosse! -- afirmou com seriedade
--Tive muito medo que a calúnia de Neyan te deixasse desconfiada de mim!
--Que nada! Aquele palhaço merecia era um soco bem dado naquela cara de bunda mal lavada que ele tem! -- afirmou revoltada
A ruiva respirou aliviada e sorriu. Ficou uns instantes calada e depois falou: -- Quando a gente se conheceu, -- olhou bem para a outra -- eu te achei atraente, interessante, bonita... Quando você falou sua opinião sobre o balé clássico e a dança contemporânea eu fiquei extasiada! Achei incrível que tivesse tanto conhecimento sobre artes e tudo mais... Eu quis você mas tive medo. Medo da minha inexperiência, medo de viver um relacionamento homossexual e medo de me apaixonar também...
--Você só queria saber como era estar com uma mulher, não é? -- relembrou da tristeza que sentia naquela época
--Sim e não... -- respirou fundo -- Eu não queria ter me apaixonado mas aconteceu e eu me senti muito insegura. Mamãe dizia que eu tinha que te manter na dúvida e eu fiz muito do que me aconselhou a fazer. Eu sumia, não te ligava...
--Eu sabia que jogava comigo... Só não sabia porque. -- ficou mexendo na grama
--Eu queria garantir que você não perderia o interesse em mim... Acha que eu não notava quando você se balançava por outras mulheres? Apesar de saber que você me amava, essa sua fraqueza sempre me incomodou muito...
--E incomodaria a qualquer mulher. -- abaixou a cabeça
--Quando eu te pedi pra morar na zona sul, fiz isso porque mamãe e Priscila falaram tanto na minha cabeça que eu acabei cedendo e indo na onda... Pura falta de personalidade minha!
“Dona Olga não é mole... Ela acertou em cheio...” -- sorriu ao se lembrar de uma conversa que teve com a mãe
--Aí eu fiquei com medo de te perder pra Juliana e voltei atrás.
--Por isso cismou e foi morar comigo de uma hora pra outra? -- perguntou surpresa
--Quando você não quis fazer amor comigo porque tava triste por causa dela eu fiquei preocupadíssima! -- relembrou
--Você não corria risco algum!
--E nossa festa de casamento, a open house e várias outras coisas que te pedi foram porque estava seguindo conselhos que julguei oportunos. -- pausou -- Mesmo a idéia de colocar o apartamento no meu nome foi isso... -- admitiu envergonhada
--E eu aceitei fazer tudo isso pra não te perder... -- olhou para ela -- Não sabe como tenho medo disso... -- afirmou
--Eu não imaginava... -- respondeu com sinceridade
--Eu te amo, garota! -- sorriu -- Isso você imaginava?
--Também te amo... -- sorriu em retribuição -- E minha... faceta, -- jogou uns pedacinhos de grama sobre ela -- é só sua...
--Hum... -- lançou-lhe um olhar maldoso -- A minha também é exclusiva...
--A sua é safada demais, isso sim! -- jogou mais pedaços de grama sobre ela
--Safada, mas ela se aquieta! Quem manda aqui sou eu! Essa faceta anda no sapatinho... -- brincou
--Vamos pra casa? -- propôs fazendo dengo
--Depois só eu que fico com fama de gostar da safadeza... -- brincou -- Faceta de mulher honesta sofre, viu?
20:00h. 14 de março de 2004, Teatro Central, Goiânia, Goiás
Renan, Tatiana, suas duas irmãs e os respectivos namorados aguardavam na fila para assistir a uma ópera.
--Deixa eu te falar que eu nunca tinha vindo numa ópera. -- Sandro, namorado de Tamires confessou -- Mas namorar mulher culta dá nisso, né, fi? -- cutucou Daniel, namorado de Tânia
--Eu já gostava. -- ele respondeu -- Mamãe é professora de canto, meu pai é violinista, não tinha como não gostar. -- sorriu
--Eu nunca fui muito chegado a essas coisas, nem com toda a influência de Ed e mamãe. -- confessou -- Mas eu assisto na boa e no final sempre gosto.
--Eu gosto das óperas porque elas sempre contam uma história. -- Tânia comentou -- Igual musical, é muito massa!
--Ah, eu também adoro! Ópera, musical, balé... -- Tatiana respondeu -- Se não tivesse feito comunicação, com certeza teria feito dança. -- mexia em um pequeno gravador
--O que é esse trem aí que você tanto mexe? -- Tamires perguntou curiosa
--Meu gravadorzinho. Comprei por causa do trabalho e vou testar aqui. -- Tatiana respondeu -- Pronto, liguei. -- sorriu para a irmã -- Vícios de repórter!
--Você é repórter? Mas não é formada em comunicação social? -- Daniel perguntou sem entender a profissão da cunhada
--Na comunicação social você pode se especializar em jornalismo, publicidade e propaganda, radialismo e televisão, cinema, direção teatral, produção editorial, produção cultural, relações públicas, design de moda e marketing. -- respondeu -- Escolhi jornalismo!
--Não é coisa pouca, não, rapá! -- Renan deu um tapa no braço do outro
--Gente, mas que zumzumzum é esse do outro lado da rua, hein? -- Tânia perguntou intrigada
--Um pagodão, amor. -- Daniel respondeu -- Olha quanta gente tem lá!
--É tão difícil ver pagodão na Goiânia... -- Sandro respondeu -- Eu adoro! Que pena que coincidiu com a ópera!
--Sou chegada, não... -- Tamires respondeu
A fila começou a andar e as pessoas foram entrando no teatro aos poucos. Quando chegou a vez deles o funcionário interrompe o fluxo das pessoas e pergunta olhando para Renan, Daniel e as garotas: -- Será que vocês não estão no lugar errado, não? -- pausou -- O pagodão é do outro lado da rua! E corre que é só hoje, depois acabou!
--Deixa eu te perguntar, por que não advertiu às outras pessoas na fila? -- Tatiana encarou com o homem -- Por que não olhou pro Sandro quando falou com a gente? Por que ele é o único branco do grupo? -- estava séria
Ele ficou sem graça e respondeu: -- Não, é porque às vezes a pessoa se engana e...
--E por que só a gente podia ter se enganado? Acha que por que somos negros só podemos gostar de pagode, samba, funk e nada mais? Não podemos gostar de clássicos? -- Daniel perguntou aborrecido
--Pra teu governo, camarada, -- Sandro interferiu -- eu, o único branco do grupo, sou o único que nunca tinha vindo numa ópera!
--Desculpe, gente, eu não queria ser inconveniente mas... posso ver os ingressos? -- tentava ser gentil para disfarçar o racismo de seu julgamento
--Mas foi inconveniente! -- Renan afirmou de cara feia -- E se quer saber já falou demais! -- entregou os ingressos a ele
--Camarote... -- falou desconfiado
--E qual o problema? -- Daniel perguntou de cara feia
--É que são os ingressos mais caros... -- respondeu
--E aí os únicos negros que vieram assistir à ópera não podem ficar no camarote? -- Tamires perguntou -- Nossos ingressos, na certa, são falsos? -- cruzou os braços de cara feia
--Eu preciso de um minutinho pra conferir uma coisa... -- afastou-se e foi falar com um colega sentado dentro de uma sala
--Tá gravando isso, Tati? -- Renan perguntou
--Eu tô!
--É muita mediocridade, viu, fi? -- Tânia comentou indignada -- Toda vez que eu venho prum trem desses acontece de o povo ficar me olhando de esguelha ou então de ouvir uma conversa fiada assim. Depois dizem que no Brasil não tem racismo!
--Se tem! -- Daniel exclamou -- Só meus pais sabem o quanto sofreram pra ingressar em suas carreiras!
--Deixe estar, gente! Eu vou agir e vai ser agora! -- Tamires disse -- Vem comigo, Tati! -- as duas foram
--Ih, que a advogada vai entrar em ação! -- Sandro brincou esfregando as mãos
--Ô Douglas, tem uma cambada de tiziu aí fora pra assistir a ópera de camarote e eu acho que isso aqui é coisa falsa! -- o funcionário mostrou os ingressos ao colega -- Repara na cor, que diferente!
--Mas ingresso de camarote tem a cor é diferente mesmo, viu, fi? -- Douglas respondeu contrariado -- Você quer comprometer o nome do nosso teatro, é? Volta lá e deixa o povo entrar!
--Senhores, -- Tamires abordou os dois funcionários -- acho que temos que esclarecer algumas coisas aqui!
--Não podem entrar aqui! -- o homem racista reclamou
--Presumo que ambos saibam que pela lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional têm punição severa. E presumo que saibam que impedir o acesso ou recusar atendimento ao cidadão em estabelecimentos esportivos, casas de diversões ou clubes sociais abertos ao público por questões de racismo incorre em pena de reclusão de um a três anos. -- falava com propriedade
--E eu presumo que vocês não saibam que eu tava gravando tudo! -- Tatiana afirmou sorrindo com deboche
--Que é isso, senhoras, pelo amor de Deus! -- Douglas levantou-se assustado e tentava disfarçar -- Nós não estamos impedindo o acesso, do contrário, meu colega me pedia para guiá-los até os seus assentos! -- pegou os ingressos das mãos do outro -- Venham comigo, por gentileza! -- apontou o caminho
Tamires olhou nos olhos do homem que os discriminou e disse: -- Aguarde que você será intimado por crime de racismo! Pelo artigo 5º da Constituição Federal, o crime de racismo é inafiançável e imprescritível! -- retirou-se da sala
--Ela é advogada, meu bem. Custosa como ela só! Vou traduzir em português claro o que ela te falou: sinto que você vai preso, viu, fi? -- Tatiana piscou para ele e seguiu a irmã
O homem ficou parado sem saber o que fazer e do lado de fora as pessoas na fila reclamavam por ainda não poder entrar no teatro.
***
Tatiana se preparava para dormir quando percebeu que Renan estava deitado na cama com um olhar de tristeza. De lado e encolhidinho como se fosse um menino indefeso, ele parecia desprotegido.
--O que foi meu amor? -- deitou-se de lado olhando para ele -- Que carinha é essa, meu pretinho? -- aproximou-se mais e deslizou as pernas para junto das pernas dele -- Magoado por causa daquele problema na entrada do teatro?
Ele olhou para a esposa e respondeu com tristeza: -- Aquilo acabou com minha noite... não consegui prestar atenção no espetáculo e nem relaxei mais.
--Eu notei que você e Tamires ficaram tensos demais... -- acariciava o rosto dele -- Mas eu fiquei mesmo foi com pena daquele homem porque do jeito como Tamires é danada, ela não vai sossegar enquanto não fizer ele pagar pelo que fez.
--Pensei que nunca mais passaria por coisas assim... Pensei que nunca mais seria julgado pela cor da minha pele como se essa cor fosse uma maldição...
--Seremos julgados o quanto vivermos, meu amor! -- beijou-o -- Mas não devemos e nem podemos nos curvar a isso!
--Acho que ainda não sei lidar com essas coisas... -- segurou a mão dela com carinho
--Vou te contar uma história. Antes de dividir apartamento com Priscila e a finada Patrícia, eu morava em uma pensão. Teve um dia em que a filha da dona da pensão foi visitar a mãe ou ela foi dormir lá, sei não... eu tava sentada na sala de uso comum, toda arrumadinha, esperando por umas colegas da faculdade. A gente ia sair de noite... -- relembrava -- Lembro bem de ouvi-la dizer: “-- Francamente, mamãe, agora a senhora já aceita até piranha pra morar aqui? Coisa mixuruca chegar aqui e ver uma puta esperando cliente na sala!”, aí a mãe dela respondeu: “-- Pelo amor de Deus, aquela ali é mocinha direita! E é a única nessa pensão que me paga em dia!” -- pausou -- Minhas amigas chegaram logo em seguida e eu fui sair arrasada, sabe? Perdi as contas de quantas vezes fui tomada por prostituta ou por idiota somente por ser negra...
--Isso é nojento! -- indignou-se e ficou pensativo -- Imagine o meu caso, negro e menino de rua... -- desviou o olhar -- Não tem idéia do que já sofri...
--Você nunca me falou do seu passado... -- beijou-o -- Nunca fala de sua vida antes de dona Olga e Seyyed.
Ele permaneceu calado e acariciando a mão dela.
--Se um dia quiser desabafar... Queria conhecer tudo de você, Renan dos Santos... – sorriu -- Eu te amo e só faço me orgulhar de ter você como meu homem... -- beijou-o na testa
“Ela é minha mulher e eu a amo... Por que não poderia confiar nela?” -- pensou e depois de uns instantes decidiu desabafar: -- Minha mãe era negra, bem mais escura do que eu. Ela era empregada doméstica de uma família residente no Engenho de Dentro desde que se entendia por gente. Aos quinze anos foi seduzida pelo patrão e ele se aproveitou dos sentimentos dela. Quando ficou grávida de mim, aos dezesseis, a patroa a colocou na rua. Nós vivemos até os meus nove anos em um cantinho da estação de trem daquele bairro. -- pausou -- Não tem idéia da vida que tínhamos... -- relembrou emocionado
--Oh, meu querido... -- acariciou o rosto dele comovida
--Em uma noite de inverno, incrivelmente fria pros padrões cariocas, nós estávamos deitados encolhidinhos debaixo dos jornais. Lembro que mamãe me olhou nos olhos e disse: “-- Com você será diferente. Vai crescer, ter profissão boa e seus filhos nunca passarão por isso. Seu futuro será cheio de felicidades...” Ela sorriu e me abraçou com força. -- pausou -- Mamãe morreu dormindo naquela noite e quando acordei e percebi que estava só, acho que enlouqueci... -- lágrimas caíram de seus olhos -- Minha mãe tinha a cara da mulher negra e pobre do Brasil, Tati. Ela se chamava Maria, simplesmente Maria, e era uma lutadora humilde e muito honesta...
Tatiana ficou muito emocionada e respondeu: -- Ela deve ter muito orgulho de você, com toda certeza! -- continuava acariciando o rosto do marido
--Eu não sabia o que fazer... virei trombadinha e vivia com uma pequena gangue de garotos, cheirando cola e cometendo pequenos delitos. Assim foi até o dia em que conheci minha segunda mãe, dona Olga.
--E como foi isso?
--Eu a abordei com um canivete em plena Dias da Cruz e pedi sua bolsa. Ela me pediu pra tirar os documentos de dentro e eu deixei. Daí quando me entregou a bolsa ela falou: “-- Que Deus apresse o dia em que não precisará mais fazer isso, porque sua mãe sonhou pra você um futuro muito mais bonito!” -- pausou -- Ela disse isso olhando nos meus olhos e você não tem idéia do quanto me balançou... Quando eu mexi na bolsa dela vi o papelzinho do centro espírita que freqüentava e depois de muitos dias eu fui lá. Queria vê-la, devolver a bolsa e... não sei dizer... eu sofria muito, queria sair daquela vida...
--E aí ela deixou você fazer parte da vida dela. -- respondeu emocionada
--É... – secou as lágrimas com os dedos -- e tudo mudou... Mas ainda assim não sabe o que ela e Ed passaram por minha causa. Os preconceitos das pessoas, as piadinhas... Não sabe quantas vezes fui acusado de ter roubado o que nunca roubei, estragado o que nem toquei... não sabe quantas vezes fui convidado a me retirar de um lugar porque minha simples presença desagradava... -- respirou fundo -- Fazia muito tempo que eu não passava por isso... -- olhou para as próprias mãos
--Renan, olhe pra mim! -- segurou o rosto dele fazendo com que olhasse para ela -- Você mudou sua vida, tem uma profissão, é dono do próprio negócio, emprega pessoas, dá oportunidades a jovens com síndrome de Down... você é um homem honesto, admirável, lindo sob todos os aspectos! Não pode deixar que a ignorância dos outros esmague tudo isso! Sua mãe tinha razão o tempo todo, com você foi diferente e nossos filhos nunca, se Deus quiser, nunca passarão pelo que passou! Não deixe que gente como aquele homem faça você sofrer! -- pausou -- Você foi menino de rua e isso não é um crime! Não quero que se sinta da mesma forma como se sentia naquela época!
