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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

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Palavras: 19055
Acessos: 10785   |  Postado em: 12/04/2020

Quarta Temporada - TRANSFORMAÇÕES V

 

 

--E foi assim, Ivone... -- relembrou emocionada -- Eu cheguei em casa entusiasmada, louca pra contar pra dona Lourdes que os pedidos dela foram ouvidos e minha mãe queria finalmente me ver. Suzana já estava de pé e nós corremos pro quarto da velhinha. -- pausou -- Ela tava deitadinha de lado, com um leve sorriso no rosto. Meus anos de enfermagem logo me disseram que só o corpo estava lá; a alma já havia ganhado os espaços...

 

--Foi uma passagem tranqüila e certamente deve ter sido muito bonita. Poucas pessoas têm merecimento e preparo pra passar por isso. Geralmente os processos não são tão serenos...

 

--Ah, mas aquela velhinha era uma pessoa maravilhosa! Caridosa, boazinha, gentil, delicada... -- sorriu -- radical...

 

--Enquanto você falava, eu estava aqui me lembrando de quando me disse que a levou pra viver contigo. -- sorriu também -- Juliana, não canso de dizer que você me dá muito orgulho. Você mudou a vida de Suzana e a de dona Lourdes pra muito melhor!

 

A enfermeira ficou toda prosa. -- Da mesma forma elas mudaram muita coisa na minha vida! -- pausou -- Ai, Ivone, e pensar que não faz muito tempo eu tava aqui reclamando de minhas milhares de celulites, das rugas, do ventre avantajado e das carnes moles... -- suspirou -- Tudo bobagem! A gente tem que se cuidar, claro, mas a beleza e a juventude não são o mais importante!

 

--Certamente não! E eu fico muito feliz com a maneira lúcida e romântica com a qual você aceitou a morte de dona Lourdes. -- balançou a cabeça satisfeita

 

--Morrer faz parte da vida, não é? É só mudar de estação. Um dia, quando for a minha hora, a gente se encontra de novo, se Deus quiser. -- pausou -- Ela foi muito boa com todo mundo, fez tudo o que queria fazer e eu me lembro com alegria de ver a felicidade dela a cada velinha que não precisava mais acender, porque o pedido havia sido atendido. -- mexeu nos enfeites da bolsa -- Sobrou apenas uma velinha e essa eu continuo acendendo...

 

--E qual era o pedido relacionado a essa velinha? -- perguntou

 

--Luz pra iluminar a alma de Gisele. -- olhou para Ivone

 

--E você tem continuado com isso? Tem um simbolismo bonito, Juliana! -- sorriu

 

--Ah, minha filha, mas não se empolga, não, porque todo dia eu deixo a coisa muito clara, viu? -- fez cara feia e falou desaforada -- Vou logo dizendo assim: “Escuta aqui, seu espírito de porco, eu só acendo essa vela em respeito a tua vó porque você não merece! E não vem me perturbar o juízo, não, que te mando pro quinto dos infernos!” -- pausou e cruzou as pernas -- Boto moral na coisa praquela alma perdida não ficar tirando onda por aí! Depois aparece num centro desses aí, fazendo cara de fantasminha camarada, e falando um monte de mentira pro povo! Se bobear vai querer até ditar livro!

 

A psiquiatra riu. -- Ai, Juliana, mas você ainda tem tanta bronca daquela moça... -- balançou a cabeça -- Se quer continuar acendendo a velinha, faça isso, mas não precisa falar coisa alguma, pois Gisele já deve ter captado seu recado. -- pausou -- Mas, me diga, como foi a conversa com sua mãe? Creio que vocês já devam ter conversado, não? -- perguntou curiosa

 

--Olha... -- passou a mão nos cabelos -- foi uma experiência muito, muito marcante! -- pausou -- Depois de toda aquela coisa triste de enterro e tudo mais, eu fui ver minha mãe com Suzana. Revi meus irmãos, conheci meus sobrinhos, minhas cunhadas... E mamãe... nossa, ela parecia uma criança, de tão pequenininha que ficou. -- olhou para as próprias mãos -- Ela pediu pra que apenas os filhos entrássemos em seu quarto e tivemos uma conversa a portas fechadas. Acho que fomos todos muito sinceros, sabe? A gente desabafou o que sentia, falou a verdade, se expôs... Foi uma conversa difícil, tensa em vários momentos, mas era uma coisa necessária. Foi como se todo mundo estivesse exorcizando os próprios demônios, sabe? -- pausou -- No final a gente rodeou a cama de mamãe e se abraçou chorando de emoção... -- a lembrança trouxe lágrimas em seus olhos -- Quando saímos do quarto, dei de cara com Suzana brincando com meus sobrinhos. -- riu -- Com os três que ainda são crianças, quero dizer. -- passou a mão nos olhos

 

--E sua mãe conversou com Suzana?

 

--Conversou! -- sorriu -- E mandou ela cuidar bem de mim... -- pausou -- Suzana ficou cheia de medo no começo, mas depois se tranqüilizou. -- gastou uns segundos calada e disse: -- Mamãe parecia só esperar por me ver e pedir perdão. Ela se foi no dia seguinte.

 

--Sinto muito por essas duas perdas tão próximas uma da outra. -- Ivone disse -- Mas em ambos os casos podemos dizer que foi tudo muito bonito. Sua mãe partiu mais tranqüilizada e leve, sem tanto peso de remorso por conta do passado. -- pausou -- Mas, e você? -- olhou bem para a japonesa -- Conseguiu perdoá-los?

 

--Sim! -- respondeu convicta -- E joguei todo o lixo fora! Não tenho mais mágoa em meu coração, Ivone. -- sorriu -- Engraçado que quando estávamos ali conversando, eu me sentia como a única pessoa sem motivos pra se arrepender ou se envergonhar e isso me deu uma paz tão grande! Eu não os acusei de nada, porque simplesmente não senti necessidade disso! Pra mim, tudo havia ficado sepultado no passado, não havia porque trazer de volta... -- pausou -- Acho que finalmente entendi com a cabeça e com o coração tudo o que você me falou ao longo dos anos de tratamento. E mais que isso, acho que finalmente entendi tudo o que li nas doces palavras de Jesus. -- sorriu -- Estou livre! De verdade, estou livre!

 

--Não sabe como fico feliz em ouvir isso! -- disse com muita sinceridade

 

--Não sabe o quanto eu te devo por isso! -- respondeu da mesma forma

 

--Não me deve. -- respondeu com sinceridade -- Você despertou e isso é um mérito seu! O ser humano permanece ignorando a si mesmo quando não se conscientiza do próprio potencial. Diante dos problemas vividos na nossa trajetória, é necessário que o indivíduo descubra um novo caminho, a verdadeira rota do Eu, para que a pessoa se reconheça e auto conheça a fim de equacionar suas dificuldades.43 Você conseguiu fazer isso, e acabou conhecendo os potenciais que jaziam adormecidos em si mesma.

 

--Foi um longo caminho, Ivone. Eu não teria conseguido sem você! -- respondeu com gratidão

 

--Competia a mim, uma vez que fui brindada com sua confiança, a tarefa de reeducação da sua consciência e não a sua catequização ou conversão a meu modo de pensar. Cada um assume o caminho que quiser após esclarecido, e você tem traçado seu rumo de forma belíssima, mesmo com seus rompantes de impaciência! -- riu brevemente

 

--Vou te ser grata pelo resto da vida!

 

--É o meu trabalho, lembra? -- sorriu

 

--Já deixou de ser trabalho há muito tempo! Você é minha amiga, uma grande amiga, e eu te admiro demais! -- olhou para a outra com carinho -- Você é como se fosse da minha família! -- pausou -- É triste pra mim dizer isso, mas... acho que não preciso mais da terapia. Eu me sinto plena! Não estou sendo soberba, não pense isso, mas me sinto realmente plena!

 

--Esse não é o procedimento mais adequado, mas... -- levantou-se e sorriu abrindo os braços. A enfermeira foi até ela e a abraçou com força -- Acho mesmo que terminei com você.  -- olhou para a mulher mais jovem -- E concordo com o que me disse; você não precisa mais de mim! -- segurou o rosto dela -- Está livre, tranqüila, feliz e plena! E eu estou aqui sentindo saudades por antecipação e morrendo de orgulho de você! -- estava emocionada

 

--Ai, Ivone... -- beijou a testa dela -- Mas não some, a gente pode e deve manter contato, viu? -- pensou e perguntou: -- Você tem vida social, não tem? Come, passeia, bate papo...

 

--Claro, né, menina? -- riu -- Se eu não comesse já teria morrido! E se não tivesse uma vida social o que seria de mim? -- riu de novo

 

--Ah, então a gente pode se ver, passear, jantar... -- sorriu -- Ou almoçar, dependendo das agendas!

 

--Assim espero. -- sorriu também

 

--Aí você me conta tudo da tua vida porque não é de hoje que morro de vontade de te fofocar! Quero saber de teu marido, como é a coisa lá... -- piscou para ela -- Aquela coisa, que você bem sabe! De repente te dou uns conselhos... Mas vê se escuta, viu?

 

A psiquiatra nada respondeu, somente ria. “Ai, meu Deus, será que eu tô preparada pra essa amizade?” -- pensava descontraída

 

 

16:40h. 04 de fevereiro de 2005, Duna do Pôr do Sol, Jericoacoara, Ceará

 

Seyyed e Isabela estavam sentadas, lado a lado, no alto da duna esperando o pôr do sol junto com alguns moradores da cidade e muitos turistas.

 

--Que lugar lindo, não é amor? -- a ruiva perguntou sorrindo -- Estou amando esses dias de romantismo e natureza com você! -- beijou o ombro dela

 

--Também tô adorando! -- sorriu para ela -- A melhor companhia que eu poderia ter e um lugar como esse revitalizam a alma! -- beijou a testa dela e olhou para o horizonte -- Eu me sinto muito bem!

 

--Sinto da mesma maneira! -- olhou para o horizonte também -- Sabe? Desde que me contou sobre o aviso de seu pai tenho pensando muito sobre o que ele quis dizer! -- suspirou -- Você tem orado?

 

--Como sempre!

 

--Eu também. -- segurou a mão dela -- Vou ficar do seu lado aconteça o que for!

 

--Confio em você! -- Seyyed apertou a mão da ruiva e as duas ficaram assistindo o sol dourando os espaços em sua despedida silenciosa

 

Ao final, levantaram-se e foram descendo a duna de mãos dadas.

 

--Olha que legal, Ed! -- Isa mostrou -- Uma roda de capoeira!

 

--Vamos ver? -- propôs

 

--Claro! -- respondeu empolgada -- Sabe que adoro essas manifestações culturais! Sabia que na faculdade eu tive aula sobre folclore e tudo?

 

--Lembro das coreografias folclóricas que fez pra mim... -- sorriu com malícia -- Ao final eu sempre te pegava e...

 

--Safada! -- deu um tapa no braço dela e riu

 

Ficaram assistindo ao show dos capoeiristas até que em dado momento eles convidaram as pessoas a participar. Uns rapazes se habilitaram e brincaram um pouco sem muito jeito. Isabela foi a primeira mulher a entrar na roda e surpreendeu com seus movimentos e elasticidade, fazendo jus a uma salva de palmas por parte de todos.

 

--Nossa, mas até na capoeira ela dá show?? -- a morena aplaudia empolgadamente -- Bate palma aí, meu povo!! Uhuuuu!!! -- gritava -- Isa, Isa, Isa!!! -- continuava batendo palmas

 

--Pára com isso, Ed! -- foi até ela sorrindo e deu-lhe um tapinha no braço -- Tá todo mundo me olhando! -- olhou para ela constrangida

 

--Pode olhar, minha gente, que essa aqui já tá no laço! -- falou alto e sorriu

 

--Boba! -- segurou-a pela mão -- Que tal fazermos um lanchinho básico antes de voltar pra nossa simpática pousada? Isso de capoeira dá uma fome...

 

--Agora! -- foram andando de mãos dadas

 

Entraram em uma creperia, lancharam e conversaram bastante com a dona do estabelecimento até que decidiram voltar para a pousada. Dentro do quarto a ruiva ordenou: -- Vá tomar um banho! Você está cheia de areia pelo corpo!

 

--Seus pedidos são ordens! -- despiu-se rapidamente -- Falou em banho, cama e sex* é comigo mesmo! -- brincou

 

--Ah, mas eu sei disso! -- jogou a blusa contra ela e sorriu -- Eu sei que você é muito safada!

 

--Vem comigo pro banho, vem? -- foi até ela com um olhar faminto -- Preciso de ajuda pra tirar as areias...

 

--Eu vou depois de você! -- respondeu sensualmente -- Obedeça e não vai se arrepender. -- sorriu

 

--Nunca me arrependo com você!

 

--Vai pro banho! -- empurrou-a fazendo dengo

 

A morena tomou seu banho e ficou de camisola esperando pela ruiva, que apareceu  algum tempo depois usando um vestidinho curto de saia rodada e sandálias de salto. Estava maquiada e com uma pequena flor nos cabelos.

 

--Mas o que é isso? -- levantou-se reparando-a de cima a baixo -- Deliciosa! -- foi até ela -- Você ainda me mata com essas coisas que inventa, sabia? -- falava com a voz rouca de desejo

 

A ruiva colocou um CD no aparelho de som e convidou fazendo um sotaque: -- Dança um forró comigo, morena?

 

--Vixi, mas só se for agora! -- respondeu entrando no jogo -- Pense numa mulher gostosa! -- puxou a ruiva de encontro a seu corpo

 

Começaram a dançar sensualmente, corpos colados se requebrando com cumplicidade.

 

“Hoje me deu uma vontade louca alucinada,
De me declarar pra você...”

 

--Ave Maria, você é tão descarada, mulher! -- sentia as mãos da morena percorrendo seu corpo com desejo. A ruiva continuava forjando o sotaque

 

--Eu sou toda descaramento... -- sussurrou no ouvido da outra enquanto dançavam

 

“Te amar é bom demais,
E só você me faz voar no céu azul,
Mergulhar no oceano sem medo nenhum...”

 

A bailarina virou-se de costas para a amante e requebrava-se com as mãos nos cabelos.

 

--Eu quero você agora! -- anunciou tomada pelo desejo, dançando coladinha com a outra mulher

 

--Ainda não... – sentia a língua quente lambendo seu pescoço -- Se avie, mulher! -- virou-se de frente novamente

 

“Quero te prometer o que você quiser,
Todo o meu amor,
Estrela guia me carregue para onde for...”

 

--Agora! -- puxou-a pela cintura e a beijou-a com paixão

 

--Hum... -- a ruiva não resistiu e envolveu os braços ao redor do pescoço da amante

 

“Eu sei que um dia a gente pode se perder,
Mas não vai ser assim se depender de mim...”

 

A morena sentou a outra mulher em cima da mesinha de cabeceira e começou a abrir o fecho do vestido dela enquanto beijava seus lábios, pescoço e colo com urgência.

 

--Ai, Ed... ai, meu amor... -- a bailarina gemia

 

“Porque eu vou lutar pra nunca acabar,
Haja o que houver,
Venha o que vier...”

 

Seyyed despiu a amante rapidamente e com a mesma fúria arrancou a própria camisola. Mergulhou entre as pernas da ruiva e tomou-a com a boca faminta.

