Segunda Temporada - ENTRELAÇADAS III
Maria de Lourdes voltava do mercadinho quando foi atropelada por um jovem adolescente que passeava de moto. A mulher caiu pesadamente no chão e gritou: -- Ai, minha perna!! -- levou as mãos ao joelho. Observou que a perna direita estava completamente torta
--Ih, tia foi mal! -- o jovem disse apavorado antes de fugir
--Senhora! -- um homem veio correndo com gelo nas mãos -- Ai, meu Deus a senhora tá toda machucada... -- olhou penalizado para ela -- Esses pais irresponsáveis que dão moto nas mãos de pirralho! Depois quando o filho morre ficam aí chorando! -- protestou
Outras pessoas ajudavam catando suas compras espalhadas pelo chão.
--Como está? -- outro homem perguntou penalizado
--Eu não consigo me levantar... -- ela respondeu chorando -- Por favor, ligue pra minha neta!
***
Gisele estava no trabalho quando recebeu a notícia de que a avó havia sido atropelada. Chamaram a SAMU e a senhora foi levada para o Hospital de Bonsucesso. A moça ligou para o amante.
--Anselmo preciso de sua ajuda! -- afirmou com seriedade
--O que foi, fofucha? -- respondeu desconfiado do outro lado da linha
--Acabo de saber que vovó foi atropelada por um molequinho e mandada pro Hospital de Bonsucesso. Preciso de sua ajuda pra levá-la pra um lugar melhor!
--Mas que chato! E como ela está? -- perguntou preocupado
--Parece que quebrou o joelho, não sei. Eu tava em atendimento e recebi a notícia horas depois do ocorrido. -- deu um suspiro -- Velho só serve pra dar trabalho, que saco!
--Gisele, ela não tem culpa de ter sido atropelada! Além do mais estes pais irresponsáveis dão carro ou moto a jovens sem condição alguma de dirigir! Eu só dei um carro a Isa quando ela tava preparada pra isso.
--Mas e então? Me ajuda ou não? -- perguntou impaciente
--Eu tô meio sem dinheiro, meu amor. Depois do seu carro, daquelas roupas que me pediu e do colar de brilhantes fiquei apertado...
--Humpf! Tá, Anselmo, eu me viro... -- respondeu contrariada
--Mas calma! Tenho um cliente que é diretor do Silva Avelar e posso pedir pra ele arrumar uma vaguinha pra dona Lourdes lá.
--E aquela merd* é melhor que o Hospital de Bonsucesso em que? -- perguntou impaciente -- Eu pensava num hospital particular!
--A ortopedia de lá é muito boa, sim senhora. Aguarda um pouquinho aí que daqui a pouco retorno. Beijo!
--Beijo... -- ainda estava contrariada. Desligou o telefone
Gisele tinha umas economias no banco mas não queria gastá-las com a avó. Também controlava a pensão dela e usava o dinheiro praticamente todo consigo mesma. Ela mantinha uma boa soma a qual pretendia usar quando fosse transferida para os Estados Unidos. Pelo que percebia da chefia, sabia que estava bem cotada para integrar a equipe que se formava em Nova York.
“Se Deus quiser esse negócio com vovó não há de ser nada de mais. Eu não perco minha ida pros Estados Unidos por nada!” -- pensou determinada
***
Isa estava deitada de bruços na cama da mãe, a qual analisava as próprias roupas diante do espelho para escolher o que usar no espetáculo da filha.
--Você nem parece que vai estrear depois de amanhã. Que tristeza é essa, minha filha? -- Ana perguntou preocupada enquanto analisava um vestido -- Percebi que chorava no quarto ontem à noite mas não fui lá falar contigo porque comecei uma discussão com Anselmo por outra razão!
--É a Ed... Há pouquíssimos dias atrás eu falei com ela que queria que a gente morasse aqui na zona sul...
--Até que enfim! -- olhou para ela -- Mas pelo visto ela não reagiu muito bem!
--Não... eu falei coisas... fui uma idiota! -- suspirou -- Ela não sente firmeza em mim e tá ofendida com toda razão, sabe? E ainda tá zangada comigo...