--É difícil superar estas coisas... -- gastou uns segundos pensativo -- As pessoas têm muita raiva dos menores de rua, porque eles roubam e muitas vezes se tornam cruéis, mas quem nunca dormiu ao relento, debaixo de viaduto, sem ter o que comer, o que vestir, sem ter um copo d’água pra beber, sem ter como fazer uma higiene... quem nunca passou por isso não sabe o que é ser menino de rua. É muito fácil se tornar um bandido, porque é uma questão de sobrevivência. É muito fácil cair se ninguém te estende a mão pra você se levantar... E, acredite, é muito difícil se livrar dos maus hábitos...
--E é por isso que eu te admiro tanto! Porque imagino a luta que teve de travar pra se tornar o homem que é. -- sorriu -- Você é um vencedor, meu bem!
--Eu te amo, Tati! -- acariciou o rosto dela
--Também te amo, meu lindo! -- beijaram-se com muito carinho
***
Flávia se preparava para dormir quando a campanhia toca. -- Ué? Quem me visitaria a essa hora? Quem será, será? Forever will be, will be! Eita, que essa eu tirei do fundo do baú! -- riu sozinha -- Não me diga que o síndico já quer aumentar o condomínio de novo? -- olhou pelo olho mágico e abriu a porta apressada -- Brito! -- exclamou surpresa
Ele entrou rapidamente e falou agitado: -- Flávia, escute, eu não tenho muito tempo. -- olhava para todos os lados -- Estou no programa de proteção às testemunhas, mas o cerco está se apertando. Terei de sair do Rio e sumir por um tempo! Vou embora junto com Macumba e a chefe está nos ajudando... -- aproximou-se dela e segurou suas mãos -- Queria me despedir!
A fisioterapeuta levou um impacto ao ouvir aquilo. -- Presumo que não me dirá pra onde vai!
--Melhor que não saiba. -- olhou nos olhos dela -- Pro seu próprio bem! -- pausou -- Ninguém sabe pra onde iremos; acho que nem nós mesmos...
Ela respirou fundo e respondeu: -- Lamento muito por tudo isso, mas desejo que nada de mal te aconteça. Eu vou rezar por você, como já faço, todos os dias de minha vida. -- estava triste
--Eu passei dez anos de minha vida totalmente sozinho. -- pausou -- Com você vivi momentos maravilhosos e nunca vou esquecer... Tem minha palavra de honra quando digo que não quero nenhuma outra mulher! Nenhuma além de você!
--Também não me vejo mais ao lado de outro homem...
--Eu não sei quando volto, mas... Será que seria muito se pedisse pra me esperar? -- pediu esperançoso
--Eu espero! -- respondeu com muita sinceridade e abraçaram-se com força
--Perdoe por ter te assustado, perdoe-me pelo que me tornei... -- sentia-se envergonhado -- Eu te amo, Flávia! Eu te amo!
--Também te amo, meu querido! -- fechou os olhos
Romperam o abraço com dificuldade e ficaram se olhando por alguns segundos.
--Tenho que ir. -- sorriu -- Mas eu volto, juro que volto.
--Eu te espero...
Brito afastou-se dela, abriu a porta e saiu quase correndo. Flávia fechou a porta e encostou-se nela olhando para cima. Não sabia se um dia veria seu amado novamente, mas estava disposta a esperar.
***
--Então foi isso, dona Lourdes. -- Flávia desabafava enquanto faziam fisioterapia -- Ele se despediu de mim ontem à noite e foi embora pra sabe-se lá onde...
--Ele e o tal de Macumba são os mais visados... -- a idosa respondeu -- É tão revoltante! Os corruptos ficam e quem luta contra a safadeza, sai!
--Rodolfo está morto e Coimbra saiu da polícia. Lemos e Jailson vivem eternamente alarmados... Essas criaturas podem ter paz, dona Lourdes? Claro que não...
--A gente precisava falar com alguma pessoa poderosa pra dar um jeito nisso! Mas quem? -- pensava intrigada
--Queria eu saber! -- orientava a idosa em seus exercícios -- Queria eu saber...
--Tenha fé, minha filha! Tudo vai dar certo, se Deus quiser! Veja o caso da minha Suzaninha! Ela foi aposentada contra a vontade, mas está viva e isso é o mais importante.
--Falando naquela Mahoney tropical, onde está ela? -- perguntou curiosa -- Sempre que venho aqui ela está com a senhora, mas hoje... onde anda?
--Ela aproveitou que você viria e foi fazer umas investigações. Deixou o almoço pronto pra mim e saiu logo cedo. Disse que volta antes de Juliana chegar, pra eu não ficar muito tempo sozinha.
--E o que ela anda investigando? -- perguntou curiosa
--E eu pergunto? Fui casada com delegado por muitos anos... Investigações são sempre secretas!
Flávia riu. -- Eu sabia que ela não ia conseguir ficar muito tempo longe do perigo... Somente as atividades na minha micro academia não seriam suficientes...
--Sabia que a gente vai viajar de moto? -- perguntou animada -- Vai ser um encontro de motoclubes lá em Guarapari.
--Eita lelê, que coisa boa, hein? E quando vai ser isso? -- riu
--Na Páscoa! Juliana está pegando plantões extras pra poder ir!
--Páscoa radical, hein, dona Lourdes? -- deu um beijo na cabeça dela -- Tô sabendo que pulou de parapente na Pedra Bonita, que passeou de saveiro em Ilha Grande, só coisa maneira!
--Agora que eu melhorei bastante e que está tudo bem nessa casa eu quero aproveitar, minha filha! Agora eu tô radical! -- fez o sinal hang loose com a mão
--Eu posso com isso, gente? -- riu
***
Suzana andava investigando sobre Neyan e havia descoberto que o coreógrafo começou a vida trabalhando como ajudante de sapateiro, aos sete anos de idade. Filho de uma faxineira e de um alfaiate pobre, praticava dança às escondidas do pai, pois o homem não o queria em uma profissão que julgava efeminada demais. Conheceu a dança muito cedo através da patroa da mãe, a qual era professora da escola do Municipal, e logo se encantou. Somente mais tarde, com a morte do genitor, pôde se dedicar inteiramente ao que mais gostava e logo se decidiu por enveredar na carreira de coreógrafo.
A delegada visitava o teatro acompanhada por uma bailarina experiente. Havia enganado que estava interessada em iniciar uma tese de doutorado sobre a história do balé no Brasil.
--Eu já andei pesquisando alguma coisa sobre o Theatro. -- disse à professora enquanto caminhavam lentamente -- Soube que foi inaugurado na época em que o Rio era Distrito Federal, em 14 de julho de 1909, pelo prefeito Pereira Passos, como uma finalização da reforma que ele realizou na cidade. Parece que houve uma espécie de concurso pra escolher o projeto do teatro e o que vemos aqui hoje é uma fusão da proposta de Francisco Oliveira Passos e Albert Guilbert. Soube também que o desenho final do prédio foi inspirado no da Ópera de Paris, construída por Charles Garnier.33
--Exatamente! No primeiro momento o Municipal era apenas uma casa de espetáculos que recebia companhias estrangeiras. No entanto, a partir da década de 30 o Municipal passou a ter seu próprio corpo artístico. Somos a única instituição cultural brasileira a manter simultaneamente um coro, uma orquestra sinfônica e uma companhia de balé! É com muito orgulho que faço parte desta companhia. -- respondeu sorridente
--Meu Deus, olha só esse piso de palco! -- aproximou-se e começou a alisar a madeira com as mãos -- "Hum... Mesmo que alguém passasse uma cera poderosa aqui, ainda assim não ficaria perigoso...” -- pensou -- Aqui é tudo muito lindo!
--Madeira de lei com tratamento superficial! E olha que a última reforma aconteceu na década de oitenta!
--É muito seguro, não é? Uma bailarina não poderia escorregar aqui mesmo se a moça da limpeza caprichasse na cera! -- arriscou
A bailarina riu. -- Não, isso não acontece. Uma coisa que pode trazer muito problema a uma bailarina são as sapatilhas. Acidentes acontecem por causa da inexperiência no uso de sapatilhas de ponta ou do uso de sapatilhas inadequadas.
--Como assim?
--Poucos imaginam que o balé exige muita força e preparação. A habilidade em se movimentar na ponta dos pés só é possível graças ao uso de sapatilhas de ponta e sapatilhas inadequadas podem levar mesmo um bailarino dos mais experientes a acidentes graves! É por essas e outras que só deixamos os alunos usarem tais calçados quando estão realmente prontos pra isso!
--Nossa, que curioso... -- respondeu pensativa -- "E nosso homem era sapateiro, não?” -- pensou ao se lembrar do que descobriu sobre Neyan
***
Juliana fazia um curativo em uma mulher de seus vinte e poucos anos a qual mirava um ponto perdido no infinito com muita tristeza. As duas estavam no atendimento de emergência.
--O que te entristece, Amanda? -- perguntou brincalhona -- Eu termino daqui a pouco e logo você vai pra casa. Ainda vai ter tempo de ver a novela das oito. -- queria mudar o humor da jovem
--Saudades por antecipação... Minha na... -- interrompeu o que dizia e depois de uns segundos calada continuou: -- Minha amiga viaja hoje à serviço. -- corou
--Amiga? -- perguntou desconfiada -- Pela sua tristeza deve ser uma amiga muito especial...
Amanda ficou encabulada e nada respondeu.
--Relaxa, criatura... Eu também sou lésbica e te entendo muito bem. Logo você se recupera e não demora muito as duas estarão juntas novamente. -- falou mais baixo
A moça olhou para ela aliviada. -- Que bom que justo você me entende! Eu te achei a pessoa mais legal daqui! -- sorriu
--Nossa, que honra! -- sorriu orgulhosa
--Eu vi essa aliança no teu dedo e pensei que fosse casada com um homem.
--Não... sou casada com uma delegada de polícia muito da safada! -- sorriu lembrando-se de Suzana
--Minha namorada é comissária de bordo, melhor dizendo, chefe de cabine. Seu nome é Viviane e ela tem trinta e sete anos. Nem parece, sabe? Todo mundo pensa que somos da mesma idade! -- afirmou orgulhosa -- Ela voa hoje pra Amsterdã e por isso não pôde ficar aqui comigo... -- comentou chateada
--Foi ela quem te trouxe pra cá?
--Foi, mas como o atendimento demorou muito ela teve que ir embora...
--Daqui a pouco ela volta de viagem. Concentre-se na sua recuperação que é melhor. Tristeza faz muito mal. Eu bem sei...
--Qual o remédio, né? -- olhou para ela entristecida
--Mas afinal de contas, -- mudou de assunto -- como foi que conseguiu se machucar tanto, hein? Dois cortes no rosto, um dente quebrado, tanto hematoma pelo corpo e mais um tornozelo torcido?
--Ah... sabe como é... briga de casal...
--O que??? -- olhou para ela em choque -- Foi ela que fez isso contigo? -- interrompeu o curativo para ouvir a resposta -- "Mas que comissária de bordo dos infernos é essa? Mulherzinha maldita, eu hein!” -- pensou
--Ah... -- passou a mão pelos cabelos -- eu mereci...
--Como assim, mereceu, criatura? Pelo amor de Deus, que conversa é essa? -- estava boquiaberta
--Eu adoro sair à noite, sabe? Mas Viviane não curte isso. Prefere os programas diurnos e tal... Quando ela viaja eu saio escondido com as amigas, mas não apronto nada. É só pra dançar. -- pausou -- Aconteceu que eu deixei escapar que tinha ido pra uma danceteria que inauguraram na Barra e aí o tempo fechou. Começamos uma discussão e eu confessei que saía escondido...
--E então a calhorda se achou no direito de te bater? -- voltou a fazer o curativo -- "Tem mulher que é muito burra! Ai de Suzana que venha me bater, ai dela! Eu como o único rim daquela nhambiquara! Quero ver fazer xixi depois dessa!” -- pensou de cara feia
--Ela tava na razão dela... eu menti, ela se sentiu enganada...
--Que é isso, mulher? -- concluiu o curativo e olhou para ela de novo -- Os problemas de um casal não podem ser resolvidos assim! Tem que ter diálogo, tem que ter respeito! -- pausou -- Eu te confesso que uma vez, no auge da minha tristeza, meti a mão na cara da minha ex mulher, mas não sabe o quanto me arrependi e me arrependo por isso. Estava errada, totalmente errada, e ela foi gentil o suficiente pra não revidar. -- pausou -- E se fizesse isso teria me machucado porque ela é bem mais forte do que eu.
--Viviane me ama, eu sei. Ela não tem culpa de se descontrolar às vezes...
--Ela já te bateu em outras vezes?? -- não parava de se surpreender -- "Eita, que amorzinho miserável! Essa maluca apanha por esporte!”
--Ah, mas foi bem mais leve. Um tapa no rosto, um empurrão... coisas assim.
--Ah é, que coisa meiga! A abutre do capeta já te machucou toda e quase quebrou tua perna, mulher! Daqui a pouco ela te fura um olhinho, quebra umas costelinhas, te deixa banguelinha... E quando a coisa ficar um pouquinho mais pesada ela te quebra as duas pernas pra você não poder mais dançar! -- respondeu horrorizada -- Dá mole que essa Bruce Lee possuída te quebra do cóccix até o pescoço!
--Não é assim... -- protestou -- Só dessa vez foi que ela passou dos limites. Mas também, coitada, com as coisas que eu falei ela tinha mesmo que perder a cabeça.
--Criatura, ouve o que você tá dizendo! Isso não é certo! -- segurou-a pelos braços -- Um relacionamento assim é uma coisa doentia, que não faz bem nem a você e nem àquela urubua da peste!
--Ah, mas é tão bom na cama...
--Um relacionamento não pode ser só sex*! -- soltou-a -- Pode-se trans*r bem com uma pessoa que não valha um centavo na vida da gente. Garota, um relacionamento tem que ter amor, companheirismo, amizade, respeito! Se as pessoas chegam a ponto de se agredir dessa forma, é sinal de que é hora de dar um basta!
--Você não entende, eu não consigo viver sem ela! -- respondeu aflita -- Eu preferiria morrer a ficar sem minha Viviane!
Juliana respirou fundo e disse: -- Há pouco mais de quatro anos atrás eu havia acabado de me separar de minha mulher, e, acredite, ela era uma pessoa ótima pra mim. Nunca havia tido uma atitude agressiva comigo! Eu simplesmente amava a vida que tinha e morria de medo que as coisas mudassem. Meu maior medo era perder Seyed pra outra mulher... -- relembrou -- Quando Ed me disse que era o fim, foi como se eu tivesse ouvido um médico dizer que meus dias estavam contados. -- pausou -- Eu quis morrer, garota! Minha vida me parecia a coisa mais triste e mais vazia do mundo. Entrei em depressão, desgostei de tudo, vivia dormindo... E vou te contar, só não me matei nem sei porque!
Amanda prestava atenção. -- Como superou isso?
--Tive o apoio de minha ex sogra, o nome dela é Olga, que orou muito por mim. Ela me recomendou uma psiquiatra excelente chamada Ivone e eu fiz um tratamento que me ajudou a enxergar a vida sem fantasias, sabe? Ao mesmo tempo mudei a minha postura diante de tudo: no trabalho, na vida social, em tudo! Eu comecei a me dedicar mais a minha vida espiritual, a me dedicar mais aqui no hospital, comecei a olhar pro lado e a me sensibilizar com o sofrimento das outras pessoas... Dei um sentido maior a minha vida, aprendi a ser útil, e quando eu menos esperava Suzana apareceu. -- sorriu -- Parece que foi ontem que ouvi dona Olga recitando Quintana pra mim: “O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você.”
