Quarta Temporada - TRANSFORMAÇÕES IV
Mariângela chegava na casa de Olga.
--Oi, Mari! -- abriu a porta para a cunhada e a abraçou -- Como vai? Entra! -- convidou -- E Camille?
--Graças a Deus tudo bem com a gente! -- entrou -- Camille saiu com Aline. Foram no Centro Cultural do Banco do Brasil. A exposição que homenageia Renato Russo teve sua duração estendida e elas foram aproveitar.
--Eu gosto dele também. Era um artista e tanto! -- pausou -- Vamos para a cozinha? Estou preparando um lanche. Daqui a pouco Mariano chega com Ricardinho e podemos lanchar todos juntos. -- as duas foram para a cozinha -- Você deu sorte em ter me encontrado aqui. Eles foram brincar na pracinha e eu não fui porque ontem dei uma topada na porta e meu dedão está uma tristeza!
--Bem que notei que está mancando! -- olhou para o pé da outra
--Seyyed fez um carrinho pro menino que você tem que ver! É um pequeno Buick vermelho com pedais! Ricardinho ficou louco quando viu! -- riu -- A essa altura ele deve estar todo prosa com seu carro passeando na praça!
--Papai teve um carro desses, era lindo! Era uma espécie de herança. Ele ganhou de vovô... -- lembrou -- Ricardinho vendeu esse carro pra uns maus elementos e nunca mais vimos nem a cor dele. -- olhou para Olga -- Eu te ajudo a preparar o lanche! -- foi para junto dela
--O filho de Mariano fez muitas bobagens, não foi? -- perguntou com tristeza
--O que?! Aquele menino era triste! No fundo foi muito bom que ele tivesse ido embora porque, nossa... não tem idéia de como meu irmão e Clotilde sofreram! -- pausou -- Sempre achei que minha cunhada morreu foi de desgosto!
--Tomara que ele tenha se modificado! E que volte um dia! Eu oro todos os dias pra Mariano e ele se reconciliarem. -- pegava os pratos
--Aquilo ali? Ah, minha filha, pau que nasce torto... -- começou a cortar o queijo
--A vida ensina, Mari. Às vezes a gente resiste, teima, só que a vida é uma professora e tanto! -- abriu a geladeira para pegar mais coisas
--Sei não... -- pensou -- Olga, aproveitando que estamos sozinhas, queria desabafar algumas coisas...
--Sim? -- olhou para ela
--Acho que descobri por quem Camille se apaixonou e sofre! -- falava sem olhar para a cunhada
“Ai, meu Deus... Será que ela já percebeu tudo e veio me dar queixa de Seyyed?” -- Olga pensou preocupada sem nada responder
--Camille conheceu uma atleta cega no ginásio, uma moça muito boazinha chamada Fátima.
--Eu sei quem é. Você convidou ela e a mãe pro meu casamento. -- enrolava as folhas de alface para poder cortá-las
--Percebi que ela acabou se apaixonando por aquela moça. Tive certeza quando estivemos em São Paulo pra ir naquela formatura maldita! -- colocou as fatias de queijo em um prato
--Por que? -- cortava as alfaces
--Fomos na casa de Fátima. Camille me pediu e não pude negar. Não sei te explicar mas eu percebi tudo. Acho que entre elas até houve... -- pigarreou -- aquelas coisas, você sabe, as coisas danadas! -- abriu uma lata de atum
--Coisas danadas! -- riu brevemente -- E depois, o que aconteceu? -- picava uma cebola
--E depois aconteceu que, passado um tempo, Camille me pede chorando pra rezar por ela pra que pudesse tirar uma coisa de dentro do peito. Ela me pediu de um jeitinho tão indefeso, Olga! Deu uma pena... -- derramou o atum dentro de um pequeno pote
“Camille deve sofrer muito por causa de Seyyed...” -- pensou preocupada com a jovem -- E você? O que fez? -- abriu uma lata de azeitonas
--Pedi pra que deitasse no meu colo e entreguei nas mãos da Virgem Santíssima. -- jogou a lata de atum vazia no lixo
--Fez muito bem. -- misturou a cebola picada e as azeitonas com o atum
--Ela é mesmo... -- parou diante de Olga e abaixou a cabeça sem coragem de continuar a frase
--Diga, Mari, não é vergonha. -- parou de cuidar da comida e olhou para a outra -- Ela é sua filha amada, não perde o valor que tem por causa disso. -- segurou o rosto dela -- Diga o que ela é.
--Lésbica... -- olhou para Olga com os olhos marejados -- Mas eu não queria que fosse... Ai, Olga, ela vai sofrer tanto, mas tanto!
--Sofrerá menos se você ficar do lado dela. -- acariciava o rosto da cunhada
--E se ela quiser namorar? E se quiser ficar com alguém? O que eu vou fazer? -- perguntou aflita
--Nada! Vai deixar que ela viva a própria vida. Vai aconselhá-la, ficar do lado dela e vai dar liberdade pra que ela escolha os caminhos que quiser seguir por sua própria conta. -- falava com muita delicadeza
--Eu consigo aceitar Seyyed e Isa, consigo aceitar Juliana e Suzana, mas Camille... Ai, Olga, eu não consigo me imaginar tendo uma genra! -- pausou -- Ou nora, eu nem sei o que é! Você chama Isa de que, hein?
Olga riu de novo. -- De Isa, ué! -- balançou a cabeça -- Você é devota da Virgem, não é? Peça orientação a Ela!
--O padre diz que esse negócio de gay e lésbica é pecado mortal! Não quero minha filha ardendo nos infernos! -- passou as mãos nos olhos
--Não dê ouvidos a essas coisas, mulher! Confie no julgamento de Deus e não no dos seres humanos.
--Eu fiquei muito feliz em saber que Camille agora acredita em Deus, sei que ela melhorou muito com o passar do tempo, o tratamento com Ivone faz muito bem a ela, mas essa coisa de ser... lésbica... -- respirou fundo -- é muito pra mim!
--Calma, querida, calma! -- segurou as mãos dela -- Nada de mau está acontecendo com a menina, então não precisa ficar angustiada assim!
--Eu sei de quem é a culpa, Olga! -- afirmou de cara feia
“Lá vem bomba!” -- Olga pensou desconfiada -- E de quem acha que é?
--Dos homens!! -- soltou as mãos da cunhada e começou a circular pela cozinha -- A menina viu esse bando de homem sem vergonha que tem por aí e foi ficando apavorada! O noivo era um bolha, esses rapazes só sabem beber, falar palavrão e andar com o rego de fora! Já reparou que eles amarram a calça lá na virilha? Só se vê homem de saint-tropez por aí, coisa mais horrível!
--Sanit-tropez... -- repetiu achando graça
--E os sovacos cabeludos, pernas cabeludas, peito cabeludo, barba... é cabelo demais! Quando suam dá até nojo! Tem homem que, como diz Juliana, parece até aquele bicho da família Adams!
--Bicho da família Adams... -- continuava achando graça
--E eles só pensam em futebol, ficam naquela loucura pro lado de jogador de bola, uma palhaçada! Sabia que eu desconfio que se um jogador famoso virasse pra um homem desses quaisquer e dissesse: “--Meu filho, teu rabo me pertence!”, ele era capaz de concordar e dizer: “--Vai que é tua, Taffarel!”?
--Teu rabo me pertence... -- ria
--E é uma galinhagem, viu? Eles vão pra cama com qualquer uma, vão fazendo filho por aí, vão pegando AIDS a torto e à direito... Não vê o falecido? E o pai daquele bisco ainda queria me namorar fazendo rima! Eu, hein, vai pro inferno, bicho! Deus que me defenda!
--Mari você é muito doida! -- balançava a cabeça
--Que muito doida, o que? Eu falo a verdade nua e crua! A menina viu as opções que tinha e ficou desgostosa! Você não vê que até eu dei baixa?
--Deu baixa?! -- não entendeu
--Eu dei! Me aposentei desse negócio de homem e não quero nenhunzinho sequer, nem que a vaca tussa!
--Se aposentou... -- riu de novo -- Mari, os homens são assim porque se acomodam em situações que nós mesmas, as mulheres, sustentamos! Nada os obriga a isso! Os mesmos espíritos que são homens hoje, foram ou serão mulheres um dia. O corpo não nos controla, por mais que muitos queiram se convencer do contrário.
--Ah, minha filha, seja como for, eu não quero saber de nenhum! Nem que mije ouro!! Nem que mije muito ouro!! -- quase gritava enquanto gesticulava
--Mije ouro... como pode isso? -- ria -- Além do mais, uma mulher não é lésbica por culpa dos homens, ela é porque é!
--Umas nascem assim, eu concordo, outras aprendem a ser por desgosto!
--Desgosto... -- riu
A costureira parou de andar e falar e ficou pensando em uma coisa. Olhou para Olga preocupada e perguntou: -- Olga, você tem mesmo certeza de que eu não corro o risco de virar lésbica? -- arregalou os olhos -- Queria não!
Olga riu gostosamente.
***
Camille e Aline acabavam de visitar a exposição no CCBB e tomavam um café no restaurante Brasserie Brasil.
--Amiga, adorei a exposição! E eu simplesmente amo essa terrine de chocolate com maracujá que tem aqui nesse restaurante! -- saboreava o doce com muito gosto
--É, esse bistrô aqui é um restaurante da hora! -- comia o mesmo doce que a outra -- E a exposição? Muito boa, né?
--Ai, nem me fale! Eu cantei quase o tempo todo! Renato Russo é TUDO!!!
--Eu ouvi! -- revirou os olhos -- E que cantora! -- falou fazendo um bico
--Ai, obrigada! Eu sei que canto muito! -- continuava comendo
--Humpf! Como sempre modesta! -- acabou rindo -- E então? Como vai lá no emprego novo?
--Ainda estou em treinamento! Acho que quando acabar vou ficar no Rio mesmo, sem ser transferida. Tomara, porque eu adoraria trabalhar no Centro da cidade! -- olhou para a loura -- E você? Se inscreveu no concurso desse ano?
--Não... eu pensei bem e quero continuar onde estou. Gosto dos desafios que enfrento, não ganho fortuna mas o salário é legal, gosto das pessoas e a oficina tem uma vantagem grande: só vai à falência se alguma treta muito pesada acontecer! As pessoas têm carro, carros sempre dão problemas e é muito difícil encontrar uma oficina que preste! E a fama da ESSALAAM é ótima!
--Bem, a dica eu já te dei! Se um dia quiser mudar de idéia, aproveite que o país está crescendo e se recuperando de novo e as oportunidades estão aparecendo! -- terminou de comer -- Eu sei que estou muito feliz e me sinto recompensada pelos meus anos de estudo e dedicação! Se os jovens soubessem a importância que o estudo tem nas nossas vidas, as coisas seriam muito melhores. Vejo muitos talentos desperdiçados porque as pessoas simplesmente têm preguiça de estudar e correr atrás!
--E tem gente que não pode estudar porque a vida é dura! -- terminou de comer também -- O Brasil tem um déficit de mão-de-obra especializada muito grande, Aline. Há muitas vagas no mercado que não se preenchem por falta de pessoal adequado pra ocupá-las.
--E os governos só se preocuparam em dilapidar o ensino público, não é?
--E o particular também não é dos melhores! Salvo exceções, só se vê ‘pagou passou’ por ai! -- bebeu o último gole do suco -- Tenho medo que chegue o dia que esse país seja invadido por estrangeiros de bom currículo pra tomar as vagas que nosso povo não tem condição de ocupar!
--Pois é, amiga! Essa possibilidade não é impossível... -- suspirou -- Mas vamos mudar de assunto e falar de coisas mais leves! -- sorriu -- Sabe, mesmo com meu tempo tomado como está, eu tenho lido meus contos nas horinhas vagas só pra aliviar o estresse! Afinal de contas gasto é tempo parada em engarrafamentos!
--Você e esses contos lésbicos! O que tem lido agora?
--Ah, eu tô lendo as histórias mais recentes do site, sabe? Fico boba com a diversidade que vejo lá. -- pausou -- Queria que a Crisálida escrevesse mais um conto! Adoro os textos dela! É como se ela fosse minha amiga, sabe?
Camille ficou toda prosa. “Ahá! Mais uma fã que me será fiel!” -- pensou animada
--Continuo lendo também o conto da Solitudine e acaba que estou gostando. Ela tem uma personagem que parece comigo: descolada, inteligente e simpática! -- sorriu
--Ah, eu não acredito que você tá gostando daquela história boba que nunca termina!!! -- retrucou revoltada -- Aquela caipira só sabe pagar mico na internet!
--Caipira?? -- olhou desconfiada para Camille -- Você conhece ela?? Não sabia que lia contos lésbicos também!
--Eu não conheço ela, não, Deus me livre! -- fez cara feia -- Você me comentou sobre a história dela uma vez e eu li por curiosidade, foi isso. Achei um horror! A desgraçada escreve a mesma coisa desde que a gente era da faculdade!
--É uma série, por isso é longa!
--É uma série de bobagens, isso sim!
--Não diga isso. No começo eu não gostava muito, mas acabei achando legal. Hoje em dia, pensando nas autoras novatas, eu gosto dela tanto quanto gosto da Crisálida.
--O que????????? -- perguntou com os olhos arregalados
--Você se incomoda tanto com isso, por que hein? Não te entendo, Camille!
--Vamos mudar de assunto! Esse papo nem tem nada a ver! -- ajeitou-se na cadeira -- Vamos falar sobre a exposição! -- propôs -- "Ah, mas essa caipira tá cruzando o meu caminho literário! Tenho que escrever mais um conto e acabar com ela! A cachorra quer me derrubar e roubar minhas fãs, mas não vai conseguir! Tá pensando o que??” -- pensou revoltada
21:10h. 04 de julho de 2004, Edifício Illudere, Ipanema, Rio de Janeiro
Isabela e Seyyed estavam na casa dos pais da ruiva para ver o lançamento oficial do clipe de Everardo. Parentes da família de Ana e Anselmo estavam presentes e todos se aglomeravam na sala. O casal Guedes havia acabado de se mudar para a cobertura na Vieira Souto.
--Meus amores, o programa vai começar! -- Ana anunciava com um copo de espumante nas mãos -- Venham ver!
A chamada de abertura do programa se fez ouvir: -- É BOM-BÁS-TI-CO, ui!
--Ai, meu Deus, minha neta estrelando em clipe de gente famosa! -- Odete exclamava emocionada
--Essa menina vai dominar o mundo, mamãe! -- Ana afirmou convicta
A ruiva estava sentada na poltrona tendo sua mãe de um lado e a avó materna do outro. Seyyed estava de pé atrás desta poltrona e Anselmo saía do barzinho no canto da sala segurando um copo de uísque.
Os apresentadores do programa comentaram sobre a música de trabalho do cantor e anunciaram o clipe: -- Vamos curtir o novo sucesso -- a apresentadora falou -- Que Tesão Retado!
--Nossa, que lugar lindo é esse? -- Leila, irmã de Ana, perguntou curiosa
--Fernando de Noronha. -- a ruiva respondeu
Nisso, Isa aparece dançando na praia.
--Ai, meu Deus, mas é muita emoção nesse peito de mãe!!! -- Ana gritava
--Ai, mas é muita emoção nesse peito de vó!! -- Odete gritava com a mão no coração
--A princesinha do papai... -- Anselmo dizia ao parar do lado da mecânica
Seyyed estava orgulhosa da ruiva mas achava graça nas atitudes da família dela. Lutava para não rir.
--Isa, você foi dançar naquela praia linda?? -- um dos primos perguntou
--Eu... -- a bailarina começou a responder
--Meu filho, ela dançou naquela praia sim e foi um arraso!!! Seyyed e ela foram pra lá no jatinho particular do sertanejo e ficaram hospedadas no melhor resort da ilha! -- Ana respondeu com muita convicção
--E eu que não sabia disso! -- Anselmo respondeu surpreso
“Eita mentirinha deslavada!” -- Ed pensava se divertindo enquanto Isa corava como um pimentão -- "Se eles soubessem que ficamos horas em um estúdio fechado e sem graça em São Paulo...”
--Que música gostosa, hein? Dá vontade de dançar! -- Ana falava já se requebrando
--Desde quando você gosta de sertanejo, tia? -- um sobrinho perguntou espantado
--Sempre gostei!! -- mentia
Na sequência, a ruiva aparece dançando no alto de uma montanha.
--Meu Deus, onde é essa montanha??? -- Leila perguntou apavorada
--Ah, eles fizeram uma... -- a ruiva tentava esclarecer
--Eles fizeram um vôo de helicóptero pra levar Isa pro alto daquela montanha e a menina dançou como se fosse uma pomba voando nos espaços! -- Ana continuava mentindo e gesticulando
--Mas onde fica essa montanha?? -- Leila olhou para Ana
--Em Noronha, mulher! Você precisa viajar mais, hein, minha irmã! Conhece nada! -- esnobou
--Minha neta dançando em cume de morro?? Meu Deus, que perigo, que perigo!!! -- exclamava apavorada enquanto abraçava a ruiva
--Calma, vovó! -- Isa pediu
--Paulinho traz água com açúcar pra tua vó que é muita emoção! -- Ana ordenou ao sobrinho
E por fim, o clipe termina com a cena de Everardo agarrando Isa para um beijo. A produção cortou o momento em que a ruiva protesta tentando se desvencilhar dele e fundiu a cena com efeitos especiais.
--Humpf! -- Seyyed fez um bico
--Meu Deus, Isa, você beijou um cantor famoso, um galã!!! -- Leila dava chiliques -- Ahahahahahahah!!! -- gritou
“E aquilo ali é galã desde quando?” -- a mecânica protestava mentalmente
--E ela só não casou com ele porque não quis, pois o pedido foi feito! -- Ana mentia
--Maravilhoso, não é gente? -- a apresentadora comentava
--Interessante comentar que a sortuda que beija Everardo é uma jovem e promissora bailarina chamada Isabela Guedes. -- o apresentador complementou a informação
--Ai, meu Deus, mãe!!! -- olhou para Ana -- Eles falaram meu nome!!! Meu nome!!! -- deu um pequeno chilique com a mãe -- Ahahahahahahahah!!!
“Mas, até tu, Isa?” -- Ed pensou achando graça
--Ai, mas é muita emoção, muita emoção, gente!!! -- Ana berrava -- Ai, que essa menina só me dá orgulho!!!
--A princesinha do papai!!! -- Anselmo abraça Ed emocionado e choroso. A morena leva um susto -- Ai, meu Deus, que emoção!!!