--Você deixou pra falar muito em cima! Deveria ter dito isso desde o dia em que disse ‘sim’ a ela. -- voltou a analisar as roupas -- Estou tão mal de roupas... Também, Anselmo só vive sem dinheiro, porque, claro, mete tudo na conta daquela uma... Eu deveria ter pedido pra Ed me dar um vestido novo!
Isa levantou a cabeça surpresa. -- Faça-me o favor, mãe! Já não basta sua cara de pau sempre mandando ela pagar os táxis? -- retrucou -- E eu falei de morar por aqui tão em cima assim porque mudei de idéia há pouco tempo...
--Você é muito lerda pra enxergar as coisas e tomar as decisões certas, Isa! Não sei como pode! Uma moça tão culta, inteligente, viajada... Eu hein?
--Vai ver eu sou uma caipira de Pau d’Arco...
--O que?? -- olhou para ela sem entender a expressão
--Nada, mãe... é uma brincadeira nossa...
--Ed está de mal com você? -- perguntou preocupada
--Não... ou sim... sei lá! -- virou-se para deitar de barriga para cima -- Ela não me procurou ou telefonou mais.
--Segundo você mesma fazem poucos dias que conversaram. Seu pai vai nos levar de carro pro Theatro, mas certamente você a verá assim que colocar os pés lá. Aliás, não entendi porque devolveu o carro a ela na semana passada!
--Porque eu sabia que não iria pra faculdade hoje e amanhã, além do fato dos professores terem avisado que não haveria aula na segunda. Então pra que eu queria o carro dela? Pra usar só terça e quarta? -- esfregou o rosto -- Gente, será que eu vou me dar muito mal na faculdade? Vou faltar em oito quintas e sextas!
--Ai, filha, como você é tola! -- reclamou -- Ah, e quanto aos estudos você tira de letra! Além do mais aquela faculdade tinha que te homenagear, isso sim! Uma artista que prestigia aquele curso abrilhantando-o com sua presença.
Isa riu. -- Acho que tem lido colunas sociais demais, mãe! Esse negócio de ‘abrilhantar’ é verbo que só colunista usa! Coisa cafona... -- riu de novo -- Mas... eu não queria que ela desacreditasse de mim ou do meu amor... -- fechou os olhos -- Se ela soubesse como eu a amo...
--E nem deve saber! Enquanto não souber, vai comer sempre na sua mão! -- foi até a cama e se sentou -- Filha, escute, seja esperta. Você a verá na estréia e depois do espetáculo poderia ir pra casa dela... Seria uma boa hora pra usar o sex* a seu favor...
--Mãe, você fala cada coisa! -- abriu os olhos
--Eu já disse pra você que tem aprender a levar a coisa: fechar as pernas no momento certo e abri-las no momento exato. Seja firme! Não abra mão do que você quer, que é morar aqui!
--O que eu quero é ela, mãe! -- sentou-se na cama e olhou para a mulher mais velha
--Você a quer, mas não pode ser burra por causa disso... Saiba manter sempre o controle da situação.
***
Seyyed estava deitada de bruços na cama da mãe que escolhia um vestido para ir na estréia de Isa. Mariano assistia TV na sala.
--Pra homem é mais fácil essa coisa de roupa! Mariano já sabe como se vestirá, e eu aqui às voltas com vestido.
--Eu vou com um vestido que Isa viu no shopping de Botafogo e me infernizou a vida pra eu querer... Ela me deu de presente.
--Você fica bonita de vestido!
--Mãe, a senhora acha que eu fico bonita com qualquer coisa! Até se eu pegar saco de comida pra galinha e pedir pra sua cunhada fazer três buracos, um pra cabeça e dois pros braços, a senhora vai me achar gataça! -- riu
--Não tenho culpa de você ser bonita! -- olhou para a filha -- Que acha desse?
--Perfeito!
Olga riu. -- Se eu investisse na moda de roupa de saco de galinha, acho que você também me acharia perfeita.
--Não tenho culpa da senhora ser bonita. -- riu de novo
Olga colocou o vestido sobre uma cadeira e sentou-se na cama perto da filha. -- Está rindo e brincando mas não está feliz... O que houve, Seyyed?