A jovem ouvia pensativa. -- E você se considera mais feliz hoje?
--Posso te dizer que nunca estive tão feliz quanto hoje! -- respondeu convicta -- E hoje aprendi a não condicionar minha felicidade a coisas que passam e nem a ninguém. Posso sofrer com as coisas da vida, mas não será mais como antes, sei que não. -- olhou para a outra com muita intensidade -- Mulher alguma merece ser tratada com violência! Você merece carinho, amor, atenção e respeito. Se essa aeromoça de Satanás não tem competência pra te dar isso, como demonstra não ter, jogue essa peste pra escanteio e cuide de sua vida, que coisa melhor pode te aparecer! Não pode se colocar nessa posição tão infeliz!
Amanda começava a questionar o benefício daquele relacionamento em sua vida.
19:15h. 18 de março de 2004, Edifício Rubi, sala 1033, Centro da Cidade, Rio de Janeiro
--Ivone do céu, há quanto tempo, hein? -- Juliana abraçava a psiquiatra -- Ai, mas eu já andava com saudades de ouvir essa tua voz de dubladora! -- sorriu
--Voz de dubladora? -- riu -- Presumo que isso seja um elogio. -- as duas se sentaram em seus respectivos lugares
--Ah, claro que é! Você tem uma voz muito bonita... -- pausou -- Falando em voz, você ouviu a minha delegada cantando, Ivone, que coisa linda? -- perguntou apaixonada -- Aquilo ali não é uma cantora, é uma intérprete, você não acha, não?
--Suzana canta muito bem e de fato ela interpretou a canção maravilhosamente. A letra, inclusive, era perfeita pra ela e pro momento.
--Ai, nem me lembra que me dá vontade de chorar de emoção! -- relembrava -- Eu ali, poderosa com aquele vestido que dona Lourdes me deu, toda desavisada quando de repente aquela nhambiquara danada me aparece cantando daquele jeito e me pede em casamento... -- olhou para a outra -- Fala se não foi um espetáculo!
--Foi um pedido de casamento muito original e emocionante, com toda certeza. -- sorriu -- E como vai a vida agora que conseguiu o que queria?
--Ótima! -- respondeu enfática -- Suzana fez uma reforma no apartamento, comprou móveis novos e você tem que ver como ficou bonito! Ela se interessa tanto pelas coisas da gente, sabe? Temos uma conta conjunta só pra cuidar dos gastos em comum e praticamente sou eu quem dá todas as ordens.
--Que maravilha!
--Ela comprou uma moto nova, de marca japonesa, diga-se de passagem, e Ed adaptou um carrinho lateral pra dona Lourdes ir junto. Já fizemos uns passeios curtos, mas vamos fazer uma excursão com o motoclube dela na Páscoa.
--Muito bom!
--E apesar de tudo o que passou, minha índia sem vergonha continua um arraso na cama, Ivone! -- começou a se empolgar -- Ela vem assim toda faminta, me pega, me abre, me fecha, é um tal de mão de cá, boca de lá e aquilo ali parece que tem tanto dedo, tanta língua, minha nossa!! -- esfregava as mãos pelo próprio corpo -- Ela me devora toda e é uma loucura tão grande que eu não consigo nem pensar! Se perguntar meu nome é capaz de eu nem saber!
--Hoje eu não tenho com o que me abanar! -- a outra brincou
--Ai, mas é melhor eu parar de falar nisso mesmo porque vai me subindo um fogo que nem sei! A passarinha quase canta! -- ajeitou-se na cadeira -- Ave Maria!
Ivone riu. -- Pelo que vejo você não tem do que se queixar no seu relacionamento.
--Não mesmo! -- respondeu orgulhosa --Ah, minha filha, e você ainda não sabe da missa a metade! Depois desse revival de Suzana, dona Lourdes tem ficado tão safada!
--Como assim? -- perguntou curiosa
--Ah, porque a velhinha tem passado muito bem de saúde, está feliz e agora só quer saber de fazer loucura. Suzana a levou numa loja de produtos pra motociclistas e a danada voltou de lá com um capacete preto cheio de caveirinhas cor de rosa, além de um coletinho de couro preto. Toda vez que a gente sai de moto ela usa isso tudo, óculos Ray-Ban e mais um anel de caveira que nem sei de onde veio! E tem que ouvir os berros que ela dá! Só grito louco!
A psiquiatra riu de novo. -- Que bom que ela está redescobrindo os pequenos prazeres da vida agora na velhice.
--E já pulou de parapente, já andou de saveiro... ainda quer fazer batismo de mergulho e pular de pára-quedas!
--Gente! -- exclamou achando graça
--Ela também tem freqüentando o centro comigo e nós já visitamos alguns asilos. Agora ela está planejando dar uma festinha no dia das crianças e depois mais outra no natal pras famílias pobres. Ela gosta de uma antecedência, sabe? Anda negociando isso com dona Olga. -- pausou -- Suzana e eu queremos participar também. -- cruzou as pernas
--Fico feliz em ouvir isso!
--Dona Lourdes é uma velhinha de ouro... Acredita que ela reza todos os dias pra minha mãe vir me pedir perdão? -- riu -- Coitada, como se um dia isso pudesse acontecer... -- olhou para as próprias mãos
--E por que não poderia?
--Não conhece minha mãe. Ela é mais dura que diamante! Nunca volta atrás em coisa alguma. -- olhou para a psiquiatra
--Nunca e sempre são palavras que representam tempo demais, Juliana. Pouca coisa resiste intacta a este tempo todo. -- pausou -- Em relação a sua mãe e a sua família, você ainda guarda muitas mágoas, não é?
--Menos do que era, mas não vou dizer que me livrei. Se pensar em tudo o que houve ainda choro e sei que tenho muitos rancores. -- passou a mão nos cabelos
--Você ora a Deus pra que a ajude a se livrar destes sentimentos?
--Sim, e como te disse percebo que não é como era, mas... ainda está lá...
--Certas feridas precisam de tempo pra cicatrizar. Eu entendo.
--Mas, Ivone, o que me trouxe aqui mesmo é uma crise que se aproxima. -- colocou as duas mãos sobre a mesa e encarou a outra -- Ela chegou assim sem avisar mas eu sei que há algo errado no ar!
--E que crise é essa? -- perguntou sem entender
--Estou prestes a fazer quarenta!!! -- exclamou de olhos arregalados
--Ah! -- Ivone riu -- E o que tem de mal nisso? Pensei que se tratava de alguma coisa ruim! -- balançou a cabeça
--O que tem de mal nisso? Nossa, eu nem sei por onde começar! -- ajeitou-se novamente na cadeira -- Dia desses eu me olhava no espelho e vi uma coisa na minha coxa. Parei pra olhar com mais atenção e adivinha o que era?
--O que?
--Uma colônia de celulites! -- respondeu enfaticamente -- E aquilo parece que se reproduziu que nem coelho, porque foi se alastrando pelas pernas, já chegou na bunda e nem quero saber aonde vai parar!
--E quem não tem celulite, menina? Você esperou chegar aos trinta e nove pra passar por isso? Tem gente que se depara com celulites desde adolescente! -- divertia-se
--Você não acredita na gravidade da situação, não é? -- levantou-se -- Fique atenta aí que te mostro minha bunda agora mesmo! -- começou a desabotoar a calça
--Juliana! -- levantou as mãos -- Eu preferiria pular essa parte se não se incomoda! -- pediu -- "Meu Deus, mas é cada coisa...” -- pensou achando graça
--Ah... -- sentou-se desanimada -- E isso porque você não viu como anda meu ventre e as rugas que me assolam!
--Ventre? Rugas? -- riu -- Estou olhando pra você e não vejo nada de errado! Juliana, você parece uma mulher de vinte e poucos anos!
--Você é boazinha demais, viu? É como Suzana. Ela vive dizendo que eu sou gostosa, linda, maravilhosa... -- sorriu e cruzou as pernas -- Ai, ai... -- suspirou
--Por que tanta insegurança com a aparência, querida? O que houve? -- perguntou preocupada -- Tem medo de Suzana se desinteressar por você com o passar do tempo? Ou tem medo da velhice chegar?
A enfermeira ficou pensativa e depois respondeu: -- Suzana parece que é feita de outro material... ela não tem celulite, quase não tem ruga, não tem barriga... ela só tem cicatrizes deliciosas e algumas estrias... Acho que meu corpo tem envelhecido mais rápido que o dela...
--E isso te deixa insegura?
--Ah... vai chegar um momento que minha gostosura vai toda pro espaço e eu vou me transformar numa velhinha nada tesuda. Mesmo se não houvesse uma delegada safada na minha vida, não sei se estaria preparada pra tanta celulite, flacidez e rugas me comendo por inteira. -- suspirou -- Ai, Ivone, aos poucos eu passo de Highlander pra Transformers. -- comentou aflita
--Transformers?! -- não entendia -- "Ai, meu Deus, Juliana é muito birutinha!” -- balançava a cabeça
--Vê se não é? Antes, uma japonesa da melhor qualidade, um verdadeiro sushi dos deuses, depois... uma criatura das carne mole!
A psiquiatra riu. -- É muito importante que discutamos estas questões. As exigências estéticas que a sociedade impõe sobre uma mulher são muito rígidas. É uma verdadeira dinastia da beleza e as mulheres cada vez mais vivem sob uma eterna fuga da velhice. Tem-se um medo exagerado de envelhecer. Ao contrário do que se possa pensar, isso não afeta somente as mulheres heterossexuais pelo medo de perder seus parceiros, mas também as lésbicas em relação a suas companheiras. -- pausou -- É uma pena que se destaque da maturidade somente o declínio e não os benefícios da experiência de vida adquirida.
--Mas é difícil ver tudo caindo! -- protestou -- Você não acha?
--E é difícil perceber que você já não tem o mesmo fôlego, a mesma elasticidade, a mesma dinâmica... mas é a vida! O que podemos fazer é nos cuidar pra aumentar o nosso bem estar! Seja como for, minha querida, “nunca seja uma escrava dos padrões que plantaram em você.”34
--Tem razão... Dona Lourdes também diz que é bobagem de minha parte! -- respondeu pensativa -- E ela chegou aos oitenta, deve saber o que diz, não é?
--Você não vai se tornar menos interessante por causa de umas celulites. Se pode se cuidar, cuide-se, mas o tempo é inexorável pra todos nós. E o corpo não define e nem representa quem você é. A grandeza da alma não se abala com o tempo e, ela sim, representa sua essência.
A japonesa ficou pensando e por fim perguntou: -- Mas você não acha que eu tô com os peitos caídos, não? Quer que eu te mostre? -- foi abrindo a blusa
***
--Ô louco, mas até que enfim, hein? -- Camille reclamava ao entrar -- Pensei que Juliana nunca mais fosse sair daqui! Cheguei e ela já tava sendo atendida, li tudo que foi revista esperando o tempo passar e nada dela sair! -- sentou-se de cara feia
--Calma, Camille... sua hora chegou e minha atenção é toda sua a partir desse momento!
--Seus tratamentos são eternos, é, Ivone? Essa mina se trata contigo nem sei desde quando!
--Não. -- achou graça -- Cada caso é um caso... -- respondeu sorrindo -- Mas aproveite e me diga como anda essa vida agitada!
--É, de fato eu tenho um monte de novidades. Minha vida anda a mil! -- ajeitou-se na cadeira e melhorou o semblante
--Estou ouvindo!
--Lembra das propostas que fiz pra Ed e Renan? Pois consegui convencer o seu Marciano a se tornar nosso sócio e a coisa tá acontecendo mais rápido do que eu imaginava! Quando não é Seyyed indo pra Goiânia, sou eu! O legal é que tenho certeza de que vai dar tudo certo! -- comentou confiante -- Convenci Ed a mandar pra outra oficina o ferramental que eles trouxeram da casa da americana e isso contou muito pra convencer o seu Marciano. Afinal de contas, foi ele quem tinha bancado a vinda daquela parafernália pra cá. Nada mais justo!
--Que bom que ele gostou da idéia! -- respondeu sorridente
--Você tinha que ver quando fui com Seyyed e Renan visitar a coleção do coroa! Em alguns momentos eles pareciam ter orgasmos múltiplos só de ver os carros, em outros pensei que fossem ter um infarto e em mais outros tantos pareciam a ponto de acender umas velas ao redor das rodas e deixar uma oferenda ali do lado. -- riu -- Pensei que voltaria pro Rio com a notícia de duas mortes pra dar a dona Olga! Ô louco!
--Nossa! Isso é que é gostar de automóveis! -- exclamou
--E também começamos com o Espaço Duas Rodas na oficina. Só pra cuidar de moto! Vai deslanchar, eu te garanto!
--O seu empreendedorismo é contagiante! -- a psiquiatra sorriu -- Fico muito feliz em ver como esses desafios te fazem tão bem!
--É, eu acho que esses trabalhos acabam sendo uma forma de canalizar essa minha sexualidade reprimida em alguma outra coisa! E eu vou te contar, meu, é muita sapatanice pra gastar, viu? Ô louco!
Ivone riu. -- De fato, a energia sexual pode ser canalizada em várias atividades, como no estudo, nas artes, no esporte, na caridade... Quando a pessoa se dispõe a ser como você, assim, celibatária, essa canalização deve ser ainda mais intensa para que não haja espaço pra desequilíbrios.
--Deve estar dando certo... Trabalhando como uma tarada não tenho tempo de pensar em amor, relacionamentos, sacanagem... ai, ai... -- suspirou -- E como eu gostaria de uma boa sacanagem... -- pausou -- Mas, quero dizer, com alguém especial e não com qualquer uma!
--E esse alguém especial? Continua disposta a não deixar acontecer?
--Ah, eu... -- passou a mão nos cabelos -- Eu tenho feito um esforço sobre humano pra matar o que sinto por Seyyed e tirar esse amor do meu peito! Chega, é muito sofrimento e eu acho que já sofri demais em uma vida que nem é tão longa assim!
--Mas Seyyed não é a única mulher que existe no mundo. Não está disposta a conhecer outra pessoa e tentar um relacionamento? Você me disse que depois do casamento de Juliana e Suzana suas certezas já não eram tão certas.
--É, eu... -- pausou e suspirou -- Eu tive coragem de ver a Fátima quando fui com mamãe naquela maldita formatura em São Paulo e... nós tivemos uma conversa muito bonita... não me sinto mais em dívida com ela.
--Não ficou balançada quando a viu?
--Ah, mas... claro que fica alguma coisa... só que não quero magoá-la novamente. Ela me ama, eu não a amo da mesma forma e seria canalhice da minha parte. Além do mais moramos em cidades diferentes e não sou do tipo que acredita em relacionamentos à distância. -- pausou -- Sei que existe telefone e internet, mas não sou mulher de relacionamento virtual. -- pensou -- Aí faz o que? Morde o mouse? Passa a mão no monitor? Senta no teclado? Mete o telefone num lugar indiscreto? Ah, não, tô fora! -- revirou os olhos
A psiquiatra riu. -- Tudo bem, mas então porque não vive sua vida normalmente sem impedir que as pessoas se aproximem? Pode aparecer alguém que more na cidade e desperte o seu interesse, por que não?
Camille pensou e respondeu: -- Ô, Ivone, eu tô notando qual a tua, tá legal? Maior alcoviteira, viu? Só querendo me arrumar alguém! Esse teu tratamento é a maior pouca vergonha! -- reclamou
--Pouca vergonha por que? -- perguntou achando graça
--Porque eu parei pra pensar e entendi tudo! Juliana veio pra cá solteira e você logo sacou uma delegada pra colocar na fita dela, agora tá só com o detector de sapatas bem ligado pra ver se acha alguma pra mim! Comigo não, tá? Não quero saber de alcovitice pro meu lado! Já me basta Aline pra fazer isso; mina maluca!
