Terceira Temporada - BUSCAS II
Camille estava na casa de Olga e Mariano. Havia acabado de chegar da faculdade. O casal conversava na sala enquanto ela se trocava no quarto. De repente ouve a campanhia tocar.
--Camille! -- Mariano bate na porta -- Visita pra você! Venha pra sala? -- pediu e voltou para a sala
--Visita pra mim?! -- perguntou intrigada para si mesma
Pegou as muletas e foi. Chegando lá deu de cara com Seyyed sentada na poltrona. A morena usava calça jeans e uma blusa justa de alças na cor de seus olhos. “Linda como sempre...” -- pensou
--Olá, Camille! -- sorriu e se levantou indo até ela -- Será que a gente podia conversar um pouco?
--Oi, Seyyed... -- respondeu sem graça -- Podemos sim.
--Fiquem à vontade enquanto eu preparo nosso lanche. -- Olga falou se dirigindo para a cozinha
--Eu vou na rua comprar alguma coisa boa pra gente beber. -- Mariano disse pegando as chaves -- Não demoro! -- abriu a porta e saiu
Camille se sentou e Ed também.
--Eu acho que te devo desculpas por meu comentário inconveniente naquele dia... -- disse de cabeça baixa
--Relaxa, garota. Depois até achei engraçado de você dizer que eu vivo casando! -- riu. A loura riu também -- Eu queria falar contigo sobre negócios.
--Negócios?! -- não entendeu
--Nossos interesses estão se cruzando, Camille. E eu sempre tive facilidade em reconhecer uma boa oportunidade quando ela me surge, graças a Deus.
--Do que está falando? -- continuava sem entender
--Tatiana se forma no final do ano que vem e Renan vai viver com ela em Goiânia. Eu achei que seria uma boa oportunidade abrir uma filial da oficina por lá e levar o conceito que iniciamos aqui para outra cidade. Meu irmão tá super motivado e isso é ótimo. O sogro dele disse que seria uma boa e parece até que já encontrou um lugar legal pra gente começar. Renan vai pra lá em dezembro e aproveitará pra dar uma olhada nisso. -- pausou -- Só que a coisa não é tão fácil... Tem a papelada, o investimento, contratação de pessoal... Eu passei por isso quando comecei e não é mole! Não conheço como funciona em Goiás, mas uma das irmãs da Tati faz direito e ela pode nos ajudar com o que diz respeito a parte legal da coisa. Só que ainda assim, dá um trabalho danado...
--Ainda não entendi aonde quer chegar. -- olhava desconfiada para Seyyed
--Você precisa estagiar, precisa ter um projeto de formatura... -- pausou -- Acho que já conseguiu trabalho suficiente pra duas graduações! -- sorriu
Camille ficou boquiaberta. -- Tá me tirando, meu?
--Parece que faço isso? -- perguntou com seriedade
--Mas... é um baita de um trabalho! Vai confiar isso pra mim, uma estudante de engenharia aleijada? -- estava descrente
--Pensei que conhecesse o conceito da minha oficina!
--Mas... eu...
--Sua mãe e seu tio sempre disseram que você é uma aluna excelente!
--Ah, mas isso é coisa de família! -- riu por estar nervosa -- Você não sabe como são essas coisas?
Seyyed se levantou e ajoelhou diante de Camille. -- Eu acredito na sua capacidade! Sei que pode fazer isso com a gente se quiser! -- olhava no fundo dos olhos dela
Verdes e azuis se prenderam mutuamente.
--Ed, eu... eu... não acho que esteja preparada pra tamanho desafio... Você precisa de alguém com mais experiência e...
--VOCÊ é tudo o que eu preciso!! -- disse com firmeza
“Minha Nossa Senhora de Achiropita! Assim o coraçãozinho não aguenta...” -- a loura pensou
--Você não estará sozinha nessa! Tem Renan, seu tio e eu pra apoiar no que precisar! -- segurou as mãos dela -- Se precisar de um tempo pra pensar eu te dou esse tempo. Mas quero que entenda que não estou te propondo isso por piedade ou pra ser boazinha. Eu realmente acredito que você é a pessoa certa no momento certo. -- pausou -- Eu quero você, Camille!
--Ai, mas eu também quero você! -- respondeu sem pensar -- Como chefe! -- reformulou a frase -- Eu quero você como chefe, que fique bem claro. -- engoliu em seco
--Então isso é um sim? -- sorriu
--É, eu... -- sorriu também -- Eu acho que é.
--Ótimo! -- beijou a testa dela e se levantou -- Eu sabia que você não iria deixar de aceitar um bom desafio!
Nesse momento Mariano entra em casa. Olga apareceu na porta da cozinha sorrindo.
--O que houve? -- ele perguntou sorrindo
--Mariano, se prepara. -- Seyyed olhou para Camille -- Apresento nossa mais nova trainee!
--O que? -- derrubou as caixas de suco no chão. Estava felicíssimo
--Homem de Deus! -- Olga riu da cara dele -- Olha as caixas caindo no chão, criatura!
--Eu, eu... -- olhou emocionado para Ed
--Quem melhor do que ela pra nos ajudar com a filial de Goiânia?
--Filha! -- olhou para Camille -- Liga pra sua mãe agora! Minha irmã vai adorar saber disso!
--Calma tio! -- a loura sorriu -- Eu vou fazer isso, deixa eu me recompor primeiro. -- olhou para Seyyed -- Quando começo? É que essa coisa de logística é meio complicada pra mim... -- falou sem graça
--Analisa os teus horários com calma, pergunta pro teu coordenador de curso como é o lance da papelada pra eu me orientar e aí a gente se encontra de novo e decide tudo. Você marca os dias em que vai lá na oficina e a gente negocia. Tem coisa que eu acredito que você possa fazer com um computador e internet nas mãos. Nós vamos fazer tudo direitinho, você vai ver.
“Eu imagino como você deve fazer tudo direitinho, Seyyed...” -- a loura pensou
--Olga, que felicidade! -- Mariano exclamou pegando as caixas de suco do chão -- Que pena que Mari não mora aqui do lado pra comemorar com a gente!
--Tô de moto aí! -- Seyyed falou -- Segura o lanche que eu vou lá, pego ela e trago!
--Mamãe andando de moto?? -- Camille riu -- Não creio!
--Pra comemorar uma coisa dessas ela viria até em pé no teto de um trem! -- Mariano riu
--Eu vou lá e volto logo! -- olhou para a loura -- Liga pra tua mãe, não. Vamos fazer surpresa! -- piscou para ela e saiu de casa correndo
“Gente, eu não acredito nisso...” -- Camille pensou abobalhada
***
Mariângela, Mariano, Olga, Seyyed e Camille estavam lanchando e conversando. Todos estavam animados com a idéia de Camille ajudar na condução do processo de instalação da filial da oficina em Goiânia.
--Mariano nós temos que fazer alguma coisa pra agradecer a Virgem por tudo isso! Vamos fazer uma festa pras crianças no dia 12 de outubro!
--É, boa idéia! -- ele sorriu -- Vamos pensando nos detalhes dessa festinha desde já!
--Camille, você pode ficar tranqüila que eu sou exigente mas não sou o tipo de patroa que monta nos funcionários.
--Ah, mas eu não me incomodaria se você montasse... -- calou-se repentinamente -- “Mas o que estou dizendo?!” -- pensou apavorada -- Quero dizer... eu não tenho medo de trabalhar!
--Na nossa família ninguém tem medo de trabalhar! -- Mariângela olhou para Seyyed e disse: -- Você não vai se arrepender!
--Não me arrependi com Mariano! E ainda deixei que fisgasse minha mãe. -- brincou
“Ai, que você deixasse eu te fisgar...” -- pensou --Quando Flávia souber disso vai fazer o maior fuzuê. -- Camille olhou para Olga -- Agora que ela está vindo pra cá a senhora precisa se preparar pro momento!
--Eu conheço Flávia. -- sorriu -- E quem criou Seyyed não se incomoda com barulheira.
--Mãe! -- a morena exclamou surpresa
--Você sempre foi bagunceira, minha filha! -- riu
--Ei, não fala assim na frente deles! -- fingiu estar zangada -- Afinal de contas alguém tem que acreditar que há motivos pra me respeitar. -- brincou
--Ah, mas Camille vai respeitar! -- Mariângela olhou para a filha -- E aos clientes também, não é, Camille? -- fez uma cara feia
--Você e o tio falam como seu fosse uma cavala, ô louco! -- todos olharam para ela -- Ah, gente, eu sei ter um mínimo de classe, tá legal?
--Outra coisa, Camille, é que você vai ganhar um salário, é lógico. Pode voltar àquele projeto com Flávia de usar uma perna tipo a que ela tem.
A loura olhou para Seyyed em estado de choque. -- Por que está fazendo todas essas coisas? Eu não entendo você!
--Porque eu sou interesseira. -- brincou -- Quando eu precisar de você, sei que vai me ajudar! -- sorriu
--Quando precisar de mim... -- disse com sinceridade -- Eu vou estar lá pra você!
***
Priscila estava chegando em casa. Tatiana estava com Renan na casa dele e Lady tomava banho.
Ao entrar no apartamento ouviu música vindo da cozinha. Ney Matogrosso cantava aos berros.
--Ué? Mas que barulheira é essa? -- foi para a cozinha
Chegando lá viu que Carlão havia amarrado o pano de prato na cintura, como se fosse uma saia, e dançava se requebrando com a colher de pau servindo de microfone. Fazia uma espécie de cover do cantor.
--Bandido, bandido corazón! No deja de te amar, bandido, bandido corazón! No puedo controlar... [a]
Priscila cruzou os braços e se encostou na porta para assistir ao show. No momento em que deu um giro de efeito Carlão dá de cara com ela. Levou um susto tão grande que derrubou a colher de pau no chão.
--Quer me matar do coração? -- arrancou o pano de prato da cintura e se abaixou para pegar a colher de pau
--Eu estava gostando do show. Você leva jeito! -- sorriu
--Show? Que show? -- desligou o rádio -- Esse CD é da Lady, não é meu. -- pigarreou e voltou a falar com voz bem grossa -- Eu estava sacaneando o CD, zoando essas músicas de boiola que ela gosta de ouvir.
--Sei... -- respondeu descrente
Lady saiu do banheiro e viu Priscila. -- Oi, amiga!
--Oi, Lady. Você perdeu! Rolava um showzinho e tanto aqui na cozinha. -- sorriu
--Showzinho?! -- não entendeu -- Que showzinho? -- olhou para Carlão desconfiada
--Amor! -- Carlão pegou Lady pela cintura, curvou-a sob ele e a beijou -- Vamos pro quarto! Agora!
--Nossa, que homem! -- respondeu com os olhos faiscando de desejo
--Não façam escândalo, por favor. -- Priscila foi para o quarto rindo e balançando a cabeça negativamente
***
Ed e Isa estavam deitadas na cama nos braços uma da outra. A morena de barriga para cima e a ruiva com a cabeça no ombro dela.
--Você tem certeza, amor? -- a bailarina perguntou -- Não acha que está apostando fichas demais em Camille? -- acariciava o braço da outra
--Ela é boa, Isa. Tem boas notas, é dedicada... -- deslizava as mãos pelas costas da ruiva
--Nem sempre o bom aluno é o bom funcionário, amor. Meu pai vivia dizendo isso.
--Eu sei, mas algo me diz que ela dá conta. Além do mais tem Mariano, Renan e eu pra orientá-la. E vai ter também o apoio da irmã da Tati que faz direito e vai se envolver na história. -- beijou a cabeça de Isa
--Se você acha assim... tomara que dê tudo certo!
--Vai dar.
A bailarina levantou a cabeça para olhar o rosto de Seyyed. -- Está sempre querendo ajudar não é? Acho o máximo esse senso de oportunidade que você tem: a pessoa que precisa de ajuda e o problema que você tem de resolver. -- sorriu -- Eu sou sua fã!
--Minha fã? Ué, mas a estrela aqui é você! -- beijou-a -- E Dalva! -- sorriu
--Ai, não... -- riu e deitou a cabeça no ombro dela novamente -- Mamãe é que tem essa mania de estrela Dalva...
--E como vai ela? Você disse que seu pai levou um fora da amante...
--Ah, papai foi encontrado deitado na rua e levado pra delegacia. A polícia ligou pra mamãe e ela foi lá buscá-lo. -- pausou -- Que vergonha!
--Ele deve ter ficado arrasado...
--Bem feito! Era bom que ela ainda tivesse dado uma surra nele antes de partir! -- respondeu com raiva
--E agora, como eles estão?
--Ele eu não sei, mas mamãe anda ensaiando um retorno. Ela tá se emperiquitando mais, fazendo ginástica, usando uma tonelagem de cremes... Em suma, assumiu aquele papel medíocre de mulher que vive de estética pra segurar um homem que não merece qualquer sacrifício!
--Deixa pra lá, Isa. É a vida deles e você não vai mudar a cabeça da sua mãe.
--Eu sei... -- pausou -- E a avó da ex amante do meu pai foi morar com Juliana... -- balançou a cabeça -- Como pode isso? Parece até que o Rio de Janeiro é um ovinho de cidade!
--Vai ver a gente mora naquela cidade que sofre na boca de vocês: Pau d’Arco e não sabe...
--Pois é... -- riu -- Elas estão se dando bem?
--Quem? Juliana e dona Lourdes? Estão sim! A velhinha é boa praça e é fã da Ju. Suzana já conhecia ela e daí fechou o ciclo.
