• Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Cadastro
  • Publicar história
Logo
Login
Cadastrar
  • Home
  • Histórias
    • Recentes
    • Finalizadas
    • Top Listas - Rankings
    • Desafios
    • Degustações
  • Comunidade
    • Autores
    • Membros
  • Promoções
  • Sobre o Lettera
    • Regras do site
    • Ajuda
    • Quem Somos
    • Revista Léssica
    • Wallpapers
    • Notícias
  • Como doar
  • Loja
  • Livros
  • Finalizadas
  • Contato
  • Home
  • Histórias
  • Sob o Encanto de Maya
  • Terceira Temporada - BUSCAS I

Info

Membros ativos: 9579
Membros inativos: 1617
Histórias: 1971
Capítulos: 20,927
Palavras: 52,929,536
Autores: 808
Comentários: 108,967
Comentaristas: 2597
Membro recente: Anik

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Notícias

  • 10 anos de Lettera
    Em 15/09/2025
  • Livro 2121 já à venda
    Em 30/07/2025

Categorias

  • Romances (875)
  • Contos (476)
  • Poemas (234)
  • Cronicas (232)
  • Desafios (182)
  • Degustações (27)
  • Natal (9)
  • Resenhas (1)

Recentes

  • Entrelinhas de um contrato
    Entrelinhas de um contrato
    Por millah
  • RASGANDO O VEU DE MAYA
    RASGANDO O VEU DE MAYA
    Por Zanja45

Redes Sociais

  • Página do Lettera

  • Grupo do Lettera

  • Site Schwinden

Finalizadas

  • Nefário
    Nefário
    Por Maysink
  • Minha professora de português
    Minha professora de português
    Por Vanderly

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Categorias

  • Romances (875)
  • Contos (476)
  • Poemas (234)
  • Cronicas (232)
  • Desafios (182)
  • Degustações (27)
  • Natal (9)
  • Resenhas (1)

Sob o Encanto de Maya por Solitudine

Ver comentários: 10

Ver lista de capítulos

Palavras: 18181
Acessos: 10875   |  Postado em: 31/12/2017

Notas iniciais:

Estando a Terra sob influência de nossas mentes em desalinho, como decorrência do desamor, das ambições desenfreadas e dos ódios sistemáticos, as funestas conseqüências se fazem presentes não apenas nas guerras externas e destrutivas, mas também nas rudes batalhas no lar, na família, no trabalho, nas ruas da comunidade e no comportamento. Intoxicado por esta psicosfera ‘densa’ e vencido pelo desespero, o ser humano foge na direção dos prazeres selvagens nos quais procura relaxar tensões, adquirindo mais altas cargas de desequilíbrio em que se debate. Perde-se no encanto das ilusões de Maya. O saneamento de tão perigoso estado de coisas já nos foi apresentado. Cabe a cada ser humano empreender uma procura.

 

“Só se encontra o que se busca. O que nos é indiferente nos foge.”1

Terceira Temporada - BUSCAS I

 

10:10h. 06 de agosto de 2001, Hospital Silva Avelar, Centro, Rio de Janeiro

 

Maria de Lourdes finalmente levou alta do hospital, mas agora estava hipertensa e tinha muitas dificuldades para andar, precisando de cadeira de rodas. Gisele estava lá para tratar do retorno dela.

 

--Vó, eu estive vendo uns asilos interessantes e acho que você vai se adaptar melhor em um que encontrei em Cascadura. O bom é que o preço é em conta! Dá pra pagar com a sua pensão.

 

--Asilo?? -- perguntou revoltada -- Eu não vou pra asilo algum! Sou uma mulher lúcida e tenho minha casa! -- estava sentada no leito

 

Juliana havia acabado de chegar na enfermaria e enquanto fazia seu trabalho prestava atenção naquela conversa. Ouviu a palavra asilo e ficou preocupada.

 

--Lúcida por enquanto, é só uma questão de tempo. Daqui a pouco começa a babar e mascar a própria língua; e isso na melhor das hipóteses! Quanto a casa eu a vendi. Ainda podemos ficar lá por mais duas semanas mas é só.

 

--Vendeu??? Como assim vendeu?? Eu não assinei nada!!

 

“Mas que mulherzinha desgraçada!!!” -- a japonesa pensou revoltada

 

--Não assinou HOJE mas tenho uma procuração sua, lembra? Não sabia se você sairia daqui com vida, além do mais eu precisava do dinheiro. -- afirmou naturalmente -- Finalmente fui transferida pros Estados Unidos e o processo saiu assim, no inesperado, imagina! Eu tive que correr pra providenciar tudo! Vou me mudar pra lá daqui a duas semanas. Já tenho visto americano e tô com a coisa bem resolvida! -- sorria

 

--Gisele, eu não acredito! Como pôde agir como se eu já estivesse morta?? Como pôde vender o único patrimônio que eu tinha?? -- perguntou emocionada -- Além do mais aquela procuração é antiga e nem deve mais valer!

 

--Sem dramas, vovó, por favor! Eu dei meu jeito, já cuidei de tudo e vou ficar pagando seu asilo com sua pensão. Que outra neta faria isso? Outra no meu lugar ainda passaria a mão no seu dinheiro e te deixaria na rua!

 

“Mas é uma descarada, essa sem vergonha, salafrária e mau caráter!!! Mulherzinha filha da puta!!” -- Juliana continuava se revoltando cada vez mais

 

--E as minhas coisas? -- perguntou nervosamente -- O que fez com elas?

 

--Vendi, ué! Mas deixei lá suas roupas, retratos, umas bugigangas de velha... As coisas que você pode levar pro asilo. -- pausou -- Mas vai se preparando porque enquanto não te levo pra lá vai ter que dormir no chão!

 

--Como pode ser tão mesquinha e egoísta?? -- perguntou em voz alta. Lágrimas caiam de seus olhos

 

--Quer parar de fazer escândalos? -- olhava para os lados -- Você é que está sendo egoísta. Sabe que sonho em morar nos Estados Unidos desde que me entendo por gente!

 

“Estados Unidos... tinha que morar era no inferno!!!” -- Juliana estava prestes a perder a paciência

 

--Eu não vou pra asilo nenhum!! -- gritou desesperada

 

--Sem escândalos, eu já disse! E se não for pra um asilo vai morar aonde? Debaixo da ponte?

 

--Moro! Mas em asilo eu não quero ficar! -- estava chorando -- Você é um monstro, Gisele!

 

--Monstro? -- perguntou ofendida -- Eu aqui cuidando do seu bem estar e nem me agradece? Do contrário, ainda me ofende? Olha vovó, você é uma grandessíssima... -- estava se exaltando

 

--Êpa!!! -- Juliana gritou -- Acho bom ir parando por aí!! -- parou de cara feia em frente a Gisele -- Olha o respeito com ela! Tá pensando o que, sua praga?

 

--É você de novo?? -- olhou para ela de cara feia -- Não se manca, não, enfermeira cara de pau? Isso aqui é papo de família! Ponha-se no seu lugar! -- falou com o dedo quase na cara da japonesa

 

--Escuta aqui, ô trainee de zona, abaixa esse dedo se não quiser ficar sem ele! -- rosnou ameaçadora. Gisele obedeceu -- Você é uma canalha de marca maior! Tua vó não vai pra asilo nenhum! Ela não quer ir e não vai!

 

--Eu não vou! -- a idosa repetiu confiante

 

--E você vai fazer o que, hein? -- pôs as mãos na cintura -- Vai me bater pra me impedir de fazer o que eu quero?

 

--Eu adoraria meter a mão na tua cara mas infelizmente aqui no trabalho não posso fazer isso! -- aproximou-se ainda mais de Gisele -- Mas lá fora você não é mulher pra me encarar!

 

--Não deixa eu ir pro asilo, Juliana! -- Maria pediu como se fosse uma criancinha assustada -- Bate nela!

 

--Vovó!! -- Gisele olhou para Lourdes surpreendida

 

--A senhora não vai! -- afirmou olhando nos olhos de Gisele -- De hoje em diante vai morar comigo!

 

--Como é?????? -- Gisele perguntou em choque e depois deu uma gargalhada -- Pois sim, você está de olho é na pensão do meu avô, mas não vai ver a cor desse dinheiro!

 

--Naturalmente presumo que você já passa a mão nessa grana não é de hoje! Mas ao contrário de você, profissional das esquinas, eu não vivo atrás de dinheiro que não é meu! Ela mora comigo sim e acabou! -- calou-se e olhou desconfiada para Maria de Lourdes -- Eu nem perguntei, né? Que vergonha! A senhora quer?

 

--Eu quero!! -- respondeu empolgada

 

--Veremos se vai ser assim! -- deu as costas e saiu para assinar a papelada do hospital

 

--Ela pode me impedir de morar com você, Juliana? -- a idosa perguntou preocupada

 

--Eu não sei, dona Lourdes. Vou perguntar a Suzana. -- pensou -- Aliás, nessa doideira que anda a minha vida depois que virei Highlander, ainda não falei com ela sobre a senhora... -- pausou -- Mas vai ser agora!  -- pegou o celular e discou o número da delegada -- Vamos ver se a senhora vai pra asilo! Nem que eu tenha que brigar com unhas e dentes e rodar baianas homéricas com essa tal de Gisele a senhora não vai!

 

Maria sorria como quem encontra a heroína que veio para salvar sua vida.

 

--Bom dia, Ju!

 

--Oi amor... -- respondeu sorrindo -- Preciso da sua ajuda pra resolver um problema muito sério!

 

--O que foi?? Aquele maldito velho está aí atrás de você???

 

--Calma, não é isso... -- riu brevemente -- É que tem uma pessoa aqui que precisa muito da sua ajuda. -- olhou para a idosa -- É a dona Maria de Lourdes, esposa do falecido delegado Valadão... Lembra dela?

 

--Dona Lourdes??? -- riu -- Nossa, que mundo pequeno! Ela está internada aí?? Como está? O que houve?

 

--Na verdade ela ganhou alta hoje. -- pausou -- Só que a neta dela quer interná-la em um asilo e eu quero levá-la pra morar comigo! Por favor, me ajuda pra não deixar fazerem isso com ela!

 

--Juliana... -- falou seriamente -- você quer levá-la pra morar contigo? Já parou pra pensar nisso? É coisa séria cuidar de um idoso!

 

--Su, eu não tenho o que pensar! Ela quer vir comigo e eu a quero comigo! Acredita que a sem vergonha da neta dela vendeu até o apartamento da coitada sem que ela quisesse?

 

--Sem vergonha... -- Maria de Lourdes repetiu para si mesma

 

--Como fez isso??

 

--Ela falou que tinha procuração assinada e pensou que a avó fosse morrer!

 

--Pensou que eu fosse morrer! Vê lá se eu tô com cara de quem vai morrer? -- a idosa protestou para si mesma

 

--E ela vai pro asilo assim que sair daí?

 

--Não, mas daqui a duas semanas ela vai. -- pausou -- Vem aqui, amor? Precisamos de você!

 

--Me dá uns minutos! Dou meu jeito e chego aí!

 

--Obrigada! Beijo!

 

--Beijo! -- desligou

 

--Dona Maria, -- olhou para a idosa -- se segura que vem chumbo grosso por aí! -- advertiu

 

--Pois eu quero ver é o circo pegar fogo! -- deu um soco na mão

 

***

 

--Olha só, -- Gisele falava cheia de abuso -- eu não sei onde vocês estão querendo chegar com essa palhaçada toda, mas eu não tenho o menor medo de você, Suzana Mello! -- cruzou os braços -- Lembro muito bem de quando ia lá em casa! Pode botar banca com quem quiser, mas comigo não rola! Além do mais, sei muito bem dos meus direitos e você não vai me assustar! -- falava alto

 

--Em primeiro lugar, fala baixo que não tem gente surda aqui! -- a delegada respondeu calmamente e com firmeza -- Em segundo lugar, se sabe dos direitos, sabe dos deveres. -- pausou -- Deve conhecer a Lei Nacional do Idoso, de 1994, e deve estar ciente de que abandonar o idoso em hospital ou asilo sem amparo ou contra a vontade da pessoa lúcida incorre em seis meses a três anos de detenção e multa!

 

--Isso! -- Maria de Lourdes vibrou

 

--Toma, papuda! -- Juliana disse

 

A idosa já estava arrumada e sentada em uma cadeira de rodas. Ela e Juliana estavam de mãos dadas acompanhando a conversa entre Suzana e Gisele. As duas torciam pela delegada.

 

--Mas... -- Gisele respondeu mais humilde -- Eu vou morar em outro país... ela precisa de apoio especializado!

 

--Eu sou enfermeira, tá pensando o que? -- Juliana respondeu revoltada

 

--E das boas! -- Lourdes complementou

 

--Mas... eu não quero minha vó com essa enfermeira que eu nem conheço! Ela tá é de olho na pensão do meu avô!

 

--Ah, mas eu vou quebrar a cara dessa sem vergonha!! -- a japonesa quase não se conteve mas a delegada fez sinal para que se acalmasse

 

--Outro detalhe, Gisele, foi que você vendeu o imóvel da sua avó! -- olhou firmemente para ela

 

--Eu tinha uma procuração, Suzana... A venda já está feita, não dá pra voltar atrás!

 

--Essa tua venda por procuração é altamente questionável, Gisele! E pelo Código Penal Brasileiro ela se caracteriza em crime de estelionato. Você vendeu à revelia da proprietária. Sua avó é idosa mas está lúcida. E o que é pior, você fez isso pra arrumar sua vida no exterior! -- pausou -- Se entrarmos com um processo, você perde a viagem e, mesmo que não seja condenada, perde o visto americano e levará anos pra poder pisar nos Estados Unidos.

 

--Não!! -- protestou desesperada -- Ir pra lá é meu sonho!!

 

--Se ela morar comigo, nada disso te acontece! Aí você pode fazer o seu intercâmbio internacional da sacanagem sem problemas... -- a enfermeira afirmou debochadamente -- Sabe falar inglês? Tem cliente que gosta de conversar...

 

--E eu nem te processo por estelionato! -- Lourdes complementou

 

Gisele respirou fundo e fechou os olhos controlando sua raiva. -- Tudo bem... -- olhou para a avó -- Se quer morar com essa Power Ranger ridícula... -- deu de ombros -- Que se dane!

 

--AHAHAHAHAHAH!!! -- Juliana e Lourdes gritaram e se abraçaram empolgadamente

 

--Enquanto ela estiver contigo, -- Suzana continuou a falar com Gisele -- eu não quero receber uma queixa sequer de você! Vai tratá-la com educação e respeito! -- seu olhar era ameaçador -- Fui clara?

 

--Foi... -- respondeu contrariada

 

--Você vai providenciar a mudança dela!

 

--Ah, mas aí já é abuso demais, Suzana!! -- a moça protestou

 

--Ih, tem gente que não quer viajar... vai ter que continuar no mesmo ponto da Avenida Atlântica... -- Juliana fazia deboche

 

--Olha só, se você insinuar mais uma vez que eu sou prostituta, eu... -- olhou para Suzana e calou-se -- Tá, eu cuido da mudança dela! -- estava possessa

 

--Quando a senhora quer ir lá pra casa? -- a enfermeira perguntou

 

--O mais rápido que você puder me receber.

 

--Vamos marcar para quinta, pois estarei de folga.

 

--Mas eu trabalho!! -- Gisele protestou com revolta

 

--Conversa com teu cafetão que ele te libera! -- a enfermeira respondeu tranquilamente

 

--Ela disse quinta-feira! -- Suzana repetiu entre dentes para Gisele. Olhou para Maria de Lourdes -- Está bom para a senhora?