 

--Ah, ah, ah!! -- gemia reclinando-se para trás e apoiando os cotovelos na mesinha

 

“Inverno ou verão,
Em qualquer estação,
Só vou gritar amor, amor, amor...”

 

A mecânica segurou Isabela pela cintura e seguiu beijando e lambendo seu corpo até chegar nos seios da amada e deleitar-se com eles.

 

--Ah, ah... -- agarrou-a pelos ombros e enroscou as pernas em sua cintura -- Ai, Ed, você é o máximo!!! -- gemia com os olhos fechados

 

“... eu te amo,
Está difícil de viver a vida sem você...”

 

A morena segurou sua bailarina pelas coxas e invadiu o pescoço dela com beijos furiosos. Suspendeu-a e afastou-se da mesinha, pressionando o corpo da amante contra a parede. Penetrava-a com intensidade.

 

--Ah!!!!! -- gem*u alto

 

“... eu te quero vou virar o mundo,
Mas amor ,
Vou ter você...”
Banda Calcinha Preta - Declaração de Amor [a]

 

****

 

Ed voltava de mais um banho e ficou parada na porta do banheiro olhando para sua mulher em silêncio. Não havia desejo no seu olhar.

 

--O que foi, amor? -- a ruiva estava preguiçosamente deitada na cama -- "Não conheço esse olhar...” -- pensou preocupada

 

--Me ensina a amar de verdade, Isa? -- andou até ela -- Amar além dos sentidos, além do prazer, além da paixão... -- ajoelhou-se na cama -- Me ensina? -- pedia com muita sinceridade -- Eu quero ser só sua, de corpo e alma! -- falava com muita sinceridade

 

A bailarina se emocionou com aquele pedido tão forte ao mesmo tempo inocente. Ajoelhou-se em frente a outra, segurou o rosto dela e deu sua resposta beijando-a com muito amor. A morena a abraçou delicadamente.

 

--Seu corpo é o templo de sua alma. -- a morena sussurrou no ouvido da  amante -- Eu quero ver a mulher que habita esse templo, sem máscaras e sem fantasias. -- olhou para ela -- E quero dar a ela todo amor que puder!

 

--Eu deixo que você me veja e quero te ver também. -- beijou-a -- Deixa eu ver você? -- pediu

 

--Deixo! -- beijou-a nos lábios e se deitou sobre ela

 

Isa mudou as posições e ficou sobre a mecânica. Sentou-se sobre ela e perguntou: -- O que é amar pra você?

 

--Entregar-se.

 

--Então se permita entregar, porque me entreguei a você há muito tempo. -- segurou suas mãos

 

--Acho que no fundo eu sempre tive medo... -- sentou-se também e olhou nos olhos da ruiva -- Mas agora não há mais espaço pra isso.

 

A bailarina sorriu e segurou seu rosto. -- Não, não há! -- beijou-a com todo o sentimento que poderia transmitir

 

Deitaram-se novamente e a morena permitiu que Isabela percorresse seu corpo com beijos carinhosos e mãos delicadas. Sentia a força e a intensidade da outra mulher invadindo sua intimidade, tomada por muito mais que somente desejo, por bem mais que a volúpia inerente à paixão.

 

Seyyed não queria conhecer apenas o amor sensual, que estimula os sentidos e dá prazer ao corpo. Não queria apenas o amor amizade, que traz carinho e cumplicidade ao sex* sem, no entanto, torná-lo capaz de impressionar o coração. Ela queria o amor renúncia, o amor entrega, o amor que toca na alma, que engrandece, que cria vínculos que a transitoriedade da vida não é capaz de desmanchar.

 

Fechou os olhos e se entregou a sua mulher sem quaisquer barreiras ou restrições em seu coração. Abriu as portas da alma e se deixou ver por inteira. Não sabia o que seria no futuro, mas não se importava. Não queria a posse de sua esposa, pois sabia que ela não era um patrimônio seu. Queria apenas seu amor.

 

***

 

Suzana admirava uma das estantes de uma loja de livros no Shopping da Tijuca. Um homem pára a seu lado para fazer o mesmo.

 

--Pontual como sempre, não, delegada? -- ele pergunta em voz baixa agindo como se não estivessem conversando

 

--Trouxe o que lhe pedi? -- foi direta

 

--E objetiva como sempre! -- tirou um livro da estante e posicionou um envelope pardo bem rente à capa -- Sabe que corri um risco ferrado em ter feito isso pra você, não sabe? -- devolveu o livro à estante com o envelope junto

 

--E você sabe que me devia uma, não sabe? -- ela segurava uma pastinha e dois envelopes vazios para disfarçar. Pegou um livro qualquer e o abriu

 

--Agora estamos quites! -- ele respondeu pegando outro livro – Espero que isso atenda no seu objetivo de ajudar seus amigos e ao mesmo tempo não me coloque em uma situação... delicada!

 

--Não tô nessa há pouco tempo, rapaz! -- devolveu o livro à estante e pegou o fascículo que escondia o envelope -- Sei trabalhar. -- juntou o envelope que a interessava com os que já portava

 

--Eu sei... Acho que vou levar esse livro aqui! Minha mulher gosta de Åsne Seierstad! -- saiu de perto dela e foi para o caixa

 

Suzana pegou um dos livros da autora norueguesa e foi se sentar no pequeno espaço de leitura da loja. Abriu o volume e discretamente manipulou o conteúdo do envelope. “Hum... tá tudo aqui!” -- sorriu e fechou o livro -- Vou levar esse livro também! -- decidiu e se levantou indo para o caixa

 

 

16:50h. 08 de fevereiro de 2005, Hospital Silva Avelar, Centro, Rio de Janeiro

 

Juliana estava em um dos banheiros do hospital. Ela havia ido até o almoxarifado para buscar um remédio e acabou usando o banheiro mais próximo ao invés de ir para seu andar. De repente ouviu uma voz de mulher na cabine ao lado.

 

--Claro, eu já separei medicamento e material hospitalar. -- falava baixo – Não! Tem que ser pouca quantidade senão dá na pinta! -- pausou

 

“Gente, que fofoca pesada!” -- a japonesa pensou com os olhos arregalados -- "Bem que  eu notava o sumiço de alguns remédios não era de hoje!”

 

--Meu pessoal já separou material do Morgado Filho, do Charles Fraga e do Laurêncio Borges. -- pausou -- Claro, têm que ser de vários lugares pra juntar volume e ao mesmo tempo passar despercebido.

 

“Mas que mulherzinha desgraçada!!” -- cerrou os olhos com raiva

 

--A maioria é tudo de uso controlado. -- pausou -- Ambisome e Alimta. -- pausou

 

“Gente, remédios caríssimos!! Ah, mas que cachorra!!!” -- estava furiosa

 

--Ah, não, nesse caso a gente tira só parte do medicamento. Deixa a embalagem. -- riu

 

“Hum...” -- lembrava-se de ter encontrado embalagens vazias ou semi vazias

 

--Relaxa, estamos em pleno carnaval e eu tô num banheiro que ninguém usa porque é destacado e cheio de baratas!

 

“Baratas???” -- Juliana pensou apavorada

 

Nesse momento, uma barata entra na cabine em que a enfermeira estava.

 

--Não... tem muita gente no rolo, senão alguém denuncia e a casa cai, né, nêgo?

 

A japonesa levantou-se lentamente e se encostou na parede. “Ai, baratinha linda, sai daqui, filha, pelo amor do Pai!!” -- pedia mentalmente

 

--Então tá, eu vou segurar essa pra ti e depois tu vem e pega as paradas todas. -- pausou -- Faço plantão noturno e você vem de noite. -- pausou

 

A barata subia pela perna da enfermeira, que gemia sem produzir som.

 

--A gente embala tudo em saco preto e vai embora como se fosse lixo. -- riu -- Sou burra, não, meu amor!

 

E a barata continuava subindo.

 

“Socorro!! Socorro!!!” -- gritava em pensamento. Seu desespero aumentava

 

--Tá bom! Tá. Tchau. -- desligou e saiu da cabine -- Gente, esse meu cabelo tá horrível! -- ficou se olhando no espelho

 

“Vai embora daqui, sua égua!!!” -- Juliana pensava apavorada enquanto a barata já passeava por sua coxa

 

A mulher deu um suspiro e saiu. Ao perceber isso a japonesa deu um peteleco na barata e pulou desesperada. “Arrrgh!!!” -- lutava para não gritar

 

***

 

--E aí foi isso, amor! -- Juliana contava para Suzana ao finalizarem sua refeição noturna -- Acabei ouvindo aquele papo totalmente comprometedor enquanto uma barata me subia pela perna sem qualquer cerimônia! No momento em que a desgraçada estava a ponto de chegar aonde só você visita, a outra desgraçada foi embora e eu nem pude olhar na cara dela pra ver quem era! -- reclamou

 

--Então temos uma quadrilha de desvio e provavelmente revenda de medicamentos atuando no Silva Avelar? -- perguntou pensando em várias coisas ao mesmo tempo -- E ela ainda têm tentáculos no Morgado Filho, Charles Fraga e Laurêncio Borges? Hum...

 

--Pois é! A sorte da maldita foi que a tarada me anulou por completo!

 

--Que tarada? -- não entendeu

 

--A barata, criatura!

 

--Ah! -- riu -- Mas e o que você fez depois?

 

--Dei um peteleco nela e pulei de agonia! Acho que foi por isso que minha menstruação veio hoje, com uma semana de antecedência! -- fez um bico

 

--Isso é que é ter medo de barata! -- riu de novo

 

--Ah, eu queria ver se fosse contigo!

 

--Ju, uma vez participei de uma operação em que ficamos escondidos no esgoto enquanto baratas, ratos e lacraias faziam miséria rondando o corpo da gente!

 

--Minha nossa! -- ficou arrepiada -- Não entre em detalhes, pelo amor de Deus! -- pediu -- Eu não gosto de nada que tenha mais patas do que eu subindo pelo meu corpo!

 

Sorriu. -- Você disse que ela falou o nome de dois remédios... Repete, por favor?

 

--Ela falou de um antibiótico chamado Ambisome, que custa mais de quatorze mil reais a caixa, e de um antineoplásico chamado Alimta, que por sua vez vale mais de sete mil reais.

 

--Eles são usados pra que? -- perguntou curiosa

 

--Ambos são usados no tratamento contra o câncer. -- olhou bem para a morena -- Por que?

 

--Pois é! Você sabe que continuo com minhas investigações sobre aquele esquema de lavagem de dinheiro e tráfico de drogas. -- falou mais baixo -- Pois bem, em um dos documentos que consegui com meus informantes, eu vi esses dois nomes e não entendi bulhufas! Agora tudo faz sentido!

 

--Gente, será que o esquema do hospital se relaciona com esse aí que você desmascarou??? -- perguntou com os olhos arregalados

 

--Desmascarei parcialmente, porque a coisa é bem maior do que eu imaginava! Investigo isso há quase cinco anos e não me canso de me surpreender! -- pensou em silêncio por uns segundos e perguntou: -- Você disse que a mulher falou de uma entrega!

 

--Sim. Ela disse que vai fazer plantão noturno e embrulhar o material roubado em saco preto pra fingir que é lixo!

 

Suzana pensou e disse: -- Vou procurar um sujeito da Federal que me deve uma. Há tempos eu vinha pensando nisso e não o fiz ainda porque não confio nele de todo, só que nessa aí ele vai ser útil. -- olhou bem para ela -- Eu vou dar um jeito de investigar esse caso através de alguém desconhecido naquele hospital -- pensava em Coimbra, apesar dele ter saído da polícia -- e quando se aproximar o final desse mês, vou te pedir um favor: faça uma denúncia anônima a Federal e enquanto isso eu procuro o cara. Vou deixar ele colher os louros do desmanche dessa quadrilha e espero com isso dar uma enfraquecida no esquema enquanto ainda não consigo dar o golpe de misericórdia!

 

A japonesa ficou olhando para a delegada. -- Você não vai desistir, não é?

 

--Eu tenho que ajudar meus homens! -- segurou as mãos dela -- Eu sei que você queria uma vida pacífica e normal, mas eu preciso fazer isso! É muita podridão e tem que acabar!

 

--Pacífica e normal? -- sorriu -- Se eu quisesse isso nunca teria me casado com Suzana Mello. -- beijou a mão dela -- Nem a velhinha que adotei era pacífica e normal!

 

--Está comigo nessa? -- perguntou esperançosa

 

--Como Bonnie e Clyde às avessas, unidas pelo bem! -- sorriu -- Sim, claro que estou com você!

 

A morena se debruçou sobre a mesa e a beijou.

 

***

 

Léo se aproximava de Seyyed para uma conversa ao final do dia. Camille saiu depois do almoço para ir no banco negociar o cálculo dos empréstimos tomados pela oficina.

 

--Oi, Ed. -- sorriu -- Será que podemos conversar? -- veio com a mão nos bolsos

 

--Claro, senta aí! -- ela estava no escritório -- Sobre o que seria? -- olhou para ele curiosa

 

--Eu não sei se você sabe, mas vou casar em junho. -- sorriu e se sentou em frente a ela

 

--Não, eu não sabia! -- sorriu também -- Parabéns, cara! Desejo tudo de bom pra você e pra garota! -- apertou a mão dele

 

--Ela entrou de secretária pra uma empresa aí com sede em Macaé. Foi agora, em janeiro. -- pausou -- Quando a gente casar eu vou morar lá também.

 

--Ah. -- foi pega de surpresa -- Pôxa, pra mim vai ser uma baita perda! -- passou a mão nos cabelos -- Mas é claro, você tem que fazer o que for melhor pra sua vida e... agradeço por me avisar com antecedência!

 

--Na verdade eu não queria me demitir mas te propor um negócio!

 

--Negócio? -- perguntou desconfiada

 

--É que eu queria montar uma oficina dessas em Macaé. -- olhou empolgado para Ed -- Magali disse que Macaé é uma cidade rica mas muito mal provida de infra estrutura! E com esse lance de petróleo aquela cidade só tende a crescer e receber um monte de gente! Inclusive gringos! -- não parava de se movimentar na cadeira -- Você entra com a grana e eu com a mão de obra! Meus dois cunhados são mecânicos também! -- sorria

 

--A idéia é boa, Léo, mas eu não tenho condição de abrir outra filial agora! Passamos o maior perrengue em Goiânia e com nossas contas aqui. Camille passou a tarde no banco negociando nossa dívida que ainda não é pequena... -- pausou -- Somente lá pro ano que vem ou em 2007 a gente pode começar a pensar em fazer isso!

 

O rapaz desmanchou o sorriso e perguntou: -- Mas até lá eu vou viver de que??

 

--Isso eu não sei! -- balançou a cabeça -- Por mais que te considere bom funcionário não posso resolver os problemas da sua vida, rapaz! Mal dou conta dos que tenho!

 

--Você chora muito, Ed! -- respondeu com certa rispidez dando um soco na mesa -- Mas essa oficina faz dinheiro, a do teu irmão faz dinheiro e tua mulherzinha já dançou até em clipe na televisão! Vocês não vivem mal de grana! -- sorriu sarcástico -- Acabou de voltar de férias!