--Suzana já conhecia... -- riu -- Você tem razão! A gente mora em Pau d’Arco e não sabia.
--E tua amiga Priscila, como vai? Renan me disse que a tal da Lady tá noiva de um cara chato, cheio de preconceito, todo metido a machão!
--Depois que Kawai largou Lady e levou o papagaio Priscila ficou felicíssima. E depois que Lady ficou noiva, mais feliz ela ficou por acreditar que se livraria da garota. Agora é que desempolgou porque anda desconfiada que Carlão é gay.
-- Gay?! -- riu -- E Renan me disse que o cara quis insinuar que ele é que era!
--Tatiana também desconfia que Carlão seja gay. Elas acham que ele noivou e quer casar pra poder enganar a família dele.
--Ah, se é isso mesmo é sacanagem do cara! Vai casar com a garota sem gostar e se bobear ainda vai colocar um bocado de chifre nela.
--Ele nem nunca jogou uma indireta pra fazer amor com ela. Lady acha que é porque ele é respeitador. Priscila acha que é por não gostar de mulher.
--E enquanto ele não gosta... -- inverteu rapidamente as posições deitando-se sobre ela -- tem gente que adora... -- beijou-a
--E essa gente adora qualquer mulher? -- beijou-a
--Não... -- beijou-a novamente -- só as estrelas... -- mordeu o lábio inferior da ruiva -- do tipo Dalva!
--Boba! -- deu um tapinha no braço dela -- Amor, eu estive pensando... Vamos fazer uma festinha pra selar o nosso casamento?
--Você escolhe o quando e o onde. O resto deixa comigo. -- beijou-a novamente
--Que tal no dia 23 de setembro? Nesse dia faz três meses que a gente casou...
--Tem que olhar no calendário pra ver se é dia de semana ou não. Você cisma assim e marca. -- riu
--Eu vejo isso. -- inverteu as posições de novo e ficou em cima de Seyyed, sentando-se sobre ela
--Vou arrancar essa tua camisola aí... -- a morena disse enquanto deslizava as mãos nas coxas da ruiva
--Amanhã é dia de trabalho, sua mecânica tarada... -- sorriu
--Já que me chama de tarada! -- sentou-se -- Tenho que fazer jus a minha fama! -- tirou a camisola da bailarina e começou a beijá-la com desejo
--Ai, amor... -- tirou a blusa da mecânica -- safada! -- sorriu
Seyyed deitou-se sobre ela e começou a beijar seu corpo inteiro. -- Essa tua calcinha tá me atrapalhando! -- brincou
--Tira ela de mim... -- a ruiva pediu
--Depois eu é que sou tarada! -- tirou a calcinha da amante e mergulhou entre as pernas dela
Isa sorria e acariciava sua cabeça, arqueando o tronco na cama e gem*ndo excitada.
Manhã do dia 11 de setembro de 2001, Nova York, NY, Estados Unidos
Sabrina estava em Nova York por conta de uma reunião que teria com as gestoras de uma ONG que lutava pelos direitos civis das mulheres homossexuais. Esta ONG estava interessada em patrociná-la em uma das excursões de seu projeto dos quatorze cumes.
A escaladora teve um problema no hotel e demorou a sair de lá. Estava achando muito difícil, quase impossível, chegar na reunião a tempo. Pegou um táxi e ordenou: -- To the World Trade Center, please. (Para o World Trade Center, por favor.) -- disse nervosamente -- As soon as possible! Hurry up! (O mais rápido possível! Corre!)
O trânsito estava infernal e o carro não andava. Ela estava nervosa. “Meu Deus, não acredito que vim de tão longe pra chegar aqui e perder a reunião!” -- pensou preocupada -- "Adeus patrocínio...” -- fechou os olhos e suspirou
Enquanto isso, Gisele estava impecavelmente vestida participando de uma reunião com os membros de sua empresa no décimo segundo andar do WTC.
--Seems to me Berry will take some more time to come. We’ll need to wait a little more. (Parece que Berry levará mais algum tempo para chegar. Vamos ter de esperar um pouco mais.) -- um dos sócios comunicou à equipe
Gisele não se incomodou com a notícia. Estava com o laptop aberto e navegando na internet.
À pouca distância dali Sabrina discutia com o taxista. Acabou se aborrecendo demais e saiu do carro no meio de caminho. Não sabia o que fazer e decidiu usar um telefone público para avisar sobre o que aconteceu. Conseguiu se comunicar com Linda, que era a pessoa com quem mais negociava, e ouviu o retorno positivo do outro lado.
--Please, don’t give up, we are here waiting for you! (Por favor, não desista, nós estamos aqui esperando por você!)
A escaladora pegou outro táxi e resolveu continuar.
“É uma droga, eu vejo o WTC daqui mas se for andando vai demorar tanto tempo...” -- pensou contrariada
Mantinha os olhos nas torres quando de repente uma coisa estranha chamou sua atenção. -- Meu Deus, aqueles aviões! -- Sabrina exclamou em português
--O que foi isso? -- Gisele perguntou apavorada. Ouviu uma explosão forte e sentiu o prédio tremer
Os outros colegas dela levantaram-se desesperados e corriam em círculos pela sala. O clima era de desespero. Gisele olhou pela janela e viu que um avião se aproximava do prédio sem chances de desviar. Mil coisas passaram em sua cabeça. -- Eu não acredito... fiz tantas coisas, lutei tanto, batalhei tanto... -- chorava. De repente outra explosão e tudo se apagou.
O taxista parou o carro apavorado e Sabrina saiu de dentro em estado de choque. Presenciou o momento em que a estrutura caía como um prédio que se implode. Pôs a mão sobre os lábios e começou a chorar espontaneamente. Uma nuvem de poeira cobriu o ambiente e as pessoas corriam desesperadas.
A escaladora afastou-se do táxi e caminhou alguns metros a esmo. Ajoelhou-se no chão, olhou para cima e disse em voz alta: -- Senhor, -- abriu os braços -- Tu me salvaste!
***
A notícia do que ficou conhecido como o 11 de setembro foi manchete no mundo inteiro. Anselmo estava no banco quando ficou sabendo e entrou em desespero. Na carta que deixou, Gisele havia se exibido dizendo que trabalharia no WTC e Anselmo sentiu fundo no seu peito que ela deveria estar morta.
Largou tudo e pegou o carro indo direto para o local onde ela trabalhava. As pessoas estavam muito abaladas e ansiosas buscando notícias. Ninguém sabia ao certo quem estaria no prédio ou não no momento do sinistro. Anselmo deixou o telefone com o ex chefe de Gisele e o homem se comprometeu a atualizá-lo sobre qualquer novidade. Ao longo daquele dia o pai de Isa não mais conseguiu trabalhar e nos outros que se seguiram deixou-se tomar por uma incrível ansiedade. Bebia café demasiadamente e quase não comia. Embora estivesse muito magoado com a moça, definitivamente não queria que ela morresse.
Uma semana depois, ao final do expediente, recebeu um telefonema e foi informado que Gisele estava no prédio. Seu corpo não havia sido encontrado ainda, mas sabia-se que ela estava morta. O homem pegou o carro e saiu do banco chorando e confuso. Naquela noite não foi para casa. Rodou pela cidade sem rumo e só parou o carro quando não tinha mais forças para dirigir. Não sabia onde estava.
--Ai, Gisele, minha fofucha... -- disse para si mesmo enquanto chorava -- Você fez tanta coisa... lutou a vida toda pra que? Pra morrer em outro país... quase nem curtiu nada lá... -- passou a mão no rosto -- Você sacrificou tanta coisa... por nada! -- saiu do carro e olhou para o céu -- Se tivesse ficado comigo, eu te daria o mundo! E se voltasse pra mim, eu te perdoava... -- caiu de joelhos no chão e chorou pesadamente
***
Camille estava na faculdade estudando na sala onde teria aula dali a uma hora. De repente a porta se abre e uma garota gordinha e morena põe a cabeça para dentro. -- Posso entrar? -- perguntou sorridente
--Pode. -- respondeu simplesmente
A jovem entrou e Camille pôde vê-la melhor. Era de sua altura e os cabelos levemente encaracolados margeavam seus ombros. Não era bonita mas parecia ser simpática.
--Estudando, mulher? -- sentou-se do lado da loura -- Sabia que todas as matérias que eu faço você faz também? Reparei em você!
“Ai, não!” -- pensou revirando os olhos -- "Será que é mais uma sapatão no meu caminho??”
--Aliás, eu queria te parabelinsar!
--Pelo que? -- perguntou desconfiada
--Por encarar uma faculdade apesar de ser deficiente física. Não vejo mais ninguém aqui como você! -- estendeu a mão -- Meu nome é Aline!
--Camille. -- apertou a mão dela, no que foi bruscamente puxada para beijos de comadre
--Ah! -- olhou para o que a loura escrevia -- Fazendo o trabalho de Metodologia da Pesquisa? Era pra fazer em dupla. -- meteu a mão nas folhas de Camille e foi lendo tudo
--Eu não tenho dupla! -- respondeu controlando a fúria -- "Essa aí é abusada que nem Flávia...” -- pensou
--Agora tem! -- sorriu para ela e pegou o próprio caderno -- Eu fiz o que você ainda não fez. Lê só! -- estendeu o caderno para a loura
Camille pegou o caderno da outra e começou a ler. -- Ô meu, tá da hora isso aqui!
--Viu? -- deu um tapa na coxa dela -- Cola comigo que você se dá bem! -- olhou para baixo -- Você não tem uma perna mas a que sobrou é de responsa, viu?
--Você é sempre assim, é? -- a loura perguntou contrariada
--Simpática? -- perguntou sorridente -- Muito!
--E modesta... -- fez um bico e respirou fundo
--Aqui, -- colocou o material de Camille de volta sobre a mesa e tirou seu caderno das mãos dela -- eu bem ouvi um dos gatinhos da turma falando que você é gostosa!
--Humpf!
--Podia aproveitar! É aquele moreno alto que senta lá no fundo.
--Tô fora! -- pegou suas folhas para arrumar pois Aline havia bagunçado tudo
--Por que? Tem namorado? Eu tinha, mas o pai dele foi transferido pro Acre.
--Não, eu sou solteira. Mas fui noiva e não quero saber de ninguém nem tão cedo!
--Noiva? -- pausou -- Eu nem sei se caso um dia. Pensei que seria com Maurício mas o pai dele foi me fazer essa falseta... aí, dancei!
--Pois é... -- continuava arrumando as folhas
--Maurício era cego, sabe? Era meu vizinho. -- olhou bem para Camille e segurou o braço dela -- E vou te contar, o que faltou em visão sobrou em outros sentidos! O homem ali era um arraso na cama, menina, quê que era aquilo?? Era mão naquilo, aquilo na mão e felicidade total! -- sorriu
--Eu sei como é... -- lembrou-se de Fátima -- Os cegos têm capacidades especiais... na cama então... Ô louco! -- falou mais para si mesma do que para Aline
--Ah, então você também já andou se pegando com cego, sua diabinha! -- deu um tapa no braço de Camille -- Conta aí! Era o teu noivo ou...
--Não era o meu noivo! -- esfregou a mão no braço onde a outra bateu -- Foi uma pessoa que eu conheci na natação e a gente namorou um pouco... -- pausou -- ou não! Nem sei o que a gente teve!
--Hum... -- sorriu -- E cadê ele nesse momento?
--Foi transferido também. Igual seu namorado.
--Que coisa isso de viver mudando de lugar, né? -- pausou -- Por quanto tempo ficaram juntos?
--Nem sei dizer... acho que nunca ficamos realmente... juntos. -- olhou para Aline -- Mas vê se não vai sair por aí dizendo isso pros outros porque ninguém sabe!
--Ih, estamos trocando confidências! -- exclamou excitada -- Minha mãe também não sabia que eu fazia amor com Maurício. Nem meu pai, nem meu irmão, ninguém! Vê se fica quieta também! Agora já podemos nos considerar amigas íntimas!
--Íntimas? -- riu -- E não se preocupe porque não sou de muita conversa... -- sorriu
--Não?! Você fala pra caramba! -- olhou para o próprio caderno -- Vamos nos concentrar e acabar com esse trabalho porque o tempo urge!
--Eu falo pra caramba?! -- fez um bico -- Só aparece maluco na minha vida, vou te contar!
***
--Brito, cadê o BO daquele maluco que roubou a tartaruga do garotinho? -- Suzana perguntou
O homem não respondeu. Estava no computador lendo um e-mail de Flávia.
--Ei!! -- a delegada deu um tapa na mesa -- Tô falando contigo!
--Ah, chefe, sim! -- endireitou a gola da camisa -- Pois não? -- olhou para ela
Suzana fez cara feia, puxou uma cadeira e sentou-se perto dele. -- Escuta aqui, Brito, não é porque tá namorando que tem que ficar relapso no trabalho. -- pausou -- Eu tenho minha japonesa e nem por isso vivo suspirando pelos cantos, cheirando florzinha ou distraída como você anda!
--Desculpe, chefe! -- fechou a tela do Hotmail -- Não vai se repetir. -- olhou para ela -- Mas há de reconhecer que meu lapso passageiro é esperado. Afinal de contas, -- reparou se alguém prestava atenção na conversa deles -- faziam pouco mais de dez anos que eu não saía com uma mulher. -- dizia em voz baixa
--E daí? Eu fiquei vinte anos zerada!