 

--Sim! -- respondeu sorrindo

 

--Tá! -- cruzou braços -- Merda! -- Gisele estava contrariada -- Vambora, vó, já perdemos tempo demais nesse hospital! -- falou com grosseria

 

--Eu disse: educação e respeito! -- Suzana advertiu energicamente

 

--Vamos, vovó! -- repetiu com mais gentileza segurando as alças da cadeira

 

--Eu vou junto pra garantir! -- olhou para Juliana -- Mais tarde a gente conversa! -- piscou para ela

 

--Tá! -- respondeu melosa -- Beijo!

 

--Beijo! -- sorriu

 

“Hum... logo vi! Suzana tá dando uns pegas na filha do Jaspion!” -- Gisele pensou e revirou os olhos

 

--Obrigada, Suzaninha! -- a idosa olhou sorridente para a morena

 

--Não há de que! -- sorriu -- Depois a gente conversa melhor. Faz anos que não a vejo e quero saber da senhora!

 

"Veja pelo lado bom, Gisele, você larga a velha com aquela vaca japonesa e nunca mais precisa ligar pra ela.” -- pensou -- "Se Deus quiser, depois que for embora, nunca mais piso nesse país de merd* que é o Brasil!”

 

***

 

--Ai, amor, assim... ai, continua assim... -- Juliana pedia com os olhos fechados

 

A delegada estava deitada por trás da amante, beijando seu pescoço e tomando seu corpo inteiro com as mãos. A enfermeira segurava a nuca da morena com uma das mãos enquanto que o outro braço a apoiava na cama, equilibrando o peso que a morena alternadamente impunha sobre ela.

 

--Você é deliciosa, Ju... -- sussurrava no ouvido da japonesa

 

--Ah, ah, ah!!! -- fechou os olhos e chegou ao clímax. A morena rapidamente mudou de posição e mergulhou entre suas pernas -- Ai, Suzana... Ah!!! Ah!!! -- gritou -- Ai... -- sentia a respiração normalizar aos poucos -- Você é um animal... -- sorriu

 

Suzana continuou beijando seu corpo até chegar nos seios.

 

--Você não se cansa, não é? -- segurou-a pelos cabelos e sorriu para ela

 

--De você? Não... -- continuou beijando até o pescoço da amante

 

--Sempre diz isso... -- sorriu -- Eu fiquei orgulhosa de você... do jeito como colocou aquela embaixatriz de porto no lugar dela... -- acariciava a cabeça da delegada, que beijava seu queixo

 

--Embaixatriz de porto?! -- parou de beijá-la e perguntou curiosa

 

--Gisele! -- passou os dedos nos lábios da morena

 

--Ah! -- riu -- Você sacaneia muito... -- riu de novo -- Gisele ficou muito marrenta depois que seu Valadão morreu. Eu nunca a achei uma garota que respeitasse a família mas piorou muito! -- pausou -- Aliás, temos que conversar sobre essa história aí da dona Lourdes morar contigo.

 

--Sobre o que quer conversar ao certo? -- acariciava o rosto da outra

 

--Você já parou pra pensar como vai mudar tudo?

 

--Pensei e acabei constatando que vai ser bom pras duas. Ela vai ter companhia, atenção, carinho e vou colocá-la pra fazer fisioterapia com Flávia. Ao mesmo tempo ela me ajuda com o aluguel e as contas da casa. Nem vou precisar sair desse apartamento. -- mexia nos cabelos da delegada

 

--Ju, mas não é tão simples assim! -- protestou -- Você passa a maior parte do tempo fora de casa. Quem vai cuidar dela?

 

--Ela não precisa de cuidados especiais.

 

--Não ainda e em termos. E quando precisar?

 

--Meu amor, eu estou vivendo um dia de cada vez! Chega de ansiedade! -- beijou-a

 

--Está romantizando demais a situação! Você vai assumir um compromisso que vai dar muito trabalho, vai diminuir a pouca liberdade que tem... Acha que a gente vai poder ficar assim, como estamos agora, quando ela vier pra cá?

 

A enfermeira olhou decepcionada para a delegada. -- Não acredito, Suzana! Está mais preocupada em fazer amor comigo do que com o bem estar de uma pessoa? -- desvencilhou-se da morena e se sentou

 

Suzana deitou-se de barriga para cima e ficou olhando para a amante. -- Estou sendo objetiva...

 

--Está sendo egoísta! -- interrompeu-a -- E você já a conhecia, devia ter mais consideração!

 

--Mas eu tenho! -- sentou-se também -- Só acho que você foi muito precipitada! Podíamos ter conversado melhor e chegar a uma decisão menos...

 

--Menos, o que?? -- perguntou com raiva -- Escuta aqui, Suzana, antes de levar aquela facada eu acompanhei um pouco da vida daquela mulher e fiquei penalizada! A desgraçada da neta se apropriava do dinheiro dela e não lhe dava a mínima! Ela não recebia atenção, carinho... ninguém ligava pra ela! Não tinha sequer com quem conversar! Ela viveu a vida toda sob alguém. Primeiro foi o pai, depois o marido e por fim a neta! Se eu não tivesse me oferecido pra ficar com ela, o que ia ser? Um asilo frio e sem amor algum! Você sabe quanto tempo ela passou internada?? E sem visitas?? -- pausou -- Que vida mais miserável! E pra que tem que ser assim se eu posso fazer alguma coisa?

 

--Juliana, a gente vai entrar de férias não demora muito! Você queria viajar comigo, lembra?

 

--Queria, mas... -- respirou fundo e passou as mãos nos cabelos -- podemos fazer isso depois! -- olhou para a delegada -- Nosso lazer não pode ser mais importante que a saúde de uma pessoa! Ela precisa se recuperar e eu quero estar com ela! -- foi até a outra e sentou-se no seu colo, envolvendo sua cintura com as pernas -- É claro que eu amo você, que eu quero ficar com você, mas eu não posso deixá-la de lado como um trapo qualquer! Eu sei como dói ser abandonada, Suzana! -- emocionou-se -- Eu sei o que isso significa! Prometi a mim mesma que nunca abandonaria ninguém! Se dona Lourdes e eu tivermos problemas de convivência eu aturo isso. -- pausou -- Mas se a vinda dela vai estremecer o nosso relacionamento eu sinto muito... Eu te amo, mas não vou deixar aquela pobre senhora largada como se fosse um estorvo, um peso morto. Se desistir de mim por causa disso, eu... vou entender...

 

Suzana segurou o rosto dela com as mãos e olhou no fundo de seus olhos. -- Você é intensa demais! Faz tudo com o coração... Jamais poderia deixar uma mulher dessas, já basta o número de vezes em que fui uma idiota com você! Eu tô do seu lado, e se quer adotar uma vovozinha... eu tô nessa com você! -- beijou-a apaixonadamente

 

***

 

Camille estava conversando com Fátima no ginásio.

 

--Eu sou tão cismada com esse cantão que você arrumou... -- olhava para todos os lados -- Sempre tenho a impressão de que vai aparecer alguém a qualquer momento!

 

--Relaxa, pequena... Estamos a sós. -- sorriu -- Agora me conte, o que sentiu quando fez a matrícula na universidade?

 

--Emoção! -- sorriu -- Quando saiu a nota oficial informando que eu passei, mamãe se ajoelhou no chão e rezou emocionada agradecendo à Virgem... Ela chorava e eu acabei chorando também... -- emocionou-se -- Aí ela telefonou pro meu tio e ele pediu pra falar comigo... e chorava tanto, sabe? -- uma lágrima rolou-lhe pelo rosto -- Quando anoiteceu, ele foi lá pra casa com dona Olga levando um bolo de laranja, salgadinhos, suco... Fizemos um lanche e eles se deram as mãos pra agradecer... -- tentava controlar a emoção -- Não lembro de me sentir tão bem há muito tempo... -- pausou -- Flávia me ligou e disse que vai me dar um presente! -- sorriu

 

--Você é amada, meu bem. -- acariciou o rosto da loura -- Bastante amada! -- sorriu

 

--Você me dá paz, Fátima... -- beijou a mão dela

 

--Fico muito feliz que as coisas estejam indo tão bem pra você! Quando as aulas começam?

 

--Daqui a duas semanas... -- pensou -- Como será que vai ser, hein?

 

--Viva um dia de cada de vez. -- beijou-a -- Vai dar tudo certo!

 

--Eu... depois que começar na faculdade só poderei vir nadar nos finais de semana. E quando tiver prova, talvez nem isso. -- pausou -- Não a verei como a vejo hoje.

 

--Mas isso não significa que você tenha de sair da minha vida. -- passava as mãos nos cabelos da loura -- Além do mais, a partir da semana que vem nós vamos treinar em outro ginásio. Então nosso contato aqui acabaria se reduzindo de uma forma ou de outra.

 

--Nós, quem? -- perguntou surpresa -- Do que você está falando?

 

--Nós, que somos os tais atletas olímpicos... -- brincou -- Não treinaremos mais aqui e sim em um ginásio novo na Barra. A partir de semana que vem iremos todos pra lá.

 

--E você só me diz agora?? -- perguntou revoltada -- Tire suas mãos de mim!

 

--Calma, pequena! Eu não sabia se iria junto! Afinal de contas ainda não estou totalmente recuperada da cirurgia...

 

--Você não podia ter deixado pra me contar isso assim e só agora! -- falou com raiva -- Além do mais nós somos... -- não completou a frase e se levantou com dificuldade

 

--Somos o que? -- perguntou sorrindo

 

--Somos... duas idiotas, é o que nós somos! -- pausou -- Ô louco, viu? Não se pode confiar em ninguém...

 

Fátima riu. -- Não teve coragem de dizer que nós somos namoradas?

 

--Eu não sou namorada de ninguém! -- protestou -- Muito menos sua! Eu não sou lésbica! Não sou, não sou, não sou!

 

--Você diz isso pra me convencer ou pra se convencer? -- perguntou calmamente -- Camille, como pode ser tão viva e inteligente e ao mesmo tempo se recusar a ver a realidade como faz? -- sorriu -- Nós nos beijamos, falamos sobre intimidades, fizemos amor uma vez... Como pode continuar afirmando estas coisas até agora?

 

--Eu... -- olhou para todos os lados -- Sabe, Fátima? Você é uma influência ruim na minha vida!

 

--Segundos atrás disse que eu te dava paz! -- levantou-se também

 

--Porque estava emocionada com o que te contei! -- pausou -- Você... você... parece um demônio que só vive confundindo minha cabeça! -- falava nervosamente -- E quer saber? Eu nem deveria estar aqui nesse... nesse... abatedouro que você tem nesse ginásio!

 

--Por que sempre tem atitudes assim? -- perguntou magoada -- Você parece até que é bipolar, sabia?

 

--Bipolar uma merd*!! -- gritou -- Você me confunde, me deixa doida, capaz de fazer coisas que eu não faria! -- pausou -- Quer saber? Eu vou embora! -- começou a se movimentar para sair dali

 

A nadadora pensou por uns instantes, enquanto ouvia o barulho das muletas, e decidiu com muita tristeza que era hora de deixá-la ir... em definitivo.

 

https://www.youtube.com/watch?v=nuav3M-X6mI

“Vá,

Não fale mais,

Pegue o que é seu e só...”

 

--Camille, quer saber de uma coisa? -- Fátima falou -- Eu não vou mais me colocar nessa situação! Você é muito inconstante, muito difícil... Você me deixa nas nuvens e depois acaba comigo de um modo como nem sei explicar... -- emocionou-se -- Não sabe o quanto me magoa!

 

A loura olhou para ela. Estava chorando de forma contida, mas podia-se perceber sua dor.

 

“Vá,

Que o sol já vem,

E com ele outro dia...”

 

--Você me confunde... -- Camille respondeu em um sussurro

 

--E eu? -- perguntou em voz mais alta -- Como acha que me sinto?

 

“Vá,

Se descobrir,

Vá crescer,

Entender e saber,

O que quer,

Quem você quer...”

 

--É melhor a gente não se ver mais... -- a loura afirmou com tristeza

 

--Eu não quero mais tê-la por perto! -- a nadadora chorava contidamente

 

“Não me faça mais chorar,

Como se eu fosse nada...”

 

--Então... -- começou a chorar também -- eu vou embora! Não volto mais aqui até que vocês tenham ido embora, treinar na Barra...

 

--Faça um tratamento, Camille -- passava as mãos nos olhos -- Precisa aprender a se entender... a não mais se magoar e nem magoar os outros que gostam de você...

 

“Cresça,

Me deixe em paz,

Mesmo,

Que eu sofra mais...”

 

Camille partiu dali sem olhar para trás. Agora, de fato, sentia firmemente em seu coração que Fátima era um capítulo que se encerrava em sua vida. Não continha as lágrimas, não continha a dor. Um misto de tristeza e vergonha invadia seu coração e ela se sentia uma pessoa incapaz de algum dia amar e ser amada como mulher.

 

Fátima não podia vê-la, mas desenhava a imagem daquela despedida em sua mente. Desde o começo sabia que a jovem era um poço de conflitos íntimos, porém quis acreditar que poderia fazê-la se sentir segura, aceita e amada. Percebia finalmente que se enganou, que alimentou uma ilusão a qual se despedaçava naquele momento. E é aí que nascem todas as dores: de ilusões que se desfazem.

 

“Agora,

Tudo é, seu...

Amanhã serei bem mais feliz...”

 

Apesar de tudo, mesmo sentindo as lágrimas rolando de seus olhos inertes, a nadadora não guardava mágoas de Camille. A jovem não lhe fez promessas, não lhe deu garantias... Sabia que havia corrido um risco ao se permitir apaixonar e assumia as conseqüências por isso. Fátima sofria, mas sabia do fundo do coração, que aquela dor iria passar.

“Preciso ser mais forte,

Para não voltar atrás,

Aliviando o desespero,

Para adiar o sofrimento...”

 

Camille lembrou-se da noite de amor que tiveram e do que sentiu. Que pena que não haveriam outras... que pena que ela não sabia, e nem queria saber, quem ela realmente era...

 

“Cresça,

Me deixe em paz,

Mesmo,

Que eu sofra mais,

Agora,

Tudo é, seu...

Amanhã serei bem mais feliz.”

Vá – Vanessa da Mata [a]

 

12:00h. 08 de agosto de 2001, Escola Estadual de Dança do Theatro Municipal, Centro, Rio de Janeiro

 

Isa encerrava mais uma aula e foi conversar com Mariângela enquanto as alunas iam se despedindo. -- Estou gostando de ver dona Mari! A senhora leva jeito pra dança. Tem postura, aprende rápido... É uma das melhores! -- sorriu -- Se considerarmos que nunca fez balé eu diria que é a melhor aluna de todas!

 

Mariângela sorriu encabulada. -- Não precisa ser gentil...

 

--Estou falando a verdade, pode acreditar!

 

--Eu nunca me imaginei assim, entre pliés e fouettés... -- riu -- Pronunciei certo? -- perguntou desconfiada

 

--Certíssimo! -- colocou a bolsa nas costas

 

--Eu fico admirada com você! Quando dança é como se seu espírito se desligasse do mundo e se entregasse totalmente ao ato de dançar... É bonito de se ver!

 

--A senhora não tem idéia de como eu amo dançar! -- passou a mão nos cabelos -- Acho que eu preferiria morrer a me ver privada da dança.