--Mas eu não coloquei Suzana na fita de ninguém, eu nem a conhecia!
--Ah, mas você armou alguma treta aí! Não duvido que tenha feito até macumba! -- fez cara feia
“Mas essa menina me vem com cada coisa!” -- a psiquiatra pensou com vontade de rir -- Seja como for, querida, lembre-se de atender aos outros compartimentos de sua vida. Não pode apenas trabalhar, precisa desempenhar outras atividades úteis e ter lazer.
--Eu tenho nadado regularmente aos domingos, tenho meus programas com a família, às vezes saio com Aline, em outras saio com Flávia e vou começar um cursinho de inglês depois do trabalho. Reciclagem, sabe? Faz tempo que não falo inglês.
--E quanto a sua vida espiritual? Continua atéia?
--Aconteceu uma coisa muito interessante comigo... Parei pra pensar e... eu acredito em Deus agora... mas não é aquela fé medonha, sabe? Mas o que quero dizer é que... abri a porta pra Ele. -- pausou -- Confesso que embora tenha acontecido há pouco tempo isso tem me feito bem.
--Fé é algo que evolui com o tempo, meu bem. Como tantas outras coisas na vida, tem que amadurecer pra se tornar sólida e consistente.
--Mas, por favor, não me fale de suas teorias espíritas! -- pediu -- Isso ainda seria demais pra mim!
--Pode deixar, eu não falo coisa alguma. Já fico feliz o suficiente sabendo que você se transformou mais uma vez. Aliás, desde que a conheço, só te vejo se transformar. Sempre positivamente.
Camille ficou uns segundos calada e desabafou: -- Eu não sei o que tem acontecido comigo, mas desde o começo do ano há vezes em que sinto umas coisas ruins, sabe? Como se houvesse uma coisa pesada no ar querendo me destruir, me deixar cansada, doente, não sei... Aí eu me concentro no que estou fazendo e passa. Quando a coisa fica braba mesmo eu rezo, e aí passa mais rápido.
--Pode ser alguém que tenha inveja de você, alguém que lhe envie uma corrente fluídica muito negativa e que, nos seus momentos de distração, esteja lhe trazendo desconforto. Porém, acredite que não é necessário ter medo. Seu proceder diante da vida é sua própria defesa ou perdição. Só dá brecha pro mal quem não vigia seus pensamentos e ações. A força de Deus é sempre maior que qualquer coisa ruim!
--Você falou em inveja... às vezes eu acho que é isso mesmo! -- pensava -- Acho que aquela caipira morre de inveja de mim...
--Não me diga que está falando daquela moça com a qual você tecla de quando em vez?
--Ela mesma! -- deu um soco na mão -- A tal da Solitudine! Aquilo ali é inveja pura!
--E por que ela teria inveja de você? -- achou engraçado
--Porque enquanto ela se arrasta escrevendo uma história infinita eu já tô no meu quarto conto! E novamente o texto foi super bem recebido no mundo lésbico virtual! Ela não pode se comparar com as autoras experientes, então se espelha em mim, que sou quase tão novata quanto ela. Só que mil vezes melhor!
--O que ela faz que te deixa pensar que sente inveja?
--Ah, muita coisa! As estratégias de marketing que ela usa pra tentar me derrubar! -- respondeu enfática -- Além dos kaôs que ela me saca só pra chamar a atenção do povo, ainda tem uma beta maluca que faz confusão na hora de postar os textos, tudo pra gerar expectativas, e por fim, ela teve a cara de pau de implorar pra que uma autora conhecida fizesse um comentário sobre aquela história tosca! Eu sei que ela quer roubar as minhas fãs! -- cerrou os olhos com raiva
--Por que está competindo com ela?
--Competindo? Eu? -- riu -- Ah, Ivone, não me faça rir! Veja lá se eu vou perder meu tempo disputando com qualquer uma?
--Se você considera seu trabalho tão superior por que perde tanto tempo preocupada com as artimanhas e estratégias da sua colega? -- perguntou desafiadora
--Eu nem ligo pra ela! -- deu de ombros -- Nunca nem li aquele troço que ela escreve. -- pausou -- Quer dizer, eu comecei a ler, mas parei porque achei péssimo! Li somente até a segunda parte da quarta temporada.
--E ela escreveu até que parte? -- perguntou curiosa
--Segunda parte da quarta temporada. -- respondeu naturalmente -- Mas daí pra frente eu não leio mais! Está decidido!
Ivone achou graça. -- Camille, você não deveria deixar que surgisse esse clima de animosidade entre as duas. Por que não tenta conhecê-la e fazer amizade com ela? Talvez pudessem se dar muito bem.
--Lá vem você querendo colocar mulher na minha fita! -- reclamou -- Eu já disse que tô atenta com tua alcovitice e não quero saber disso, não! -- cruzou os braços furiosa
--Tudo bem, esqueça o que eu disse. Mas é uma pena! Você nunca deixa as pessoas te conhecerem e está sempre se pondo na defensiva. Quando alguém consegue chegar mais perto, como a Fátima, você decide se afastar. -- olhou bem para ela -- Você é uma pessoa apaixonante, por que faz tanta força pra que os outros não percebam isso?
Camille pensou e perguntou: -- Ô meu, tá apaixonada por mim, Ivone? Isso é uma declaração? Não me diga que quer me beijar??
A psiquiatra não agüentou e riu gostosamente.
***
Anselmo chegava tarde da noite em casa. Estava empolgado. -- Ana, Ana, está acordada? -- correu para o quarto
--Estou aqui! -- ela passava cremes no rosto -- O que houve pra você chegar tão tarde? E que euforia é essa? -- perguntou surpresa
--Escute, recebi uma proposta de trabalho e queria sua opinião. -- sentou-se na cama de frente para ela -- É pra cuidar dos negócios de um homem muito rico! Ele está disposto a me pagar quase cinco vezes mais do que eu ganhava!
--Nossa! -- arregalou os olhos -- E onde é que ele trabalha?
--Ele trabalha em vários lugares, mas eu ocuparia um escritório em Copacabana.
--Ótimo, é perto de casa! -- sorriu -- Como conheceu esse homem? -- perguntou curiosa
--O pai dele era correntista da agência em que eu trabalhava em Caxias, acredita? Eu era seu gerente de conta. Como sempre disponibilizei meu número de celular pros clientes, recebi uma ligação deste senhor hoje no final do dia e expliquei a ele que não estava mais no banco. Minutos depois recebi um telefonema do filho dele me convidando pra uma reunião. Jantamos juntos e ele me ofereceu o trabalho.
--E quais são os horários de trabalho? Pra pagar tanto ele deve exigir muito!
--Não tem horários fixos e ele só me exige discrição total.
--E você ainda tem dúvidas se aceita ou não?? -- perguntou boquiaberta -- Um emprego desses era tudo o que você precisava! Além do mais eu não agüentava mais mentir pra Isa. Ontem mesmo ela veio aqui e ficou chocada porque abriu a geladeira e viu tudo vazio!
--Mas é que... o homem... ele é... -- pigarreou -- traficante, Ana. -- respondeu receoso
--Conhecido?
--Simplesmente Luizinho Beira Rio!
--Nossa, o traficante da moda! -- arregalou os olhos
--Que acha? -- estalava os dedos nervosamente
--Você não vai roubar ninguém e nem matar. Simplesmente vai cuidar do dinheiro. Compra droga quem quer, não é mesmo? -- deu de ombros -- Eu acho que você deveria aceitar, porque oportunidade melhor que essa não vai te aparecer!
--Ele disse que tem todos os esquemas pra eu fazer até declaração de imposto de renda como se trabalhasse em empresa de verdade!
--Ah, então vai pensar mais em que, homem? Aceite e tá tudo resolvido! -- levantou-se indo para o banheiro -- "Tenho que falar com Àjé que já está dando certo! Agora quero ver aquele maldito coreógrafo sair do caminho da minha filha, a aleijadinha se danar de verde e amarelo e Seyyed ganhando muito dinheiro!” -- pensou sentindo-se vitoriosa
***
Olga lia uma historinha para Ricardinho: -- Certa vez existiu um grande guerreiro, que sendo muito velho, ainda era capaz de derrotar qualquer desafiante. Sua reputação estendeu-se amplamente através do país e muitos estudantes reuniam-se para estudar sob sua orientação. -- passou para a próxima página -- Um dia um infame jovem guerreiro chegou à vila. Ele estava determinado a ser o primeiro homem a derrotar o grande mestre. Junto à sua força, ele possuía uma habilidade fantástica em perceber e explorar qualquer fraqueza em seu oponente, ofendendo-o até que este perdesse a concentração e assim ficasse totalmente vulnerável. Ninguém jamais havia resistido em um duelo contra ele além do primeiro movimento. -- virou a página -- Contra todas as advertências de seus preocupados estudantes, o velho mestre alegremente aceitou o desafio. Quando os dois se posicionaram para a luta, o jovem começou a lançar insultos ao mestre, jogando terra e cuspindo em sua face. Por horas a fio ele verbalmente ofendeu o velho com todo o tipo de insulto e maldição conhecidos pela humanidade. Mas o ancião permaneceu parado ali, calmamente. Finalmente, o jovem guerreiro ficou exausto. Percebendo que tinha sido derrotado, ele fugiu vergonhosamente. -- virou mais uma página -- Um tanto desapontados por não terem visto seu mestre lutar contra o insolente, os estudantes aproximaram-se e lhe perguntaram: "-- Como o senhor pôde suportar tantos insultos e indignidades? Como conseguiu derrotá-lo sem nem ao menos se mover?" O mestre respondeu: "-- Se alguém vem para lhe dar um presente e você não o aceita, para quem retorna este presente?"35 -- mostrava os desenhos da última página para o menino
--Cadinho, Cadinho! -- apontava para um dos meninos da historinha e se identificava como sendo ele
--Você é esse aqui, meu amor? -- beijou a cabeça dele -- Vamos pintar? -- pegou uma caixa de lápis de cor
--Olga, -- Mariano entrava no quarto -- finalmente encontrei um bom nebulizador portável e pagável! -- segurava a caixa do equipamento debaixo do braço. Beijou-a
--Ai, que bom! -- sorriu
--Papai! -- riu para o homem
--Ô meu filho! -- beijou a cabeça dele e se sentou no chão ao seu lado -- Pintando, é? -- sorriu
--Cadinho! -- apontou o menino no livro
--Ih, mas é ele mesmo! -- passou a mão na cabeça do menino
--Querido, Mari nos convidou pra almoçar na casa dela amanhã. Que tal?
--Ótimo! Vamos nós três! -- olhou para ela
--Malelo! -- mostrou o lápis para a mãe
--Isso, meu amor, esse lápis é amarelo! -- beijou a testa dele e pegou outro lápis -- E esse?
--Vede! -- respondeu sorrindo
--Isso!
--Ele não erra mais as cores, não é querida? -- perguntou orgulhoso
--Já reconhece até as letrinhas! -- respondeu sorrindo enquanto o ajudava a pintar
Olhou para o relógio. -- E hoje nosso garotinho vai dormir bem porque vou colocá-lo pra nebulizar. -- ele acariciava as costas da criança
--Querido, Mari me disse que gostaria que nós fizéssemos uma boa oração pra Camille. Parece que tem alguém querendo prejudicar a menina, pois de vez em quando ela tem sentido um certo mal estar. -- olhou para ele
--Camille me falou sobre isso em um dia em que visitei a oficina. -- respondeu pensativo -- Seja lá quem for que queira prejudicá-la vai ficar na vontade, porque maior do que Deus não há!
--Seyyed me pediu pra orar por Camille... talvez ela também sentisse alguma coisa estranha no ar. -- lembrou -- Mas isso vai acabar! Estou certa!
--Falando em Seyyed, as coisas na oficina têm ido muito bem. Os problemas parecem ter sido superados e as negociações com aquele tal de Marciano vão de vento em popa!
--E assim as coisas continuarão, se Deus quiser!
--Vemelo! -- mostrou outro lápis para a mãe
--E esse aqui?
--Azu!
--Lindo! -- beijou a cabeça do menino -- Ai, querido... acho que ser mãe depois de velha deixa a gente mais bobinha... -- sorriu para ele
--Você não é bobinha, meu amor! -- olhou para ela -- Você é linda! -- beijou-a
--Bejo! -- Ricardinho pediu
--Quer beijo também, é? -- Mariano riu -- Mas em você é na cabeça ou na bochechinha! -- beijou a bochecha dele e começou a brincar fazendo cócegas
***
Suzana estava na casa de Isabela e Seyyed conversando com elas. Era sábado e Juliana passeava com Maria de Lourdes na Lagoa. A delegada estava sentada em uma poltrona de frente para o casal.
--Eu não vou tomar muito tempo, fiquem tranqüilas. Daqui a pouco tenho que voltar pra buscar minha mulher e dona Lourdes. -- olhou para Isa -- Também sei que você começou a ensaiar pro próximo espetáculo e deve estar cansada. Eu só queria conversar um pouco sobre o que descobri até agora.
--Você não nos incomoda, Suzana. Podia ter trazido Juliana e dona Lourdes contigo que seriam bem recebidas. -- Ed respondeu
--Com certeza. E além do mais eu é quem devo te agradecer pelo que tem feito. Não é sua obrigação. -- a ruiva disse
--Eu adoro essas coisas, não me agradeça. -- sorriu -- Bem, eu examinei aquele teatro e dei uma boa olhada no piso do palco. Não dá pra ninguém ter sabotado coisa alguma ali. No entanto a bailarina que me acompanhou disse que sapatilhas inadequadas podem ser um problema sério.
--Ah, mas é a mais pura de verdade! Sapatilhas de pontas somente devem ser usadas quando a bailarina já tem condições pra isso e é necessário escolher muito bem. Ed comprou sapatilhas pra mim em Houston e nem sei como conseguiu acertar porque não é simplesmente chegar e pegar.
--Mas eu não sou qualquer desavisada, não é, Isa? Conheço minha mulher da cabeça aos pés! -- brincou. A ruiva sorriu e beliscou a coxa dela
--Minha suspeita é que Neyan pode ter sabotado as sapatilhas da garota! Alterado alguma coisa no solado, não sei.
--Ué? Mas como? -- a morena perguntou. Isa ficou pensativa
--Sabiam que ele começou a trabalhar como sapateiro? E ficou nessa até a morte do pai.
--Ei, espera aí... -- a ruiva ficou olhando para um ponto perdido -- Eu acho que me lembro de um lance... Joice reclamou em um dos ensaios que suas sapatilhas tinham sumido do camarim e foi a maior confusão. Nem pôde ensaiar por causa disso. No dia seguinte elas foram encontradas no camarim mesmo e Neyan ficou dizendo que Joice estava muito ansiosa com a proximidade do espetáculo. -- olhou para Ed -- Meu Deus, será que...?
--Será que a mãe de Joice teria estas sapatilhas? -- Suzana perguntou para Isa
--Certamente! -- olhou para a delegada -- Ela ainda tem tudo da filha!
--E como eu poderia fazer pra dar uma olhada? Não seria prudente deixar a pobre mulher saber que ando investigando.
--Joice e eu temos o mesmo modelo de sapatilhas e nós calçamos o mesmo número. Deixe que sei como fazer.