--É... -- mordeu os lábios -- Mas eu sou romântico e você não é.
--Humpf! -- cruzou os braços -- Romântico... Fui seguir teus conselhos com a Ju e só paguei mico!
--Romântico porém desatualizado. -- corrigiu
--Eu vou te dar um mole. -- olhou para o relógio -- Tá na hora do almoço. -- levantou-se -- Mas quando a gente voltar quero te ver trabalhando como sempre trabalhou, entendeu?
--Claro, chefe! -- levantou-se também -- E enquanto a gente almoça vou te contando sobre Flávia. -- foram andando
--E aí? -- ela perguntou
--Não bastasse aquele gancho de direita que ela tem, a danada consegue puxar quinze quilos no pull over vertical e faz um canguru perneta inesquecível... -- sorriu
--Canguru perneta?! Isso não é piada de programa de humor?
--Mais ou menos... é coisa nossa. -- pigarreou
--Tô sabendo... -- achou graça
--E você e Juliana? Tudo bem?
--Tudo muito bem! -- sorriu -- Nós nos encontramos, namoramos... E temos os nossos programas com dona Lourdes, com dona Olga e o marido... Eu me sinto como se tivesse uma família novamente, sabe? No começo de tudo, do meu relacionamento com ela, confesso que estranhei essa coisa de ter tanta gente na minha vida, mas... É muito bom!
--E quando vai se casar com ela? -- olhou para a delegada
--Casar?! -- respondeu surpresa -- Que papo é esse de casamento, Brito?
--Ué? Se você a ama, gosta de estar com ela, gosta da família que estão construindo, o casamento seria uma coisa natural! -- endireitou a camisa
--Acha isso? -- perguntou desconfiada
--Claro! Ela é uma mulher decente, não é pra se ficar... -- pigarreou -- somente fazendo coisas por aí.
Suzana arregalou os olhos, interrompeu a caminhada e pegou Brito pelo colarinho. --Que conversa é essa de ficar fazendo coisas por aí??? -- perguntou furiosa -- Acha que eu só a quero pra sacanagem??
--Calma, chefe! -- tentava se libertar dela -- O que eu quis dizer é que se você a ama não deveria tratá-la como se só quisesse... aquilo!
Soltou o colega e fez cara feia. Encarou com ele por uns segundos e voltou a andar. Brito também. -- Casamento não é brincar de casinha, rapaz! É coisa séria! Além do mais não quero deixá-la exposta a riscos desnecessários por se colar comigo! Já basta o que passou.
--Se todos os policiais pensassem como você, nenhum casava ou tinha filhos! O delegado Valadão foi casado com dona Lourdes. Ele morreu e ela tá aí, firme e forte!
--Ah, Brito, pára com esse papo brabo de casamento! -- olhou para ele contrariada -- Do jeito que vai tá bom demais! Como se diz por aí: em time que tá ganhando não se mexe!
***
Seyyed e Isabela recebiam seus convidados na By Marius, no Centro do Rio. A mecânica usava um vestido longo preto brilhoso com decote em V enquanto que a bailarina escolheu um longo branco com uma lasca até a altura da metade da coxa. Estavam bem maquiadas e muito bonitas. Ed reservou a casa somente para elas e a ruiva providenciou a decoração. Primeiramente serviu-se um jantar e depois a pista de dança seria liberada até às 3:00h.
Dentre os convidados estavam Olga, Mariano, Mariângela, Camille, Renan, Tatiana, Tânia, Tamires, Juliana, Suzana, Maria de Lourdes, Brito, Flávia, Ana, Priscila e um ficante, Lady, Carlão, algumas pessoas do centro espírita, funcionários da oficina, amigas da faculdade de Isa e bailarinos. Haviam duas mesas enormes nas quais as pessoas jantavam e conversavam animadamente.
--Ô louco, devem ter umas oitenta pessoas aqui! -- Camille cochichou para a mãe
--Por volta disso. -- Mariângela respondeu limpando os lábios no guardanapo
--Nunca pensei que casamento lésbico desse tanto IBOPE! Pouca vergonha, viu? -- deu uma garfada
--Camille!!! -- a mãe olhou para ela de cara feia -- Será possível que nem agora que a mulher te deu emprego você pára de se meter na vida dela? Essa sua implicância com lésbicas já virou uma doença!
--Eu acho uma pouca vergonha! Essa pá de gente aqui, comendo e bebendo pra celebrar sapatanice alheia! -- deu outra garfada
--E você o que faz aqui?? Está comendo e bebendo pra celebrar essa tal sapatanice!
--Eu não! Como e bebo porque tenho fome e sede! -- bebeu um gole de refrigerante
--Podia estar saciando sua fome e sede em casa! -- voltou a comer
--Aí você e o tio brigariam comigo, me acusariam de uma pá de coisas e mais aquele papo todo! -- deu outra garfada
--No próximo evento em que houver qualquer resquício de... sapatanice, como você diz, pode ficar em casa que eu não direi uma palavra. -- olhou para a filha novamente -- E nem Mariano! -- voltou a olhar para o prato
-- Se elas se beijarem na frente da gente eu juro que vou vomitar!
--Eu também não me sentiria à vontade em ver isso, mas se acontecer e você vomitar que não seja em cima de mim!
A loura prestava atenção, embora dissimulasse, em cada gesto de Seyyed e se incomodava profundamente com o modo como Isa e ela interagiam.
--Gostando do jantar, meu amor? -- Ed perguntou sorrindo para ela
--Claro! Tô amando tudo! -- olhou sorridente para a morena -- E estou feliz porque todo mundo que a gente convidou apareceu!
--Menos a Ana Fluminense! -- mexeu com a ruiva
--Ah, mas eu não convidei! -- riu -- Isso foi viagem de mamãe! Vê lá se eu ia ficar tietando a Ana, com quem eu nem tenho a menor intimidade?
--Olga do céu, este jantar está maravilhoso! -- Ana exclamou -- Nossas meninas fizeram tudo certo! Escolheram um lugar bem localizado, chique, tudo do bom e do melhor... Que pena que Anselmo não pôde vir... -- bebeu um gole de vinho tinto
--E ele queria vir?! -- Olga parou de comer e perguntou desconfiada -- "Seyyed me disse que o pai de Isa tinha verdadeiro horror ao relacionamento das duas, por que ele viria aqui hoje?” -- pensou
Ana entendeu o porquê daquela pergunta e respondeu: -- Anselmo não é mais tão radical... ele abriu a cabeça! Tá com tudo aberto! -- falava fazendo gestos -- Nós, que somos esclarecidos, não temos medo de mudar de opinião, Olga! E eu sou mãe em tempo integral! Quando Isabela me disse que era... que era...
--Lésbica! -- Olga completou
--Isso! -- Ana olhou para ela -- Quando ela me disse essas coisas, eu confesso que choquei. Mas depois que conheci Seyyed e vi que pessoa maravilhosa aquela danadinha é... -- sorriu -- Aí eu relaxei e pensei: minha filha escolheu bem! Hoje Seyyed mora aqui! -- bateu no peito -- No fundo do meu coração!
--Sei... -- deu uma garfada
--Anselmo levou mais tempo pra entender porque ele é homem e sabe como eles são! Sempre muito pragmáticos, não é mesmo? O que se passa é que meu marido anda muito deprimido e só sai de casa pra trabalhar e nada mais. -- deu uma garfada
--Por que está deprimido? -- perguntou sinceramente preocupada
--Pressão no trabalho, estresse... aquele banco não anda sem ele, Olga! -- mentiu -- Mas vai passar.
--Se Deus quiser! Mas talvez fosse bom pra ele procurar ajuda. -- voltou a comer
--Ah, não, isso não será necessário. Com certeza logo passa! -- bebeu outro gole de vinho -- Hum! Queria que você soubesse que nós dois aprovamos este relacionamento e achamos que Seyyed é uma jóia que surgiu na vida de Isabela. -- sorriu
Olga não acreditava na sinceridade daquelas palavras. -- Eu também gosto de Isabela. Espero que elas sejam felizes juntas e aprendam muito uma com a outra. Casamento é uma coisa muito séria e já conversei várias vezes com Seyyed sobre isso. -- bebeu um gole de suco
--Eu também converso muito com minha filha! Nós somos pessoas absurdamente, medonhamente espiritualizadas, sabe? Somos católicas, apostólicas e romanas e levamos essa coisa do casamento com total seriedade! O que importa é o amor, aquela coisa que completa a alma! O resto é excrescência! -- limpou a boca com guardanapo -- Está sabendo que elas estão procurando apartamento na zona sul?
--E vamos às excrescências...
--O que? -- deu uma garfada
--Eu disse: sim, estou sabendo. -- deu uma garfada
--Até agora não acharam nada de bom!
--Pois é. -- terminou de jantar e limpou os lábios
--Eu estive pensando... Foi bom que elas espontaneamente decidissem empreender essa busca porque afinal de contas um imóvel é sempre um investimento... e na zona sul torna-se um investimento ainda mais valioso! De repente a pessoa se assusta porque os preços são altos mas... vale a pena! -- olhou bem para ela -- Você poderia conversar com Seyyed, só pra fortalecer nela a vontade de continuar procurando, porque às vezes me parece que ela está desanimando...
Olga sorriu e respondeu: -- Ana, eu não me meto na vida de Seyyed e Isa. Além do mais nunca fui o tipo de mãe que diz à filha adulta o que ela deve ou não fazer. Como você mesma disse, o que importa é o amor! -- pausou -- Agora com licença porque vou buscar a sobremesa. -- levantou-se e foi se servir. Ana ficou sem graça
--Deixa eu te perguntar, Renan, então quer dizer que o projeto de instalar uma filial da oficina agora vai andar? -- Tamires perguntou -- Teremos um pedaço de vocês na Goiânia?
--Com certeza! Ed até contratou uma pessoa pra ir tocando a coisa. É aquela garota ali! -- apontou Camille
--Nossa, mas ela é muito nova, uai! -- Tânia comentou -- Quantos anos ela tem? Dezoito?
--Não... -- ele riu -- Ela vai se formar como engenheira de produção e Ed lançou o desafio nas mãos dela. Só que não estará sozinha porque tem nosso apoio. -- olhou para Tamires -- E mais o teu, cunhada!
--Eu acho que ela é muito nova e inexperiente pra isso, mas... quem sou eu pra dizer alguma coisa, né, fi? -- Tamires bebeu um gole de refrigerante
--Você também é nova e inexperiente, viu, fi? Já se formou por acaso? Só no final do ano, não é não? -- Tatiana respondeu -- Se ninguém nos der uma chance, quando é que a gente vai ter experiência?
--Eu nunca fui o dono da ESSALAAM, minha experiência sempre foi de funcionário, de mecânico... Em Goiânia vai ser uma filial, mas eu vou tocar o barco. Acha que tenho experiência nisso? -- deu uma garfada
--Você operaria seu cérebro, se precisasse disso, com um neurologista recém formado ou com um médico tarimbado? -- Tamires provocou -- Recém formado mal sabe usar aqueles trem de médico pra cortar a cabeça do paciente!
--Eu entendo a questão, Tamires, mas deixa eu te perguntar, o médico tarimbado já nasceu assim? Não! Houve uma primeira operação na vida dele! -- Tatiana retrucou -- Eu entendi muito bem o que Ed fez. Ela colocou a garota pra correr atrás de tocar o processo porque pra isso é necessário dispor de um tempo que Renan e ela não têm. Além do mais a garota está começando, cheia de gás, querendo mostrar serviço, querendo aprender. Ela vai cair de cabeça nesse desafio! Só que não vai caminhar sozinha, porque tem Seyyed, Renan e seu Mariano pra orientar! E mais você, como advogada que vai ser! -- olhou para o namorado -- Não é isso?
--Exatamente! -- sorriu para ela
--Ô gente, resumindo: -- Tânia brincou -- que seja lá o que Deus quiser! Nessa oficina só vai ter é caipira de Pau d’Arco!
--A começar por você! -- Tatiana embolou um guardanapo e jogou na irmã
--E aí, dona Lourdes? -- brincou -- Como vai a vida ao lado dessa Japa San?
--Divertida, viu, Flávia? Viver com Juliana é uma coisa longe de ser monótona! -- ela respondeu sorrindo
--É, a gente tem se dado muito bem! -- Juliana respondeu ao finalizar seu jantar -- E dona Lourdes é a única pessoa a quem Suzana obedece e eu tô adorando isso! -- olhou para a delegada
--Humpf! -- Suzana protestou enquanto comia
--Suzaninha é boa menina, só é cabeça dura de vez em quando; igualzinho a Valadão. Mas aquele lá nunca me obedeceu... -- sorriu
--Suzaninha?! -- Brito perguntou. A delegada olhou para ele de cara feia -- Calma, chefe, é que eu não te vejo como ‘inha’!
--E só ela me chama assim, que fique claro! -- apontou a faca para ele, que levantou os braços
--Calma, delegada... -- Flávia brincou -- Mal eu me pego com o homem e você já quer matá-lo? Primeiro chifruda e depois viúva, eu não agüento!
--Ela não me faria mal, meu amor! -- olhou para a fisioterapeuta -- Sou o braço direito dela! -- afirmou orgulhoso
--Meu braço direito? Tá ficando muito saidinho, viu? -- Suzana olhou para Juliana. -- Onde eu estava com a cabeça quando convidei Brito pra ir com a gente naquela luta, hein?