--Calma, calma. -- a morena pedia desconfiada -- "Será que ele vai fazer igual ao coroa do avião americano e assoar o nariz no meu casaco?” -- pensou preocupada
--Eu tô muito nervosa, emocionada, meu Deus, ai, meu Pai, ai!!! -- Odete gritou e desfaleceu em seguida
--Bruno, corre e abana tua vó, meu filho!!! -- Ana gritava -- Gente, mamãe tá passando mal!! Socorro!!
--Mamãe, mamãe!! -- Leila gritava e de repente estava todo mundo louco correndo pela sala
--Vó, pelo amor de Deus fala comigo, vó!! -- Isa se levantou da poltrona apavorada para socorrer a avó -- Ed, chama uma ambulância, por favor!! -- olhou para a mecânica e pediu agoniada
--Calma gente! -- a morena pegou o telefone -- Vou ligar!
--Liga, mulher, liga!! -- Anselmo chacoalhava os braços de Seyyed
--Ah, mas desse jeito eu não consigo!! -- olhou para ele de cara feia. A morena não acreditava na veracidade daquele mal estar -- Vamos levá-la pra um hospital pra tomar injeção e se reanimar.
--Ai, ai... -- Odete abriu os olhos -- onde estou? Ai, já tô bem...
“Falou em injeção, acorda logo!” -- a mecânica sorriu discretamente
Odete olhou para a ruiva e segurou as mãos dela sorrindo -- Isa você virou uma estrela!
--E Dalva! -- Ana complementou
--A senhora tá bem, vovó? -- a bailarina estava ajoelhada diante dela -- Fica calma...
--Bruno, pára de abanar ela e pega água com açúcar pra tua vó, corre garoto!! -- Ana ordenou novamente
--Ah, minha filha, que orgulho... Ai meu amor, neta preferida da vovó... -- olhava embevecida para ela
--Como assim, neta preferida? -- Leila se revoltou e parou de frente para a mãe -- A senhora vivia dizendo que não se conformava de Isa ser sua única neta sapatão!! Já esqueceu, é?? -- perguntou com as mãos na cintura
--Êpa, olha lá o que fala, sua cobra invejosa!! -- Ana levantou-se também -- Sapatão, não!! Ela é artista! Artista não tem sex*!!
“Não?!” -- Ed se perguntou
--Sapatão, não!! -- Anselmo se meteu também
--Sapatão, sim!! -- Paulo, marido de Leila, veio encarar Anselmo -- Olha a prova aí! -- apontou para a mecânica que levantou as mãos como se estivesse em um assalto
--Vocês têm é inveja porque os filhos de vocês não chegam aos pés da minha princesa!! -- Anselmo berrava -- Eles não aparecem nem em fita VHS de aniversário de quinze anos!
--Vocês têm inveja de tudo, -- Ana gritava -- inclusive do sucesso de meu marido!
--Gente, pelo amor de Deus! -- Isa levantou-se olhando para todos -- Vocês têm o que com minha vida, hein? -- perguntou revoltada
--Não briguem, não briguem... -- Odete pedia com voz fraca
A confusão era generalizada.
--Ed, -- a bailarina correu até ela -- faz alguma coisa! -- pediu nervosa
--Fazer o que? -- olhou para ela -- Vamos fugir? -- propôs
E o bate boca corria solto.
***
Tatiana discutia com o chefe na redação do telejornal.
--Mas essa notícia tem que ser dada, uai! Conversei com vários funcionários daquela fazenda e os exames que fizeram mostraram claramente a contaminação por benzeno e os químicos que eles usam não deveriam ter benzeno em sua composição! Eu procurei informações e constatei cinco casos de funcionários que foram afastados por causa de câncer! -- olhava nos olhos do chefe -- Tem que ser noticiado, sim! -- protestava -- Benzeno é um produto altamente tóxico e cancerígeno!
--Tatiana, os donos das Fazendas Calabreza são generosos patrocinadores, como eu posso permitir que você faça alarde por causa de uma coisa que vai contra os interesses deles? -- argumentou batendo na mesa
--Chefe, pelo amor de Deus! Além de pôr em risco a vida dos trabalhadores os donos dessa fazenda estão fornecendo que tipo de produtos pra nós, consumidores finais? O que nós estamos comendo? Pois eu lhe digo, nós comemos veneno! -- afirmou enfática
--Tatiana, quando você vai crescer e deixar de ser uma estudante alienada, hein? -- ele reclamava enfurecido -- Quando você vai aprender que no nosso meio de trabalho as notícias são escolhidas previamente e analisadas? Você está em uma empresa privada, minha filha! Nós não podemos difundir informações que prejudiquem a quem nos gera renda! -- levantou-se da cadeira
Ela esfregou as mãos no rosto e respirou fundo: -- Eu não estudei pra trabalhar assim! Eu não aceito que seja assim! -- olhou para o chefe
--Então muda de profissão, viu, fi? Não vai encontrar outro lugar melhor que esse pra trabalhar! E aonde quer que vá, mesmo se for pra fora do país, é com isso que vai se deparar!
--Eu prefiro traçar meu próprio caminho. Posso quebrar a cara, mas vou tentar. -- tirou o crachá e o colocou sobre a mesa -- Eu me demito! -- olhou para ele
--Tatiana, por favor, pare com isso! Você é ótima e eu... -- tentava convencê-la a mudar de opinião
--Eu me demito, chefe! Não tem mais o que você possa me dizer! -- estava consciente da decisão tomada -- Não é de hoje que venho pensando nisso. Eu não visto a camisa da empresa. Eu quero noticiar, eu quero informar a verdade à população e não torná-la cada vez mais alienada! O que se faz aqui é manipulação!
--Aqui e no mundo inteiro!
--E é por isso que vivemos uma imensa crise moral nesse planeta! Falta ética e caráter nas mínimas coisas! E pouca gente com coragem de mudar e fazer diferente. -- pausou -- Vou passar no RH e pedir pra que providenciem meu desligamento. -- preparou-se para sair
--Não vai mudar o mundo, garota! -- ainda tentava convencê-la -- Seu esforço não vai dar em nada!
--“Sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor.”38 -- respirou fundo e foi embora
***
Renan chegava em casa do trabalho e encontrou com sua esposa sentada na cozinha. Parecia preocupada.
--O que foi, Tati? -- beijou-a -- Aconteceu alguma coisa? -- puxou uma cadeira e sentou em frente a ela
--Aconteceu, sim... -- abaixou a cabeça e depois levantou novamente para encará-lo -- Pedi demissão... -- falou como se tivesse medo da reação dele
--Por que?? -- estava surpreso -- Alguém fez alguma coisa ruim com você? Alguém te destratou? Fala a verdade, Tatiana, porque se algum miserável te fez alguma coisa eu... -- estava furioso
--Não amor! -- interrompeu-o com delicadeza -- Eu pedi demissão por razões ideológicas!
--Como assim?? -- não entendeu
--Eu me decepcionei demais da conta com o trabalho lá... Não nego que aprendi muita coisa, mas... eu já estava farta daquilo tudo... Não vou te dizer que todas as notícias são falsas, mas... -- pausou -- Aquele caso das Fazendas Calabreza que eu te comentei... eles não querem noticiar a contaminação por benzeno porque os fazendeiros são patrocinadores da emissora! Eles até aceitam noticiar, mas de uma forma totalmente deturpada onde os trabalhadores é que são os culpados!
--Hum... -- pensou -- Aí, do que conheço de você, imagino que discutiu com seu chefe e pediu demissão!
--Exatamente isso... Chega doeu, mas...
--Eu tô do seu lado, Tati... -- segurou uma das mãos dela e a beijou -- Não me fale sobre isso como se tivesse medo da minha reação. -- sorriu
--Achei que fosse ficar zangado... -- olhou bem para ele -- Talvez você ache que eu devia ser menos sonhadora e mais objetiva. Menos custosa com certas coisas...
--A mulher com quem me casei é sonhadora, custosa e uma grande guerreira! Tenho orgulho dela. -- beijou-a
--Ô, meu preto... -- beijou-o -- Eu te amo, viu?
--Também te amo! -- ficou pensando -- O que vai fazer daqui pra frente?
--Vou trabalhar por minha conta investigando o caso daquelas fazendas e vou noticiar tudo pela internet! A gente tem que aproveitar esse veículo pra alguma coisa útil, Renan! Vou criar uma Home Page ou sei lá o que, e divulgar tudo o que ninguém quer transmitir! A internet tem uma penetração imensa e é o futuro das comunicações. Também vou procurar as pequenas emissoras de TV e rádio e vamos ver no que dá. -- calou-se por uns instantes e ficou pensando -- A manipulação das informações pela mídia é muito mais perigosa, sabe? Porque quando um governo as manipula em detrimento do público e a mídia é forte, essa manipulação não se segura por muito tempo. Quando a própria mídia se afasta do seu papel crítico, não somente os governos deixam de prestar contas, como os interesses da mídia e de seus donos permitem abusos por parte dos poderosos. O exemplo mais claro disso foi a Guerra do Iraque no ano passado, alavancada pela grande mídia dos Estados Unidos. Aquilo ali foi um descaramento sem base! Num dei conta! -- desabafou
--Cuidado, menina! Cuidado com quem você tá comprando briga! -- advertiu preocupado -- Eu concordo com o que você diz, mas esses poderosos são capazes de tudo pra tirar do caminho quem vá contra seus interesses! Lembre-se do que fizeram com a delegada Suzana, Brito e os outros policiais fiéis a ela!
--Pode deixar. -- respondeu balançando a cabeça -- E eu vou descobrir um jeito de ganhar dinheiro com o que gosto de fazer, sem por isso manipular a verdade. -- calou-se por uns instantes e depois falou: -- Por enquanto, vou ter que ser sustentada por você. -- olhou para ele receosa
--Ih, meu Deus! -- levou as mãos a cabeça -- E agora?? Vou à falência... -- brincou
***
Priscila entrava no prédio. “Graças a Deus, último dia de aula! Agora só vai me faltar mais um período!” -- pensou empolgada
Não iria viajar nas férias pois tinha que trabalhar no hospital, porém passaria em casa no final de semana para ver os pais. “Vou arrumar logo minha bolsa e daí amanhã eu saio assim que acordar!” -- decidiu
Pegou o elevador e apertou o botão do seu andar. Mal a porta se abre pôde ouvir uns gritos medonhos. “Ai, não! Não me diga que é Lady??” -- pensou alarmada -- "Mas não é possível! Ela nem tava namorando!” -- não entendia
Entrando em casa...
--Ai, ai, ai, ai, ai, meu Pai, que sina cachorra, que sina bandida!!! Meu escolhido, meu enviado!!! Como pode, meu Pai, como pode??? Casando com outra?? Não, não, não!!! -- lamentava chorando -- Ahahahahahahahah!!!! -- berrou ensandecida
--Aummmmmm, aummmmm, aummmmm!!! -- Lila meditava em seu quarto
--Meu Pai do céu!! -- jogou bolsa na poltrona -- Como é possível alguém viver assim?? -- perguntou estressada -- Uma casadoira louca de um lado e uma mística picareta de outro!!!
--Ai, meu Pai, ai, ai, ai, ai... Cadê meu enviado?? Meu enviado, cadê?? Veio de tão longe, vai pra mais longe ainda!! Ai, meu Pai, ai, ai, ai, mata essa cristã que tanto sofre!!! Ahahahahahah!! -- gritava
--A idéia foi dela! -- Priscila olhava para cima -- Leva ela embora, vai? -- pediu com fé
--Aummmmmm, aummmmmmmm, aummmmmm!!!
--Aproveita e leva essa aí junto pra Lady não ficar sozinha! Por favor... -- elevou as mãos em súplica
--Ô, mas que sina triste, que dor, que martírio!!! Meu Mel não diga adeus, eu tenho tanto medo!! AHAHAHAHAHAHAHAHAH!!! -- berrava como se estivesse possuída
--Aummmmmmmm, aummmmmmmm, aummmmmm!!! -- Lila elevou a altura do ‘aum’
--AHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! -- Lady deu o mais pavoroso dos berros
--Mas o que é isso, minha nossa?? -- Priscila não agüentou e foi para o quarto de Lady -- Lady, mas o que é isso?? Por que esse escândalo pavoroso?? Você vai acabar sendo presa, sabia? -- olhou para a outra de cara feia
--Meu enviado, Pri... meu enviado... Meu Mel... -- afirmou com tristeza -- Ai, meu Pai, ceifa essa vida triste! -- gritava
--Que história é essa de enviado? Que Mel é esse? -- não entendia
--Melquíades! Ai, ai, ai, ai... -- gemia -- Aquele homem que pregou pra nós no seu quarto, da última vez em que você passou mal. -- fungou -- Não se lembra? -- olhou para ela -- Ele foi prometido pra mim!! Veio de longe, depois da crise... Ai, quanta dor, quanto sofrimento! -- gritou
--E desde quando vocês namoravam? Aquele homem nunca nem esteve aqui em casa! -- protestou
--Aummmmmmm, aummmmmmmm, aummmmmmmm!!!! -- Lila continuava
--A gente não namorava, não, ai, ai, ai... Era amor menino... ai, ai, ai... -- gemia -- Mas eu tava conquistando ele... O meu enviado... Meu enviado... Ai, meu Pai, matai-me enquanto sou anjo!!! -- berrava
--Eu, hein, Lady! Você endoidou de vez!
--Aummmmmmmmmm, aummmmmmmmm, aummmmmmmmm!!!
--Se Lila soubesse como eu detesto esse ‘aum’ dela! -- trincou os dentes
--E agora, amiga? Meu enviado... casando com outra... e eu aqui!! Solteira e abandonada!! Ai, ai, ai, ai... AHAHAHAHAHAHAHAHAHAH! -- berrava loucamente
--Aummmmmmmmm, aummmmmmmm, aummmmmmm!!!
--Leva essa dor desse peito devassado, meu Pai, ai, ai, ai, ai!!!! Que sina triste, que sina bandida!!! AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!! -- gritava como porco a beira do abate
--Aummmmmmmmm, aummmmmmmm, aummmmmmm!!! -- Lila intensificava ainda mais a altura do ‘aum’
--É tanta gritaria, tanto ‘aum’! Eu fico louca!!! -- estava furiosa -- Priscila, abstrai, minha filha, abstrai!! -- respirou fundo novamente -- Deixa o ódio passar!!! -- foi indo para o próprio quarto -- Amanhã você vai pra casa!! -- dizia para si mesma
--AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!! Quanta dor, quanto sofrimento!! Meu Mel, meu Mel!!!! AHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!! -- gritos horrendos vinham do quarto de Lady
--Na sua casa não tem Lady, ninguém grita desse jeito!! Lá não tem Lady, não tem Lady!! -- Priscila continuava dizendo para si mesma
--Aummmmmmmmm, aummmmmmmm, aummmmmmm!!! -- Lila ampliou mais ainda a altura do ‘aum’
--E nem tem Lila!! Ninguém faz ‘aum’, ninguém faz ‘aum’!! -- chegava no limite da sanidade
--AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!! Eu quero morrer!!!! Mata-me Pai!! Ceifa essa vida de solidão amarga!!! AHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!! -- coisas foram arremessadas contra a parede. Os gritos tornavam-se mais medonhos
--Aummmmmmmmm, aummmmmmmm, aummmmmmm!!! -- Os ‘aum’ de Lila eram ensurdecedores
--AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!!! -- Priscila berrou tomada pela fúria
***
Suzana e dona Lourdes conversavam na sala. Juliana chegou cansada do trabalho.
--Gente, mas o dia hoje foi louco demais!! Acreditam que só pude me sentar na hora do almoço? Meu Deus, quanta gente apareceu pra ser socorrido em estado grave!! -- jogou-se na poltrona -- Eu me sinto esgotada!
--Amanhã é sua folga, filha! Poderá descansar e recobrar suas forças! -- Maria de Lourdes respondeu
--E hoje, -- Suzana ajoelhou-se em frente a ela e começou a tirar seus sapatos -- dona Lourdes e eu preparamos uma comidinha especial pra você. Antes de dormir te faço uma massagem! -- sorriu
--Ai, que delícia! -- sorriu olhando para as duas -- Vocês são muito fofas, sabiam?
--Ju, suas férias chegam no final do mês que vem. -- massageava os pés dela -- Temos que pensar no lugar pra onde vamos viajar!
--A gente vai viajar?? -- a japonesa perguntou excitada
--Claro! Está tudo bem nessa casa e agora podemos pensar em viajar sem medo! -- olhou para a japonesa e dona Lourdes -- Pra onde querem ir?
--Nossa! -- riu empolgada -- Eu nem sei o que dizer! -- olhou para a idosa -- E a senhora, dona Lourdes? Tem algum lugar em mente?
--Eu não vou, meu bem! Vocês duas vão sozinhas e terão a lua de mel que ainda não tiveram. Eu fico na casa de Olga. -- pausou -- Pra dizer a verdade, já tenho tudo esquematizado! -- afirmou decidida
--Ih! -- a delegada riu enquanto massageava os pés da amante -- Como assim já tem tudo esquematizado? -- perguntou curiosa
--Eu sabia que as férias de Juliana estavam chegando e por isso ia recomendar que vocês viajassem. Conversei com Olga e já acertamos tudo: eu fico lá, ajudo a cuidar do menino, vou com ela pro centro, participo de umas atividades... Combinei com Mari pra ir com ela em uma das aulas de boxe, vou também na aula de balé... E por fim, vou fazer meu batismo de mergulho com Seyyed! -- sorriu
--O que????? -- as duas perguntaram apavoradas
--Qual o problema? Ela disse que faremos o batismo em Arraial do Cabo e eu não vejo a hora! -- esfregou as mãos
--Dona Lourdes! -- Juliana ficou de pé -- A senhora e Ed fazendo batismo de mergulho não pode dar em boa coisa!!
--Claro que não! -- Suzana também se levantou -- Ed é muito doida, não tem medo do perigo e juntando com a senhora...
--E você tem medo de que, hein, Suzaninha? -- cruzou os braços -- Como pode falar da outra menina?
--Ah, mas eu tenho responsabilidade! Especialmente com a senhora e Juliana! Ed não tem! -- respondeu de cenho franzido
--Ai, não, dona Lourdes, esqueça isso! -- a japonesa tentava convencê-la
--Isa vai junto! Ela toma conta da gente! -- argumentava
--Humpf! -- a delegada fez cara feia
--Ed obedece ela! -- continuava argumentando
--E a senhora obedece quem? -- a enfermeira olhava para a idosa com as mãos na cintura
--Ah, minha filha! Eu fui obediente a vida toda! Agora chega! -- levantou-se -- Vocês vão cuidando da vida de vocês aí que da minha já cuidei. -- foi andando lentamente com sua bengalinha -- Minha agenda pra final agosto e início de setembro já tá toda tomada. -- pausou -- Não enrolem pra planejar as coisas de vocês porque o tempo urge. -- entrou na cozinha -- E vai tomar seu banho, Juliana, pra gente poder jantar! Tô faminta!
