Quarta Temporada - TRANSFORMAÇÕES VI
Suzana continuava com suas investigações, apesar dos poucos recursos de que dispunha, valendo-se apenas de sua experiência e de uma vasta rede de contatos.
A delegada estava em Bonsucesso, parada no ponto final de um ônibus, fingindo que esperava a condução. De repente um rapaz pára atrás dela fingindo a mesma coisa.
--Essa fila é pro rápido ou pro parador? -- ele perguntou disfarçando
--Pro rápido. E se prepara pra esperar porque acabou de sair um. -- ela respondeu
O homem carregava uma bolsa plástica de supermercado com poucas coisas dentro dela. Suzana segurava uma bolsa de mesmo tipo com carne e quatro latas de cerveja em seu interior, além de portar uma mochila. Ela colocou a sacola no chão. -- Botar isso aqui no chão porque cansa o braço. -- sorriu para ele
--Pois é. -- ele fez a mesma coisa com a sacola que trazia. Pegou o celular e fingiu que lia torpedos -- Peguei as parada que tu me pediu. -- falava baixo olhando para o telefone -- Depois dessa eu tô de boa.
Ela pegou o celular também e simulou atender a um telefonema. -- Oi, eu tô aqui esperando o maldito ônibus. -- pausou -- Ah, você conseguiu arrumar tudo que te pedi? Tudo mesmo??
--Tudo! -- ele respondeu quase aos sussurros
--Beleza, então! Agora fica tranqüilo que você tá livre de mim! -- riu
--Tô pra sair da comunidade. Amanhã mermo eu sumo! -- continuava falando baixo enquanto mexia no celular
--Procura na rodoviária aquele cara que eu te falei. -- ela dizia -- Ele vai te dar uma força, pode confiar! -- pausou -- Ah, você tá aqui perto? Praça das Nações? -- pausou novamente -- Tô indo pra aí, tchau! -- guardou o telefone e olhou para o rapaz -- Deixa eu ir que os planos mudaram! -- pegou a bolsa dele propositadamente e foi
O homem ainda mexeu mais um pouco no celular, pegou a bolsa que a morena deixou e foi embora depois de alguns minutos reclamando da demora do ônibus.
***
Suzana continuava em Bonsucesso. Estava em uma pracinha onde só haviam duas crianças brincando e a mãe delas prestando atenção a ambas. Examinava com cuidado e ao mesmo tempo disfarçadamente as coisas que o rapaz lhe trouxera. “Agora o negócio é conseguir juntar as peças desse quebra cabeças...” -- pensava -- "E quando fizer isso, o que eu faço?” -- esfregou as mãos no rosto -- "É um esquema muito pesado, envolve gente poderosa... Caraca, como eu vou conseguir fazer com que alguma coisa aconteça?” -- suspirou -- "Queria tanto trazer Brito e Macumba de volta e dar paz a meus homens... Jailson e Lemos tão a ponto de ter uma crise de nervos...”
O esquema que a delegada investigava envolvia lavagem de dinheiro e tráfico de drogas. Foi por causa de tais investigações que Suzana sofreu a emboscada que quase deu fim a sua vida.
“Eu tinha que colar com alguém da imprensa. Mas quem?” -- pensava agoniada
Levantou-se e guardou tudo dentro da mochila. Quando estava prestes a sair dali, viu uma figura conhecida que saía apressadamente de uma casa em péssimo estado. Era Ana, mãe de Isabela.
Suzana percebeu que a mulher estava vinculada a duas terríveis entidades e ficou surpresa com o fato de vê-las com tamanha clareza. Era nítido que a mãe da bailarina andava envolvida com magia negra. “Coitada...” -- balançou a cabeça pensativamente -- "Ela não sabe o que a espera...” -- pensou
A magia não é nada mais que o conhecimento de certas leis que permitem a manipulação dos fluídos do mundo astral. Manipulando forças naturais dirigidas para prejudicar suas vítimas, as pessoas que se entregam a tais práticas fazem-se acompanhar de maltas de espíritos de baixo nível mental que minam as resistências do indivíduo, enquanto eles mesmos emitem campos magnéticos de baixíssima freqüência, capazes de desagregar as defesas mentais e mesmo físicas daqueles que são objeto de sua ação maléfica. A grande procura do ser humano por milagres ou soluções sobrenaturais e imediatas para seus problemas resulta da ignorância que nos caracteriza. Procura-se ficar livre do sofrimento sem contudo querer reparar o erro que o gerou.53 Muitas vezes, nem mesmo é o sofrimento a estimular alguém a partir para esse caminho tenebroso, mas a ganância, como era o caso de Ana.
“Já que Isa não quer que a aleijadinha saia da oficina, deixemos ela por lá!” -- a mulher pensava enquanto caminhava apressada -- "De uma certa forma é até bom que fique mesmo. Ela agarra Seyyed quando minha filha dispensá-la e fica todo mundo bem!” -- sorria -- "E também não sei o que aquela desgraçada tem, que Àjé não conseguiu destruí-la como fez com a peste do coreógrafo!” -- pensou intrigada -- "Seja como for, a idéia agora é focar os esforços no sucesso do meu bebê, em muito dinheiro nos negócios de Seyyed e que Anselmo continue bem até que nós nos mudemos do Brasil. Traficante, polícia e nem ninguém há de ter condições de colocar as mãos nele!” -- planejava -- "Eu quero viver como rainha na Europa!”
***
Camille e Letícia visitavam o asilo que a loura adotou.
--Eu gostei que você tenha topado vir. Imaginei que quando eu te dissesse que hoje era dia de asilo você iria querer me dar um cano. -- a loura falou enquanto dava comida na boca de um senhor
--Não, de forma alguma. -- sorriu -- Eu achei isso lindo! -- ajudava uma senhora a fazer seu lanche
--No passado, eu comia sozinho, agora as mãos estão fracas... -- o idoso que a loura ajudava esclareceu constrangido
--Sem problemas, seu Inácio! A gente tá aqui pra isso! -- ela respondeu sorrindo
--Quando eu era novo, era telefonista e fazia mesa de PABX mais rápido que todo mundo! Acho que isso acabou com minhas mãos...
--Ih, mas que trabalho da hora! Conta pra mim como era isso! -- pediu
A professora ficou impressionada ao ver como aquela jovem mulher, aparentemente tão impaciente, podia ter tanto carinho e cuidado no trato com os idosos. “Essa garota é especial...” -- ela pensava
Depois do lanche dos idosos, conversaram com muitos deles e ainda ajudaram as funcionárias do asilo em alguns afazeres. Camille ficou encantada com o carisma de Letícia, que conquistou a todos com muita facilidade.
Ao sair dali, a professora propôs que fossem em um barzinho no Centro da cidade e a loura concordou.
--Você não cansa de me surpreender, Camille. -- olhava intensamente nos olhos dela -- Sabe ser forte e direta quando deve ser e ao mesmo tempo gentil e delicada no momento certo. Fiquei impressionada com você naquele asilo!
--E eu com você. -- sorriu -- Seu carisma é uma verdadeira arma de sedução. Sempre conquista as pessoas que conhece...
--Hum, então isso quer dizer que... -- segurou a mão dela -- Será que conquistei você? -- caprichou no olhar mais sedutor
--Comigo não é simples assim... -- olhou para as mãos que se tocavam -- Eu sou muito exigente...
--Com certeza é! -- beijou a mão dela -- Mas eu tô mais que disposta a atender todas as suas exigências. -- sorriu -- Será que eu poderia te fazer uma pergunta indiscreta? Agora é minha vez!
--Pode. Só não sei se respondo.
--Você disse que esteve com uma mulher e uma única vez. -- pausou -- Ela foi ruim com você, rude ou alguma coisa assim? -- perguntou com jeito
--Fátima? Que nada! -- exclamou -- Ela sempre foi maravilhosa comigo e nossa noite foi linda! -- pausou -- É que naquela época, infelizmente, eu ainda era uma pessoa extremamente difícil e revoltada e não soube dar valor ao tesouro que apareceu na minha vida. Eu não soube o que fazer, sabe? -- acariciava a mão da outra mulher -- Mas somos amigas e de quando em vez nos falamos por telefone.
--Nossa! É uma rival e tanto! -- comentou
--Não... não penso em voltar pra ela. Eu já a magoei demais e ela é uma atleta olímpica. Hoje em dia não teria tempo pra mim. -- olhou para a professora
--Atleta?? Quem é?? -- perguntou curiosa
--Fátima Borges, a nadadora cega.
--Caraca! Aquela que sozinha faturou oito medalhas de ouro em Atenas, no Para Olímpico?? -- perguntou perplexa
--Essa mesma. -- respondeu achando graça do espanto dela
--Nossa! Então eu tô ferrada porque nunca fui boa nos esportes! No máximo, tenho energia pra umas caminhadas pesadas! -- riu -- Você não mentiu quando disse que era exigente... -- brincou
--Não seja boba! Além do mais você fala cinco idiomas e tem pós doutorado em física. -- brincou -- Está em condições de se habilitar...
Debruçou-se sobre a mesa e falou sedutoramente olhando no fundo dos olhos da engenheira: -- Sabia que quando você sorri eu fico louca de vontade de te beijar?
Camille corou e sentiu o coração disparar. Recolheu a mão e respondeu encabulada. -- Abaixe o fogo e comporte-se! Estamos em um local público!
--E quando a gente entrar no carro? -- perguntou enquanto acariciava o rosto dela -- Pode?
--Não!! -- respondeu enfática e olhou para o relógio -- Está tarde e amanhã é dia de trabalho. É melhor irmos embora! -- estava nervosa
--Tudo bem. -- sorriu -- Você é quem manda! -- chamou o garçom
***
Letícia parou o carro na porta da casa de Camille. As duas não sabiam que Mariângela ouviu o ronco do motor e ficou observando escondida pela janela.
--E então? -- a professora perguntou -- Quando terei a honra de conhecer minha sogra? -- perguntou sorrindo
--Primeiro você precisa arrumar uma sogra! -- Camille respondeu olhando para frente
--Eu tô querendo. Ando saindo com uma engenheira gatíssima e inteligente mas ela não me dá mole... -- brincou
--Talvez porque você seja muito safada e ela esteja te testando! -- respondeu sorrindo e sem olhar para a outra
--Ah, mas ela pode me testar como quiser! -- aproximou-se da loura -- Tô completamente à disposição! -- pausou -- Menos quando o trabalho impede, é claro.
--Trabalho é trabalho. -- respondeu sem saber o que dizer
--Então vamos inverter a ordem... -- propôs -- Dia primeiro de maio vai ter um churrasco na casa da minha tia. Que tal ir comigo? Quero te apresentar a minha família!
--Ainda tá longe... Abril ainda tá na metade. -- sorriu
--Tô te dando tempo pra pensar...
--Então eu vou pensar. -- abaixou a cabeça
--Camille? -- chamou
--O que? -- olhou para ela
Dessa vez não pôde evitar. Letícia segurou seu rosto e a beijou com muito carinho. A loura não conseguiu resistir e soltou um gemido abafado quando a língua da outra invadiu sua boca. O beijo foi crescendo e tornou-se mais intenso sem que pudesse controlar o que acontecia.
Sentiu a outra mão da professora deslizar por sua coxa e quando percebeu o que ela queria deu um salto e empurrou-a. -- Ei! Você como sempre tarada! Coisa mais horrível, cruzes! -- tentava se recompor
--Camille, por favor... -- tentou beijá-la novamente
--Pára, meu, que saco! -- abriu a porta do carro -- Você é muito safada, viu? Ô louco! -- saiu apressada e bateu com a porta
Mariângela saiu rapidamente da janela para que a filha não a visse.
--Ai, Letícia... -- balançava a cabeça -- essa garota é difícil... -- sorriu -- mas você chega lá! -- ligou o carro e saiu sorrindo
Camille parou diante da porta de casa e ajeitou os cabelos. Respirou fundo e abriu a porta tentando parecer natural. Mariângela disfarçava assistindo TV.
--Oi, filha. Tudo bem? -- perguntou sorrindo
--Tudo, mãe. -- foi até ela e a beijou no rosto -- Vou tomar banho porque estou morrendo de calor!
--Calor? Mas até que hoje a temperatura tá boa! -- estranhou
--Ah, mas... sei lá! Me deu um calor dos diabos, ô louco! -- foi para o quarto quase correndo
--Camille, você vai com a gente na sexta, pra ver a estréia de Isa no Municipal? – perguntou da sala
--Vou! -- respondeu entrando no banheiro. Lá dentro se trancou
Despiu-se rapidamente, sentou-se para remover a prótese e entrou no boxe segurando as alças presas nas paredes. Abriu o chuveiro e começou a se ensaboar com pressa.
“Meu Deus, que beijo foi aquele?” -- pensou excitada -- "Eu não posso abrir a guarda desse jeito. Letícia é safada, eu não posso dar mole pra ela...” -- suspirou -- "Mas foi tão bom...” -- fechou a válvula do chuveiro e começou a se masturbar pensando na professora
Mariângela pegou o telefone e ligou para Olga.
--Alô? -- a cunhada respondeu do outro lado
--Oi, Olga, sou eu, Mari. -- falava baixo olhando para a porta do banheiro -- Você não sabe o que aconteceu!
--Não sei mesmo! -- achou engraçado -- Por que fala tão baixo? -- não entendia -- Quase não te ouço!
--Camille tá no banho e não quero que ela ouça! -- esticou o pescoço para ver se a filha estava para sair ou não -- Ela acaba de chegar aqui trazida de carona por uma tremenda negona!
--Negona?? Ô, Mari, desde quando usa esses termos pra se referir a alguém? – estranhou
--Olga, isso não é hora de ser politicamente correta! -- continuava aos sussurros -- Eu não sei, mas acho que as duas ficaram aos beijos dentro do carro, até que Camille se estressou e saiu como uma flecha! E eu nem conheço essa mulher! E se for uma tarada?? Uma psicótica?? O que eu faço?? -- perguntou apavorada
--Converse com ela. Pergunte quem lhe deu carona e tente conhecer a tal mulher! -- aconselhou -- Mas não faça a coisa de modo que a menina tenha vergonha de lhe contar!
--Mas eu nunca nem deixei ela me dizer que era! Faz idéia confessar que namora!
--Não entre nesse mérito do namoro, mas pergunte pela pessoa e queira conhecê-la!
--Vou fazer isso, mas não hoje! Se perguntar agora ela não vai falar. Entrou em casa mais vermelha que um pimentão!