 

A morena se sentiu desrespeitada com aquela atitude. -- Escuta aqui, Léo, da minha  vida e dos meus negócios cuido eu! -- debruçou-se sobre a mesa -- Nunca te dei confiança pra falar comigo dessa forma e muito menos pra se referir a Isa como ‘mulherzinha’, cheio dos abusos! Tua noiva foi morar em Macaé e você quer ir pra lá, então se vira! Eu não posso arrumar tua vida, cara! Quando eu casei não pedi pra ninguém resolver meus problemas e nem meu irmão, que é meu irmão, fez isso. Aí vem você e acha que pode colocar essa banca pra cima de mim? -- sua expressão era séria

 

--Se não fosse por mim, você tinha se ferrado quando a porca torceu o rabo! -- argumentou falando alto

 

--E eu te dei aumento, paguei pra você se especializar em restauro de automóveis e te dei força com tua mãe quando me pediu. -- respondeu no mesmo tom -- Não pode querer que eu ainda me encha de dívidas pra você montar uma oficina em Macaé!

 

--Eu ia entrar de sócio, porr*!

 

--Sócio, como, se você não tem grana pra chegar junto? Você mesmo disse que eu entro com a grana! -- levantou-se -- De mais a mais, só com essa tua atitude já ficou claro pra mim que você não seria o tipo de sócio que eu gostaria de ter!

 

Léo ficou olhando para ela em silêncio e se levantou também. -- Já estamos no dia 22 e por isso eu fico aqui até o final do mês. Tô pulando fora da oficina! -- falava com raiva contida

 

--Tudo bem, Léo. Fique tranqüilo que vai receber o que merece. Amanhã Camille tá com a gente. Ela faz as tuas contas... -- encarava com ele

 

O rapaz saiu sem dar mais nem uma palavra. A morena sentou-se novamente e passou as mãos no rosto.

 

--E ainda tem um bando de mentiroso que diz que só mulher é complicada!! Ô macharia de gênio ruim!! -- reclamou em voz alta

 

***

 

Isabela e Priscila andavam pelo Shopping Leblon.

 

--E depois de umas férias maravilhosas, chego em casa e dou de cara com Lady e seu novo visual. Só você vendo! Tá uma mistura de Daniel Boone com Cyndi Lauper e toques de Zé do Caixão.

 

--Gente! -- riu

 

--E o namorado? O tal do Salatiel? Criatura mais horrível não há! Aquilo ali seria uma mistura dos seriados Arquivo X e Millenium com pitadas do cão! -- Isa ria -- E o pior você não sabe! O senhor sombrio ainda me pediu dentes de pacientes do hospital pra coleção dele, vê se pode?

 

--Eu hein! E Lady quer se casar com esse louco?

 

--Minha filha, Lady quer se casar, não importa com quem. Basta apenas que tenha androceu. -- pausou -- Ou nem isso, sei lá!

 

--Ai, ai... -- olhou para a amiga -- E a tal da Lila? Já voltou?

 

--Ainda não! Ela tá se escondendo por causa da minha Pashmina! Safada! -- reclamou

 

--E a especialização? Começou logo depois do carnaval, não foi?

 

--Foi! Mas a coisa só começou a pegar pra valer agora em março! Ontem tivemos uma reunião e minha orientadora falou da hipótese de fazer um sanduíche no Canadá. Se eu tiver boas notas e passar na prova de proficiência na língua francesa posso ficar um ano estudando na Faculté de Médecine Dentaire, da Université de Montreal! -- comentou empolgada -- Dando certo, seria para começar no início do ano que vem!

 

--Ah, mas você consegue! Sempre foi boa aluna, é inteligente e vous parlez couramment le français! (você fala francês fluentemente!)

 

--Si vous dites cela, je crois! (Se você diz, eu acredito!) -- riu -- E você, amiga, como vai a vida?

 

--Ótima! Meu casamento segue maravilhosamente bem e ontem recebi um convite pra participar de um espetáculo em abril. Farei um papel de relevo! Precisavam de uma garota com meu currículo e que cantasse. -- abriu os braços -- Acharam!

 

--Très bien! (Muito bom!)

 

--Também negocio com a Companhia de Dança da Escola um espetáculo em julho, na Turquia. -- sorriu -- Simplesmente o maravilhoso Festival de Dança Contemporânea de Istambul!

 

--Uau! -- respondeu animada -- Que chique! -- olhou para ela -- Mas e depois? Não vai fazer uma audição pra dançar no exterior? Agora você já se formou, pode passar um tempo fora!

 

--E o que eu faço com Seyyed, hein, Priscila? -- olhou para a amiga com a cara feia -- Fala como se o único vínculo que eu tivesse no Brasil fosse a faculdade!

 

--Calma, Isa, foi só uma pergunta! -- passou a mão nos cabelos -- Não sabia que você tinha desistido de ir pro exterior.

 

--Eu não desisti! -- pensou -- Ou desisti! -- respirou fundo -- Ah, nem sei! Estou tão confusa da minha vida, Pri... Estive pesquisando na internet e fiquei ali viajando... Eu queria muito, muito completar minha formação de dança no exterior. Queria me apresentar nos grandes festivais de Lausanne, Veneza, Madrid... Eu não me imagino passando a vida morando no mesmo lugar, vendo as mesmas pessoas... Ao mesmo tempo queria investir na dança contemporânea e ousar, criar, ganhar o mundo em apresentações magistrais em Nova York, Hong Kong, Sidney... A carreira por si só já me impõe um dilema entre o clássico e o contemporâneo. Não bastasse isso, no meio dessa confusão toda tem Ed... Eu a amo, não quero perdê-la, desejo ardentemente ficar com ela até o fim, mas não sei como conciliá-la com a vida que quero ter. Ed tem raízes demais... É dona Olga, aquela oficina, os funcionários, os jovens especiais, pessoas que ela ajuda... Eu não sei o que fazer...

 

--Uma coisa de cada vez, calma, é muito assunto! -- fez sinal para Isa parar de falar -- Em relação à dúvida entre o clássico e o contemporâneo vá oscilando entre um e outro até decidir em qual dos mundos você se identifica mais. Só que, não demore muito a escolher! -- advertiu -- Quanto a Ed, ela tem mesmo raízes demais e não vai querer cortar os vínculos. Você, ao contrário, não quer se prender a lugar algum. Isso não combina, e eu já te alertei para o fato várias vezes. -- pausou -- Em algum momento vai ter que escolher entre ela e a vida cosmopolita que quer ter.

 

--Mas eu quero ela e quero essa vida também! -- retrucou

 

--Mas não dá, Isa. Acorda para a verdade dos fatos! É uma coisa ou outra! Não pode ter as duas! -- afirmou enfática -- E responde uma coisa com toda a sinceridade do seu coração: você ama mesmo a Ed?

 

--Amo! Amo como não sei dizer. Nós temos um relacionamento bonito. Eu não me imagino com outra pessoa senão com ela.

 

--Mas permanece o desejo de viver o sonho, o glamour...

 

--Sim... permanece sim...

 

--Sinal de que não se sente completa com o que ela te dá.

 

--Não é bem assim! Se eu tivesse a vida das mais glamorosas do mundo não me sentiria completa sem o que ela me dá.

 

--Então, amiga, lamento dizer: vai se sentir eternamente incompleta. E tem que decidir qual dos dois lados vai te satisfazer mais, mesmo que parcialmente.

 

--Eu sei... e não sei o que fazer... -- respondeu com tristeza

 

***

 

Olga e Ricardinho acompanhavam os últimos momentos de uma borboleta prestes a deixar o casulo.

 

--Ih, olha lá! -- exclamou empolgada -- Ela já vai sair!

 

A borboleta finalmente se libertou e saiu voando esplendorosa. Ricardinho batia palmas empolgado.

 

--Gostou? -- olhou para ele

 

--Gostou! -- respondeu sorrindo

 

Ela riu. -- Gostei. Você deve dizer gostei. -- beijou o rosto dele -- Meu amor, com a gente acontece do jeito como você viu com a borboleta. -- pegou a mão dele -- Dentro do seu corpo mora a alma do Ricardinho. E dentro do meu corpo mora a minha alma. E no corpo do papai Mariano mora a alma dele. Todo mundo tem uma alma morando dentro do corpo e essa alma é quem você é. -- pausou -- Nosso corpo é igual àquele casulo que você viu. Um dia, quando chega a hora, a alma precisa ir embora do corpo, do mesmo jeito como a borboleta tem que deixar o casulo. E quando isso acontece, a alma sai voando pelos espaços igual você viu a borboleta fazer. -- sorriu para ele -- É isso que as pessoas chamam de morte. Foi por isso que sua vovó Lourdes foi embora.

 

--E cadê a vovó? -- perguntou curioso

 

--Ela está em um lugar muito bonito, porque era uma pessoa boa e mereceu isso. Um dia, bem no futuro, a gente vai pra esse mesmo lugar e vai encontrar com ela.

 

--Eu queio ir!

 

Olga riu. -- Não ainda, meu bem! -- beijou a testa dele -- Você ainda não tá pronto pra deixar o casulo. -- sorriu -- Mas se toda noite você mandar um beijinho pra sua vovó, como já faz pra sua mamãe Vitória e pro seu papai Silvio, ela vai ficar muito feliz. Deus deixa eles ouvirem! E de onde eles estão, mandam mil beijinhos pra você!

 

--E na minha festa? Vovó vem? -- perguntou preocupado

 

--Vem. Mas vai ser como a borboletinha. Você não vai vê-la, mas vai senti-la no seu coraçãozinho!

 

--Olha lá o amiguinho, Pablo! -- Fernanda chegava com o filho na pracinha -- Oi, dona Olga, tudo bem? -- cumprimentou sorridente

 

--Tudo, e vocês querida, como vão? -- sorriu

 

--Indo... -- respondeu reticente -- Hoje Pablo trouxe um kit pra brincar com areia! -- apontou para os brinquedos do filho

 

--Eu tenho boneco! -- Ricardinho mostrou seus bichinhos de brinquedo

 

--Ai, que lindo! Tem leãozinho, elefante, girafa... -- Fernanda sorriu -- Brinca com ele, filho? -- disse para Pablo

 

Os dois meninos sentaram-se no chão e começaram a brincar. As duas mulheres sentaram-se em um banco próximo às crianças.

 

--Fiquei sabendo daquela senhora. -- olhou penalizada para Olga -- Eu gostava da dona Lourdes! Meus sentimentos mais sinceros!

 

--Foi uma perda mesmo! Mas onde quer que esteja sei que ela está muito bem! -- respondeu confiante -- Sinto saudades dela e às vezes me preparo esperando que chegue lá em casa... Ainda está recente, não é? Temos que nos habituar...

 

--É verdade... é sempre difícil se habituar às mudanças... -- falava pensativa -- E o marido, como vai?

 

--Ele está com a irmã ajudando ela a resolver um pequeno problema. E o seu, como vai?

 

--Separamos desde antes do natal... -- respondeu chateada -- Ele me trocou por outra e foi embora. Nem sei por onde anda nessa altura do campeonato!

 

--Oh, desculpe, Fernanda, eu não sabia mesmo... Mil perdões! -- respondeu constrangida

 

--Não tinha como adivinhar, fique tranqüila. -- pausou e olhou para o filho -- Eu o matriculei na escolinha Sonho Nosso e morri de vergonha quando a diretora perguntou se o pai não iria lá pra conhecer. Situação chata...

 

--Mariano e eu matriculamos Ricardinho ontem em outra escolinha porque essa diretora foi grosseira conosco. Além do mais na Pequenos Aprendizes a lista de material não é o disparate que se vê atualmente. Eles pedem um material que a criança vai usar e não o absurdo que a Sonho Nosso e outras aí têm a cara de pau de pedir! -- desabafou -- Ele vai começar a estudar nesse ano e nós pesquisamos bastante antes de escolher onde seria.

 

--É... -- suspirou -- Outra barra vai ser criar esse menino sozinha! Não pelo dinheiro, porque ganho até bem, mas como ele vai crescer sem um exemplo masculino pra se mirar? -- suspirou --Tenho medo que fique revoltado ou o que seria pior: que vire gay!

 

Olga olhou bem para ela. -- Ele não se revoltará se você não fizer do comportamento do pai dele o assunto central da casa. Da mesma forma não permita que ninguém faça julgamentos sobre seu ex marido na frente do garoto. Ele precisa construir por si mesmo a opinião que terá sobre o pai. Quanto a coisa de se tornar gay, isso vem do íntimo do ser humano. Nada tem a ver com falta de exemplos pra se mirar.

 

--Que é isso, dona Olga? -- retrucou surpresa -- A psicologia mesmo diz isso! O menino fica gay por falta de pai ou por ter mãe repressora! Isso é provado cientificamente!

 

--E quem provou se a vida mostra o contrário a todo momento? Meu filho Renan nunca teve exemplo ou presença de pai e não tem nada de gay! Uma de minhas amigas teve três filhos criados da mesma forma e um deles é gay. Trabalhei no nosso grupo espírita com um jovem que foi criado dentro da maior macheza que se pode pensar! Ele é transformista e participa do concurso de miss gay todos os anos!

 

--Minha nossa! -- arregalou os olhos

 

--Eu criei Seyyed, Renan e agora crio Ricardinho. Seyyed é lésbica e tenho plena consciência de que não foi ‘culpa’ minha e nem de Khazni. A companheira dela é bailarina e foi criada por mãe e pai dentro das maiores frescuras do mundo! Isso evitou o que? -- olhou para o menino -- E quanto a ele, cuido com amor mas dou limites. Não quero que brinque com coisas que o estimulem à violência e quando ficar rapaz não vou querer saber disso de estimulá-lo com pornografia. Meu marido pensa do mesmo jeito!

 

--Gente, eu não sabia que sua filha era lésbica... Eu já a vi diversas vezes aqui na praça com Ricardinho. -- olhava para Olga escandalizada -- Ela nem parece que é...

 

--Nem parece que é? -- riu brevemente -- Não existe um modo único de ser, minha querida! Assim como não existe um modo único de ser mulher ou homem! As pessoas criam os estereótipos e depois se escravizam a eles. Agora me responda, pra que?

 

--É, vai entender, né? -- respondeu sem graça -- Eu passei aqui rapidinho só pro menino respirar um ar puro mas temos que ir. -- levantou-se apressada -- Foi um prazer revê-la e, novamente, meus sentimentos pela dona Lourdes!

 

Olga sabia que Fernanda estava indo embora daquele jeito por preconceito. -- Vai com Deus, minha filha. E desejo que Ele te ilumine nessa nova fase de sua vida. Que você saiba criar seu menino muito bem.

 

Fernanda juntou os brinquedos de Pablo e levou o menino embora apesar de seus protestos. Ricardinho veio para junto dela pedir que brincasse com ele.

 

--Sim, vamos brincar! -- sorriu e olhou para Fernanda e o filho que entravam no carro -- "Que pena que as pessoas ainda são tão preconceituosas! O mundo vai demorar muito a melhorar porque nós ainda somos ignorantes demais...” -- pensou com certa tristeza

 

***

 

Juliana chegava em casa do trabalho e achou tudo surpreendentemente silencioso. “Cadê Suzana?” -- pensou e foi entrando

 

Encontrou a morena sentada na cama de Maria de Lourdes segurando o capacete da idosa no colo. Olhava tristemente para o chão.