--É mole?! -- a japonesa olhou para a morena -- Essa velhinha tá me saindo cada vez mais terrível!
A delegada balançou a cabeça e acabou rindo. -- Mas é muito danada mesmo! -- foi até a japonesa -- No entanto entendo o que ela está fazendo. -- abraçou-a -- Está nos dando privacidade pra termos uma lua de mel, o que de fato, ainda não tivemos. -- olhou nos olhos da amante -- Eu vou ter uma conversa com Seyyed pra ela ficar esperta e a gente pode ir tranqüila! -- sorriu -- Nós merecemos uns momentos só nossos!
--Você não tem medo, sua delegada safada? -- envolveu o pescoço da outra com os braços -- Nossa velhinha aprontando todas por aí e você só pensa em lua de mel? -- sorriu
--Tô pensando nessa lua de mel não é de hoje... -- levantou-a no colo -- Mas agora eu vou te levar pra tomar banho, nós jantaremos e depois vamos ficar planejando essa viagem. -- foi indo para o banheiro
--Eu adoro ser casada com você, Suzana Mello! -- sorriu -- Mesmo que você não me obedeça igual Ed obedece Isa... -- deu um tapinha no ombro dela
--Que é isso, Ju? Eu sou comportada, fiel... -- entrou no banheiro e colocou a amante de pé novamente
--Comportada? -- riu -- Você é muito da sem vergonha, sua nhambiquara danada! -- começou a tirar a roupa -- Agora sai daqui pra eu tomar meu banho em paz! -- sorriu e beijou-a rapidamente
--Pôxa... -- suspirou -- Deixa eu ficar...
--Dona Lourdes está em casa, muito da bem acordada e você sabe. Sai daqui! -- enxotou a delegada do banheiro dando tapinhas na bunda dela e fechou a porta -- Safada!
Suzana riu e foi para a sala preparar a mesa de jantar. Chegando lá se surpreendeu ao ver que tudo havia sido arrumado. Maria de Lourdes já estava até a postos sentadinha em seu lugar. A delegada achou engraçado. -- Mas que fome, hein, dona Lourdes? -- beijou a cabeça dela
--Eu tô! -- olhou para a morena e começou a falar mais baixo -- Escute, Suzaninha, eu vi um dia desses Juliana paquerando umas fotos no jornal. Era de um lugar da Bahia chamado Morro de São Paulo. Leva ela pra lá!
--Hum... -- balançou a cabeça -- Boa dica.
--E uma vez lá, vá dançar com ela! Juliana adora dançar! -- continuava falando baixo
--É, eu sei... -- coçou a cabeça -- Eu não sou muito de dança mas ela merece o sacrifício! -- sorriu -- Sabe, dona Lourdes? -- puxou uma cadeira e se sentou -- Me sinto feliz como não me lembrava mais de ser.
--Você está feliz com sua vida e ela também está feliz. Agora só falta a mãe dela aparecer e eu me sentirei tranqüila de vez!
--Acredita que ela virá um dia? -- perguntou descrente
--Tenho muita fé nas minhas rezas, Suzaninha! Mesmo que não seja amanhã, mesmo que não seja logo, ela virá, eu sei. E quando vier, eu me sentirei como quem está com os deveres cumpridos!
15:30h. 02 de outubro de 2004, Rua Arquias Cordeiro, casa 6, Engenho, Rio de Janeiro
Camille, Mariângela, Flávia, Olga e Mariano torciam para Fátima que disputava a prova dos 400m nado livre pelos Jogos Paraolímpicos de Atenas. Ricardinho pulava como pipoca empolgado com a animação dos adultos.
--Vai, Fátima, vai, vai!!! -- Camille gritava como louca
--Aquela chinesa tá coladinha com ela!! -- Flávia reclamava -- Nada, mulher, nada!!!
--Ai, minha Virgem Santíssima manda uma câimbra pra essa chinesa!! -- Mariângela desejava
--Não pode pedir essas coisas pra Virgem, Mari! -- Mariano ralhou
--Vai, Fátima, vai, vai!!! -- Olga também vibrava
--E os últimos 50 metros seguem disputadíssimos entre Fátima Borges e Li Chiang! Cada segundo é precioso, cada braçada pode fazer a diferença! -- o comentarista dizia
-- Ô louco, meu coração tá a ponto de sair pela boca! -- a loura desabafou -- Vai, Fátima, corre!!! -- gritou
--Corre, não,maluquete! Nada! -- Flávia implicou com ela
--Ah, Flávia! -- fez careta para ela
--Medalha de ouro para Fátima Borges, do Brasil, prata para Li Chiang, da China, e bronze para Joan Flanders, dos Estados Unidos!! -- o comentarista anunciou empolgado
--Ahahahahahahahah!! -- Camille, Flávia e Mariângela pulavam abraçadas
--Pula, meu bem, pula!! -- Olga pulava com Ricardinho
--Nossa, mas essa prova foi emocionante! -- Mariano pôs a mão no coração
--Olha Jurema lá, Camille! -- Mariângela apontou -- Chorando na arquibancada!
--Ah, mãe, mas tem chorar mesmo! -- a loura afirmou emocionada -- Fátima tá arrebentando! Das dezessete medalhas de ouro do Brasil, oito são só dela!
--Gente, olha, Fátima vai ser entrevistada! -- Flávia falou -- Vamos ouvir! -- pedia silêncio
--Estamos aqui com a nadadora Fátima Borges. -- a repórter anunciou olhando para as câmeras e na sequência olhou para a moça -- Fátima, parabéns, o Brasil tá orgulhoso de você! Agora diz pra gente como é ser ganhadora de oito medalhas de ouro, quebrando ainda um recorde mundial?
--Eu nem sei o que dizer! -- passou a mão no rosto -- Passa um monte de coisas na cabeça da gente, sabe? Parece que foi ontem que quase ninguém acreditava que eu seria capaz de continuar nadando por causa de um problema no meu braço, parece que foi ontem que eu recomecei os treinos, parece que foi ontem que me mudei pra São Paulo...
--Com certeza você treinou arduamente pra chegar aqui! -- a repórter afirmou
--Não tem idéia do quanto! -- sorriu
--E você nunca deixou de acreditar que poderia sair daqui vitoriosa, não foi?
--Nunca! O ser humano é capaz de tudo, de qualquer coisa, quando tem fé, luta e se dispõe a perseguir seus objetivos incansavelmente! Estou certa disso!
--E a quem você dedica todas essas medalhas e esse sucesso todo aqui em Atenas? Você sabe que se tornou a queridinha do público, não sabe? -- perguntou sorrindo
--Posso sentir o carinho das pessoas vibrando com a gente e isso é lindo! -- respirou fundo -- Eu dedico todas as medalhas ao povo brasileiro, a todos aqueles cujo trabalho me possibilitou chegar aqui, a minha treinadora, Elaine, e aos meus amigos de treino. -- emocionou-se -- Dedico também a duas pessoas muito importantes pra mim: minha mãe, Jurema, e minha amiga Camille Trevisani. Elas acreditaram em mim e foram minha torcida fiel de todos os momentos. Amo vocês! -- mandou um beijo para as câmeras
Nesse momento Jurema aparece por trás da filha e as duas se abraçam chorando.
--Aêê, loura Belzebu! -- Flávia deu um tapinha nas costas dela -- Seu nome foi citado em rede internacional!!!
--Ô louco... -- Camille chorava sem ter condições de dizer nada mais -- "Ah, Fátima, você é tão linda... Não sabe o quanto estou feliz por você!” -- pensava
--Ah, menina, ficou emocionada! -- Mariano abraçou a sobrinha
--Viu, Olga? -- Mariângela sussurrou para a cunhada -- Viu o que eu disse?
Olga nada respondeu e ficou olhando para Camille.
***
Camille estava deitada na cama pensando na própria vida. Tinha muita vontade de viver um relacionamento e ao mesmo tempo essa idéia lhe angustiava. Pensava em Fátima e no que aconteceu entre elas. Sabia que os sentimentos da nadadora eram puros, sabia de seu amor, mas ela não amava a outra mulher da mesma forma. Considerava também o fato de morarem em cidades distintas um impeditivo bastante razoável para maiores tentativas. Fátima era uma atleta e depois do que conquistou em Atenas seria ainda mais solicitada e seu tempo ficaria extremamente limitado. “Não, definitivamente Fátima é um capítulo que se encerrou pra mim... Burra que fui em não ter aproveitado quando tive chance... E tive todas as chances...” -- suspirou arrependida
Virou-se de lado e lembrou-se de Seyyed. A morena continuava gentil, brincalhona e amiga, mas era nítido que havia imposto um limite à proximidade de ambas. Camille percebia claramente a mudança de atitude da outra. “E além disso ela me traiu com aquela tal de Samira!” -- pensou de cara feia -- “Traição eu não perdôo!”
A loura ficou pensando que já era hora de conhecer gente diferente em sua vida. “As lésbicas que conheço já são figurinhas manjadas e comprometidas! E Fátima ficará cada vez mais inacessível! Tenho que conhecer gente interessante e solteira, mas como??” -- pensava intrigada
Totalmente insone, desistiu de tentar dormir e foi para o computador. Entrou no MSN e viu a única pessoa que estava on line. “Você?!” -- fez um bico -- "Ah! Não tem tu vai tu mesmo! Preciso conversar...”
Crisálida (Cris) Oi.
Solitudine(Sol) Olá! Junte-se ao clube da insônia! Hoje não consigo dormir...
Cris Como vai a vida?
Sol Graças a Deus, tudo bem! E a sua?
Cris Boa... mas podia ficar melhor.
Sol Acho que sempre pode, não é?
Cris Ô, meu, e aquele teu conto ad eternum? Quando termina?
“Quero só ver qual vai ser a resposta dessa invejosa!” -- pensou com um sorriso debochado no rosto
Sol Pergunta difícil... rsrsrs
Cris Você é a única pessoa do mundo que ainda escreve isso de ‘rs’. Agora o lance é kkkk! Se liga, mina!
Sol Eu sou muito por fora com essa maneira toda particular de se comunicar na internet. Só pago mico! rsrs ou kkk
Cris Olha, eu não deveria estar de papo contigo, por causa da tua inveja, mas queria te fazer umas perguntas.
“Inveja?!” -- Solitudine pensou sem entender
Cris Você é egossintônica ou egodistônica?
Sol Ego o que?!
“Ô, caipira inculta, meu Pai!” -- Camille pensou revirando os olhos
Cris Você é do tipo que gosta da coisa com fé ou se debate e nega?
Sol Eu hein! kkkk Se entendi a pergunta acho que gosto com fé.
Cris Você namora, é casada, vive na sacanagem, qual é a tua?
“Essa garota faz cada pergunta!” -- Solitudine pensou se divertindo
Sol Namoro, por que??
Cris É sério ou...?
Sol Estamos no começo e deixando as coisas acontecerem naturalmente.
Cris Deduzo que você é assumida!
Sol Minha família não sabe de mim.
Cris Mas que vergonha, meu!!! Você escreve um conto cheio de firulas e mensagens de pára choque de caminhão de lésbica e no entanto vive no armário? Vexame, viu? Ô louco!
Sol Eu moro longe da família desde adolescente e por isso posso viver minha vida em paz. Sou independente há tempos, mas não tenho coragem de deixá-los saber de mim. O problema cultural no meio deles é uma coisa muito séria. E você? É assumida?
Cris Eu diria que... também não.
Sol E fala de mim? kkkk
Cris Vamos voltar ao foco da conversa!
Sol E qual é o foco?
Cris Como você faz pra conhecer mulheres? Da onde você saca elas?
Sol Como é??
Cris Ô, meu, se liga na pergunta! Quando você tá solteira, onde vai pra conhecer gente? Vai em algum barzinho/inferninho lésbico ou pesca na internet?
Sol kkkkkk Eu não vou em lugar algum!
Cris E faz como???
Sol Eu não namorei tanto assim. E meus namoros costumam a durar.
Cris Mas da onde você sacou as namoradas que teve?
Sol Eu não saquei. Foram pessoas que a vida me apresentou.
“Humpf! Escolhi a pessoa errada pra me dar dica!” -- revoltou-se
Sol Deduzo que está querendo conhecer mulheres interessantes, mas não sou a melhor pessoa para te dar dicas.
Cris Ah, mas isso eu já percebi, minha filha!!
Sol kkkk
Cris E de mais a mais sou inoperante e não quero saber de conhecer mulher nenhuma!!!
A loura ficou estressada.
Sol Uai??
Cris Eu vou dormir porque está tarde!! Você também, vai deitar!
Sol Mas...
A engenheira saiu do MSN e desligou o computador. “Camille, abaixa o fogo! Vai dormir e esquece isso! Permaneça inoperante e chega de se consumir com essas coisas!” -- pensava aborrecida enquanto voltava para a cama -- Que merd*! -- gritou
--Camille... -- Mariângela falava com voz sonolenta -- olha a boca!
***
Seyyed caminhava pela praia. Havia nadado bastante e agora queria apenas caminhar e pensar. Era sábado de manhã e Isa estava assistindo suas aulas na faculdade. “Isa já se forma em dezembro!” -- sorriu -- "Parece que foi ontem que ela me falava sobre suas dúvidas na carreira...”
Começou a pensar nas mulheres que passaram por sua vida. Lembrou-se do relacionamento que teve com cada uma delas e constatou que a mãe tinha razão o tempo todo: ela confundia desejo, amizade e empolgação com amor. “Mas e quanto a Isa? Eu a amo ou me confundo também?”
Analisou tudo o que podia se lembrar de sua história com a ruiva e concluiu que no primeiro momento se encantou com a beleza dela, sua classe, cultura e o que ela fazia. Sempre teve um fraco por bailarinas e Isa era a concretização do que sonhava em encontrar em uma mulher. “Mas e hoje? O que eu sinto por ela?” -- questionou-se
Pensou em Camille e na confusão que ela fazia em seu coração. “Eu aprendi a admirá-la, respeito ela, gosto da pessoa que é, me sinto atraída, mas será que isso quer dizer que eu a amo?” -- perguntava a si mesma -- "A gente combina em muitas coisas, mas será que isso quer dizer que ela é a mulher certa pra mim? Isa e eu também combinamos muito e temos uma conexão incrível! Por que ainda me questiono se ela é o amor da minha vida?” -- chutou um pouco de areia -- Droga, Seyyed, qual é a sua? -- parou de andar e esfregou as mãos no rosto -- Às vezes acho que sou uma ridícula que não sabe amar! -- pensava em voz alta
Olhava para o mar e lembrou-se do sonho que teve com o pai. “O que será que vai acontecer, comigo?” -- olhou para o céu -- "Deus, por favor me ajude a saber superar o que preciso superar, eu Lhe imploro! E me ajude a não ser escrava dos sentidos! Me ajude a amar de verdade, me ajude a ser uma mulher decente, por favor, eu Lhe imploro!” -- rogou mentalmente -- "Me ajude a aprender a amar de verdade, por favor!”
Entrou no mar novamente e mergulhou furando uma onda. Enquanto voltava a nadar, decidiu que, mesmo se não amasse Isa, faria de tudo para aprender a amar.
***
Isa estava na faculdade assistindo à palestra de Diva Bustamanti, uma renomada coreógrafa cujo nome andava em alta no cenário internacional. Diva era uma mulher morena, da altura da ruiva, magra, elegante e muito charmosa. Aos 43 anos apresentava-se jovem e em plena forma. Seu famoso Mişcarea Center, em Nova York, era uma escola de dança muito procurada por jovens do mundo todo.
--Meus amores, talvez, depois de tudo isso que foi dito aqui, vocês ainda se perguntem a todo momento: mas, afinal, o que é a dança contemporânea? -- pausou -- Pois bem, eu procurei na internet e ouçam o que achei: -- pegou os óculos e leu um texto em um papel -- “A Dança contemporânea ou Backup Dancing é o nome dado para uma determinada forma de dança de concerto do século XX. A dança contemporânea surgiu na década de 60 como uma forma de protesto ou rompimento com a cultura clássica. Depois de um período de intensas inovações e experimentações que muitas vezes beiravam a total desconstrução da arte, finalmente, na década de 1980, a dança contemporânea começou a se definir desenvolvendo uma linguagem própria.” -- tirou os óculos e olhou para os alunos -- Quando eu li isso pra minha amiga Dévola Koller ela quase teve um treco e me disse: “Isso é dança contemporânea??? Então com licença que eu quero descer; acho que estava no bonde errado esse tempo todo!” -- os alunos riram -- Gente, não se pode definir uma forma de dança assim, sem qualquer sentimento. Não estamos falando de ciências exatas, de números, mas de arte! Arte das mais sublimes! -- olhou para um ponto no infinito -- Permitam-me dizer que na minha humilde opinião, “a dança contemporânea é uma coleção de sistemas e métodos desenvolvidos da dança moderna e pós-moderna; ela é muito mais que uma técnica específica. Dança contemporânea não é teatro, nem cinema e muito menos literatura, não precisa de mensagem, de histórias e uma trilha sonora completa, como ocorre na dança clássica, onde o bailarino geralmente executa coreografias prontas e segue um roteiro coreográfico pré-concebido, diferentemente da dança contemporânea onde o corpo em movimento estabelece sua própria dramaturgia, musicalidade e história, criando outro tipo de vocabulário e sintaxe. Para a ciência o pensamento se faz no corpo e o corpo que dança se faz pensamento, ou seja, completam-se, isso se evidencia nesse estilo de dança. Ela não se define em técnicas ou movimentos específicos, pois o bailarino tem autonomia para construir suas próprias particularidades coreográficas. Num mundo em constante mudança, onde se tem diariamente tantas conquistas e descobertas sobre nós, ficar tratando a dança como apenas uma repetição mecânica de passos bem executados é reduzi-la a algo menor, ou seja, assim como as pessoas mudam durante o tempo, a dança também muda.” -- parecia apaixonada pelas palavras que pronunciava -- "Portanto, o ser humano pode usufruir mais de suas habilidades criativas e ir bem mais longe. Esta é a proposta da dança contemporânea, na medida em que dá mais liberdade ao bailarino, o incentiva a ir além dos seus limites e a cada dia evoluir junto com a dança.”39 -- olhou novamente para todos -- Dança contemporânea é a própria essência da vida: mudança e movimento! -- pausou -- Não aceito uma definição menor do que esta! -- encerrou a palestra sendo aplaudida por uma platéia eufórica
A ruiva decidiu abordar a palestrante e esperou pacientemente que outros alunos conversassem com ela. Quando conseguiu se aproximar se apresentou sorridente: -- Diva, é um prazer conhecê-la! -- apertaram-se as mãos -- Meu nome é Isabela e eu adorei a sua palestra! Vou me formar este ano e ainda vivo o conflito entre o clássico e o contemporâneo; depois de te ouvir palestrar acho que o conflito ficou ainda mais intenso! -- riu brevemente
--Eu conheço você, Isabela Guedes. -- respondeu sorrindo -- Estava no Brasil quando estreou aquele belíssimo espetáculo da Ana Fluminense, em dezembro do ano passado, e fui prestigiá-la. Quando te vi dançando confesso que você chamou minha atenção, bem como a do casal presidencial. -- piscou para ela
--Ah! -- corou encabulada -- Nossa... -- não sabia o que dizer
--Também sei que suas coreografias apresentadas na Companhia da Dança desta Escola sempre se destacam. Parece que você gosta de músicas do Oriente, não é mesmo? -- perguntou curiosa
“Nossa, como alguém como Diva Bustamanti pode se interessar em saber tanto ao meu respeito??” -- pensou extasiada -- É, eu aprendi a gostar da música árabe por causa da minha esposa. -- sorriu -- Amo a musicalidade libanesa, egípcia, síria... Fiz muitos trabalhos sob as vozes de cantoras conhecidas do mundo árabe. Também fiz apresentações onde a música tocava apenas na minha mente! -- respondeu orgulhosa
“Hum, então ela é casada com aquela morena...” -- concluiu -- Muito interessante! Particularmente nunca explorei essa tendência, mas podemos conversar mais sobre isso um dia... -- pausou -- Eu volto pros Estados Unidos amanhã, mas, -- abriu a bolsa e retirou um cartão -- existe internet, não é mesmo? -- entregou o cartão a ruiva, que o recebeu -- Ano que vem teremos um período de muito trabalho e eu mal terei tempo de respirar até setembro; depois disso pretendo voltar ao Brasil. -- olhou bem para ela -- E estou mais que disposta em conquistar novos talentos para minha companhia de dança.