--Então faça assim: pergunte depois. Mas tenha tato, mulher! -- riu -- Você é muito doida!
--Ai, Olga, e se elas estiverem a ponto de fazer aquelas coisas, hein? As coisas danadas! -- perguntou apavorada
Olga riu. -- Calma, mulher! Converse com sua filha primeiro e não fique fazendo conjecturas sobre o que não sabe.
Mariângela percebeu que a filha sairia do banheiro.
--Tenho que desligar! Tchau! -- desligou
Do outro lado, Olga não teve nem tempo de responder. “Ai, ai, quem será essa que está conquistando Camille?” -- pensou curiosa
***
--Então é isso, mãe! -- fazia uma retrospectiva dos fatos enquanto andava pela sala -- Eu me sinto muito insegura com a Isa, acho que sempre me senti assim com ela! -- pausou -- Quando a gente viajou em janeiro aconteceu um lance bonito e eu fui bem verdadeira, achei que tava tudo maravilhoso! -- olhou para o chão -- Aí Isa me inventa de entrar num tal de Orkut, uma espécie de comunidade virtual que inventaram no ano passado, e quem é que tá lá? -- olhou para a mãe -- Quem é que tá lá orkutiando?
--Quem? -- perguntou curiosa
--Diva Bustamanti, a coreógrafa que veio pra me destruir! -- respondeu chateada -- E Isa fica vendo as fotos das apresentações daquela coreógrafa e deixa comentário aqui e bota comentário ali... Eu não sei, mãe, mas acho que tô a ponto de levar um chifre virtual! -- continuava andando em círculos
Olga riu. -- Chifre virtual...
--Isa estreou agora, dançou de sexta à domingo e quando chegou na segunda postou um monte de fotos do espetáculo no tal do Orkut! Depois veio o outro final de semana, ela dançou de novo e tome de foto em Orkut! Toda vez que dança é isso! -- falava contrariada -- Tudo pra maluca lá poder ver! E foi um tal de poderosa de cá, maravilhosa de lá, coisa linda, amei, babei, me segura que eu vou desmaiar... Uma frescurada... -- olhou para a mãe -- E a senhora não sabe! Essa tal de Diva é toda metida e egocêntrica até dizer chega! Ela põe foto de tudo no Orkut, só a senhora vendo! É assim: “Bailando em Jerusalém”, “Arrasando em Atenas”, “Sucesso em Paris”, “Nova York não resistiu”... E fora outras coisas do tipo: “Eu na cama”, “Eu no teatro”, “Eu com as amigas”... -- parou de andar e colocou as mãos na cintura -- A maldita vai chegar a ponto de postar: “Eu mijando, eu cagando...” -- fez cara feia
--Que é isso, menina? -- fez cara de espanto mas acabou rindo
--É sério, mãe! Aquela mulher só não põe a foto do fiofó no Orkut porque fica chato!
--E você acha que Isa se interessa por ela como mulher? Não seria apenas uma admiração profissional?
--Sei lá, mãe... -- respirou fundo -- Apesar de palhaça, Diva é toda chique, elegante e é a coreógrafa do momento! Acho que é o tipo de mulher que Isa desejaria pra si... -- voltou a andar pela sala -- Isa é a personificação de tudo o que eu sempre quis em uma mulher! E acredite, -- olhou para a mãe -- ninguém está mais perto do meu coração do que ela! Mas... quem sabe se eu represento o que ela desejava? -- perguntou com tristeza
--Por que não pergunta isso a ela? -- a mãe propôs
--E ainda não lhe contei tudo! Adivinha quem apareceu lá na oficina há um tempo atrás? -- pausou -- E que já foi lá umas duas vezes, devo acrescentar! -- olhou para a mãe
--Quem? Diva? -- arriscou
--Graças a Deus, não! -- bateu três vezes na mesa -- Essa destruidora de lares está nos Estados Unidos! Volta pra cá em setembro, outubro, sei lá! -- pausou -- Quem apareceu lá foi uma mulher marrenta, cheia de ginga, que só faltava o chapéu de panamá pra ser a típica malandra carioca! -- imitava Letícia -- Sabe daquelas malucas cheias do ‘vem cá, minha nêga?’ Pois ela é desse tipo! -- olhou para Olga -- Chegou cheia dos papinhos pra cima de Camille e a garota caiu naquela conversinha mole! -- fez cara feia -- Aquilo ali é piranha velha, mãe! Mulher formada e pós graduada na escolinha da sacanagem! Aquilo ali deu nó na malandragem e enganou o capeta! -- gesticulava -- Não é mulher pra Camille, que é uma garota pura de coração, inocente e inexperiente! -- pausou -- Eu sei o que ela quer! Ela quer jogar a menina numa cama, usar e abusar e depois partir pra próxima! Conheço muito bem aquele tipinho! -- pensou em algo e disse: -- Se é que já não jogou! -- deu um soco na mão -- Safada, salafrária, tarada! -- voltou a andar -- E eu acho que ela é professora universitária ou sei lá! -- olhou para a mãe novamente -- Não sei de onde veio aquela tal mas eu não confio nela! Quando a conheci apertei a mão daquela bicha a ponto de estalar os ossinhos!! -- fez cara feia e parou de andar novamente -- E desde que isso aconteceu, acho que Camille vira e mexe sai com ela. -- pausou -- Já faz pouco mais de um mês...
“Hum... então essa é a moça que Mari viu...” -- pensou -- "E até hoje nada perguntou a filha...” -- Olga permaneceu uns segundos calada e olhando atentamente para o rosto da morena como se a estudasse
--A senhora não diz nada? Mãe, eu lhe contei uma coisa séria! -- reclamou
--Está triste por que teme perder suas duas mulheres e ficar totalmente só? -- perguntou calmamente e de forma direta
A morena sentiu o rosto arder. -- Mãe... -- olhou para baixo -- Eu nunca tive duas mulheres! -- protestou
--Há quanto tempo está interessada em Camille, Seyyed? -- continuava perguntando calmamente -- Você gosta mesmo da Isa?
--É claro que eu gosto! -- respondeu decidida e depois pausou -- Foi que tudo isso me desestabilizou... -- respirou fundo -- Já faz um bom tempo eu comecei a me entrosar com Camille e admirá-la, deu uma confusão na minha cabeça, aí dei aquela mancada com Samira, mas depois achei que tava tudo resolvido. Especialmente depois da viagem pro nordeste... Só que essa coisa de tome Diva daqui e tome Diva dali me deixou muito desnorteada! -- olhou para a mãe -- E pra fechar com chave de ouro, me aparece essa... essa maluca que eu falei! Acho que Camille deve estar namorando ela! Saindo juntas, só pode!
--Você não costuma a julgar as pessoas como está fazendo com Diva e Letícia. Especialmente com essa última! -- respondeu -- Se você se sente tão inferior a Diva, deveria conversar com sua mulher sobre o que está achando desse entrosamento virtual que ela tem com a coreógrafa.
Seyyed ficou calada e de cabeça baixa.
--E você também se decepcionou porque Camille demonstra que não vai ficar eternamente te esperando. -- levantou-se e foi até ela -- Você é casada, minha filha. -- segurou a mão de esquerda da morena -- Quando assumiu esse compromisso, -- mostrou-lhe a própria aliança -- fez isso porque quis e se envolveu com outra pessoa que se apaixonou por você! O que pretende? Ter um caso extra conjugal ou cultivar um amor platônico por outra mulher? -- soltou a mão da filha -- Não tem o direito de ser egoísta e brincar com os sentimentos dos outros!
--Não fale assim, mãe... -- olhou para ela constrangida -- Sabe que sou fiel! Posso ter ficado com Samira naquele evento do motoclube mas foi a primeira e única vez que traí! -- afastou-se
--Ah, meu amor... -- foi até a filha e a abraçou -- Você precisa pensar, refletir sobre sua vida, sobre o que você quer pra si mesma e tomar uma decisão quanto ao que fazer. -- segurou o rosto dela -- Não se deixe levar pelo prazer sensorial, porque uma pessoa não deixa de se sentir atraída por outras porque ama alguém, mas é preciso ter ética e controle sobre os próprios impulsos pra não se deixar levar. -- pausou -- Peça que Deus a ajude quanto ao que fazer e seja sincera com a Isa. Converse com ela e diga como se sente. Ouça o que ela tem a dizer. De repente não há interesse amoroso da parte dela, somente a admiração profissional. Talvez Diva seja o que Isabela deseja ser e não quem ela quer. -- pausou -- E quanto à Camille, sabe que ela é uma moça conflituosa e que já passou por muita coisa na vida. Não confunda a cabeça dela, não alimente falsas esperanças e não interfira na vida dela se não pretende amá-la. Não pode acorrentar o coração dela!
--Eu sei... -- respondeu pensativa. Fechou os olhos quando a mãe beijou sua testa
--Percebo há muito tempo que Camille é lésbica e que gosta de você. E já havia desconfiado que você também andava reticente. -- pausou -- Pra dizer a verdade, confesso que seu relacionamento com Isa me surpreendeu muito, pois não achei que fosse durar tanto tempo.
--Mãe! -- exclamou chateada -- Por que?
--Por causa do seu jeito voluntarioso e pela falta de personalidade dela. Só que ela mudou muito e você também, embora ainda não de todo... -- suspirou -- Seja como for, reflita muito e seja sincera com a mulher com a qual se casou!
--Prometo que serei! Sempre fui, não há motivos pra deixar de ser. Ela também tem sido bem sincera comigo. Eu vou procurá-la e a gente vai conversar. Agora que o espetáculo já terminou ela não está mais naquela correria. -- pausou -- E isso vai ser hoje mesmo quando buscá-la da confraternização com os colegas. -- olhou para o relógio -- Aliás, a hora é essa! -- beijou a testa da mãe -- Obrigada, mãe!
--Não me agradeça. -- sorriu -- Sou sua mãe e não importa quantos anos tenha, será sempre minha menina!
--Com muito orgulho! -- piscou para ela e saiu
***
Isabela e Seyyed caminhavam de mãos dadas pela orla de Ipanema.
--Eu queria saber isso de você, Isa, ouvir da sua boca com toda sinceridade. -- parou de andar e olhou para a ruiva -- Está tendo um caso com Diva?
Ela riu. -- Seyyed! -- cruzou os braços e olhou para ela sorrindo -- Como posso ter começado um caso com uma mulher que está nos Estados Unidos desde o dia seguinte ao qual a conheci?
--Um caso virtual! -- respondeu de cara feia
--Caso virtual? -- riu novamente
--Eu não tô brincando, Isa. -- colocou as mãos na cintura -- Já ficou até uma coisa feia isso! É um tal de entra em Orkut de Diva daqui, entra em Orkut de Diva dali e Diva entra no teu Orkut! -- continuava de cara feia -- Daqui a pouco eu sei em qual ‘orkut’ -- fez aspas com os dedos -- ela vai querer entrar!
--Ah! -- riu mais uma vez -- Eu tô achando muito fofo esse seu ciúme, sabia? -- sorriu e segurou o rosto dela com as duas mãos -- E só não te beijo agora porque estamos em público!
--Eu não tô brincando! -- repetiu como se fosse criança fazendo manha
--Eu sei! -- segurou as mãos dela -- Eu não me interesso por Diva sexualmente, apenas profissionalmente! É que eu fico babando pelas fotos das apresentações da companhia de dança que ela tem e o Mişcarea Center é um luxo! Você tem que ver que escola!
Pensou e depois de um tempo perguntou: -- E você adoraria fazer parte dessa escola, não é? -- olhava fixamente para ela
--Sim e não, Ed... -- olhava para a morena da mesma maneira -- O que eu faço na internet, vendo as fotos de Diva, é apenas sonhar e nada mais.
--Dói ouvir isso! Porque eu sei que você tem todas as condições de fazer parte de uma escola de nível como essa! -- mordeu os lábios e continuou: -- Eu não quero ser o peso amarrado a seus pés te impedindo de voar! Eu não quero ser um entrave a sua felicidade...
--Você não é! -- interrompeu a fala da morena -- Não é! E por favor, pare de pensar assim! Eu te amo e quero ficar aqui e com você!
Dois rapazes estavam prestando atenção na conversa delas há alguns minutos e puderam ouvir claramente a última frase dita pela bailarina.
--Ouviu isso? -- um deles perguntou falando baixo
--Vamos zoar com elas? -- o outro perguntou sorrindo e aos cochichos
--Tem muita gente aqui! -- ele respondeu -- A gente disfarça e vai seguindo elas como quem não quer nada! -- propôs
--Que tal a gente voltar pra casa e fazer um lanche bem gostoso? -- Isa propôs sorrindo
--Tá bom! -- sorriu também -- Mas antes a gente tem que comprar, porque nossa geladeira tá triste... -- brincou -- Ainda não fizemos as compras de mês e domingo passado não teve feira, lembra?
--É verdade... Duas mulheres bem sucedidas passando fome à toa! -- brincou
--Mas eu trouxe o cartão no bolso! -- beijou a testa dela -- Vamos lá! -- voltaram a andar
--Naquele mercadinho careiro mesmo? -- perguntou beliscando o braço dela de leve
--Você mora em Ipanema, meu amor! Tudo é caro, não tem jeito! Domingo a gente vai pro meu subúrbio e faz as compras completas a um bom preço!
--Eu nunca tive restrições em pagar mais barato... -- brincou novamente
Foram para o mercadinho e não perceberam que estavam sendo seguidas pelos rapazes. Quando saíram de lá já estava escuro. Foram andando pelo estacionamento para cortar caminho.
--Ah, que droga! Acho que deixei a carteira no caixa! Humpf! -- Ed fez um bico -- Você faria o favor de ir lá ver? -- olhou para a bailarina -- Eu fico aqui com as compras.
--Eu vou sem problemas só que tá escuro! Estamos à pé e esse estacionamento tá vazio! -- olhava para todos os lados -- Pode ser perigoso pra você ficar aqui! -- olhou para ela preocupada -- E com a barulheira desse carro de som do outro lado da rua ninguém escuta se você gritar!
--Relaxa! Tem galho, não! -- sorriu
Não conseguia ficar tranqüila com aquela idéia mas cedeu. -- Tá, então eu vou rápido! -- voltou para o mercado com pressa
A mecânica colocou as bolsas no chão.
Segundos depois, os rapazes que as seguiam saem de trás de um carro que os escondia.
--Olha só! -- um deles falou -- Mulher grandona, forte! -- sorria debochado -- Mulher macho, é?