A morena respirou fundo. -- É a Isa, mãe... Nessa altura do campeonato ela me veio com uma história de que minha casa está impregnada de Juliana por todo canto... agora quer morar na zona sul. E ela nunca tinha dito isso! E também me disse umas coisas... Eu acho que forcei a barra com ela, sabe? Não devia tê-la pedido em casamento... Acho que Isa não gosta de mim como diz amar.
Olga pensou bastante antes de falar. -- Ela se apaixonou por você, sim, filha. Nota-se na mudança de comportamento que ela adotou ao longo do tempo. E na forma como te olha, como se envolve nas suas coisas... o problema de Isa é um só: falta-lhe personalidade. Veja a mãe dela... eu não deveria dizer isso, mas aquela mulher é muito interesseira! Ela tá de olho no seu dinheiro e só quer se aproveitar.
--E eu não sei? É uma cara de pau! Só aturo aquela mulher porque é mãe da Isa e eu tenho que ter respeito...
--E você é sempre muito boba com suas namoradas, Seyyed. Com Isa ainda mais que com todas! Você empresta carro, libera cartão, faz tudo que ela quer... Amar uma pessoa não é ser manobrada por ela, filha! Amar uma pessoa não implica em fazer tudo o que ela quer! Eu amo você e nunca satisfiz todas as suas vontades! Nem eu e nem Khazni! Eu amo Mariano e também não faço tudo que ele quer, assim como não satisfazia todas as vontades de seu pai. Se a pessoa age dessa forma, a outra tende a abusar. Isso é do ser humano!
--Juliana nunca abusou!
--Juliana e Isa são completamente diferentes, não sabe disso?
--É, eu sei... -- respirou fundo -- Que acha que devo fazer, mãe?
--Você realmente ama Isabela? Ou apenas gosta dela e a deseja muito?
--Amo, mãe! -- respondeu chateada -- A senhora tem sempre essa mania de dizer que eu não amo minhas namoradas. É como se eu fosse uma tarada que só pensa em sex*!
--Eu nunca disse isso, mas acho que confunde amor com outras coisas... Enfim, não deixe Isabela se aproveitar de você! Muito menos a mãe dela!
--Mas o que acha que devo fazer?
--Pense no que deseja fazer e no que poderia fazer. Pense nos prós e contras de cada decisão e peça orientação a Deus. Daí, faça o que julgar mais correto.
--Mãe, por favor, me dá uma resposta mais objetiva! -- sentou-se na cama
--Eu nunca lhe disse o que fazer, Seyyed. As responsabilidades por suas decisões devem ser suas!
A morena balançou a cabeça. -- Às vezes eu queria que a senhora fosse menos transcendental e mais terra terra.
--Vai ter que aguardar a próxima mãe da próxima encarnação. -- sorriu
--Não... -- olhou sorridente para ela -- A senhora é a mãe perfeita! Só mesmo seu espírito pacífico pra dar calma a esse coração voluntarioso que eu tenho.
--Pense com calma, filha. Não seja, nunca seja, rude com ela e faça o que for melhor segundo seu entendimento. Não desista dela por um motivo banal e nem se case como se dependesse disso pra viver.
--Me dá um abraço? -- pediu
--Claro meu amor! -- as duas abraçaram-se com muito carinho
***
Juliana estava no consultório de Ivone.
--Tô indo bem na medida do possível... -- falava com serenidade -- Desde que Suzana me deu aquele fora eu não a procurei mais. Não sou mais aquela que fica obcecada atrás de alguém que diz que não me quer. E também não fico mais deprimida por causa disso...
--Você está bastante estável, isso é notório. Porém, como não poderia deixar de ser, dadas as circunstâncias, aparenta tristeza.
--Sabe... Uma parte de mim acredita que Suzana fez o que fez pra me proteger. Essa coisa horrorosa que se relaciona à morte de Patrícia, enfim. Outra parte acredita que ela dizia a verdade, uma vez que me disse todas aquelas coisas sem qualquer expressão no olhar. Era como se não sentisse coisa alguma...
--As duas hipóteses são possíveis. Qual delas considera a mais provável?
--E se eu disser que não sei? -- deu um sorriso triste -- Porém, independentemente de qualquer coisa, continuo orando por ela todos os dias. Não tenho raiva dela, Ivone...