--Agora já era, meu amor... -- a japonesa piscou para ela
Quando quase todas as pessoas já haviam terminado de jantar, Seyyed e Isa foram à frente falar aos seus convidados. Havia um microfone preparado para isso.
--Ih, vai ter discurso, é? -- Camille fez um bico
--Deixa de ser implicante e fica quieta! -- Mariano ralhou com ela
--Gente, olha, -- Ana se levantou, abriu os braços e dirigiu-se a todos -- minha estrela Dalva vai falar! Atenção! -- sentou-se novamente
--Boa noite a todos! -- Isabela falava sorridente ao microfone. Seyyed estava ao lado dela -- Nós gostaríamos muito de agradecer a presença de vocês e eu até comentava com a Ed, -- olhou rapidamente para ela -- que fiquei muito feliz em ver que todas as pessoas que nós convidamos estão aqui! -- pausou -- Nós estamos vivendo juntas há três meses mas só comemoramos agora por uma série de fatores... o ponto é que nós não queríamos deixar que passasse em branco e por isso estamos aqui com vocês. -- olhou para todos -- Eu sempre disse, e mamãe é testemunha, que não queria me casar.
--Ela sempre focou na carreira! -- Ana interrompeu -- Desde pequena sempre teve uma estrelice nata! Não à toa passou um ano dançando na Europa! Abalou os alicerces do velho continente!
--Tia Ana sempre pagando mico... -- Priscila cobriu o rosto
--Ter um relacionamento não era a minha prioridade, nunca foi, e quando comecei a namorar Seyyed, eu confesso que não queria nada sério, nada duradouro com ela. -- a morena fez cara de choro e algumas pessoas riram. A ruiva olhou para ela e riu também -- Só que eu não pude evitar de me apaixonar pela pessoa mais maravilhosa que conheci na minha vida! -- continuava olhando para ela -- E quando ela me pediu em casamento eu quis dizer ‘sim’ imediatamente... -- voltou a olhar para os convidados -- Mas tive muito medo. Medo da reação da minha mãe, da reação da minha família como um todo... Tive medo de encarar o preconceito de uma sociedade que ainda faz piada com os homossexuais, que agride, que discrimina... -- pausou -- Só que quando eu criei coragem e disse ‘sim’, aceitei esse compromisso de corpo e alma! E se Deus quiser, estaremos juntas até os últimos dias de nossas vidas. -- olhou para a mecânica -- Eu te amo, Seyyed Khazni! -- estava emocionada. Passou o microfone para a outra
--Nossa... -- Ed começou a falar -- Quando ela fala assim comigo eu fico meio boba, sabe? Nem sei por onde começar...
--Você é boba desde que eu te conheço, Ed! Qual a novidade nisso? -- Flávia gritou. Algumas pessoas riram
--Mas eu sou trouxa mesmo, tanto que quando precisei de fisioterapeuta eu te contratei! -- sorriu. Flávia achou graça e mais alguns convidados -- Mas, brincadeiras à parte, em primeiro lugar queria agradecê-los por terem vindo e dizer que também fiquei feliz com a consideração de todos aqui. -- pausou -- Eu fiquei fascinada pela Isa desde o começo. Nós somos muito diferentes e ao mesmo tempo temos um monte de coisas em comum. Eu logo me apaixonei e fiquei me controlando pra não me precipitar só que foi mais forte do que eu: pedi a ruiva em casamento! -- olhou para ela -- Depois de muito maltratar esse pobre coração ela finalmente se rendeu e me disse ‘sim’. -- as duas sorriram -- E eu estou embarcando nesse relacionamento com todas as minhas forças, com toda dedicação pra que dê certo, pra que seja bom, pra que dure por toda vida! -- olhou para os convidados -- Talvez possa não parecer, mas não é nada fácil assumir um relacionamento homossexual. Talvez, no fundo, alguns de vocês achem tudo isso aqui uma coisa ridícula... Certos pensamentos, certos paradigmas estão enraizados demais! Há muito preconceito, muita ignorância e eu mesma senti isso na pele por várias vezes na minha vida. Só que... quando decidi que ia assumir isso, eu encarei mesmo e... confio em Deus, está nas mãos dEle. E confio que Ele vai nos ajudar a saber viver juntas e a sermos felizes. -- olhou para a bailarina -- Também te amo, Isabela Guedes! -- as duas se abraçaram com muita emoção. Os convidados aplaudiram
--Se tiver beijo, eu vomito! -- Camille protestou de braços cruzados. Estava sofrendo muito com tudo aquilo e queria fingir que sua dor era simplesmente revolta e homofobia
--Desde que não seja em cima de mim! -- Mariângela respondeu -- Porque se fizer isso comigo, apanha! E na bunda limpa! -- fez cara feia
***
Todos os convidados se acabavam de dançar, exceto Camille, Juliana, Suzana e dona Lourdes. A loura estava destacada de todo mundo.
--Suzaninha por que não dança? -- Maria de Lourdes perguntou -- Veja como Juliana está que não se agüenta de vontade de dançar!
--Ah, eu não sei dançar, dona Lourdes. Sou totalmente sem jeito e sem molejo! -- respondeu de cabeça baixa
A japonesa sorriu e cochichou no ouvido dela. -- Na cama você não é nada sem jeito ou sem molejo...
A delegada morreu de vergonha e olhou para a amante com os olhos arregalados. -- Menina, fala isso baixo! Dona Lourdes pode ouvir! -- Juliana riu
--Suzaninha! -- a idosa falou com firmeza. Suzana olhou para ela espantada -- Vá dançar com ela agora!
--Mas...
A enfermeira levantou-se e estendeu a mão. -- Vem? -- pediu sorrindo
--Suzaninha!! -- Lourdes insistiu de cara feia
A delegada coçou a cabeça e se levantou contrariada. Juliana piscou para a idosa e levou a morena para a pista de dança.
Maria de Lourdes olhou para o lado e reparou em Camille sozinha. Manobrou a cadeira e foi até ela. -- Oi, filha! -- cumprimentou -- Lembra de mim?
--Lembro. -- respondeu -- A senhora foi na casa do meu tio uma vez quando eu tava lá.
--Vi você sozinha e vim conversar. -- pausou -- Incomodo?
“Com certeza! Eu não queria conversar com ninguém!” -- Camille pensou, mas não tinha coragem de dizer a verdade a ela. Não queria ser grosseira com uma velhinha -- Não. Eu é que sou de pouca conversa... -- sorriu sem graça
Lourdes sabia que muitas pessoas não gostavam de conversar com idosos e imaginou que Camille fosse uma delas. -- Tudo bem, -- sorriu igualmente constrangida -- é que todo mundo está dançando, menos a gente... -- olhou para as pessoas -- Eu sempre tive vergonha de dançar e agora não posso. No entanto não tenho vergonha de me requebrar sentada na cadeira... -- pausou -- Vou deixar você quietinha no seu canto e voltar da onde vim. Não quero ser inconveniente. -- voltou a manobrar a cadeira
Camille viu que Seyyed e Isa dançavam com total cumplicidade.
--Não, fique! -- mudou de idéia. Não queria mais ficar assistindo sozinha àquelas cenas -- Somos as cadeirantes da festa, temos que nos unir... é muito chato ver as pessoas se privando de fazer o que querem porque se sentem na obrigação de nos dar atenção! -- falou evidenciando uma certa mágoa
--Você se sente inconveniente, não é? -- olhou para ela -- Eu me sentia assim desde que fiquei viúva... -- olhou para Juliana e Suzana dançando -- Hoje em dia aquelas duas têm me feito me sentir de outra forma.
--É péssimo não ter independência. Agora por exemplo eu queria ir embora... -- estava chateada
--Sei como é! Agora estou com sono, mas não quero pedir pra ir embora porque vejo que Juliana e Suzaninha se divertem. E elas são boas pra mim... posso agüentar um pouco mais.
--Não estou com sono e sim... -- reparava em Seyyed e Isabela -- quer dizer, estou com sono sim! -- mentiu -- "Já não agüento mais vê-las demonstrando seu amor o tempo todo!” -- pensou
--Flávia disse que está trabalhando você pra usar uma perna mecânica do tipo a que ela tem. Quando estiver preparada será totalmente independente assim como Flávia é.
--Torço por isso, mas leva tempo. -- olhou para a idosa
--Mas vai acontecer, se Deus quiser. -- pausou -- Já eu estou treinando a usar bengala e voltar a andar, só que sou gorda e não agüento meu próprio peso. Tenho que emagrecer e continuar tentando... só que sou velha e o futuro de um velho é a morte mesmo. -- riu com tristeza -- Mas você terá tempo!
--Talvez eu morra antes da senhora. -- voltou a reparar no casal
--Ah, mas se Deus quiser isso não vai acontecer. Você ainda tem muita lenha pra queimar, menina!
--Será que eu agüento queimar tanta lenha? -- perguntou com tristeza -- A vida é tão difícil, tão complicada... -- suspirou -- "Não gostaria de passar anos a fio vivendo nesse dilema interior que me consome tanto...” -- pensou
--Você é muito nova pra carregar esse discurso. Deixe os lamentos pra mim! -- brincou -- Você é uma menina, tem que ter aquele brilho nos olhos! -- sorriu -- Juliana diz que eu tinha que ter esse brilho também... Imagine você!
--É que eu sou sem graça mesmo... -- olhou para baixo
--Filha, escute o conselho de uma mulher que poderia ser sua avó: você precisa dar um jeito nessa tristeza. Procure ajuda! Juliana faz terapia, por que você também não procura fazer?
“Mais uma a me mandar me tratar! Ô louco, que merd*!” -- pensou revirando os olhos
***
O DJ tocou uma sequência de músicas da época disco e Carlão, que até então dançava como um robô, se requebrou loucamente ao som de músicas como YMCA e I Will Survive. Ele cantava e gritava mas Lady não ouvia isso por causa da altura do som. Na verdade, Carlão se empolgou tanto que nem se lembrava mais dela.
--Esse noivo da tua amiga, hein, Pri? -- o ficante dela comentou -- Maior bichona!
--Eu também acho! -- ela respondeu -- Mas vai dizer isso pra Lady?
--Amor! -- Lady abordou Carlão -- Já que você gosta tanto dessas músicas elas bem que podiam tocar na nossa festa de casamento.
--Ah, eu gosto!! -- respondeu cantando -- Eu gosto?! -- perguntou com voz muito grossa -- Eu gosto?! Quem disse isso?? Eu odeio!! -- fez cara feia
--Odeia?! -- ela não entendeu
--Lady, vamos sentar. Essas músicas já me encheram! -- segurou a noiva pelo braço e voltaram para a mesa
--Eu achava que você estava adorando! -- ela disse enquanto se sentava
--Que nada! Isso é música de boiola, coisa de viado! Eu tava era zoando o carinha que Priscila arrumou. Desconfiei de uma coisa, joguei verde e colhi maduro!
--Desconfiou do que? -- perguntou sem entender
--Lady, fica esperta! -- olhou seriamente para ela -- O ficante da tua amiga é o maior boiola!
--Ele?!
--Bichona, com b maiúsculo! Do tipo que até na hora de morrer pega num pau!
--Nossa! -- olhava para o rapaz desconfiada. Ele e Priscila se beijavam -- Como sabe disso? -- olhou para Carlão novamente
--Pelo jeito como ele me olhava! Cheio de intenção, sabe? Eu desconfiei logo! Só não meti um socão na palhaça dele em respeito às senhoras que tem aqui. -- coçou o saco -- Aí quando essas músicas de boiola começaram a tocar o cara ficou todo alegrinho. Comecei a dançar zoando com ele e não deu outra! O cara soltou na franga no salão!
--E eu não percebi isso!
--Porque você é muito inocente! -- olhou na direção do rapaz -- Mas eu sou um cara vivido e conheço uma bicha a quilômetros de distância. -- voltou-se para a noiva -- E tenho nojo delas!
--Pôxa... que coisa! Ninguém diz!
--A mesma coisa é aquele tal de Renan!
--Que tem ele? -- perguntou chocada -- Não me diga que também...
--Bichona! -- bateu na mesa -- O cara não gosta de futebol, não gosta de ver porr*da, não bebe... Bichona! Do tipo que senta em qualquer coisa dura que apareça!
--Mentira! -- pôs a mão sobre a boca -- Mas ele é mecânico!
--E daí? Foi se meter nesse ambiente cheio de homem justamente pra tirar um sarro da rapaziada! -- olhou na direção de Renan -- E a pobre da Tatiana nem percebe só porque ele é um negão forte, bonito, arrumadinho, cheiroso... -- suspirou. Pigarreou e olhou para Lady -- Mas aquilo ali é bicha com chachá!
--Como percebeu? -- perguntou intrigada -- Eu não consigo notar nada!
--Notei isso naquela noite que a gente saiu. Foi ele que sugeriu o lugar, lembra? E o que tinha lá? Bichas a dar com o pau! -- pausou -- Ou melhor, bichas querendo um pau!
--Ah, mas minhas amigas têm que saber disso! -- levantou-se -- Elas estão sendo enganadas, não é certo!
--Lady, sente-se aí! Elas são teimosas e precisam ver com os próprios olhos.
--Mas, Carlão...
--Sente, mulher! -- ela obedeceu -- Esse lugar aqui está uma viadagem só, e se for advertir a todas as mulheres presentes vai levar uma surra delas. Certas mulheres são como São Tomé, só acreditam vendo!