--Tá comendo a ruivinha lá? -- o outro perguntou no mesmo deboche -- Como é o esquema? Usa um pau daqueles de sexshop ou vai no dedinho? -- deu um soco no braço dela -- Isso conta como sex* ou é de brincadeira? -- provocou
--Vai de língua? -- o colega perguntou fazendo gestos obscenos e mexendo com a língua. Os dois andavam ao redor dela. Um deles tirou um pequeno bastão do bolso com uma gilete na ponta
--Qual é gente? -- sabia que estava em desvantagem pois os dois eram fortes -- Eu tô quieta na minha! -- não sabia o que fazer -- "Deus, por favor me ajude!” -- pedia mentalmente
--‘Eu tô quieta na minha!’ -- imitou a fala da morena fazendo voz fina -- Babaca! -- tentou cortar o rosto dela inteiro, mas Seyyed pôde se desviar a tempo e a lâmina acabou cortando o supercílio
--Droga! -- levou a mão à região do corte
Os dois avançaram sobre a mecânica e começaram a bater e chutar com violência. Ed se defendia e gritava tentando revidar mas não conseguia dar conta de ambos.
Isabela finalmente conseguiu convencer o funcionário do setor de achados e perdidos que a carteira era de sua companheira e mal saiu do mercado pôde ver um ajuntamento de rapazes no local onde sabia que a morena estava. Concluiu rapidamente o que acontecia. -- Socorro!!! Socorro!!! -- gritava pedindo ajuda -- Estão matando ela, socorro, socorro!!! -- apontava na direção deles desesperada
Cinco homens e duas mulheres correram com a ruiva para defender a mecânica mas os rapazes perceberam o alvoroço e sumiram na escuridão.
--Ed, Ed, meu amor... -- ajoelhou-se ao lado dela chorando -- Ed, não, não... -- olhou para as pessoas ao redor -- Alguém chama uma ambulância, pelo amor Deus, por favor... -- chorava desesperada
--Vai ficar tudo bem, Isa... -- falava com dificuldade, mantendo a mão sobre o corte -- Vai ficar tudo bem... -- estava com o rosto inchado e toda ensangüentada
***
Isabela, Olga, Mariano, Ricardinho, Juliana e Suzana chegavam com Seyyed do hospital. A morena entrava em casa amparada pela delegada e por seu padrasto, enquanto o menino segurava-a por um dedo.
--Eu queria muito tomar um banho. -- Ed pediu -- Tô toda nojenta... -- falava com dificuldade, pois o rosto estava enfaixado
--Eu vou cuidar de tudo, amor. Só um minutinho! -- Isa correu para o banheiro
Suzana e Mariano ajudaram a mecânica a se sentar no sofá. Ricardinho sentou-se imediatamente a seu lado fazendo-a sorrir.
--Ui! -- gem*u -- Eu tô igual àquela senhora da Praça é Nossa! Maior dificuldade pra sentar... -- brincou
--Ô, meu amor... -- Olga olhava para ela penalizada ao sentar-se do lado dela -- Eu vou ficar essa noite com vocês! Pode ser que precisem de alguma coisa! -- pegou a mão dela e a beijou
--Precisa não, mãe. Não quero dar trabalho. -- olhou para ela
--Eu fico junto! -- Ricardinho pegou a outra mão de Ed -- Cuido de Ed com mamãe!
Todos riram e olharam para o menino. A mecânica gem*u: -- Ai... mas é um cavalheirinho... -- suspirou -- Ai, eu não posso rir que dói...
--Ed, -- Suzana ajoelhou-se em frente a ela -- eu sei que é chato, mas quero que me dê o máximo de detalhes que puder sobre os dois. Vou pegá-los, pode ter certeza! -- falava entre dentes
--Desgraçados! -- a enfermeira disse de cara feia
--Eu lembro muito bem deles. -- respondeu magoada
Mariano falou revoltado: -- Covardes! Eu sou capaz de cometer uma loucura se pego um homem desse tipo!
--E eu! -- Ricardinho deu um soco na mão
Todos riram de novo.
--Ai, menino, não me faz rir. -- Ed pediu sorrindo e sentido dor
--Vem, amor. -- a ruiva voltou para a sala -- Eu vou dar banho em você! -- andou até ela
--Sozinha você não vai agüentar. -- Olga interferiu -- Eu te ajudo! Afinal de contas, dei banho nessa menina por anos!
--Gente, mas duas mulheres me dando banho? -- riu de novo -- Ai, ai, que dói tudo!
--Pára de viver rindo, criatura! -- Isa ralhou
Suzana e Mariano a ajudaram a se levantar. Foram indo para o banheiro.
--Eu também vou dar banho! -- Ricardinho foi atrás
--Isso não é coisa pra você, garoto! -- Mariano disse para ele achando graça
Quando Ed já estava dentro do banheiro com Isa e a mãe, Mariano falou: -- Olga parecia que sentia que algo de ruim iria acontecer. Ed foi lá em casa hoje enquanto eu ajudava o menino com os deveres da escolinha e desde que saiu, passados alguns minutos, Olga ficou agoniada...
--Até eu senti uma coisa ruim! Só não sabia porque! -- Suzana confessou
Mariano olhou para Juliana. -- Me diga, Juliana, qual foi a extensão do mal que aqueles desgraçados fizeram com ela? O que o médico disse? Eu fiquei tão nervoso e preocupado que não entendia nada!
--Ela sofreu um corte profundo no supercílio, hematomas no rosto, nariz, boca e por todo o restante do corpo, teve três dentes quebrados, lesões nos cotovelos, mãos, ombros e costas. -- respondeu com tristeza -- Vai ter que ficar um tempo sem trabalhar...
--Malditos! -- ele falou com raiva
--Ed vai ter que prestar depoimento amanhã. Eu vou com ela! -- a delegada afirmou -- Os vagabundos poderão ser indiciados por lesão ou tentativa de homicídio. -- pausou -- Temos Isa como testemunha do crime e eu vou no mercadinho saber se o estacionamento tinha câmeras de segurança. Em caso positivo, as imagens poderão servir pra esclarecer o caso. Também vou tentar obter mais alguma testemunha dentre os funcionários que trabalhavam naquele dia.
--Pai, quem bateu na Ed? Por que? -- a criança perguntou. Não entendia o que acontecia
--Foi gente má, meu querido! -- colocou o menino no colo -- Gente que não respeita as pessoas! -- olhava para ele -- Preste muita atenção ao que seu pai te diz: nunca, nunca, nunca faça isso com ninguém, mesmo que a pessoa seja de um jeito totalmente diferente do seu! E se algum amigo que você tiver quiser fazer isso com alguém, você não vai ajudar e vai fazer o possível pra não deixar acontecer!
O menino ficou calado ouvindo o pai.
***
Letícia e Camille conversavam em um barzinho no Estácio.
--O que houve que você tá tão tristinha? -- acariciou o rosto da loura -- O que aconteceu, hein? -- perguntou com carinho
--Seyyed... ela foi vítima desses malditos homofóbicos! Você tem que ver como a coitada está! -- fez cara feia -- Odeio essa gente que faz mal pros outros a troco de nada!
--Mas ela tá muito mal? -- perguntou preocupada
--Muito mal não, mas tá toda machucada, com o rosto cortado, dentes quebrados... Vai ter que ficar uns tempos sem trabalhar. -- suspirou
--E quando foi isso??
--Sábado. -- pausou -- O irmão dela soube de tudo na segunda, fechou a oficina de Goiânia e veio correndo pra cá. Vai ficar aqui até domingo. -- olhou para Letícia -- Eu fiquei tão revoltada! Ed é uma pessoa tão boa, ela ajuda tanta gente! Não merecia passar por isso! Por que Deus deixa essas coisas acontecerem? -- perguntou magoada
--Nós temos livre arbítrio, querida! Quem fez isso teve liberdade pra decidir agir no mal, mas não vai passar impune, pode ter certeza! -- segurou a mão dela -- Não se revolte contra Deus achando que Ele deixa a coisa correr frouxa, porque não é verdade. Mesmo que não nos pareça, Ele não larga nenhum filho à própria sorte. É que cada um segue um caminho e há momentos, muitos aliás, em que tomamos as trilhas erradas...
--Sei lá... as coisas da vida ainda me embaralham o entendimento. A lógica mecanicista cartesiana que aprendi com a Engenharia é muito mais fácil pra mim, só que percebo que a vida não segue exatamente essa mesma lógica!
--Não mesmo! -- beijou a mão da loura e ficou uns segundos calada até que teve coragem para perguntar: -- Você gosta da Seyyed, não é? -- olhou intensamente para a loura
Camille corou e recolheu a mão que a outra segurava. -- Claro que gosto, ela é minha amiga, praticamente da minha família, e eu devo muito favor a ela! E a mãe dela também!
--Você entendeu o que quis dizer com ‘gosta’. Sabe que não foi nesse sentido. -- sorriu -- Não é a única observadora aqui, garota!
A engenheira respirou fundo e respondeu: -- Tá, eu gosto dela... -- abaixou a cabeça -- Mas ela é casada, tem a vida dela e assim vai continuar.
--É por isso que, -- levantou o rosto dela segurando pelo queixo delicadamente -- joga tão duro comigo? -- sorriu -- Você não quis ir no churrasco que eu convidei, não me dá abertura... e aquele beijo foi tão gostoso... -- falava sedutoramente
--Ah, pára, vai? -- fez cara feia -- Você é muito safada e eu não quero ser mais uma na sua listinha de sacanagem! -- cruzou os braços
--Que é isso, menina? -- riu -- Eu tô saindo contigo, e só contigo desde que te conheço! Se eu tivesse armando haveriam outras garotas em paralelo!
--Claro que só sai comigo, tá cheia das segundas intenções! E você não tem tempo pra ficar moscando um monte de mulher simultaneamente! -- retrucou -- Até os homens mais galinhas usam dessa tua tática! Isso é coisa sabida, meu, eu tô atenta!
--Por que é tão cismada comigo? Por que acha que só tô de olho em ir pra cama contigo e nada mais?
--Eu não sou besta, não, Letícia! Vejo teu jeito muito bem! Você joga charme pra tudo que é mulher, dos dezoito aos oitenta! Só vive com esse olhar de peixe morto e esse sorrisinho de canto de boca, cheia de coisa pra cima da mulherada. -- olhou bem para ela -- Pra quem só tá de volta no Brasil há tão pouco tempo, fico besta com tua produtividade! Tudo que foi amiga tua que conheci já foi pra cama contigo! -- continuava de cara feia
--Que nada! -- exclamou com os olhos arregalados -- Da onde tirou essa idéia??
--Sabrina! -- citou um nome
--Ah, mas eu disse que a gente teve um relacionamento... -- explicava-se -- E ela permaneceu minha amiga, qual o mal?
--Samira! -- riu -- Nunca imaginei que conhecesse aquela motoqueira doida!
--Ah, mas eu te expliquei! A gente se conheceu em um trekking em Sikkim, na Índia, e depois nos reencontramos sem querer em Campinas. -- pausou -- Aí aconteceu...
--Lia!
--Ah, -- coçou a cabeça -- ela gosta de um sambinha de raiz, eu também, é uma dança sensual e um dia... -- justificava-se
--Alice, Francisca, Leila, Ana, Marcela... -- continuava citando
--Ah, é que elas estavam em um momento de carência, que coincidiu com uma fase tumultuada na minha vida onde eu também tava carente e... -- não sabia o que dizer
--Sei! -- fez um bico -- Resumindo, você é a maior galinha! -- apoiou os cotovelos sobre a mesa e olhou fixamente para ela -- Eu sou uma pessoa séria, Letícia! Não gosto de fofoca e nem dessa bagunça! Não entendo como uma budista vive nessa pouca vergonha. -- encostou-se na cadeira novamente -- Você é bundista, isso sim!
A professora ficou constrangida e perguntou chateada: -- Se me acha tão nada a ver assim, por que sai comigo? Pra Seyyed saber e ficar com ciúmes? -- olhava para o copo
--Saio com você porque gosto da sua companhia. Apesar de tarada você é interessante, culta, simpática, conhece uma pá de gente, lugares legais... Mas não quero ter nada contigo! Como disse, não tô disposta à bagunça!
Olhou para a loura. -- Podia me dar uma chance... -- falou como criança triste
--Se quiser alguma coisa comigo, Letícia Avelar, vai ter que mudar muito! E isso não acontece da noite pro dia! -- respondeu convicta -- No mais, me perdoe mas a cabeça hoje não tá legal. Acho que nem deveria ter vindo! -- olhou para ela -- Vamos embora? -- pediu
--Tá bom... -- suspirou -- Se quer ir, a gente vai! -- chamou o garçom e ficou calada pelo resto do tempo. Estava chateada com o que ouviu e se sentindo entristecida
***
Juliana e Suzana faziam amor. A delegada penetrava a amante com intensidade ao mesmo tempo que beijava-lhe o corpo quase todo com volúpia.
--Ai, mas você me mata... -- a japonesa gemia ao ser calada por um beijo -- Ah!!!! -- sentiu que o prazer final se aproximava -- Ahahahahah!!! -- gritou
--Gostosa, você é maravilhosa... -- sussurrava no ouvido da amante
--Ai, seu, animal faminto... -- Juliana gemia ante a insistência de sua mulher -- Quando é que eu vou ter fôlego pra dar conta de você, hein? -- puxou-a pelos cabelos -- Índia canibal... -- beijaram-se
--Mas você dá conta! -- beijou-a de novo -- Só me deixa muito excitada, sem vontade de parar... -- continuava deslizando as mãos pelo corpo da japonesa enquanto mordia seu pescoço
--Hum... -- sorriu -- Deixa... eu... me... recompor... safada! -- pedia entre beijos
--Tudo bem, eu deixo! -- beijou-a -- Mas será que podemos continuar nessa posição? -- sorriu
--Sabe que é minha posição preferida! -- arranhava as costas da amante -- Adoro sentir você sobre mim, minha delegada sem vergonha! -- beijou-a
A morena ficou olhando para a amante e depois de uns segundos calada confessou: -- Eu não tiro da cabeça o que aconteceu com Ed! Ela me disse que tá aliviada porque Isa não estava junto quando os malditos vagabundos vieram. Entendo isso porque não agüentaria que ninguém te fizesse um mal! -- beijou-a -- Já tô que não me agüento de revolta pelo que fizeram com ela!
--Eu também não esqueço... -- pausou -- Alguma novidade em relação aos dois criminosos que fizeram aquilo?