--Peça a Deus que lhe permita conhecer a verdade em relação ao que realmente motivou o término do seu relacionamento. E peça também que a ajude a permanecer estável e serena como se encontra.
--Tenho feito isso e tenho me mantido muito ocupada. Arrumei um segundo emprego em uma clínica particular na Tijuca. Mal me sobra tempo pra me coçar. -- pausou -- E ainda continuo com minhas atividades solidárias, digamos assim.
--É bom manter a mente mergulhada em coisas úteis, mas permita-se também um tempo pra você, pro seu descanso.
--Posso ter um descanso, mas com meu salário lazer é luxo! -- riu -- Ainda tenho uma vida confortável porque Ed paga meu aluguel e me dá uma pensão, mas isso vai acabar e voltarei ao padrão normal de uma enfermeira. -- pensou -- A gente ganha muito mal, Ivone, vou te contar... É uma pouca vergonha o salário que pagam pra nós. É por isso que tem colega aí trabalhando em um monte de lugar pra ter um dinheiro melhorzinho no final do mês. Eu mesma vivia nessa loucura antes de casar com Ed.
--Eu sei, meu bem, não comecei carreira com a vida que tenho hoje. Os profissionais de saúde são tratados com muito descaso nesse país. Por sua vez, muitos destes mesmos profissionais trabalham com descaso, e aí é o círculo vicioso... Mas, continuando... gostaria de falar sobre o novo emprego?
--Ah, minha filha, já rodei uma baiana de muito respeito naquela clínica!
-- E por que? -- perguntou rindo -- Você mal começou...
--Porque eles têm a capacidade de cobrar por tudo, absolutamente TUDO, e muito bem cobrado. Só não cobram pelo oxigênio que as pessoas respiram porque não têm como medir o consumo! -- contava -- O coordenador queria que eu gastasse mais gaze no curativo de uma criança pra poder cobrar mais caro. Coisa de centavos, sabe? Aí eu virei pra ele e disse: “-- Tem vergonha de ser tão miserável, não? Eu hein? Vê lá se eu vou ficar enrolando os outros, meu filho! Vá se danar!” -- pausou -- Veja como estou fina agora, nem xinguei palavrão. -- sorriu -- Olha uma curiosidade: sabia que Ed e Suzana não xingam? Engraçado que só arrumo mulher de classe!
--É, de fato o nível das suas reprimendas melhorou sensivelmente. -- sorriu -- Mas estou surpresa que ainda esteja nesse emprego.
--Eles sabem que não se encontra uma enfermeira boa e tarimbada em atendimento de emergência em qualquer esquina. E os pacientes estão gostando de mim. Aí, como diria aquele técnico: “têm que me engolir!”. -- sorriu
--E como vão as coisas no Silva Avelar?
--Aquela loucura de sempre! -- lembrou-se de um fato -- Ah, há pouco tempo chegou uma senhora na ortopedia pra fazer implante de prótese no joelho. Me deu uma pena dela! Que criatura largada, sabe? Parece que ninguém a ama....
--Ela não tem parentes?
--Tem. Chegou acompanhada pela neta e por um homem. Sabe desses caras ridículos, nitidamente casados, que ficam de caso com moça nova? Era um desse tipo assim. E a neta da senhora era uma moça que devia ter seus vinte anos; era desse tipo metida a gostosa que usa roupitha de poposuda. Cada movimento dela era friamente calculado! -- imitava a mulher -- Parecia até o Chapolin do sex*, sabe como é?
--Chapolin do sex*?! -- riu
--Eles chegaram com uma banca danada... o coroa tem um pistolão lá com não sei quem e arrumou de operarem a senhora na frente dos outros pacientes, só que na hora H faltou energia no centro cirúrgico e as operações foram adiadas.
--Tenho pena dos pacientes quando essas coisas acontecem!