--Tem mais gays aqui além de Renan e do ficante de Priscila? -- perguntou surpresa
--Ô Lady, desperta! -- deu um soco na mesa -- Esses bailarinos amigos de Isa, esses mecânicos funcionários de Seyyed... até o padrasto dela é da irmandade!
--O que?! -- estava perplexa -- Aquele senhor?? Ele é o irmão da minha costureira!!
--Bicha velha! -- respondeu balançando a cabeça -- Um verdadeiro mestre da pederastia! Aquilo ali não me engana! -- olhou na direção de Mariano -- Coroa conservado, barba bem tratada, corpo esbelto, olhos verdes... -- suspirou e olhou para Lady fazendo voz grossa -- Bicha formada com mestrado, doutorado e PhD!
--Pôxa... -- Lady lamentou -- Por isso que dizem que falta homem no mercado... -- olhou penalizada para Olga, Tatiana e Priscila -- Coitadas...
--Deixe pra lá! O que importa é que você -- apontou para ela -- vai se casar com um homem de verdade, com h maiúsculo!
--E muito macho! -- ela complementou sorrindo. Calou-se e pensou em algo que lhe deixou constrangida -- Sinto muito ter te chamado pra essa festa. -- desculpou-se -- Não sabia que seria um antro de tantos gays, e você é tão homofóbico...
--Dizem que eu sou homofóbico, mas não... Eu sou homemfóbico! Não tenho nada contra as lésbicas. Gosto de mulher do jeito que for! -- olhou para Seyyed e Isa -- Olha aquelas duas! Lindas, maravilhosas, poderosas, com aqueles vestidos chiquerérrimos... Aliás, onde será que elas compraram, hein? Não sei qual dos dois foi o que eu gostei mais... -- apoiou o queixo com uma das mãos -- O cabelo da Seyyed tá um arraso! Será que é natural ou será que ela alisa? E quem será que maquiou a Isa, hein? Parece até uma diva do cinema!
--Ah, não, Carlão! -- cruzou os braços revoltada -- Eu não vou admitir que você fique aí criando um monte de fantasias sexuais com elas e bem na minha frente! Por acaso não te sou mulher o suficiente? -- protestou -- Aliás, você nunca nem me procurou pra uma intimidade...
--Calma, Lady, foi só um desabafo de homem! Sabe como é, testosterona demais... -- beijou a mão dela -- E se não lhe faço propostas é porque sou respeitador e muito sério! -- olhou nos olhos dela -- Sei a diferença entre uma mulher pra casar e uma mulher pra cruzar! -- sorriu
Lady suspirou apaixonada. Carlão sorriu e apertou o saco.
19:30h. 27 de setembro de 2001, Edifício Rubi, sala 1033, Centro da Cidade, Rio de Janeiro
--Ivone, minha filha, você não faz idéia!! -- Juliana exclamou -- Hoje recebi uma notícia bombástica!
--O que foi? -- perguntou preocupada
--Adivinha quem apareceu no hospital me procurando?
--Não tenho idéia!
--O coroa que era amante da profissional liberal! Ele está mais magro e parece até que envelheceu desde a última vez que o vi. Chegou dizendo que procurou por dona Lourdes em toda parte e como não soube notícias veio tentar a sorte comigo. Cheguei a pensar que era algum golpe da Chapolin do sex* pra tirar a velhinha lá de casa, mas não... -- pausou -- Ele veio me dizer que aquela sem vergonha morreu!
--Morreu?! -- perguntou em choque -- De que?? Quando??
--Ela trabalhava em Nova York, no WTC. O resto da história você deduz! -- cruzou os braços
--Meu Deus... -- balançou a cabeça -- Que morte traumática!
--Saí do hospital pensando nisso, Ivone... -- pausou -- Veja como são as coisas... Aquela mulherzinha sacaneou todo mundo, vendeu as coisas da avó, queria jogar a pobre em um asilo, tinha uma pose danada... Lembro muito bem dela toda marrenta falando com a gente no hospital e no entanto, olha como a vida é! Fez o que fez pra morar nos Estados Unidos e deu no que deu! Agora conseguiu um apartamento no inferno com vista pro breu. -- pausou -- Mas, ainda assim, não desceu do salto: a morte dela foi manchete mundial! Morreu com pompa!
--Que é isso, Juliana?! -- Ivone ralhou -- Mais respeito pelos mortos! Mais respeito pelo que aconteceu ali! Muita gente morreu naquele sinistro, gente boa, honesta, digna de valor! Não pode se referir a isso da forma leviana como está fazendo agora! -- ela se revoltou
A japonesa se envergonhou. -- Nossa, nunca te vi zangada assim comigo...
--Não estou zangada! -- pausou e se recompôs -- Mas não aprovei seu modo de falar sobre uma coisa tão séria!
--Desculpe... -- pausou e respirou fundo -- Olha, Ivone, eu me entristeço quando ouço notícias sobre o que fazem com os palestinos, fico penalizada com as guerras locais na África, acho uma lástima o que acontece na antiga Iugoslávia, na Chechênia... e, claro, o que aconteceu em Nova York também me deixou triste, mas eu não vou mentir! Não sou fofa, meiguinha e nem elevada espiritualmente. Eu não consegui deixar de achar um castigo bem merecido o que aconteceu com ela. Sacaneou tanta gente, nunca foi uma pessoa legal, fez de tudo pra ir morar lá e no entanto nem curtiu direito. A morte veio e fez ela descer daquele pedestal!
--Eu entendo seu raciocínio, querida, mas não pode ser tão dura. Nós não podemos julgar os outros! Somente a Deus cabe isso, e Ele não nos passou procuração em Seu nome pra que pudéssemos ocupar o Seu lugar nessa tarefa. Claro que a moça errou, e errou muito, mas ela não precisa do nosso julgamento. Onde quer que esteja, viverá sob o clima que merece, e isso é verdade pra todos nós.
--É, eu sei... você tem razão é que... -- passou a mão nos cabelos -- Acho que sou meio vingativa...
--É o seu senso de justiça, eu entendo. Mas não precisa ser tão dura. Seremos julgados na medida em que julgarmos os outros. -- pausou -- Já pensou em como vai dizer isso à avó dela?
--Pois era isso que eu ia te perguntar! Nesse momento dona Lourdes já deve estar na casa de dona Olga. Está acontecendo a semana do idoso lá no centro e dona Olga tem levado ela pra participar das atividades, sabe? -- sorriu -- As duas ficaram muito amiguinhas. Acho que como dona Olga não sabe o que é ter mãe há muitos anos ela está curtindo um pouco da experiência... -- pausou -- O que acha que devo fazer? Contar a ela na presença de dona Olga e Mariano ou em particular quando estivermos em casa? Por favor, eu pergunto isso à Ivone e não a minha psiquiatra!
--É... acho que seria melhor contar a ela na casa deles. Será mais gente para confortá-la, dar suporte... -- pensou -- Mas, pelo amor de Deus, veja lá como vai dar a noticia! Não vá dizer uma coisa do tipo: “Dona Lourdes, a Chapolin do sex* trabalhava lá no World Trade Center e agora danou-se! Numa hora dessas já deve estar sentada no colo do capeta!”
Juliana riu. -- Ai, Ivone, claro que eu não vou dizer isso! -- balançou a cabeça -- Quer dizer, não necessariamente com essas palavras!
--Juliana!! -- exclamou espantada
--Brincadeira, boba! -- acenou para ela -- Eu vou falar com todo o cuidado, tem minha palavra.
--Assim espero... -- acabou sorrindo -- E no mais? O que me diz?
--Tudo vai bem, graças a Deus. Bem no trabalho, bem em casa, bem com Suzana... estou vivendo uma fase muito boa na minha vida.
--Graças a Deus!
--Com certeza! -- suspirou -- Só falta Suzana prender aquele psicopata, que anda sumido, que eu acho que vai melhorar ainda mais. -- pausou -- Sabe? Ela tem desabafado comigo coisas íntimas, dolorosas... também já me contou histórias bonitas sobre a vida dela na tribo, sobre os pais... agora já sei até o nome dela: Yamaki Nawapë! -- sorriu -- Às vezes ela vem assim, sem avisar, e me pega, me joga na cama, fala ianoman no meu ouvido, me invade toda com aquela língua indecente, aquelas mãos ansiosas... -- deslizava as mãos pelo próprio corpo -- Ivone, aquilo ali é tão sem vergonha, tão faminta, ela mal me dá tempo de respirar! Um dia vou acabar tendo um infarto e morrendo ali na cama mesmo, de tanto prazer!
--Nossa!! -- Ivone arregalou os olhos -- Agora fui eu que senti um calor, viu? -- abanou-se -- Assim não dá pra trabalhar! -- brincou
--Tá ficando safada também, né danada? -- deu um tapinha na mão da outra
--É, eu acho que é o convívio... -- as duas riram -- Bem... que bom que vocês têm aumentado a intimidade! Ela está aos poucos se entregando mais, se libertando do peso que carrega sobre as costas e certamente, com o tempo, aprenderá a ser livre e feliz!
--Eu quero ajudá-la nesse processo. Quero muito mesmo que ela se perdoe e seja muito feliz. -- pausou -- Mesmo que não seja do meu lado.
--Você faz essa observação por conta da visão que teve?
--É... -- abaixou a cabeça e ficou mexendo na fivela da bolsa -- Eu acho que mais cedo ou mais tarde ela vai me deixar... Apesar de tudo o que te contei, Suzana ainda é uma pessoa que se acostumou a ser solitária... ela nem fala da gente se casar... -- pausou -- Mas quando acontecer eu não vou me desesperar como foi com Seyyed.
--Está certa quanto a essa parte de não se desesperar, mas não pense que os fatos estão guardados no futuro de modo imutável. Temos livre arbítrio, as coisas mudam a todo momento... muito pode acontecer. -- olhou para ela com carinho -- Não viva sob essa expectativa de que ela vai te abandonar. Viva um dia de cada vez, e viva como se cada dia fosse o seu último. Uma vida bem vivida é uma vida de tempo não desperdiçado. O tempo que passa não volta, e, embora não pareça, é o recurso não renovável mais desperdiçado por nós. “A maioria dos Homens não percebe ainda os valores infinitos do tempo.”10
--Tenho feito esse esforço de não perder tempo com bobagens... Acho que essa é uma das primeiras vezes que venho aqui e não me queixo de nada ou que não digo que aprontei uma daquelas. -- sorriu e olhou para a outra -- Acho que, na medida do possível, estou me tornado mais paciente e me estressando menos com as coisas que me tomavam muito tempo em vão.
--Que bom, querida! -- Ivone sorriu orgulhosa
--Mas que eu não tenho pena daquela serviçal de termas, isso eu não tenho! -- cruzou os braços. Ivone acabou rindo
***
Suzana vinha buscando informações sobre a vida do jovem que ela assassinou há anos atrás e não conseguia obter grande coisa. Queria chegar até a identidade de Sammael através desse caminho, mas estava difícil demais. Depois de alguns dias de buscas infrutíferas perdeu a paciência e deu um soco na mesa.
--O que foi chefe? -- Brito perguntou espantado
--Não consigo descobrir a identidade daquele maldito psicopata do caso Patrícia Feitosa! Esse velho miserável parece que passou uma borracha sobre os fatos da própria vida! -- esfregou as mãos no rosto
--Já sabe onde ele se encaixa no seu passado! -- levantou-se para se inclinar sobre a mesa dela -- Deve saber... agora sua busca já tem um norte. O problema é que parece até que o velho apagou as próprias pegadas, não é isso?
Suzana olhou bem para ele e respondeu: -- Sei... é um processo de vingança, como você mesmo havia dito! Mas está difícil demais descobrir os detalhes que eu preciso saber.
--E não vai me dizer qual a ligação entre vocês?
--Ainda não! -- levantou-se da mesa e circulou pela sala. Brito sentou na ponta da mesa e ficou olhando para ela -- Soube das últimas sobre os assassinos da garota? -- parou e pôs as mãos na cintura -- Os advogados estão colocando Seth/Rodolfo como louco e manobram para desvinculá-lo do caso. Fica sempre aquela coisa de falta de provas conclusivas... Que mais querem pra ter certeza de que aqueles malditos são os culpados pelo crime? O que mais?? -- passou a mão nos cabelos -- Eu fico irritada em como essa coisa se arrasta! -- deu um soco na mesa -- Me dá um ódio!
--Calma, chefe... sabe que é assim e que os processos são morosos. Mas eles serão condenados, impossível não serem! -- falava tranquilamente
--Sei lá, nada é impossível nesse país... -- suspirou -- E o velho safado também sumiu! Nunca mais entrou em contato comigo nem nada.
--Ele vai aparecer. Certamente vai... -- pausou -- Está como uma cobra, aguardando o momento certo de dar o bote. Ele foi encurralado, sabe que não pode dar mole. -- respondeu com voz mansa
Suzana olhou para ele com estranheza. -- Você ficou muito frouxo depois que começou a namorar Flávia! Vê se te orienta, viu, Brito? Não quero ver isso aqui, não! Pra trabalhar comigo tem que ter raça!
--Ei, mas eu continuo o mesmo! -- endireitou a gola da camisa -- Continuo o mesmo homem seco de sempre, apenas mais suave. -- sorriu e se sentou
--Humpf! -- fez um bico -- Eu hein, seco e suave! Virou absorvente, por acaso?