--Não vejo raça naquele delegado que ficou no meu lugar; ele não tem tesão no trabalho. -- reclamou -- Tô caçando os dois playboyzinhos junto com três colegas! Quero ver esses malditos na cadeia! -- olhou bem para ela -- E a gente pega eles, acredita em mim! -- falou com seriedade
--Claro que acredito! Você parou até com suas investigações por causa disso! -- sorriu -- Minha delegada é a melhor! -- beijou-a e ficou uns segundos calada -- Tenho uma peninha quando faço curativos nela... -- acariciava o rosto da delegada -- Apesar de brincar, noto que ela tem vergonha da aparência e da cicatriz que vai ficar no rosto. -- colocou o dedo no supercílio direito da outra -- Vai daqui até -- deslizou o dedo até logo abaixo do malar -- aqui.
--Deve estar se sentindo insegura, achando que a bailarina vai largar ela. -- pausou -- Eu tive muito medo que você quisesse me largar depois que virei uma transplantada. -- desviou o olhar -- E depois que me aposentaram e fiquei inútil. Também tô ficando velha e ...
--Ei! -- segurou o rosto dela e olhou em seus olhos -- Pare com essa conversa e tire essas idéias da cabeça! Você não é inútil, nunca vai ser! E eu gosto de cuidar do meu nenenzinho! -- sorriu e beijou-a -- E eu também envelheço! -- beijou-a de novo -- Além do mais sabe que adoro velhinhos, não sabe? – sorriu
--É que às vezes bate uma insegurança. Deve ser isso que acontece com a Ed.
--Eu vou conversar com Isa sobre isso da próxima vez que for pra lá fazer curativo.
Depois de uns segundos calada voltou a falar: -- Amor... eu estive pensando... -- acariciava os cabelos da japonesa -- Seria legal, se... assim... depois dessas investigações que tô fazendo, a gente... sei lá... de repente lá pra 2007, 2008... -- sorriu -- se a gente adotasse uma criancinha... -- olhou para Juliana cheia de esperanças -- Você não acha?
--Quer ter um filho comigo? -- perguntou sorrindo
--Ah, se você quisesse...
Juliana beijou a delegada repetidas vezes nos lábios. -- É claro que eu adoraria! -- sorriu
--Sério?? -- perguntou empolgada
--Sim!
--É que eu gosto de criança! -- sorriu
--Já percebi! E também gosto! -- beijou-a -- Tem preferência quanto à menino ou menina?
--Não. Eu queria que a gente adotasse a criança que nossos corações escolhessem.
--Então vamos fazer assim! -- beijou-a e sorriu
--E tem outra coisa... será que nesse ano você gostaria de ir pra Roraima comigo? Conhecer minha terra, ver como é o meu estado, ver como é o norte do Brasil, nossa gente... Será que gostaria? -- perguntou receosa -- É bonito lá!
--Claro, meu amor! Eu quero conhecer tudo o que puder sobre você e suas origens! Meu nenenzinho lindo... -- beijou-a e ficaram namorando até o momento em que o interfone tocou
--Você esperava por alguém? -- Suzana perguntou intrigada
--Eu não, muito menos quase às dez da noite!
--Deixa eu atender pra saber quem é! -- levantou-se e foi até o interfone. Juliana não resistiu e foi atrás -- Ih, é teu irmão Guilherme! -- olhou para ela desconfiada -- Vou mandar subir. Pode?
--Pode, a gente só tem é que se vestir! -- beijou o ombro dela -- "O que será que Guilherme veio fazer aqui a essa hora?” -- pensou intrigada
Quando Guilherme entrou no apartamento já as encontrou devidamente vestidas. Suzana deixou os dois à vontade na sala e foi novamente estudar os resultados de suas investigações.
Após as devidas saudações de praxe Juliana perguntou desconfiada: -- E então, Guilherme? A que devo essa visita?
--Na verdade não é bem uma visita... -- esfregou as mãos nas pernas -- Eu pensei muito antes de vir aqui... -- estalou o pescoço -- Você e Henrique abriram mão dos direitos da casa de nossos pais, mas Ivo não... Queria a sua ajuda porque sei que não posso contar com Henrique! Ele nunca me estendeu a mão quando pedi, então não vai ser agora! – reclamou
--E que ajuda seria essa? -- continuava desconfiada
--Não é justo que o dinheiro da venda da casa seja dividido meio a meio entre Ivo e eu. Ele tem mais grana que eu e só tem uma filha. Eu tenho dois filhos e meu salário é uma miséria! -- pausou -- Será que você poderia doar sua parte nominalmente pra mim? E será que poderia convencer Henrique a fazer o mesmo? -- perguntou fazendo um tipo de coitadinho
A enfermeira balançou a cabeça contrariada. -- Guilherme, você fala de Ivo como se ele nadasse no dinheiro! Nosso irmão é professor do Município e rala muito! Você já viu algum professor ganhando bem?? -- riu
--Ah, eu ganho um salário mínimo e comissões de venda, que são incertas! Pago pensão pra dois filhos e sou solteiro, Ivo é casado e a mulher dele trabalha! -- protestou
--Como trocadora de ônibus, que também rala pra caramba e ganha pouco! -- retrucou -- Além do mais, com essa safadeza dos micro ônibus nessa cidade, não demora muito e vão acabar com a profissão dela!
--Então, pelo que vejo, você não vai me ajudar, não é? -- perguntou de cara feia
--Você não quer ajuda, quer é se dar bem e prejudicar Ivo! -- respondeu resoluta -- E eu não concordo com isso!
--Ah, claro que não concorda! -- respondeu debochadamente -- Você virou mulherzinha de uma delegada de polícia, que ganha bem, te dá boa vida, aí fica fácil não me entender, né, Juliana? -- levantou-se -- Burro fui eu por ter vindo aqui perder meu tempo!
--Henrique tem razão quando diz que você descarrega nos outros as frustrações da sua vida irresponsável! -- levantou-se também -- Ninguém tem culpa que você não gosta da vida que tem! Além do mais deveria ter mais respeito pra falar comigo dentro da minha casa! -- falou rispidamente
--Algum problema aqui? -- Suzana apareceu de cara feia
--Problema nenhum! -- Guilherme respondeu olhando para a irmã -- Já tô indo embora! -- andou até a porta e saiu sem se despedir
--O que houve aqui, Ju? -- segurou uma das mãos dela -- Ele fez ou falou alguma coisa que te ofendeu? -- perguntou com raiva -- Me diz que eu desço e pego aquele safado... -- sentiu os dedos da amante delicadamente sobre seus lábios
--Tudo bem, amor! -- acariciou o rosto da outra -- Guilherme fez tudo errado com a própria vida e não quer colher os frutos de suas escolhas. Esquece! -- beijou-a
--O que ele queria?
--Ficar com três quartos do dinheiro da venda da casa de nossos pais.
--Ué? -- fez um bico -- Eu vou te ser sincera, dos seus irmãos esse aí foi o único que eu não gostei. Sorte é que os filhos dele são boas crianças...
--Esqueça isso! Ele foi embora, não vou fazer o que me pediu e já acabou! -- envolveu o pescoço dela com os braços e sorriu -- Onde é que nós estávamos mesmo? -- sorriu sensualmente
--Hum... -- puxou a japonesa para um abraço apertado e a beijou. Nisso a campanhia toca -- Mas que inferno! -- interrompeu o beijo para reclamar -- E agora, quem será? -- fez cara feia
--Hoje o negócio aqui tá danado! -- Juliana foi até a porta olhar pelo olho mágico -- Ih, é a síndica! -- abriu a porta
--Juliana, boa noite, desculpe a hora mas a coisa é séria! -- entrou no apartamento como um foguete. Olhou para Suzana -- Tudo bem, Suzana? Perdoe mas a coisa é cabeluda! -- sentou-se no sofá
--Boa noite. -- as duas responderam ao mesmo tempo -- Mas o que aconteceu? -- Juliana perguntou curiosa
--Senta aí, gente, fica à vontade! -- a síndica falou -- Vocês estão em casa! -- cruzou as pernas
As duas se sentaram e Suzana pensou: “Mas essa mulher é muito sem noção!”
--Imaginem vocês que minha neta se revelou lésbica! -- falou olhando para as duas -- E digo mais: já tá na segunda namorada! -- gesticulava -- E eu que não sabia de nada!
Juliana e Suzana tinham pontos de interrogação na cabeça. -- E por que a senhora tá vindo aqui pra dizer isso pra gente? -- a enfermeira não entendia
--Ah, porque eu precisava conversar com alguém e aí pensei em vocês por razões óbvias! Meu marido é uma besta que nada resolve, só sabe ficar o dia todo vendo TV ou jogando baralho na pracinha e minha neta vive com a gente, só sobra eu pra orientar! -- continuava gesticulando -- Ela raspou a cabeça, fez tatuagem no braço, disse que deu os vestidos pros pobres e apareceu hoje vestida de rapaz! -- reclamou
--E o que espera que a gente faça? -- a japonesa perguntou
--Que dêem uns conselhos a ela! -- respondeu enfática -- Olha só pra vocês, parecem duas mulheres como qualquer uma outra! Cada uma tem um estilo, mas nenhuma das duas têm jeito de macho! -- olhou para Suzana -- Embora eu te ache meio suspeita... -- cerrou os olhos – Relevo porque sei que na tua profissão tem que falar grosso!
--Mas eu não tenho voz grossa! -- protestou
--Minha neta virou uma mistura de jogador de futebol com pagodeiro de quinta categoria! -- reclamou -- Aquele óculos na cabeça me mata! -- revirou os olhos -- E a namorada dela, que eu vi por foto, é toda gostosona! Parece até mulher de revista pornô! Vai entender? -- cruzou os braços
--Dona Soraia, a gente não pode simplesmente chegar pra sua neta, que nem nos cumprimenta, e começar a dar conselho que ela nem pediu! -- a enfermeira respondeu -- Além do mais, ela é diferente da gente porque prefere uma apresentação que não se identifica com seu sex* biológico. Por que? Eu não sei! De repente é o visual que ela curte mais, ou então ela está assumindo uma identidade homossexual estereotipada por conta de algum conflito interior, não sei. Existem gays e lésbicas que passam por muitos conflitos antes de se assumirem, e eu não tenho condições de dizer qual o caso dela. Nem psicóloga sou!
--Ah, mas vocês têm que fazer alguma coisa! Deve haver algum código de ética no meio de tudo isso, não é possível!
--Mas veja só! -- a delegada exclamou revoltada -- E por acaso existe um código no meio dos hetero que todo mundo segue? As pessoas falam de quem é homossexual como se a gente fosse de outro planeta!
--Gente, vocês não entendem! -- Soraia exclamou angustiada -- Eu até ficaria conformada se ela fosse uma lésbica discreta mas precisava ser assim, dando essa bandeira toda? Podia ser uma sapatão fofinha que nem vocês! -- olhou para a japonesa -- Principalmente do seu tipo!
--Sapatão fofinha... -- Suzana repetiu fazendo um bico
--Converse com ela, dona Soraia! Ouça o que ela tem a dizer e aceite a pessoa que ela é! -- Juliana aconselhou -- Do contrário vai perdê-la e um dia muito se arrependerá por isso!
--Mas, Juliana, todos nós temos os nossos limites! Eu sou uma mulher idosa, criada em outras épocas, não é fácil pra mim aceitar isso! Ela não pode chegar e me impor seu novo modo de viver e querer que eu concorde plenamente e de uma hora pra outra! Vocês que são homossexuais têm essa mania! Vocês querem conquistar espaço chocando os outros, não precisa disso!
--Converse com ela, não é com a gente! -- a delegada respondeu -- Não temos condições de interferir em nada!
--Peça orientação a Deus, pra senhora e pra ela! E tentem conviver com um mínimo de respeito mútuo. Se acha que ela abusa, converse e seja clara, sem ser preconceituosa. Mas não adianta trazer isso pra nós porque é a vida de vocês e não temos nada com isso!
A síndica respirou fundo e se levantou dizendo: -- Então eu vou é aumentar o condomínio!
--O que??? E o que tem a ver uma coisa com a outra? Tem que fazer assembléia, não pode decidir isso assim, não! -- Suzana se levantou protestando
--Vou mandar pintar os corredores, trocar os corrimãos, instalar sistema de acendimento automático de luz nos espaços públicos e comprar uma estátua nova pra portaria. A que tem lá é do tempo do prefeito Marcello Pilar! -- gesticulava como política
--Ah, não, dona Soraia! -- a enfermeira protestava revoltada -- Não é porque a senhora e sua neta estão em crise que tem que aumentar o condomínio! Tá pensando que é assim que se tira dinheiro desses bolsos aqui, minha filha?? -- pôs as mãos na cintura -- Enganou-se!
--Eu tenho que me manter ocupada senão enlouqueço! -- andava pela sala sem rumo certo -- Vocês não ligam pra nada porque só vivem nesse clima de amor pra cá, my love pra lá, sacanagem no quarto, na sala, no banheiro... Lá de casa se escuta tudo, tá pensando que sou surda? E deve ter sido por isso que a menina desembestou, de tanto ouvir essa lambição lésbica de vocês! -- falava e gesticulava como louca -- E eu vou embora! -- foi até a porta -- Se preparem que o condomínio vai subir em 30%!! -- saiu
--E não vai mesmo! -- Juliana gritou -- Tá pensando que eu vou deixar barato? Vou nada!! Vou nada!! -- fechou a porta e olhou para Suzana -- Essas loucuras só acontecem com a gente, né? Contando ninguém acredita! -- cruzou os braços
--Ô, Ju, será que do apartamento dela se ouve a gente mesmo? -- perguntou constrangida
--Pois que ouça, que ouça! -- falava bem alto -- E morra de inveja!!! E se tá pensando que vai aumentar o condomínio, só por cima do meu cadáver!! -- gesticulava furiosa – Ela vai ver que nessas horas eu tenho um escorpião no bolso!! E boto outro no teu! -- apontou para Suzana
***
Camille estava em casa sentada na sala. Comia biscoitos enquanto assistia a um filme. Na verdade, a cabeça estava longe. Pensava em Seyyed e Letícia. Sentia tristeza pela agressão sofrida pela mecânica e uma tremenda indecisão quanto ao que fazer com a professora. “Se ela não fosse tão safada...” -- suspirou
--Filha, nosso telefone tá mudo. Liga pra operadora e reclama, por favor? -- Mariângela pediu -- Eu tô indo aqui na vizinha entregar umas roupas.