 

--Não diga isso! Não seja radical... -- passou a mão brevemente no braço dela -- Mas se Deus quiser vai dançar até os seus últimos dias. -- sorriu -- Foi um prazer querida, agora eu tenho que me arrumar para ir.

 

--Vá com Deus. Eu ainda vou passar no Theatro antes de almoçar. -- deu tchauzinho -- Tchau! -- foi se encaminhando para a porta

 

--Tchau! -- Mariângela foi trocar de roupa

 

No Theatro, Isabela encontra com Paula. -- Oi, Paulinha, como vai? -- cumprimentou a colega sorrindo

 

--Oi, Isa! -- olhou para a ruiva de cima a baixo -- Quer dizer que você agora é a queridinha do Neyan? -- perguntou com uma ponta de inveja

 

--Dizem isso... ele mesmo nunca me falou nada! -- brincou

 

--E precisa? -- sorriu

 

--Como vai a Joice? -- perguntou para mudar de assunto

 

--Joice? -- fez cara de tristeza -- Ela se despediu do balé...

 

--Como assim? -- Isa perguntou preocupada -- Ela só torceu o tornozelo... isso não é motivo pra deixar o balé!

 

--Não foi tão simples assim, querida! Ela acabou tendo que operar, mas foi vítima de erro médico e agora está com a perna defeituosa. Eu não sei explicar o que aconteceu, porque não entendo, mas o balé acabou pra ela!

 

--Nossa, eu... -- estava chocada -- nem sei o que dizer...

 

--Fazer o que? Foi uma fatalidade... Quem poderia imaginar?

 

--Pois é... -- a ruiva ficou penalizada

 

--Hum, está casada! -- reparou na aliança e brincou

 

--Ah, é... -- Isa ainda estava meio atordoada com a notícia sobre Joice -- Casadíssima! -- sorriu

 

--Parabéns! -- pausou -- Bem, deixa eu ir que o tempo voa! Prazer te ver!

 

--Igualmente... -- a bailarina ficou parada no corredor pensando no caso de Joice

***

Seyyed e Isa estavam em casa. Haviam acabado de jantar e escovavam os dentes.

 

--Ed, essa sua diarista não é mole, hein? -- reclamou -- Ela tira as coisas dos seus lugares e não arruma! -- enxugava a escova na toalha

 

--Pode deixar que eu falo com ela. -- falou com a boca cheia de espuma. Abriu a torneira e bochechou -- Tenha paciência com a pobre. É uma pessoa de confiança e trabalha pra mim há anos... -- secou o rosto e a escova na toalha

 

A bailarina saiu do banheiro e entrou no quarto. Abriu o armário e tirou um edredom. --Hoje tá fazendo um frio chato, né? -- forrou edredom na cama -- Eu não gosto desses dias chuvosos... Ainda bem que o tempo só virou depois que cheguei em casa!

 

--Ainda bem que a senhora está de férias na faculdade, isso sim! -- abraçou-a por trás e beijou sua cabeça -- Pelo menos posso tê-la por mais tempo comigo...

 

--Hum... -- sorriu e segurou os braços da mecânica

 

Seyyed virou a ruiva de frente para si. -- Eu sei que você está naqueles dias, mas namora um pouco comigo, vai? -- beijou-a

 

--Vou pensar no seu caso... -- envolveu o pescoço da morena com os braços e a beijou

 

--Quer se enfiar debaixo das cobertas, hum? -- mordia o pescoço da outra

 

--Vamos! -- sorriu

 

As duas ficaram algum tempo namorando e brincando debaixo do edredom. Deitaram de lado, uma de frente para a outra.

 

--Agora fala a verdade pra mim, minha gata! -- Seyyed pediu -- O que aconteceu hoje que você chegou em casa tão estranha, hein? -- beijou-a -- Reclamando das coisas... O que foi? -- perguntou com delicadeza

 

--Foi uma notícia que eu recebi... -- acariciou o rosto da morena -- Lembra da bailarina que eu substituí? A que caiu?

 

--Joice, não é? -- acariciava a coxa da ruiva

 

--É... -- pausou -- Ela teve que operar, foi vítima de um erro médico e não vai mais poder dançar... parece que abandonou o balé...

 

--Coitada! -- beijou-a novamente -- E isso mexeu com você, não foi?

 

--Ai, amor, eu pensei... se fosse comigo nem sei o que faria! -- arranhava levemente o braço da morena

 

--Agora entende um pouco do que Camille sente?

 

--Horrível, não é? -- olhou para Ed com tristeza

 

--É sim, mas a vida continua. Se uma coisa dessas acontece, a gente só se dá mal se ficar revoltada e parar no tempo. Nós temos que aprender a seguir adiante apesar de tudo.

 

--Mas é difícil...

 

--Dificílimo mas extremamente necessário! -- pausou -- Veja a diferença entre Camille e Flávia, por exemplo. As duas se acidentaram, as duas perderam uma perna, só que uma ficou amarga e a outra vive bem. São formas diferentes de lidar com o mesmo problema.

 

Isa olhava fixamente nos olhos da morena. -- Promete que fica sempre comigo? Promete que não vai me deixar? -- parecia estar com medo

 

--Nem penso em te deixar! -- beijou-a -- Por que essa fatalidade com a moça te trouxe essa insegurança?

 

--Porque na vida as coisas são tão efêmeras! Eu fiquei pensando, sabe? Ela era tão garbosa, tão cheia de talento, tão viva... e de repente um escorregão bobo mudou tudo! -- acariciava o rosto de Seyyed -- A gente não é absolutamente nada nessa vida...

 

--A gente tem valor sim, meu amor, as circunstâncias é que são todas mutáveis. A vida é como o seu balé: movimento e mudança. Não adianta se apegar às coisas porque elas invariavelmente vão passar e mudar.

 

--Isso não te assusta?

 

--Assusta, não vou negar. -- pausou -- Viver exige trabalhar, porque nossas necessidades não se satisfazem automaticamente. Só que as coisas de que dispomos, as coisas que construímos, todas vão passar. De um jeito ou de outro. Veja como as gerações se sucedem, como reinos nascem, dominam o mundo e depois colapsam. Quem diria que o Iraque foi a Babilônia tão rica e esplendorosa? Quem diria que Roma foi um império tão poderoso? Quem diria que os muçulmanos sairiam das fronteiras da Arábia Saudita e dominariam o mundo por tantos séculos, para serem sucedidos pelos europeus e atualmente pelos Estados Unidos? Hoje uma pessoa pode ser jovem, rica, cheia de saúde e de amigos, amanhã pode ser velha, doente, pobre e abandonada... -- olhava para ela com carinho -- Nada que temos, nada que seja material, é realmente nosso. Tudo nos é emprestado e nós nos despimos de todas as coisas quando morremos. Até do corpo! Só é verdadeiramente nosso o intangível, o que está na mente e no coração!

 

--É por isso que você tem essa mania de ajudar todo mundo? -- perguntou sorrindo -- Por que pensa que suas coisas não são suas, mas estão suas?

 

--“O Senhor não te identificará pelos tesouros que ajuntastes, pelas bênçãos que retiveste, pelos anos que viveste no corpo físico. Reconhecer-te-á pelo emprego dos teus dons, pelo valor de tuas realizações e pelas obras que deixaste em torno dos próprios pés.” 2 -- respondeu enquanto acariciava o rosto da amante

 

--Eu acho você uma pessoa tão linda... tão romântica... -- beijou-a -- Que eu fiz pra merecer você? -- beijou-a novamente -- Eu não te quero por empréstimo, te quero toda minha! Pra vida toda! -- abraçou-a com força

 

--Também te quero pra vida toda! -- beijou-a com carinho

 

De repente a campanhia toca.

 

--Ué? -- Isa interrompeu o beijo preocupada -- Quem será? -- olhou intrigada para Ed -- Espera alguém?

 

--Eu não! -- tocou novamente -- Deixa eu ver quem é. -- levantou-se da cama e desceu as escadas chegando até a porta -- Ih! A volta dos mortos vivos! -- viu Silvio pelo olho mágico e abriu a porta

 

--Quem é, amor? -- a ruiva descia as escadas

 

--Silvio. -- ele mesmo respondeu -- Boa noite!

 

--Boa noite. -- ambas responderam desconfiadas

 

--Desculpem o horário, mas não imaginei que estivessem dormindo às nove da noite. -- reparou que as duas estavam de pijama

 

--E não estávamos. -- Isa foi até eles -- O que faz aqui a essa hora? -- cruzou os braços

 

--Eu... eu tô tentando conseguir emprego em uma oficina aí... -- esfregou as mãos e olhou para Ed -- E os caras pediram uma carta de recomendação... -- estava sem graça -- Eu nunca mais tive emprego certo, porque só fiquei fazendo uns bicos, e de mais a mais trabalhei contigo praticamente a vida toda... -- sorriu constrangido -- Podia me quebrar esse galho? O coroa lá me deu até amanhã pra aparecer com essa carta...

 

--Quer que eu te faça uma carta de recomendação agora? -- a mecânica perguntou descrente

 

--Pode ser? -- arriscou

 

Seyyed riu. -- Ai, ai, Silvio... Você é uma figura, viu? -- pôs as mãos na cintura -- Dá uma tremenda bola fora aqui na oficina, pede demissão, me desacata na frente de todo mundo, desaparece e um belo dia, do nada, vem me pedir uma carta de recomendação às nove da noite...

 

--É muita cara de pau! -- Isabela complementou

 

--Olha só, Ed, não quer fazer a porr* da carta não faz! Mas não vem me dar liçãozinha, não, valeu? -- respondeu com estupidez

 

--Fala baixo comigo dentro da minha casa! -- encarou com ele -- Eu posso fazer uma carta pra você, mas vou dizer que apesar de ser um excelente mecânico você não tem postura no trabalho e ainda me sacaneou em um momento que eu não podia ficar sem o apoio do grupo. Se quiser uma carta assim é o que vai ter!

 

--Eu não sei o que deu em mim por ter vindo aqui! -- falou com desprezo

 

--Eu não sei o que deu em você pra ter ficado como ficou. Anda nas drogas de novo?

 

--Você não tem nada com isso! -- empurrou-a

 

--Eu vou chamar a polícia! -- a ruiva ameaçou assustada

 

--Saia da minha casa agora! -- empurrou-o também -- Você me deve muito, Silvio! -- disse entre dentes -- O mínimo que pode fazer é me respeitar, especialmente dentro da minha casa! -- falava alto

 

Os dois se encararam por alguns segundos e Silvio saiu sem dizer uma palavra. Ed fechou a porta.

 

--Não devia ter deixado ele entrar! -- Isa falou -- Eu fiquei com medo!

 

--Está tudo bem! -- passou a mão nos cabelos -- Vamos voltar pra cama.

 

--Ele é muito cara de pau! Onde já se viu? Faz um monte de bobagens, te sacaneia e depois vem te pedir cartinha? -- pôs as mãos na cintura -- Não esqueço que por causa dele você não me assistiu em Manaus!

 

--E eu quase fiquei sem minha ruiva! Ela queria até terminar comigo! -- brincou -- Veio me devolver a aliança de noivado... foi duro, viu? -- fez cara de quem estava triste

 

--Hum... tadinha... -- abraçou-a pela cintura e a beijou -- Essa ruiva é uma idiota por ter pensado em fazer isso!

 

--A ruiva é má comigo... -- fez beicinho

 

--Não é, não... a ruiva te ama! -- beijou-a -- Muito!

 

Como gostava de fazer, a mecânica levantou a bailarina no colo sem que ela esperasse. -- Que pena que a ruiva está naqueles dias... queria ela... -- subia as escadas

 

--Tudo passa, inexoravelmente... -- sorriu -- Esse momento hemorrágico também vai passar... Aí você pode ter a sua ruiva inteirinha...

 

--Mas aí vem o meu momento... -- foi para o quarto com ela -- Ai, que longa espera... -- as duas riram

 

***

 

Silvio chegou em casa irritado e falando sozinho. Desceu da moto reclamando. -- Pra que eu fui lá me humilhar pedindo favor àquela sapatão escrota? Pra que? -- tirou o capacete e pegou as chaves do apartamento -- E quer saber? Também não quero trabalhar com aquele coroa! Eu, hein, viadagem isso de carta de recomendação! -- andou até o elevador e deu de cara com uma moça

 

--Silvio! -- ela se levantou. Estava sentada na escada -- Eu estava te esperando! -- olhou para ele aflita

 

--Qual é, hein? Isso é hora de vir pra casa dos outros? -- respondeu impaciente -- Não tô querendo comer nada e nem ninguém essa noite!

 

--É sério, Silvio... Eu sei que anda estressado procurando emprego, mas não fica zangado. Eu preciso muito falar com você e tem que ser hoje!

 

Ele fez uma cara feia e a chamou para subir. Entrando no apartamento perguntou diretamente: -- Tu quer o que? Desembucha! -- jogou capacete sobre a poltrona. O apartamento estava uma bagunça

 

--Eu... -- não sabia como dizer -- Eu tenho uma coisa pra te dizer... -- olhou para ele constrangida -- tô grávida!

 

O moreno permaneceu impassível. -- De quem?

 

--Como de quem? -- perguntou ofendida -- De você, ora!

 

--De mim??? -- sentou-se na poltrona rindo -- Tu é a maior vadia, nem sabe pra quem dá!

 

--Como pode dizer isso?? -- andou revoltada até ele -- Eu só ficava com você! Estávamos namorando!

 

Silvio riu novamente. -- Namorando? Ai... -- desmanchou o sorriso -- Se situa, garota! A gente saía e só!

 

--Saía e só, coisa nenhuma! E as coisas todas que você me disse? -- estava magoada

 

--E você acreditou? -- levantou-se e ficou frente a frente com ela -- Mulher é muito burra mesmo! Eu só queria te comer, garota. E você nem é grande coisa pra ter regulado tanto isso aí!

 

A moça deu-lhe um tapa no rosto. -- Seu desgraçado! Eu espero um filho seu e você me diz essas coisas? Como pode me tratar assim? -- falava a beira do choro

 

--Eu só não te meto a pregada porque você é mais fraca do que eu! -- segurou-a pelo braço com força e foi levando-a até a porta -- Escuta aqui, Vitória, eu não quero esse filho, não quero você, não registro criança, não pago pensão e não faço porr* nenhuma por você! Eu sou um homem livre, entendeu? Livre! -- abriu a porta e a empurrou para fora -- Faz um aborto, resolve o teu problema e não me procure mais! O que eu queria de você, já tive! -- bateu a porta na cara dela

 

Vitória começou a chorar e não disse coisa alguma. Desceu pelo elevador e foi para a rua. Não iria mais procurar por Silvio, estava decidida, mas também não iria fazer um aborto. Queria aquela criança e encararia as críticas da família, além das dificuldades que aguardam toda mãe solteira e pobre.

 

Ela acreditou em Silvio e a ele entregou seu amor, porém estava claro que aquele homem não era digno disso. Não sabia amar ou ser amado; era apenas uma máquina de fazer sex* a buscar um prazer vazio que jamais o libertaria, do contrário, mantê-lo-ia constantemente preso. “Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser.”3

 

Vitória sofria, como sofrem todas as pessoas que amam de boa fé e, de repente, se vêem enganadas. Caminhava sem rumo em uma noite fria e mal iluminada. Não pensava nos riscos que corria. Ela apenas andava e chorava.