 

“Ah, tadinha...” -- pensou comovida -- Oi, amor! -- falou com delicadeza e sentou-se do lado dela -- Muitas saudades, não é? -- acariciava seu braço

 

--Eu não tava preparada pra ser órfão de novo... -- continuava de cabeça baixa

 

--Ah, meu nenenzinho... -- beijou o rosto dela

 

--Ela andava tão bem! Não podia ter morrido daquele jeito tão repentino! -- olhou para Juliana com os olhos marejados  -- Eu quero nossa velhinha de volta, Ju! Eu quero... -- começou a chorar

 

--Hum, meu nenenzinho, deita aqui, vem! -- a delegada deitou em seu colo. Chorava como uma criança desprotegida -- Você não tá sozinha, meu amor. -- beijou a cabeça da morena -- Eu tô do seu lado! -- acariciava os cabelos dela e ficou em silêncio deixando-a desabafar a saudade naquele choro sofrido

 

Após alguns minutos assim, Suzana sentou-se novamente e passou as mãos nos olhos. -- Desculpa por isso, Ju. -- estava envergonhada

 

--Por que está se desculpando? -- acariciou o rosto da outra -- Olha pra mim, amor! -- pediu carinhosamente e a morena obedeceu -- Acha que não pode ter seus momentos de fraqueza? Você é humana! Não pode e nem deve ser forte o tempo inteiro! -- continuava acariciando o rosto dela

 

--Fazia tanto, mas tanto tempo que eu não sabia o que era ter mãe... e agora ela foi embora... -- falava com muita tristeza

 

--Eu sei o que sente, meu bem. Também sinto saudades... Também estou de luto! -- olhava para a delegada com muito carinho

 

--Sinto falta de vê-la andando devagar com a bengalinha, de ouvir a voz dela, de sentir a maciez daqueles cabelinhos brancos, daquela mãozinha pequena segurando meu braço... -- rememorava -- Eu esqueço e coloco o terceiro prato na mesa, eu me levanto durante a noite pra ver se ela dorme bem, eu chamo por ela quando chego em casa... -- passou a mão nos olhos de novo

 

--Ainda tá muito recente, amor...

 

--É muito ruim sentir saudades... Só eu sei o quanto sofri por saudade! -- olhou para ela -- Sabe daquela dor, que é tão forte, mas tão forte, que chega a se tornar física e machuca o peito? -- pausou -- Saudade é como lâmina fria e cruel cortando a alma! Ela vem, seca e incisiva, e dói como não saberia explicar. -- passou a mão nos cabelos -- Saudade é o desejo de se ter algo que não pode mais voltar... é como as folhas levadas pelas águas, sempre pra longe, sempre fora do alcance das mãos... -- falava com muita dor

 

--Nem toda saudade precisa ser dolorosa...

 

Suzana levantou-se e nada respondeu. Depois de uns segundos calada riu brevemente e disse: -- Olha isso! -- levantou o capacete -- Diz quem mais poderia usar um capacete cheio de caveirinha cor de rosa?

 

A japonesa riu. -- Se não se incomoda, gostaria que esse capacete fosse meu de agora em diante. Quando a gente for sair de moto...

 

--Claro que não me incomodo. -- pôs o capacete sobre a cama e andou até a janela -- Eu quero o álbum de fotografias. -- respirou fundo -- Ainda não tive coragem de mexer nas coisas dela... -- pausou -- Não podemos deixar esse quarto como uma espécie de altar intocado, não é? Isso faz mal a quem já se foi... -- olhou para a enfermeira

 

--Faz... -- levantou-se, foi até ela e a abraçou -- Amor, entendo que esteja sofrendo por saudades, eu também estou, e faz realmente muito pouco tempo que tudo aconteceu, mas, por favor, não deixe que a saudade transforme a sua vida e a de nossa dona Lourdes em um mar de sofrimentos! -- segurou o rosto dela -- Você sabe, especialmente depois daquela sua experiência em Roraima, que a morte não é o fim. “Morte não existe, nunca se equivoque; há vida onde quer que se detenha o pensamento.”44 -- sorriu -- Nossa dona Lourdes, nossa Maria de Lourdes Valadão, agora é uma doce flor aos cuidados do Divino Jardineiro. Certamente ela está muito bem acompanhada e totalmente livre!

 

--Livre... -- repetiu -- Ela não precisa mais de bengala, não é? Nem de cadeira de rodas, nem de remédios, nem de médicos e nem de cuidados especiais...

 

--Ela não está mais sujeita às limitações daquele corpo velhinho e cansado. Pense bem, meu amor. Não é melhor que ela tenha desencarnado tranquilamente dentro de casa, na caminha dela, sabendo que não estava só, do que em um leito de hospital após muito sofrimento? E ela fez tudo o que queria fazer e viu todos os seus desejos sendo realizados! Pode haver felicidade maior do que essa?

 

--Não... -- respondeu olhando nos olhos da japonesa

 

--Permita-se sofrer e chorar por um tempo, mas deixe passar. Confie em Deus e Ele acalmará todas as dores... O luto é uma tempestade no coração, mas toda tempestade passa. Se você ficar aqui lamentando a morte dela e se entregando a uma dor sem fim, além de se prejudicar, vai atrapalhar a felicidade dela também. Nenhuma das duas merece isso!

 

Suzana segurou o rosto de Juliana. -- Você é o que de melhor poderia ter me acontecido, Ju. Seu amor me fez ter forças pra renascer! Seu amor mudou tudo em mim! -- falava com muita sinceridade

 

--Eu digo o mesmo de você, meu bem! -- pausou -- Te amo muito!

 

--Eu também te amo muito! Nunca duvide disso! -- beijou-a com muito carinho e deixou seus braços envolverem o corpo da amante em um abraço apertado

 

A japonesa envolveu o pescoço da morena com os braços e se entregou àquele beijo que lhe dizia coisas maravilhosas. Coisas que não podem ser expressas por palavras, mas que são sentidas somente na alma de quem sabe amar.

 

***

 

Mariângela socava o saco de areia na aula de boxe.

 

--Eita lelê! -- Flávia exclamou -- Dá até medo dessa baixinha! -- passou a mão na cabeça dela -- Como é que pode? Tão bonitinha, tão miudinha e tão perigosa! -- riu

 

--Ah, minha filha, é nesse saco de areia que eu alivio meu estresse! -- continuava socando

 

--E que estresse! -- continuava achando graça

 

A costureira parou e secou o suor do rosto com uma toalhinha. -- Acho que por hoje tô bem de tanta pancadaria!

 

--É bom! Já tá quase uma hora além do seu treino. Precisa almoçar, colocar alimento pra dentro e repor as energias. -- sorriu -- Vamos comigo? -- convidou

 

--Vamos! -- sorriu -- Só me dê tempo pra tomar um banho rápido, por favor.

 

--Vai lá, dona mãe! Eu espero. -- acenou para ela e foi andando para sua sala

 

***

 

--Ô, Flávia, eu sou filha de italianos, acostumada a comer coisa que tem sustância! Será que esse negócio de comida japonesa me segura? -- perguntou desconfiada olhando para o cardápio -- Eu mal consigo falar o nome das tranqueiras que têm aqui!

 

--Não se desespere, dona Mãe, vamos atacar no rodízio! Eu peço pratos frios, quentes, saladinha... tenho certeza de que vai gostar e sair de bucho cheio! -- riu

 

--Humpf! -- fez um bico e fechou o cardápio -- Eu vou confiar em você mas não me faça comer lagartixa, besouro ou rato, porque isso eu não como!

 

--Nem os japoneses! -- riu -- Na certa foi alguma reportagem sobre comida exótica na China que tá te fazendo confundir as coisas. Comida japonesa é gostosa e alimenta.

 

--Só quero ver... -- respondeu descrente

 

Flávia chamou o garçom e pediu os itens do rodízio a ele que tomou nota de tudo e se afastou da mesa.

 

--Eu hein! Só de ouvir os nomes que você falou já me deu medo!

 

--Confia, dona Mãe! Alguma vez já lhe coloquei em fria? Nunca! -- piscou para ela

 

Aos poucos os itens do rodízio foram servidos e as duas saboreavam com vontade. Mariângela perdeu a cisma e comia sem receios.

 

--Eu só não sei é usar isso de pauzinho! -- reclamou -- Nem com esse trocinho que você prendeu neles aqui pra me ajudar eu dou conta!

 

--Quer que eu peça um garfo? -- ofereceu

 

--Eu não! Pro povo achar que eu sou caipira? Nada disso! -- Flávia achou graça

Ao final do almoço, as duas estavam tão satisfeitas que não queriam saber de sobremesa.

 

--Nossa, você tinha razão! Essa tal de comida japonesa tem sustância! -- olhou para a fisioterapeuta e falou mais baixo -- Mas eu só não gostei daquele troço mole montado no arroz! Não gosto de nada mole!

 

--Que troço mole? -- perguntou rindo

 

Nisso o garçom se aproxima. -- Senhora, -- olhou para Mariângela -- trago um bilhetinho do cavalheiro da mesa ao lado. Aqui está! -- pôs o papel sobre a mesa e se retirou

 

--Mas que diabo! -- ela reclamou de cara feia

 

--Ih, dona mãe! Teu admirador parece até o  senhor Miyagi! -- cochichou e riu -- E o amigo dele me lembra Confúcio!

 

A costureira olhou para os homens. -- E eu aqui dizendo que não gosto de nada mole... -- pegou o bilhete -- "Coisa linda, rainha loira,” -- lia --  “você é o tijolinho que faltava na minha construção. Vamos bater um papinho logo mais?” -- amassou o papel -- Mas era só o que me faltava! -- fez um bico

 

--E aí? Vai ou não vai? -- perguntou rindo

 

--Vai! Pro inferno que ele vai! -- abriu a bolsa -- Flávia, vamos pedir a conta que eu quero ir embora!

 

--Só se for agora! -- chamou o garçom, que logo veio -- Amigo, traz a conta, por favor?

 

--Não precisa, senhora. Os cavalheiros da mesa ao lado já pagaram! -- sorriu

 

--Mas que inferno!!! -- a costureira protestou

 

“É a primeira vez que eu vejo alguém ficar com raiva porque não vai pagar a conta!” -- o garçom pensou ao se retirar

 

Flávia e Mariângela olharam para a mesa deles de novo e o admirador da costureira fazia movimentos sugestivos com a língua.

 

--Ih, malandro! -- a fisioterapeuta riu -- O coroa tá tarado!

 

Mariângela abriu a outra bolsa e sacou as luvas de boxe.

 

--Que é isso, dona mãe? -- perguntou surpresa

 

Ela olhou para a fisioterapeuta enquanto vestia as luvas. -- Estou me prevenindo contra o pior! Vamos embora daqui antes que aquelas duas entidades do candomblé japonês venham se sentar na nossa mesa! -- levantou-se rapidamente. A fisioterapeuta fez o mesmo -- Fica na tua aí! -- olhou para o japonês posicionada como se fosse partir para a luta

 

--Por favor, senhora, o que é isso? -- o garçom a abordou e perguntou apavorado -- Estamos em um restaurante, não pode haver briga aqui dentro!

 

--Então chama a polícia, porque esses tarados estão nos perseguindo! E se a coisa não se resolve por bem eu resolvo por mal! -- movimentava-se como se fosse bater nos homens

 

--Você é louca! Nós pagamos seu almoço e é assim que retribui? -- ‘Miyagi’ retrucou

 

--E quem te pediu isso, malandro? Pagou porque quis, agora danou-se! -- Flávia respondeu

 

--Gente, por favor! -- o garçom apontou para a porta -- As senhoras queiram se retirar!

 

--E a gente se retira mesmo desse restaurante cheio de tarado! Safado, velho tarado, bicho horrível! -- Mariângela gritava

 

--Vambora, dona Mari! -- Flávia puxou a costureira pela mão e foi levando

 

Os homens nada fizeram, permanecendo sentados e estupefatos.

 

 

19:50h.  17 de março de 2005, Arco do Teles, Centro,  Rio de Janeiro

 

Camille esperava impaciente, ocupando uma mesinha de um dos bares de rua. -- E tô eu aqui e nada! -- fez cara feia -- Eu não sei onde tava com a cabeça quando inventei de marcar encontro com aquela criatura! -- falava sozinha e com mau humor

 

--Boa noite, Crisálida! -- ouviu uma mulher lhe cumprimentar -- Perdoe o atraso, mas, deixa eu te contar, vim direto do Santos Dumont e o trânsito tava péssimo.

 

A loura olhou na direção da voz e se surpreendeu. -- Solitudine? -- perguntou desconfiada

 

--Quem mais lhe chamaria de Crisálida, uai? -- sorriu -- Posso? -- apontou para uma cadeira

 

--Claro! -- balançou a cabeça e ficou olhando para a outra mulher enquanto ela se sentava -- Eu pensei que você fosse uma coroa!

 

--Não ainda. -- sorriu e colocou a pequena mala sobre outra cadeira

 

--Como me reconheceu tão depressa?

 

--Pela sua cara de mal humorada. -- provocou -- Dá um medo que chega dói!

 

--Muito engraçado! -- fez um bico

 

--Além de estar vestida como disse que estaria. -- olhou bem para ela -- Qual o seu nome verdadeiro?

 

--Vamos manter as coisas como estão, pode ser? Não vou te dizer meu nome, meu endereço, minha profissão ou o que faço da vida. Da mesma forma não quero saber essas coisas em relação a você.

 

--Tudo bem. -- concordou -- "Essa garota é tão estranha...” -- pensou

 

O garçom se aproximou e elas pediram sucos e pastéis. Ele tomou nota e foi providenciar.

 

--Eu fiquei surpresa que você tenha aceitado meu convite. -- a loura comentou -- Mas eu precisava conversar com alguém e achei que só tinha você como opção. -- pausou -- Embora eu seja muito desconfiada contigo por causa da tua inveja!

 

--Você vive dizendo isso! Eu tenho inveja de que, mulher? -- perguntou achando graça

 

--Do meu sucesso literário! Acha que não noto seu movimento desesperado pra roubar minhas fãs? Eu já até andei sentindo os maus fluídos da tua inveja mas agora sei me proteger e você não me afeta! -- respondeu confiante

 

--Eu nunca tive inveja de você, não, uai! Posso fazer um monte de confusão, embaralhar a cabeça da minha beta com minhas caipirices e falta de planejamento, mas não fico secando o trabalho das outras! Reconheço minhas limitações, assumo que não tenho a menor idéia de como a história vai terminar, mas pode ter certeza de que inveja nunca foi meu combustível! -- riu -- Mesmo sabendo que eu só tenho uma história e você tem cinco!

 

“Ainda bem que ela reconhece que não é de nada! Não queria ser eu a dizer!” -- Camille pensou aliviada

 

--Mas, me diga: sobre o que quer conversar? Não creio que seja sobre nossos contos. -- estava curiosa

 

--Não... -- suspirou -- Queria bater um papo... como dizer? Um papo lésbico.

 

Ela riu. -- Pode começar, então.

 

--Por que eu?