--Se vocês confirmarem que as sapatilhas sofreram alteração o que vão fazer? -- a mecânica perguntou
--Eu vou contar tudo pra dona Lúcia e ela decidirá. Se ela não quiser mexer no caso, vou ameaçar Neyan e deixar claro pra ele que o safado está em minhas mãos! -- Isa respondeu de cara feia
--Você anda ensaiando e ele tá no mesmo show! Tenha muito cuidado com tudo seu! -- Ed advertia -- Muito cuidado! Presta atenção em cada coisinha e em cada movimento dele!
--Esse coreógrafo não é um assassino ou um psicopata inteligente, Ed. Não passa de um homem frustrado, só isso. -- olhou para a ruiva -- Mas não deixe de prestar atenção nas coisas.
--Pode deixar. -- cruzou as pernas -- Aquela cobra não vai me pegar desprevenida!
***
Neyan e Cleiton, seu namorado, estavam deitados na cama. O coreógrafo não conseguiu sentir prazer mas fingiu o contrário para satisfazer a Cleiton. Estava calado, recebendo um carinho na cabeça e olhando para o teto. Os dois estavam deitados lado a lado de barriga para cima.
--Você anda tão estranho, Ney... não se empolga mais no sex*, fala pouco... O que foi, hein? -- olhou para ele -- Muita pressão no trabalho?
--Sei lá, deve ser isso... Tenho sentido umas dores de cabeça tão estranhas, uns enjôos, uma coisa tão ruim, sabe? -- continuava olhando para o teto -- Noite passada tive, pela segunda vez, um pesadelo com uma mulher horrorosa e cafonérrima fazendo um feitiço pra mim. Coisa de dar medo! E depois me aparece uma bailarina, aquela que eu te disse que morreu, dançando com a perna quebrada. Eu acordei muito mal!
--Você devia cuidar mais de sua vida espiritual e deixar de ser uma pessoa tão rancorosa. Se tem alguém fazendo macumba pra você te encontra fraco porque você não reza e perde muito tempo com bobagens!
Neyan olhou para ele. -- Eu não sou disso de reza. Reza não resolve nada! Além do mais você fala como se eu fosse uma pessoa péssima! -- levantou-se da cama irritado
--Não foi o que quis dizer! -- sentou-se -- Mas você pega umas implicâncias com as garotas! Aquela tal de Joice, por exemplo... Infernizou tanto ela e depois ficou aí passando mal quando soube que ela morreu. Agora é a tal da Isa... -- passou a mão nos cabelos -- Deixa essas garotas pra lá e cuida da tua vida!
--Eu nem quero saber de Isa, nem penso nela. E quanto a Joice, eu... eu fiquei com pena, foi isso! -- acendeu um cigarro -- "Por que aquela louca tinha que se matar? Não era pra ter acontecido tanta coisa. Bastava a vergonha de um escorregão e o vexame de perder a chance de dançar naquele show!” -- pensou
--Ah, não! -- levantou-se -- Você parou de fumar, não acredito que voltou com esse vício triste! -- foi até ele
--Cleiton, vai embora, vai? -- pediu -- Eu quero ficar sozinho! -- falou com rispidez
--Ney, me escuta... -- tentou ser carinhoso
--Vai embora, será que é surdo? -- gritou -- EU QUERO FICAR SOZINHO! Tenho que falar em outras línguas pra você entender e sumir?
Cleiton respirou fundo e foi pegar suas roupas. -- Não sou surdo, não. -- começou a se vestir -- É melhor eu ir mesmo. Ultimamente a gente só briga e quando fazemos amor é como se eu estivesse pagando por sex*. Acha que não noto que você finge?
--Pra você ver o tipo de amante péssimo que é! -- respondeu descontrolado
--Devo ser mesmo. -- terminou de se arrumar de qualquer jeito -- Espero que fique bem e não faça muitas besteiras.
--O que quer dizer? -- olhou para ele de cara feia
--Você sabe muito bem. -- saiu
Neyan fechou os olhos e pôs a mão na testa. -- Ai, que dor maldita...
***
Priscila estava ocupando um leito do Hospital São João Santíssimo, em Copacabana.
--Ai, amiga, eu ando tão preocupada com você! -- Lady exclamou -- Antes eu nunca nem tinha visto você dar um espirro, agora já é terceira vez que tem de ser internada por causa dessas hemorragias. O que tá acontecendo, hein? -- olhava para a outra penalizada
--Eu acho que é muito estudo, muito trabalho e muito estresse. -- passou a mão no rosto -- Eu me formo esse ano e ainda tô batalhando pra conseguir minha vaga pra fazer a especialização em implantodontia... É muito pra uma Priscila só! -- sorriu
--Mas, bá, guria, tu não podes viver sob esse fluxo de sangue violento em certos períodos menstruais! -- Lila afirmou segurando uma das mãos dela -- Tu precisas de um tratamento em teu corpo etérico focado nos chakras genésico e coronário! -- soltou a mão da outra para fazer seus salamaleques -- Por apenas mil e cem reais eu te dou um trato e regulo tua menstruação de um jeito que tu vais me agradecer pelo resto da vida!
--Ah, Lila, deixe de ser trapaceira, viu? Nem diante de uma quase moribunda você contém essa fome de grana que te consome? Eu, hein, cruzes! -- fez um bico
--Eu tentei ajudar... -- respondeu fazendo cara de inocente -- Tu precisas aprender a relaxar! -- começou com seus gestuais -- “Sentada tranquilamente, nada fazendo. Surge a primavera, a grama cresce por si mesma.”36
--Lila, você fala cada coisa que eu não entendo! -- Lady comentou intrigada e na sequência olhou para Priscila novamente -- Amiga, onde tem banheiro aqui?
--Lá fora, no final do corredor. O daqui do meu quarto tá entupido! -- revirou os olhos
--Hospital particular passando por isso? -- Lila perguntou surpresa
--Confia em hospital particular pra ver no que dá! Isso aqui é só estética e menos gente pra ser atendida! -- Priscila respondeu -- Qualidade que é bom...
Lady foi procurar o banheiro e logo o encontrou. Quando voltava, percebeu que um homem, nitidamente religioso, olhava para ela com interesse.
--Olá, minha irmã! -- ele a abordou cheio de mesuras -- Será que teria um tempo para ouvir a Palavra?
“Ai, meu Deus! Um homem de religião! Homens assim costumam a querer casar rápido!” -- pensou animada -- Olha só, eu vou logo avisando, sou moça de família e quero casar antes dos trinta!
O homem não esperava por aquela resposta e se surpreendeu. -- Ah, eu... nossa, eu não pensava em assediá-la. -- sorriu sem graça -- Mas se quer saber, também gostaria de me casar antes dos trinta e formar uma bela família temente a Deus. À propósito, meu nome é Melquíades. -- estendeu a mão para cumprimentá-la
--Lady Dy, encantada! -- apertou a mão dele -- O que faz aqui no hospital? Está doente? Visita parentes? -- perguntou interessada
--Eu acabo de sair de uma crise familiar muito séria! Por isso me converti! Agora peregrino pelos hospitais levando a Palavra.
“Ai, meu Deus! A cigana disse que o homem da minha vida apareceria depois de uma crise muito séria! E disse que ele viria de longe!” -- pensou extasiada -- E da onde você veio, hein? Onde mora? -- perguntou ansiosa
--Ah... -- também não entendeu aquela pergunta -- Em Belford Roxo, por que?
“E veio de longe mesmo! É ele, é ele!!” -- quase pulava de empolgação -- Só tenho mais uma pergunta pra te fazer: você é homem mesmo ou...?
“Mas que garota louca é essa?” -- pensou assustado -- Mas é claro que sou! O que pensa? Sou homem, muito homem e temente a Deus! -- respondeu convicto
--Prove!
--O que??
Sem pensar duas vezes Lady meteu a mão entre as pernas de Melquíades e apertou com força.
--Ai!!! -- ele se contorceu de dor e deu um tapa na mão dela -- Que tipo de mulher é você, hein, Lady? Mal nos conhecemos e já me aperta com essa força? -- fez cara feia
--Você me perdoe, mas é que eu tinha que conferir! Hoje em dia já não se sabe mais quem é macho e quem é fêmea nesse mundo! -- respondeu constrangida -- "Depois daquele Diego da praia eu tinha que apertar pra crer!” -- pensou
--Humpf! -- endireitou as calças -- Eu vou relevar isso apenas porque sei o que quer dizer. Essa gente perdida está de fato em toda parte pra confundir a cabeça dos cristãos sinceros. -- pausou -- Mas você ainda não me respondeu se está disposta a ouvir a Palavra!
--Ah, mas eu quero! -- pegou-o pela mão e foi andando. Ele vinha junto -- Vamos indo pro quarto da minha amiga e você aproveita e vai falando pra todo mundo ouvir!
--Tudo bem, então. Procuro ovelhas pro rebanho de meu Pai.
--E você pensa em casar quando, hein? -- continuava puxando ele -- Olha, eu gostaria muito de ter um casal! Que você acha de Mel Dy e Ladyquíades?
“Começo a ter medo dessa garota!” -- Melquíades pensou enquanto era arrastado para o quarto de Priscila
***
Seyyed e Isa dormiam abraçadas. A morena abraçava sua mulher pela cintura, ambas deitadas de lado.
Ed sonhava.
“Caminhava pela beira mar, molhando os pés de quando em vez ao sabor das ondas que iam e vinham. Uma névoa esbranquiçada tomava conta do ambiente. Podia claramente ouvir o som de uma música suave produzida por alaúdes, kannuns e nays (instrumentos tipicamente presentes na tradicional música árabe) acompanhados por uma percussão ritmada.
Olhou para o mar e viu uma pequena embarcação que se aproximava. Um homem vinha sentado na proa. -- Baba! (Pai!) -- exclamou emocionada e parou. Não conseguia se mover
O pequeno barco de Khazni aportou na praia e ele pisou nas areias mantendo o olhar sobre a filha. Vestia-se com uma djlaba branca, usando calça comprida de mesma cor por baixo e calçava sandálias de couro. -- As-Salamu Alaikum! (Que a paz esteja convosco!) -- estendeu a mão
Ed correu até ele e beijou-lhe a mão. -- Alaikum as-Salaam! (E a paz também convosco!) -- soltou a mão dele e ficou olhando embevecida para o pai -- Tamally waheshny... Wala bansak! (Sinto muitas saudades... Eu nunca te esqueço!) -- sorriu emocionada
--Tewahashni ‘aaineik... (Eu tenho tanta saudades dos teus olhos...) -- também estava emocionado
--Perdoe, mas já não sei como falar muitas coisas em sua língua. -- confessou emocionada
--Minha língua é aquela que você pode entender. -- sorriu compreensivo e tocou o rosto dela -- Eu não me demorarei. Vim apenas para alertá-la sobre o que virá. -- sua expressão era séria
--E o que é, baba? -- perguntou preocupada
--Muitas coisas acontecerão e é necessário que esteja preparada. Tenha em mente que nunca estará sozinha, Seyyed! Você tem muitas pessoas do seu lado. -- acariciava o rosto da filha -- Suas dívidas são altas, mas o bem que já espalhou sobre esta Terra atenua o peso do fardo que deve carregar. Será beneficiada pelo amor que desinteressadamente entregou aos outros.
--Do que está falando, meu pai? O que vai acontecer?
--Você verá... -- respondeu reticente
--E quando será isso?
--Lembre-se de que o tempo corre deste lado diferente do modo como se passa na dimensão em que se encontra. O meu ‘em breve’ não é igual ao seu. -- pausou -- Mas não perca o rumo diante do sofrimento. Nada que te acontecerá é sem motivo. O que se escreve é o que virá. Anti katabti! (Tu escrevestes!)
--Ana mush fahim... (Eu não entendo...)
--Não precisa entender agora. Basta se preparar em sua fé! -- olhou firmemente nos olhos dela --“Nada temas das coisas que hás de padecer.”37 -- afastou-se e caminhou de volta para o barco
Seyyed ficou olhando o pai preparar-se para voltar ao mar. Sentia que não mais o veria enquanto estivesse encarnada.
--Behebbak ya, baba! (Eu te amo, pai!) -- despediu-se emocionada
Ele olhou para ela e sorriu abrindo os braços. Ela correu e o abraçou com força. -- We mahma tekoon baeed any, le alby areeb! (Não importa o quão longe você esteja de mim, você está sempre perto do meu coração!) -- pausou e olhou para ela -- Ana behebbik, bintii! (Eu te amo, minha filha!) -- afastou-se dela, guiou o barco para a direção oposta e voltou para o mar, sumindo nas brumas da manhã”
Seyyed acordou apreensiva e ao mesmo tempo emocionada. Sentou-se na cama e olhou para Isa, que dormia em paz. Beijou a cabeça dela com carinho e se levantou com cuidado. Foi até a janela e ficou olhando para fora. Mentalmente pedia a Deus forças para lidar com as situações difíceis que seu pai salientou. Estava feliz por ter tido a oportunidade de vê-lo após tantos anos.
15:05h. 04 de maio de 2004, Edifício Ícaro, Ipanema, Rio de Janeiro
Ana visitava a filha e as duas conversavam na sala. Estavam sentadas na mesma poltrona, uma de frente para a outra.
--Amor, que espetáculo lindo foi aquele, hein? -- Ana cruzou as pernas e gesticulou com afetação -- A temporada terminou bem e você mais uma vez mostrou tudo, TUDO, sem receios, medos ou pudores! Só não viu tua faceta artística quem não quis! -- olhou para a filha -- Ai, que orgulho da minha estrela Dalva que só faz subir! -- sorria
“Ainda bem que Ed não está aqui pra ouvir isso!” -- pensou achando graça -- A temporada foi ótima, sim, só que eu nunca tive do que reclamar. Até hoje nunca dancei em um espetáculo que não tenha feito sucesso, graças a Deus. -- respondeu orgulhosa
--Ah, mas anote aí no seu caderninho: sucesso será a palavra de ordem na sua vida! -- pausou -- E agora que aquela bicha louca literalmente enlouqueceu a pururuca saiu de vez do seu caminho! -- calou-se -- "Àjé prometeu e fez cumprir!” -- pensou satisfeita
--Mãe, não diz isso... Essa história terminou de um jeito muito esquisito! -- passou a mão nos cabelos e mudou de posição na poltrona -- Até agora fiquei sem entender!
--Mas entender o que, meu bem? Aquela bicha cutucou onça com vara curta e o castigo veio a cavalo! -- fez cara feia -- Eu preferiria que ele tivesse morrido, mas uma crise de loucura veio bem à calhar! -- pensou em voz alta
--Que é isso?! -- perguntou em choque -- Não se pode desejar mal pros outros assim!
--Deixe de ser boba, Isa! Depois que se casou com Seyyed você também entrou nessa de virar boa samaritana, é? -- encarou-a seriamente -- A delegada provou que ele estragou as sapatilhas da garota que morreu, a mãe dela foi uma besta por não querer levar o caso adiante, então Deus chegou e deu a punição: a bicha seca enlouqueceu nas vésperas do espetáculo e nem pôde ver o show! Melhor ainda, não conseguiu te fazer nenhum mal! -- sorriu vitoriosa -- Agora vai fazer coreografia pros malucos no hospício! -- zombou
--Vamos mudar de assunto? Essa história toda de Joice e Neyan me entristece, sabia? Somos artistas! Arte deveria ser uma coisa leve, sem essas podridões...
--Tudo bem, vamos mudar de assunto. -- olhou para a filha -- Quando será o próximo show?
--Calma... -- riu brevemente -- Quisera que fosse assim! Acho que neste ano não me aparecerá nada mais.
--Ah, meu amor, que conversa é essa? -- fez cara feia -- Você vai ver como vão chover espetáculos pra você!
--Mãe, não chovem espetáculos no Brasil! E eu não posso participar de todos os que são promovidos. Nem a Ana Fluminense participa!