--Tá, eu vejo isso. Esse filme já me encheu. -- pegou o controle e desligou a TV. Na sequência foi para o quarto e pegou seu celular -- Já vou ligar! -- falou para a mãe enquanto caminhava de volta para a sala
--Até daqui a pouco! -- a costureira saiu dando tchauzinho
A loura mexeu no telefone fixo confirmando que estava mudo, desplugou e plugou a tomada novamente e viu que o problema permanecia. Ligou para casa e percebeu que também não recebia chamadas. Após estes testes sentou-se novamente na poltrona e pegou seu pratinho cheio de biscoitos. Discou para a operadora e aguardou. “Meu, como demora a atender!” -- pensou enquanto mastigava
--Olá! -- uma gravação atendeu -- Aqui é a voz da sua operadora. No que posso lhe ajudar? Digite 1 para problemas no seu Olá fixo, 2 para problemas no seu Olá Rapidex...
--Deixa eu discar logo o 1! -- falou para si mesma
--Ah, entendi! Problemas no seu Olá fixo. Para atraso no recebimento da fatura disque 1, dúvidas na fatura disque 2, linha defeituosa disque 3...
--Ô louco, mas que saco, viu? -- digitou o número 3
--Ah, entendi! Linha defeituosa. Por favor, fale o tipo de defeito para que eu possa encaminhá-lo ao setor responsável.
--Telefone mudo. -- respondeu
--Não entendi! Por favor, fale o tipo de defeito para que eu possa encaminhá-lo ao setor responsável.
--Mas que merd*!! -- já estava ficando furiosa -- TELEFONE MUDO!!! -- gritou -- MUDO, MUDO, MUDO!!
--Ah, entendi! Telefone mudo. Disque 1 se o telefone for este que você está utilizando, disque 2 se for um outro número...
Discou o número 2. -- Ô, meu, se o telefone tá mudo como é que eu poderia estar usando ele?? Gravação mais imbecil!! -- continuava perdendo a paciência
--Por favor, digite o número da linha que necessita de atendimento. -- a loura assim o fez
--Aguarde. Você está sendo encaminhado para um de nossos atendentes! -- a gravação anunciou -- Para sua segurança, essa ligação será gravada.
--Pra minha segurança?! -- não entendeu -- Humpf, que conversa fiada! -- mastigava um biscoito furiosamente
--Cesar Fabiano, boa tarde, com quem eu falo, por favor?
--Olá, boa tarde! -- respirava fundo tentando ser educada -- Meu nome é Camille, nosso telefone fixo está mudo e eu queria solicitar o reparo da linha.
--A senhora fala da linha defeituosa ou de outro telefone?
Camille respirou fundo. -- Meu, -- tentava se conter -- noto do teu sotaque que você é meu conterrâneo então não me mata de vergonha!! Se a linha tá muda, como eu poderia estar usando ela pra falar contigo??
--Sim senhora. Por favor, a senhora já verificou se o telefone realiza ou recebe chamadas?
--Claro, querido, foi assim que eu descobri que tava mudo!! Veja que coisa! -- revirou os olhos
--Correto, senhora. Por favor, a senhora verificou se a tomada está ligada ou se o fio do telefone foi cortado ou coisa do gênero?
--Claro que verifiquei! -- respondeu revoltada -- Eu sou engenheira, meu filho, tá me tirando, é?
--Não senhora. Por favor, há quanto tempo que o telefone está mudo?
--Contando com a demora no atendimento de vocês, deve ser há uma meia hora.
--Sim senhora. Eu vou estar lhe transferindo para o setor responsável. Um minuto, por favor!
--Ô, meu Deus, mas que praga!!! -- a loura reclamava
--Camille Lopes, boa tarde, com quem eu falo, por favor?
“Calma, Camille, contenha o ódio, contenha, contenha!!!” -- a loura recitava um mantra mentalmente -- Olá, boa tarde, meu nome é Camille e nosso telefone fixo está mudo e queria solicitar o reparo da linha! -- falava entre dentes
--A senhora fala da linha defeituosa ou de outro telefone?
A loura esmagou um biscoito com a mão. -- Minha filha! -- respirou fundo -- Honre o nome que tem e não me pergunte isso!! Se a peste do telefone está muda, como eu poderia usá-lo pra falar contigo???
--Sim senhora. Por favor, a senhora já verificou se o telefone realiza ou recebe chamadas?
--Eu já verifiquei, -- esmigalhou outro biscoito -- TUDO!! Manda algum desgraçado, algum puto dessa tua companhia consertar essa linha AGORA!!!
--Sim senhora. Por favor, qual o número da linha que necessita de reparo?
--Eu já tinha digitado isso! -- respondeu como se cada palavra lhe queimasse a boca
--Sim senhora. Mas é que com a transferência algumas informações se perdem!
Camille respirou fundo. -- O número é 2269- 9900.
--Ok senhora. E a linha, está no nome de quem?
--Giancarlo Zanini. -- respondeu
--Poderia falar com o titular por favor?
A loura riu brevemente e respondeu: -- A menos que você tenha uma mediunidade poderosa, isso será impossível. Ele é meu avô e já é falecido!
--Sim senhora, mas eu preciso falar com o titular da linha pra resolver o problema.
--GAROTA! -- a engenheira deu um berro e esmagou quatro biscoitos com as mãos -- Eu disse que meu avô está morto, muito morto! He is gone! È morto, non mi capisco? -- falava com voz de psicopata -- Morto, como você estará em breve se continuar insistindo com isso!
--Sim senhora. Nesse caso, eu vou estar lhe transferindo para o setor responsável. Um minuto, por favor!
--NÃO, NÃO, NÃO!!! -- gritou furiosa mas era tarde. Possuída pelo ódio, esmigalhou todos os biscoitos com a mão -- Que merd*!! Que merd*!! Grava isso, bando de puto: QUE MERDA!!!
--Joana Pinho, boa tarde, com quem eu falo, por favor?
--Escuta aqui, sua maldita! -- falou em tom ríspido -- Meu nome é Camille, a merd* do meu telefone fixo está mudo, eu não uso ele pra falar contigo agora, já olhei o desgraçado todo e ele não tá desplugado da tomada ou com fio partido e a linha tá nome do meu avô, que já morreu e não vai vir do Além pra falar contigo!! -- trincava os dentes -- Ou vocês resolvem isso agora, ou eu vou no PROCON colocar vocês na Justiça!! Que merd*!!!
--Senhora...
--E NÃO ME CHAME DE SENHORA! -- sua voz era assustadora -- Ou terá meu ódio por todo o sempre!
--Qual o número da linha defeituosa?
--Dois, -- deu um soco no prato -- dois, meia, nove -- deu outro soco -- nove, nove, zero, zero! -- tremia de ódio
--Eu peço que a senh... aguarde um minutinho enquanto eu contato a equipe técnica.
--Não se atreva a desligar ou transferir a ligação porque senão te rogo uma praga das mais medonhas! -- ameaçou com voz diabólica
--Um minutinho, por favor! -- música clássica toca nos ouvidos de Camille
--Eles têm um atendimento de MERDA e colocam Verdi pra acalmar a gente. -- resmungou -- Adianta, não, minha filha, tô POSSUÍDA! -- gritava no telefone -- AHAHAHAHAHAH!!!!
Após vinte minutos...
--Senhora?
--Eu disse, -- Camille estava coberta de farelo da cabeça aos pés -- que não me chame de senhora! -- sua voz era sinistra
--A equipe técnica confirmou que seu telefone Olá fixo está mudo.
--É mesmo?? Minha nossa, que equipe boa, viu? Ô louco! -- respondeu debochadamente -- Se você não me fala eu ia ficar sem saber!
--Estou lhe transferindo para o setor técnico. Um momento!
--AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!! -- a loura soltou um grito pavoroso
--Paulo Maurício, boa tarde, com quem eu falo, por favor?
--Desgraçado, maldito, canalha, miserável! -- soltou o verbo -- Eu não sei mais meu nome, a merd* da peste do telefone fixo está mudo, eu não uso ele pra falar contigo, já testei o aparelho e a linha tá nome do meu avô, que morreu, MORREU, e não vai falar com vocês!! -- deu mais um soco no prato -- Resolvam isso agora!!!! -- gritou -- E não me chame de senhora!!! Eu ODEIO isso de senhora!! Que merd*!!!
--Um minutinho, por favor!
--A sua colega, a desgraçada da Joana Pinho, que eu já amaldiçoei, me pediu um minutinho e levou meia hora me fazendo esperar pra depois me dizer o óbvio, ou seja, que a linha tá muda. Aí a cachorra transferiu a ligação pra você! -- estava a beira do colapso -- Não se atreva a me transferir pra mais NINGUÉM!!
--Tudo bem, senhora. Um minutinho. -- e tome de música clássica
Dez minutos depois...
--Senhora?
--Fala, peste!
--O tempo de atendimento é de até 48horas úteis.
--Quarenta e oito??? Quarenta e oito??? -- gritou -- Puta que pariu, que merd*!!! Que merd*!!!
--Por favor, fique calma! Poderia anotar o número do protocolo, senh... -- pigarreou -- Poderia?
--Eu tô coberta de farelo da cabeça aos pés! -- respondeu sombriamente -- E minhas unhas estão sujas de sangue!
--Como? -- não entendeu
--Fale o número, diabo! -- respondeu impaciente. Pensava em memorizar o número
--O número é 2005183940482173849832717!
--Ah, tá! -- só lembrava dos quatro primeiros algarismos
--A Olá agradece a sua ligação, tenha uma boa tarde!
--Eu maldigo essa ligação e desejo uma péssima tarde pra todo mundo daí! -- desligou o telefone revoltada
Nesse momento Mariângela voltava para casa. -- Camille?! -- levou um susto -- Por que você tá assim? O que houve aqui?
A engenheira estava descabelada, coberta de farelo, com as palmas das mãos feridas e segurando um prato quebrado. Os olhos esbugalhados eram de dar medo.
--Mãe, -- levantou-se -- não me pergunte nada! -- virou-se para ela com olhos de Saddam Hussein -- Aguarde quarenta e oito horas pro conserto do telefone!
A costureira acompanhou os movimentos da filha indo para o banheiro.
***
Seyyed e Isa haviam acabado de chegar em casa. A morena já havia voltado a trabalhar mas ainda não tinha condições de dirigir, por isso a esposa lhe dava carona pela manhã e para voltar para casa.
Tomaram banho, lancharam e, mais tarde, preparavam-se para deitar.
--Eu tô te dando o maior trabalho, né? -- perguntou constrangida ao se sentar -- Agora você dá o maior voltão dirigindo por causa de mim...
--E qual o problema? -- olhou para ela -- Eu não vejo mal algum nisso! -- respondeu com carinho -- Vem cá, nós temos que conversar! -- sentou-se no colo dela e a beijou
--Já sei o que vai dizer... -- abaixou a cabeça -- Vai me deixar...
--Ô, meu amor, pare com isso! -- segurou o rosto dela para que a olhasse -- Eu não deixo você por coisa alguma! -- beijou-a -- Eu tô é triste porque desde que sofreu o ataque daqueles marginais você ficou tão desanimada, tão apagadinha... Não parece nem você! -- olhava para a outra com preocupação -- "Bem que Juliana me disse que ela andava complexada e insegura!” -- pensou
--Ah, Isa, você quer aquela Diva exibida... Ela é tudo o que você queria em uma mulher... E eu ainda fiquei com essa cicatriz feia na cara! -- falava com tristeza
--Diva é uma pessoa que eu admiro profissionalmente e só!
--Vira e mexe você tá na internet com ela! Esse negócio de Orkut é a maior pouca vergonha!
A ruiva riu. -- Eu não fico de pouca vergonha na internet, sua boba! -- beijou-a -- A única pessoa com quem eu fico nessa tal pouca vergonha nunca mais me procurou... -- beijou-a de novo -- Sinto saudades da minha mecânica safada, que me possui do jeito que eu AMO! -- sorriu
--Meu corpo ainda dói e eu também achei que não fosse me querer com esse talho na cara! -- afirmou com tristeza
--Pois as cicatrizes me excitam, sabia? Acho muito sexy! -- beijou-a
--Sério? -- perguntou surpresa
--Sim... -- tirou a própria camisola -- Você fica ainda mais interessante com ela... parece uma menina muito má! -- começou a beijar e lamber a cicatriz delicadamente
--Isa... -- sorria
--O que ainda faz vestida, hein? -- despiu a amante e deitou a ambas na cama -- Quero minha mulher de volta... -- beijou-a -- Só pra mim!
Seyyed inverteu as posições e ficou deitada sobre ela. -- Quer mesmo? -- olhava nos olhos da bailarina
--Até o fim da vida! -- beijaram-se com muita paixão
***
Letícia e Samira conversavam em um barzinho no Centro da cidade.
--Eu não entendo qual é a dela, Samira... -- desabafava -- A gente sai, conversa e não rola nada! -- pausou -- Consegui um beijo, e foi bom pra caramba, mas dali pra frente, nada! -- olhava para a amiga -- Ela é interessante, inteligente, humana, verdadeira, forte, sabe? E, caraca, muito gata! -- suspirou -- Mas eu não sei o que fazer! Ela não quer me apresentar a mãe e nem quis ir no churrasco que convidei. Eu ia apresentá-la a minha família...
--Elas são estranhas, as mulheres daquela oficina. -- respondeu pensativa -- Seyyed me deixou louca, parou na melhor parte e nunca mais quis saber de mim! Aí eu deixei pra lá... Talvez um dia...
--Afinal de contas o que vocês vêem naquela tal de Seyyed, hein? -- perguntou contrariada -- Camille também gosta daquela mecânica mal educada!
--Mal educada? -- perguntou sem entender
--A desgraçada quase que me quebrou a mão quando me conheceu! -- fez um bico -- Acho que vocês ficam nessa bobeira só porque é uma morena de olhos azuis... Grandes coisas!
--Não é só por isso! Mas eu não sabia que Camille tinha olho na chefe! -- respondeu desconfiada -- "E será que Seyyed também se interessa pela loura?” -- pensou
--Ela tem logo os dois olhos! Aqueles olhos verdes maravilhosos... -- esfregou o rosto -- Ai, que droga!
--Mas você já conversou com ela abertamente? Já disse como se sente?