 

--Ah! Eu não sei sobre o que você quer falar, uai! -- riu de novo

 

--Humpf! -- fez um bico e se calou pois o garçom chegou com os sucos. Quando ele saiu, voltou a falar: -- Vivo uma espécie de conflito entre sufocar minha homossexualidade ou vivenciá-la. Faço terapia e tal, acho minha psiquiatra a maior alcoviteira, diga-se de passagem, mas eu não sei... No começo eu queria ser celibatária, mas tem vezes que me sobe um fogo que... ai, ai, ô louco! E tem outras que me dá uma vontade ter alguém comigo, sabe? Alguém especial... -- bebeu um gole de suco

 

--Ser celibatária exige muito esforço pra se superar e vencer o apelo dos sentidos, além de aprender a canalizar a energia sexual em atividades construtivas. -- pausou -- Mas, me diga, por que pensa em sufocar sua homossexualidade? Parece que você acha que ser lésbica é algo ruim que vai te colocar em dívida diante de Deus e da vida! Não é a sua orientação sexual que pode te trazer distúrbio, mas sim um comportamento sexual irresponsável! E isso vale mesmo pra mais hetero das mulheres! -- bebeu um gole de suco -- Hum, eu adoro esse suco de fruta-do-conde! – comentou

 

--Eu ainda não entendo essa coisa muito bem! Esse lance de ser lésbica... -- suspirou -- Ao mesmo tempo dá uma frustração danada porque eu nunca conheço ninguém! -- pausou -- Quer dizer, conheço, mas é tudo lésbica manjada, sabe?

 

--Como assim? -- riu

 

--Ah, tudo figurinha conhecida e compromissada. Até conheci uma solteira, pelo menos eu acho que é. -- lembrou-se de Samira -- Mas aquilo ali é mina maluca e eu não quero!-- apoiou a cabeça sobre os cotovelos -- Já conheci alguém especial mas ela é casada... -- revirou os olhos

 

--Uma pessoa casada é uma complicação! Se ela se separar é outra coisa, mas não fique criando condições ou esperando que isso aconteça. Não se pode construir nossa felicidade sobre as dores dos outros! -- pausou -- Desculpe me intrometer.

 

--Eu sei que você tá certa e faço um esforço danado pra matar no meu peito o que sinto, mas é muito difícil! Ela é uma pessoa que me encantou muito, é apaixonante e me atrai demais... -- suspirou -- Tenho pedido a Deus todos os dias pra me ajudar a não sentir o que sinto, mas demora...

 

--É, eu sei como é isso... -- o garçom chegou com os pastéis e se retirou -- imagino que escreva pra aliviar a frustração e sonhar um pouco, não é? -- pegou um pastel

 

--E pra viver no virtual o que não tenho coragem de viver no real. -- pegou um pastel também e olhou para a outra de cara feia -- Eu não esqueci que você me disse isso uma vez! -- deu uma mordida

 

--Eu nunca te entendi direito... Devo te confessar que sempre te considerei uma pessoa intrigante, inteligente e engraçada. -- bebeu suco -- Porém, acho que só agora começo a vê-la como é. -- sorriu -- E hoje posso acrescentar que te acho uma mulher muito bonita também! -- pausou -- Mas isso não é uma cantada, pode ficar sossegada! -- esclareceu

 

--Você tem namorada! -- advertiu enquanto comia

 

--Sim, e ela é uma pessoa muito especial!

 

--Não me diga que é a tua beta?? Porque pra aturar tuas caipirices precisa ter muito amor!

 

Riu. -- Não... minha beta é só amiga mesmo. -- pegou mais um pastel -- Eu adoro pastel de queijo! Ô coisa calórica danada de boa! -- comentou -- E no seu caso? Quem é sua beta?

 

--Eu não tenho beta! Sou uma espécie de duas em uma: escritora e beta! -- respondeu orgulhosa

 

--Que é isso, garota? Você precisa de alguém pra revisar seu texto e ver os erros que você não nota. Mesmo tendo beta, depois de uns dias de texto postado, se eu revejo, acabo por achar alguma rata...

 

--Ah, mas isso é você! Pode ler e reler meus textos que não vai achar erro algum! -- pegou outro pastel -- Eu sou mais eu, minha filha! Comigo não tem isso de rata, não! Eu, hein? Rata...

 

--É... isso é pra quem pode! -- riu e balançou a cabeça

 

--E você? Sabe porque eu escrevo, então me diga: por que escreve? -- perguntou curiosa

 

Solitudine pegou um guardanapo, limpou os lábios e respondeu: -- É uma resposta meio longa.

 

--Pode começar! -- pediu

 

--Eu passei por muita coisa forte na minha vida, você não tem idéia do quanto já sofri! Mudei muito como pessoa com o passar do tempo... Aprendo a olhar pra dentro, a me conhecer, a ter consciência de quem sou, de meus pontos fortes e fracos, e aprendo gradativamente, bem devagar, a me libertar. -- pegou o copo e bebeu um bom gole do suco -- Queria transmitir pras pessoas alguma coisa útil, algo que pudesse mostrar a elas como somos iludidos e como todas as dores vêm destas ilusões, do momento em que elas se desfazem. Queria trazer coisas pra que pensassem, pra que se questionassem e pudessem se libertar.

 

--O que quer dizer com se libertar?

 

--Libertar-se dos dogmas, medos, preconceitos e da condição de refém dos sentidos e do prazer sensorial. Libertar-se do círculo vicioso da culpa, da auto punição ou da permissividade. Libertar-se pra que se possa caminhar em direção da conquista da satisfação interior, que pode ser obtida nas coisas simples do dia a dia, quando se está em sintonia consigo mesmo.45 -- passou a mão nos cabelos -- Você pode achar que são objetivos muito pretensiosos da minha parte, mas não quero catequizar ou libertar almas. Gostaria apenas de provocar a auto análise, a auto reflexão, e à partir daí cada um é livre pra escolher seu próprio caminho.

 

--Eu acho muita pretensão mesmo! Não é com um conto quase infinito de mais de duzentas mil palavras que você vai conseguir isso!

 

--Pelo menos estou tentando. Se ao menos alguém ler e sentir algo de bom já é o suficiente pra mim.

 

A engenheira ficou uns instantes calada e depois disse: --Escute, eu tenho feito umas pesquisas sobre a homossexualidade e conversado com uma pá de gente na internet pra saber das opiniões que se têm sobre o assunto. Já conversei muito com minha psiquiatra a respeito e já li alguns livros sérios. -- bebeu um gole de suco -- Já li também sobre terapias que visam a cura do homossexual. O que acha disso? Conhece alguma dessas terapias? Minha psiquiatra é contrária a essas abordagens. Você que é cheia das conversas, o que pensa a respeito?

 

--Cheia das conversas... -- riu brevemente -- Eu acho que em primeiro lugar é preciso que se entenda que gênero e identidade sexual são construções humanas e por isso não são padrões universais ou imutáveis, ao contrário, são conceitos passiveis de transformação no tempo e no espaço. A imposição de modelos rígidos às mulheres e aos homens provoca conflitos e sofrimento em quem não consegue aderi-los, e podemos ver exemplos disso em toda parte. -- pausou -- A homossexualidade é apontada pela maioria das religiões como uma ameaça à família, por não contribuir pra reprodução dos seres, e grande parte das pessoas ainda acredita que homo e bissexualidade são manifestações anormais da sexualidade humana. Por se acreditar que sejam desvios da heterossexualidade, criam-se e divulgam-se propostas de cura, as quais só fazem aumentar o sofrimento daqueles que a elas se submetem, levando muitos à depressão e ao suicídio. Essas ditas ‘terapias’ -- fez aspas com os dedos -- são sustentadas, em maioria, por instituições religiosas que crêem estar cumprindo com a vontade de Deus.46 -- pausou -- A sua psiquiatra é contra essas abordagens porque ela sabe que qualquer profissional da área de saúde mental que se propor a oferecer um tratamento de cura pra homossexualidade ou pra bissexualidade está ferindo os Códigos de Ética criados por seus Conselhos Federais e terá de responder por isso se for denunciando junto aos órgãos competentes! -- afirmou enfática

 

--Você não acha que ser homossexual é uma condição anormal? -- perguntou interessada -- Não acha que Deus condena tal prática?

 

--Não! E isso não é uma postura permissiva da minha parte. -- olhou bem para ela -- Não existe base científica, religiosa e nem doutrinária pra dizer que Deus não ama o homossexual ou que nos odeie. O que acontece é que existem pesquisadores e religiosos que imprimem seus preconceitos no trabalho científico ou doutrinário. A Ciência não é destituída de valores, engana-se quem pensa o contrário. Em todas as épocas, em maior ou menor grau, os cientistas, de todas as áreas, imprimiram em seus trabalhos as crenças e os valores que tinham a respeito da vida. Da mesma forma, os religiosos de todos os tempos, em muitas ocasiões, apresentaram uma interpretação das Escrituras ou da Doutrina Espírita comodamente conveniente com o status da maioria dominante ou de acordo com sua limitada visão de mundo! -- sorriu -- Sabe, Camille, o pensamento religioso-conservador que domina o nosso país é muito influenciado pela antiga tradição judaica. Por isso, até hoje nossa condição é vista como anormal, pecaminosa e passível de punição da parte de Deus. É importante que se veja que o exercício saudável da sexualidade ajuda a desenvolver o companheirismo, a solidariedade e o amor; isso vale tanto para o hetero, quanto para o homo e o bissexual.46

 

--É... a gente cresce ouvindo certas coisas e temendo o julgamento dos outros... Eu tenho muito medo e vergonha... Não tem idéia do quanto tenho estudado sobre sexualidade! -- pausou -- E pra dizer a verdade, a Ciência ainda não me apresentou uma explicação decente sobre a homossexualidade. -- acabou  reclamando

 

--Volte um pouco mais atrás e veja que a Ciência ainda não tem uma explicação decente nem para a heterossexualidade. O que temos são algumas ponderações interessantes, especulações e muitas lacunas!

 

--De fato, ainda não havia pensado nisso... -- pausou -- Sabe, até que você não é tão desagradável e sem noção como pensei que fosse. E nem é tão caipira! Pra dizer a verdade, acho que agora até vou com a sua cara!

 

--Ah! Mas eu sou caipira sim, uai! E com muito orgulho, demais da conta, que chega dói! -- riu -- Obrigada. Você tem um tipo de sinceridade meio esquisita mas também acho que vou com a sua cara. Só não gosto quando se estressa e me xinga de todos os nomes.

 

--Prometo que não farei mais isso. E também não te considero mais tão invejosa quanto eu pensava. Você só precisa melhorar seu estilo de escrita e acabar logo com aquele conto! Vou te dar umas dicas pra ver se adianta! -- ofereceu -- E ouve outra: aquela tua beta, não sei, não... Ô criatura atrapalhada, viu? É por essas e outras que eu mesma me ‘beteio’.

 

--Ah, mas ela ainda é bem mais esperta na internet do que eu! -- respondeu rindo -- "Essa garota é muito louca!” -- não conseguia deixar de achar a loura engraçada

 

--Ih! Acho que dei fim nos pastéis! -- constatou encabulada -- Mas você me deu um chá de cadeira aqui, então eu bem que merecia pegar mais pastéis que você! -- brincou

 

--Relaxe com isso. -- riu brevemente -- Deixa eu te perguntar, você gosta de discutir sobre ecologia?

 

--Por que a pergunta? -- não entendeu

 

--Porque no último domingo do mês vai haver um debate sobre o problema do lixo e disposição de resíduos sólidos e uma escaladora muito interessante chamada Sabrina Magalhães vai participar. Ela é até uma das convidadas.

 

--Ah, eu sei quem é essa. É a mina cambeta que perdeu uns dedos na montanha! Já a vi na TV e ela foi em um casamento que eu também fui.

 

--Esse debate acontecerá na sede de uma ONG muito séria chamada Femina. É uma organização totalmente gerida por lésbicas e as mulheres de lá são pessoas bem bacanas, conscientes e interessantes. Seria uma oportunidade pra você conhecer gente.

 

--Ih, meu, mas já tá querendo me alcovitar? -- perguntou revoltada

 

--Mas não foi você que reclamou que não conhecia ninguém além das lésbicas manjadas, uai?

 

--Eu não reclamei, eu comentei! -- protestou

 

--Da mesma forma eu tô comentando, uai! -- sorriu -- Se quiser ir, é só perguntar que eu te mando os detalhes por e-mail. E fique tranqüila que não estarei lá. Viajo nessa próxima segunda e só visito o Rio de novo em meados de abril.

 

--Eu não sei se quero ir! Visitarei um asilo nesse domingo aí e acho isso muito mais útil do que ir ouvir um punhado de lésbicas falando sobre lixo!

 

--Com certeza é bacana que você vá no asilo, mas poderia transferir a visita pro sábado e ir no evento no domingo. É só um dia. -- terminou de beber o suco -- Mas, a decisão é sua.

 

“Será possível que só aparece gente alcoviteira na minha vida? Por que será que esse povo é doido pra colocar mulher na minha fita?” -- pensou intrigada

 

***

 

Mariano estava com Ricardinho no Aterro do Flamengo. O menino viu que três mulheres estavam sentadas em uma estranha posição fazendo um barulho engraçado e resolveu participar do que julgou ser uma brincadeira.

 

--Ricardinho, volta aqui! -- Mariano chamou em vão. O garoto correu rapidamente para longe dele

 

--Aummmmmmm!!! -- Lila fazia

 

--Aummmmmmmm!! -- as mulheres repetiam

 

Ricardinho sentiu-se ao lado de Lila e imitou: -- Aummmmmmm!!

 

--Ô, meu Pai, e agora? -- Mariano estava constrangido com a situação

 

Enquanto isso as mulheres acharam engraçado.

 

--Por favor, gurias, não nos desconcentremos! -- Lila pediu colocando a criança no colo -- Confiem que o que acontece aqui agora é uma revelação cármica. -- fazia seus gestos -- Eu explico ao final! -- pausou -- Continuemos: aummmmmmmmm!!

 

--Aummmmmmmmmm!!! -- as mulheres repetiram

 

--Aummmmmmmmmm!! -- Ricardinho levantou os braços. Lila repetiu o gesto e em seguida, suas duas alunas

 

--Aummmmmmmmmm!!!! -- o menino chacoalhou a cabeça, todo mundo o imitou

 

--Mas, o que...? -- Mariano não entendeu -- "Que gente louca!” -- pensou

 

--Aummmmmmmmmmmmmm!!! -- Lila, a criança e as mulheres faziam

 

Mariano ficou parado sem saber o que fazer. Continuou esperando até o momento em que elas acabaram a estranha meditação. O contador então aproximou-se e falou humildemente: -- Por favor, eu peço mil perdões! -- chamou o menino com um aceno. O garoto se levantou do colo de Lila e correu até ele -- Ricardinho não é um menino mal educado, foi que ele...

 

--Foi que ele veio dar cumprimento ao que estava escrito! -- Lila interrompeu a fala dele enquanto fazia seus gestuais -- Esse piazinho não veio até nós à toa! Ele veio porque me reconheceu! -- olhou para o céu -- "Como isto é maravilhoso, como isto é misterioso! Carrego combustível e extraio água.”47 -- fez um olhar enigmático

 

--Eu, hein! -- Mariano resmungou

 

--Como assim? -- uma das alunas perguntou intrigada -- Não captei, professora!