 

Lembrou do que o avô tantas vezes lhe disse sobre cuidar-se de evitar pessoas que não sabiam valorizar os outros. Ele costumava a repetir: “Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, para que não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem.”4

 

“Dei muitas pérolas àquele porco... agora isso acabou!” -- pensava enquanto finas gotas chuva embaçavam sua visão distorcida por lágrimas de decepção

 

 

08:50h. 09 de agosto de 2001, Edifício Rubro Negro, Flamengo, Rio de Janeiro

 

Priscila passava as férias viajando com os pais. Tatiana estava sozinha com Lady no apartamento. Ela estava se arrumando para ir ao Centro da cidade enquanto a amiga casadoira se admirava no espelho.

 

--Ai, amiga, corre aqui e pensa comigo!

 

--O que foi, Lady? -- Tatiana chegou na porta do banheiro

 

--Com que cabelo eu caso, hein? -- fazia caras e bocas se olhando no espelho -- Prendo, solto, deixo liso, encaracolo? -- olhou para Tatiana -- Pinto de louro, de ruivo?

 

--Calma, mulher! -- riu -- Você casa em dezembro, uai! Deixa pra decidir na véspera.

 

--Eu, hein? -- voltou a se olhar no espelho – Você é muito descansada! Amanhã mesmo eu encomendo os salgadinhos e vou acertar o pagamento dos convites.

 

--Você já reservou o salão, viu igreja, esses trem todo?

 

--Eu já. -- pausou -- E as unhas, hein, eu pinto de que cor? Faço tradicional, francesinha? É melhor eu ir usando luva pra poupar as mãos, né?

 

--Tem base você, Lady? -- balançou a cabeça negativamente e saiu do banheiro

 

A campanhia toca. -- Ai, deve ser Carlão! É muito amor, viu? -- veio atender saltitante e abriu a porta -- Meu noivo!!!! -- pendurou-se no pescoço dele e o beijou levantando uma perna

 

--Oi, gatona! -- ele respondeu com sua habitual voz grossa, dando um tapa na bunda de Lady

 

--Ai, mas você, hein? -- fez um dengo -- Vem pro meu quarto! -- segurou a mão dele -- Vamos discutir os detalhes do nosso casamento! Quantos convites eu mando fazer? Cem, duzentos, trezentos? -- foram indo para o quarto -- Eu já vou encomendar os salgadinhos, mas a mulher disse que o bolo salgado só se pode fazer no dia... já pensou? E a antecedência, como fica? A gente tem que pensar nos doces, no bolo, na decoração... Tem que ver, tem achar o padre certo também...

 

--Ah, Lady, vai vendo aí... isso não é coisa pra homem fazer. Macho é só pra dar o dinheiro. Mulher é que cuida dessas coisas...

 

--E a casa da sua tia? Se a gente vai morar lá não é hora de dar uma garibada, comprar uns móveis? Tem que pensar na lua de mel também! A gente vai ter quantos filhos? Podia ser um casal! Lady Carla e Carlos Dy.

 

--Carlos Dy não é nome de macho, Lady... -- Carlão protestou

 

--Essa aí tem base nenhuma! Num dou conta... -- Tatiana falou para si mesma quando estava saindo de casa

 

***

 

Eram quase três da tarde e Tatiana voltava da rua. Abriu a porta e entrou em casa acreditando que o apartamento estava vazio. Ao entrar no seu quarto, deu de cara com Carlão apreciando os retratos dos homens que estavam colados na porta do seu armário.

 

--Ei, o que faz mexendo no meu armário?? -- pôs as mãos na cintura

 

--Ai!!! -- gritou assustado e depois se recompôs -- Faço nada! Fa-ço na-da! -- fechou a porta do armário -- Entrei no seu quarto por engano! Pensei que fosse o quarto de Lady e já ia tomar satisfação com ela de tanto homem pregado aqui! Pouca vergonha!

 

--Pensou que fosse o quarto de Lady... -- repetiu descrente

 

--Nesse apartamento tudo é muito parecido... Eu nunca sei qual é o seu quarto, qual o de Priscila, qual o de Lady... -- não sabia o que fazer -- Deixa eu ir que daqui a pouco ela chega... -- aproximou-se da moça -- Não conta pra ela, pode ficar com ciúmes de você! -- saiu do quarto de Tatiana

 

Nesse momento Lady chega do mercadinho com refrigerante e biscoitos. -- Amor, comprei nosso lanche! Tem Coca, biscoito salgado e biscoito divertido...

 

--E eu lá como isso de biscoito divertido, garota? -- reclamou com sua habitual voz grossa -- Isso é coisa de boiola! Eu sou muito macho pra frescura!

 

Tatiana ouvia essa conversa do quarto dela. “Esse Carlão só vive com esse papo de boiola e macho!” -- pensou fazendo cara feia

 

Lady apareceu na porta do quarto da outra. -- Você vai sair com Renan hoje, amiga?

 

--A gente vai pra um barzinho legal que  tem lá no Humaitá.

 

--Carlão e eu podemos ir com vocês? -- pediu toda melosa

 

--Podem. A gente vai sair daqui umas dez e meia. Ele vem me buscar.

 

--Ai, então dez e meia estaremos prontos. -- piscou e foi para a cozinha -- Amor, vamos pra um barzinho legal com minha amiga e o noivo dela?

 

--Só se for pra lugar que não tem boiola!

 

***

 

Suzana vasculhava nos arquivos de sua memória quem poderia ser Sammael e não conseguia decifrar. Certamente era alguém que a conhecia desde jovem, ou então algum maníaco que pesquisou a vida dela em detalhes. Porém, acreditava que a idéia de Brito, a hipótese de que o ‘velho’ seria uma pessoa desejosa por vingança, tinha mais sentido.

 

--Chefe! -- Brito chega de súbito e interrompe os pensamentos dela -- Se prepara: briga de casal, a mulher pegou o marido no flagra com outro e sentou os sarrafos na dupla, criança fura o olho da professora com lápis e a mãe diz que foi sem querer e um menor que detonou o carro do vizinho com uma bomba caseira... tudo isso aí na sala do lado e pegando fogo!

 

--Eu nem ouvi... -- balançou a cabeça -- de tão entretida no que pensava.

 

--Juliana? -- sorriu

 

--Não, antes fosse. É o ‘velho’! -- esfregou o rosto

 

--Ainda não conseguiu decifrar essa charada? Tenho certeza de que as respostas estão contigo. Pensa com calma...

 

--É, eu sei... -- levantou-se -- Tenho pensado muito nisso... -- pausou -- Vamos ver esse pessoal que tá incendiando a delegacia! -- fez sinal com a cabeça e foram andando

 

--É hoje que a velhinha chega na casa da Juliana?

 

--Já chegou. De noite eu passo lá.

 

--Bonita a atitude dela!

 

--É... minha japonesa é assim... uma mulher que se entrega a tudo de corpo e alma... -- sorriu -- Brito, à propósito, vai ter uma luta de boxe amador, do tipo paraolímpico, no sábado à noite. Uma das lutadoras é amiga da Ju. -- olhou para ele -- Tá a fim de ver?

 

--Boxe?? -- sorriu -- Claro!!! Adoro uma pancadaria boa!

 

Entrando na sala, as pessoas vieram para cima de Suzana falando todas ao mesmo tempo.

 

***

 

Nas primeiras horas da noite, duas mulheres estavam ajoelhadas em uma encruzilhada na Ilha do Fundão, perto do alojamento universitário.

 

--Acende essas velas aí, e fuma um charuto com tua mãe! -- mãe Dadá falava enquanto colocava as oferendas no alguidar

 

--Fumar charuto?! -- Ana exclamou com os olhos arregalados -- Ah, minha mãe, isso aí tá um pouco demais, não acha, não?

 

--Vosmicê quer afastar aquela mulher da vida do vosso marido, não quer? -- olhou para ela -- Então tem que fazer o que tua mãe te manda!

 

--Humpf! -- começou a acender as velas -- Já gastei muito dinheiro com esses rituais que a senhora inventa e até agora nada!

 

--Tem que ter fé, minhas infia! Se fizer o que mãe Dadá te orienta, aquela mulher some da vida de vosso marido! E nem vai vir nenhuma outra. -- pegou dois charutos e deu um a Ana -- Faz igual tua mãe!

 

Ana pegou o charuto e repetiu tudo o que a mãe de santo fazia. Na primeira baforada tossiu com fé. -- Meu Deus, mas que mata rato desgraçado! -- chorava contra a vontade

 

--Olha o que diz, minhas infia! -- deu um tapa nas costas da outra -- Faz o que tua mãe manda que vosmicê consegue o que quer!

 

--A gente passa por cada coisa nessa vida de meu Deus... -- olhou para o alto com olhos súplices

 

Após algumas baforadas elas colocaram os dois charutos na beirada do alguidar.

 

--Levanta, minhas infia. -- as duas se levantaram -- Ô kaô cabeci! Kaô cabeci! -- começou a se contorcer e dançar ao redor da oferenda

 

Sem saber o que fazer, Ana dançava também.

 

--Kaô cabeci! -- mãe Dadá cantava com voz grossa

 

--Kaô... -- Ana repetia e dançava

 

--Ôôôôô!

 

--Ôôôô! -- Ana continuava imitando a mulher -- “Graças a Deus que Isa tá de férias e não vai me ver aqui passando por isso!” -- pensou aliviada

 

Após alguns minutos de ritual, a mãe de santo aplicou uma espécie de passe em Ana, batendo nela com folhas de arruda banhadas com água de sal grosso.

 

--Cuidado pra não desmanchar minha escova! -- advertiu

 

--Vosmicê só pensa em besteira! -- deu uma folhada na cara de Ana, que fez careta

 

Entraram no carro da mãe de santo e foram embora. Ana desceu na estação de metrô de Botafogo e a outra mulher seguiu para o Dona Marta. Chegando em casa foi recebida pela filha. -- Ai, não, mamãe! -- pôs as mãos na cintura -- Ainda com esse golpe de fingir de mãe de santo?

 

--Dá dinheiro, filha! E além do mais eu me divirto! -- riu -- Tem que ver a mulher maluca que estava comigo. Só pensa em separar o marido da amante, tem mania de grandeza, se acha uma socialite mas é a criatura mais ridícula que eu já vi! -- foi para o quarto se trocar

 

--Isso é errado! -- a filha foi atrás dela -- Não é porque moramos no morro que temos que ser golpistas ou desonestas! Eu trabalho e coloco dinheiro em casa, a senhora não precisa se prestar a esse papel!

 

--Sabe quanto ela me pagou por hoje? -- olhou para a moça -- Mil e cem reais! É mais que teu salário no supermercado.

 

--Que seja! -- deu de ombros -- É dinheiro sujo e não me interessa!

 

--Sujo nada! -- enrolou-se na toalha

 

--E a senhora devia se envergonhar! A verdadeira mãe Dadá, de onde estiver, sabe que a senhora suja a memória dela com essa mentirada toda! -- parou diante da mãe -- Ela era uma mãe de santo séria e caridosa e por isso conquistou o respeito de todos aqui! -- cruzou os braços -- Não pode fazer o que faz! Graças a ela temos esse barraco. Acha que pode continuar nessa mentirada sem que nada te aconteça?

 

--Eu trabalhei na casa de Dadá por anos... Ela também me devia! -- foi indo para o banheiro. Preparava-se para tomar banho

 

--Mãe, a senhora brinca com coisa séria... Umbanda não é palhaçada e nem o bobeirol que os programas de humor gostam de mostrar!

 

--Relaxa, garota! -- fez cara feia -- Eu não faço nada de mais. Se gente como aquela mulher quer coisas como agarrar marido, afastar amante, curar doença, eu sei como fazer a coisa! No frigir dos ovos estou é fazendo caridade... -- fechou a porta do banheiro

 

--Caridade? -- riu -- Se quer pensar assim... -- suspirou -- Mas não diga que não lhe avisei!

 

***

 

Tatiana, Renan, Lady e Carlão estavam no barzinho sentados, petiscando e conversando.

 

--Deve ser legal trabalhar numa oficina! -- coçou o saco -- E esse negócio de carro antigo é maneiro pra cacete! Isso sim é serviço pra homem! -- Carlão comentou

 

--Você devia passar lá um dia desses, Carlão. Vai gostar de ver! Recebemos um Cadilac muito show pra restaurar. Tem que ver, cara! É pouca coisa que tem que fazer, mas achar as peças é que dá trabalho!

 

--Ah, eu quero ver sim! -- olhou para Lady -- Quer ir comigo, gatona?

 

--Claro!! -- sorriu empolgada -- Se você quer que eu vá, eu vou!

 

--Eu acho tão massa esse trabalho de restauro de carro antigo! Deixa eu te perguntar, será que quando vocês montarem a oficina na Goiânia vai dar pra fazer isso lá também, amor? -- Tatiana perguntou ao namorado

 

--Aí eu não sei! É um investimento alto. Tem que ver se vai ter demanda que justifique... -- olhou para ela

 

--Ah, mas só os carros do seu Marciano já retornam o investimento! Você não disse que ele tem setecentos e cinqüenta e dois carros?

 

--Nossa, que homem é esse? -- Lady perguntou

 

--Gosta de futebol, Renan? -- Carlão arreganhou bem as pernas. Só se sentava assim

 

--Não muito... Eu prefiro vôlei.

 

--Vôlei, é? Hum... -- olhou para Lady com cara de desconfiado e depois para Renan de novo -- E de luta? Vale tudo, boxe, judô... Porr*da! -- deu um soco na mão

 

--Também não. Nunca fui chegado a pancadaria.

 

--Nem eu! Chega dói assistir e eu num dou conta! -- Tatiana concordou

 

--Hum... -- aproximou-se de Lady e cochichou -- Esse namorado da tua amiga... não sei, não... -- olhou para Renan novamente -- Eu hein, mermão! Se tu não fosse mecânico e não tivesse a gatona aí do teu lado, o povo ia pensar mal de você... Não gosta de futebol, não gosta de porr*da, não bebe cerveja...

 

--Tô nem aí pra isso! -- bebeu um gole do suco -- Nunca precisei me auto afirmar com certas atitudes pra provar que sou homem.

 

--E ele é muito homem, viu, fi? -- beijou-o nos lábios -- Diga-se de passagem!

 

--Carlão também! -- Lady o beijou -- Muito macho, respeitador e quer moça pra casar!

 

Nesse momento um grupo de quatro rapazes, nitidamente gays, escolhe uma mesa bem próxima a deles. Carlão os vê e se desespera. -- Meu Deus, que lugar é esse que vocês gostam de frequentar? -- mudou a posição da cadeira para ficar de costas para os rapazes -- Isso aqui é cheio de viado!

 

--Ué, deixa os caras... -- Renan respondeu tranquilamente -- Eles não estão fazendo nada com a gente!

 

--Lady, eu vou te contar, viu? Me segura antes que eu vá pra lá e meta a porr*da naquele bando de viado!

 

--Calma, amor! -- pediu preocupada

 

--Pára com isso, Carlão! Não me diga que você é daquele tipo que gosta de sair por aí batendo nos gays? Isso é ridículo! Foi gente assim que matou minha amiga!

 

--Ei, eu não sou marginal, Tatiana, mas não gosto de boiola! -- estava nitidamente incomodado -- Eu quero sair daqui!

 

--Gente, vamos embora? -- Lady pediu aflita -- Olha como meu noivo ficou nervoso!

 

--Toma! -- abriu a carteira e jogou duas notas de cinqüenta sobre a mesa -- Paguem a conta que eu vou pegar meu carro! No meio dessa boiolagem é que eu não fico! -- levantou-se e saiu

 

--Eu, hein, Lady? -- Renan olhou para ela -- Esse teu namorado é cheio de besteira!