A bailarina sentiu seu coração acelerar. -- Diva, eu... -- levou uma das mãos a boca -- Nossa, eu fiquei completamente... Gente, que emoção! -- as duas riram -- Você deve estar me achando uma idiota mas é que... -- não sabia o que dizer
--Não acho nada idiota. Gosto de gente que tem sentimentos! Uma bailarina fria não merece um segundo da atenção de Diva Bustamanti! -- afirmou enfática -- Quando eu estiver pra voltar, aviso você por e-mail. Como falei, vamos manter o contato.
--Claro!!! -- controlava-se para não pular e gritar de excitação
--Diva! -- uma das professoras a chamou e ela virou o rosto para ver quem era -- Gostaria de apresentá-la a uma pessoa! Teria tempo?
--Claro, querida! Só um segundo! -- olhou para Isa -- Até mais!
--Até mais, Diva! E boa viagem amanhã! -- sorria
Diva se despediu com um gesto com a cabeça e foi ter com a professora que a solicitava.
“Já pensou?? Eu em uma das companhias de dança contemporânea mais badaladas do mundo???” -- o coração parecia a ponto de explodir de tanta felicidade -- “Não vejo a hora!!!” -- andava sorridente pelos corredores da escola quando de repente um pensamento a fez parar -- “Mas, calma, Isa, espere! E o clássico? Eu vou desistir dele mesmo?? E o mais importante: e quanto à Seyyed??” -- pensou preocupada -- "Calma Isa, Diva ainda volta pro Brasil em setembro e até lá muita coisa acontece! Não sofra por antecedência. Certamente Diva nem se lembrará mais de você...”
***
Tatiana estava no Rio por conta de uma palestra que foi convidada e proferir no departamento pelo qual se formou. O auditório estava lotado.
--Como vocês qualificam a informação que chega até cada um de vocês em suas casas? Seja pela TV, pela internet, pelos jornais impressos, revistas, seja lá o tipo de mídia que for? Como vocês qualificam aquilo que estão ouvindo ou lendo? -- perguntou aos participantes
--Eu diria que são informações seletivas e muitas das vezes tendenciosas. -- um rapaz respondeu -- As empresas que nos levam a informação estão geralmente em articulação com setores como partidos políticos, outras empresas privadas, anunciantes e uma série de outros grupos coligados. Como esperar que elas possam ir na contramão dos interesses desses setores? Acho que se uma notícia chega ao público é porque foi aprovada por um grupo que detém o poder de propagá-la e, logicamente, não a disponibilizaria se ela contradissesse seus projetos.
--Obviamente não podemos ser paranóicos a ponto de dizer que tudo que é divulgado por aí é mentira, mas seu raciocínio é corretíssimo! -- Tatiana afirmou -- Podemos afirmar que em muitos casos existe uma clara intenção em se ocultar determinadas informações do grande público e em outras vezes uma série de outras são transmitidas sem que haja uma investigação minuciosa quanto a sua veracidade. Tudo depende de: esta ‘verdade’ é mais interessante para quem? -- exibiu uma imagem no telão -- Mostro pra vocês algumas cenas do filme Cidadão Kane, Citizen Kane, de Orson Welles. Neste filme, temos a história da ascensão de um empresário do ramo jornalístico que começa como dono de um pequeno periódico e acaba se tornando dono de um império das comunicações, chegando a se candidatar para a presidência dos EUA. Para Kane o que importa é a vendagem de seus jornais. Através de seu poder de comunicar e informar, ele consegue forjar informações como bem entende e manipular como bem queria a opinião pública a seu favor.
--Eu assisti esse filme! -- uma moça comentou -- Qualquer semelhança com o que acontece aqui no Brasil é mera coincidência! -- riu
--Falando no Brasil, -- olhou para a moça -- com inspiração neste filme a BBC de Londres lançou nos anos 1990 um documentário sobre a televisão brasileira e a forma como age junto a seus telespectadores. -- voltou a olhar para a platéia -- O próprio título, “Muito Além do Cidadão Kane”, Beyond Citzen Kane, é uma alusão ao poderio dos nossos meios de comunicação. Destrinchando desde a forma com que foram se estabelecendo as relações das redes de TV brasileiras e o governo ditatorial pós 64 e o seu próprio papel junto à sociedade, muito mais centrado no entretenimento de pouco conteúdo do que na informação e programação de qualidade, esse documentário nos mostra uma série de casos que permanecem escondidos junto à boa parte do povo brasileiro.
--Como podemos assistir este documentário? -- uma professora perguntou -- Já ouvi falar nele mas até hoje não consigo comprar ou obter uma cópia de jeito algum!
Olhou para a professora. -- Não é por acaso que a senhora não consegue! Os interessados em que essas informações não chegassem aqui tentaram de várias maneiras impedir que o documentário fosse distribuído no Brasil. Sendo que até hoje a exibição dele é proibida, ocorrendo apenas por meio de cópias piratas ou em sites como o Youtube.40 -- voltou a se dirigir a todos -- Esses dois filmes sintetizam os próximos pontos que quero lançar mão: vamos falar sobre as dez estratégias de manipulação através da mídia. -- pausou -- Alguém se habilitaria a citar alguma?
Uma moça levantou a mão. -- A estratégia da distração! -- falou convicta -- Desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes.
--Perfeito! -- respondeu -- A estratégia da distração é indispensável ao controle das mentes. Como se pode ler no texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas': “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais.”
--Eu destacaria também o maldito recurso de criar problemas para depois oferecer soluções! -- um professor salientou -- Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos. Nós, que somos professores em uma universidade pública, bem sabemos o que é isso! – desabafou
--E eu como ex aluna daqui entendo bem o que quer dizer! -- olhou para ele e depois para os demais -- Temos ainda uma estratégia na qual tenta-se fazer aceitar uma decisão impopular, apresentando-a como sendo “dolorosa e necessária” medida futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. -- sorriu -- É curioso também notar como a maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criança pequena ou um deficiente mental. Por quê? Cito novamente o texto ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’: “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos de idade ou menos.”
--Eles querem manter o público na ignorância e na mediocridade! -- um rapaz afirmou revoltado -- Querem que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão.
--E aí voltamos à questão do ensino! Sei que já tô ficando chata mas não me canso de citar ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’: “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores.” -- olhou para o platéia -- O país mais poderoso do mundo tem a população mais desinformada do planeta! Gente que vive numa bolha e mal percebe o que seu governo faz com o próprio país e com os outros no cenário político internacional. Será coincidência ou conveniência? Michael Moore foi perfeito em seu filme Fahrenheit 9/11! -- pausou -- Bem, já comentamos sobre seis estratégias, faltam mais quatro. Quem se habilita? Quero ver se estamos mesmo conscientes do ambiente no qual estamos imersos! -- provocou novamente
--Fazer uso do aspecto emocional! -- uma professora respondeu -- Essa é uma técnica clássica para causar um curto-circuito na análise racional e, por fim, no sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos… -- olhou para os alunos -- Fazem isso conosco, as mulheres, pra que sejamos sempre submissas e pensemos que estamos no poder!
--E fazem isso conosco, os negros, pra que nos sintamos livres sem o ser! -- uma moça negra complementou -- Também se estimula o público a ser complacente na mediocridade. Induzir as pessoas a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto é uma técnica que tem tido cada vez mais força; especialmente depois da internet!
--Reforçar a revolta pela autoculpabilidade! -- um rapaz falou -- Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo no qual, um dos seus efeitos, é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!
--Exato! -- Tatiana respondeu animada -- Querem formatar nossas mentes pra que a gente se ache incapaz de fazer o mínimo! Gente, no transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm mostrado um progressivo aumento do conhecimento do ser humano, tanto da forma física quanto psicológica. O ‘sistema’ tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo se conhece e isto significa que, na maioria dos casos, esse tal ‘sistema’ exerce um controle e um grande poder sobre os indivíduos maior do que os indivíduos exercem sobre si mesmos.41 É quase uma hipnose em massa! -- respirou fundo e desabafou emocionada -- Meu sonho era trabalhar em uma grande empresa de comunicação e levar ao público o conhecimento dos fatos, sem juízo de valores, pra que cada um tirasse a própria conclusão. Eu vi que estava iludida em acreditar que seria sempre possível agir dessa forma. Eu vi e senti o poder do capital sobre a informação e conseqüentemente sobre as vidas humanas. As Fazendas Calabreza, que ocupam imensos territórios no meu estado, se utilizam de produtos químicos em suas lavouras os quais contêm benzeno em sua composição. Gente, benzeno é a substância mais cancerígena, segundo o Agência Internacional de Controle do Câncer! Eu queria noticiar que os empregados dessas fazendas estão sofrendo exposição ocupacional a essa substância e meu chefe não me permitiu fazer isso, porque os donos destas fazendas são patrocinadores da empresa; daí eu pedi demissão! -- todos ficaram surpresos -- Não sei se eu faria isso se não tivesse família e um bom marido pra me apoiar. Não sei se faria isso se tivesse filhos, mas eu fiz! E continuei investigando e descobri muitas coisas que estão aqui! -- mostrou um CD -- Eu quero divulgar isso e conto com vocês pra poder mostrar o que está acontecendo e eu digo o que é: desrespeito pela vida humana, agressão ao meio ambiente e fornecimento de produtos envenenados pra gente consumir! -- pausou -- Acho que já falei demais; eu falo demais da conta, mesmo! -- sorriu encabulada -- Eu agradeço pela oportunidade de estar aqui, pela atenção de todos e espero que vocês tenham gostado. Espero que todos nós reflitamos sobre o que acontece nesse mundo e não nos deixemos manipular. Não somos robôs, somos humanos! Há que se sonhar e há que se acreditar no sonho! E quando se sonha junto, a coisa acontece! Obrigada! -- as pessoas aplaudiram
--Copia teu CD em algum computador da sala de alunos e deixa comigo que vou divulgar geral! -- um rapaz ofereceu
--Eu também divulgo! -- uma moça falou
--E eu!! -- vários outros disseram
--Deixe eu ler esse teu material, -- uma professora se aproximou pedindo -- pois pretendo usá-lo em minhas aulas sobre como se fazer uma boa reportagem investigativa.
Tatiana se sentia nas nuvens.
(NOTA DA AUTORA: Palestra muitíssimo baseada nas referências 40 e 41)
***
Seyyed e Suzana passeavam de moto. Depois de algumas horas correndo decidiram parar para beber um suco em uma lanchonete.
--Rio das Ostras mudou tanto, né? -- Ed comentou -- Agora tá toda no maior capricho, cheia dos calçadões, restaurantes...
--Pois é. Mas eu preferia antes. O que chamam de progresso me parece ter um custo social e ambiental alto demais. -- sorriu -- Vamos até onde?
--Que tal chegar até Farol de São Tomé e depois voltar? Dá tempo de sobra de chegar em casa e pegar nossas mulheres ainda de cara boa. -- riu -- Sei que Isa só chega em casa por volta das sete. Ela anda à mil preparando o trabalho de conclusão de curso em Interpretação e Coreografia. Tem que elaborar um tal de um memorial que tem tomado os sábados dela quase todos!
--Por mim tá bom! Ju vai chegar em casa por volta das sete também porque vai sair do hospital e buscar dona Lourdes. -- sorriu -- A velhinha tem ensaiado pra ser protagonista da pecinha que o pessoal do centro espírita de dona Olga vai apresentar em um asilo no dia 19 de dezembro.
--E ela consegue memorizar os textos? -- perguntou surpresa -- Que maneiro! -- sorriu
--O sonho dela era ser atriz de teatro! A danadinha anda eufórica desde que dona Olga convidou ela pra interpretar esse papel.
--Legal pra caramba! -- bebeu um gole do suco -- Eu admiro aquela velhinha! A gente barbarizou em alto mar!
--Ed, não me conte! Eu não quero saber como foi esse batismo de mergulho! -- riu
--E a lua de mel em Morro de São Paulo? Você ainda não me disse como foi! -- piscou para ela
--O que você acha? Uma mulher maravilhosa, um lugar paradisíaco e tempo livre pra curtir! Foi incrível! -- pausou -- Ficamos na Quarta Praia, que é mais natureza, e em algumas noites saímos pra dançar na Segunda Praia. Na maior parte das vezes, no entanto, a gente se amou muito em um quarto super acolhedor! -- relembrou sorrindo -- Eu gostei desse negócio de lua de mel!
--Ah, mas lua de mel é tudo! -- deu um tapinha no braço dela -- Isa e eu fomos pra Gramado nas férias dela e foi uma nova lua de mel. Era muito bom fazer amor com ela naquele quarto gostoso e ouvindo o fogo na lareira crepitando devagar. -- sorriu -- Na nossa cama posso te garantir que o fogo crepitava bem mais intenso!
--E vocês, hein, Ed? Estão bem? -- olhou atentamente para a morena -- Eu percebi que você não vacilou quando a gente viajou pelo motoclube e Samira tava lá no evento. Mas, e quanto à Camille?
--Eu tenho pensado muito na minha vida... E pensei no que você me falou também. -- olhou para a delegada -- Eu admiro Camille, gosto, respeito, tenho amizade, mas... ela não é a mulher da minha vida!
--Isa é? -- perguntou provocadora
--E por que não seria? -- respondeu da mesma forma
--Eu vi o clipe do Everardo! -- sorriu -- Se aquele beijo fosse na minha mulher eu tava presa agora!
--Nem me lembre daquilo! -- fez uma cara feia
--Isa vai se formar daqui a pouco, ela contou pra Ju que as bailarinas mais experientes disseram que não há nem perspectivas quanto ao próximo concurso de ingresso pro corpo de balé do Municipal... O que ela vai fazer depois de formada, hein? Será que vai querer continuar naquela de dar aulas para adultos e participar de espetáculos como bailarina convidada? Será que ela vai querer entrar pra uma companhia de dança pouco conhecida e ficar levando uma vida comum?
--O que quer dizer com isso, Suzana?
--Isa quer fama, Ed! Ela quer sucesso, ela quer uma carreira internacional! Eu não entendo de balé mas não precisa entender pra saber que ela é muito boa no que faz e se destaca sempre! -- pausou -- Ela quer chegar no topo, o que não é condenável, mas não vai chegar lá ficando aqui, no Brasil! O que vai fazer quando ela quiser ir pra Europa ou pros Estados Unidos, sei lá? Você não vai poder acompanhar!
--Tá, Suzana, é verdade! -- respondeu contrariada -- Mas por isso eu tenho que deixá-la? Por isso eu tenho que ficar com Camille porque ela trabalha na oficina, o tio dela é meu padrasto e tá tudo em casa? -- pausou -- Eu não me acomodei com a Isa, eu quero ficar com a Isa! -- falou com convicção
--E você a ama?
Seyyed ficou pensando e depois respondeu: -- Às vezes acho que sim, em outras acho que não... acho que não sei amar de verdade, sei lá! -- passou a mão nos cabelos -- Mas ela é a mulher que está mais próxima do meu coração com toda certeza e com ela quero ficar! Não me confunda mais do que já ando confusa, por favor! -- pediu
--Tudo bem, vamos mudar de assunto, então. – pausou e ficou calada por alguns segundos até que se lembrou: -- Ah, Juliana, dona Lourdes e eu vamos na formatura da tua mulher. Ju conseguiu negociar a troca da folga dela com Débora.
--Tá legal. -- respondeu simplesmente -- E vocês vão passar o ano novo aonde?
--Ju vai trabalhar. Dona Lourdes e eu vamos ficar em casa mesmo.
--Eu vou pra uma festa na cobertura dos meus sogros... A mãe dela ficou possessa porque a formatura da Isa vai ser uma coisa simples então quer descontar tudo no réveillon. -- riu -- Ô gente maluca! Não sei como Isa pode ser a pessoa que é com aquela família louca!
--Nossas mulheres têm a família muito complicada... -- respondeu pensativa -- Acho que vou morrer sem conhecer minha sogra! Dona Lourdes acende duas velinhas todos os dias mas não levo fé que dona Tamiko um dia apareça pra pedir perdão!