 

--Olha, moças, nós já vamos indo... -- Mariano segurou a mão do menino e se preparou para ir embora

 

--Não te vá! -- levantou-se apressada e parou diante deles -- Esse piazinho, gurias, -- olhou para as mulheres e voltou com seu gestual -- foi revelado pra mim em sonhos durante minha peregrinação na Índia! -- olhou para Ricardinho -- Ele é o Buda reencarnado! -- prostrou-se diante dele

 

--Buda! -- o menino repetiu sorrindo

 

--Oh!!! -- as duas mulheres disseram abestalhadas

 

--Ele é meu filho, isso que eu sei! -- respondeu desconfiado

 

--Ele é o pequeno Buda! -- Lila novamente se levantou e olhou para as mulheres -- As duas hão de concordar comigo que ele guiou a meditação desde que nos abordou! -- elas balançaram a cabeça confirmando -- Vejam que aparente contradição! Sabedoria em corpinho de piá! -- apontou para a criança -- "Ao entardecer, o galo anuncia a madrugada; à meia noite, o sol brilhante.”48 -- caprichou no gestual

 

--Mas é muita sabedoria... -- uma das mulheres afirmou impressionada

 

“Essa moça fala cada coisa! Que conversa fiada! Pior são as outras duas que acreditam nela!” -- Mariano pensou ao colocar o menino no colo -- Olha, me perdoem mas tenho que levar o pequeno Buda de volta pra casa porque moramos longe! -- sorriu -- Tchau! -- partiu quase correndo

 

--Ih, ele tá indo embora! -- a outra reclamou

 

--Deixem que vá! -- fez seus salamaleques -- Ele é um Buda, não pode ficar aqui no Aterro a vista de toda gente! Ele veio pra perturbar nossa mente e depois aquietá-la! -- caprichava nos gestos -- "Quando a mente é perturbada, produz-se a multiplicidade das coisas; quando a mente é aquietada, a multiplicidade das coisas desaparece.”49 E por isso ele foi! Sumiu, desapareceu! -- olhou para as alunas -- Então, gurias, por tudo isso, não posso cobrar a mesma quantia por essa meditação! Vai ter que ser o triplo do preço! -- sorriu -- Mas eu aceito o pagamento em duas vezes!

 

***

 

Camille chegava na sede da ONG receosamente. Haviam muitas pessoas presentes e ela conhecia simplesmente ninguém. Sentou-se na primeira cadeira vaga que encontrou no auditório e ficou discretamente prestando atenção em tudo. Depois de alguns minutos viu que Sabrina chegou e foi saudada por muitos. Às 14:00h em ponto o debate começou. Após breves apresentações e avisos de ordem Sabrina começou a falar: -- De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico realizada pelo IBGE em 2000, coleta-se no Brasil diariamente 125,281 mil toneladas de resíduos domiciliares e 52,8% dos municípios brasileiros dispõe seus resíduos em lixões. É um número bastante alto! -- olhou para o público -- Pra quem não sabe as diferenças entre os modos possíveis de disposição do lixo, um lixão é uma área de acúmulo de resíduos sólidos sem nenhuma preparação anterior do solo. Não tem sistema de tratamento de efluentes líquidos, ou seja, de chorume, aquele líquido preto que escorre do lixo. Aí o chorume penetra pela terra levando substâncias contaminantes para o solo e para o lençol freático. Moscas, pássaros e ratos convivem com o lixo livremente no lixão a céu aberto, e pior ainda, crianças, adolescentes e adultos catam comida e materiais recicláveis para vender! No lixão, o lixo fica exposto sem nenhum procedimento que evite as conseqüências ambientais e sociais negativas. 50

 

--E praticamente 53% dos nossos municípios despejam seu lixo nessas condições? Que maravilha! -- uma mulher se manifestou

 

--Pois é! Mas a disposição adequada dos resíduos sólidos urbanos deve ser feita em um aterro sanitário, o qual é um local que teve o terreno preparado previamente com o nivelamento da terra e com o selamento, feito com argila e mantas de PVC extremamente resistentes. Desta forma, com essa impermeabilização do solo, o lençol freático não será contaminado pelo chorume. Ele é coletado através de drenos feitos a base de polietileno de alta densidade e encaminhado para o poço de acumulação de onde, nos seis primeiros meses de operação, é recirculado sobre a massa de lixo aterrada. Depois desses seis meses, quando a vazão e  os parâmetros já são adequados para tratamento, o chorume acumulado deve ser encaminhado para a estação de tratamento de efluentes. A operação do aterro sanitário prevê a cobertura diária do lixo, não ocorrendo a proliferação de vetores, mau cheiro e poluição visual.50 -- pegou um material impresso -- Em poucas palavras expliquei pra vocês o objetivo daquilo que queremos que se transforme em projeto de lei: a mudança da disposição do lixo urbano dos lixões para aterros sanitários! Quem quiser ler, o material está aqui -- mostrou -- e também tenho em meio eletrônico para disponibilizar. -- muitos presentes manifestavam interesse em conhecer o trabalho -- Pensamos também em avançar mais falando sobre reciclagem e incentivo à essa prática, uso de embalagens retornáveis, a questão especial das pilhas e baterias e a instituição do conceito-ação de responsabilidade pós consumo compartilhada!

 

“Até que essa escaladora tem alguma coisa na cabeça! Pensei que essa maluca só pensasse em cume, cume, cume!” -- Camille pensou

 

--Também há um outro problema, Sabrina! -- uma voz bonita se fez ouvir -- Lixo radioativo! Não existe somente o lixo proveniente das usinas nucleares, mas aquele que vem do trabalho industrial, do segmento hospitalar, dos laboratórios de exames clínicos... Uma futura Política Nacional de Resíduos Sólidos tem que contemplar essa questão também!

 

--Ah, Letícia, quanto a isso ninguém melhor que você pra nos explicar! -- Sabrina respondeu -- Vem aqui! -- chamou sorrindo

 

Camille olhou para ver quem seria a tal mulher e se surpreendeu com a bela negra, de seus 35 anos, e longas tranças afro.

 

--Pra quem não conhece, e creio que sejam pouquíssimos a não conhecer essa figura, -- Sabrina apontava para Letícia que se encaminhava para perto dela --  apresento Letícia Avelar, doutora em física, e professora da UFRJ. Sabe tudo e mais um pouco sobre muita coisa, pena que tenha medo de altura! -- riu

 

--Considerando que altura pra você é sempre acima dos 5000m, eu morro de medo mesmo! -- sorriu -- Obrigada pela apresentação tão generosa. -- olhou para os presentes -- Boa tarde, gente! O assunto lixo é muito importante porque se vincula à cidadania de um lado e à política energética de outro, pois toda forma de produção de energia gera algum tipo de resíduo e impacta o meio ambiente. -- olhou para a escaladora -- Eu deixo a parte da cidadania contigo, tá legal? -- piscou para ela

 

--Como quiser! -- respondeu sorrindo

 

--Resumindo da melhor forma que eu possa... -- voltou a olhar para a platéia -- Os resíduos nucleares são divididos em três classes, que variam segundo o nível de radioatividade emitida. A primeira é a dos rejeitos de baixa atividade, que seriam as fontes usadas na medicina e na indústria, máquinas e materiais com resíduos radioativos, do tipo, papéis, flanelas, panos de limpeza, peças de vestuário etc. Os rejeitos de média atividade compreendem as resinas iônicas, as lamas químicas e os revestimentos metálicos do combustível nuclear das usinas. Já os rejeitos de alta atividade resultam do combustível descarregado dos reatores. São altamente radioativos e contêm atividade de vida longa.51 Quer dizer, duram tempo pra caramba, mais do que a gente consegue se manter vivo em uma encarnação!

 

--E como se dispõe desse tipo de resíduo? De todos os três tipos, quero dizer? -- Camille perguntou

 

Letícia olhou para ela e pensou: “Nossa, que garota bonita!” -- preparou-se para responder -- Bem, os rejeitos de baixa e média atividade das usinas são armazenados em tambores metálicos que, por sua vez, são colocados em blocos monolíticos de concreto capazes de garantir seu isolamento por vários séculos. A guarda definitiva desses recipientes é feita em repositórios construídos na superfície. Existem vários repositórios desse tipo no mundo, e no Brasil temos o repositório de Abadia de Goiânia, que recebeu os rejeitos do acidente com o Césio-137, em 1987. -- pausou -- Os rejeitos de alta atividade são resfriados por um período mínimo de 10 anos em piscinas especiais localizadas dentro das próprias usinas. Esse processo pode ser estendido por até 40 anos, que é o tempo médio de vida de um reator. Trata-se de uma prática adotada em usinas nucleares do mundo inteiro.51,52

 

--Meu Deus! -- Camille arregalou os olhos -- E depois que resfria? Faz o que com esse resíduo? Não dá pra reprocessar?

 

--Pode ser reprocessado, sim, e isso foi uma prática recorrente até metade da década de 70; acho que a tendência é que se volte a fazer isso. -- pausou -- Atualmente o que acontece é que depois de resfriado o combustível é preparado pra armazenagem intermediária ou definitiva. Nesse último caso, o material é acondicionado em cápsulas metálicas, soldadas e lacradas, que são colocadas em repositórios subterrâneos de grande profundidade, localizados em áreas com baixa probabilidade de abalo sísmico, baixo índice pluviométrico e pouca densidade populacional.51, 52 -- pausou -- A real é que na dura, na dura, ainda não existe no mundo nenhum repositório definitivo em funcionamento. -- sorriu -- A previsão mais recente é que a capacidade nuclear deva dobrar até 2050, com a construção de novas usinas e a ampliação da vida útil das já existentes. Com isso, a questão do destino dos rejeitos torna-se muito mais urgente. A boa notícia, no entanto é que o setor nuclear deposita grande expectativa em uma nova geração de reatores que permitem encurtar significativamente a meia vida dos rejeitos de alta atividade. São conhecidos como reatores híbridos, por sua capacidade de, ao mesmo tempo, gerar energia e “incinerar” os resíduos produzidos, transmutando elementos radioativos para reduzir fortemente o seu ciclo de vida. Há unidades operando em escala-piloto nos Estados Unidos, Japão e França. 51, 52

 

--Você falou do procedimento adotado pelas usinas, mas e quanto aos hospitais, à indústria e aos demais segmentos que de uma forma ou de outra se utilizam de radioisótopos? -- um rapaz perguntou

 

--Aí é que tá! Tem de tudo! -- Letícia respondeu -- No nosso país, o manuseio, o armazenamento e a disposição final do lixo radioativo está a cargo da Comissão Nacional de Energia Nuclear, conhecida como CNEN. A CNEN trabalha duro na fiscalização mas não dá pra dizer que todo mundo faz o certo e, cá pra nós: tem muita coisa errada por aí! Tem gente que parece que nasceu pra picaretagem!

 

--Gente, que perigo! -- uma mulher exclamou apavorada -- Estamos à mercê de contaminação radioativa e nem temos noção disso!

 

--Não é motivo pra gente entrar em pânico, mas a questão do lixo nuclear tem que ser discutida com muita seriedade no seio na sociedade! Até hoje não temos um cadastramento dos tipos de resíduos gerados por empresas, hospitais, clínicas e por aí vai! -- Letícia afirmou -- E eu digo outra: vocês sabiam que vira e mexe o Brasil recebe lixo radioativo de outros países? Um Projeto Nacional sério tem que proibir terminantemente que isso aconteça!

 

--Ah, mas é uma pouca vergonha! Esses gringos acham que a gente é o que? -- uma mulher se levantou e colocou as mãos na cintura -- Essa sem vergonhice tem que acabar!!

 

--Eu também acho! -- respondeu enfática -- Sabrina, -- olhou para a escaladora -- precisamos estudar melhor o assunto pra chegar com uma proposta que abranja esse problema também!

 

--Eu tô à disposição! -- Sabrina respondeu

 

--Eu iria além disso! -- Camille interferiu -- Precisamos mesmo investir em energia nuclear? Isso é energia limpa com todo esse passivo ambiental? Por que não investimos mais na energia eólica, na energia das marés, na biomassa, na energia solar? Essas tecnologias são caras porque ninguém quer botar a mão no bolso pra investir de verdade e, conseqüentemente, baratear os custos! Muita coisa já teve custo proibitivo e tá aí no nosso cotidiano! Vide o caso do nylon!

 

--Essa é uma discussão que sempre me divide muito! -- a professora respondeu --Metade de mim é contra e metade é a favor. -- sorriu -- Mas não vamos perder o foco da discussão. Se quiser conversar comigo sobre energia nuclear estarei a sua disposição quando o debate acabar. -- ofereceu

 

“Por que isso me pareceu uma cantada?” -- a loura pensou -- "Mas vinda da parte de uma mulher dessas não seria nada mau...” -- sorriu também

 

--Pronto, mulher das montanhas! -- Letícia descia do púlpito -- A palavra volta a ser sua! -- as pessoas aplaudiam a jovem professora por sua explicação sobre rejeitos nucleares

 

--Muito oportuna a sua intervenção, Letícia. E eu vou aproveitar aquilo que você falou sobre a ligação entre lixo e cidadania. -- olhou para todos -- Quando você desperdiça recursos, seja comida, água ou energia elétrica, quando você se desfaz de coisas boas que poderiam ser aproveitadas por outra pessoa ou quando você simplesmente joga um papelzinho de bala no chão, além de estar gerando lixo, você contribui para a degradação acelerada dos recursos do planeta! E pra degradação do planeta em si! -- pausou -- Gente, nós precisamos aprender a consumir na medida da nossa necessidade REAL! Necessidade real e não aquela que a mídia quer que você pense que tem! Se cada um de nós aqui consumir os recursos com consciência, nossas contribuições somadas farão uma diferença ENORME pro planeta! -- saiu do púlpito e começou a circular pelo auditório -- Vamos evitar de deixar a torneira aberta à toa e os eletrodomésticos em modo standby! Vamos reduzir o tempo de chuveiro ligado! Vamos colocar no prato restritamente a quantidade de comida que a gente vai comer! Vamos dar preferência aos produtos reciclados, às embalagens retornáveis! Vamos oferecer os bens que a gente não quer mais a quem possa fazer bom uso deles! Vamos acabar com o hábito feio e triste de jogar lixo no chão! -- olhou para uma moça que mascava chiclete -- Você sabia que o chiclete jogado no chão atrai os passarinhos por causa do açúcar e eles acabam morrendo asfixiados porque os caquinhos de goma que eles bicam lhes entala na goela?

 

“Ô louco!” -- Camille pensou com os olhos arregalados -- "Quantos passarinhos matei sem saber na adolescência!”

 

***

 

Camille e Letícia conversavam em um barzinho. Já estavam lá há mais de duas horas.

 

--Eu tô impressionada com a aula que você me deu sobre energia nuclear! -- a loura respondeu olhando para a outra -- E o mais interessante foi que você me passou as duas visões: pró e contra!

 

--Pra que você não diga que eu sou tendenciosa. -- sorriu

 

--Mas uma física nuclear não ser tendenciosa é meio difícil...

 

--Não... Trabalho com microfluorescência de raios X, uma coisa meiga e bem mais inofensiva que energia nuclear! Sou uma investigadora do que se esconde no íntimo dos materiais. -- bebeu um gole de suco -- Chega a ser algo poético! -- piscou para ela

 

A engenheira riu. Achava Letícia a típica mulher que joga charme quase compulsoriamente, mas não podia negar que ela era interessante.