--Não se compare com as outras meu bem! Você é papa fina! Filha de Ana e Anselmo Guedes. Seu nome é Isabela Guedes, não é bagunça! Espere e verá! -- gesticulava para enfatizar o que dizia
Isabela ficou olhando atentamente para sua mãe e comentou: -- Mãe, você anda tão diferente...
--Como assim? -- pegou uma almofada e colocou sobre o colo
--Não sei explicar... -- ficou pensativa -- E também fico surpresa em ver como o padrão de vida de vocês subiu absurdamente depois que papai conseguiu emprego na tal firma de importação/exportação. Parece que sobra dinheiro... -- pausou -- Mãe, pelo amor de Deus, não estou com inveja, mas fico boba de ver!
--Inveja quem tem é sua tia! Além de minhas amigas do clube! -- mudou de posição também -- Você vai ver como nossa família vai enlouquecer quando Anselmo e eu nos mudarmos pra cobertura que ele pretende comprar aqui, bem pertinho de vocês, na Vieira Souto!
--Papai vai comprar cobertura na Vieira Souto?! -- deu um pulo na poltrona e arregalou os olhos -- Mãe, vocês não acham que estão exagerando? Ele tem dinheiro pra isso?
--Seu pai deixou de ser um gerentinho de meias migalhas pra se transformar num bem sucedido homem de negócios, minha querida! Não estamos cometendo excessos, pode acreditar! -- fez sinal para a filha se acalmar -- "Se ela soubesse como os ‘negócios’ de Anselmo geram dinheiro...” -- pensou
--Gente! -- a ruiva continuava boquiaberta
--E quero que você e Seyyed passem as festas de fim de ano conosco nesta cobertura! Não aceito não como resposta! Olga, Mariano e o garoto também estão convidados! -- gesticulava -- Penso em fazer uma linda e inesquecível recepção natalina! -- olhou para a outra -- E fique tranqüila que hoje em dia Anselmo finalmente aceitou de corpo e alma seu relacionamento com Seyyed. Ele abriu a cabeça de um jeito que arreganhou-se!
Isa riu. -- Vamos passar o natal com o pessoal de Juliana porque dona Olga e dona Lourdes estão organizando uma festa pras pessoas pobres e Ed não vai abrir mão de ir. Flávia, dona Mari e Camille também vão participar e já está tudo acertado.
--Ai, mas esse pegadio de Ed com gente pobre me irrita, viu? Culpa daquela mãe destrambelhada que ela tem que não soube criar a filha como deveria! -- deu um soco na almofada -- E quanto ao réveillon? Planejo uma recepção ímpar na virada do ano!
--Aí é mais provável! Eu posso falar com ela sobre seu convite e aí vamos somente nós duas. Dona Olga e a família vão com dona Mari e Camille pra Goiânia. É de lei agora.
--Falando nessa aleijadinha de meia tigela... como vai ela? -- olhou para as unhas -- Bem de saúde?
A bailarina estranhou a pergunta. -- Muito bem, por que?
--Bem?! -- ficou surpresa -- Ela não anda se sentindo mal ou qualquer coisa do gênero, não? -- calou-se -- "Por que Àjé não consegue atingir aquela diaba loura?”
--E por que se sentiria mal? -- não entendia a mãe
--Ah, uma garota aleijada, não tem uma perna... sei lá, essa gente desconjuntada vive no morre não morre, não é mesmo? -- disfarçava
--Eu, hein, mãe! -- riu -- Ela vai muito bem e espero que continue indo. O fato foi que, graças a Deus, parece que parou com aquela bobagem de dar em cima de Seyyed. -- apoiou a cabeça com as mãos -- Além do mais ela é importante pro trabalho nas duas oficinas e você deveria querer o bem dela e não o contrário.
--Mas eu não quero o mal dela, sou uma mulher cristã, meu bem! -- fingiu-se indignada -- Quanto às oficinas, como vão as coisas, hein? -- perguntou com muito interesse
--Bem, graças a Deus. Muitos clientes, problemas resolvidos... Camille calcula que em 2006 eles consigam pagar os empréstimos que fizeram.
--Só em 2006?! -- perguntou aborrecida
--Ué, mãe, tá sendo até pouco tempo! Tem gente que leva anos a fio pra pagar!
--Vou falar com Anselmo. Ele podia dar uma forcinha pra Seyyed... -- ficou pensativa
--Nem perca seu tempo porque ela não vai aceitar! -- sorriu -- Aquela mecânica orgulhosa mal aceita que eu pague alguma coisa pra ela, imagine isso!
“Tenho que falar com Àjé pra acelerar esse processo porque daqui pra 2006 é muito tempo!” -- pensou contrariada -- Hum! Agora me ocorreu! Sua formatura! Fale-me sobre a festa maravilhosa que vai acontecer!
--Não vai acontecer essa festa, mãe! O pessoal da minha turma não tem condições pra isso. Teremos a colação de grau e o culto ecumênico, nada mais.
--Ah, não, assim não pode ser! É muita pobreza! -- reclamou revoltada -- Então nosso réveillon será também sua festa de formatura!
A bailarina sorriu e nada respondeu.
--E viagens, meu bebê? -- mudou de assunto -- Você e Seyyed continuam naquele esqueminha medíocre de viagenzinhas rápidas e pobres? -- fez um bico
--Mãe, ela andou muito mal de dinheiro e eu não quero abusar. Também passou um bom tempo tendo problemas com os mecânicos novos. Graças a Deus foi que Léo apareceu, tem ido bem e ajudado muito a ela. -- pausou -- Nas minhas férias de julho vamos tirar duas semanas pra ir pra serra gaúcha, em Gramado. E depois vamos pra uma excursão de fim de semana do motoclube de Suzana.
Ana se revoltou e olhou furiosa para a filha. -- O que?! Gramado ainda vá lá, mas motoclube, pelo amor de Deus, Isa!
--Ai, mãe, qual é o problema? Além do mais eu quero conhecer uma certa pessoa! -- pensava em Samira
--Motoclube é coisa de sapatão!
--Ah! -- riu -- E eu sou o que? -- cruzou os braços
--Você é artista; totalmente diferente! -- respondeu enfática -- Sapatão senta de perna aberta, cospe no chão, deixa o sovaco cabeludo aparecendo, arrota na mesa, coça o saco, tira meleca e come... Você não foi criada pra isso, não, tá, Isa?
--Mãe, que absurdo! -- ria com a mão no rosto
--E dormir em barraca de camping? Minha única filha? Uma estrela Dalva, uma mulher que ficou íntima do Presidente da República e da Primeira Dama?? Ah, não, é muito retrocesso! -- balançava a cabeça desgostosa -- Não me agrada saber que você anda por aí, escanchelada numa moto com a bunda arrebitada, vestida de couro e mascando um chiclete que nunca tem fim! -- segurou-a pelos braços -- Você não fez tatuagem, não é, minha filha? Pelo amor de Deus!!
--Que tatuagem, mãe? Eu não! -- desvencilhou-se dela achando graça
--Eu vou ter uma conversinha com Seyyed! Esse negócio de motoclube eu não gostei! Se fosse um Porscheclube, um Ferrariclube eu até aceitaria, mas motoclube, não!!! É muito sapatão pro meu gosto!! -- reclamava -- E minha única filha?? Ah, não!!
Isabela apenas ria.
***
Seyyed terminava de regular o motor de um carro quando Camille vem abordá-la empolgada. -- Ed, tenho ótimas notícias!
--O que foi? -- perguntou sorridente
--Seu Marciano alugou dois carros pra uma emissora de TV mas parece que fizeram caquinha! Vocês têm que consertar tudo! -- sorria
--Garota, que capitalismo animal é esse? -- perguntou brincando -- O homem toma prejuízo com suas relíquias e você fica feliz?
--Ah, minha filha, por mim ele tomava prejuízo todo ano pra gente ter sempre o que consertar!
--Nossa! -- riu
--Um carro está em Brasília e vai pra oficina de Renan, o outro tá na Barra e vem pra cá! -- olhou para a folha de papel que segurava -- O de lá é um Cadillac Fleetwood de 1942 e o daqui é um Chrysler 1954.
--Caraca, hein? -- olhou para ela animada -- Só máquina maneira!
--Você e Renan vão ter que ficar se alternando entre lá e cá pra poder cumprir o prazo que dei.
--Ué, garota? Você tá dando prazo pros clientes sem consultar a gente? -- perguntou espantada
--Ed, quem manda aqui nessa bodega sou eu! Ainda não percebeu, não? -- olhou para a morena -- Vocês fazem o serviço pesado e eu transformo as gotas do seu suor em dinheiro!
--Ah, mas essa é boa! -- riu
Nesse momento uma mulher que vinha de moto pára na porta da oficina.
--A inexperiência me trai ou aquilo ali é uma Harley Davidson? -- Camille perguntou
--A própria! -- respondeu -- "Ai, meu Deus, Samira, aqui?” -- pensava enquanto observava a mulher entrando na oficina
--Boa tarde! -- Samira cumprimentou as duas, que lhe responderam -- Oficina ESSALAAM? -- olhou para Ed -- Oficina da paz?
--Mais ou menos isso. -- olhou para ela sem saber o que esperar -- Samira, essa é Camille. Trabalha aqui com a gente e, segundo acabo de saber, é a pessoa que manda aqui nessa bodega. -- ainda achava graça do que a loura disse
As duas mulheres se cumprimentaram. Camille estava com um ponto de interrogação na cabeça.
--Algum problema com a moto? -- a mecânica perguntou
--Minha moto é muito boa, Ed. Ela não dá problemas! -- tirou os óculos escuros -- Eu queria era falar contigo; em particular!
“Ih, meu, mas que olhar de sedução é esse aí?” -- a engenheira pensou desconfiada
--Léo. -- chamou o colega -- Termina de regular o motor desse carro aqui pra mim, rapidinho? -- pediu
--Tranqüilo! -- ele respondeu
--Vem comigo, por favor. -- olhou para a loura -- Com licença, Camille. -- foi andando e Samira seguiu atrás
--Ah, mas eu vou fofocar isso aí! -- Camille disse para si mesma indo para sua sala. Chegando lá, colou o ouvido na parede
Seyyed e Samira entraram na sala ao lado.
--Você sumiu... Nunca mais foi nos eventos do motoclube. -- sentou-se na mesa, de frente para a mecânica que estava de pé -- Suzana tem ido, levou a mulher, a mãe... -- lembrou-se de Maria de Lourdes -- Que velhinha! -- riu
--Eu nunca fui de frequentar motoclube. Tô pra ir daqui a um tempo e minha mulher vai comigo. -- colocou as mãos nos bolsos
--Ah, é? -- sorriu -- Ela vai pra te proteger de mim? -- perguntou de forma insinuante
“Mas que sacanagem é essa?” -- a loura pensava
--Ela vai porque eu gostaria que ela conhecesse como é um evento desses. Não tem nada a ver com você! Sinto muito! -- sorriu
--Aposto que ainda não tirou da sua cabeça o que aconteceu... -- deslizou uma das pernas na perna da morena -- Ainda sinto o gosto de seus beijos, habibi! -- caprichava na sensualidade
Seyyed se afastou do contato dela. -- Pára com isso, garota! -- respondeu com seriedade -- Não vou deixar acontecer de novo! Eu te disse que o que nem começou já havia terminado, Samira. Contei tudo pra Isa e ela confia em mim quando digo que entre você e eu não vai rolar mais nada!
“O que?!” -- Camille arregalou os olhos -- “Gente a bailarina chifruda deixou passar essa sacanagem, é? Ah, mas se fosse eu batia em Ed com minha perna pra ela tomar vergonha na cara!” -- a loura se revoltava
--Então você contou a ela? -- riu -- Hum, que fofo! Acho essa sua fidelidade uma coisa bonitinha! -- sorriu
--Se era só isso que tinha pra me dizer... -- abriu a porta -- Me perdoe mas eu tenho que voltar ao trabalho! -- olhou para ela esperando que saísse da sala
--Tudo bem! -- caminhou até a porta e parou de frente para a outra -- Eu não sou do tipo que fica insistindo mas tenho muita paciência. -- piscou para ela, colocou os óculos escuros e foi embora
“Ô, meu Pai, dai-me forças...” -- Ed pensou antes de voltar ao trabalho
“Então quer dizer que Seyyed me traiu?” -- a loura cruzou os braços -- "Traiu a mim e a bailarina chifruda dormindo com aquela motoqueira doida? Ah, mas é agora que eu não quero mais nada com ela de jeito nenhum! Não perdôo traição!” -- fez uma cara feia -- "Acabou, Seyyed! Acabou!” -- estava mais que nunca decidida
***
--Gente, vocês estão certas disso?? Ainda temos tempo de voltar atrás! -- Juliana perguntava apavorada
--Que voltar atrás, o que, menina? Ajoelhou tem que rezar! -- Maria de Lourdes respondeu convicta
--Já era, Ju! Se estamos aqui, temos que encarar! -- Suzana respondeu
--Não faz medo, minha filha! O professor disse que estamos voando somente a 3650m de altitude e quando a gente saltar a queda livre vai chegar a uns 200km/h. Enquanto o diabo esfrega um olho a gente já chegou no chão! -- Lourdes respondeu naturalmente
--Dona Lourdes isso é coisa de doido! -- a japonesa respondeu apavorada -- Eu só vim nessa desgraça com medo de deixá-la vir sozinha!
--A única coisa que eu não gosto dessa história de salto duplo é ter um caboclo agarrado nas minhas costas! -- a delegada reclamou -- E muito menos de ver outro agarrado nas suas! -- olhou para Juliana
--Meninas, vamos nos aprontar! -- um dos instrutores falou
--Eu já tô maceteada!
--Gente, que velhinha é essa?? -- a enfermeira perguntou apavorada
--Vamos? -- o outro instrutor olhou para Juliana
--Olha aqui, meu irmão! -- Suzana pegou o homem pela gola do macacão -- Leva ela direito e não fica roçando, senão...
--Calma, delegada! -- ele respondeu assustado -- Aqui a coisa é muito séria!
Maria de Lourdes e o instrutor se aprontaram e se encaminharam para a porta da aeronave.
--Meu filho, vamos deixar pra puxar a cordinha quando não der mais pra esperar! Quero sentir velocidade nesse negócio!
--Ouviu isso, Suzana? -- a japonesa perguntou apavorada
--Ô, dona Lourdes, não exagera! -- a delegada pediu com medo de acontecer algo com a idosa
--Pra quem fica, fui! -- Maria de Lourdes e o instrutor pularam – AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!! -- gritava eufórica – UHUHUHUHUHUHU!!!
--Agora somos nós! -- o instrutor falou para Suzana
--Eu não tenho medo disso! Já fiz coisas do arco da velha quando era delegada na ativa! Vambora! -- falou com decisão
--Pelo amor de Deus, gente!! -- Juliana dizia apavorada -- Suzana, se cuida porque eu não perdi você praquele velho, nem naquela emboscada, nem quando foi fazer estripulia em Roraima, não vai me fazer feio aqui na hora de pular! -- pediu aflita
--Que pular, garota? Quem pula é sapo, Suzana Mello salta! -- respondeu com seriedade -- Relaxa, meu amor, que lá embaixo a gente se fala! -- piscou para ela -- E você, caboclo! -- olhou para o instrutor da japonesa -- Tô de olho! -- segundos depois, a morena salta -- AHAHAHAHAHAHAHAH!!! -- gritava
--Agora somos nós, Juliana. -- o instrutor dela falou
--Ô, meu pai, me segura que o tombo é feio! -- gritou -- De profundis clamavi ad te, Domine; Domine, exaudi vocem meam! (Das profundezas clamei pelo Senhor. Senhor, ouve minha voz!) Ai, por que eu não prestava atenção nas aulas de latim?? Agora não lembro mais do resto! -- estava a ponto de chorar
--Vamos lá! -- foram até a porta da aeronave
--Ai, ai, ai, que medo, que medo!!! -- gritava
--Juliana?