 

--Besteira, não, Renan, ele é muito macho e não gosta disso aí! -- apontou para os rapazes

 

--Vamos embora, amor. A noite aqui acabou! -- Tatiana revirou os olhos -- Ô que tanta bobagem! É ser muito atrasado, viu, fi? -- olhou para Lady

 

Eles acertaram a conta com o garçom e quando estavam saindo Tatiana ouviu os rapazes conversando: -- Mas você tem certeza de que era a Pri?

 

E outro respondeu: -- Absoluta! Conheço aquela bundinha onde quer que vá!

 

--Eu não sabia que Pri tinha namorada!

 

--Vai entender? -- riram

 

Tatiana ficou desconfiada pensando: “Será que o namorado de Lady é gay? Será que Tamires tem razão quando diz que excesso de macheza também transborda?”

 

***

 

Anselmo estava jantando com Gisele. A moça ainda não tinha dito a ele que iria embora do país sem a intenção de voltar. Havia preparado uma carta, a qual colocaria no correio no dia da viagem.

 

--Fofucha, eu tenho pensado muito nisso e depois de refletir por dias a fio cheguei a uma decisão. -- respirou fundo e colocou uma caixinha sobre a mesa -- Eu vou pedir o divórcio a Ana... Quero me casar com você! Estou apaixonado como nunca estive na vida! -- abriu a caixa revelando um anel de brilhantes

 

--Fofucho! -- pegou o anel e olhou a pedra -- Meu Deus, isso é...

 

--Um diamante! -- sorriu -- É uma jóia exclusiva, só você tem uma assim. Está registrada e tudo. Os documentos estão dobradinhos no fundo da caixa.

 

--Eu nunca vi uma jóia destas! -- colocou no dedo anelar direito

 

--Aceita se casar comigo? -- perguntou receoso

 

--Fofucho, escuta... -- passou a mão nos cabelos -- Deixe vovó se recuperar, sim? Me dê mais uns dias... Semana que vem eu te respondo e aí, só aí, você fala com sua mulher que quer o divórcio!

 

--Mas, fofucha, o que é isso? Você não disse que sim ou que não... -- respondeu decepcionado

 

--Amor, você não disse que pensou por dias a fio? Não pode querer que eu me decida assim! Além do mais não sou uma interesseira que está com você de olho em se dar bem. Sou uma mulher séria e apaixonada! -- fazia tipo

 

--Eu sei! -- respondeu orgulhoso

 

--E se nunca lhe pedi para que se separasse foi por respeitar o seu tempo de decisão e sua família!

 

--Eu sei e por isso lhe sou muito grato! As amantes dos meus amigos sempre fazem pressão pra que eles deixem a família e você nunca fez isso! -- sorriu

 

--Não sou desse tipinho!

 

--Ah, mas não é mesmo... -- babava

 

--Tenho que cuidar de vovó. Ela está se adaptando dentro de casa novamente e precisa do meu apoio. Sabe como sou séria com essa coisa de família! -- mentia descaradamente

 

--Eu sei...

 

--Então confie em mim. Semana que vem, eu prometo, te respondo!

 

--Eu... não acha que eu devia fazer uma visita a sua avó e falar sobre minhas intenções? -- pausou -- Ela tem uma péssima impressão a meu respeito e talvez possa mudar de opinião. Afinal de contas não sou nenhum canalha...

 

--Agora não é uma boa idéia fazer isso. Deixe que eu marco um dia e você vai. -- cortou a iniciativa dele -- “Mal sabe o idiota que vovó tá vivendo na casa daquela Jiraia sapatona...”

 

--Tudo bem. Quando você sentir que é o momento... eu vou. -- sorriu -- Por enquanto você é minha noivinha. Pode usar a aliança na mão direita mesmo!

 

--Você é tão romântico, fofucho... Não foi à toa que eu me apaixonei tanto! -- sorriu

 

--E você é a mulher mais maravilhosa que eu já conheci! Quero reconstruir minha vida a seu lado! E te serei fiel pra sempre!

 

Horas depois Anselmo deixava Gisele em casa. O homem não sabia que o imóvel estava praticamente vazio e que até o carro que ele deu já havia sido vendido.

 

--Gisele, você fez tudo direitinho! Juntou grana na medida certa, conseguiu a transferência... -- falava para si mesma -- Vou morar em Nova York, muito bem instalada, e ter a vida que sempre quis ter! -- pausou e sorriu -- E você, fofucho, que vá a merd*!!

 

***

 

Suzana vinha empurrando a cadeira de Maria de Lourdes. Encontraram uma fileira vaga e foram se sentar.

 

--E então, dona Lourdes? Já esteve em uma luta? -- Juliana perguntou sorridente

 

--Eu não. -- sorriu também -- Mas sendo coisa de Flávia deve ser divertido!

 

Flávia já havia ido na casa da enfermeira dar uma olhada na idosa antes de começar a trabalhar com ela. Maria de Lourdes gostou da fisioterapeuta logo de cara.

 

--Brito vem aí. -- Suzana falou para as duas -- A senhora vai conhecer um colega de trabalho que eu tenho. O cara é meu parceirão!

 

--Falando nele... -- a japonesa indicou com a cabeça

 

--Boa noite! -- cumprimentou todas e olhou para a idosa -- A senhora deve ser dona Lourdes. -- estendeu a mão -- Brito, é um prazer!

 

--Igualmente, meu filho!

 

Ele se sentou e falou: -- Eu não cheguei a trabalhar com seu marido, mas era fã dele!

 

--Obrigado... -- sorriu -- Mas se trabalha com ela -- apontou para a morena -- tem uma boa idéia de como seria trabalhar com ele. Nunca vi duas pessoas tão parecidas... nem que fosse filha!

 

Em pouco tempo a luta começou e eles assistiram com empolgação. Brito ficou impressionado com Flávia e não tirava os olhos dela. A fisioterapeuta venceu sem muita dificuldade e, ao final, conversava com algumas pessoas.

 

--Eu gostei de ver essa luta! -- Maria de Lourdes exclamou para Juliana -- E você viu a adversária dela, que danada? Não tinha um braço mas era terrível!

 

--Só que não deu pra ela, não, dona Lourdes! Flávia botou moral na coisa e venceu na categoria! -- a japonesa afirmou sorrindo

 

--É... chefe... -- Brito pigarreou -- Será que eu poderia ser apresentado àquela lutadora? -- endireitou a gola da camisa -- Que mulher, viu?

 

--Se interessou? -- cruzou os braços e olhou para ele sorrindo

 

--Ah, eu... -- pigarreou de novo -- Você viu que classe que ela tem? Como sabe bater com estilo? Aquilo ali é uma dama como poucas...

 

--Eu vou falar com a Ju. -- deu um tapa no braço dele -- Espera aí que logo vocês serão devidamente apresentados.

 

***

 

Suzana, Juliana e Lourdes ainda se divertiram papeando um pouco com a fisioterapeuta depois da luta, mas logo foram embora. Dona Lourdes sentia muitas dores na perna e precisava descansar. Brito convidou Flávia para sair e os dois estavam em um barzinho conversando.

 

--É... -- pigarreou -- eu devo dizer, Flávia... fiquei impressionado com você naquela luta! Juliana me disse que você ganhou competições importantes... -- endireitou a gola da camisa -- Será que poderia me contar a respeito? -- perguntou interessado

 

--Ih, você não sabe de nada!! -- afirmou empolgada -- Ano passado ganhei o Cinturão de Ouro Carioca! Eu lutava contra Renata Dentes de Aço! Só que não deu pra ela! Depois de uma sucessão de golpes -- repetia os movimentos da luta -- a maluca não resistiu e eu ganhei por nocaute!

 

--Nossa! -- os olhos de Brito brilhavam -- Eu queria ter visto isso...

 

--Depois veio o Brasileirão. -- olhou seriamente para ele -- Mas não vou mentir pra você. Lá eu fiz feio...

 

--Por que diz isso? Não acredito!

 

--É verdade... Lutei contra Guiomar do Olho que Tudo Vê e ela me venceu nos últimos minutos... Eu tinha a luta toda sob controle e no final... dei bobeira. -- fez cara feia -- E o pior é que ela tem um braço e um olho a menos que eu... Fiquei em terceiro lugar... -- lamentou

 

--Isso acontece... Uma vez eu não consegui desarmar um molequinho de dezoito anos, acredita? Ele foi mais rápido e me deu uma rasteira. Se Lemos não estivesse por perto pra me ajudar... -- sorriu -- Mas, continue, quero saber...

 

--Recuperei desse vexame conquistando o Panamericano em uma luta magistral! Você tinha ver! Lutei contra Anita de La Tentación! Foi uma luta e tanto! Pancadaria pra todo lado, sabe como é? Eu me empolguei tanto que bati no juiz e em quem tava perto! Desmaiei uns três, assim, de bobeira!

 

“Minha nossa, que mulher!” -- pensava extasiado -- Sabia que você tem um gancho de direita fantástico? -- perguntou fazendo voz melosa -- Nunca vi nada igual...

 

--Ah... -- Flávia sorriu -- Aposto que diz isso pra todas...

 

--Não! -- endireitou-se na cadeira -- Pode perguntar pra delegada Suzana! Eu sou um homem sério e... -- pigarreou -- Fiquei impressionado com você! Sua classe, sua categoria! Nunca vi uma mulher assim tão... decidida!

 

--Sério?

 

--Você... -- sorriu encabulado -- nem sei como perguntar... -- passou o guardanapo no rosto -- tem namorado? É casada?

 

--Eu tinha um namorado. Mas ele me traiu e então terminei.

 

--Mas que sujeitinho! Tem homem que não enxerga o tesouro que tem nas mãos! -- exclamou com raiva e calou-se por uns segundos -- Se quiser posso pegar ele e ter uma conversinha de homem pra homem! -- esmagou a lata de cerveja com a mão

 

“Nossa, que homem de atitude! É um verdadeiro cavalheiro!” -- Flávia pensou empolgada -- Não é preciso! Deixe ele pra lá!

 

--Será que se eu lhe convidasse para ir lá em casa no próximo sábado para jantar... você iria? -- pausou -- Eu vou viajar a serviço amanhã e só volto na sexta à noite. Pode confirmar com a delegada que verá que não é mentira minha.

 

--Tudo bem, eu aceito seu convite. -- sorriu -- Mas olha aqui! -- olhou para ele com seriedade -- Se vier com gracinhas desagradáveis te meto os cacetes, viu? -- ameaçou

 

--Não, fique tranqüila! -- ajeitou a gola da camisa novamente. Ele tinha esse cacoete -- É um convite feito na melhor das intenções. -- sorriu

 

--Acho bom. -- endireitou os cabelos -- Comigo é assim! Respeito é bom e eu gosto!

 

--Eu sei, já percebi... -- respondeu com seriedade -- "Encontrei a mulher da minha vida: linda, fina e cheia de personalidade...” -- pensou enquanto admirava o rosto da fisioterapeuta -- “Acho que meus dias de solidão estão contados...”

 

***

 

--Ai, Ivone, vou te contar, viu? -- sorriu -- A vida é uma eterna surpresa... E depois que eu virei Highlander parece que tudo ficou a mil por hora! Não canso de me surpreender!

 

--Como assim, virou Highlander? -- perguntou rindo

 

--Ué, você não sabe? -- enumerou nos dedos -- Primeiro tentam me seqüestrar, os caras se lascam no acidente e eu saio do carro bela e formosa. Depois tomo um choque enquanto uma paciente recebia atendimento de emergência e ainda tenho uma visão do futuro e por fim, pra fechar com chave de ouro, tomo uma facada no bucho e fico simplesmente um mês de coma. Quando todo mundo pensava que ia chorar no meu enterro, eis que ressuscito! -- pausou -- O cabelo é que tava uma ‘graça’, mas esse problema ficou no passado.

 

--Ai, Juliana... -- balançou a cabeça -- Você me diverte, sabia? -- pausou -- Concordo que tem vivido experiências marcantes nos últimos tempos mas há de convir que é como se você renascesse continuamente. Aliás, desde que a conheço, entendo que sua vida é um eterno recomeço...

 

--Verdade, Ivone... -- pensou -- E estou muito feliz, como não me sentia há tempos! E agora minha felicidade parece algo tão firme, sabe? Não depende mais de uma pessoa ou de uma situação. Está dentro de mim e sinto como se nada pudesse removê-la de meu coração!

 

--É porque agora você aprendeu a guardar seus tesouros de modo menos doloroso. Sem apego ou sem desinteresse. Você aprendeu o que é realmente valioso e deixou de se escravizar à coisas que passam. Você tem empreendido uma verdadeira reforma íntima e o resto veio como conseqüência. “A felicidade é uma recompensa para quem não a procura.”5

 

--"Porque, onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração."6 -- sorriu -- Meu coração não está mais aonde os ladrões pilham e roubam, as traças consomem e a ferrugem destrói. Tenho lido a Bíblia e com ela aprendido muito.

 

--A leitura edificante é sempre um alimento para o espírito. Fico feliz que esteja tão bem. -- pausou -- Agora me fale sobre sua filhinha de cabelos brancos. -- sorriu

 

--Ah, a dona Lourdes... -- sorriu -- Isso foi uma coisa que aconteceu sem eu esperar, sabe? Antes de ser esfaqueada eu vinha mantendo conversas com ela e acabamos criando um vínculo, como em tantas outras vezes criei com os pacientes. Mas, sei lá... com ela foi especialmente intenso como era com a falecida dona Tânia, lembra?

 

--Claro que lembro.

 

--Quando aquela embaixatriz de porto chegou cheia de banca dizendo que a pobre ia viver em asilo, eu... sei lá, Ivone, me deu um troço! Eu decidi, imediatamente, que tinha que fazer alguma coisa. -- olhou bem para ela -- Meu coração pediu pra levá-la comigo e eu simplesmente obedeci.

 

--Achei essa atitude linda! -- sorriu -- E como têm sido o convívio?

 

--Tranquilo. Ela é uma pessoa dócil, não reclama de nada... E é tão bom chegar e ver aquela velhinha lá me esperando... -- sorriu -- Ela faz chá, bolo... Tem sido bem legal. -- pausou -- Ed foi lá em casa e pregou suportes nas paredes do banheiro. Aquelas alças pra pessoa segurar, sabe como é?

 

--Sei. Como se vê nos banheiros de deficientes físicos.

 

--Isso. Ed também trocou a porta do banheiro por outra que fica mais fácil pra dona Lourdes abrir e fechar.

 

--Que bom! -- pausou -- E Suzana, como reagiu com a entrada de dona Lourdes em sua vida?

 

--Ela ficou meio reticente, porque teve medo da responsabilidade, do compromisso... Suzana tem medo dessas coisas, sabe? Tanto que ela nunca fala da gente se casar e nem nada. Mas acaba que dona Lourdes é o que mais perto ela tem de uma mãe. Elas já se conheciam porque Suzana trabalhou com o falecido delegado Valadão, que era marido de dona Lourdes.

 

--Nossa, que mundo pequeno, não? -- perguntou surpresa

 

--Pois é... e acabou que eu nem pensei nisso mas foi bom pra mim também em termos financeiros. Dona Lourdes ganha uma boa pensão e, agora que a Chapolin do sex* deixou de mamar esse dinheiro, ela pode finalmente usufruir desse recurso. Com isso não preciso mais sair daquele apartamento, que eu adoro, e tenho me virado bem só com o salário do Silva Avelar. -- pausou -- Não que ela esteja me sustentando, o dinheiro dela é pra ela, mas pagando só metade das contas minha situação fica bem menos apertada.