Ele riu. -- Agora que tem uma bela família pensei que fosse aprender a relaxar mais. -- olhou para ela -- Parece tão estressada!
--Mas eu tô estressada, Brito. -- pausou -- Passamos a noite toda em uma clínica. A neta de dona Lourdes morreu naquele sinistro do onze de setembro e ela ficou sabendo ontem. Na hora H não sentiu nada, mas passou mal do coração na hora de dormir e foi um susto danado. -- apoiou uma das mãos na parede -- Juliana me ligou assustada e fui correndo pra vê-las na clínica. -- olhou para fora através da janela -- E vou te contar, essas clínicas metem a faca no bolso da gente! -- passou a mão nos cabelos -- Mas a notícia boa é que agora dona Lourdes passa bem.
--E está sozinha em casa?
--Não, Juliana ficou com ela. -- olhou para o amigo -- Vou dormir lá essa noite pra ajudar a ficar de olho. Não vou deixar as duas sozinhas em um momento como esse, não é não?
--Você dorme mais na casa de Juliana do que na sua própria independentemente da saúde de dona Lourdes. -- afirmou sorrindo
--Que quer dizer com isso? -- perguntou desconfiada
--Que você gosta de ficar com elas. -- cruzou os braços -- Por que não casa logo com Juliana, chefe? Não entendo isso!
Suzana fez cara de indignação. -- Mas veja só isso! Tem que entender nada não, eu hein! -- afirmou enfaticamente -- Eu não quero casar, casamento é coisa muito séria e complicada e eu tô fora! E já disse que não quero expor Juliana a riscos desnecessários!
--Chefe, você vive na casa dela, se comporta como se fosse casada com ela, o que mais falta? É só preparar a mudança! -- riu
--Você anda muito saidinho depois que começou a namorar, viu Brito? -- foi até ele e deu um tapa na cabeça do colega -- Fica na sua aí!
--Calma, chefe! -- passou a mão na cabeça
--Vamos voltar ao início da nossa conversa. -- parou diante dele e cruzou os braços -- Vou fazer uma viagem extra oficial pra Boa Vista!
--Boa Vista... -- olhou espantado para ela -- Vai pra Roraima?!
--Certas coisas você tem que pesquisar in situ! -- pensou -- Ou in loco, eu nunca sei quem é quem! Latim sempre foi minha diferença! -- fez cara feia
--E como vai conseguir fazer isso? Vai justificar como?
--Não me interessa! Nem que eu pague a viagem toda do meu próprio bolso e assuma os dias de ausência. Mas que eu vou, ah, isso eu vou!
--Vou com você! -- levantou-se
--Não... isso é comigo! Só comigo!
***
Camille estava trabalhando na oficina de Seyyed e dividia sala com o tio. Estava se inteirando sobre o funcionamento da casa e ao mesmo tempo pesquisava sobre a burocracia necessária para iniciar o novo negócio em Goiás. Ela e Tamires interagiam continuamente por conta disso.
Renan entra na sala e cumprimenta os dois. -- Camille, eu estive conversando com a Ed e nós achamos melhor visitar o local que meu sogro fala antes de dezembro chegar. -- pausou -- Gostaríamos que você fosse comigo pra Goiânia.
--Eu?! -- respondeu espantada
--Por que a surpresa? Vai ter que viajar bastante pra lá durante esse processo.
--Ô louco, mas... e quando seria isso, meu?
--Eu telefonei pro meu sogro ontem e ele disse que se a gente for pra lá pra pegar o feriado o proprietário estará disposto a nos receber. Podemos ir na quinta à noite e voltar no sábado. E podemos ficar na casa do meu sogro, que é ótima diga-se de passagem. Aí você podia aproveitar e conversar diretamente com Tamires.
--Vá, filha. -- Mariano deu força
--Você tem prova pra depois do feriado? -- Renan perguntou
--Eu não.
--E então? Vambora? -- ele perguntou -- Não fique constrangida. Eu te dou uma força no que precisar. Além do mais vou alugar um carro com antecedência e a gente pega ele no aeroporto assim que chegar lá.
Camille estava excitada com a idéia, mas ainda relutava. -- Ai, eu... é...
Nesse momento Seyyed entra na sala. -- E aí? -- pôs as mãos nos bolsos e perguntou sorridente -- Vai pra Goiânia com meu irmão? Se prepara aí, mulher! De agora em diante é isso: viagens, negócios... só coisa na categoria!
A loura se perdeu nos olhos dela e respondeu sem pensar. -- Vou! -- pausou -- "O que diabos tem acontecido comigo que nunca consigo dizer não a ela?” -- pensou
--Então beleza! -- olhou para Renan -- Confirma com teu sogro, por favor.
--Agora! -- pegou o telefone e contatou Claudio
Seyyed puxou uma cadeira e sentou-se do lado de Camille. -- E então? Que você me diz? Tem alguma dúvida sobre o fluxograma da oficina ou tem algo que queira me dizer? -- olhou para ela
--Ah, eu... -- suspirou -- “Camille, se concentra!” -- pensou -- Bem... -- pigarreou -- vocês aqui têm uma estrutura muito sofisticada: alinhamento computadorizado, solda MIG/MAG, corte laser... Ainda não está claro pra mim o que vocês querem implantar lá. Imagino que a estratégia seja a de ir incrementando o aporte tecnológico na medida que o negócio for se consolidando mas não sei qual será o ‘v’ zero. E tem também o trabalho de restauro de carros antigos. Vai conduzir esse trabalho por lá em paralelo?
--Vamos por partes. -- pausou -- O negócio de restauro de carros antigos nós vamos amadurecer ainda. Renan se empolga com seu Marciano mas ainda é cedo pra cair de cabeça nesse trabalho por lá porque além de ser um investimento alto, demanda mão de obra muito especializada e apoio de outros profissionais que a gente contrata.
--Mas a idéia não está descartada. -- Renan interrompeu -- Está, Ed? -- olhou para ela
--Não, mas precisa amadurecer. -- olhou para ele, que balançou a cabeça -- Quanto à primeira parte da sua pergunta, Camille... -- levantou-se rapidamente e pegou uma pasta na estante -- O que a gente pensava era nisso aqui. -- mostrou o material a ela -- Mas a gente queria ouvir sua opinião. -- ela e Renan olhavam para a loura
--Sério? -- perguntou orgulhosa
--E eu lá só mulher de brincadeira, garota? -- respondeu sorrindo -- Diga! Queremos te ouvir!
--Você tem mais estudo que a gente, Camille. -- Renan falou -- Tem uma visão que a gente não tem.
A loura olhou para o tio, que balançou a cabeça dando apoio para que falasse, e então ela se sentiu segura e começou a expressar suas idéias com muita clareza para Seyyed e Renan. Eles prestavam atenção e achavam interessantes as ponderações que a jovem fazia. Renan tomou nota de um monte de coisas. Mariano assistia orgulhoso.
Ao fim daquela reunião informal, ambos agradeceram e disseram que iriam seguir as sugestões que Camille propôs. A jovem sentia-se valorizada e respeitada, o que lhe fazia muito bem.
--Eu sabia que não iria me arrepender de ter te colocado nesse barco. -- Ed afirmou olhando para a loura ao se levantar -- Agora, me faz um favor. -- abaixou-se e olhou bem dentro dos olhos dela -- Providencia a prótese. Eu quero ver você poderosa à frente desse processo.
Camille sentiu um frio na barriga e nada respondeu. A morena se despediu e saiu da sala com Renan.
--Filha, a vida está sorrindo pra você! Aproveite a oportunidade e mostre o valor que eu sei que você tem! -- Mariano falou sorrindo
Ela sorriu e continuou calada. “Meu Deus, eu estou completamente apaixonada por essa mulher! O que eu faço?” -- pensou -- "E o pior é que nem posso contar a ninguém!”
***
Lady estava na casa de Mariângela. Rodopiava pela sala.
--Ai, dona Mari... a senhora demorou... mas abalou! -- abraçou-se com o vestido
--Demorei porque deu um trabalho! Como diria minha filha, ô louco! -- riu -- Esse vestido estava mal tratado demais, perdoe a franqueza.
--Ele estava como meu coração antes de Carlão aparecer! Agora... -- sorriu embevecida -- Tudo é diferente! Arrumei um noivo lindo, forte, inteligente e o mais importante: muito macho!
--Que bom, não é? -- sorriu
Lady abriu a carteira e pegou dinheiro. Estendeu um pequeno volume de notas de cinqüenta reais a costureira. -- Tome dona Mari, e não faça cerimônia. É seu, mais que merecido!
--Que é isso, menina? Eu não cobrei isso tudo, não! Pra que tanto dinheiro? Está me dando o dobro!
--Não me faça desfeita, viu? -- sorriu e colocou o dinheiro sobre a mesinha do abajur -- Felicidade não tem preço e a senhora me deu um presentão em não ter desistido de consertar esse vestido! Ficou lindo!! -- deu pulinhos
--Mas...
--Por favor! Se não aceitar eu ficarei ofendida! -- fez cara séria
--Tudo bem. -- suspirou -- Obrigada!
--Carlão vai se formar em dezembro, está procurando emprego, tem carro, boa família... Que mais eu poderia querer? -- sorria como uma ajudante de mágico
--Que bom! -- Mariângela não sabia o que dizer
--E ele é das antigas, dona Mari! -- chegou perto dela e cochichou -- Só quer aquilo depois de casado!
--Ah, tá! -- continuava sem saber o que dizer
--Tem muito gay por aí, dona Mari. Eu fico penalizada! Vejo garotas que acham que o namorado é homem, mas que nada! Tudo bicha! -- pausou -- “Seu próprio irmão é uma bichona! Só não te conto pra não gerar uma tragédia familiar!” -- pensou
--Hum... -- balançou a cabeça
--Dona Mari, eu vou lhe colocar na minha lista de convidados. Vá se preparando! Meu casamento vai ser coisa fina, viu? Digna de colunas sociais!
"Ô minha Virgem, eu cheia de coisa pra fazer e essa menina doidinha não vai embora!” -- pensou
--O Carlão é tão bom, tão atencioso... E trabalhador, dona Mari! Ele estagia ralando demais e fica arrasado! Todo domingo acorda tarde e com dor nos pés.
--Todo domingo? -- perguntou com estranheza
--É. Ele estagia de segunda a sábado, mas no sábado fica trabalhando até tarde da noite e fica moído no domingo.
--E o que ele faz pra trabalhar no sábado? -- perguntou curiosa
--Estagia na Caixa Econômica. -- pausou. Mariângela estranhou -- São tempos de crise, não é, dona Mari? A indústria nacional está em recessão e sobram apenas os bancos e umas poucas oportunidades pra um engenheiro trabalhar...
--Mas... Na Caixa se trabalha no sábado e até de noite? -- perguntou desconfiada
--Trabalha! Eles trabalham a portas fechadas! Carlão fica até tarde fazendo conta dos empréstimos que esse povo pede e não paga!
--Hum... -- respondeu desconfiada
--Olha, dona Mari, o papo tá ótimo mas eu tenho que ir! Estou aqui aproveitando que não tive aula mas o tempo urge! -- colocou o vestido dentro de uma bolsa
--Eu abro a porta para você! -- correu para fazer isso -- "Graças a Deus, eu tenho um monte de coisas pra fazer ainda!” -- pensou aliviada
--Obrigada, hein! Tchau! -- despediu-se e saiu
--Tchau, filha! Qualquer coisa, sabe o caminho! -- fechou a porta -- Essa menina tá sendo enganada por esse tal de Carlão! Onde já se viu! Trabalhar na Caixa a portas fechadas e até sábado à noite! -- resmungou sozinha -- Tem moça que é cega!
***
Seyyed e Isa visitavam um apartamento no Catete.
--Meu Deus... -- Ed olhava tudo horrorizada -- Mas esse apartamento tá caído, viu? -- olhou por baixo da pia da cozinha -- Eu acho que esse encanamento aqui deve ser da época de Nilo Peçanha!
--Que é isso, Ed? -- a corretora falou -- Este apartamento é uma jóia rara! E de mais a mais vocês podem fazer uma reforminha básica!
--Reforminha básica?! -- Ed argumentou -- Pra mexer nisso aqui eu não chamo pedreiro, chamo arqueólogo! Vai que nessas paredes tem algum fóssil?
Isabela riu. -- Olha Érica, sem condições tá? Esse apartamento é muito velho e mal tratado. -- afirmou
--Vamos ver um outro no Flamengo! -- ela propôs -- Vocês vão amar! Sol da manhã, vista do Redentor... É T-U-D-O!! -- Ed fez cara de descrença.
--Então vamos, porque estamos perdendo tempo aqui! -- Isa respondeu e se encaminhou para a porta
As três pegaram o carro da mecânica e foram até o endereço que Érica recomendou. Entraram no prédio de doze andares.
--Qual andar? -- Isa perguntou
--Surpresa!!! -- a corretora sorriu -- É a cobertura!! -- apertou o botão
Isa olhou animada para a morena, que lhe cochichou: -- Não se anima antes de ver, porque até hoje eu só vi cacareco!
Chegando no apartamento as duas constataram que a cobertura era minúscula.
--Fala se não é um luxo. -- foi até a janela -- Olha lá o Redentor, gente! -- apontou -- Demais, não é?