--Por que não? -- perguntou olhando para a outra -- Quem diria que um dia nós duas estaríamos aqui batendo papo e que Juliana negociaria uma folga pra ir na formatura da Isa? -- sorriu -- E espere como um dia tua japonesa vai se candidatar a alguma coisa!
--Selma e Ruy não desistem dela! -- revirou os olhos
--E nem devem! É só uma questão de tempo!
--Ed, perdoe te perguntar, mas o que teu sogro faz pra estar ganhando tão bem a ponto de ter cobertura na Vieira Souto? -- perguntou intrigada
--E eu entendo? Nem Isa entende! -- afirmou enfática -- Eu só sei que ele trabalha no escritório de uma firma de importação/exportação lá em Copacabana. A história que sei foi que pediu demissão do banco pra pegar esse emprego aí!
--Hum... -- coçou o queixo -- Da minha experiência eu diria que isso tudo é muito suspeito e cheira a contravenção!
--Que é isso, Suzana? -- perguntou chocada -- Ele pode ser um cara esquisito mas nunca foi desonesto não!
“Isso me cheira a tráfico de drogas...” -- pensou -- Tudo bem, deixa pra lá. O que me interessa mesmo é que ando investigando às escondidas sobre os caras que sacanearam meus homens! Tá sendo difícil pra caramba porque me anularam bastante, mas eu continuo em cima!
--Flávia mudou muito depois que Brito foi embora. Ela não tem mais aquele entusiasmo... Ainda é uma mulher viva e tal, mas falta alguma coisa, não sei dizer...
--Eu quero ajudar meus homens porque sei que se sacrificaram por mim. Eles achavam que me deviam e no entanto isso custou a vida de Rodolfo, o pedido de demissão de Coimbra, a paz de Lemos e Jailson e uma total bagunça nas vidas de Macumba e Brito! -- deu um soco na mesa -- Eu quero ver essa situação se reverter, ou não me chamo Suzana Mello!
--Eu sabia que você devia estar aprontando alguma! Não acreditei que fosse se contentar somente em investigar sobre um coreógrafo louco!
--Eu investigo esse caso desde que soube do que aconteceu. -- pausou -- E falando no maluco, o tal coreógrafo enlouqueceu mesmo?
--Totalmente! Está internado em um hospício e parece um cadáver. Isa foi visitá-lo um dia desses; nós fomos, quer dizer.
--Ela quis ir?? -- perguntou surpresa
--Você, melhor do que ninguém, deveria saber que as pessoas podem se transformar! Isa mudou muito, Suzana. Ela não é mais aquela garota mimada que ia na ondas da mãe. Ela é uma mulher, minha mulher, e maravilhosa!
***
--Ai, amiga, eu ando doida pra ir na tua formatura! -- Lady falava olhando para Priscila. Estava sentada na cama da morena -- Vai que o amor da minha vida é um futuro dentista que vai me deixar de boca aberta, hein? -- pensou -- Meu Deus, o enviado!! -- olhou para ela com os olhos arregalados -- Sabe me dizer se algum dos seus colegas saiu de uma crise muito séria e veio de longe? Onde eles moram, hein? -- perguntou interessada
--Me poupe, Lady! -- Priscila respondeu enquanto procurava alguma coisa nas gavetas -- Eu ando louca cuidando das coisas dessa formatura, acabo de fazer uma prova enorme pra batalhar uma vaga pra minha especialização e você ainda me vem com esse papo de enviado?? Que coisa!
--Pôxa... -- suspirou decepcionada -- "Já vi que terei de perguntar por mim mesma a um por um no dia da formatura dela!” -- pensou -- O que você procura aí? -- perguntou curiosa
--Minha Pashmina que mamãe trouxe da Síria pra mim! Ela desapareceu e eu não encontro de jeito algum! -- continuava remexendo as gavetas
--E como é essa tal de Pashmina?
--É aquela echarpe bonita, verde com traços pretos e prateados... -- e procurava
--Ih! Eu acho que vi essa Pashmina aí... -- respondeu preocupada
--Onde?? -- olhou para Lady
--No pescoço de Lila.
--O que???????????????????????? -- perguntou furiosa
--Anteontem ela tava com essa Pashmina no pescoço e deu aula de meditação pra duas mulheres no quarto dela. Depois de muitos ‘aums’ ouvi quando uma das alunas perguntou sobre a estola que ela usava e aí Lila falou que era um tecido místico abençoado pelo próprio Dalai Lama. A mulher acabou comprando ao preço de oitocentos e cinqüenta reais. Mas teve barganha antes porque Lila pediu mil e duzentos!
--Ah, mas é um inferno!! -- deu um soco na cama -- E a desgraçada viajou ontem!! -- cerrou os olhos com raiva -- Ah, mas ela volta e quando voltar... -- falava entre dentes
--Eu desconfio que foi ela que roubou o anel que ganhei de meu ex noivo. Aquele que você chamava de Somebody Love. -- levantou-se -- A gente tem que fazer alguma coisa com aquela picareta porque não dá pra confiar!
--Pois é! -- andou pelo quarto -- Temos que preparar uma armadilha praquela ratazana desgraçada! Aumzeira de uma figa! -- parou de andar -- Mas deixe estar! Deixa ela comigo!
--Ela foi embora devendo o mês do aluguel! -- Lady reclamou
--Foi não! -- sorriu maquiavélica -- Domingo passado eu fiquei de tocaia assistindo a uma aula dela no aterro do Flamengo e na hora que o povo pagou por ter feito ‘aum’ eis que surjo com minha sacolinha e passei a mão no dinheiro todo! -- pausou -- Deve ter sido por isso que ela vendeu minha Pashmina! Queria vingança! -- deu um soco na mão
--E por que vendeu meu anel? Eu nunca tive tino pra sacanear ela!
--Vendeu porque você é trouxa mesmo! -- olhou para Lady -- E pelo amor de Deus, não vá me fazer passar vergonha no dia de minha formatura! -- advertiu
--Eu hein, Priscila? E eu lá faço alguém passar vergonha? -- saiu do quarto de Priscila -- Mais discreta que eu não há!
--Ah, é! -- respondeu fazendo um bico. Voltou para arrumar as gavetas que revirou -- Quando eu penso que Lila roubou minha Pashmina comprada no mercado de Damasco... -- suspirou e olhou para cima -- Por favor, o ano novo vem aí, é tempo de mudança! Leva essas duas pra longe da minha vida, meu Pai! -- pediu súplice
***
Maria de Lourdes estreava sua pecinha no asilo São Rominho. A platéia era composta pelos idosos internos e alguns de seus parentes, funcionários e pessoas do centro espírita de Olga, a qual estava presente com o marido e Ricardinho. Suzana, Juliana, Seyyed, Isabela, Camille e Flávia também completavam o grupo dos que assistiam ao pequeno espetáculo.
Lourdes atuava junto com mais um homem idoso, duas moças e dois rapazes do centro. Encerrava a apresentação recitando: -- “Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas.” -- olhava para cada um dos colegas de palco -- "Muitas vezes basta ser: colo que acolhe,” -- recitava com emoção -- "braço que envolve, palavra que conforta,” -- olhou para um ponto perdido -- "silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.” -- olhou para a platéia --
“E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar.” -- sorriu e abriu os braços -- "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”42 -- os artistas cumprimentaram o público, que aplaudiu animado
--Ai, Su, eu tô tão orgulhosa da nossa velhinha! -- exclamou emocionada enquanto aplaudia -- Viu como representou bem? Ela deu um show de interpretação!! Isso aí é melhor que Ananda Montepreto!
--Eu também gostei de ver! -- a delegada aplaudia com empolgação -- E adorei esses versinhos que ela recitou aí no final!!
--Grande dona Lourdes!! Arrepiou velhinha!! Uhu!! -- Ed gritou
--Ed, não faz bagunça no asilo! -- Isa beliscou o braço dela de leve e riu
--Mas fala se não foi show? -- olhou para a ruiva
--Eu achei lindinho! -- ela respondeu -- Mas não é pra você fazer bagunça aqui!
Maria de Lourdes e os outros colegas desceram do palco e foram falando com as pessoas. Olga e ela se abraçaram felizes.Suzana e Juliana vieram para perto da idosa.
--Foi lindo! -- Olga disse com sinceridade
--Eu fiquei emocionado! -- Mariano disse
--Vocês gostaram mesmo? -- perguntou sorridente olhando para eles
--Vovó! -- Ricardinho abriu os braços para ela
--Olha um fã, aí! -- Mariano apontou para o menino
--Vem cá, meu lindinho! -- abraçou Ricardinho com força
--Eu tô tão orgulhosa, dona Lourdes! -- Juliana disse -- Suzana e eu quase choramos!
--Que chorei, o que, menina? -- a delegada protestou -- Eu achei emocionante, mas não sou mulher de choro!
--Disfarça não que eu só ouvia o teu fungado, Suzana! -- Ed se aproximou provocando
--Adorei dona Lourdes! -- Isa exclamou -- A senhora é uma artista!
--Ai, gente, não me mata do coração que o danado é fraco, viu? -- colocou as mãos sobre o peito emocionada
--Parabéns, dona Lourdes! -- Camille se aproximava com a mãe -- Muito bacana a pecinha!
--Tocante! Foi bom pra os parentes desses idosos que estão aqui tomarem vergonha na cara! -- falava alto
--Mari! -- Mariano ralhou
--Falei e falo mesmo! -- cruzou os braços -- Gente safada! -- a costureira reclamou
--Dona Lourdes, eu vou te contar! A senhora tá dando show e tirando onda com a galera! -- Flávia abraçou-a também -- Vou te dar um desconto de 10% na fisioterapia! -- brincou
--Deixa de ser mão de vaca, mulher! -- Juliana brincava com a fisioterapeuta -- Depois desse espetáculo de hoje você tinha que pagar pra trabalhar com dona Lourdes!
--Por favor, me escutem todos! -- Lourdes pediu -- Eu não saberia dizer como estou honrada pela felicidade que sinto! -- olhava para todos -- Em plena velhice, quando eu imaginava que essa fase da vida só me traria tristezas e solidão, tenho vivido momentos lindos e realizado todos os meus sonhos! Vocês são jovens, então, por favor, não esqueçam do que diz essa velha aqui: a vida é maravilhosa e nunca é tarde pra ser feliz! E, meus amores, olhem para os lados, não desprezem os idosos! Feliz de cada pessoa com cabelinhos brancos nesse país se tivesse uma Juliana, -- puxou a japonesa pela mão -- e uma Suzana, -- fez o mesmo com a delegada -- para lhe cuidar, dar atenção, carinho e amor!
Juliana e Suzana ficaram emocionadas e cada uma deu um beijo na bochecha da idosa.
--Mãe, -- Camille olhou para a costureira -- acho que de hoje em diante eu vou passar a frequentar esse asilo aqui.
--Sério? -- perguntou admirada
--Sim... acho que já está na hora de entregar pra vida o que dela venho recebendo há tantos anos!
--Ai, meu amor, que lindo, que orgulho! -- sorriu -- Posso vir com você?
--Ainda não percebeu que é minha companheirinha e melhor amiga? -- sorriu
As duas se abraçaram. -- Você me deu o melhor presente de natal que poderia me dar ao dizer isso! -- continuava envolvendo a filha em seus braços -- "Não me importa que ela seja lésbica! É minha filha amada, e sempre será!” -- Mariângela pensou com muita emoção
20:00h. 31 de dezembro de 2004, Hospital Silva Avelar, Centro, Rio de Janeiro
Juliana estava trabalhando em mais um plantão noturno. Incrivelmente tudo corria sob controle. Após visitar todas as enfermarias leva um susto quando dá de cara com seu irmão Ivo no corredor do hospital.
--Ivo? O que faz aqui? -- perguntou intrigada -- Alguém da família está internado e eu não sei?
--Não... -- aproximou-se dela devagar -- Eu não sabia se te encontraria aqui em plena véspera de ano novo mas arrisquei... -- pausou -- Mamãe está lá em casa... Ela estava internada no Hospital de Bonsucesso mas os médicos a liberaram pra passar réveillon com a família. -- respirou fundo -- Não somos idiotas, Ju! Todos sabemos que ela tá nas últimas...
A japonesa sentiu um aperto no peito. -- Sinto muito mesmo por isso...
--Estão todos aí! Nossos irmãos e sobrinhos... Veio todo mundo... -- pausou -- Só falta você! -- olhou humildemente para ela
--Eu?! -- riu -- Eu não vou lá, Ivo! -- respondeu magoada -- Pra que?! Pra ela me destratar e me mandar ir embora de novo? Pra servir de mau exemplo pra tua filha? -- balançou a cabeça negativamente -- Eu não vou, sinto muito! -- deu as costas e se preparou para se afastar
--Mas eu tô aqui por causa dela! -- afirmou emocionado -- Foi ela quem me mandou vir aqui te buscar! -- Juliana virou-se de frente para ele -- Mamãe quer te pedir perdão! -- chorava de forma contida
--Não acredito! -- chorava da mesma forma
--A vida ensina, Juliana! Ela quer sim! -- pausou -- É o que ela mais quer! -- passou a mão nos olhos -- E ela ainda disse que quer conhecer sua companheira, se você tiver uma...
“Dona Lourdes...” -- lembrou-se da idosa. Era capaz de ouvi-la dizendo: “-- Acredite no que lhe digo! Ela vai vir te procurar e te pedir perdão! Ela e sua família toda! -- falava com muita emoção -- Mesmo que não seja amanhã, mesmo que demore, ela virá! E quando isso acontecer, aonde quer que eu esteja, você vai lembrar que hoje, neste dia, eu segurei seu rosto e afirmei com certeza: ela virá te pedir perdão!”
--Mamãe disse que você falou uma frase que ela nunca esqueceu: “Às vezes tudo o que uma pessoa quer é simplesmente existir...” -- pausou -- Ela disse que você existe, sempre existiu, e que ela nunca tirou você do pensamento em um dia sequer! Assim como papai! -- respirou fundo -- Ela disse que eles fizeram o que fizeram porque achavam que era o certo, que você iria mudar e deixar de ser o que é! Ela disse que uma vez grávida, grávida pra sempre! Você nunca deixou e nunca deixará de ser filha dela! -- olhou nos olhos dela -- Eu lhe dou a minha palavra sob minha honra de que digo a verdade!
--Meu Deus... -- chorava -- Eu nunca pensei que um dia...
--Será que poderia ir lá em casa amanhã? -- perguntou receoso -- Assim, de tarde, depois que você descansar desse plantão?
--Eu vou sim! -- olhou para ele -- Vou sim... -- antes mesmo de conversar com a mãe, já era capaz de finalmente se sentir livre do peso de todas as mágoas as quais, durante anos, penalizaram tanto seu coração sofrido
***
--O que será que Juliana está fazendo agora, hein, dona Lourdes? -- Suzana perguntou enquanto acompanhava a idosa até seu quarto -- Nós fizemos nossa pequena ceia, oramos, vimos os fogos queimarem... Que será que ela faz?
--Deve estar recolhida em algum lugar fazendo suas orações, a menos que o trabalho impeça ou que algum colega chame pra confraternizar. -- sentou-se na cama -- Mas, algo me diz que ela está muito bem! -- sorriu
--Estaria melhor se estivesse aqui com a gente, mas... -- ajudou-a se cobrir e ligou o ventilador -- não se pode querer tudo, não é? -- sorriu
--Pois é! Filha, por favor, não precisa ligar o ventilador. Pra mim a temperatura está boa ao natural.
--Tudo bem. -- desligou e foi até ela para beijá-la -- Boa noite... mãe! -- sorriu
--Do que me chamou? -- perguntou sorridente
--De mãe! -- passou a mão nos cabelos -- Pode?
--Claro que sim, meu amor! Seria uma honra ser sua mãe de verdade. -- segurou as mãos dela
--Eu te amo! -- pausou -- Juliana já lhe disse isso várias vezes e eu nunca... mas pode acreditar, é que não sou boa com palavras...
--Eu acredito! -- segurou o rosto dela -- E também te amo! -- beijou a testa da delegada
Suzana se despediu e saiu do quarto da idosa. A delegada sentia algo muito bonito e intenso no ar, mas não tinha idéia que o quarto de Maria de Lourdes estava repleto de bons espíritos que a aguardavam.
Lourdes adormeceu rapidamente e minutos depois foi despertada por uma voz conhecida que lhe chamava: -- Lourdinha? Querida! Lourdinha?
“Estarei louca?” -- pensou -- “Valadão?” -- abriu os olhos e viu o marido parado no meio de um campo de flores. Estava belamente vestido, barbeado e com um belo sorriso no rosto.
--Chegou a hora! -- estendeu-lhe a mão -- Venha!
--Mas como?? -- sentou-se na cama -- Você... -- não sabia o que dizer
--Venha, meu amor! -- insistiu
Ela sorriu emocionada e buscou a bengala para se levantar.
--Não precisa mais disso! -- ele respondeu -- Você está livre! Pode andar, correr e percorrer os espaços como quiser!
Lourdes levantou-se e de repente lhe pareceu que o corpo era jovem novamente. Não sentia mais dores ou o peso de quaisquer limitações. Parecia que era capaz de voar. -- Meu Pai amado! -- exclamou sorridente
Ela olhou para o marido e constatou que sua mãe a esperava do lado dele. -- Venha querida! Você agora viverá conosco! -- sorria -- Seu filho e sua neta estão em tratamento! Eles precisarão dos seus cuidados!
--Gisele quer muito vê-la, minha amada! -- Valadão disse -- Ela vive a dor de muitos arrependimentos e quer lhe pedir perdão. -- pausou -- Nosso filho também!
Lourdes caminhou titubeante para perto deles e se viu amparada por vários espíritos luminosos que lhe transmitiam incrível bem estar. Valadão correu até ela e envolveu-a nos braços com aquela euforia de alguém que recebe uma pessoa após anos de espera. Ela adormeceu assim e todos seguiram um caminho de Luz através dos espaços.
21:20h. 07 de janeiro de 2005, Hamartia’s Club, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
“Pepepepeppepepega pra capar,
Pepepepeppepepega pra capar,
Pra capar, pra capar, pra capar o X9,
Pepega pra capar, que comigo ninguém pode...”
--Anselmo, -- Ana cochichava desconfiada -- acho que a gente não veio com os trajes mais adequados pra essa... essa coisa que teu patrão chamou de festa! -- notava que muitas pessoas riam da cara deles
--Eu não podia adivinhar que era isso, Ana! Quem ia desconfiar que Luizinho Beira Rio comemoraria o aniversário no clube mais caro da cidade fazendo baile funk? -- respondeu também aos cochichos
O clube, que contava com um imenso espaço aberto, estava lotado de gente, basicamente traficantes e seus seguidores, além de alguns poucos parentes. Em várias partes do local haviam jaulas imensas penduradas em armações de andaime com mulheres semi nuas rebol*ndo como loucas.