 

--E aquela clínica onde você trabalhava? Não está mais lá?

 

--Ah, depois que ressuscitei eles me mantiveram lá por um tempinho, pra disfarçar, e depois me demitiram por uma razão qualquer. Mas agora que dona Lourdes tem me ajudado não estou me mexendo pra procurar outro emprego. -- pausou -- Não é por preguiça, mas porque é tão ruim trabalhar em vários lugares como uma louca... você mal tem tempo de viver e não pode se dedicar como gostaria. Eu continuo levando o Silva Avelar bem à sério, continuo nas minhas atividades solidárias e agora também tenho dona Lourdes. Minha consciência está tranqüila e não me sinto uma aproveitadora.

 

--Mas você não tem nada de aproveitadora. -- ficou pensando -- Deixe-me ser indiscreta, e não precisa me responder se não quiser. Suzana lhe ajuda financeiramente?

 

--Ah, quando eu falei pra ela que com a ajuda de dona Lourdes eu não precisaria mais me mudar ela não me disse nada, mas depois veio me perguntar do que eu falava. -- pausou -- Você tinha que ver como a delegada ficou quando soube que Ed pagava meu aluguel e me dava uma pensão! Ela ficou possessa! -- riu -- Agora Ed não faz mais nada por mim. -- pausou -- Mas, respondendo objetivamente a sua pergunta, eu não aceitei que Suzana me ajudasse financeiramente.

 

--Suzana deve ter se sentido diminuída em relação a sua ex mulher. É claro que ela tem ciúmes de Seyyed e se sente insegura, por isso quis assumir o que a outra fazia para te mostrar que ela também pode ser companheira pra você na mesma medida.

 

--Ela também insistiu pra pagar pelo menos o aluguel mas eu não deixei. Preferi o acerto que fiz com dona Lourdes. Chega disso de ficar contando com mulher... -- pausou -- Não que dona Lourdes não seja mulher... mas é diferente!

 

--Entendo. -- pausou -- E como Suzana reagiu com sua negativa ao apoio dela?

 

--Reclamou muito quando o assunto surgiu. -- riu brevemente -- Não se dando por vencida, vive chegando lá em casa com um monte de bolsas de compras. Acredita que ela comprou quatro bolsas abarrotadas de absorventes pra mim? Acho que até o ano que vem não preciso mais comprar nenhum. -- riu de novo

 

--Deixe ela participar de alguma coisa. Se quer lhe dar mantimentos não a proíba de fazê-lo. Ela precisa se sentir fazendo parte do que está acontecendo na sua vida.

 

--Eu sei... -- pensou -- Ah, deixa eu te contar que fofoca boa! Na conversa com Suzana também soube que ela e Seyyed brigaram por minha causa! Elas quase saíram no tapa e tudo mais! -- exclamou orgulhosa -- Foi quando eu estava internada. Ao que pude perceber, foi um verdadeiro duelo de titãs! Coisa pesada, Ivone!

 

--Mesmo?! -- Ivone perguntou surpresa

 

--Pra você ver! Eu me senti Madonna, toda poderosa, carregada por mulheres lindas no clipe Material Girl! -- imitava a cantora

 

--Mas no clipe ela era carregada por homens...

 

--Ai, Ivone, não desmancha minha cena? -- pôs as mãos na cintura -- Suzana é uma índia maravilhosa dos olhinhos puxados, cabelinhos na altura dos ombros e um corpo forte e Seyyed é uma morena linda com aqueles olhos azuis e toda atlética! Já pensou ser disputada por duas assim? Não é pra qualquer uma!

 

--Certamente! -- riu

 

--Diz se minha vida não deu um salto? Eu cheguei desgraçada aqui nesse teu consultório! Olha como estou hoje! -- abriu os braços -- Linda, poderosa e feliz!

 

--Pois é! E sem problema algum com a auto estima! -- sorria -- Graças a Deus, você deu uma virada de 180 graus!

 

--Outra fofoca: Seyyed casou com o filé de borboleta! Mas eu te juro que não fiquei triste com isso! E nem aborrecida!

 

--Então por que continua chamando a moça por esses apelidos?

 

--Por que eu não gosto dela, sabe? Acho que Seyyed é boa demais pra se casar com aquela garota. Merecia coisa melhor...

 

--E o que há de errado com a moça?

 

Pensou. --Sei lá... de repente nada e é só uma implicância minha.

 

--Da mesma forma como Suzana implica com Seyyed.

 

--Não implica mais. Agora elas se dão bem. Depois da briga passou a cisma!

 

--Então não achava que era hora de deixar de implicar com a bailarina?

 

--É, pode ser... Acha que eu deveria dar uns cacetes nela antes de fazer as pazes? -- perguntou pensativa

 

--Não cheguemos a tanto, meu bem! Vamos resolver de modo mais civilizado. Mesmo as suas duas titãs não se esbofetearam. Como você disse, foi quase isso!

 

--Tem razão... -- sorriu e estendeu as mãos -- Vamos orar, Ivone. Quero agradecer a Deus por tudo de bom que tem me acontecido e que Ele me ajude a ter sabedoria pra viver estes momentos de felicidade. Eu finalmente me sinto curada da depressão!

 

Ivone segurou as mãos dela. -- Eu disse que isso ia acontecer, não foi? -- sorriu -- Você está muito bem e eu posso te dizer sem qualquer demagogia: nunca tive uma paciente que me desse tanto orgulho quanto você!

 

Juliana sorriu orgulhosa e emocionada.

 

***

 

Sabrina batalhava patrocínio para a próxima escalada. Sua meta era ousada: em uma mesma temporada planejava conquistar os cumes do Gasherbrum I e II, e quem sabe, o Broad Peak. Não sabia se era humanamente possível mas estava disposta a tentar. Treinava com afinco desmedido.

 

A escaladora vinha mantendo contato com uma ONG norte americana gerenciada por lésbicas e negociava uma reunião com elas em setembro, na cidade de Nova York. Estava cuidando de obter o visto norte americano e ficou horrorizada com o tratamento que os brasileiros recebiam no processo.

 

Chegou em casa cansada e decidiu ficar à toa vendo um filme e comendo pipoca. Lembrou-se de quando assistiu The Gladiator no cinema ao lado de Patrícia.

 

“-- Que filmaço!!! -- Patrícia exclamou emocionada -- E que final! A música é linda!

 

--É aquela cantora Enya. -- fez um bico -- Não vi nada de mais... Só mais um filme sangrento!

 

--Que conversa é essa, Sabrina? -- olhou para ela -- Pensa só pra ver como foi bonito demais! O cabra sofreu durante o filme todo, lutou muito e no final ele morre e encontra a família querida no meio de um campo de trigo... E com aquela trilha sonora! Lindo demais! E essa coisa do reencontro! Vixi, que eu acho isso massa!

 

--Você é muito romântica... -- levantou-se -- Vamos que as pessoas já estão saindo da sala. -- Patrícia levantou-se e foi atrás dela

 

--Você acha que o amor é uma grande bobagem, não é? -- perguntou sem que esperasse

 

--Amor é uma bengala emocional que os fracos usam pra se segurar. -- Sabrina respondeu sem muita paciência -- Eu não preciso disso! Sou uma pessoa livre e acho esse papinho de amor uma coisa ridícula!

 

--“Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que

não tem medo do ridículo”.7

 

--Você e essas frases feitas... -- fez um bico

 

--Ô mulher, dê uma chance pro amor acontecer na sua vida, minha querida! Pode se arrepender por não tentar...

 

--Eu, me arrepender? -- olhou para Patrícia incrédula -- Nunca me arrependo de nada!”

 

--Ai, Patrícia... -- fechou os olhos -- Você tinha razão... -- suspirou -- Não imagina o quanto eu me arrependo...

 

 

17:15h. 20 de agosto de 2001, Rua Arquias Cordeiro, casa 6, Engenho,  Rio de Janeiro

 

Camille chegava em casa após seu primeiro dia de aulas na universidade. Mariano havia levado a jovem de carro pela manhã e agora ela retornava sozinha.

 

--E então, filha, como foi? -- Mariângela perguntou esperançosa -- O que achou do primeiro dia?

 

--Ai, mãe, a resposta é longa... -- sentou-se arrasada no sofá

 

--Estou ouvindo! -- sentou-se animada do lado dela

 

--Em primeiro lugar, acho que vou aceitar o convite de meu tio e dona Olga. -- olhou para a mãe -- É horrível voltar de lá de ônibus! Um inferno! O lugar é mal servido de condução, é um monte de estudante sedento pra pegar ônibus, Kombi... Ô louco! -- suspirou -- Que saudade da USP, viu? Era muito mais fácil lá em São Paulo...

 

--Eu também acho que devia aceitar. Eles moram na Ilha, ficará pertinho pra você. Aí nos finais de semana volta pra casa e fica comigo. -- deu um beijo na cabeça dela -- Sentirei sua falta...

 

--Eu também, mãe... -- abaixou a cabeça -- Sei que não sou a melhor companhia do mundo mas eu gosto muito... eu amo você!

 

--Ô meu amor... -- sorriu emocionada -- Eu também te amo! E pra mim você é a melhor companhia do mundo sim! Mas me conte, como foi lá?

 

--Mãe, que gente metida!!! -- sentou-se de lado -- Esse pessoal carioca que faz engenharia é um nojo! Teve um monte de gente me olhando de banda, cochichando... Um carinha veio me tirar por causa do meu sotaque e eu mandei ele tomar no...

 

--Camille!!! Olha essa boca suja! -- arregalou os olhos ao interromper o que a filha dizia

 

--Ah, eu hein, mãe? Não vem me tirar que dá treta! -- cruzou os braços

 

--Mas... ao que me lembro, você e seus colegas lá da USP eram metidos de doer!

 

--Achava isso? -- olhou surpresa para a mãe

 

--Eu e mais seu pai, Mariano... -- pausou -- Seu noivo mesmo! Aquele rapaz era um esnobe!

 

--Ô louco! Nem me lembre desse tal que me dá ódio!

 

--Mas e aí? E as aulas? -- voltou ao assunto principal

 

--Isso foi legal. Gostei dos professores e do departamento. E nem tem escada pra eu subir!

 

--Que bom! -- sorriu

 

--Agora... o que me preocupou, coisa na qual eu não tinha pensado, foi o lance do estágio e do projeto final de curso.

 

--Como assim?

 

--Eu conversei com o coordenador, e ele disse que a gente tem que estagiar. Também tem que fazer o projeto final de curso. -- pausou -- Isso é o normal de um curso de engenharia, mas agora que eu sou... ‘especial’, -- fez aspas com os dedos -- vou estagiar aonde? E fazer fim de curso em que? Tô mais perdida que cego em tiroteio!

 

--Calma, filha, não comece sofrendo por antecedência. Converse com seu tio, que entende mais dessas coisas do que eu, e tenha fé. Eu vou pedir a Virgem Maria que te oriente e faça a solução aparecer!

 

--Mãe, a Virgem já deve viver de saco cheio de mim! Vocês só vivem pedindo coisas a Ela por minha causa.

 

--Maria é mãe divina, meu amor! Se eu que não tenho nada de divino não me canso de buscar lhe ajudar, faz idéia Ela. -- beijou-a no rosto -- Agora vá tomar um banho que vou fazer nosso lanche. -- levantou-se da poltrona -- Ah! -- lembrou-se -- Adivinha quem esteve aqui hoje?

 

--Não faço idéia!

 

--Jurema! Ela veio pegar o vestido que me encomendou.

 

--E eu que nem sabia que ela tinha te encomendado mais outro vestido!

 

--E eu não te falei, menina? -- pôs as mãos na cintura -- Ela contou que Fátima recebeu a proposta de um patrocínio em São Paulo e elas vão morar lá. Já partem no mês que vem!

 

--Sério? -- perguntou com certa tristeza

 

--É, sim! Fiquei feliz. Tomara que seja pro bem delas. -- pausou -- Agora deixa eu ir cuidar da vida! -- foi para a cozinha

 

Camille ficou pensando em Fátima. Pensou se não seria correto da parte dela telefonar para saber das novidades e desejar boa sorte, mas ao final decidiu que era melhor não. Talvez acabassem marcando um encontro, ficando juntas e no final, certamente, ela faria algo desagradável que novamente magoaria a nadadora. E Fátima não merecia isso.

 

A jovem foi tomar banho e enquanto deixava a água cair sobre sua cabeça decidiu fazer algo que nunca fazia: orar.

 

“Meu Deus, eu sei que não costumo a Lhe procurar... na verdade eu nem mesmo sei se acredito no Senhor... Não sei quem sou, não sei o que devo fazer... eu não sei coisa alguma e acho que só faço magoar as pessoas que gostam de mim... como a Fátima.” -- pausou -- "Acho que fiz muito mal a ela e... eu queria implorar que o Senhor a ajudasse a me perdoar e a não guardar mágoas de mim. Eu...” -- começou a chorar -- "Eu gostaria de me permitir viver o que ela estava disposta, mas não acho certo e não tenho essa coragem. Ela é uma pessoa maravilhosa, que me fez muito bem e que me fez ver certas coisas... embora eu não aceite um monte delas. Eu Lhe imploro pra que ela seja muito feliz, pra que volte das olimpíadas com o peito cheio de medalhas e que encontre uma mulher que saiba dar a ela tudo que eu não tive competência para dar.” -- passou a mão no rosto -- "Não vou procurá-la, nunca mais vou, porém desejo que ela saiba de alguma forma que eu desejo o melhor e... que eu a amo... talvez não do jeito como mereça, nem sei explicar como é o que sinto, mas eu acho que ela é uma das mais belas lembranças que ficarão em mim enquanto viver.” -- encostou a cabeça na parede -- "Amém.” -- continuava chorando. O som da água caindo mascarava seus soluços de dor

 

***

 

Isabela passou na casa dos pais no tempo que lhe sobrava antes de ir para a faculdade. Ana estava sozinha.

 

--Oi, meu bebê! -- abraçou a filha -- Deixe-me ver como está! -- olhou para ela -- Nossa, que aliança é essa? -- segurou a mão esquerda de Isa

 

--Estou do mesmo jeito, mãe! -- sorriu mas logo desmanchou o sorriso -- Que cheiro é esse em você? Parece catinga de charuto! Anda fumando?

 

--Eu, hein, Isa! -- afastou-se da filha e andou pela sala -- Vê lá se uma mulher da minha estirpe vai andar por aí cuspindo fumaça pela boca! Ainda mais fumaça de charuto! -- olhou para ela -- Você tem cada uma que faça-me o favor!

 

--E esse cheiro é de que?

 

--Ah, deve ser porque eu estive em um evento hoje mais cedo e uns homens fumavam... deve ter sido isso! -- mentiu -- "Esses malditos charutos que mãe Dadá me faz dar baforadas entranham uma catinga na roupa que não sai!” -- pensou revoltada

 

--E como anda a vida aqui? -- sentou-se no sofá

 

--Na mesma! -- sentou-se também -- Seu pai com a amante pra lá e eu com minha vida pra cá. -- pausou -- E você? Como está?

 

--Maravilhosamente bem! -- sorriu -- Estou adorando a vida ao lado da Ed. Ela é uma pessoa muito fácil de lidar e me trata como uma deusa. Não me arrependo um pouquinho sequer!

 

--E apartamento? Têm procurado? -- perguntou descrente

 

--Nós vimos alguns sim, mas só apareceu porcaria até agora! Aqui na zona sul tem cada cacareco pra vender! Fora outros apartamentos minúsculos que custam os olhos da cara!