--E eu! Não era jamais pra acontecer um troço desses! Cadê o gerador do hospital? Mas enfim, a gostosuda deu um pití quando descobriu que a avó não foi operada, gritou com um monte de gente, inclusive comigo, e logo depois estava lá tratando a mulher pior do que se fosse uma cachorra. Aí, Ivone, não conversei! Tinha aturado o showzinho dela porque entendo que a família fique possessa quando acontece essas coisas, mas vendo que não tinha respeito por ninguém, fui lá chamar na chincha! Virei pra ela e disse: “--Escuta aqui, ô estagiária de bordel, você faz teus escândalos na tua casa, com tuas negas e nos teus logradouros de serviço. Aqui é lugar de respeito e você tem que ter noção das coisas. E trata de falar com tua avó como se deve porque tem que ter respeito pelo idoso, sua vaca braba! Além do mais ela é tua avó!”
--Minha nossa, Juliana. E o que ela disse? -- perguntou surpresa
--Veio querer me encarar mas eu a coloquei no lugar dela! Disse que metia-lhe a mão nas fuças! Que me processasse à vontade, mas os tapas que iria levar, advogado nenhum podia remover. E ainda falei: “-- Tem que ter respeito pelo funcionário público, sua doida! E cata do chão aí os pregos da tua ferradura, porque caiu tudo!”
--Ai, Juliana, cadê a mulher espiritualizada que você se tornou? -- Ivone perguntou rindo
--Eu já te disse que não sou fofinha, Ivone! Eu não flutuo, não me alimento de prana e não saltito de roupinha branca quando estou menstruada. Posso ter ficado uma pessoa um pouco melhor, menos boca suja, mas o pavio ainda é curto! Não vem com abuso que eu vou em cima! -- endireitou a roupa -- E eu não admito desrespeito com idoso!
--Você gosta muito dos velhinhos, não é?
--Eu gosto... podem ser pessoas muitas vezes difíceis, mas são dotados de experiência, de maturidade... muitos são carinhosos, geralmente têm uma fé muito convicta... Não se pode querer que o idoso seja igual ao jovem, são momentos diferentes na vida de uma pessoa! O idoso é mais frágil, e torna-se mais indefeso que uma criança, porque a criança caminha pra independência e o idoso caminha pra involução. -- pausou brevemente -- Eu tenho a maior paciência, sabe? Na nossa cultura oriental o idoso é muito respeitado, e eu fui criada assim, dentro desse pensamento. Com o tempo, conforme fui me dedicando mais a profissão, aprendi a amar as pessoas de cabelinhos brancos. -- pensou -- Ah, Ivone se você soubesse quantas famílias abandonam seus idosos nos hospitais por aí afora e nunca mais aparecem! E a falta de respeito, a maneira de falar com a pessoa, a falta de paciência...
--Eu sei como é. Mesmo na casa espírita, vejo pessoas que não têm a menor consideração pelos idosos e criam os filhos sem respeito pelos avós. Desde cedo a criança aprende que o velho é alguém que dá trabalho e tudo que dá trabalho tem que ser descartado. Depois eles não entendem porque os filhos os abandonam quando envelhecem...
--Talvez um dia, se alguém abandonar um idoso no Silva Avelar, eu o adote. Nem que a gente passe fome juntos, mas vou chamar pra mim a responsabilidade.
--Teria coragem? -- perguntou curiosa
--“O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não.”16 -- sorriu
--Você, fazendo citações? -- riu -- Cada vez me surpreende mais, Juliana...
***
Suzana andava tendo pesadelos confusos, mas no final aparecia uma luz muito forte e era como se todo o mal fosse expulso com autoridade. Não entendia o que estava se passando.
Depois do telefonema no dia do casamento de Olga e Mariano não havia mais tido notícias do ‘velho’ e não conseguia localizá-lo de forma alguma.
Os homens presos em Niterói já estavam em liberdade e ela pensava em como poderia prender o ‘filho’ sobrevivente de novo. Após a misteriosa morte de José, Luis, Clóvis e Nilton contavam com sérias possibilidades de responder em liberdade novamente, uma vez que não confessaram o crime e que não haviam provas consideradas inquestionáveis para responsabilizá-los pelo assassinato de Patrícia.
A delegada também andava muito abatida, sofrendo de saudades por Juliana, mas não voltava atrás em sua decisão de não procurá-la.