--Minha nossa, mas o que é isso? -- apontava intrigada
--É a tal da jaula das poderudas! -- respondeu -- Tá na moda isso aí!
--Misericórdia!
“Tem navalha amolada pra decepar,
Canivete suíço pra barbarizar,
Tem espada, peixeira, gilete e o diabo,
Pepega minha faca, pra raspar esse quiabo...”
Ana e Anselmo estavam perdidos no meio do mega baile funk. Ela usava um vestido longo, escharpe e saltos altos. Ele vestia um terno e gravata borboleta. Os convidados pulavam e rebol*vam dando esbarrões uns nos outros, inclusive neles que, temerosamente, transitavam pelo salão.
--Fala, choque! -- Luizinho vinha cumprimentar Anselmo -- Que beca é essa, sangue bom? Tô boladão contigo, aí! -- deu-lhe um tapão nas costas
--É, boladão... -- não sabia o que responder enquanto se recuperava do tapa
--Tua potranca, sangue? -- olhou para Ana
“E o desgraçado ainda me chama de égua!” -- pensou revoltada -- Oi! -- Ana acenou
--Já é, a chapa tá quente! -- deu um tapa no braço dela -- Demorou?
--Ah, não meu filho, demorou nada! -- não entendia -- Acabamos de chegar! -- esfregava o braço
Ele deu uma gargalhada escandalosa. Anselmo e Ana riram também sem nem saber porquê.
--Aí, o baile tá uma uva! -- apontou para o ambiente e em seguida olhou para eles -- Peida não, tá ligado? -- piscou e se afastou -- Fui!
--Anselmo, que língua é essa que ele fala? -- perguntou intrigada -- Ele mandou a gente não peidar, é isso mesmo?
--Vai entender cabeça de traficante... -- revirou os olhos
--Falta de classe, viu? -- reclamou -- Vê lá se uma dama como eu anda eliminando gases por aí!
“Sou ladrona, sou ladrona, sou ladrona,
Eu ando nos comércio, com cara de bobona,
Papapasso a mão em tudo, e meto os troço na bolsona!!!
Sou ladrona, sou ladrona, sou ladrona...”
Dezenas de garotas rebol*vam freneticamente, uma encostada atrás da outra.
--Gente, que pouca vergonha aquilo lá! -- Ana apontou para elas -- Parece até que tá todo mundo acasalando! Coisa indecente!
--Vamos ficar só mais uns minutinhos aqui pra disfarçar e depois a gente vai embora! -- Anselmo falou apavorado
--Anselmo, veja se não é o... ih, aquele outro não é o... Gente, olha lá o... -- apontava -- Ué, mas aquele ali não tava preso??
--Ana, pelo amor do Deus, pára de apontar pros caras! Isso aqui não é um baile funk normal, será que não percebeu ainda? -- abaixou o dedo dela -- Ouve as letras dessas músicas, criatura!
--E isso lá é música? Isso é um recital dos infernos! -- fez cara feia -- Além do mais eu não freqüento esse tipinho de ambiente pra saber se essa desgraça aqui é normal ou não! -- retrucou indignada -- Sou mulher fina, Anselmo, eu hein!
“Vendo bagulho,
No pó e na folhage,
Me diz o que tu quer,
Só não vem de sacanage,
Vendo bagulho,
Vendo, ven-vendo, ven-vendo, vendo...”
Homens dançavam apontando fuzis para o alto.
--Eu acho que os traficantes mais medonhos do planeta estão aqui! -- olhou apavorado para todos os lados -- Não duvido que até o Bicho Ruim em pessoa tenha vindo também!
--Ave Maria! -- benzeu-se
“Dança e dá porr*da,
Dan-dança e dá porr*da,
Dan-dan-dança e dá porr*da,
E não sobra quase nada!
Nada, nanada, nanada, nada, nanada...”
--Eu ainda não entendi porque que pra cantar funk tem que ser gago! -- ela reclamou
--Não é gago, não, Ana! Diz que é... como é? -- pensou -- Mix! Tal de mix!
Nesse momento, as pessoas começaram a se organizar em uma espécie de fila indiana para formar um bonde.
“Bonde, bobonde, bobonde,
Bonde, bobonde, bobonde,
Uhhhhhh!!!
Tu vai pra ondeeeeeee?
Uhhhhhh!!!
Ninguém se escondeeeee!
Uhhhhhh!!!
Formou o bondeeee,
Uhhhhhh!!!”
--Formou o bonde!!! -- Luizinho gritou e atirou para o alto. Os outros traficantes atiraram em solidariedade
--Ai, meu Pai! -- Ana e Anselmo se abraçaram com medo
--Vambora, coroa!!! Vem no bonde! -- um rapaz chamou e empurrou os dois para se unirem em um imenso trenzinho que se avolumava
--Anselmo, e agora? -- perguntou apavorada
--Segura no ombro desse cara aí e vai! Eu tô atrás de você! -- seguiram pulando como pulgas
--Ai, minha echarpe! Olha lá, ela pegou! -- apontou para uma moça
--Cala a boca e finge que tá curtindo, mulher! -- pediu com medo -- Pula e segue esse povo!
“Ô, meu Pai... o que uma mulher abnegada e mãe amorosa não tem que passar pelo bem da família...” -- pensava desgostosa
***
--Anselmo, vou te contar, viu? -- Ana se jogava na cama -- Saí de casa como rainha e voltei como mendiga! Olha pra mim! Descalça, vestido rasgado e cabelo todo desgrenhado! Minha maquiagem parece a do Coringa!
--E eu? Levaram meu paletó, o cinto e até o fundo da minha calça rasgou! -- jogou-se na cama também -- Mas a gente tem mais é que agradecer a Deus! Quando a pancadaria começou eu pensei que seria nosso fim!
--Ai, nem me fale! -- revirou os olhos -- Nunca corri tanto na minha vida! Naquela história de lado A e lado B, cadê que eu sabia o lado pra ficar? -- olhou para ele -- Mas eu também odiei a hora em que aquelas garotas malucas me pegaram pra bater uma bundinha. As desgraçadas rebol*m até o chão e minhas juntas não dão mais conta disso!
--E eu nunca levei tanto tapa! Acho que meu corpo é hematoma da cabeça aos pés! -- reclamou
--Anselmo, pelo amor de Deus! Da próxima vez você compra um presente, inventa uma desculpa e a gente não vai! -- levantou-se para ir ao banheiro. Mancava
Ele ficou pensativo. -- Ana, eu ando com muito medo desse trabalho! Acho que vou alegar uma doença, sei lá, e pular fora dessa! -- olhava para o teto
--Mas você enlouqueceu? -- voltou para o quarto revoltada -- Traficante não dá aposentadoria pra ninguém, não, meu amor! Entrou nessa, vai ter que ser até o fim!
--Mas, Ana! -- sentou-se com dificuldade -- Não posso e nem quero ficar a vida toda trabalhando pra bandido! Amanhã ou depois ele morre ou vai preso e aí? Eu tô ferrado! -- pausou -- Tenho feito até notas fiscais frias pra mascarar algumas trans*ções pesadas... -- olhou para ela -- Eu não estudei pra isso! -- falava com tristeza
--Calma, Anselmo! Pare de fazer drama! -- segurou-o pelos ombros -- Não demora muito e Isa vai morar no exterior! Nós dois vamos com ela, daremos um bom pé na bunda desses traficantes e eles nunca vão colocar as mãos na gente! -- sorriu -- Você vai se ver livre desse sofrimento!
--Como pode contar tanto com uma ida de Isa pro exterior? -- olhou para ela -- Além do mais ela pode receber um convite com duração definida, o que é o mais comum! -- pausou -- Quando a gente voltasse pro Brasil nossos dias estariam contados!
--Você é um homem de pouca fé, meu querido! -- soltou-o e voltou para o banheiro -- Isa vai morar no exterior e vai ser em definitivo! E aí, todos os nossos problemas se resolverão!
--Ela tem Seyyed! Duvido que largue aquela mecânica pra viver fora! -- deitou-se de novo -- Ai! -- gem*u
--Isa deseja o sucesso, meu bem! Ela arde pelo sucesso! -- falava de dentro do banheiro -- Seyyed não é mais importante que o sonho dela! -- calou-se -- "Àjé falhou na coisa de destruir aquela aleijadinha, mas o que eu mais quero ela vai ter que fazer por mim! Quero minha estrela Dalva brilhando no exterior! E ganhando muito bem!!” -- sorriu ao se olhar no espelho -- "Com ou sem Seyyed!” -- mirou-se com mais atenção -- Gente, envelheci dez anos nesse baile funk! -- puxou a pele do rosto
14:30h. 08 de janeiro de 2005, Rua Aragarças, casa 10, Ramos, Rio de Janeiro
Juliana e Ivo estavam de pé, ao lado da cama da mãe, assim como seus irmãos Henrique e Guilherme. Suzana aguardava na sala com as cunhadas e sobrinhos da japonesa. Um silêncio desconfortável e formal imperava naquele quarto.
--Parece que, finalmente, depois de tantos anos a família se reúne de novo... -- Ivo disse para quebrar o gelo -- Inacreditável...
--É, e nós temos que voltar pra São José amanhã mesmo... Já fiquei com a família aqui no Rio por todo o tempo que poderia ficar. -- Henrique comentou
--Desculpem só ter vindo hoje, mas uma pessoa muito querida na minha vida faleceu na virada do ano e nós tivemos que providenciar... -- Juliana se justificou
--Nossa, que barra! -- Guilherme disse
--E a senhora, mamãe? -- a enfermeira perguntou -- Como tem ido? -- olhou para ela
--Sei que logo vou embora... -- respondeu com um olhar cansado -- e não sinto pena por isso porque meu corpo está destruído. Sinto apenas pelo tempo desperdiçado... isso eu não posso mudar. -- falava com tristeza -- Precisava muito, muito mesmo lhe falar!
Juliana olhou para Tamiko e sentiu imensa tristeza em ver sua mãe reduzida a uma forma desgastada, magra e pequenina.
--Não quero que se consuma em remorsos. -- segurou a mão dela
--Eu precisava falar com você! -- olhou intensamente para a filha -- E com todos os outros. -- olhou para cada filho -- Sei que essa família se desmoronou no dia em que Hiroshi e eu mandamos você ir embora. -- seus olhos se encheram de lágrimas -- E mais ainda quando fizemos seu enterro!
--Eu nunca aceitei aquilo! -- Ivo disse com voz embargada -- E nunca aceitei o que vocês dois fizeram! -- olhou para os irmãos -- Não tinham o direito! -- seu tom era cheio de mágoas
--Não tire onda de santo pra cima de nós! -- Guilherme despejou raivoso -- Você abominava o que ela era tanto quanto todos naquela casa!
--Eu não concordava com a escolha dela, mas jamais a expulsaria de casa e nem bateria nela! -- gritou -- Se fui naquele enterro foi só porque papai mandou e ele me sustentava! Eu tinha que obedecer!
--Isso não adianta agora! -- Henrique interrompeu a discussão -- Tudo podia ter sido diferente! -- pausou -- Mas não foi! Nós éramos ignorantes, não enxergávamos mais do que nossos pobres conceitos de vida e moral!
--Mas aí você se tornou engenheiro militar, cheio das patentes, viajado... -- Guilherme falou com deboche -- Abriu a cabeça! -- sorria -- Não foi assim?
--Não tenho culpa de que não tenha conseguido ser mais do que um vendedorzinho ferrado e descasado! -- respondeu
--Gente, qual o problema de vocês? -- Juliana interrompeu -- Vão deixar mamãe falar? Eu não tô preocupada se vocês concordam com minhas escolhas ou não! Vim aqui pra ouvir o que mamãe tem a dizer! Será que poderiam se conter e mostrar um pouco de respeito? -- falou rispidamente
--Eu não queria que fosse desse jeito! -- Tamiko falou pesarosa -- Vocês têm mágoas uns dos outros e de nós, seus pais! Uma família não pode ser assim! -- respirou fundo e olhou para a filha -- Quando você me disse o que sentia sobre si mesma eu enlouqueci. Não sabia o que fazer. Contei para seu pai e ele também ficou louco. O que sentíamos era medo, vergonha e culpa. -- pausou -- Fizemos o que fizemos por achar que você se corrigiria e voltaria atrás dizendo que mudou. Foi a criação que recebemos, achávamos que tinha de ser daquele jeito... Não sabe o quanto rezei pra que você voltasse atrás! -- as lágrimas caíam lentamente de seus olhos -- Eu sei, como seu pai também sabia, que no dia daquele enterro, matamos a família toda! Nossa vida foi um mar de tristezas desde então...
--Por que tanto sofrimento? Vamos acabar com isso! -- Henrique passava a mão sobre os olhos -- Naquela época eu desejei ardentemente sair de casa. -- abaixou a cabeça -- Eu estava envergonhado, arrependido, perdido... Eu quis sair e quando o fiz nunca mais voltei; somente agora. -- olhou para a mãe e para a irmã -- Meu filho tem treze anos e no mês passado ele chegou em casa todo machucado e me disse: “-- Papai, levei uma surra no colégio porque sou gay!”. Eu fiquei desesperado e perguntei a ele como poderia saber disso sendo tão jovem. -- pausou para se controlar -- Ele respondeu dizendo que certas coisas a gente simplesmente sabe...
--Eu também não sabia o que fazer naquela época... -- Guilherme desabafou -- Eu só... -- olhou para Henrique -- Você nunca me ajudou quando te pedi uma força! -- reclamou
--Não vou sustentar suas loucuras. Todos nós tivemos as mesmas chances e você não estudou e levou a vida a sério porque não quis!
--Você levou tudo a sério e teu filho é viado! -- respondeu provocando
Henrique pegou Guilherme pela gola da camisa. -- Repete isso que eu te quebro a cara, miserável!! -- gritou
--Pelo amor de Deus, gente! -- Ivo separou os dois -- Vocês perderam a noção de tudo é??
--Guilherme, cala essa boca porque você tem um casal de filhos e eles vão crescer ainda! -- a enfermeira disse -- Não sabe o dia de amanhã!
--Tá me rogando praga, Juliana?
--Ela tá só dizendo pra você não cuspir pro alto, idiota! -- Ivo respondeu
--Chega disso aqui! -- Tamiko interferiu -- Não foi pra ouvir essas coisas que os chamei pra conversarmos todos juntos. Eu queria pedir perdão a Juliana e queria que fizessem o mesmo. E queria pedir perdão a vocês! Mas nem por toda culpa que sinto vou admitir cenas como essas! Posso estar morrendo mais ainda sou mãe de vocês e me devem respeito! -- falou do modo mais enérgico que suas forças lhe permitiam. Os filhos abaixaram a cabeça
--Mãe, não vamos estender essa conversa. -- Juliana olhou para ela -- Não conseguiremos consertar tantos anos em poucas horas, mas queria que soubesse que pra mim já passou. -- estava sendo sincera -- Por muito tempo eu sofri demais e guardei mágoas a perder as contas. Só que eu não quero mais isso e nem desejo isso pra senhora. -- beijou a mão dela -- Não se preocupe comigo! Sou uma mulher adulta, madura e consciente. Não temo pelo julgamento dos outros e evito, de minha parte, julgar quem quer que seja. Ficou no passado, mãe. Tem minha palavra!
Tamiko chorava com mais emoção.
--Perdoe, Juliana. Sei que não foi à toa que Deus me deu um filho que sabe como você se sente. Ele queria que eu aprendesse. -- Henrique desabafou chorando -- Se eu pudesse apagar a violência contra você cortando minha mão fora, juro que faria isso!
--Faça diferente com seu filho! Se ficar do lado dele, será como se me pedisse perdão mil vezes! -- a japonesa respondeu olhando para ele
--Eu também peço perdão pela minha eterna covardia! -- Ivo confessou -- E não acho que você seja mau exemplo pra minha filha. Cada vez mais vejo como fui imbecil. -- olhou para a mãe -- Também a perdôo! -- chorava -- E ao papai...
--Eu também, mãe! -- Henrique disse
--Eu... -- Guilherme lutava para não chorar -- Não entendo porque estão dizendo essas coisas porque nada vai mudar. -- pausou -- E eu não tenho o que dizer. Não odeio a senhora, mãe. Não odiava o papai também... -- olhou para Juliana -- E nem tenho o que te dizer. O que está feito, está feito!
--Peça perdão a ela, Guilherme! -- Tamiko ordenou
--Pra pedir perdão é necessário ter vontade!! -- ele retrucou
--E você não se arrepende? -- Ivo perguntou com raiva -- Eu não acredito que não sinta nada! Será que sua vida é uma coisa tão vazia que você não tem mais sentimentos?
--Eu me arrependo, porr*! -- gritou -- Mas do que adianta?? Muda o que???
--Não seja orgulhoso, filho! Não siga esse exemplo de seus pais. Fomos orgulhosos e de que adiantou?
--E muda o que, pedir perdão agora? -- respondeu controlando os sentimentos -- Papai está morto, a senhora diz que sabe que vai morrer, cada um aqui tem sua própria vida! Nada muda...
--Deixem ele! -- a enfermeira pediu -- Ninguém é obrigado a me dizer nada! Eu já perdoei todos vocês e não faço isso pra me mostrar superior, mas porque o perdão é uma dádiva pra quem o recebe e uma necessidade pra quem doa. Não quero mais lixo no meu coração! Nunca mais!
Tamiko não resistiu mais e desabafou todas as suas tristezas: -- Nós privamos você de ter um lar, de ter uma família, tudo por culpa de nossa ignorância! O que você não deve ter sofrido, meu Deus? Pelo que não deve ter passado? Você era só uma garota... E confiava em mim e eu te traí! -- olhou para a filha chorando -- Eu nunca esqueci o dia em que foi embora, levando aquela mochila e a mala velha do seu avô... Não sabe o quanto eu desejei tomá-la nos braços e dizer: “--Volte, meu amor! Você é minha filha, nunca deixará de ser! Mamãe vai proteger você das injustiças do mundo!” -- chorava e os irmãos da japonesa também -- Por que eu não fiz isso? Por que esperei que a doença minasse minhas forças pra poder ver o que esteve diante de mim o tempo inteiro? -- passou a mão nos olhos -- Quando estive no hospital daquela vez, eu fui horrível com você... -- lembrou -- Eu não estava preparada praquele encontro e me senti mal por estar ali, precisando dos cuidados de quem abandonei... Enquanto isso as outras pacientes te adoravam... -- lamentava -- E eu pensei em te dizer tantas coisas quando você viesse aqui... Mal tenho forças pra dizer essas poucas palavras que quase não vêm...