 

--Não desanime! Há de aparecer alguma coisa boa! -- pausou -- Tive de dizer pra sua tia que você não mora mais aqui. Ela ficou pasma!

 

--Contou que me casei?

 

--Não falei exatamente isso, mas... ela entendeu o recado. -- olhou para as próprias unhas -- Fofoqueira como minha irmã sempre foi ela já deve ter espalhado, até porque mamãe me ligou pra tomar satisfação.

 

--E você? -- perguntou curiosa

 

--Ouvi muito e falei pouco. Ela chorou... foi um horror! -- abraçou-se com uma almofada -- Prepare-se para o próximo evento em família que tivermos!

 

--Eu vou levar a Ed quando tivermos um evento desses. Eu já conheço todo mundo da vida dela e é hora que ela conheça as pessoas de minha vida.

 

--Imagino como será isso... -- revirou os olhos -- Seu pai... nossa! Esse deu um show! Chorou e tudo!

 

--Humpf! E quando contou a ele?

 

--Uma semana depois que você partiu. Só aí ele notou que você andava sumida!

 

--Ah! Que pai maravilhoso que eu tenho! -- fez cara feia

 

--É aquela amante, querida! Quando aquela mulher sair da vida dele tudo vai melhorar!

 

--Mãe, não seja tola! Ele arrumou amante porque quis! Não pode culpá-la pelo comportamento dele! Mas, enfim, não gosto de falar nisso porque me revolta! Por mim, ele não era mais casado com você!

 

--Sai dessa! Já disse que não abro mão dos meus direitos!

 

--Direitos... -- fez um bico

 

--Mudemos de assunto, então. -- sorriu -- Como vão os ensaios?

 

--Muito trabalho, mãe! Só terminamos mais cedo hoje porque um dos bailarinos teve um problema, rolou um estresse danado e aí todo mundo achou por bem interromper.

 

--Você não fica sem trabalho, não é meu amor? -- perguntou orgulhosa -- E na faculdade? Passou em tudo? Você não me disse!

 

--Ah, passei! -- respondeu empolgada -- E hoje as aulas recomeçam!

 

Ana pensou em uma coisa e decidiu perguntar: -- Isa, você e Seyyed não vão fazer festa de casamento, não?

 

--Ah, mãe... quando a gente casou Juliana tava internada e eu mesma não quis. Depois nem me liguei mais nisso!

 

--Ah, não! -- olhou firme nos olhos da ruiva -- Vocês têm que fazer alguma coisa! Podia pedir a ela pra fazer uma recepção chique em algum lugar interessante e depois uma viagem. Por que não marcam a viagem pro final do ano? -- sugeriu -- Podiam passar uma semana em Bora Bora, ou nas Ilhas Marquesas... A Polinésia Francesa está na moda! Eu vi na revista Comiga que a filha da Malvina Duarte foi pra lá com o noivo! Coisa chique, viu, filha?

 

Isabela riu. -- Tá bom, mãe, eu vou pensar nisso!

 

Ana levantou-se. -- Quer tomar um café comigo? Hoje tem queijo Brie! Seu pai finalmente comprou coisa boa pra nós.

 

--Vamos! -- levantou-se também

 

***

 

Gisele estava no Galeão. Havia acabado de fazer o check in e despachar as cinco malas. Pagou excesso de bagagem mas estava tão feliz que fez isso com um sorriso no rosto. Caminhou até o posto de correio e despachou a carta para Anselmo. -- Vai pro inferno, fofucho! -- sorriu falando consigo mesma -- Adeus!

 

Por uns instantes pensou que deveria ter procurado pela avó para se despedir, mas não era dada a essas coisas. Maria de Lourdes certamente não gostaria de vê-la. Ela também queria mais é que a idosa ficasse longe. “Menos um problema na minha vida.” -- pensou

 

No momento de embarcar sentiu uma felicidade absurda. Quando o avião levantou vôo, olhou pela janelinha e disse mentalmente: “Adeus Brasil! Nunca mais hei de pisar aqui novamente! De agora em diante, I’m an American!” -- sorriu

 

Viajava de classe executiva. A empresa pagou classe econômica, mas Gisele completou a diferença com seu próprio dinheiro e fez um upgrade. Enquanto bebia espumante, acompanhava os detalhes de sua agenda no laptop. A empresa tinha lhe dado alguns dias para se organizar na cidade mas a partir de setembro estaria firme e forte trabalhando.

 

Estava orgulhosa de si mesma e lembrava-se de uma frase que acreditava defini-la perfeitamente: “O gênio, esse poder que deslumbra os olhos humanos, não é outra coisa senão a perseverança bem disfarçada.” 8 -- É como diria César: -- recitou para si mesma -- "Vini - vidi - vinci!” (Vim-vi-venci!)

 

***

 

Anselmo lia a carta de Gisele repetidamente e não conseguia acreditar no conteúdo dela. As palavras de sua amada eram duras demais.

 

--Não, eu não acredito! -- chorava -- Ela não pode ter mentido pra mim por tanto tempo... Não pode, não pode...

 

Anselmo retirou a carta da moça ao final do expediente, quando foi conferir os documentos em seu escaninho. Leu no carro a caminho de casa e não agüentou. Estacionou na primeira vaga que encontrou e andava perdido pelas ruas de Copacabana.

 

--Não pode ser... não pode ser... -- ajoelhou-se no chão

 

Uma senhora o abordou preocupada. -- O senhor precisa de ajuda, moço?

 

--Não, dona... -- respondeu chorando -- Agora eu não preciso de mais nada...

 

A mulher desistiu e continuou seu caminho.

 

“Como pôde ter escrito essas coisas? Como pôde ter feito o que fez? Eu a amava tanto... Como pôde ter abusado de meus sentimentos dessa maneira?” -- pensou desesperado -- "Ela foi embora... ela me deixou...” -- deitou-se no chão -- "Ela não me ama... ela não me ama...” -- chorava como uma criança

 

Anselmo, como tantos outros homens, valorizava uma mulher pelo exterior, pela beleza, pela juventude. Gisele era seu ideal de mulher, não pela pessoa que representava, mas pela aparência. Apaixonou-se pelo que podia ver e idealizou alguém que não existia para alimentar seus desejos. Ele não aceitava o passar do tempo e buscou nela uma forma de se sentir jovem novamente. “Os homens envelhecem mas nem sempre amadurecem.”9

 

Movido por uma ilusão, preso sob os encantos de Maya, sacrificou os valores que defendia em seus discursos, magoou a mulher e a filha e estava disposto a fazer mais. O abandono de Gisele lançou-lhe todas estas verdades diante de si e ele já não podia continuar fingindo não perceber o papel que fazia. Sentia dor, tristeza, decepção e vergonha.

 

Deitado em plena Barata Ribeiro passava por maluco aos olhos dos transeuntes que iam e vinham. Não tinha forças para se levantar. As lágrimas banhavam seu rosto e tudo que ele queria naquele momento era morrer. Mas a morte não atende aos nossos chamados e, mesmo se atendesse, ela não representaria de forma alguma um consolo.

 

Anselmo sabia que em seus desvarios havia perdido muitas coisas e agora podia dar-lhes as dimensões exatas.

 

***

 

Seyyed acabava de voltar da academia quando Isa voltou da faculdade. Abriu a porta da garagem para ela.

 

--Boa noite, amor! -- ela disse ao sair do carro

 

--Boa noite, minha gata! -- beijou-a rapidamente -- Como foi o dia? -- sorriu

 

--Ótimo! E o seu? -- abraçou-a sorrindo

 

--Melhor agora! -- desvencilhou-se dela -- Tô toda nojenta, suada...

 

--E quando eu me incomodei com isso? Você nem me beijou direito... -- sorriu e beijou-a novamente

 

--Vamos tomar um banho! -- levantou-a no colo e subiu as escadas rapidamente

 

Dentro do box a mecânica esfregava as costas da bailarina. -- E as aulas de hoje, como foram?

 

--Boas! A primeira foi de história da dança. A professora ficou impressionada porque eu sabia responder todas as perguntas que ela fez!

 

--Ah, mas aí não vale! -- brincou -- Uma bailarina profissa versus um monte de estudantes verdinhas... -- beijou a cabeça dela -- É covardia demais...

 

A ruiva riu. --Tem umas garotas que estão repetindo essas disciplinas e elas disseram que a professora de anatomia não é mole!

 

--Anatomia?! Você vai estudar anatomia?! -- fingiu estar revoltada -- Ah, mas isso é uma pouca vergonha, viu?

 

--Que pouca vergonha, menina! -- riu -- Uma profissional da dança tem que conhecer o próprio corpo, você não acha?

 

--Não! -- respondeu enfática -- Uma profissional da dança, se for casada, tem que delegar essa tarefa pra alguém. -- abraçou-a pela cintura -- Como eu, por exemplo. -- mordeu o pescoço dela -- Eu quero fazer um estudo anatômico meticuloso com você agora. -- deslizava uma das mãos até os seios dela e a outra para o sex*

 

--Ai, amor... -- gem*u e fechou os olhos sorrindo -- Faz o que você quiser...

 

Seyyed seguiu beijando o corpo da ruiva desde o pescoço até as nádegas. Suas mãos deslizavam por todas as partes possíveis. Isabela espalmou as mãos contra as paredes do box e se deixou estudar por completo.

 

***

 

Suzana dormia na cama de Juliana. Estavam deitadas de lado, com a mulher mais alta por fora, encaixadas como duas colheres. Um pesadelo perturbava sua tranqüilidade.

 

“21:00h. 23 de janeiro de 1979, Boa Vista, Roraima

 

Suzana espreitava uns homens que se divertiam bebendo cerveja em um boteco imundo. Aquela era a pior parte da cidade, conhecida pelos inferninhos e bares mal freqüentados. De repente surge a pessoa que ela aguardava. O homem, um careca branco de seus quarenta anos, vinha de moto com um rapaz.

 

Sentaram-se com os outros e pediram cachaça. Minutos depois Suzana caminhou em direção a eles e parou diante daquele que aguardou por tanto tempo.

 

--Olha, que indiazinha mais gostosa! -- o homem disse com lascívia -- Quanto é o serviço completo? -- olhou para os outros, que riram

 

Ela nada respondeu e apontou um revólver em direção a ele. O homem gelou. Quando a morena dispara, o jovem grita: -- Não!!! -- e joga o próprio corpo sobre o homem para protegê-lo

 

--Sua maldita! -- o homem se levanta berrando -- Veja o que fez! -- o rapaz estava inerte caído no chão -- Você matou meu sobrinho!

 

Suzana correu para longe e sumiu na escuridão.”

 

Ainda adormecida, a delegada sentia uma agonia terrível e se separou de Juliana rolando para o outro lado da cama.

 

“09:30h. 25 de janeiro de 1979, Boa Vista, Roraima

 

Suzana não havia desistido de eliminar aquele sujeito. Continuava seguindo seus passos e aguardando a melhor oportunidade. Naquele momento, o objeto de suas atenções estava no enterro do rapaz que ela matou sem querer, ao lado de um homem que regulava sua idade e chorava copiosamente. Tudo indicava que se tratava do pai do jovem.

 

Acompanhou a cerimônia às escondidas mas pôde ouvir o pastor lendo o Sermão da Montanha, evangelho de Mateus. Naquele momento, ouvindo palavras tão inspiradas,  sentiu que não poderia mais continuar com aquela vida. Não tinha o direito de matar, mesmo que se tratasse de seres da pior espécie. A mensagem do Senhor era clara: a cada um segundo suas obras. Fazer justiça não cabia a ela, mas à vida em suas múltiplas formas de ação. Não deveria repetir com os outros os mesmos atos que dilaceraram sua vida; se assim o fizesse, tornar-se-ia igual aos que julgava miseráveis. Lembrou-se dos ensinamentos da mãe. Ela dizia que o respeito à Natureza passava pelo respeito aos filhos Dela. Seu povo era guerreiro mas não belicoso. Lutavam apenas para se defender se necessário, nunca para matar com frieza.

 

Jogou a arma no chão e prometeu para si mesma que faria justiça de outras formas. Passaria o resto de seus dias lutando contra aquele tipo de gente que se comprazia em fazer o mal, só que dali por diante essa luta não faria dela uma assassina.

 

Quando estava prestes a sair dali foi vista pelo pai do rapaz. Seus olhares se cruzaram e o que ela viu ali foi puro ódio. Nada foi dito. Pulou o muro e fugiu correndo.”

 

Suzana acordou nervosa e suando frio. Levantou-se da cama com cuidado para não despertar Juliana. Saiu do quarto e foi para a cozinha. Antes disso passou na porta do quarto de Maria de Lourdes e viu que dormia tranquilamente.

 

Pegou um copo e bebia água aos poucos. Sentia-se muito mal.

 

Parou diante da janela e ficou olhando para fora. Estava perdida em pensamentos e lembranças. Não saberia dizer por quanto tempo ficou assim até que sentiu mãos delicadas envolverem sua cintura.

 

--O que foi, hein? -- a japonesa beijou seu ombro -- Eu acordei, não te vi do meu lado... -- virou-a de frente para si -- Está suada... -- passou a mão no rosto dela -- O que foi, amor? -- perguntou com carinho e a beijou

 

--Ju... -- olhou bem para ela -- Eu... tive um pesadelo! Na verdade, uma recordação de coisas do meu passado...

 

--Algo que queira me contar? -- abraçou-a pela cintura

 

--Acho que descobri onde Sammael se encaixa na minha vida... -- respirou fundo -- E acho que tenho obrigação de te dizer certas coisas...

 

--Vamos lavar esse rosto no banheiro, aí vamos pra cama e você me conta. Vem? -- segurou as duas mãos dela

 

--Vamos.

 

***

 

Suzana e Juliana estavam sentadas na cama. A japonesa envolvia a cintura da delegada com as pernas e seu pescoço com os braços. -- Agora está melhor! -- as duas sorriram -- O que tem pra me dizer, amor?

 

--Eu... escuta, Ju, me deixa falar e depois você me diz o que quiser. Pode até me mandar ir embora dessa casa se pensar que é o que deve fazer! -- olhou bem para ela -- Meu povo era místico e guerreiro, e eu circulava por esses dois lados. Minha mãe era xamã e meu pai virou guerreiro. Meu avô materno também era, meus tios... Meus irmãos homens não eram tão bons quanto eu, então os homens da família me permitiram ser guerreira, mesmo sendo mulher. Eu lutava e ao mesmo tempo participava dos rituais de minha mãe. -- pausou -- Quando aqueles malditos resolveram nos atacar, eles chegaram de surpresa e eu sobrevivi àquela chacina somente porque estava em um local isolado por conta de uma espécie de iniciação a qual estava sendo submetida. Eu ouvi os gritos, tiros, uma coisa estranha... Decidi voltar à tribo para averiguar e quando cheguei lá... estavam todos mortos... -- uma lágrima rolou-lhe pelo rosto. Juliana olhava para ela penalizada -- Eu fiquei muito confusa. Meu coração era somente dor, revolta e muito ódio.

 

A japonesa não dizia nada, apenas acariciava seu rosto.