 

--Posso te fazer uma pergunta indiscreta?

 

--São as minhas preferidas! -- sorriu

 

--Já rolou alguma coisa entre você e Sabrina, não foi?

 

A professora riu e encarou com a loura. -- Você é extremamente observadora, não é? -- bebeu o último gole do suco -- Rolou sim. Foi no ano passado.

 

--Não rola mais? -- perguntou curiosa

 

--Sabrina é interessante, dinâmica, quente... mas não dá pra manter um relacionamento com alguém que é completamente apaixonada por uma garota que já morreu! -- pausou -- Aí eu quis terminar e ficou a amizade.

 

--Hum... -- terminou o suco também -- E na faculdade? Aposto que deve haver uma pá de garotas interessantes por lá... -- arriscou

 

--Eu não misturo as coisas. Pra ficar com alguém da faculdade teria que ser o amor mais louco e irresistível do mundo! Não gosto de problemas desnecessários. -- pausou -- E sendo lésbica haveria ainda muita fofoca! -- sorriu -- E você? Uma garota interessante, inteligente e gatíssima como você deve ter uma fila de espera fazendo plantão na porta.

 

Camille corou. -- Que nada! -- abaixou a cabeça

 

--Talvez porque não esteja prestando atenção ao que se passa ao seu redor. -- levantou o rosto dela segurando-lhe delicadamente pelo queixo -- Durante a palestra eu vi a maior parte das mulheres reparando em você com interesse.

 

--Que é isso? -- respondeu constrangida -- Eu não percebi nada disso!

 

--Eu percebi porque também estava de olho em você. Tinha que prestar atenção e sentir minhas possibilidades. -- olhava para ela sedutoramente

 

“Gente, ela vai direto ao ponto!” -- a loura pensou constrangida e ao mesmo tempo lisonjeada -- Aposto que você deve ficar de olho em várias garotas. -- respondeu sorrindo

 

--Não vou te dizer que sou santa, porque não é verdade, mas... quando namoro sou fiel! -- sorriu

 

--Você tem o maior jeito de cafajeste! -- falou sem meias palavras

 

Letícia riu. -- Gosto da sua sinceridade. Você é o tipo de pessoa que a gente pode ter certeza de com quem está lidando. -- segurou uma das mãos dela -- Não adianta eu te dizer que não sou, você precisa me dar a chance de me apresentar.

 

--Eu já te contei um resumo da minha história de vida. -- recolheu a mão receosa -- Você não me contou a sua.

 

--Pois não! -- apoiou os cotovelos na mesa e ficou olhando fixamente para a loura -- Eu sou filha única, nascida e criada no Engenho de Dentro, minha mãe morreu quando eu nasci e fui criada por meu pai, que foi um pai espetacular! Ele era soldador, mas não tinha muita instrução e não conhecia os perigos relacionados a seu trabalho. O coitado acabou ficando cego aos 45anos pelo excesso de radiação ultra violeta dos processos de soldagem. Na época eu tinha dezessete anos e havia acabado de terminar o segundo grau. Trabalhei como caixa de supermercado pra sustentar a casa enquanto estudava física à noite. Isso durou por cinco anos. Meu pai morreu dois dias depois que me formei...

 

--Sinto muito! -- respondeu penalizada

 

--Foi depois disso que eu virei budista. Do contrário, a revolta e a dor acabariam comigo! -- pausou -- Fiz mestrado na França e doutorado no Japão e na Índia. Foi uma espécie de sanduíche entre os dois países. -- riu -- Loucura completa!

 

--Nossa! -- exclamou impressionada

 

--Depois do doutorado fiquei ainda mais um ano na Índia trabalhando no Indira Gandhi Centre for Atomic Research, voltei pro Brasil, fiz pós doutorado na UNICAMP e quando soube do concurso pra UFRJ, me inscrevi, passei e comecei no ano passado. -- sorriu -- Moro sozinha, tô solteira, gosto de trabalhar mas não sou viciada nisso, gosto de música, gosto de ler, gosto de política e gosto de fazer caminhada; escalada tô fora... o que mais? -- pensou -- Gosto de mulher! De todo tipo, cor e raça. Nova, coroa, tanto faz! O que interessa é a pessoa que ela seja!

 

--Tô impressionada! Uma garota pobre que conquistou tantas coisas! -- sorriu -- Nunca conheci uma pessoa que tendo um currículo tão poderoso quanto o seu, fosse tão simples e simpática! Vejo gente com muito menos conhecimento ser metido de doer!

 

--A gente nasce e morre do mesmo do jeito. Não vê isso quem não quer! -- pausou -- Você me contou sua história de vida, e eu também fiquei muito admirada contigo, mas não me falou sobre o que gosta...

 

--Ah, eu... Eu gosto de ser desafiada profissionalmente, gosto de empreender, gosto de nadar, de ler, de escrever... não sei mais o que dizer... -- respondeu sem graça

 

--E você escreve alguma coisa? Assim, algum romance, não sei...

 

--Escrevo... -- ficou mexendo no canudo -- Já escrevi cinco contos...

 

--Sério? E qual é o seu pseudônimo?

 

--Ah, Letícia, até parece que alguém como você perde tempo lendo contos lésbicos na internet! -- respondeu olhando para o copo

 

--Pois eu leio! Não é todo dia, não é sempre, mas leio. Atualmente sou até bem fiel a uma escritora chamada Crisálida. -- comentou e a loura olhou para ela em choque -- O que foi? -- perguntou desconfiada -- Não gosta dela? Acha romântica demais?

 

--Sou eu!

 

--Meu Deus! -- ajoelhou-se diante dela sorrindo -- Casa comigo, vai?

 

--Pára com isso! -- deu um tapinha no braço dela e cobriu o rosto com as mãos

 

***

 

Letícia deixava Camille na porta de casa. -- Quando é que eu te vejo de novo? -- perguntou

 

--Ah. -- olhou para as mãos -- Letícia, eu... não quero que pense bobagens por conta das coisas que eu escrevo...

 

--Como assim, pensar bobagens? -- não entendeu

 

--Até hoje eu só estive com uma mulher e uma única vez. -- continuava olhando para as mãos -- Não sei se quero estar com outra. -- sentiu as bochechas queimarem

 

--Hum... -- segurou o rosto dela com delicadeza fazendo com que lhe olhasse -- Ainda assim queria saber quando te vejo de novo. -- sorriu -- Só quando meu carro escangalhar? -- brincou e soltou o rosto da loura -- Eu posso bater com ele de propósito pra ter que ir numa tal de ESSALAAM.

 

Camille riu. -- A gente vai conversando... -- não sabia o que dizer

 

--Tá, a gente vai... mas eu sou uma mulher de argumentos, fatos e coisas assim. Quero que tenha no que pensar enquanto isso! -- olhou no fundo dos olhos dela

 

--O que quer dizer? -- perguntou sobressaltada

 

Sem que esperasse Letícia tentou beijá-la, mas a loura conseguiu impedi-la a tempo. Sentiu o coração disparar quando a mão dela tocou-lhe no seio. --Ei! -- deu um tapa na mão da outra -- Deixa de ser tarada, meu! Ô louco, que mina safada! -- reclamou -- Além de querer me beijar ainda vem pra cima de mim cheia das mão!

 

Letícia riu. -- Não fica zangada, vai? -- pediu cheia de charme

 

--Você não vale nada, Letícia Avelar! -- abriu a porta do carro -- Eu hein, não se pode confiar em ninguém! -- saiu e foi andando revoltada sem olhar para trás

 

A professora ficou olhando para a loura até que entrasse em casa e sorriu. Ligou o carro e disse para si mesma: -- Você é uma gracinha, Camille! E eu fiquei bem interessada... -- foi embora

 

***

 

Letícia entrava na ESSALAAM com um buquê de rosas nas mãos e um livro sobre gestão empresarial. Seyyed logo percebeu sua chegada e estranhou. “Quem será essa daí?” -- pensou intrigada e foi abordar a mulher -- Boa tarde! -- cumprimentou -- Procura por alguém?

 

--Sim! -- sorriu -- Camille trabalha aqui, não é? -- olhou ao redor -- À propósito, é uma oficina maneira, tudo limpo, sem mulher nua nas paredes! -- olhou para Ed -- Tem jovens especiais também, achei bem legal! -- comentou com sinceridade e admiração

 

--Obrigada! -- continuava desconfiada -- A oficina é minha! -- estendeu a mão -- Eu sou Seyyed, amiga e patroa de Camille, e você é...?

 

--Letícia, -- apertou a mão da outra --  a futura namorada dela! -- respondeu convicta -- Ai!! -- sentiu o aperto forte da mecânica e soltou a mão dela -- Nossa, você tem a mão pesada! -- chacoalhou a mão dolorida

 

“Mas que papo é esse de futura namorada????” -- pensou chocada -- "Camille é lésbica mesmo?? E tá paquerando essa maluca aí??”

 

--Letícia?! -- Camille apareceu e perguntou surpresa -- O que faz aqui? -- aproximou-se

 

--Vim conversar contigo! Calculei que, pelo horário, seu expediente estaria se encerrando então minha visita não seria muito inconveniente. -- sorria estendendo as flores e o livro -- São seus!

 

--Ah! -- ficou corada ao receber os presentes -- Será que podíamos ir para minha sala? -- olhou para Seyyed -- Com licença, Ed! -- retirou-se sendo seguida pela professora

 

“Ah, mas eu vou ouvir isso aí!” -- a morena correu para a sala ao lado

 

--Belas flores! Também gostei do livro... -- estava encabulada com aquela visita repentina -- Não esperava por essa visita. -- colocou os presentes sobre a mesa e olhou para a outra desconfiada

 

--Eu queria ter vindo logo na segunda mas não deu porque tinha uma ida marcada pro síncrotron de Campinas, na terça tinha a apresentação do seminário de mestrado de um orientado meu, na quarta eu tava numa banca de doutorado e ontem havia um bocado de prova pra eu corrigir... -- aproximou-se dela -- Eu achei que se passasse na tua casa você não iria gostar muito disso... -- olhava nos olhos da mulher mais jovem

 

“Então essa metida sabe onde Camille mora?” -- Ed pensou intrigada enquanto mantinha o ouvido colado na parede -- "Da onde veio essa??”

 

--Com certeza, não! Podia ter telefonado, coisa que você não fez!-- afastou-se e ficou de costas para ela -- Ainda não entendi qual é a sua!

 

--Queria pedir pra você não ficar zangada comigo. E certas coisas têm que ser ao vivo e não por telefone! -- aproximou-se dela e falou quase em seu ouvido -- Embora eu não me arrependa nem um pouquinho por ter tentado te beijar...

 

“O que????????” -- a morena arregalou os olhos

 

--Você é muito abusada, Letícia! -- afastou-se novamente e ficou de frente para ela -- Eu não te dei confiança pra vir cheia dos beijos e das mãos pra cima de mim. Parecia até uma polva tarada, ô louco!

 

“Ah, mas essa maluca merecia tomar uns cacetes pra deixar de ser abusada!!” -- Seyyed se revoltava

 

--Não queria que você se sentisse tão invadida e quanto a isso me desculpo. -- aproximou-se novamente -- Mas não é motivo pra ficar zangada. -- sorriu sensualmente -- Dá uma nova chance pra mim, vai? -- pediu -- Vou mais devagar com você.

 

--Vou pensar no seu caso! -- fez um charminho -- Aliás, o que você falou pra Ed que ela tava abestalhada com a boca aberta no meio da oficina?

 

--Eu falei pra ela a verdade, ou seja, que eu sou sua futura namorada! -- continuava sorrindo

 

A loura arregalou os olhos. -- O que??? Você disse isso?? -- andou pela sala

 

--E o que é que tem? Ela é sua chefe mas não tem nada com sua vida!

 

“Pois sim, que não tenho!” -- pensou revoltada

 

--Eu não sou assumida, Letícia! Você não devia ter feito isso! -- cruzou os braços de cara feia

 

--Eita, que eu fiz besteira... Tá mais zangada ainda, né? -- fez uma careta divertida

 

“Pensando bem, foi bom que ela tivesse dito isso pra Ed...” -- a loura reconsiderou -- Não... desde que me prometa que será mais discreta daqui pra frente!

 

--Totalmente! Discretíssima! -- aproximou-se dela e convidou -- Sai comigo hoje? Conheço um barzinho legal na Lapa onde a gente pode ouvir um sambinha de raiz de primeira! Dá pra conversar, beliscar alguma coisinha, dançar um pouco...

 

--Hoje não! Mas quem sabe...

 

--Amanhã! -- propôs

 

--Amanhã? -- riu

 

--Por favor, vai! Eu prometo que não tento te beijar! -- pausou -- A menos que você queira, é lógico! -- sorriu. Os rostos estavam muito próximos

 

“Mas é um tipinho muito da cafajeste!” -- Ed deu um soco na parede

 

--Que foi isso? -- Letícia perguntou intrigada

 

--Sei lá! -- Camille respondeu olhando para a parede. Em seguida se afastou da outra mais uma vez -- Amanhã eu te respondo se vou ou não. E pára de vir andando pra cima de mim, tá? --  falava como se sentisse ameaçada

 

Letícia riu. Achava bonitinho aquele receio dela. -- Eu vou te ligar pra perguntar! -- sorriu -- Mas... e agora? Posso te levar pra casa? -- ofereceu

 

--Se você se comportar... -- sorriu

 

--Prometo! -- beijou os dedos em forma de cruz

 

--Deixa eu só desligar o computador. Já passei da hora mesmo!

 

A loura pegou suas coisas, saiu da sala e foi embora com a professora.

 

“Isso aí é piranha velha! Cobra criada demais pra Camille! Mulherzinha besta!” -- deu outro soco na parede -- "Hum, esse doeu...” -- balançou a mão

***

Lady e o namorado estavam deitados lado a lado em um lençol estendido no quarto da moça.

 

--Eu quero os dentes dela! -- ele exclamou empolgado quebrando o silêncio

 

--De quem? -- perguntou sem entender

 

--Da sua amiga mística! Ela tem os dentes bem branquinhos e ainda tem os quatro cisos! Eu quero eles na minha coleção!

 

--Ah, meu filho, esquece isso! Daquela boca só sai kaô, dente que é bom, nada! -- ela respondeu enfática -- Mas... vamos falar de coisas melhores! -- sorriu e virou-se de lado para olhar para ele -- Quando a gente casa, hein? Até agora você nem se mexeu! -- cobrou -- O tempo urge!

 

--Mas eu não penso em me casar nem tão cedo! -- afirmou olhando para ela

 

--Ué?? -- perguntou chateada -- Mas nós somos noivos!

 

--Ah, mas ficar noivo é mole. Duro é casar! -- sentou-se -- E a gente nem trans*... -- reclamou

 

--Eu só faço depois de casar! -- sentou-se também e fez cara feia

 

--Você é virgem? -- perguntou empolgado

 

--Não! Mas só faço depois de casar!