--Samira, ela me acha uma tremenda galinha! -- respondeu chateada -- Disse que é séria e não quer ser mais uma na minha listinha! Ela acha que sou bunda lelê, sabe como é? -- olhou para a outra
--E ela se enganou, por acaso? -- perguntou achando graça
--Qual é, Samira? Até você?? -- protestou
--Ah, Letícia... você é bonita, interessante, legal... e muito galinha mesmo! Acho que o único lugar onde você não deve ter galinhado foi na Índia, porque lá o bicho pega! -- riu
--Há, há, há! -- fingiu que ria -- Como se você fosse santa!
--Eu não sou, mas estou querendo me aquietar com alguém... Você não!
--Se aquietar com alguém? Com uma mulher casada? Qual é, Samira, conta outra! -- pausou -- E quem disse que eu não quero me aquietar? Camille me encanta... ela é especial!
--Então seja sincera com ela, muda essa abordagem de Don Juan do sex* feminino e deixa claro que você quer um relacionamento e não uma coisa passageira. -- aconselhou -- Você é muito volúvel, tem que passar segurança pra ela e mostrar que está disposta a algo mais!
--E como eu faço isso? -- perguntou angustiada
--Ué? -- riu -- Uma física cheia dos títulos me perguntando, uma mera graduada, quanto ao que fazer?
--Eu entendo de ciência, meu bem! Amor é outro papo!
--Amor? -- sorriu -- Já tá apaixonada? Ai, que fofo!
--Pára de deboche? -- deu um tapinha no braço dela -- Eu acho que... sei lá! Acho que estou me apaixonando sim... -- pausou -- Acredita que ela disse que não sou budista, mas bundista? -- fez cara feia
--Concordo plenamente! Você olha pra toda bunda que passa! -- riu -- Não sei como você consegue manter a compostura e não passar o rôdo naquela faculdade! -- continuava rindo -- Pra mim, isso é um mistério! -- deu um tapa no braço dela -- Leva a garota pra teu trabalho e mostra pra ela que você sabe ser bem comportada quando quer! Vai que dá certo?
--Fala sério, viu? Tô perdida contando contigo como confidente! -- revirou os olhos
21:10h. 15 de maio de 2005, Edifício Illudere, Ipanema, Rio de Janeiro
Anselmo chegava em casa nervoso procurando por Ana. Estava nitidamente abalado.
--O que houve, homem? -- perguntou surpresa
--Ana, você não sabe! -- segurou-a pelos braços -- Eu quero sair desse trabalho, eu quero sair! -- estava tenso -- Não estudei pra isso, Ana! Eu me sinto muito mal!
--Mas o que aconteceu, criatura? -- levou-o até a cama onde se sentaram -- O que foi dessa vez? Você tem chegado em casa nesse desespero quase todos os dias! -- reclamou
--Porque agora que eles confiam mais em mim e eu fico sabendo das coisas que acontecem! -- segurou as mãos dela -- A moça, Ana! Você não sabe o que aconteceu com a moça! -- seus olhos estavam marejados
--Que moça??
--Uma jovem ruiva que comprava drogas aos montes! Ana... -- começou a chorar -- eu ouvi eles contando como se fosse piada! Eles... eles estupraram ela! Todos eles! -- a voz era trêmula -- E depois cortaram seu corpo em vários pedaços! -- levantou-se da cama -- Estavam rindo porque colocaram a cabeça dentro de uma caixa que deixaram na porta da mãe dela! -- chorava nervosamente -- Eu passei mal ao ouvir aquilo! Tive que inventar uma desculpa pra poder vir embora porque não conseguia... -- ajoelhou-se em frente a mulher -- Eu quero sair! Não agüento mais!
--Que sair, Anselmo! -- levantou-se revoltada -- Você vai ficar! -- olhou para ele de cara feia -- Pessoas morrem todos os dias, isso é normal!
--Normal??? -- levantou-se também e olhou para ela em choque -- Ana, você ouviu o que te contei??
--Ouvi e acho que você não deve se envolver emocionalmente com essas coisas! O importante é que você ganha muito bem e isso nos basta!
--Ana, pelo amor de Deus! -- segurou-a pelos braços -- Você ouviu o que te falei?? E se fosse nossa filha, Ana???
--Isa não é uma drogada e eu não me interesso pela vida dessa gente que se enche de pó porque quer! -- desvencilhou-se dele com um safanão
--Pelo amor de Deus, Ana, eu não te reconheço! -- falou horrorizado -- Além do mais no dia da minha formatura eu jurei que...
--Você jurou muita coisa, Anselmo! -- gritou -- Você jurou na frente de um padre e de uma igreja lotada que me seria fiel!! E até onde eu saiba teve duas amantes!! Por que esse juramento nunca te fez a consciência doer, hein??
Ele ficou constrangido e passou a mão nos olhos. Depois de uns segundos calado respondeu com sinceridade: -- Eu me arrependi por isso! -- pausou -- Nunca mais te traí desde que nos reconciliamos! -- olhou para ela -- Eu fui um idiota, me deixei levar pela vaidade, pelas aparências e por um orgulho machista muito pequeno, só que colhi os frutos desses enganos sofrendo muito! -- suspirou -- Eu não estaria passando por isso hoje se não tivesse feito tanta bobagem... -- foi até ela -- Mas eu preciso sair desse trabalho, Ana! Não dá mais pra mim! Não sabe como ando nervoso! Vivo com azia!
--Você fica! -- respondeu enérgica -- Se sair agora, vão fazer contigo igual ou pior fizeram com a tal ruiva! -- afastou-se dele -- Vamos aguardar Isa ir embora, e tudo se resolverá!
--Ana, pelo amor de Deus... -- protestou desesperado
--Ela vai ainda neste ano! Acredite em mim! -- sorriu -- Eu sei o que estou dizendo! Não viu a repercussão desse último espetáculo dela? Foi de curta duração mas os comentários foram fortíssimos! Sempre elogiosos!
--Às vezes você me dá medo! -- respondeu desconfiado -- Eu lhe falo de uma coisa monstruosa e você nem se abala!
Ela ficou sorrindo maquiavelicamente. -- Isa vai deixar Seyyed não demora muito!
--O que?? -- perguntou em choque -- Não fale assim! A mulher sofreu uma violência...
--Problema dela! -- respondeu com estupidez -- Pensei que Seyyed fosse deslanchar nos negócios mas nunca que sai da mediocridade! Isa merece coisa melhor. E vai ter!
11:15h. 17 de maio de 2005, vôo João Pessoa-Brasília-Rio de Janeiro
Após passar meses em Campina Grande, Tatiana decidiu que era hora de viajar rumo ao Rio de Janeiro. Durante o vôo lia as notícias baixadas em seu laptop durante a conexão no aeroporto de Brasília.
“A Polícia Federal (PF) prende uma quadrilha de desvio e revenda de medicamentos em hospitais públicos do Rio de Janeiro. A quadrilha comercializava medicamentos e materiais hospitalares desviados do SUS, em pequenas quantidades, dos hospitais Silva Avelar, Morgado Filho, Charles Fraga e Laurêncio Borges. Os produtos iam parar nos balcões das farmácias ou diretamente nas mãos dos consumidores dentro e fora do país. Na operação, foram cumpridas 16 prisões preventivas e 62 mandados de busca e apreensão. Um grande volume de remédios, com mais de 100 tipos de medicamentos distintos, sendo a maioria de uso controlado, foi apreendido em casas, farmácias e laboratórios localizados na Região Metropolitana do Rio. No entanto, a PF estima que um volume ainda maior foi exportado para outros países. Desses remédios, muitos tinham alto valor, como o Ambisome e o Alimta, ambos usados no tratamento contra o câncer. Além da PF, a ação contou com a participação do Ministério Público Federal (MPF) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ao todo, participam 13 policiais federais e 5 funcionários da Anvisa.
A PF recebeu uma denúncia anônima de uma pessoa vinculada ao hospital Silva Avelar e, com o avanço do trabalho investigativo, descobriu a quadrilha composta por funcionários e prestadores de serviços, os quais trabalhavam diretamente com medicamentos e materiais hospitalares. Estes profissionais eram encarregados de desviar os produtos e entregar para uma rede de atravessadores, composta, majoritariamente, por traficantes de drogas. Estes, por sua vez, repassavam para empresas do ramo de venda de medicamentos e distribuidores dentro e fora do país. Para disfarçar a procedência ilegal dos remédios, a trans*ção era ‘maquiada’ com notas fiscais falsas.
Os acusados vão responder, entre outros crimes, por peculato, formação de quadrilha, receptação qualificada, tráfico e associação para o tráfico de drogas. A PF terá o prazo de 15 dias para concluir as investigações, que pode ser prorrogado por mais 15. Após o recebimento do inquérito, o MPF terá cinco dias para oferecer denúncia. As investigações continuam sob segredo de justiça.”54
“Mas é tanta cafajestagem que chega dói!” -- a jornalista pensou revoltada
Enquanto isso, em seu ‘escritório’ em Copacabana, Anselmo lia a mesma notícia e entrava em desespero. “Meu Deus, eu já fiz um monte de notas frias pra mascarar essas trans*ções!” -- levantou-se da cadeira nervosamente -- "E se eles chegarem até aqui e me descobrirem?” -- circulava pela sala -- "Tudo bem que a armação acontece desde antes de eu entrar nessa, mas participei bastante do esquema!” -- sentia uma azia crescente a lhe queimar -- "Por que eu me meti nisso, meu Pai? Por que??” -- suspirou -- "Pôxa, Anselmo, acho que você acabou com sua vida a troco de nada...” -- pensou com muita dor
***
Tatiana e Suzana lanchavam em um bar no Centro da cidade.
--Fico feliz que tudo tenha corrido bem. -- a delegada falou sorrindo -- Bem vinda ao Rio, aliás! -- bebeu um gole de café
--Obrigada! -- sorria também -- Deixa te falar, eu só tenho a te agradecer, delegada! Seu amigo me aguardava no aeroporto quando cheguei em João Pessoa. Tava tão discreto que nem Pedro percebeu ele! -- passava requeijão no pão
--Ele me disse que os acompanhou até Campina Grande. -- comeu uma torrada
--Sim, e deixou o número de telefone comigo em caso de qualquer problema. Mas foi tudo calmo e nada de mal aconteceu enquanto estive lá. -- mordeu um pedaço do pão
--Graças a Deus! -- após alguns segundos apenas saboreando seus lanches, ela perguntou: -- Tatiana, você chegou a ler a respeito do desmanche de uma quadrilha envolvida com desvio e revenda de medicamentos aqui no Rio?
--Sim! -- respondeu enfática -- Li enquanto ainda tava no avião! Cafajestagem da grossa!
--Leu que tudo começou com uma denúncia anônima de alguém do Silva Avelar? -- limpou os lábios com o guardanapo
--Juliana? -- perguntou sorrindo -- Você entregou tudo pra Federal, não foi? -- concluiu
--Escute o que vou lhe dizer! -- olhou para todos os lados e falou em voz baixa -- Tenho investigado há quase cinco anos uma quadrilha do colarinho branco e pensei que havia desmascarado o esquema todo, mas não! A coisa é muito maior do que imaginava! -- pausou -- Essa quadrilha dos remédios também faz parte da trama toda e foi uma feliz coincidência que Juliana tivesse descoberto a armação. Depois te conto os detalhes. -- olhava nos olhos da jovem -- Eu li sobre suas investigações em relação ao caso das Fazendas Calabreza e você, mesmo que sem esperar por isso, montou uma grande parte do quebra-cabeças que estou tentando resolver. Tá tudo interligado, garota! -- sorriu -- Você fez um trabalho e tanto!
Ela sorriu orgulhosa. -- Deixa eu te contar um segredo. -- bebeu um gole de café -- A família da finada Patrícia montou uma espécie de centro de atendimento jurídico às vítimas de homofobia e eu trabalhei com eles enquanto estive lá. Tem que ver delegada! O nordeste é cheio de casos assim! Chega doía o coração de ouvir as histórias!
--O nordeste? O Brasil todo! -- lamentou
--Mas o segredo não é esse. Durante um atendimento que fiz a uma das vítimas, precisei viajar até a divisa de Pernambuco e Bahia. -- pausou -- Não sabe o que descobri lá!
--O que? -- perguntou curiosa
--Às margens do Rio São Francisco, 14 municípios no Nordeste do Brasil têm como principal atividade o cultivo da maconha. Descobri que é a maior área de plantio da erva na América do Sul. Jovens e trabalhadores rurais são cooptados pelo tráfico e trabalham de dez a doze horas diárias de cinco a seis meses por ano.55 -- olhava para os lados para garantir que não eram ouvidas -- O cultivo da maconha na área começou em 1977, ao que pude inferir.
--Meu Deus! -- exclamou surpresa
--Descobri que do “produtor” o quilo sai por R$200,00 e depois de passar pelos “intermediários” chega aos grandes traficantes por mil reais o quilo. Pra se ter uma idéia, o produtor de cebola vende o quilo por R$ 0,20!55 Vê se pode? -- balançou a cabeça contrariada -- Eu chamo isso de Polígono da Maconha! -- pausou -- Ou da pouca vergonha!
--E como é que ninguém nunca noticiou sobre isso? -- deu um tapa na mesa contrariada
--Por que é muito discreto e longe dos olhos da grande mídia! Se não fosse o atendimento que fiz, nunca saberia. Aliás, a vítima trabalhou pros chefes do Polígono desde mocinha!
--E você divulgou suas descobertas de alguma forma?
--Eu não! Na verdade, ainda penso em como divulgar o conteúdo do material que tenho! Mas jogar fora é que eu não vou! -- riu -- Se fosse um cultivo de maconha pra fins medicinais ou desvinculado de esquemas criminosos, tudo bem. Mas não tem como concordar com aquilo lá!
--Acho que você me deu mais uma baita ajuda! Isso esclarece um monte de coisas... -- sorriu e pausou -- Eu tenho uma proposta a te fazer, mas quero que seja bastante sincera! Aceite se, e somente se, achar que tem condições! Pense e depois me responda!
--Quer que eu me junte a você nessas investigações que anda fazendo? -- perguntou excitada
--Continuo investigando não só por uma obrigação moral, mas porque preciso ajudar os policiais honestos que me foram fiéis por tantos anos!
--Eu aceito! -- respondeu com um enorme sorriso
--Garota, mas eu nem te contei ainda os detalhes! -- retrucou -- Você tem que ter noção do tamanho da encrenca!