--O que? -- fechou os olhos
--Vambora! -- o instrutor pulou levando a ambos
--AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!! -- a japonesa gritava como louca -- SOCORROOOOOOO!!!!
***
--Já se passaram dois dias mas eu tô até agora em estado de choque! -- Juliana reclamava em casa. Havia acabado de sair do banho -- Quando a gente saltou, aquele vento desgraçado na minha cara arreganhou minhas bochechas que foi uma coisa horrível! Senti as carnes todas tremerem, que coisa medonha! -- enxugava-se andando para lá e para cá no quarto
--Suas carnes são durinhas na medida certa... -- Suzana estava deitada na cama de barriga para cima e braços cruzados, filmando cada movimento da japonesa
--Eu queria gritar e a voz não vinha, eu queria chorar mas os olhos ficaram secos, foi uma sensação de quase morte!! -- esfregava a toalha nos cabelos
--Mas você tá muito viva... -- sentou-se na beira da cama para contemplá-la melhor
--Eu não sei o que deu nessa velhinha que ficou assim! Bastou você se aposentar e passar mais tempo com ela que deu no que deu! -- reclamou
--Deu no que deu... -- olhava para Juliana de cima a baixo, cheia de desejo
--Agora ela quer fazer o batismo de mergulho! Ai, eu não sei se encaro isso não! É muita adrenalina pro meu gosto e eu não tenho estrutura pra isso! -- enrolou a toalha ao redor do corpo
--Ah, mas tem estrutura, sim... -- levantou-se e foi até ela
--E você gostou dessa coisa de saltar de pára-quedas? -- olhou para a delegada
--Ah, mas eu gosto... -- não estava pensando no salto duplo
--Que olhar faminto é esse, hein, sua índia safada? -- perguntou fazendo dengo
--Sabe o que eu vou fazer agora, não sabe? -- chegou bem perto dela e puxou-a pela cintura -- Sabe o que eu quero! -- pegou a toalha e jogou-a para longe
--Eu não sei como eu posso viver com vocês duas, viu? Uma me mata do coração pulando que nem sapinha pelos ares. -- envolveu o pescoço da morena com os braços – E a outra me mata do coração me pegando desse jeito como você me pega!
A delegada sorriu e beijou-a com desejo, colocando-a sentada sobre a mesa de cabeceira.
--Ah, Suzana... -- fechou os olhos ao sentir os beijos da amante percorrendo seu corpo -- Tira essa roupa! -- puxou a blusa da outra e arremessou-a para longe
A delegada removeu o próprio short e a calcinha, mergulhando entre as pernas de sua amada logo em seguida.
--Ai, ai, Su... -- segurou-a pelos cabelos -- Ai, que sem vergonha que você é! -- sorria
Suzana seguiu lambendo a pele da japonesa até chegar em seu queixo, quando então puxou-a para que ficasse de pé e a posicionou de costas para si. -- Você é muito gostosa, muito boa... -- mordia a orelha da outra
--Ai, meu animal... ah, ah!! -- apoiou-se com as mãos na mesinha enquanto sentia as mãos de Suzana percorrerem seu corpo
--Você é tão quente, maravilhosa... -- sussurrava
--Ai, Su... -- sentia a penetração vigorosa da amante
--Você é minha mulher! MINHA MULHER!! -- sussurrava com voz rouca enquanto mantinha uma das mãos entre as pernas da japonesa e a outra mão em um seio
--Ai, ai, ai, amor... ai, ai! -- pôs uma das mãos sobre aquela que lhe tomava o seio e com a outra puxava os cabelos da índia segurando-a pela nuca
À beira do clímax, a delegada interrompeu o que fazia e rapidamente deitou Juliana sobre a cama.
--Ah! -- a japonesa gem*u antes de ser calada por um beijo
A delegada deitou sobre sua mulher e as duas começaram a se movimentar freneticamente, esfregando sex* contra sex* até que o orgasmo acontecesse com intensidade.
--Ah... Você é meu vício, Ju! -- beijou-a
--E você o meu! -- mordeu o lábio inferior da morena
--Não reclama da nossa linda octogenária realizar seus desejos. -- beijou-a -- Ela quer viver, garota, deixa ela se sentir viva. -- beijou-a mais uma vez -- E outra coisa é que ela fica exausta e dorme como uma rocha por alguns dias... -- mordia seu pescoço
--Ai, mas que sem vergonha... -- deu um tapinha no braço dela -- Quer que ela fique cansada pra fazer de mim o que bem entende, não é?
Sorriu. -- Vem aqui. -- beijou-a novamente
Juliana inverteu as posições e sentou-se sobre ela. -- Eu vou deixar você bem cansada essa noite! -- sorriu
--Ah, é? -- segurou os seios dela -- Faz isso, vai? -- pediu sorrindo
--Hum... eu vou cuidar muito bem do meu nenenzinho... -- seguiu beijando o corpo da delegada -- Ai que cicatriz fofa... -- começou a mordê-la e arranhá-la
--Ai, ai, Ju... adoro quando faz isso! -- sorriu e fechou os olhos
***
Mariângela voltava da aula de balé quando encontra com Lady parada na porta de sua casa. A garota segurava uma enorme bolsa plástica.
--Oi, dona Mari! -- sorriu -- Ai, que bom que chegou! Eu precisava muito da sua ajuda!
Deram-se beijinhos de comadre.
--Vamos entrar minha filha. -- convidou -- Está me esperando há muito tempo?
--Uns quinze minutos. -- entraram
--É servido alguma coisa, Lady? Eu não preparei nada especial porque almoço fora quando faço meu balé.
--Eu já almocei, dona Mari, fique tranqüila. -- colocou a bolsa sobre a poltrona -- Preciso que conserte meu vestido de noiva novamente! Eu ganhei uns quilinhos e ficou um pouco apertado. -- tirou o vestido da bolsa
--Nossa! -- o cheiro forte da naftalina sempre incomodava a costureira
--Estou prestes a me casar e preciso do vestido pra ontem! -- olhou para a outra
--Então vista-o pra eu ver o que deve ser feito.
--Vou fazer isso agora mesmo! -- foi para o banheiro -- Licença tá?
“Ai, meu Deus, lá vai essa menina maluquinha consertar esse vestido de novo...” -- pensou achando graça
Instantes depois Lady voltava devidamente vestida. -- Olha só como precisa de uns ajustes. Tá apertado!
--Vamos ver isso! -- já havia colocado os óculos e pendurado a fita métrica ao redor do pescoço -- Deixe eu pegar uns alfinetes. -- mexeu em sua caixinha -- E então, menina, quando vai se casar? -- perguntou curiosa
--Dentro em breve, dona Mari. Agora que encontrei o homem de minha vida, o enviado, sei que o dia se aproxima. Posso sentir! -- afirmou sorrindo
--Como assim?? -- foi para junto dela
--Conheci uma cigana das boas um dias desses e ela disse que eu ia me casar com um um homem que viria de longe, depois de uma crise muito séria. Pois eu já o encontrei e é só uma questão de tempo! -- falava com convicção
--Hum... e há quanto tempo vocês namoram? -- mexia no vestido
--Olha, dona Mari, namorar, assim, namorar mesmo a gente ainda não namora. Ele tem medo de mim, sabe? Mas estou conquistando ele aos poucos e logo logo a gente casa!
--Ah, tá... -- respondeu achando graça -- "Ô, garota doida!” -- pensou
--Eu tenho que casar logo porque o tempo urge! Não quero chegar aos trinta solteira, Deus me livre! E falta pouco, viu? Seis anos passam voando!
--E por que tanta ansiedade pra casar, menina? -- perguntou sem entender
--Ué, dona Mari, mulher solteira não dá! Como vou me apresentar em sociedade sem um marido? Depois dos trinta? Cruzes, que Deus me salve de passar tamanha vergonha! -- benzeu-se
“Humpf! Depois que ela casar e ver como é vai se arrepender amargamente por dizer essas bobagens!” -- Mariângela pensou fazendo um bico
--E a sua filha? Ela não vai casar, não? -- perguntou curiosa
--Camille não quer saber de casar. Eu até gostaria muito que ela encontrasse um bom rapaz, casasse com ele e tivesse filhinhos, mas se ela não quer eu não me meto. -- continuava ponteando o vestido com os alfinetes -- Ainda bem que deixei pano pra mexer! -- lembrava-se da primeira vez que consertou aquele vestido
--Dona Mari, eu não entendo certas coisas! Priscila, Tamires e Camille são três moças bonitas que não querem saber de casar! Como pode isso? Priscila namora gato e cachorro, Tamires é mais comedida e sua filha eu não sei como é, só que me choco! Eu aqui louca pra agarrar um marido e elas nem, nem!
--Casamento não é obrigação, minha filha, é uma escolha. Tem mulher que quer e tem mulher que não quer.
--Ah, mas 99% das mulheres querem!!! -- respondeu enfática
--Eu tenho minhas dúvidas se querem mesmo ou se foram criadas pra acreditar que querem! Tenho minhas dúvidas...
--Ah, mas eu quero! E muito! -- suspirou
--Pode tirar o vestido!
--Ai, dona Mari, sonho com o dia em que terei um buquê nas mãos e entrarei em uma igreja lotada de rostos amigos! -- começou a rodopiar pela sala
--Menina, cuidado com os alfinetes!! -- advertiu
--E o padre me pergunta: “-- Lady Dy da Silva, aceita este homem como seu legítimo esposo?” e eu vou responder: “-- Sim, sim, sim, seu padre, eu aceito e como aceito!!” -- continuava rodopiando
--Garota, olha essa cauda de vestido pendurada aí, você vai cair e se machucar! -- a costureira advertia preocupada
--E então a gente se beija ao som das palmas dos convidados, pra depois sair da igreja sob uma chuva de arroz e pétalas de rosas... ai que maravilha será!! -- rodopiava alucinada
--Lady... -- Mariângela já estava ficando nervosa
--E aí eu pegaria meu buquê de lindas rosas glamorosas e arremessaria para o alto gritando: “--Pega, pega, pega!!” -- rodopiava
--Mas, minha Virgem Santa! -- a loura estava irritada
--E entraria com meu marido naquele Cadillac vermelho carmim cheio de latinhas amarradas no pára-choques e uma placa escrita just married!! -- deu um salto no ar e caiu no chão -- Aaaaaaaai!!!!
--Meu Deus do céu, menina!!! -- Mariângela correu até ela -- Eu não falei pra você parar de rodopiar feito um peru de roda? -- ajoelhou-se do lado dela -- Olha pra você! A cauda do vestido tá enrolada no teu corpo que nem uma camisa de força! Se machucou, criatura?
--Acho que tem um alfinete enfiado... bem... ele entrou onde ninguém conhece... -- olhou constrangida para a costureira -- E tá doendo e eu tô sem mão pra tirar!
--E mais essa! -- revirou os olhos
07:10h. 06 de junho de 2004, Estúdio Solaris, Avenida Paulista , São Paulo
--Eu tenho que agradecer por vocês terem aceitado vir trabalhar com a gente em pleno dia de domingo! É que a rotina de Everardo é muito intensa e ele tem poucos dias pra terminar esse trabalho! -- Juan agradeceu
--Eu é que agradeço e me sinto honrada pelo convite! -- Isa respondeu sorridente -- Olha se eu iria perder a chance de participar das gravações de um clipe dele? Nunca!
--E olha se eu ia deixar ela vir sozinha sabendo que esse Everardo ataca geral? Nunca! -- Seyyed resmungava para si mesma
O cantor sertanejo estava se preparando para gravar o clipe da nova música de trabalho e as gravações aconteceriam em São Paulo e Fernando de Noronha. Ele havia descoberto Isabela através de Juan, o qual esteve no Rio durante a estréia do espetáculo que a ruiva participou em abril. Juan trabalhava no Estúdio Solaris e logo se lembrou de Isa quando Everardo subitamente desejou a participação de uma jovem e bonita bailarina em seu clipe.
--É muito simples, garota! O figurino que você vai usar já foi selecionado e precisamos apenas acertar as medidas. Você vai dançar ao redor do Everardo enquanto ele canta, e pode ousar à vontade porque Everardo quer exatamente isso: ousadia! -- Juan falava caprichando no gestual e no seu sotaque paulistano-carioca
--Então não tem coreografia, eu posso criá-la? -- a ruiva perguntou empolgada
--Isso! Esse trabalho aqui está acontecendo de um jeito bem diferente da maioria! E Everardo não segue roteiros, só faz o que lhe dá na telha! Você vai se aborrecer com toda certeza, -- sorriu -- mas o cachê é sempre muito bom! Logo se esquece o aborrecimento! -- piscou para ela
--Eu é que não sei se vou esquecer... -- Ed resmungou de novo
--O que você tanto resmunga aí, hein? -- Isa perguntou achando graça
--Nada! Tô só querendo ver qual vai ser a desse Everardo... -- fez um bico
***
Isa vestia uma calcinha e um bustiê de couro, botas de salto baixo de mesma cor, duas pulseiras e uma gargantilha de couro. Tiras do mesmo material se ligavam à gargantilha e às outras peças. Os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo e a maquiagem era taciturna sobressaindo-se os tons de chumbo.
--Isa, mas que pouca vergonha! -- Ed exclamou revoltada -- Isso aí é roupa que se apresente? Agora sua mãe teria toda razão se dissesse que tua faceta ficou à mostra pro povo todo ver!
A ruiva riu. -- Ai, amor, não seja boba! -- segurou a mão dela -- Meu biquíni é menor do que isso aqui. -- sorria
--E quem disse que eu aprovo aquilo lá, garota? -- perguntou de cara feia
--Hum, mas que morena braba, gente! -- fez um beicinho -- Depois eu sei como acalmar essa brabeza toda! -- beijou o rosto dela
--Olha lá, hein, Isa? Esse cara é conhecido pela galinhagem. Uma vez ele foi cantar no Domingão do Gastão e ficou paquerando as dançarinas! Olha lá! -- advertiu -- Não deixa ele te passar a mão! E se mandar sentar no colo, não senta!
--Que passar a mão e sentar em colo? -- riu -- Eu só vou dançar, amor!
--É, mas eu não sei o tipo de dança que é! Tem muita dança safada por aí!
--Isa, pode vir! -- Juan chamou
--Vai lá, minha gata! Boa sorte! -- beijou-a testa
A ruiva deu um beijo na bochecha dela e foi.
O local onde as gravações aconteciam era uma sala imensa forrada por um tecido azul anil fosco. Seyyed não entendia porque haviam tantos holofotes apontados contra sombrinhas de cor preta e porque tanta gente filmava a mesma coisa. Ela ficou agoniada com a quantidade de repetições para as mínimas coisas, com a necessidade constante de maquiadores secarem o suor do rosto do cantor e demais participantes do clipe. Igualmente revoltava-se com a proximidade entre Everardo e Isa. Ele dançava no meio da sala, fazia movimentos simulando ações aparentemente sem sentido e a ruiva bailava ao redor dele. O cantor deveria agir com se estivesse excitado com ela e para Ed a excitação estava real demais.
Uma das maquiadoras sentou-se do lado da mecânica.
--Você parece tensa. -- olhou para Ed
--Olha, eu vou te contar! Desculpa que é o trabalho de vocês, mas que servicinho cacete! -- estava de cara feia -- E esse cara aí parece até um polvo, cheio de mão pra cima da minha Isa!
--Ele é assim mesmo. Relaxe que é tudo muito técnico.
--Técnico... -- repetiu fazendo um bico -- Essa técnica dele aí eu conheço muito bem!
A maquiadora riu. -- Bem, -- olhou para o relógio -- são quase cinco horas, eu acho que daqui a pouco vai acabar por hoje.