--Nem tudo precisa ser dito, mãe. -- respondeu emocionada -- Mas sentido! -- reclinou-se sobre a cama e abraçou a mulher mais velha com delicadeza e intensidade. Ivo e Henrique fizeram o mesmo. Choravam com muito sentimento
Relutantemente, Guilherme se uniu aos irmãos e pediu perdão a Juliana com o rosto banhado em lágrimas.
15:20h. 09 de janeiro de 2005, Pelas ruas de Botafogo, Rio de Janeiro
Lady não viajou de volta a Porciúncula, pois estava concentrada nas atividades de sua iniciação científica. Novamente suas notas haviam sido ruins e ela corria o risco de perder a bolsa. Tinha que ficar e produzir.
No final de semana resolveu circular pelas ruas na esperança de encontrar algum homem recém saído de uma crise. “E que tenha vindo de longe!” -- pensava esperançosa
Andando solta e sem rumo, passou na porta de um salão de cabeleireiro quando de repente ouviu um chamado: -- Ei, você, poderosa! -- ouviu um homem com voz efeminada -- Ui, boba!
--Eu?! -- olhou na direção do som. Era um homem falando em um telão
--Diz pra mim, fofa, o que é você quer? -- falava cheio de gestos e frescuras
--Ah, meu filho, -- andou até o telão -- eu queria um marido urgentemente! Meu vestido tá nas últimas! -- reclamou
--Não foi à toa que você parou aqui, meu amorrrr! Esse é o lugar certo! -- piscou
--Como assim? Isso é só um salão de beleza! -- respondeu -- "Eles pensam que enganam a gente com esses truquezinhos de marketing!” -- pensou fazendo um bico
--Você quer chamar a atenção dos homens? Então tem que se produzir e ficar poderosa! UAUAUAUAUAUAU!! -- gritou
--Está querendo dizer que eu sou feia?? -- pôs as mãos na cintura
--E quem disse que você é feia, paixão? Pára com isso, nêga! -- pôs as mãos na cintura também -- Ai, ai, ai, poderosa! -- bateu com os pés no chão como se sapateasse -- O que eu quero dizer é que se já é linda do jeito que é, -- abriu um enorme sorriso -- depois da nossa massagem Stramble Power Beauty Hair, um corte com o melhor cabeleireiro do planeta e uma escova Mega Torn você vai ficar perfeita!!! -- gesticulava afetadamente -- Você vai sair daqui desse salão e os homens se jogarão aos seus pés, UAUAUAUAU!!!! -- gritou
--Ah, mas isso me interessa! -- exclamou empolgada
--Boba, entra aqui, honey! -- fez sinal para que entrasse -- Este é o mega salão Collossus Coiffer! Vou te colocar nas mãos de Lucy, o melhor cabeleireiro do pla-ne-ta!! Você vai sair daqui mais linda e mais gostosa!
--E eu vou conferir isso aí! -- entrou resoluta
Dentro do salão dirigiu-se imediatamente à recepcionista: -- Boa tarde, eu queria marcar uma hora com o cabeleireiro Lucy! Quero fazer o tal do Power com corte e Mega Torn! -- pediu empolgada
--A senhora marcou hora? -- perguntou com cara de desdém
--Não... -- respondeu reticente -- Será que poderia ver a agenda dele pra hoje?
--Um minutinho! -- levantou-se e entrou em um corredor estreito. Da recepção não era possível ver o interior do salão. Pouco depois a mulher voltou -- A senhora deu sorte porque vagou uma brechinha na agenda de Lucy! -- sorriu -- Pode entrar! É no final do corredor.
Lady agradeceu e foi. Chegando lá, deu de cara com o mesmo homem do telão e ninguém mais.
--Ué? Você é o Lucy? -- olhou para ele surpresa -- E cadê todo mundo? -- ficou decepcionada ao ver que o salão era minúsculo -- Esse salão é a maior enganação, viu? Mega salão, é mole? -- afirmou decepcionada
--Que nada, boba, não diga isso!! -- Lucy levantou-se de um pulo -- Nunca te disseram que os melhores perfumes se escondem nos menores frascos? -- abraçou Lady e a conduziu até o lavatório -- Você deu foi sorte porque toooodas as minhas clientes saíram de casa ao mesmo tempo e engarrafaram o trânsito da cidade, -- fez com que ela se sentasse -- aí deu nisso: sou todinho seu! -- abriu os braços sorridente
--Humpf! -- fez um bico -- Eu queria saber daquela sua história de Power com corte e Mega Torn, mas depois desse fiasco aqui...
--Fiasco??? Fiasco??? -- sapateou no chão -- Pára, pára, pára, pá-ra!!! -- parou e levantou as mãos -- Meu amor, o Collossus Coiffer é um salão minimalista que prima por competência, técnica e estilo! -- olhou para ela -- Você está diante de Lucy, o melhor cabeleireiro do pla-ne-ta, aquele que não te faz falseta, o único que pode botar fogo na tua...
--Êpa!! -- Lady arregalou os olhos
--Na tua vida!! -- completou a frase -- Outras rimas, tolinha, não me interessam! -- posicionou-se no lavatório e puxou Lady para que se reclinasse e lavasse o cabelo -- Eu sou formado pelas melhores escolas de coiffers do mundo! -- abriu a torneira do chuveirinho -- Você não está nas mãos de qualquer um!
“Vai que ele é bom mesmo?” -- pensou esperançosa -- Eu queria ficar lindamente linda! -- falou enquanto ele lavava seus cabelos -- Queria chamar a atenção de todos os homens e arrumar um marido pra casar! O quanto antes!
--Fique tranqüila, paixão, coisa louca!!! -- gritou -- Vou te deixar maravilhosa!! Duvido que quando você sair daqui, todos os homens não estejam com os olhos voltados pra você!! -- falou cheio de afetação -- Eu vou mudar tudo em tua vida, amorrrr!!
***
Ed e Isa estavam sentadas na cama. Era madrugada alta, haviam acabado de fazer amor e a ruiva mantinha as pernas enroscadas ao redor da cintura da mecânica enquanto acariciava seus braços. A morena acariciava suas costas e pernas.
--Você vai acabar me matando de tanto me possuir desse jeito. Fico louca com você! -- beijou-a
--Eu te acho a melhor amante que já tive, a mulher mais gostosa do mundo! -- beijou-a e mordeu a orelha dela -- Adoro esses joguinhos que você inventa... -- beijou-a novamente
--Hum, você me acha tudo isso? -- perguntou fazendo dengo
--Não acho, tenho certeza! -- beijou-a
--Amor, tem uma coisa que não te contei ainda! É que foi tanta correria no final do ano e depois a morte de dona Lourdes... -- pausou -- Conheci Diva Bustamanti! Ela deu palestra pra gente!
--Aquela coreógrafa do momento? Caraca, que maneiro! -- não deixavam de se acariciar mutuamente -- E aí? Conversou com ela?
--Conversamos e você nem imagina! -- respondeu animada -- Ela sabia um monte de coisas a meu respeito!
--Como assim? -- perguntou intrigada
--Ela foi ver o último espetáculo da Ana e me viu dançando e depois tirando fotos com o casal presidencial. Também sabia de minhas coreografias junto a Companhia de Dança da Escola... Eu fiquei toda prosa! -- sorriu empolgada
--Ih, eu, hein? -- respondeu contrariada -- Essa mulher quer o que? Ela tá é de olho em você! -- fez cara feia
--Ed, não seja maldosa! -- deu um tapinha no ombro dela -- Ela só gostou do meu estilo de dança!
--Ela gostou do seu estilo de dança, mas também tá de olho na tua... faceta artística, como diria sua mãe! -- continuava de cara feia
A bailarina riu. -- Hum... -- esfregou o nariz no da mecânica -- Está com ciúmes? E se eu te disser que ela me deu o cartão de visitas, pediu pra gente manter contato e me avisou que em setembro volta pro Brasil e quer me avaliar pra fazer parte de sua companhia de dança? -- olhava atentamente para Seyyed -- "Quero ver se ela se importa!” -- pensava -- "Às vezes acho que ela se sente em dúvida em relação a nós."
A morena ficou contrariada. -- Claro que tenho ciúmes! A maior e melhor coreógrafa do momento te dando oportunidades e ao mesmo tempo te dando mole! É claro que eu tô morrendo de ciúmes, e você ainda fica toda derretida só em falar o nome dela! -- tentou se levantar da cama.
--Não sai da cama! -- pediu com delicadeza -- Por favor! -- beijou-a -- Eu não fico toda derretida, sabe que não está sendo justa em dizer isso!
--Eu acho é que a gente tem que ter uma conversa séria! -- falou com uma expressão tensa
--Sobre o que? -- envolveu os braços no pescoço dela e aguardou a resposta com apreensão
--Sobre nós! Nossa vida daqui por diante. -- passou a mão nos cabelos da ruiva -- Tenho pensado muito...
--Posso notar isso...
--O que vai fazer agora que se formou? O que quer pra você? O convite de uma mulher como Diva Bustamanti é tudo o que você queria, não é? -- olhava intensamente para a outra
--Há alguns anos atrás era o que eu mais queria...
--E hoje? Isa, eu não tenho condições de competir com essa mulher! Quero que seja honesta comigo! O que vai fazer? O que quer fazer? -- perguntava com medo -- "Será que ela pensa em me deixar?” -- pensava
--No curto prazo, vou continuar à toa até o carnaval. Só vou fazer meus alongamentos diários e curtir você! -- brincou e beijou-a
--Eu tô falando sério, garota... -- Isa mordia o lábio inferior da morena -- Não me desconcentra... -- segurou o rosto dela -- Você sabe que dei meus vacilos, mas é contigo que quero ficar! Só que preciso saber o que quer!
--Você!
--E o que mais? E quanto ao seu trabalho?
Isa ficou mexendo no cordão da morena e olhando para o pingente. -- Não vou negar que quando Diva me falou que buscava novos talentos eu fui às nuvens, mas depois pensei em nós... -- pausou -- Eu gostaria muito de ir pro exterior, porque aqui no Brasil eu nunca vou conseguir o que quero... -- olhou para Ed -- mas sei que você não ficaria cinco anos fora do país comigo...
--Sabe que não posso, não poderia... -- respondeu com tristeza -- Mas jamais gostaria de ser um obstáculo na sua vida...
--Você não é... -- beijou-a -- Eu vou continuar com minhas aulas pra adultos, vou continuar buscando o que fazer, só que vou dar mais espaço ao contemporâneo e vamos ver o que vai acontecer.
--Não vai fazer uma audição pra dançar com alguma companhia estrangeira? Não vai aceitar a proposta da Diva?
--Nosso casamento resistiria a uma separação de quatro ou cinco anos, Ed? -- perguntou à queima roupa olhando nos olhos da morena -- A gente poderia se falar todo dia, poderia se ver nas férias, mas o dia a dia não existiria mais. Nosso casamento resistiria a isso?
--Pergunta como se já dissesse que a resposta é não! -- respondeu chateada
--Me dá sua resposta?
--Eu não sei... Mas sei que um casamento pode não se sustentar mesmo com a presença diária e constante... -- respirou fundo -- Vamos fazer assim: -- segurou as mãos dela --quero que seja sempre sincera e transparente comigo e consigo mesma. Se seu coração te mandar fazer um teste pra dançar no exterior, faça! -- olhou no fundo dos olhos dela -- Faça o que achar que é o melhor, e aí a gente se vira pra fazer dar certo! Eu tô comprometida de verdade com você e farei o possível pra que nosso casamento seja duradouro!
--Prometa que não vai me deixar! -- pediu insegura
--Eu não quero te deixar! -- respondeu convicta
A ruiva puxou Seyyed para um abraço apertado. -- Eu não quero perder você! -- fechou os olhos
--Não vai perder! -- pausou -- Pra dizer a verdade, -- olhou para a outra -- a partir de trinta de janeiro até o fim do carnaval você me terá todinha sua! -- sorriu. Queria mudar de assunto
--Vai tirar férias?? -- perguntou animada
--Vou! Prepare-se pois dentro em breve nós vamos viajar! -- a ruiva cobriu seu rosto com beijinhos -- Nossa, eu adoro seu jeito de receber boas notícias... -- riu
--Pra onde vamos?? -- quase pulava
--Fortaleza e arredores com Jericoacoara em destaque. Ou seja, praia, natureza, sol, eu... tudo o que você queria! -- sorriu
--Ai, Ed, que máximo!!! -- beijou-a
--Eu quero fugir com você! -- abraçou-a -- E seremos só você e eu!
--E você pode fazer isso? Eu pergunto pelo dinheiro, pelo tempo fora e... -- foi calada com um beijo
--Esquece tudo isso. Seremos só você e eu, -- deitou a ambas na cama -- e fim! -- começou a beijá-la deslizando as mãos por seu corpo
--Ai, Ed... -- sorria
***
Renan fechava a oficina quando uma voz conhecida o saúda. -- Cheguei a tempo de te pegar aqui! É bão!
--Olá, seu Marciano. -- olhou para ele com surpresa -- A que devo? -- sorriu
--Eu precisava ter um dedinho de prosa contigo, garoto. -- ajeitou o cinto
--Por favor, preciso de dois segundos pra acabar de puxar as portas. Será que poderia me esperar no escritório? -- pediu -- Tem água, café e biscoitos, pode se servir à vontade. Não demoro! -- o homem assim o fez
Após trancar tudo, Renan foi até a sala e sentou-se de frente para Marciano. -- E então? Sei que o senhor não é homem de enrolação e que gosta de ir direto ao ponto. Sobre o que gostaria de conversar?
Ele tirou o chapéu e olhou para o mecânico seriamente. -- Deixa eu te falar que tua esposa criou um bafafá com as Fazendas Calabreza por causa de um tal de benzeno, e num sei o que ela fez que a fofoca ganhou destaque e agora os homens dos órgãos ambientais tão tudo de olho. Ontem mesmo fiquei sabendo que tem duas ONGs e até o MST se metendo nessa conversa toda...
--Ela fez o que deveria fazer. E eu apóio! -- respondeu igualmente sério -- "Aonde será que ele quer chegar com essa conversa?” -- pensou desconfiado
--Eu nunca tive bom relacionamento com os donos das Fazendas Calabreza. -- desabafou -- Eles já me deram dor de cabeça e aporrinhação que num dei conta; pra mim, são tudo inimigo! -- pausou -- Soube que eles vão ter muito trabalho e que vão gastar um dinheiro bão com pagamento de multa! -- sorriu maquiavélico -- Disso eu gostei demais da conta!
Renan ficou calado por ainda não entender qual seria o objetivo daquela visita.
--Mas, em tudo, tem um efeito colateral... -- mordeu os lábios -- Eu também usava o mesmo produto que eles, aquele do benzeno, e agora tô numa correria desembestada pra me desfazer dos galão que tenho e comprar o outro produto mais caro, antes que as atenções se voltem pras minhas fazendas. -- olhou bem para o rapaz -- Quando meu contador me mostrou o tamanho do prejuízo, chega doeu!
--Imagino! Mas entendo também que um homem correto como o senhor não vai querer que seus funcionários continuem correndo risco de vida lidando com um produto altamente cancerígeno. -- retribuiu o olhar -- Antes o senhor não sabia das conseqüências do tal produto, agora que sabe não pode continuar sendo consumidor desse veneno maldito!
--É... -- respirou fundo -- agora que sei dos perigos tenho que me adequar, não é mesmo? -- perguntou de cara feia e gastou uns segundos calado até que soltou a bomba: -- Sabia que fiquei sabendo que tem gente de olho em pegar tua mulher?
O mecânico sentiu um frio na espinha. -- Não me surpreendo. -- tentava não demonstrar medo
--Olha, Renan... -- passou a mão no bigode -- eu devo um favor a você que dinheiro nenhum paga! Você deu emprego pro meu filho mais novo e pro meu especial... isso mudou a vida dos dois. E da minha mulher, que vivia consumida por causa das maluquice de um e da tristeza do outro. -- pausou -- O mais novo nunca se interessou por nada e agora vejo ele animado aprendendo a consertar carro antigo. E o especial... o menino agora cuida do teu estoque de peça e ainda ajuda nas coisas de internet! Hoje em dia ele é feliz e não se sente mais um inútil! -- bateu no peito -- Isso é orgulho pra um pai e foi por essas coisas que tive a consideração de vir aqui ter contigo e te avisar que tua mulher tem que sumir por um tempo. Ela tem que ficar fora da cidade até o ano acabar! Por aí!
--O que??? – perguntou em choque
--Eu garanto a proteção da tua casa, da oficina e até da casa dos teus sogros, mas a dela já num posso... -- levantou-se -- E diga pra ela se aventurar por outros assuntos, porque de minha parte não gostei do prejuízo que tomei com essa fofoca toda! -- colocou o chapéu na cabeça -- Ela acabou me ajudando quando pegou meus inimigo, mas é bom parar por aí! Se ela não ficar esperta, quando é fé, sabe-se lá o que podem fazer...
Renan sentia-se sem chão. Não conseguia sequer se levantar da cadeira.
--Ouve meu conselho, garoto! Manda ela ir pro Rio, mas num deixa ficar nem com tua mãe e nem com tua irmã. -- saudou-o com a cabeça -- Seja discreto em relação ao que lhe disse e passar bem! -- retirou-se
O mecânico ficou parado sem saber o que fazer.
***
--E foi isso. -- Renan falava nervoso -- Esse foi o recado que seu Marciano me deu hoje. -- olhava para todos -- Ele me pediu pra ser discreto mas vocês são a família e eu achei que deveriam saber. -- olhou para Tatiana -- Você vai ter que sumir daqui pelo menos até dezembro... -- disse com tristeza
--Você tá vendo no que deu isso? Tá vendo no que deu? -- Claudio falava alto olhando para a filha com cara feia -- Agora vai ter que ir embora da sua casa por causa dessa tua obstinação por justiça! Menina custosa! Se não fosse por teu marido, você agora podia tá morta! -- pausou -- Não quero ter que ver cadáver de filha, hein, Tatiana! Eu não quero isso e nem tua mãe! -- estava muito alterado
--Ah, meu Deus! -- Clarice colocou a mão no peito -- Minha filha correndo perigo de vida, meu Pai... -- quase chorava
Tatiana permanecia calada. Em sua cabeça mil coisas se passavam.