--Érica, cadê a cozinha? -- a ruiva perguntou intrigada
--Eu ia perguntar a mesma coisa! -- a mecânica complementou
--Como cadê a cozinha, gente? -- respondeu fingindo-se ofendida -- Olha aqui, diante de nós! -- apontou para uma pia
--O que????? -- Ed perguntou revoltada -- Você chama uma pia perdida no meio de um corredor de cozinha??? -- abaixou-se e viu que havia uma saída de gás de rua -- E o fogão vai ficar posicionado aqui??
--Gente, isso é o conceito de Studio! Em Paris é assim! Última palavra em arquitetura clean!
--Érica, s'il vous plaît, ne dis pas que!! (Érica, por favor, não diga isso!!) Eu estudei em Paris por um ano e um Studio não é assim! Imóveis desse tipo aqui não têm nada a ver com o conceito de Studio! -- reparava no local -- Isso aqui já é econômico demais!
--Econômico??? Eu diria... misérable! -- Ed protestou
--Então... vocês também não gostaram? -- as duas riram -- Vocês são um casal muito difícil de agradar!
--A gente mora bem, Érica, com espaço! -- olhou para a bailarina -- Eu não quero sair de nossa casa pra morar numa caixa de sapatos, Isa!
--Nem eu! -- cruzou os braços
--Tudo bem, gente! -- Érica levantou os braços -- Vou levá-las a um imóvel no bairro Peixoto que vocês vão amar! Esse eu garanto!
--Érica, você sempre garante! -- a morena reclamou
--Acredita, Ed! Põe fé na loura aqui! -- apontou para si mesma
--E nem loura ela é! -- cochichou com a ruiva -- Maior oxigenada...
Isa riu discretamente e deu um tapinha na coxa dela. -- Deixa de ser boba!
Chegando no apartamento prometido...
--Até que esse aqui é bonito! -- a morena olhava desconfiada
--Por que ela se mete embaixo das pias, mexe nos vasos sanitários, olha os ralos?
--Porque minha mulher entende das coisas, meu amor! -- a ruiva respondeu orgulhosa -- Pensa que ela é sem noção? Não mesmo!
As duas visitaram todos os cômodos e Ed não encontrou nenhum problema evidente.
--Gostaram? -- a corretora perguntou sorridente
Elas se entreolharam e balançaram a cabeça.
--Ai, que bom! -- bateu palminhas -- Então... é de vocês! -- abriu os braços
--Ei, peraí! -- a morena falou seriamente -- Você não disse o preço!
--Coisa pouca! O proprietário quer um sinal de 20%!
--Que sinal! -- Isa exclamou revoltada
--E quanto seria o valor total, dona Érica? -- Ed insistiu
--Ah... -- mexeu nos cabelos -- Um milhão e meio...
--O que??????????????? -- a mecânica se encostou na parede. A ruiva fez o mesmo
--Que coisa cara!!! -- a bailarina exclamou em choque
--Chama a polícia! -- Ed falou apavorada olhando para a bailarina -- Quem vende um apartamento por esse preço tinha que ser preso!
--Crianças, olha só... -- Érica falava com jeito -- Vocês querem zona sul, não é? Aqui é assim... Especulação imobiliária, metros quadrados super valorizados... Eu nem deveria dizer isso, mas é a real! Não vai ser diferente! Ou vocês encontrarão imóveis mais... espartanos ou antigos como os que vimos anteriormente, ou vocês encontrarão coisas boas como esse aqui! Só que o preço... -- pausou -- E de forma alguma vocês terão o espaço que têm no Meyer. Esqueçam!
--Disso nunca duvidei, mas eu tô besta com esse negócio! Ao invés de ter montado oficina eu devia era ter comprado imóveis na zona sul pra alugar...
--Pra você ter uma idéia, o aluguel de uma janela em Copacabana pra ver o réveillon não sai por menos de vinte mil reais!
--Aluguel da janela?! -- Isa perguntou descrente
--Sim. Meu tio faz isso! Ele mora na Avenida Atlântica de frente pro mar e se dá bem. Você tinha que ver no show dos Rolling Stones. Ele meteu a mão! Alugou por cinqüenta mil... -- olhou para as duas -- dólares!
--Ô, Isa, a gente investiu nas coisas erradas, viu? -- olhou para a ruiva -- Esse negócio de ser mecânica e bailarina não garante nada, não... A gente devia ter comprado um apartamento de parede larga na Avenida Atlântica e furado um monte de janelinha...
A bailarina riu. -- Vamos embora, amor! -- olhou para a corretora -- Por hoje é só!
--Tem certeza, gente? -- perguntou desanimada -- Tem mais coisa pra vocês verem!
--Ah, não, Érica! Como disse Gonzaguinha: não dá mais pra segurar, explode coração! -- Ed brincou
***
--Eu tô passada com isso, Isa! A gente só viu coisa ruim até hoje e o único apartamento maneiro custa uma fortuna! -- Ed vinha dirigindo
--Pois é... -- pensou -- Lembra daquele apartamento que Érica nos mostrou em Botafogo?
--Lembro... cheio de buracos de bala, devidamente cobertos com massa, espalhados pelas paredes! -- riu -- Lembra daquele no Humaitá?
--Cheio de baratas?? Nem me fale! -- ficou arrepiada -- Tive pesadelos durante a noite por causa daquilo!
--Vai ser difícil achar uma coisa boa e pagável ao mesmo tempo. -- pausou -- Acho que vou ter que vender meu corpo na noite carioca pra poder juntar um budget suficiente... -- brincou
--Pára, tá? -- deu um tapa na coxa da outra -- Esse corpo é só meu! -- mordeu a orelha de Ed
--Não me desconcentra, garota... Tô dirigindo! -- sorriu
--Parei. -- sorriu -- Mas voltando ao assunto imóveis, você foi lá em casa e viu como é pequeno... Mas pelo menos não está mal tratado como o que esse pessoal anda vendendo por aí!
--Como eu disse, vai ser difícil... -- pausou -- Isa, e teu pai? -- mudou de assunto -- Ainda anda deprimido?
--Mamãe diz que sim. E anda mal no trabalho também. Ela teme que ele seja demitido.
--Nossa! -- exclamou surpresa -- Por que não vai visitá-lo um dia desses?
--Mamãe também me pede isso, mas eu não fui e nem vou!
--Por que tem tanta raiva dele? Por causa da ex amante ou por causa do preconceito dele?
--De ambos! Eu não vou vê-lo de forma alguma!
--Coitado, Isa! -- olhou rapidamente para ela
--Não insista, Seyyed! -- respondeu seriamente
--Tudo bem, esquece! -- pausou -- Mas ainda acho que não deveria ser assim tão dura! Fico imaginando quando eu vacilar contigo...
--Dependendo do tipo de vacilo... -- cruzou os braços -- Traição eu não perdôo!
--Mas eu não traio! -- respondeu com muita segurança -- Sempre fui muito ética com isso!
--Nem mesmo se a Juliana te der um mole ? -- olhou para a morena
--Não! A Juliana cansou de jogar indiretas e eu não fiz nada! -- olhou rapidamente para a outra -- E ela já desencanou de mim faz tempo! Agora é outra mulher!
--Você ficou tão arrasada quando ela estava de coma... -- olhou para frente -- Nem queria mais fazer amor comigo...
--Ah, porque eu gosto dela, fiquei muito preocupada... -- sorriu -- Fica com ciúmes, não!
--Hum...
--Não tem porque ter ciúmes dela e nem de ninguém!
--Nem da Camille? -- arriscou -- Você é muito cheia de coisinhas com ela! E a garota até que é bonita!
--Que é isso? Camille é praticamente da minha família, e eu quero que ela se recupere! Nunca nem a olhei com um pingo de malícia! Além do mais ela é totalmente homofóbica! -- riu -- Quando fala comigo parece sempre estar se controlando pra não me dar um fora!
--Eu sou muito desconfiada com essas homofobias todas. -- pausou -- Acho que todo mundo que tem esse excesso de fobia é porque no fundo, gosta e bem!
--Ah, que nada! Mesmo que eu fosse a maior galinhona, aquela garota seria a última pessoa pra você suspeitar! -- riu -- Além do mais olha pra você! Linda, maravilhosa, deliciosa, cercada de bailarinas, artistas, fãs... Eu não gosto nem de pensar pra não ficar me corroendo de ciúmes!
--Não seja boba... -- sorriu -- Eu sou muito fiel. -- beijou o rosto dela
--Me too! -- beijou-a rapidamente nos lábios
--Seyyed, você está dirigindo! -- deu um tapa na coxa dela
***
Camille estava há quase meia hora sentada diante de Ivone. Não haviam trocado uma palavra até então. A loura se aborreceu e resolveu falar: -- Esse trabalho de psiquiatra é uma beleza, viu? -- reclamou -- Ganha-se dinheiro sem fazer nada! -- cruzou os braços
--Eu converso com meus pacientes, mas a função principal de um psiquiatra é ouvir. -- pausou -- Estou lhe dando liberdade para falar quando se sentir com vontade.
“Hum... Até que se saiu bem...” -- passou a mão nos cabelos enquanto pensava -- Mas eu não sei o que deveria dizer!
--Diga então porque me procurou.
--Porque desde que perdi a perna todo mundo me manda procurar algum psi. Psiquiatra, psicólogo... já que você tem os dois psis eu achei interessante quando dona Olga falou.
--Você não me parece ser do tipo de pessoa que faz uma coisa porque os outros mandam.
--E não sou mesmo!
--Então por que não me diz porque me procurou? -- sorriu
Camille riu. --Você não é fraca, não, meu!
--Obrigada! -- pausou -- Fale o que você desabafa pra si mesma, o que se passa na sua cabeça... Não será julgada em momento algum. -- disse com suavidade
--Eu... -- pensou e mirou um ponto no infinito -- Você quer que eu ponha o dedo na ferida?
--Não é o que eu quero, mas o que você quer que interessa!
A loura ficou uns minutos calada e depois resolveu desabafar. -- Já imaginou o que é acordar e ser uma jovem bonita, cobiçada, com uma vida estável, com uma família, noiva, com um futuro promissor diante de si, e de repente acordar de novo e se ver aleijada, sem pai, sem dinheiro, abandonada pelo noivo, tendo que vender a casa onde viveu a vida inteira? Minha família deu no pé! Só ficaram meu tio e minha mãe. -- pausou -- Já pensou o que é chegar nos lugares e ser vista como um estorvo porque você usa cadeira de rodas ou muletas e aí precisa de mais acessibilidade, mais atenção? Já imaginou o que é ter de depender dos outros pra coisas que antes você fazia até sem pensar, de tão automático que era? Não sabe como eu queria poder fazer uma coisa tão idiota que é me levantar sobre dois pés! É uma merd*...
--Não, eu não sei o que você sente. Mas sei que é preciso ter muita coragem para continuar como você vem fazendo.
--Coragem? -- riu brevemente -- Coragem, não... é necessidade! São os fatos se impondo sobre você. Ou encara ou vegeta. E eu vegetei durante um bom tempo...
--E superou essa fase brilhantemente!
--Brilhantemente? -- olhou para ela surpresa -- Ora, doutora, nem me conhece... Eu tentei me matar... até hoje sofro as conseqüências disso...
--Brilhantemente, sim! Eu não a conheço mas estou vendo você aqui. Não estaria tão bem diante de mim se não fosse uma pessoa determinada!
--Tão bem? Se estivesse tão bem estaria aqui, por acaso? -- perguntou desafiadora
--Acha que são pessoas derrotadas aquelas que buscam por ajuda profissional? Não mesmo! Pessoas derrotadas não buscam ajuda, meu bem... elas permanecem estacionadas no sofrimento. Não é o seu caso! Você se move!
--E qual é o meu caso? -- olhou firmemente para Ivone
--Diga-me você!
--A psiquiatra aqui não sou eu!
--Você mesma disse que eu não a conheço. Quem melhor que você mesma para responder a pergunta que me fez?
--Isso aqui parece um diálogo platônico! -- riu -- Já leu A República?
--Sim! Mas eu prefiro O Banquete.
--Esse eu ainda não li... Mas está na minha lista... -- abaixou a cabeça e ficou passando a mão na perna -- Eu... até que tenho feito coisas interessantes pra uma aleijadinha...
--Os deficientes físicos também podem fazer coisas maravilhosas. A riqueza da alma não é vulnerável como este corpo físico que nos serve de moradia temporária.
--Você também é daquelas? Espíritas, como dona Olga? -- riu -- Eu devia imaginar!
--Isso é problema para você? -- perguntou arriscando
--Não... -- olhou para ela -- Mas acho que vocês viajam muito na maionese com essa coisa de espírito pra lá e pra cá. Enche o saco...
--Você tem alguma ideologia religiosa?
--Sou atéia... ou não... sei lá! Minha família é católica e eu também acho essa religião um saco! Não suporto missa! -- deu de ombros -- Eu não gosto de pensar nessas coisas! Essas do tipo: quem eu sou, de onde vim, pra onde vou?
--Então não pense! Basta que tenha uma conduta que não traga problemas a você ou aos demais que já estará fazendo um bom trabalho. Se lembrar que não existe liberdade sem responsabilidade se portará melhor que muita gente religiosa.
Camille ficou uns instantes calada e perguntou diretamente: -- Você é lésbica?
Ivone riu gostosamente. -- Ai... Em todos esses anos é a primeira vez que alguém me pergunta isso! -- pausou -- Não. Mas me diga o porquê dessa pergunta!