 

--Ah, Lady! -- levantou-se e pegou a mochila -- Você não trans* comigo, não curte um cemitério, tem medo da minha coleção, nunca me arrumou um dentinho sequer das suas amigas... -- olhou para ela -- Sabe, eu me deixei levar pela tua aparência heavy mas você não tá com nada! Não é mulher pra mim! -- colocou a mochila nas costas

 

--O que quer dizer? -- levantou-se -- Por que já tá até de mochila nas costas? -- perguntou nervosa

 

--Porque eu vou embora! -- foi para a sala

 

Ela correu atrás e segurou no braço dele. -- Por favor, Tiel, fica! Não há motivo pra isso! A gente se dá tão bem... -- falava com lágrimas nos olhos

 

--Lady, cai na real! -- desvencilhou-se dela -- Acabou!

 

--Mas... -- lamentava

 

Ele olhou para ela com atenção e pediu: -- Me dá um pedaço teu pra minha coleção? Pode ser mecha de cabelo! -- sorriu diabólico

 

--Eu não! -- afastou-se dele assustada

 

--Humpf! Você é muito fraca mesmo, viu? Bem disseram meus amigos! -- abriu a porta -- E não perca seu tempo me procurando. -- reconsiderou -- A menos que seja pra me dar um dedo daquela tua amiga esquisita que sobe morro! -- saiu batendo a porta

 

Lady encostou-se na porta chorando e deslizou lentamente até cair sentada no chão.

 

***

https://www.youtube.com/watch?v=Lw4h-vVkwTk

Priscila chegava em casa e desde o corredor podia ouvir a interpretação de Lady junto à cantora que berrava no rádio: -- Meu amor era verdadeiro, o teu era pirata, ai, ai, ai, o meu amor era ouro, e o teu não passava de um pedaço de lata!!! AHAHAHAHAH!! -- berrava -- Ô, vida ingrata! Sina bandida de uma solteirona, meu Pai, ai, ai, ai!!!

 

“Mas que diabo é isso?” -- a dentista se perguntava -- "Humpf, já sei! Satã Júnior terminou com ela!” -- concluiu -- “Só pode!”

 

--Meu amor era rio, e o teu não formava uma fina cascata, ai, ai, ai, o meu amor era de raça, e o teu simplesmente um vira-lata!!! AHAHAHAHAHAHAHAH -- continuava cantando e berrando -- Trocada por um dedo, meu Pai, um dedo, ai, ai, ai!!!

 

“Como é???” -- Priscila entrava no próprio quarto intrigada

 

--Ex my love, ex my love, se botar teu amor na vitrine, ele nem vai valer um com noventa e nove!!

 

--Gente, mas da onde ela me  arruma isso? -- a morena entrava no banheiro para tomar banho

 

--Ex my love, ex my love!!!! Se botar teu amor na vitrine, ele nem vai valer um com noventa e nove!! AHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!!!! -- gritou quase possuída

 

--Minha nossa! -- a dentista reclamava debaixo do chuveiro -- Deus queira que esse ano acabe logo, eu vá pro Canadá e passe um ano maravilhoso sem Lady!!!

 

E de repente, outro som se faz ouvir: -- Aummmmmmmmmmmmm!!!!!

 

--E Lila, é claro! -- complementou

 

Priscila se vestiu e lanchou tranquilamente na cozinha. Prevenida que se habitou a ser, colocou protetores auriculares nos ouvidos e pôde se privar de ouvir o som dos lamentos de Lady e dos ‘aums’ de Lila. Após lavar sua louça e voltar para seu quarto, de repente lhe pareceu que tudo se tranqüilizou. Desconfiada, retirou os protetores dos ouvidos e percebeu que as duas colegas de apartamento conversavam no quarto de Lady.

 

“Na certa Lila tá convencendo a outra a comprar alguma quinquilharia ou tratamento místico e isso acalmou os grunhidos ladyanos!” -- deduzia -- "Uff, posso descansar em paz antes de ler meu livro!” -- deitou-se na cama

 

--Lady, eu realmente me preocupo com o que se passa contigo! Sou mulher viajada, conheço gente até não mais poder e nunca vi alguém como tu! -- Priscila ouvia Lila dizer

 

“Nem eu! Essa garota é a criatura mais sem noção e ridícula da face da Terra!” -- a dentista concordava com a mística

 

--Eu sofro muito, amiga! E o tempo passa, faço 25 neste ano e mais longe fico do altar da igreja... ai, ai! -- suspirou -- Eu não posso chegar aos 30 solteira! Seria humilhação demais! Todas as  minhas primas já estão casadas e reproduzidas!

 

--E o que tem isso? Tu precisas melhorar a auto estima! Teus namorados são sempre figuras que não te acrescentam em nada! Lady, não podes determinar de antemão se vais casar ou não com uma pessoa porque namoram. É preciso conhecer, identificar afinidades, construir alguma coisa, dialogar bastante, negociar posturas pra vida a dois e só aí casar!

 

“Humpf! Até que de vez em quando Lila diz coisa com coisa!” -- a morena pensou

 

--Ah, mas se eu fizer isso aí vou casar com quantos anos, filha? Tá difícil, viu? -- reclamou

 

--Tu estás totalmente equivocada! Olha teu desempenho na faculdade! Já me disseste que o ano passado foi tri pesado e tu perdeste várias matérias. Quando vais te formar, hein, guria?

 

--Ô, Lila, você fica quieta porque eu nem sei que faculdade é a tua! -- protestou -- Nem sei o que você faz da vida além de enrolar o povo!

 

“Toma, Lila!” -- Priscila ria

 

--Mas, bá, vamos voltar ao assunto principal, que não era esse! -- pausou -- Precisas ler coisas interessantes, guria! Que tal comprar um livro de auto ajuda que eu trouxe diretamente de Calcutá? Por apenas cem reais você adquire esse cabedal de sabedoria...

 

--Lila, não me enrola!!! O livro tá em português, não mente!! -- reclamou -- Além do mais não tenho um tostão na bolsa!

 

“Até que Lady deu uma dentro!” -- a morena pensou

 

A mística suspirou. -- Lady, tu precisas ao menos de um modelo feminino pra te mirar! Não existe uma mulher interessante que te desperte admiração? Alguém cujo exemplo te faça bem?

 

“Imagino quem será! Alguma doida sem noção e tão ridícula quanto ela!” -- Priscila revirou os olhos

 

--Claro que tem! Mas não tenho condições de chegar aos pés dela! -- respondeu com tristeza

 

--Vejamos! Quem seria?

 

A dentista prestava atenção e aguardava a resposta curiosa.

 

--Priscila.

 

“Eu?!” -- pensou chocada

 

--E por que achas que não podes chegar aos pés dela, guria?

 

--Ah, Lila, sejamos sinceras! Priscila é descolada, inteligente, culta, bem sucedida, bonita, charmosa... Ela vai pro exterior no final do ano pra estudar não porque seus pais pagaram, mas porque vai conseguir uma bolsa por mérito de sua competência. Os homens caem aos pés dela, que não casa porque não quer, ela sabe se comportar, sabe se apresentar... Agora olha pra mim: não passo de uma caipirona burra, desinteressante e ridícula que nunca vai realizar o sonho de casar... -- falava com voz chorosa -- Eu queria um amor, queria fazer uma família, mas não tenho competência nem pra arrumar um namorado decente! Não é à toa que Priscila me detesta, quem gostaria de alguém como eu?

 

A morena sentou-se na cama. Estava transtornada ao ouvir aquilo. Nunca imaginava que Lady a admirasse tanto e sentiu-se muito mal por nunca ter tido com ela uma atitude mais cortês ou mesmo simpática.

 

--Até aí nada, guria! Priscila também me detesta!

 

--Porque você não é companheira da gente! Você enrola pra pagar o aluguel e ainda vende nossas coisas! E não me venha com suas citações e gestuais estudados porque eu sei que você vendeu meu anel que Fernando me deu e a Pashmina dela!

 

--Mas, bá, tchê, o que é isso, guria? -- perguntou constrangida

 

--Eu sei que vendeu! Todo mundo aqui sabe! É hora de ter vergonha na cara, Lila! Devolva a Pashmina da Priscila! -- exigiu -- Se fizer isso, eu esqueço que roubou meu anel!

 

Priscila permanecia chocada com o que ouvia.

 

--Olha, Lady, eu me lembrei que tenho uma aula de pompoarismo tântrico pra dar. Depois a gente conversa, guria! Tchau!

 

A morena pôde ouvir o barulho da porta da sala e percebeu que Lila havia ido embora. Lady novamente ligou o rádio e começou a cantar e chorar, mas dessa vez Priscila não se aborreceu. Na verdade ela até sentia vontade de abraçar a colega de apartamento e pedir para que não se considerasse tão ridícula e indigna de amor como se sentia, mas acabou preferindo nada fazer.

 

“Bem que Isa sempre disse que, mesmo sem saber, somos exemplo pra alguém...” -- pensava com pena de Lady

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Músicas do Capítulo:

Lady canta doidamente a música Ex Mai Love. Intérprete: Gaby Amarantos. Compositor: Veloso Dias..

 

[a] Declaração de Amor. Intérprete: Banda Calcinha Preta. Compositores: Chrystian Lima / Edu Luppa. In: Calcinha Preta Premium: Bem-Vindo à Nossa História. Intérprete: Banda Calcinha Preta. 2013. 1 CD, faixa 16 (3min18). Não encontrei a gravadora

 


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Comentários para 19 - Quarta Temporada - TRANSFORMAÇÕES V:
NovaAqui
NovaAqui

Em: 17/06/2024

Mariangela é louca e Flávia adora KKK as duas se completam kkkk

Que fofo! Lady é fã de Priscila! Legal isso! Pena que ela é chatinha! Eu também não aguento ela, Sabrina kkk

Amei a participação da Solitudine! Essa autora Crisálida é figura! Como assim Sol têm inveja dela? Ô louco! Kkkk


Solitudine

Solitudine Em: 20/06/2024 Autora da história
Olá querida!

Flávia já gosta de uma bagunça! E Mariângela é maluquinha que nem a filha! rs

Priscila passou por grandes provações: doideiras de Lady e picaretagens de Lila. Aí... "fofiou"! rs

Solitudine entrou para zonear ainda mais a vida dessa mulherada de Maya! E a dela própria, inclusive! kkk Que bom que você gostou de ver a caipira mostrando as fucinhas nesse trem! Crisálida foi quem não gostou muito, à princípio! rs

Beijos,
Sol


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jake
jake

Em: 24/03/2024

Oie Sol !

Sabrina  e Letícia dão aula... adoro Ju e Ivone .Amo a participação da autora Solitudine ,da pra conhecer um pouquinho dela rsrsr enfim acho q Camile vai dar uma chance pra Letícia e se permitir viver algo .Continuo sob os encantos de Maya. Até deixei em stand by outras autoras...Parabéns....


Solitudine

Solitudine Em: 24/03/2024 Autora da história
Olá querida!

Sabrina tem estudado muito e Letícia estuda bastante, a profissão dela exige. Vamos ver se Camille vai dar uma chance a essa professora ou não.

Solitudine e Samira entraram nessa história por um pedido de uma leitora na época. Esse conto foi interativo e eu dava meu jeito para atender ao que as meninas queriam. Mas lembre-se: Jasin Solitudine é um perfil fake, então não seria exatamente eu.

Nossa, é mesmo? Fico honrada com tamanha preferência! Obrigada!

Beijos,
Sol


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Samirao
Samirao

Em: 07/10/2023

De presente de despedida vou revisar tudo pra vc habibem


Solitudine

Solitudine Em: 11/11/2023 Autora da história
Obrigada!


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Samirao
Samirao

Em: 07/10/2023

Apaguei Mays do Lesword. Um dia posta lá de novo que não tem mais rata. Não é esse o vocabulário caipiresco? Huahuahua 


Solitudine

Solitudine Em: 11/11/2023 Autora da história
Vixe, eu vi que você apagou o trem todo! Só Deus sabe quando vou postar aquele tanto de novo, Ave Maria!


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Samirao
Samirao

Em: 12/02/2023

Vou recompor todos os sumidos pra manter a conta


Resposta do autor:

kkk Ai, ai

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Samirao
Samirao

Em: 12/02/2023

Eu não entendo porque essa besteira de um dia cismar e apagar os coments. Essas suas amigas hein habibi?


Resposta do autor:

Deixe de peitica!

Responder

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Seyyed
Seyyed

Em: 13/09/2022

Priscila não engole a Lady e... é a musa da maluca! Hehe Cara eu não gostava da Priscila mas coitada a sina é bandida! hehe

Tô devorando essa história. Pena que tenho que trabalhar...


Resposta do autor:

Priscila tem seus preconceitos e um senso de praticidade meio ácido, não? Lady admira isso. E a sina bandida é aquilo! kkkk

Eu entendo. Também tinha dificuldade em parar de escrever.

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 13/09/2022

Tu quer botar uma tensão no meu casamento né? Cami já ganhou pra hoje então é no stress Hehe

E as investigações continuam ADORIOO


Resposta do autor:

Calma, menina. Esse seu casamento tem um chão pela frente.

Camille estava em sua busca e autoconhecimento.

As investigações deram pano para manga! 

Beijos,

Sol

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Atrevida
Atrevida

Em: 27/04/2022

Tu é muito porra louca mas tuas história gigante são muito foda! Aqui nessa tem umas preta de responsa! Só te falta colocar mais preta nas histórias pra ficar perfeita. Mas eu vou te dar moral só por causa da Tati e das mana


Resposta do autor:

Olha ela aí de novo! 

Você deve estar gostando, pois apareceu em todos os contos! Fico feliz que tenha maratonado tanto. Especialmente por achar que as histórias são gigantes! rs Tudo bem, a caipira escreve com fé! kkk

É a primeira vez que dizem que sou isso de porra louca. Não sei se é bom ou ruim, mas então está então! rs

Você sente falta de um protagonismo maior das negras, não? É verdade, agora percebi que preciso fazer isso.

Farei, mesmo que demore! Tem minha palavra. E desculpe por este vacilo.

Beijos,

Sol

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Samira Haddad
Samira Haddad

Em: 23/04/2020

Ah lembrei das facetas! Uauauaua


Resposta do autor:

Você tem informações privilegiadas. Não vale! :P

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 20/04/2020

Não gosto do pastel de bacalhau sou um nojo pra comer né? Kkkkk... Em compensação me acabo no sanduíche de mortadela. 

Arruma um tempinho aí, por favor! Please...


Resposta do autor:

Eu não como embutidos e nem cortes. As únicas carnes que como são frutos do mar (e dos rios). Também como ovos e queijo; duas coisas que adoro!!!

Está difícil de ter tempo, não estou de férias. Agora só para o final do ano. E isso eu nem sei, não é? Vai que tudo muda?

Beijos,

Sol

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 20/04/2020

Amoooo pastel, ainda mais de queijo!!

Viu como as  coisas mudam? 

Masssss acho que tem quimica entre Camille e Ed até hoje.


Resposta do autor:

A química não é estática. As reações se processam e depois cessam.

Eu gosto de pastel de queijo mas não como sempre. É muito raro.

No Mercado Municipal de São Paulo tem aquele pastel enorme que equivale a um almoço. Eu comi um bacalhau uma vez e adorei.

Já revisei tudo. Agora vou consertar as últimas ratas. Se achar alguma, diga-me!

Se eu não estivesse não lascada de trabalho e labutas domésticas aqui, escreveria uma novelinha mexicana só para divertir sua quarentena. Mas em Maya tem um bocado de besteirol! kkkk

Beijos!

Sol

Responder

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