--Calma, gente! Eu não vim aqui fazer tumulto, queria apenas deixar todo mundo prevenido. -- Renan se manifestou -- Esse assunto fica em segredo! -- olhou para as cunhadas -- Por favor, não comentem nem com seus namorados!
--Claro que não, uai! -- Tânia protestou -- Eu até dou uma sugestão melhor: Tatiana podia passar uns tempos em Campina Grande com o pessoal da finada Patrícia e depois sim, ir pro Rio. Se for agora é óbvio demais!
--A idéia é boa, Tati. -- Tamires concordou -- O Rio é um esconderijo muito óbvio pra você e Campina Grande é bem longe daqui! Além do mais o pessoal da família da finada te adora!
--Eu sou obrigado a concordar com isso, meu amor! -- Renan falou desanimado
--É... acho que posso ficar na casa de Pedro. Vou conversar com ele. -- Tatiana considerou a possibilidade
--E pelo amor de Deus, larga a vida desse povo porque você já fez o suficiente. E agora não tá proibido de usar o tal do veneno? Tá de bom tamanho! -- Clarice dizia agoniada
--Eu vou apenas falar com a minha mãe e com Ed, porque pode ser que alguém apareça por lá e venha de conversa fiada. -- olhou para Tatiana -- Avisa Priscila também, porque vocês dividiram apartamento por muito tempo e pode ser que alguém vá atrás dela pra bispar alguma coisa.
--E a delegada, Renan? -- Tamires perguntou -- Não era bom conversar com ela também?
--Eu vou pedir pra Ed fazer isso, mas não conta muito com Suzana porque desde que foi aposentada ela foi bastante anulada. Sabia que perdeu até o porte de armas?
--Por que as pessoas que fazem o que é o certo se dão mal? -- Clarice perguntou revoltada -- Quando isso vai mudar nesse país?
--Meu Deus, é uma aporrinhação! -- Tatiana reclamou com as mãos na cabeça
--Vê se isso te serve de lição! -- Claudio ralhou furioso
--Eu não me arrependo, papai! -- olhou para ele -- Se o preço a pagar por ter livrado tanta gente do contato com um produto perigoso foi esse, eu pago sem pensar duas vezes! Fiz a diferença e disso muito me orgulho!
--Deixe de ser uma sonhadora utópica! -- ele respondeu chateado -- Você não vai mudar o mundo!
--Por favor, filha! -- Clarice pediu aflita -- Olha pra você: uma jovem com tanto potencial, agora está desempregada e correndo risco de vida! E ainda vai passar tempo longe de seu marido...
--Eu não me arrependo! -- repetiu convicta -- Não seria feliz tendo uma vida morna!
--E é feliz assim? -- Claudio gritou -- Fugindo como se fosse uma criminosa?
--Eu não me arrependo! -- respondeu em voz alta -- E não quero ser julgada por ninguém aqui! -- olhou para todos -- Eu fiz o que fiz e me sinto como quem cumpre um dever! Se o preço é esse, paciência! Mas eu não podia dormir tranqüila sabendo que gente pobre e inocente era envenenada dia a dia por causa da ganância dos que não respeitam a vida humana! -- pausou -- Essa sou eu, gostem ou não! -- saiu da casa dos pais apressada
--Eu vou atrás dela! -- Renan disse -- Sem desespero, gente! Vamos ficar alertas e confiar em Deus. -- foi embora
--Mas que droga! -- Claudio deu um soco na mesa -- Que diacho de menina custosa!
***
Tatiana arrumava suas coisas. Levaria duas malas pequenas e uma mochila. Renan sentia saudades por antecipação.
--Por favor, Tati, se cuida! Escreve e-mail pra mim e quando me ligar nunca diga onde está! E pelo amor de Deus, nunca mais se meta com essa gente! -- estava com medo
--Vai ficar tudo bem! -- respondeu com tranqüilidade ao olhar para ele -- Queria apenas saber se ficar sem contato diário comigo vai ser suficiente pra te fazer procurar por outra. -- esperava uma resposta sincera
--Não se preocupe com isso! Nunca fui namorador, nem quando solteiro. -- ele respondeu -- É mais fácil que você se interesse por outro homem... -- abaixou a cabeça -- Esse tal de Pedro...
--Hum, claro que não! -- sorriu e beijou-o -- Não troco meu pretinho por ninguém! --voltou a arrumar as bagagens
--Quando essas coisas vão mudar, hein? -- fez cara feia -- Você merecia ganhar um prêmio e não passar por uma dessas!
--Ainda somos pessoas iludidas, meu amor! Ainda nos deixamos impressionar pelo que o dinheiro pode pagar! Ainda nos utilizamos da lei da força pra impor nosso ponto de vista e nossas verdades, mas isso vai mudar! Não será hoje e nem amanhã, porque Deus não trabalha aos saltos, mas nas transformações graduais. -- olhou para ele -- Jesus nos prometeu que haverá um tempo em que a Justiça e a Paz se abraçarão! Eu confio nessa promessa e de minha parte tento lançar as sementes de minha pequena contribuição pra que esse dia chegue o mais rápido! -- emocionou-se -- A vida não pode ser uma coisa morna, Renan! Ela tem que ter calor, tem que ter sentido! Eu não queria estar passando por isso, mas não me arrependo! Sei que forcei uma mudança necessária e não tem preço que pague isso!
O mecânico foi até ela e ficou olhando fixamente em seus olhos. -- Eu te amo, Tatiana Queiroz dos Santos! E não canso de me orgulhar de ser seu marido! -- uma lágrima rolou-lhe pelo rosto -- Vou morrer de saudades e trabalhar como louco pra não ter tempo nem de pensar... -- passou a mão nos olhos -- Tomara que esse ano acabe logo!
A jornalista puxou o marido pelas mãos e abraçou-o com força. Ela sabia que o perigo era real e desde o começo conhecia as conseqüências daquilo que se propôs a fazer. Talvez tivesse subestimado algumas reações, mas tinha fé e muita certeza de que Deus estaria a seu lado. Sabia que muitas coisas acontecem e tudo podia mudar.
***
Sabrina andava pelo shopping quando deu de cara com um casal exótico que saía do cinema.
--Oi, amiga!! -- a moça a cumprimentou empolgada -- E agora? Faltam quantos cumes pra terminar?? Perdeu mais dedos ou continua com oito? -- perguntou preocupada
--É, desculpe, mas... nós nos conhecemos? -- perguntou desconfiada
--Não lembra de mim, amiga? Lady Dy, a amigona da Priscila!
--Lady??? -- perguntou em estado de choque -- Tá diferente... -- respondeu sem graça
Lady estava com a cabeça raspada pelos lados e uma esquisita faixa central de cabelo pintado de rosa mesclado com o preto natural. Vestia-se toda de preto, usando calça de couro, botas e uma camisa baby look com a imagem de uma imensa caveira. O namorado era um rapaz de sua idade, cheio de piercings e tatuagens, ostentando um pesadíssimo visual.
--Gostou do meu novo visual? -- passou a mão nos cabelos -- Fui no Lucy, o melhor cabeleireiro do planeta e ele me produziu assim!
--Basta saber de que planeta... -- resmungou
--Acredita que desde que passei por essa transformação todo mundo me olha nas ruas? -- comentou excitada
--E por que será, não? -- perguntou sorrindo
--E eu logo arrumei namorado! -- olhou para o rapaz -- Esse é Salatiel, meu namorado e noivo! -- apresentou-o
--Tudo bem? -- cumprimentou ainda em choque
--Eu nunca tô bem! -- respondeu seco
--Ah! Maravilha, né? -- não sabia o que dizer
--Mas e aí, amiga? Conta pra gente! Faltam quantos cumes? -- perguntou novamente
--Sete. Sendo que nesse ano pretendo fazer mais dois.
--Nossa, que bom! -- olhou para o namorado -- Sabia que ela já esteve nas sete maiores montanhas do mundo? -- ele olhou para Sabrina e nada respondeu
--E Priscila e aquela outra... Lila? Como vão? -- perguntou
--Priscila conseguiu ingressar na tal da especialização mas o negócio só começa depois do carnaval, aí ela decidiu tirar um merecido descanso depois de muito tempo sem férias. E Lila tá em Porto Alegre. Deve voltar depois do carnaval também.
--Você tem dois dedos a menos? -- Salatiel perguntou com voz macabra
--Sim, por que? -- respondeu desconfiada
--Nos pés? -- olhava para as mãos dela
--Isso. -- continuava sem entendê-lo
--E o que teria feito com eles? -- olhou para ela
--Eu, nada! -- respondeu enfática -- Estavam gangrenados, foram jogados fora!
--Se perder mais algum, -- sorriu diabolicamente -- me dê!
--Ah, tá... -- respondeu horrorizada
--Tiel gosta de colecionar coisas! -- Lady respondeu justificando o namorado -- Coleciona animais mortos e empalha. Sabia que ele fez um curso de embalsamamento?
--É um passatempo muito saudável... -- respondeu com medo deles -- Gente, eu vou indo porque ainda passo na academia hoje. -- sorriu sem graça -- Tchau! -- foi embora quase correndo
--Sabrina é uma personalidade, amor! -- Lady disse olhando para ele quando voltaram a andar -- Ela já foi entrevistada na TV e atualmente é conhecida por suas atividades ecológicas ligadas à questão do lixo, planejamento urbano, preservação das reservas ecológicas nacionais e acesso a elas por parte da população. -- sorriu -- Que achou dela?
--Gostei não! É uma pessoa muito esquisita! -- fez um bico -- Mas eu quero um dedo dela pra minha coleção!
Fim do capítulo
Música do Capítulo:
Lady chora com trecho da música
Meu Mel. Intérprete: Markinhos Moura. Compositores: Fred Leibovitz / Norival Di Paula / Paulinho Rezende / Sam Chouka
Ana e Anselmo no Baile Funk ouvem:
Adaptação de Rap das Armas. Intérpretes: MC Cidinho e Doca. Compositor: sem informações;
Adaptação de Boladona. Intérprete e Compositora: Tati Quebra Barraco;
Adaptação de Dança da Motinha. Intérprete: Vanessinha do Pikatchu. Compositor: sem informações
PS: Todas as músicas cantadas e sem autoria citada são invenções caipirescas
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NovaAqui
Em: 16/06/2024
E d. Lourdes partiu! Partiu em paz. Foi bonito
Tati vai ter que se cuidar para não ir de arrasto para cima
Mãezinha apareceu e Ju acertou os ponteiros com a família
Menina! Eu já tinha começado a ler lá trás quando você me passou a ordem de leitura, mas meu dia a dia é bem corrido. Aproveitei essa folga para ler.
Trabalho, casa, criança, caninos/felinos. É uma correria danada! Tem hora para tudo e não consigo sentar para ler direto. Eu tô consigo ler um capítulo tranquilamente.
Uma história completa eu preciso de me organizar para dar conta. Na minha cabeça é: começou? Tem que terminar
Eu acho a lady chatinha
Acho que Juliana bate todas as outras no assunto gaiatice KKK ela se supera sempre
Se eu tivesse lido na época ficaria ao lado de Camille. Ela é minha preferida para ficar com Ed, mas vamos ver se isso irá acontecer
Ainda apareceu a gostosa da Harley Davidson para tumultuar a já tumultuada cabeça da Ed
Vamos ver como vai ficar
Boa semana para você
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PaudaFome
Em: 08/05/2024
Pontos altos do capítulo morte da dona Lourdes família da Ju e a perseguição à Tati. Chorei e ri. Baile funk...
Solitudine
Em: 20/05/2024
Autora da história
Eu também gosto destes pontos altos. rs
E o baile funk me divertiu de escrever. kkk
Beijos,
Sol
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jake
Em: 24/03/2024
Oie Sol primeiramente gostaria muito de agradecer por responder os comentários abrir um espaço no seu cotidiano e nos responder msm apesar da história já está concluída ,isso não tem preço e demonstra o carinho que vc tem com suas leitoras... Estava aqui lendo a resposta dos meus comentários e notei que meu comentário do cap anterior foi apagado poxa q pena. Mas continuo sob os encantos de Maya. Obrigada .
Solitudine
Em: 24/03/2024
Autora da história
Olá querida!
Não me agradeça, eu sempre vou responder ainda que demore. Seria muito indelicado e grosseiro deixá-las sem retorno, sem contar que eu adoro quando vocês me procuram para um proseado. rs
Esse trem de apagar comentário é a única coisa nesse site que eu não gosto! Não consigo entender porque e como alguém encontra tempo de ficar investigando os contos para escolher comentário para apagar. É algo realmente irritante! Já perdi as contas de quantos comentários foram apagados. Não sei se fazem com as outras autoras e, se fazem, se elas não se incomodam mas eu fico chateada porque são comentários respondidos. Penso que a administração do site deveria respeitar ao menos isso.
O Lettera abre um espaço de fala gratuito e com grande visibilidade para nós. Quanto a isso estou, e sempre fui, imensamente grata. Mas isso de apagar comentário respondido é um trem sem base nenhuma!!!
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 24/03/2024
E só de raiva vou repor até a mais. Huahuahua
Solitudine
Em: 24/03/2024
Autora da história
kkkkkkkk Obrigada!
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jake
Em: 24/03/2024
Olá autora tdo bem?
Bom esse como todos os cap.sempre nos leva do riso ao choro e mtos ensinamentos e reflexões ...
Só tenho a agradecer.
PS: Priscila merecia ter uns momentos de paz longe de Lady e Lila .Adoro Cami ,acho que ela ama Fátima só q n percebeu.
Parabéns Sol e obrigada por nos presentear com sua escrita.
Solitudine
Em: 24/03/2024
Autora da história
Olá querida!
Que bom que você se entregue de uma forma que seus sentimentos acompanhem o que está lendo! Não me agradeça, eu devo é sempre lhe retribuir!
Priscila não vê a hora de se livrar de Lady e Lila. Especialmente quanto tem berreiro de um lado e "aum" de outro. rs
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 07/10/2023
Pode considerar que Maya agora tá perfeita e nem precisa me beijar por isso... mas eu querooo huahuahua
Solitudine
Em: 11/11/2023
Autora da história
kkkkk Quem sou eu para contrariar?
Beijos,
Sol
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Femines666
Em: 10/03/2023
Esse baile funk foi impagável! kkkkkkk Ana é vacilona mas me diverte horrores!
Resposta do autor:
kkkkkkkk Ambos (baile e Ana) também me divertiram! rs
Beijos,
Sol
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Alexape
Em: 10/12/2022
Esses capítulos me matam! A gente numa hora chora e depois dá risada. Gargalhei com o baile funk!
Resposta do autor:
kkkkkk
Eu te confesso que também me diverti muito naquele baile!
E a ideia é essa mesma, ou seja, promover uma montanha russa de emoções para não ficar maçante. Que bom que está dando certo com você!
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 13/09/2022
Ri de chorar com o baile funk. E me emocionei com dona Lourdes, a Ju... a vem você botando tensão no meu casamento e Lady com suas doideira hahaha Taí... queria te conhecer. Adorando isso aqui! Puta merda!
Resposta do autor:
O baile funk também me divertiu! kkk
Dona Lourdes foi uma gracinha na vida de Juliana e Suzana.
Eu não coloquei tensão no seu casamento, uai. Você que fez! rs
Queria me conhecer? Quem sabe um dia! A vida é tão imprevisível...
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 13/09/2022
Tu me faz rir com a Mari que outra despirocada aí me faz rir com a família da ruiva, depois rir de chorar com Priscila...depois se mete na história de papinho com Cami e ainda põe uma diva besta pra ciscar no meu terreiro?? Hahaha cararra essa história é muito FODA!!!
Resposta do autor:
Mariângela tinha seus lances. rs E a família da Isa era uma confusão só!
Priscila também passou cada coisa, que Deus a defenda! Muito trem doido na vida dela.
A Solitudine entrou no conto, fazer o que? rs
Você ficou com medo da Diva? Tenha não. Seyyed se garante, viu, fi? Mas às vezes falha... kkk
Beijos,
Sol
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Samira Haddad
Em: 23/04/2020
Esses namorados de Lady... Só merda. Parece mesma a tua musa inspiratriz de Lady
Resposta do autor:
Não foi uma musa mas um pequeno conjunto que foi conjugado em uma pessoa. Porém, como sabe, uma foi a principal influência.
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Gabi2020
Em: 20/04/2020
Olá Sol!
A dona Olga e a Mari estavam fazendo um lanche de atum? Deu água no boca!
Camille com ciúmes da caipira... Kkkkk... Essa loira viu?
A conversa das duas no falecido MSN eram hilárias.
A família da Isa lembra muitas famílias por aí, ô gente barraqueira.
Lady bichinha, assim você me mata de rir... Kkkkkk...Esse visual punk, devia ser bem punk mesmo! Tadinha, ela não tinha personalidade nenhuma e nem via maldade nas pessoas.
Famille bem bonitinhas! Shipei legal né?
Suzaninha deu uma situada na Ed, que a bichinha ficou perdidinha.
A passagem da dona Lourdes foi be bonita, felizmente ela teve um final de vida feliz.
Beijos
Resposta do autor:
Gabinha, eu adoro atum!!!!! Uma vez fiz uma viagem em que comi atum ao vivo tão bem preparado, que Ave Maria!
Atum, pirarucu, piraputanga, pintado, tambaqui, pacu, dourado, salmão, merluza negra... AMO!!!
Camille disputava com a caipira o tempo todo! kkk
A família de Isabela certamente se baseia em gente que existe, Gabinha! kkk
Lady é figuraça!
Suzana e Seyyed se situaram várias vezes! rs
Beijos!
Sol
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Solitudine Em: 20/06/2024 Autora da história
Olá querida!
Dona Lourdes se foi após ver cada um de seus sonhos atendidos. Até o retorno da mãe de Juliana (da família toda, melhor dizendo) aconteceu, embora ela não tenha visto; mas sentiu.
Tatiana é obstinada por Justiça e não mediu consequências!
Você não gosta da Lady? kkkk Ela teve muitas fãs nesse processo! rs
Juliana tem uma grande vantagem: ela te conquistou!
Esse triângulo Isabela - Seyyed - Camille movimentou as garotas no extinto abcLés! Você é do time da Camille, vamos ver como ficará essa torcida até o final.
Beijos e tudo de bom!
Sol
PS: entendo bem esse trem de vida corrida. Você leu A Escolha de Rute; minha rotina é um tanto pior que a da Camilla, porque não tenho quem me ajude e maama também nunca dá certo com as cuidadoras