--Como assim, por hoje? Isso continua?? -- olhou para ela com os olhos arregalados
--Pra nós sim, mas pra ela eu acho que eles concluem hoje. E tem que ser, a agenda desse sertanejo é uma loucura!
Nesse momento, Everardo se empolga e puxa a ruiva pela cintura sem que ela esperasse e beija-lhe os lábios curvando-se sobre o corpo dela. A bailarina protesta mas não consegue se libertar dele. Seyyed levanta da cadeira furiosa. -- Ah, mas eu vou quebrar a cara desse safado!! -- três homens correm para detê-la
--Calma, isso é só um beijo técnico! -- um deles falou
--E eu vou dar só um soco técnico no meio da cara desse tarado!! -- estava possessa
***
Juliana e Suzana estavam no carro indo para uma festa.
--Eu tô tão preocupada com dona Lourdes, amor. Será que a gente devia ter deixado ela ir no parque de diversões com dona Olga, Mariano e Ricardinho? -- a japonesa estava dirigindo
--E por que não? Dona Olga e Mariano podem cuidar de duas crianças. Além do mais uma mulher que criou Seyyed pode dar conta de qualquer coisa. Ed é muito louca... -- balançou a cabeça e riu
--Antes da porta do elevador se fechar eu ouvi dona Lourdes dizendo que queria ir na montanha russa que fica de cabeça pra baixo!
Suzana riu. -- É mole?
--Você acha graça, Suzana? -- olhou rapidamente para ela
--E o que tem isso? Deixe a velhinha se divertir, Ju. Ela está vivendo o que até então nunca teve oportunidade. -- olhou para ela -- Além do mais ela tem feito de tudo: visita asilos, orfanatos, curte Ricardinho, sai com a gente, radicaliza... E a saúde dela vai bem, ela tem mais é que aproveitar.
--Eu sei que você tem razão, mas eu me preocupo... -- sorriu -- E ela ainda cuida da gente, né?
--Nada de mau vai acontecer. -- pausou -- Eu queria ter ido brincar no parque também. Foi uma pena que Débora tenha marcado essa festa justo hoje! -- suspirou
--Queria brincar, meu nenenzinho? -- fez um biquinho -- Depois eu deixo você brincar comigo...
--Hum... -- sorriu fazendo planos
--Quanto a festa, ficava chato a gente não ir! Débora me deu a maior força quando você tava internada.
--É, eu sei. -- pensou -- Por que ela tinha que marcar a festa em Guadalupe se mora na Ilha também?
--A casa do pai dela é lá. A festa vai ser na casa dele.
--Vai ter pagode não, né, Ju? -- olhou para ela preocupada -- Eu odeio pagode!
--Eu não conheço o gosto musical dela, amor. Não sei o que esperar.
Suzana revirou os olhos sofrendo por antecipação.
***
“E o pagode veio pra ficar,
Laiá, laiá,
Tirando tudo do lugar,
Laiá, laiá,
Eu não paro de só querer sambar,
Laiá, laiá,
Se levanta daí e vem pra cá,
Comigo, diz, laiá, laiá...”
--Eu ODEIO pagode! -- Suzana afirmava entre dentes para si mesma
Juliana e Suzana estavam sentadas em cadeiras de alumínio. Na mesa delas havia um pratinho de salgadinhos e dois copos de refrigerante.
--E até agora eu não consegui falar com Débora! Já perguntei por ela três vezes e as pessoas só me dizem que ela tá lá, eu sigo pra onde apontam e nunca acho o ‘lá’ onde essa criatura se enfiou!
--Queria muito que você a encontrasse pra entregar logo esse presente dela porque essa festa aqui não é festa, é um inferno! -- resmungava
“E o pagode veio pra ficar,
Laiá, laiá,
Melhor do que tá não vai rolar,
Laiá, laiá,
Eu sabia que tu não ia dedar,
Laiá, laiá,
Rebolando gostoso vem pra cá,
Comigo, diz, laiá, laiá...”
--Eu sabia que tu não ia dedar... -- a delegada repetiu -- Quem compõe um troço desses tinha que levar uma surra e ser preso! -- resmungava
--Já reparou como Débora não se parece com ninguém da família dela? -- Juliana perguntou -- Olha que diferença dela pros pais!
--Olá meninas! -- um homem de meia idade veio se sentar com elas -- Então quer dizer que vocês são amigas da Débora? -- olhou para as duas
--Nós trabalhamos juntas. -- respondeu -- E à propósito, cadê ela, hein?
--Sambando ali, olha lá! -- apontou
Juliana e Suzana olharam ao mesmo tempo. -- Gente, mas eu não vejo! -- a enfermeira exclamou intrigada e olhou para a amante -- Vou lá pra ver se finalmente falo com ela. -- olhou para o homem -- Com licença! -- levantou-se e foi
--E você? Gostando da festa? -- perguntou à delegada
--Ô... -- revirou os olhos
“E o pagode veio pra ficar,
Laiá, laiá,
Faz cara de safada e vem sambar,
Laiá, laiá,
Eu sou homem levado pra danar,
Laiá, laiá,
Senta aqui que eu te mostro o que vai dar,
Comigo, diz, laiá, laiá...”
--Essa música é qualquer coisa... -- a delegada comentou controlando a fúria
--Você gostou? -- perguntou orgulhoso -- É composição minha. Fiz pro conjunto de pagode que tem na nossa família, Os Tropeços. São eles aí! Muito bom, né? -- sorriu
--Espetáculo! -- respondeu ironicamente
--Já que você gostou tanto vou pedir pra tocar outra em sua homenagem. -- olhou para os rapazes -- Ô galera, toca Ilusãozinha Cachorra, aí! -- pediu falando bem alto -- Você vai se amarrar! -- olhou para Suzana
“Ô, tô sofrendo uma dorzinha da porr*,
Tô sabendo que tu quer mais que eu morra,
Essa vida é mesmo uma gangorra,
É uma iluzãozinha cachorra,
Ôôôô, laiá, laiá...”
--Maravilha, né? -- deu um tapa na coxa dela
--Se controla Suzana, se controla... -- sussurrava para si mesma
--Gente, cadê a Débora, hein? -- Juliana perguntou para uma mulher
--Ali! -- apontou
--Mas que diabo que todo mundo diz ali e eu nunca vejo! -- a enfermeira já estava perdendo a paciência
--Ali, olha lá! -- outra mulher falou
--Onde???
“Ô, eu me atraso por mais que eu corra,
Tô com o corpo preso na masmorra,
E na minha vida essa pachorra,
É uma iluzãozinha cachorra,
Ôôôô, laiá, laiá...”
--Você parece uma índia!
--Eu sou índia! -- respondeu de saco cheio
--É mesmo? -- fez um olhar sedutor -- Eu sempre morri de vontade de entrar numa... reserva indígena! -- falou cheio de segundas intenções
--Ih... -- Suzana respondeu de cara feia -- "Esse negócio não vai terminar bem!” -- pensou contrariada
--Gente, cadê a Débora??? -- Juliana perguntava no limite de sua paciência
--Ih, tem japonesa no samba!!! -- um homem gritou
“Tem japonesa no samba,
Ela é gostosinha pra caramba...
É sushi com saquê e as perna bamba,
Pega lá minha espada na caçamba,
Ah, laiá, laiá, laiá...”
--Japonesa no Samba é outra música linda de minha composição. Te agrada? -- perguntava com voz de sedutor
--Você tem passagem pela polícia? -- Suzana perguntou
--Deixa Débora pra lá, meu chuchuzinho! -- um dos homens que dançavam dizia pra Juliana -- Vem aqui meu sushi gostoso! -- puxou-a pela cintura e agarrou-a para dançar
--Êpa!!!!!!!!! -- a delegada se levantou bruscamente e foi até o homem. Agarrou-o pelo pescoço com força fazendo com que soltasse Juliana -- Perdeu a noção da morte, meu irmão? -- perguntou furiosa. As pessoas pararam de dançar
--Ahacrippptttrrr!!! -- o homem tentava falar enquanto ia ficando roxo
--E cadê a cachorra da Débora?? -- a enfermeira perguntava furiosa
--Bicho besta! -- a delegada soltou o homem e deu um tapa na cabeça dele
“Ih, tem japonesa no samba,
Ela dança ligeira e nem descamba,
Tanajura safada pra caramba,
Morde a fronha e me deixa de piramba,
Ah, laiá, laiá, laiá...”
Suzana andou até o meio dos pagodeiros fazendo arruaça. -- Pára de tocar essa música horrível, que inferno!!! -- deu tabefe na cuíca de um dos músicos. Todos pararam
--Mas afinal de contas, -- uma mulher de meia idade apareceu furiosa -- quem são vocês, hein?? -- todas as atenções estavam voltadas para Juliana e Suzana
--Eu sou colega de trabalho da Débora e nós viemos pro aniversário dela mas eu não consigo achar aquela maluca aqui dentro!! -- a japonesa respondeu contrariada
--Ué?? EU sou Débora, a dona da festa! -- pôs as mãos na cintura -- E nunca trabalhei contigo!!
Silêncio total.
--Ô, Juliana... -- a delegada chegou perto dela e cochichou -- sinto que a gente tá na festa errada...
--Pois é... -- sussurrou em resposta e olhou para Débora -- Olha, mulher, que festa, viu? -- deu beijos de comadre na aniversariante -- Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, viu? E muitos anos de vida! -- segurou a mão de Suzana -- Vamos embora agora! -- pediu entre dentes
--Demorou! -- olhou para o homem que havia agarrado a japonesa -- Fica esperto, malandro! Tô de olho! -- e saíram quase correndo
As pessoas na festa ficaram paradas vendo as duas indo embora às pressas.
Fim do capítulo
Músicas do Capítulo:
Flávia cantarola de forma distorcida a música Que Será Será interpretada por Doris Day e composta por Jay Livingston e Ray Evans.
[a] O Amor e O Poder (The Power of Love). Intérprete: Rosana. Compositores: Jennifer Rush / Candy de Rouge / Gunther Mende / Mary Susan Applegate. Tradução: Claudio Rabello. In: Mandala – Nacional. Intérprete: Rosana. Som Livre, 1987. 1 disco vinil, lado A, faixa 4 (4min22)
[b] I Kissed a Girl. Intérprete: Katy Perry. Compositores: Katy Perry / Lukasz Gottwald / Max Martin / Cathy Dennis. In: One of the Boys. Intérprete: Katy Perry. Capitol Records, 2008. 1 CD, faixa 2 (3min).
[c] Noites Traiçoeiras. Intérprete: Pe Marcelo Rossi. Compositor: Carlos Papae. In: Minha Benção. Intérprete: Pe Marcelo Rossi. Sony BMG, 2006. 1 CD, faixa 7 (4min12).
Comentar este capítulo:
NovaAqui
Em: 16/06/2024
Você capricha com Juliana
É divertidíssimo ler. Eu rio muito kkkk
Eu estou sozinha em casa: a criança está na casa da vó. Foi passar o final de semana lá e minha esposa está em um simpósio do trabalho! Quase todo final de semana! Desde quinta que estou com uma vida tranquila. Só lendo, comendo e dormindo!
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Sem cadastro
Em: 07/05/2024
Salve Solitudine!
Entrei no site e escolhi essa história porque vi no ranking que era a maior do site. Não me arrependo! Estou achando muitíssimo foda! Lindos ensinamentos diálogos riquíssimos cenas bem descritas sexo delicioso momentos de pura emoção e coisas que já me levaram as gargalhadas.
Esse capítulo me marcou tanto que criei esse perfil. Parabéns é demais! Continuarei lendo porque estou ENFEITIÇADA!
PaudaFome
Em: 07/05/2024
Quem te escreve é Paula Fontes vulga Pau da Fome
Solitudine
Em: 20/05/2024
Autora da história
Olá querida!
kkkkk Eu nunca imaginei que alguém se empolgasse com Maya por ser a história mais longa do site. Geralmente isso é mais fácil de assustar. Que bom que você pensou ao contrário!
Fico feliz que esteja empolgada com Maya. E mais ainda em saber que a história a empolgou a ponto de criar até um perfil.
Obrigada por tudo!
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 24/03/2024
As come COMMENTS voltaram. Não tem jeito eu repolho huahuahua
Solitudine
Em: 24/03/2024
Autora da história
kkkkkkkkk Não aguento isso de come comments.
Mas confesso que é um trem sem base do site que não gosto. Faz com que me sinta desrespeitada. Apagar comentário respondido é uma deselegância muito grande.
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Samirao
Em: 23/03/2023
Vai estudando o que vai me responder! Huahuahua
Solitudine
Em: 26/03/2023
Autora da história
Estou respondendo de imediato! kkkk
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Femines666
Em: 10/03/2023
A gente chora e dá risada, fica tensa e aliviada! Viciada!!! Por onde você esteve em todos esses meus anos de leitura?
Resposta do autor:
kkkkkkk Por onde eu estive? Bem, agora você me encontrou. Não abandone a caipira! rs
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 13/09/2022
Podia falar um mundo mas me caguei toda com a motoqueira, fui enquadrada pela ruiva e depois a gente fez as pazes gostosamentchê! Amando!!!
Resposta do autor:
kkkkkk Você errou feio ali, mas Isabela te compreendeu. E depois, vocês souberam se reconciliar. rs
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 29/07/2022
Senhorrrr quando vai acabar isso de ficar apagando comentários??? Ai amigas, como que vcs são amigonas né? Fico até triste com tanta desfeita cruzes!
Resposta do autor:
Olá querida,
Os comentários estão aqui, fique tranquila. E eu tenho centenas para responder!!! rs
Beijos,
Sol
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Samira Haddad
Em: 23/04/2020
Lady começando a flertar com o lado forte da Força! uauauaua
E o pagode da Débora foi o must!
Resposta do autor:
Este "flerte com o lado forte da Força" atendendo a pedidos.
Confessa que você adorou as musiquetas! kkk
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Gabi2020
Em: 20/04/2020
Olá querida! Tudo bem por aí?
Lady e suas confusões, podia ter um capítulo só com as aventuras dela! Kkkkkkk....
Até os sonhos dela são engraçados.
Ed e Cammille cada uma sofrendo sua dor, Ed tentanto reafirmar seu amor pela Isa e Camille sofrendo por um amor que julga impossível.
E nessa história Mariângela tentando entender tudo, não é fácil.
Ed acha que pode mandar nos pensamentos, ledo engano, Camille achando que se mata um sentimmento com basta. Nessa situação todas sofrem.
Dona Lourdes rejevenesceu depois que foi morar com a Juliana, a danadinha adorava uma aventura e ela fez uma coisa que sonho em fazer, saltar de pedra da Gávea.
Tô com a Suzaninha, não gosto de pagode!!
Capítulo gostosinho de ler.
Beijos
Resposta do autor:
Neste triângulo houve algumas confusões e culpas que nem se sabiam existir. O amor esteve ao lado dos verdes e azuis o tempo inteiro até que elas entendessem.
Mariângela foi evoluindo muito em sua forma de pensar ao longo do tempo. Depois ela descomplicou.
Dona Lourdes viveu tudo que quis e no tempo em que precisava viver.
Samba eu gosto! Pagode tem que uns que... kkk
Beijos,
Sol
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Solitudine Em: 16/06/2024 Autora da história
Olá querida!
Fico feliz que sua preferida te divirta tanto. No quesito besteirol as meninas achavam que Lady era campeã, mas também se divertiam com Juliana e Camille. rs
Ah, você tem filhinh@? Que massa! Dê um beijo em sua criancinha por mim.
Fico feliz que neste momento de solidão não solitária você tenha escolhido justo uma história da caipira para lhe fazer companhia em meio a tantas opções boas que o site traz. Muito obrigada!
Espero que esteja valendo a pena.
Beijos,
Sol