--Eu aceito, uai! -- repetiu da mesma maneira
--Deixa eu te explicar primeiro, mulher! -- riu -- E além do mais você não acha que deveria conversar pelo menos com seu marido? -- pausou -- Ed me disse que Renan só faz trabalhar desde que você saiu de Goiânia. O cara anda triste pra caramba, não acha que deveria conversar com ele a respeito?
--Isso será um segredo nosso, delegada! -- pediu -- Renan e ninguém da minha família me daria apoio nisso. Talvez somente Tamires, não sei... -- pausou e olhou seriamente para a outra -- Conte-me tudo com detalhes, porque preciso entender, mas eu quero trabalhar contigo nessa causa! E vou nessa com você até o fim! Amo minha família, amo Renan, mas há coisas que precisam ser feitas! Sempre quis ser repórter investigativa! -- sorria excitada -- Sinto que esse momento chegou!
***
--Suzana, eu não acredito que você fez isso! -- Juliana se revoltava andando em círculos pela sala -- Sabe que a garota sofre perseguição por causa da reportagem do benzeno e ainda pede pra ela trabalhar contigo nessas investigações? -- olhou para a outra -- Você não tem consciência, não? Se a família dela souber disso vai ficar possessa! Se Renan, dona Olga e Ed souberem disso eles vão ficar furiosos contigo! -- fez cara feia
--Calma, Ju! -- tentava acalmar a japonesa -- Eu não fiz isso de forma leviana! Tive acesso ao trabalho dela no caso das Fazendas Calabreza e vi que a garota é ótima! Ela me ajudou pra caramba, mesmo que sem saber, e é a pessoa que eu preciso! De quebra ainda descobriu o Polígono da Maconha e me respondeu a uma série de perguntas!
--Polígono da Maconha?? -- não entendia
A delegada foi até ela -- Eu sei o que ela precisa fazer, não vou mandar a garota se enfiar na cova dos leões. Além do mais a ajuda dela vai ser importante pra me fazer montar o quebra cabeças. Sozinha eu não vou conseguir e não tenho muito mais em quem confiar! -- olhava para a enfermeira com cara de criança que fez besteira
--Se acontecer qualquer coisa com ela, você vai ser a culpada, Suzana Mello! -- afirmou enfática -- Trate de garantir a proteção dela com todas as suas forças, porque se alguma coisa ruim acontecer... -- ficou uns segundos olhando para ela em silêncio -- eu deixo você!
--Juliana! -- exclamou apavorada
--Você ouviu! Se acontecer qualquer coisa ruim com ela por causa desse trabalho eu deixo você e sem chances de voltar! -- ia para o quarto mas parou na entrada do corredor -- Ah, e à propósito, -- virou-se de frente para a delegada de novo -- você vai dormir na sala pelos próximos dias pra perder essa maldita mania de tomar decisões sérias sem me consultar! Pensei que já tivéssemos superado essa fase! -- seguiu furiosa pelo corredor
--Que dureza... -- esfregou o pescoço e suspirou -- É, Suzana... nessa você se deu mal...
19:30h. 01 de junho de 2005, Edifício Rubi, sala 1033, Centro da Cidade, Rio de Janeiro
--É, Ivone... tenho é coisa forte pra te contar! Fica atenta aí que, ô louco! Você vai ficar passada! -- exclamou
--Estou ansiosa para ouvir! -- respondeu sorridente
--Eu andava muito agoniada querendo alguém pra um papo lésbico. Às vezes você precisa conversar com alguém igual, sabe? -- olhou para a psiquiatra -- Não pensei em te procurar porque você ainda não se assumiu.
--Eu?! -- perguntou surpresa -- "Essa menina cisma com isso!” -- pensou achando graça
--Então, sem saber em quem mais pensar, convidei a caipira pra uma conversa olho no olho. E ela aceitou meu convite!
--Ah, finalmente! E o que achou dela?
--Até que fui com a cara dela... -- pausou -- Falei umas verdades pra ela, antes de qualquer coisa, e percebi que não é a invejosa que pensei. O problema da pobre é ser sem noção mesmo, mas eu tenho orientado pra que se transforme numa escritora de fato. Acho que agora vai!
--Que bom. -- respondeu achando graça
--Outra coisa também é que uma tremenda de uma alcoviteira! -- fez um bico -- Igual a você! -- Ivone riu -- Ela me recomendou assistir uma palestra sobre lixo em uma ONG lésbica chamada Femina, tudo porque eu comentei que só conhecia figurinha manjada.
--Presumo que você tenha demonstrado a sua colega que tinha interesse em conhecer outras lésbicas diferentes daquelas que fazem parte de sua vida de uma forma ou de outra.
--Eu demonstrei nada! Só fiz um inocente comentário e ela veio com essa, de palestra na ONG! -- retrucou
--E você foi na tal palestra?
--Fui, né? Afinal de contas eu tenho consciência cidadã! -- afirmou enfática
--Ah, sim! -- respondeu achando graça
-- E você não sabe o que aconteceu lá!
--O que? -- perguntou curiosa
--Conheci uma professora de física chamada Letícia Avelar e foi aí que minha vida virou de ponta a cabeça de novo!
--Por que diz isso?
--Porque a mulher é muito safada, Ivone! -- cruzou os braços fazendo cara feia -- Se fizessem um programa de milhagem pra horas de alcova aquilo ali era cartão diamante!
--Nossa! -- riu -- Mas, me conte mais detalhes sobre a tal professora. Acredito que ela tenha lhe deixado meio balançada...
--Ah, não é bem isso... -- olhou para as mãos -- Ela é uma mulher inteligente, simpática, interessante, culta... Nunca conheci alguém com tanto conhecimento! -- olhou para Ivone -- É uma negra bonita, alta como Seyyed, usa aquelas trancinhas afro e fica bem da hora, sabe? -- falava empolgada -- E tem aquele jeitinho maroto, aquela coisa bem sensual... é difícil não prestar atenção nela...
--E pelo que vejo você tem prestado muita atenção. -- comentou
--Eu não! -- protestou -- Tudo bem que a gente tem saído mas isso não quer dizer que eu esteja prestando tanta atenção nela assim!
--Ah, então vocês têm saído? Que bom! -- respondeu animada -- Há quanto tempo?
--Desde abril... Mas eu não vivo só saindo com ela! -- esclareceu -- Continuo com meus programas habituais.
--Mas é bom que tenha seus programas com e sem ela. -- concordou -- E a amizade tem evoluído pra algo mais?
--Mas você já gosta de uma fofoca, né, Ivone? -- fez cara feia
A psiquiatra riu. -- Sou sua terapeuta, não pergunto por fofoca. Mas se não quiser responder, fique à vontade.
Camille ficou uns instantes calada e respondeu relutante: -- Ela tentou me beijar uma vez e não deixei. Acredita que a tarada já veio cheia de mão pra cima do meu peito?
--Não é o tipo de abordagem que mais lhe agrada, certamente. -- pausou -- E ficou só nisso? Ela não tentou mais alguma coisa em outro momento?
--Tentou. -- abaixou a cabeça -- Ela me beijou um dia desses... -- olhou para Ivone de cara feia -- E ainda veio passando a mão na minha coxa! Adivinha onde ela queria tocar? Aí eu interrompi a coisa, empurrei ela e falei uns desaforos! Desde então não deixei que nada mais acontecesse!
--E, à despeito da ousadia dela, você gostou? -- perguntou com jeito -- O que sentiu?
--Ah, eu... -- desviou o olhar -- Eu fiquei... acho que fiquei um pouco...
--Excitada?
--É... -- respondeu constrangida
--Não é vergonha alguma, Camille. Você é uma mulher, tem sentimentos, tem desejos... Nada de errado nisso!
--Cheguei a sonhar com ela duas vezes depois daquilo. -- abaixou a cabeça -- Sonhos meio... você sabe!
--E isso é normal! -- pausou -- E quanto aos seus sentimentos por Seyyed? Letícia está fazendo você esquecê-la?
--Sim e não. -- olhou para Ivone -- Letícia me confunde porque ela é uma pessoa envolvente, mas também é muito safada e eu não quero bagunça! Não quero ser mais uma e não quero ficar com alguém que fique me traindo!
--Já conversou com ela a respeito? Já disse como se sente e o que espera de um relacionamento?
--Eu falei pra ela que pra ficar comigo vai ter que rebol*r! -- afirmou enfática -- Ela vai ter que dar provas de que vale a pena. Arrumar alguém só pra fazer sex* eu não quero! -- pausou -- E quanto a Ed, eu peço a Deus todos os dias pra me ajudar a esquecê-la e confesso que hoje não sinto tanta dor e agonia como antes. Mas ainda gosto dela... -- suspirou -- Não sabe como sofri quando fizeram aquela maldade...
--Eu fiquei sabendo! Não tive tempo de ir visitá-la mas telefonei. Parece que os homens foram presos, não foi?
--Suzana não descansou enquanto não achou os dois vagabundos! Hugo Maciel e Bernardo Alencar. Nunca esquecerei esses nomes. -- pausou -- Mas homofobia ainda não é citada diretamente como um crime perante nossas leis e os advogados deles conseguiram transformar a coisa em lesão corporal dolosa. Aí, como têm um monte de atenuantes, ganharam habeas corpus e, se bobear, a coisa toda não vai dar em quase nada! -- reclamou
--É uma vergonha! -- desabafou -- Mas um dia as leis enxergarão a homofobia e ela vai virar um crime como já é o racismo!
--É por essas e outras que eu morro de medo de me assumir!
--Entendo seu ponto de vista, seus medos não são infundados. Sair do armário, como se diz na gíria, não é uma coisa fácil! É preciso se ter certeza quanto a própria orientação sexual e ter condições psicológicas, emocionais, financeiras e jurídicas para assumir as conseqüências desta escolha. As pessoas que têm coragem de assumir isso são dignas de meu sincero respeito.
--Eu já tenho certeza quanto a minha orientação. Também tenho as tais condições financeiras e jurídicas porque trabalho e não sou menor de idade, mas não tenho condições psicológicas e emocionais pra agüentar a pressão, as humilhações e a podridão da sociedade. -- lamentou-se -- Queria um dia ter...
--Tudo a seu tempo, querida. Você já evoluiu muito. -- sorriu -- Talvez esse momento esteja mais perto do que você imagina, mas deixe que o processo flua naturalmente.
--Eu queria ser como Seyyed, Isabela, Juliana, Suzana... A homossexualidade delas não é um cartão de visitas, mas são assumidas e encaram tudo o que vem.
--Você tocou num ponto importante! Considero essencial que a orientação sexual de uma pessoa, hetero, homo ou bissexual, não seja seu cartão de visitas. O ser humano é muito mais que sua sexualidade, a qual é apenas um dos traços fortes de sua personalidade atual. -- pausou -- E novamente repito: deixe o processo fluir naturalmente!
--É... -- suspirou -- Vamos ver se um dia eu crio coragem...
--E quanto a sua mãe? Que ela acha de Letícia?
--Não se conhecem! Eu nunca nem falei de Letícia pra ela.
--Por que não?
--Não sei como reagiria... não sei.
--Não acha que deveria dar um voto de confiança a ela? Por que não apresenta Letícia como sua amiga?
--É... talvez eu faça isso. Vou pensar. -- pausou -- Letícia quis me levar em um churrasco na casa da tia e me apresentar a família dela, mas eu não aceitei o convite. Não quis dar muita confiança!
--Talvez ela esteja querendo mostrar que está disposta a agir com seriedade em relação a você.
--Humpf! Isso me parece mais é tática de cafajeste! Vejo homens que são capazes de tudo pra levar uma mulher pra cama. Com certeza existe o mesmo no meio das lésbicas!
--Pode ser e pode não ser. Não seja excessivamente ingênua, mas também não seja dura demais a ponto de ver malícia em tudo! Você não perde nada em conhecer a família dela.
--Eu vou pensar nisso tudo... -- lembrou-se de outro assunto -- Mas a vida não é só mulher, vamos falar em outra coisa! Você fica muito assanhada com esses assuntos mas é hora de falar de outros aspectos da vida!
--Claro. -- achou graça
--Um dia desses Aline me mandou por e-mail o link do edital do novo concurso da empresa dela. -- pausou -- E eu me inscrevi... -- suspirou -- Apesar da saída do Léo, as coisas nas duas oficinas estão bem e acho que seria bom pra mim, de repente, sei lá... viver outras experiências profissionais. -- olhou bem para Ivone -- Acha que seria traição?
--E por que seria? Por que Seyyed ajudou você e se sente em dívida com isso? -- pausou -- Você deu muito de si na oficina, em todas as duas, e também a ajudou bastante. Deve fazer o que for melhor pra você e ser honesta com ela. -- aconselhava -- Pense nas conseqüências de sua demissão e, se quiser mesmo se demitir, prepare o terreno pra sair de lá da forma menos traumática possível. Não vejo mal em você tentar seguir por outros caminhos.
--Às vezes acho que já é hora...
--Se acha isso, então, vá em frente e converse com Seyyed. Precisa preparar sua sucessão.
--E se eu não passar?
--Você? Duvido muito...
“Hum, tô com moral!” -- pensou orgulhosa -- É... tenho muito que providenciar... -- olhou para Ivone -- Eu não disse que você ia ficar passada com tanta novidade? Minha vida agora é outra! Não sou mais aquela Camilla tensa e agoniada que você conheceu!
--E eu fico muito feliz com isso!
--Ivone, responda-me sem pestanejar: está sofrendo em saber que Letícia apareceu em minha vida? -- reparava bastante no rosto da outra mulher
--Não! -- respondeu desconfiada -- Por que estaria?
--Ora, porque você é apaixonada por mim, que eu sei! Já notei faz tempo, meu!
A psiquiatra não agüentou e riu muito. “Eu nunca tive uma paciente como essa!” -- pensava -- "Ai, ai, meu Pai, dai-me forças...” -- balançava a cabeça
***
Dois médicos jovens iniciavam residência no Silva Avelar. O hospital vivia um dia daqueles e Juliana foi procurá-los pois só havia um médico disponível na emergência.
--Gente, mas o que fazem aí mexendo em computador? -- perguntou indignada -- O hospital pegando fogo e vocês dois aí à toa??
--Estou fazendo umas pesquisas... -- um deles respondeu. O outro permaneceu calado
--Que pesquisa, rapaz? É hora de colocar a mão na massa! -- foi até eles e os segurou pelos pulsos -- Medicina e Enfermagem se aprende é cuidando de gente!
--Ei, -- o que estava calado se levantou revoltado -- você não pode fazer isso!