 

--Eu fiquei escondida no mato espiando pra eles. Memorizei todos os rostos que pude, como se dependesse daquilo pra viver. Percebi claramente quem eram os chefes e quem eram os idiotas que simplesmente seguiam ordens. -- pausou -- Jurei a mim mesma que vingaria minha tribo. Resumindo posso te dizer que... -- estava envergonhada -- matei quase todos os chefes... e os assassinos que ficaram vivos meti na cadeia. Mas a parte da cadeia só aconteceu depois de ter entrado pra polícia, claro. -- olhou para ela e não sentiu qualquer condenação, apenas encontrou um olhar carinhoso e compreensivo em retribuição -- Nesse processo de vingança, minha vida foi um verdadeiro inferno... não tem idéia do que sofri! -- pausou -- Quando faltava matar um dos últimos miseráveis, o último dos chefes, aconteceu uma coisa terrível... ele tinha um sobrinho e o rapaz quis salvá-lo da morte. Na hora em que eu atirei ele se jogou na frente do desgraçado e... eu... eu... -- começou a chorar

 

--Eu entendi, amor, não precisa dizer se não quiser... -- chorava também

 

--Eu preciso dizer, Juliana! Tenho que confessar! -- olhou para ela e limpou os olhos -- Eu o matei sem querer... -- fungou -- Eu não queria, mas ele... ele quis salvar o tio e...

 

--Eu entendo!

 

--Fiquei pensando, pensando... eu fui no enterro dele. Fiquei escondida... O pai dele chorava desesperado. Enquanto espreitava ouvi uma pregação que me fez desistir de me vingar matando aqueles malditos... Quando fugi do cemitério o pai do rapaz me viu... -- pausou -- Acho que matei o filho de Sammael. -- olhou para baixo -- E com isso criei um psicopata!

 

--E por que você não se tornou uma psicopata, hein? -- segurou o rosto dela com as duas mãos -- Tinha muitos mais motivos que ele pra isso! Amor, olha pra mim. -- ela olhou -- Você errou, não vou mentir, mas você era uma pobre jovem, uma adolescente, que de repente se viu sozinha no mundo e desprovida de tudo! De tudo! É completamente natural que tenha feito o que fez. Não é o certo, não mesmo! Mas é compreensível... -- beijou-a -- E Sammael... ele sofreu, deve sofrer ainda hoje, mas você não fez dele um monstro. Você impôs um sofrimento na vida dele, mesmo que sem querer, e ele usou esse sofrimento como desculpa pra se tornar um monstro. Já estava dentro dele, Suzana... A podridão já era dele, não foi você quem a instalou lá!

 

--Eu... -- ainda chorava só que de forma contida -- Eu devia confessar meus crimes e ser presa, como todo assassino deve ser!

 

--Você não é um monstro! -- beijou-a -- Você é advogada, sabe que existem os atenuantes... Você matou em uma fase de desespero na sua vida e ainda assim teve sensibilidade para se deixar modificar pela palavra de Deus. Há anos aquela jovem perdida e confusa não existe mais... precisa aprender a se perdoar... e pedir a Deus o Seu perdão.

 

--E como acha que posso fazer isso? -- perguntou em desespero -- Eu não mereço esse perdão!

 

--Todas as pessoas merecem! Seu arrependimento é sincero e sua atitude mudou! Você mudou!

 

--Você não vai me mandar ir embora? -- perguntou insegura

 

--Eu jamais faria isso... -- beijou-a -- Eu te amo, Suzana. E continuo amando mesmo sabendo de tudo o que me contou. Não se ama alguém por causa de, mas apesar de.

 

A delegada abraçou-a com força e fechou os olhos. -- Não me deixe, por favor... não me deixe...

 

--Não vou deixar. -- respondeu com delicadeza -- Mas quero lhe pedir uma coisa. -- olhou para ela -- Perdoe-se e peça perdão a Deus.

 

--Ainda não posso...

 

--Tudo bem. -- acariciou seu rosto -- Mas eu vou tentar ajudá-la a se sentir preparada para isso. E talvez um dia possa ter paz no seu coração... -- sorriu

 

--Eu tenho que prender aquele homem, Juliana. Eu me sinto culpada pela morte de cada mulher ou homem que tenha sido causada por ele ou por aquela maldita seita que ele fundou!

 

--Você vai prendê-lo, precisa apenas se concentrar. -- falava com delicadeza -- É como dona Olga lhe disse uma vez, ele se alimenta de seu ódio. Quando encontrá-lo comece a orar mentalmente e verá que ele não conseguirá provocar dores em você. Além do mais eu oro sempre por você, meu amor!

 

--Eu sei... e é por isso que ele te queria morta!

 

--A Polícia Federal e vocês já conseguiram quebrar muito da estrutura dessa seita. O reino de Sammael está com os dias contados!

 

--Ele anda escondido por causa de tudo isso, mas sei que vai reaparecer.

 

--E quando isso acontecer, esteja preparada! -- beijou-a -- No mais, peça a Deus que o ajude a um dia perdoar você. -- pausou -- E no dia que o tiver subjugado diante de si, peça perdão a ele, mesmo que ele nunca te perdoe, mesmo que isso te pareça absurdo...

 

Suzana sorriu para ela. -- Você foi o que de melhor poderia ter acontecido na minha vida! Eu te amo, Juliana!

 

--Também te amo! -- beijaram-se com muito carinho

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Música do Capítulo:

 

[a] Vá. Intérprete: Vanessa da Mata. Compositores: Vanessa da Mata / Lokua Kanza. In: Bicicleta, Bolos e Outras Alegrias. Intérprete: Vanessa da Mata. Sony Music, 2010. 1 CD, faixa 9 (4min38)

 


Comentar este capítulo:
[Faça o login para poder comentar]
  • Capítulo anterior
  • Próximo capítulo

Comentários para 10 - Terceira Temporada - BUSCAS I:
NovaAqui
NovaAqui

Em: 15/06/2024

Medo do Silvio querer fazer alguma coisa com a Ed ou Isa

Fátima seguiu o caminho dela. A loira belzebu não quis

Me divirto com Juliana kkkk

E Anselmo se ferrou. Bem feito 

Vovozinha ficará bem com as meninas


Solitudine

Solitudine Em: 15/06/2024 Autora da história
Olá querida,

Vamos ver se o Silvio fará algo ou se é apenas um cão que ladra em vão.

Camille, assim como todo o elenco, ainda está muito presa aos Encantos de Maya; talvez ela um pouco mais que a média. E Anselmo também, Ana... mas a vida ensina. Igual é conosco.

Dona Lourdes até que se deu bem, não? rs

Já percebi que Juliana fisgou seu coração (cuidado com a delegada!).
Beijos,
Sol


Responder

[Faça o login para poder comentar]

jake
jake

Em: 17/03/2024

Olá Sol. Estou só aguardando o q a vida reserva p/ Gisele, infelizmente é a realidade Maus tratos e oq n falta nesses asilos mtas vezes com agressão.Trabalho na area da saúde  e vejo cada coisa,so Deus. Ju e uma mulher especial,humana,divertida e está mostrando a Su que perdoar e se perdoar e o melhor caminho por isso e protegida .Fátima está de parabéns deixou de ser tapete de Camile. Isa precisou levar um choque de realidade p/ vê que na vida tdo muda a todo instante p/melhor ou pior.Ed como sempre perfeita. Silvio q ser desprezível...Sabrina é o arrependimento em pessoa. E Camile se redimindo. Autora  não canso de lhe dizer que aprendo mto com seus textos vc é um ser iluminado. Saiba que  através da sua escrita vc ajudou e ajuda  a mtas pessoas  com suas reflexões isso eu n tenho dúvidas.  Felicidades pra vc e toda sua Familia. Bjs..


Solitudine

Solitudine Em: 22/03/2024 Autora da história
Gisele é muito fria e interesseira. Anselmo se encanta com ela apenas por causa de sua juventude e beleza.
Imagino que você veja muito desrespeito e maldade com os idosos. Nem trabalho na área e também vejo, o que muito me revolta!
Juliana era tudo que Suzana precisava e ela também andava merecendo uma delegada, não? rs
Fátima ama Camille, mas ela percebeu que a loura não tem condições se relacionar como deveria.
Isa teve medo, aí deixou de ouvir os conselhos da mãe.

Obrigada por estar aqui lendo e comentando. Você é um amorzinho!

Beijos,
Sol


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Samirao
Samirao

Em: 07/10/2023

Amoreee!!! Reli Maya TODINHA e amei de novo! Viajei no tempo... coloquei as chamadinhas das músicas do jeito que ce me passou. Dei aquela garibada


Solitudine

Solitudine Em: 11/11/2023 Autora da história
Muito obrigada por TUDO!!!!
Beijos,
Sol


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Femines666
Femines666

Em: 09/03/2023

Não parei de ler desde que peguei. É maravilhosa!


Resposta do autor:

Que bom que você se rendeu e ficou Sob o Encantosde Maya! rs

Obrigada!

Beijos,

Sol

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Alexape
Alexape

Em: 10/12/2022

Estou lendo desde ontem sem parar pra dormir. Essa história é maravilhosa!!!! TV Globo olha isso!!!


Resposta do autor:

Olá! Leitora nova!

Que bom que a história te prendeu! Espero que ela continue te mantendo interessada!

Obrigada por comentar!

Beijos,

Sol

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Seyyed
Seyyed

Em: 12/09/2022

Gisele deu o maior pé no fofucho! Bem feito! Ju na Ivone... hehe gostei dela ter pego a coroa pra cuidar. Tá muito foda o caso da delegada perseguindo o psicopata! Meu casamento tá uma delicia... hehe


Resposta do autor:

Gisele estava apenas seguindo um plano e Anselmo caiu como uma luva aos propósitos que ela alimentava.

Juliana é bem ímpar em suas sessões de terapia. E ela gosta de idosos; o encontro com dona Lourdes era inevitável.

Suzana se envolveu nessa caçada de corpo e alma. 

Seu casamento... concordo! rs

Beijos,

Sol

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Seyyed
Seyyed

Em: 12/09/2022

Recomeçando a ralação da leitura... enquanto casei com Isa que pediu arrego antes com medo de perder pra Ju segue Cami no tormento do negacionismo. Perdeu Fátima. Essa mina é muito terraplana puta merda... tô rindo com Lady e o tal do Carlão hahaha será que é? Hehe e minha sogra nas encruzilhadas?? Morri! Hehehe


Resposta do autor:

Isabela morreu de medo de perder você para Juliana e aí decidiu ouvir a si mesma quanto ao que fazer. E casou! rs

Camille avançava muito lentamente naquela época, mas era o tempo dela. E o tempo de cada pessoa é único.

Lady era complicada para escolher namorado, como você pode perceber. rs

Sua sogra apelou para tudo e mais um pouco! rs

Beijos,

Sol

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Gabi2020
Gabi2020

Em: 17/04/2020

Solzinha!!

A história da dona Lourdes é triste, mas infelizmente é a realidade de muitos. Que bom que filha do Jaspion tomou as dores e vai cuidar dela... Filha do Jaspion ... Kkkkkkk... Adorei o deboche da Juliana.

 

Eita Camille! Delicada como o coice de um cavalo, como ela mesmo diz: Ô loco meu!!

 

Isinha fofinha... Own... Brincadeiras à parte, impossível não se sensibilzar com o ocorrido com a Joice.

 

Da série coisas que não lembrava: Mãe Dadá e Carlão que na verdade era Carla... Gente!! Carlão que figura hein?

 

Sivio entrou num caminho sem volta, que pena! Estragou a vida à toa.

 

Esse fofucho é um pateta, dá até dó e Gisele, bom essa aí sou bem se aproveitar do bobão. 

 

Jiraya sapatão... Kkkkkkkk....

 

Renata Dentes de Aço, Guiomar dos Olhos que tudo Vê, Anitte la Tentacion... Olha Solzinha, a Samira tá de parabéns viu? É cada nome, que me acabo de rir aqui. Agpra filé de borboleta é demais!! Kkkkkkkkk...

 

Beijoss

 


Resposta do autor:

Gabinha!

Acabei Transformações III e por hoje é só.

O caso de Joice serve para refletir como que coisas feitas às vezes sem intencionar maiores consequências podem gerar grandes danos às pessoas.

 Não lembrava dessas figurinhas? Então faz bem em reler. Quando eu terminar o Tao, releia também! E comente!! kkk

Mas dona Lourdes encontrou tudo que precisava encontrar, não foi? E Camille... digamos que às vezes ela é só uma Lady versão tolerância zero! kkk

Os apelidos do conto realmente fui eu quem inventei, mas Samira sem dúvida me inspira com os apelidos que ela inventa na vida real. kkk

Beijos!!

Sol

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Irina
Irina

Em: 11/04/2020

Maria de Lourdes habitando o mesmo lar de Juliana! Maravilhoso! Muito me ponho a rir com os codnomes de Gisele! hahahaha Lamentei tanto que Camille e Fátima não estão. E a música que escolheste foi para castigar, oras! Este Silvio é um inconveniente. Destrata Seyyed e quando está paiado vem a pedir ajuda. E o Carlão de Lady... deve gostar de homem tanto quanto a noiva. Ana e suas mandingas mereceria uma história à parte. Anselmo e sua fofucha me aborrecem. Vejo muitos! As cenas de Seyyed e Isabela me atiçam!!! Ui!

Nota, ainda me matas!! Em CONVIDE eu também... melhor ser discreta. rs


Resposta do autor:

Maria de Lourdes conquistou o coração de Juliana e ela foi com tudo! E a japonesa é chegada a um apelido, cá para nós. rs

Desculpe pela música mas busquei escolher sempre bem afinadas com os temas e cantadas por mulheres. Maya é toda uma história de mulheres.

Continue lendo sobre o Carlão e você verá.

Anselmo conseguiu muitas antipatias. E anti fãs! Mas ele também tem uma história. Todos neste conto têm. Nunca escrevo finais tristes.

Seyyed e Isabela têm inspiração. Sem comentários... rs

Espero que continue bem viva!

Sol

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Luhemi
Luhemi

Em: 26/07/2018

No Review


Sem cadastro

Sem cadastro Em: 05/05/2024
Uai? Eu respondi o outro mas sinceramente não entendi a mensagem. Será que você lembra?
Beijos,
Sol


Responder

[Faça o login para poder comentar]

Gagia
Gagia

Em: 05/02/2018

"Só se encontra o que se busca. O que nos é indiferente nos foge"

Esta frase agora consta em meu perfil e em diversos outros lugares. Marcou-me deveras.

Esta temporada de buscas foi realmente frenética. Estive tensa em vários momentos mas houve descontração e muito romance. És uma romântica incorrigível, não seria? Por favor não te aborreças comigo pois não são pequenos assédios estes meus comentários. Sei que és casada e isto muito respeito.

Como conseguiste montar quebra cabeças tão intricando como aquele das drogas, notas fiscais, roubo de remédios, psicopatas, vídeos macabros e magia negra? Perdi até o fôlego. Leste Agatha Christie decerto. Genial como a diva inglesa.


Resposta do autor:

Creia que esta frase também muito me marcou.

Sim, sou romântica e apaixonada pela vida, embora fraqueje em determinados momentos, como o atual

 Acredito no Amor, acima de Deus.

 

Leio muito. Isso ajuda. 

Agatha Christie?? Nossa! Ganhei o dia!!

Responder

[Faça o login para poder comentar]

Informar violação das regras

Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:

Logo

Lettera é um projeto de Cristiane Schwinden

E-mail: contato@projetolettera.com.br

Todas as histórias deste site e os comentários dos leitores sao de inteira responsabilidade de seus autores.

Sua conta

  • Login
  • Esqueci a senha
  • Cadastre-se
  • Logout

Navegue

  • Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Ranking
  • Autores
  • Membros
  • Promoções
  • Regras
  • Ajuda
  • Quem Somos
  • Como doar
  • Loja / Livros
  • Notícias
  • Fale Conosco
© Desenvolvido por Cristiane Schwinden - Porttal Web