--Porque é outro problema na minha vida! Desde que vim morar nesse Rio de Janeiro me vejo cercada de lésbicas por todos os lados! Em São Paulo eu não conhecia uma sequer, mas aqui tem uma pá de sapatão! Ô terra, viu? Ô louco! -- revirou os olhos -- Elas parecem aqueles gremlins, que a primeira vista são fofinhos mas não passam de pestes destruidoras que comem tudo! Pra todo lugar que eu olho, lá estão aquelas gremlins famintas ao meu redor!
--E quem seriam estas gremlins? -- Ivone perguntou achando graça
--Ah, meu... -- começou a enumerar -- Meu tio arruma namorada e a filha dela é sapata, eu tento me matar e a enfermeira é sapata, eu vou num teatro e a bailarina é sapata, eu vou nadar e a nadadora é sapata, eu ligo a TV e a escaladora é sapata, a única delegada que eu conheço é sapata! Isso é um inferno! Até minha orientadora na faculdade o que é? Sapata! É uma droga! Que merd*!
--E qual o seu problema com as lésbicas?
--Problema? Eu não tenho problema! Elas é que têm!
--E por que teriam?
--Ah, doutora, pára, vai? Se alguém é lésbica automaticamente tem um problema!
--Por que?
--Como por que?? -- perguntou revoltada -- Se você nasce mulher, tem que gostar de homem ou então não gostar de nada, ser assexuada. Mas se gosta de mulher, isso significa que algo vai mal. É doença, meu!
--Homossexualidade não é considerada uma doença pela comunidade médica brasileira e internacional há tempos!
--Ah, não? -- cruzou os braços -- E o que me diz do trabalho do geneticista americano que descobriu uma região do cromossomo X que abriga um gene relacionado à orientação sexual do indivíduo? -- desafiou
--Essa informação do doutor Dean Hamer obteve credibilidade por pouco tempo, logo sendo totalmente refutada por um grupo de pesquisadores canadenses. Tenho o artigo se quiser ler.
--E quanto ao trabalho do neurocientista americano que mostrou uma redução no hipotálamo dos gays em comparação com os heterossexuais?
--A pesquisa do doutor Simon LeVay foi logo contestada pois as pessoas que tiveram seus corpos dissecados, todas elas, morreram de AIDS. E foi a AIDS que modificou o tamanho do hipotálamo daquelas pessoas. Além do mais o neuro partiu do pressuposto, preconceituoso, diga-se de passagem, que quem morria por causa desta doença era obrigatoriamente gay.
“Ô louco, essa tal de Ivone saca pra caramba desses assuntos!” -- Camille pensou admirada -- Mas... se não é doença, o que seria, então? Eu não entendo! Você não vai me convencer de que isso é uma coisa boa! Não acredito que a sua religião diga que homem com homem e mulher com mulher é aceitável! Isso é contra a lei natural! Se as pessoas todas fossem homossexuais a vida nesse planeta acabaria, ou então seria uma bagunça danada! -- respondeu indignada -- Vocês por acaso dão força pra isso? O que dizem pra sapatada quando elas vão no centro pedindo uma bênção?
--Quer saber o que minha religião pensa sobre essa questão? -- perguntou desafiadora -- Pensei que achasse que nós viajávamos na maionese!
--E acho! -- ficou mexendo nas muletas -- Mas queria saber... por curiosidade!
--Bem, nossa doutrina entende que devemos, como diz o apóstolo Paulo, aprender tudo e reter só o que for bom. Eu tenho a minha visão, com base em tudo o que li e estudei até hoje, e o que vou dizer é o meu ponto de vista. Não pretendo falar em nome de todos os espíritas. -- pausou -- Em primeiro lugar, é importante frisar que uma pessoa não é homossexual, ela está homossexual, e isso é algo que todos nós podemos vivenciar um dia, pois reencarnamos como mulheres e homens ao longo dos séculos. Se você se harmonizou demais com gênero feminino, pode se tornar gay quando reencarnar como homem, e vice versa. Se você, sendo homem, fez várias mulheres sofrerem, pode reencarnar como mulher na próxima experiência, para que aprenda a valorizá-las, e então se sentir ainda como homem e com isso desenvolver comportamento homossexual. O mesmo raciocínio vale para uma mulher que tenha magoado muitos homens. Sexo é algo que está além do processo físico da cópula em si, sex* é mental em seus impulsos e manifestações. O que firma a sexualidade de cada criatura é a sua estrutura psicológica. A pessoa homossexual pode ter uma vida totalmente equilibrada ou desequilibrada, a depender de sua conduta. Isso vale também para o heterossexual. -- pausou -- A homossexualidade não é uma doença do corpo, mas uma desarmonia da alma. Campo mental em desalinho com polaridade física. Isso não é doença, mas uma fase transitória de ajustamento, que não acontece com todos os indivíduos, mas quando acontece pode durar mais ou menos a depender de cada um. A doutrina não está disposta a estimular, exaltar e tampouco encarar a homossexualidade com desdém ou desprezo. Ela não dá subsídios para o estímulo da prática homossexual mas mostra o caminho da superação das nossas limitações e nunca se coloca no papel de condenadora daqueles que desejam viver experiências homossexuais.11 O que ela recomenda sempre, é que a vida afetiva dos seres humanos, de todos nós, seja pautada no amor e no equilíbrio!
--Mas... a pessoa tem que harmonizar sua conduta diante da vida! -- Camille protestou -- Isso é pecado, Deus condena! As pessoas que agem assim estão condenadas!
--Deus não aceita o pecado mas ama o pecador. Quem disse que há condenação?
--Hã! -- exclamou revoltada -- Quando você recebe alguém aqui que seja lésbica e ela te fala de seus relacionamentos com outras mulheres você não procura fazê-la deixar de ser lésbica?
--Não! Isso nem me passa pela cabeça!
--Mas como pode isso?? Você tinha que fazer alguma coisa!! -- afirmou revoltada socando a mesa
--Foi por isso que veio aqui? Queria que eu fizesse alguma coisa com você? -- perguntou de súbito
A loura simplesmente gelou. Depois de uns segundos de inércia respondeu: -- Eu não sou lésbica!
--Se não é, não tem porque se incomodar tanto com esse assunto! -- pausou -- É nítido que pesquisa sobre o tema.
Camille se calou e ficou pensando de cabeça baixa.
--Existem dois tipos de homossexual: o egodistônico, que não aceita viver a experiência homossexual e quer se libertar dessas tendências e o egossintônico, que é o indivíduo perfeitamente ajustado a sua preferência sexual, não desejando qualquer tipo de mudança. -- pausou -- O indivíduo egosdistônico precisa esforçar-se na prática da sublimação através da castidade consciente e buscar apoio emocional em atividades solidárias e meditativas. Não é fácil viver em abstinência e se a pessoa parte para este caminho de sublimação sem o devido preparo ela experimenta intensos conflitos íntimos e existenciais. Já o indivíduo egossintônico, assim como os heterossexuais, deve buscar uma vida afetiva equilibrada, pautada no amor, e buscar crescer espiritualmente como ser humano.12 E todos deveríamos estreitar nossos laços com Deus.
--Por que está me dizendo isso? -- olhou para Ivone
--Para você pensar. -- sorriu para ela -- Você é vítima de uma coisa só, Camille: do seu próprio preconceito. Você perde muito tempo condenando comportamentos e pessoas. Você atira pedras demais e não pára pra pensar que estas pedras podem resvalar contra você. -- inclinou-se sobre a mesa e olhou bem nos olhos dela -- Pode mudar isso a qualquer tempo e ser muito feliz. Olhe para dentro, veja quem você é e não condene essa pessoa! Não se destrua lentamente dia após dia.
A loura ficou pensando no que dizer, mas não encontrou palavras. Lembrou de suas conversas com Fátima e pensou nas lésbicas que conhecia. Seyyed, Isabela e Juliana pareciam bem mais felizes do que ela, incluindo a própria Fátima. A homofobia que externava sempre, era um disfarce para si mesma. O que estava ganhando com isso?
--Eu confesso que... -- olhou seriamente para Ivone -- não levava fé nisso aqui! Eu vim pra te desafiar!
--Percebi. -- cruzou as pernas -- E adoro um desafio. Especialmente se parte de uma pessoa inteligente e interessante como você.
--Você não é fraca, não, meu. Tem meu respeito!
--Que bom! -- sorriu -- E agora que passei no seu teste, está disposta a baixar a guarda e se mostrar como é?
“A quem eu quero enganar? Até quando?” -- a loura pensou e respirou fundo -- Ivone... -- olhou fixamente para a mulher mais velha -- Eu... -- fechou os olhos e derramou uma lágrima
Ivone segurou a mão dela.
--Eu não sei o que fazer... -- começou a chorar -- Preciso de ajuda! -- parecia implorar por socorro
--Fique calma, meu amor! Nós vamos trabalhar juntas e você vai saber o que fazer.
--Eu não tenho... -- chorava -- Eu não sei o que dizer...
--Então não diga nada! -- falava com carinho -- Nós vamos trabalhando devagar. Vai dar tudo certo!
--Você acha? -- perguntou insegura
--Tenho certeza! -- afirmou resoluta
Fim do capítulo
Música do Capítulo:
[a] Bandido Corazón. Intérprete: Ney Matogrosso. Compositora: Rita Lee. In: Bandido. Intérprete: Ney Matogrosso. Discos Continental, 1976. 1 disco vinil, lado A, faixa 1 (3min28)
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jake
Em: 17/03/2024
Já disse que Ed pode até ter casado com a Isa ,mas ela vai ficar com Camile desde a 1 vez que se olharam "VERDES E AZUIS SE PRENDERAM MUTUAMENTE ".Olha Cami vai ser fda trabalhar junto com Ed. ???? ???? .Ed sempre ajudando o próximo. É Gisele pagou o preço ...kkkkk Lady abre os olhos rsrs Ivone como sempre perfeita.
Próximo cap
jake
Em: 17/03/2024
N era para ter essas ???? Aff desc.
Solitudine
Em: 22/03/2024
Autora da história
Então você está torcendo para Seyyed e Camille? Na época da novidade neste conto as leitoras se dividiram quase meio a meio. Vamos ver o que vai acontecer.
Gisele planejou tudo certo, só não esperava pelo inesperado.
Lady continua comendo mosca!
Ivone é uma grande profissional. Vai fazer a diferença na vida dessas pacientes impacientes. rs
Essas interrogações aparecem do nada. Uma vez tentei colocar caracteres árabes aqui e só veio isso??? rs
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 23/03/2023
Solitudine
Em: 26/03/2023
Autora da história
Uai? Veio em branco é isso mesmo??
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Samirao
Em: 23/03/2023
Rumo aos 400. Olha o esforço. Valoriza amore!
Solitudine
Em: 26/03/2023
Autora da história
Mas eu valorizo, uai! Só acho que não deveria fazer!
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Alexape
Em: 10/12/2022
Terceira temporada bombando! Seus capítulos são grandes diferentes dessas autoras que escrevem pouquinho só pra mandar uma porrada de capítulo e contar muita leitura!
Resposta do autor:
kkkkkkkk
Bem, eu não posso afirmar que as outras autoras usam dessa tática, mas meus capítulos são mesmo grandes. Em Maya, principalmente.
Continue lendo! ;)
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 12/09/2022
Lady louca! Eu me divirto... igual minha sogra nas encruzilhadas hehe também ri muito com a busca por apês foi um garimpo! Haha Ju e Cami na Ivone? Hahaha até eu quero ir nessa mulher
Resposta do autor:
Lady é uma figurinha e tanto! Assim como sua sogra.
Você e Isa penaram procurando apartamento naquele Rio de Janeiro!
Ivone estava preparada para lidar com aquelas duas ferinhas. Você não pode mais ir se consultar com ela porque... bem, você verá.
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 12/09/2022
Hahaha me acabando de rir com Carlão saindo do armário no meu casamento... e Cami toda empolgada comigo. Minha estagiária hehe tu é demais meteu até as Torres gêmeas nessa conversa amando!
Resposta do autor:
Carlão se soltou bastante, não? kkk
Camille te admirava profundamente.
Uai, a ficção sempre tem suas interfaces com a realidade. rs
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 01/05/2022
Vc teve 2000 comentários em Maya e 1000 e poucos no Tao. Era favorita de dezenas! Não sei como não se incomoda em ter perdido isso e com toda a sacanagem que veio depois!
Resposta do autor:
O tempo passa e com isso as coisas mudam, querida. Perde-se muito mais por um lado, ganha-se muito mais por outro... em tudo é assim.
Pense no ano de 2012, quando tudo começou, e agora, dez anos depois. Pense na nossa vida real e me diga se algo permaneceu inalterado!
Todas as coisas são impermanentes.
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 18/04/2020
Olá querida autora!!
Camille apaixonadinha pela Ed é tão fofo!! Rsrsrsrs... Fica até simpática. Esse início dela com a Ivone acho sensacional, o embate na primeira consulta, os questionamentos de Camille, as respostas da psiquiatra, Ivone é foda!
Beijoss
Resposta do autor:
Gabinha!!!!
Ela alimentou aquela paixão platônica por longos anos... quem já viveu isso sabe como é.
Ivone é profissional com inteligência e coração.
Beijos,
Sol
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Solitudine Em: 15/06/2024 Autora da história
Acompanhe a longa caminhada dela. ;)
Beijos,
Sol
PS: espero que esteja gostando