--Nunca fui mulher de fazer só o que deveria! -- seguiu arrastando os dois -- Vambora! Hora de honrar o diploma!
Chegando no atendimento de emergência, a enfermeira lançou os médicos no meio dos pacientes como quem jogasse carne para os leões. Os dois ficaram totalmente atordoados mas aos poucos foram entrando no ritmo.
--Você é louca, Juliana! -- Débora disse a ela -- E acho graça como faz as coisas com tal autoridade que as pessoas simplesmente se rendem! Se eu contar que você foi na sala dos residentes e trouxe a dupla de metidinhos puxando pelas mangas dos jalecos ninguém vai acreditar! -- riu
--Os outros residentes eram bem batalhadores, mas esses aí... Tem gente que entra na área de saúde nem sei porque! -- revirou os olhos. As duas cuidavam de um paciente vítima de atropelamento -- Comprime aqui! -- pediu
Débora fez o que a colega pedia. -- Sabia que, segundo as más línguas, depois daquele escândalo da quadrilha dos remédios o diretor daqui vai dançar? -- falou em voz mais baixa
--Bem feito! Tomara que venha alguém que vista a camisa do hospital! -- continuava trabalhando
--Há quem diga que foi você quem fez a denúncia anônima! -- continuava falando baixo -- É a pessoa de quem mais desconfiam. Você e o rapaz do almoxarifado.
--Eu?! -- fingiu-se espantada -- Não tenho coisa alguma com isso! -- mentiu -- Aposto que dizem isso porque sabem que não gosto de safadeza!
--Dizem isso porque alguém falou que te viu entrar no banheiro do almoxarifado um dia desses.
--Entrei mesmo e daí? Por acaso a quadrilha se reunia lá e eu ouvi? -- olhou para Débora -- Esse pessoal fala demais!
--E você vive com uma delegada, é a suspeita mais óbvia!
--Suzana nada teve a ver com a operação que desmanchou o negócio. Ela nem veio aqui investigar! Isso foi coisa da Federal! -- pausou -- "Ainda bem que ninguém conhecia Coimbra e ele nem mais é da polícia...” -- pensou -- "Além do mais sempre veio pra cá devidamente disfarçado...”
--Seja como for, fica esperta. Se souberem quem foi, essa pessoa vai dançar!
--Eu não me meto nessas confusões, meu bem! Já me basta a dureza de nosso trabalho! -- terminou o curativo -- E Suzana está aposentada e devidamente longe dessas coisas. -- mentiu -- A vida dela agora é só alegria!
***
Lady estava na faculdade estudando em uma sala quando um rapaz veio abordá-la. -- Oi, dá licença? -- parou em frente a ela
Ela olhou para ele e se surpreendeu com o moreno simpático que era. “Nunca tinha visto esse!” -- pensou -- Oi! -- respondeu empolgada -- Algum problema? Em que posso ajudar? -- abriu um imenso sorriso
“Nossa, que garota simpática!” -- pensou. Lady havia cortado o cabelo bem curtinho e pintado de preto para que, aos poucos, voltasse a ser como antes. Ele a achou bonita -- Eu fiquei sabendo que você já cursou Fontes Alternativas de Energia... queria saber se poderia me emprestar seu material. Parece que a maior nota foi sua.
--É, eu gostava daquela matéria. -- respondeu ainda sorrindo -- Posso te emprestar, sim!
--Eu tô no último período e só me faltam as quatro matérias que estou cursando pra terminar o curso de uma vez. Fontes é uma delas. -- sorriu -- Depois de finalmente ter saído de uma baita crise, acho que agora vai!
Lady sentiu o coração disparar. -- Crise?! Me diga, da onde você veio?? -- perguntou esperançosa ao se levantar
--De Guapimirim, por que? -- não entendia
“Meu Deus, veio de longe!” -- pensou abestalhada -- "Será ele? O enviado? Meu príncipe?” -- sorria como se estivesse recebendo um Oscar -- Ah, porque a gente tem que saber com quem está falando, não é?
--Que mal educado! -- deu um tapa na testa -- Eu sou da Civil e sei que seu nome é Lady Dy. -- pausou -- Meu nome também é exótico: Príncipe Charles! -- estendeu a mão
--O que?? -- Lady não resistiu e caiu desmaiada. Charles foi rápido o suficiente para evitar que caísse no chão
--Meu Deus, o que há com você? -- perguntou apavorado -- E agora, o que eu faço? -- estava aflito -- Lady, por favor, acorda! -- pedia
--Oh, não creio... -- respondeu meio lerda -- Gente, será que é, será que não é?
--Do que tá falando, menina? -- sentou-a na cadeira -- Meu Deus, ela tá delirando!
--Você é homem mesmo? -- olhou para ele
--Mas que pergunta é essa? -- fez cara feia
Lady olhou para a virilha dele. -- Acho que é! -- olhou para seu rosto -- Você tem namorada? Eu acho que me formo no ano que vem, no meio dele. -- pausou -- E estou pronta pra casar! Já tenho até vestido!
“Nossa, mas essa garota é estranha!” -- pensou desconfiado -- Ah, eu não tenho namorada e também queria casar... Mas não pode ser assim na correria, né?
--E quem está correndo? -- levantou-se de um salto -- Quando é sua última aula do dia? -- perguntou guardando as coisas dentro da mochila
--Minha última aula acaba às três, por que?
--A minha também! -- colocou a mochila nas costas e segurou-o pelo braço -- Vamos para minha casa depois dessa aula, entrego as coisas que me pediu e já vamos conversando sobre a vida! Lady Dy com Príncipe Charles, você sabe que tem tudo a ver! -- foram andando
--Mais ou menos, né? Os originais da Inglaterra não terminaram muito bem... -- respondeu desconfiado
--Ah, mas no Brasil tudo é diferente! Aqui não tem família real pra encher nosso saco! Somos soberanos absolutos! -- sorriu -- De mais a mais, você já tinha sido anunciado pra mim há tempos... Quando eu te contar o que a cigana me disse você vai ficar besta!
“Sinto que me dei mal...” -- Charles pensava receoso
***
Seyyed caminhava sozinha pela praia. Fazia frio e o número de pessoas pelo calçadão era bem menor que o habitual.
Camille havia lhe falado sobre o concurso público em julho e sua intenção de experimentar novos desafios na vida profissional. A morena não fez objeções e desejou, com sinceridade, que a engenheira fosse muito feliz, mas não conseguia enxergar quem poderia ficar no lugar dela e considerava que outra pessoa não teria o mesmo compromisso e paixão no trabalho.
A verdade é que a mecânica sentia-se triste com isso, mesmo sabendo que esse dia chegaria mais cedo ou mais tarde. Camille ainda faria a prova porém já era capaz de sentir falta dela.
“Ela está realmente decidida a me deixar e isso dói. Embora eu reconheça que não há nada entre nós e meu sofrimento nem se justifique, queria que ficasse pra sempre...” -- pensava enquanto caminhava de mãos nos bolsos -- "É aquela tal de Letícia... Ela tá tirando a garota de mim...” -- suspirou -- "E o pior de tudo é que sinto que Isa vai me deixar quando a primeira oportunidade no exterior efetivamente surgir! Só a pressão que a mãe dela faz... pensa que não noto, mas percebo muito bem como aquela mulher faz de tudo pra fazer a cabeça da Isa!” -- fez cara feia -- "Acho que vou ficar mesmo sozinha...” -- sentia vontade de chorar -- "Se Isa me deixar, nunca mais me caso com quem quer seja!”
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
jake
Em: 24/03/2024
Olaa Sol tô amando o FDS chuvoso aqui no Rio, assim fico maratonando com pizza e guaraná. Rsrsr. Ah Camile vc me representa diante dos atendente paciência zero ,Letícia está ralando pra ficar com Camile. JU tô com medo de acontecer algo com ela .Bom vou lá ler mais um cap .Obrigada.
Solitudine
Em: 02/04/2024
Autora da história
Olá querida!
Desculpe a demora!
Então você aproveitou um final de semana chuvoso para ficar com Maya? Que honra!
Esses atendentes de telefonia matam qualquer uma! Eu fico louca! E atualmente me arrumaram inteligências artificiais que são piores ainda! Letícia deu uma batalhada básica, mas também não foi sábia! Juliana é cascuda, tenha medo não!
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Joanna
Em: 18/04/2023
Fazia tempo que eu não ria tanto!!
A cena da Camille e a operadora foi demais! Kkkkkk Nem terminei de ler o capítulo, queria comentar.
Tenho ódio mortal destes atendimentos eletrônicos, e quando chega no atendente tenho que abstrair para não ser grosseira.
Tadinha da Ed, fiquei penalizada, a desumanidade nos entristece.
Solitudine
Em: 19/04/2023
Autora da história
Olá Joanna!
Que maravilha ver você lendo outro conto desta caipira! Volte mais e me deixe saber o que tem achado!
A violência contra a população LGBT precisa ter visibilidade para que seja combatida! O direito de ser é inalienável!
Também já vivi meu momento Camille inúmeras vezes, embora não com tamanha fúria e intensidade! Mas é patente que detesto atendimentos como estes dos quais dispomos por parte de tantas empresas!
Fico feliz que o episódio tenha te divertido!
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Samirao
Em: 23/03/2023
Deu saudade da Ed e da Isa. Aff! Huahuahua
Solitudine
Em: 26/03/2023
Autora da história
Também... rs
[Faça o login para poder comentar]
Alexape
Em: 10/12/2022
O drama da Seyyed gente! Ai eu no lugar dela.... Amando essa super história! Melhor que qualquer série do Netflix. Divulga pra eles!
Resposta do autor:
Olá querida!
Então você queria ser alvo da predileção de uma ruiva e uma loura? Difícil saber quem não gostaria, né? Creio eu.
kkkk Divulgar para o Netflix? Ai, ai, menina, eu fico aqui no meu canto. Mas tenho uma divulgadora incansável. Deixa quieto esse trem aí.
Agradeço pelo carinho e consideração.
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Seyyed
Em: 13/09/2022
Voltei pra reler. Esse chifre virtual tá me incomodando hehe Você não vai deixar a ruiva me trair, né? Snif snif
Resposta do autor:
Percebo que você está envolvidíssima e isso me alegra por demais da conta!
O chifre virtual você tem que ver primeiro para depois sofrer! rs
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Seyyed
Em: 13/09/2022
Tati e Su detonam!!!! Adorando a dupla! Cami vai dar conta da pegadora? Hehe
Lady achou um boyzinho normal??
Te mais
Resposta do autor:
Tatiana e Suzana formaram uma dupla e tanto no universo investigativo, concorda? rs
Camille e Letícia... você verá (se é que já não viu! rs)
Lady achou um rapaz mais normal. Vamos ver no que vai dar!
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Samira Haddad
Em: 23/04/2020
Eu também gostei muito do mistério
Resposta do autor:
Eu sei. Gostou e tinha medo! kkkk
[Faça o login para poder comentar]
Gabi2020
Em: 20/04/2020
Você comentou da sua síndica, era uma Soraia da vida!
Orkut era legal demais, apesar da cafonice dos depoimentos... Kkkkkk...
Hoje te tigo tranquilamente, estou de férias, pois não fiz nada, além de ficar lendo ou deitada... Kkkkkk...
Beijos
Resposta do autor:
Tive mais de um problema com povo síndico. Ô categoria complexa! kkk
Eu não gosto destes trens não. Só o zap e olhe lá. Mas isso porque poupa tempo.
Ainda bem que você hoje obedeceu as férias!!!!!
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Gabi2020
Em: 20/04/2020
Olá Sol! Cá estou nem sei há quanto tempo de quarentena... Ainda bem que tem essa história maravilhosa pra ler e reler e recomentar!!
Delegata Suzaninha sempre determinada e disposta a por ordem na bagunça, é isso aí.
Letícia não queria perder, mas Camille... Ô loco meu!! Se bem que dona Letícia tinha um currículo de respeito.
Bons tempos do Orkut, adorava aqui, me divertia horrores com as comunidades.
Seyyed ao mesmo tempo que sempre torceu pela Isa, e apoiou as escolhas dela, era insegura em relação de como ficaria caso a bailarina saísse em excursão pelo mundo. Já Isa sempre alimentou a vontade de ter reconhecimento, mas tinha medo de como Ed se sentiria, às vezes penso que houve falta de comunicação, sei lá.
“--Está triste por que teme perder suas duas mulheres e ficar totalmente só? -- perguntou calmamente e de forma direta” – dona Olga, te venero!! O melhor foi a reação da Ed, não sabia onde enfiar a cara, e o pior que mãe tinha razão, Ed estava dividida e com ciúmes .
Foi tão revoltando o que os caras fizeram com a Ed, deu tanta raiva, covardia cara! Isa foi muito fofa.
Dona Soraia, a síndica louca... Kkkkkk...
Camille tolerância zero com a olá... Eitaaaa... Esses atendentes são chatinhos, mas são treinados pra isso... Kkkkkk....Achei que Camille fosse infartar... Kkkkkkkkk... A bichinha coberta de farelo de biscoito.
Sempre gostei das conversas da Camille com Ivone, além de esclarecedoras, eram engraçadas, porque Camille falava cada coisa.
Lady Di e Príncipe Charles, que dupla!!
Já falei, vontade de pegar a Seyyed e colocar num potinho.
Beijos Solzinha!
Resposta do autor:
Gabinha, acho que nesta quarentena tenho trabalhado ainda mais que o habitual. A diferença é que não vejo as pessoas e não viajo (e destas duas coisas morro de sentir falta).
Eu queria uma Suzana por aqui. Especialmente nos dias de hoje!
Letícia era muito kamasútrica para Camille! kkk
Eu nunca gostei desse trem de Orkut, como não gosto do LivrodasFuça. Nunca tive perfil meu.
"às vezes penso que houve falta de comunicação, sei lá". - excelente observação
“--Está triste por que teme perder suas duas mulheres e ficar totalmente só? -- perguntou calmamente e de forma direta” – Olga é aquele tipo de pessoa que observa, reflete e quando abre a boca é certeira.
Homofobia! E choco em saber que estamos no topo da lista dos países homofóbicos.
Síndicos são um capítulo à parte na minha vida e de minhas personagens! kkk
Eu também detesto esse trem de atendimento de empresa de telefonia!
Camille é uma Lady com mais noção e menos paciência! kkk
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
Solitudine Em: 20/06/2024 Autora da história
Ela sabe: quer todas! rs Mas não pode, uai!
Beijos,
Sol