--Chefe... -- Brito despertou-a de seus pensamentos. Sentou-se diante dela -- Cadê a Juliana? Ela sumiu e desde então você anda tão desanimada... Nem parece aquela que conheço. -- pausou -- Fiquei muito cismado ontem na operação que fizemos naquela boca de fumo. Você não curtiu como de costume, não pegou os bandidos pelo pescoço... que está havendo?
Ela respirou fundo e olhou para ele. -- Eu amo aquela mulher, Brito! Mas tive que deixá-la pelo próprio bem dela...
--Não, não pode ser! -- ele protestou -- Ela tem tudo a ver contigo! Uma mulher de decisão, uma pessoa honesta, firme! Uma mulher bonita, gostosa...
--Êpa! -- interrompeu-o dando um tapa na mesa
Brito pigarreou. -- Claro que são observações feitas dentro de todo um respeito... -- endireitou a gola da blusa
--Eu não agüentaria se ela morresse por minha causa e isso quase aconteceu naquela mal sucedida tentativa de seqüestro. -- pausou -- É melhor assim. Vivi vinte anos sozinha, posso viver mais vinte!
--Ah, não... eu gostaria muito de ter uma mulher a meu lado. Sei como dói não ter. Há vezes em que não penso nisso mas há outras em que chego a sofrer...
--Eu nunca fui mulher de ficar pensando na vida. O segredo é trabalhar até se danar de cansaço, porque aí você chega em casa, belisca uma coisa, toma banho e dorme!
--E isso é vida? -- balançou a cabeça -- Escute chefe, ouça o que eu vou te falar! Nunca estive nem aí pra sua opção sexual, sempre respeitei. Gosto muito mais de conversar contigo do que ficar ouvindo os papos dos colegas dizendo que comeram fulana, traçaram ciclana, não sei quem é vadia, não sei mais quem é puta... Eu não tenho saco pra esse tipo de conversa fiada. Com você a coisa é diferente! A gente fala do trabalho, a gente gosta de ver filme de pancadaria pesada, de ver as lutas de boxe... a gente gosta dessa coisa construtiva! Então eu te considero como se fosse minha irmã.
--Bom ouvir isso. -- respondeu com seriedade
--Daí vou te dar um conselho: se encontrou a mulher ideal não pode deixá-la escapar. Juliana é tudo que você precisava, não pode abrir mão dela por medo! Nem parece com você! -- deu um soco na mesa -- Vai deixar esse maldito velho te matar também? Ele quer te matar por dentro! Vai deixar ele vencer?
Suzana cruzou os braços e nada respondeu. Estava pensando.
--Você é índia guerreira! Não pode se render aos caprichos de um maluco, psicopata, que se acha no direito de fundar uma seita que, dentre outras coisas, gosta de matar as mulheres homossexuais! -- olhou bem para ela -- Sinceramente, não estou te reconhecendo!
--Eu não quero que nada de mal aconteça a ela! -- falou em voz mais alta -- Isso aqui não é filme onde o casal se separa pra se juntar no final, quando os bandidos estão todos mortos e as pessoas vivem felizes pra sempre... Eu caí na real, Brito! -- levantou-se da mesa -- Eu mesma dizia a ela que haviam os riscos, mas eu queria muito viver a experiência e quis negligenciar, só que ela sofreu uma tentativa de seqüestro e poderia ter morrido!
--Eu sei de tudo isso, mas se todos pensassem assim ninguém na nossa profissão teria uma vida! Nossa vida seria apenas o trabalho!
--E me diga se nossa vida não é isso!
Ele abaixou a cabeça, respirou fundo e respondeu: -- Você tá tendo a chance de mudar isso na sua vida. -- olhou para ela -- Então muda! Não abra mão dela, senão vai se arrepender. Quanto tempo acha que ela vai te esperar, hein?
Suzana continuava calada pensando no que Brito lhe dizia.
***
--Mãe, eu não entendo aonde você tá tentando chegar! -- Camille reclamava enquanto se aprontava -- Além de me fazer passar pelo inferno de ter Ligia e sua gangue nessa casa por uma semana, agora me inventa essa de ir ver a estréia da sapatinha no Municipal!
--Camille, deixa de ser ignorante? Vai ser um belíssimo espetáculo e todo mundo vai! Além do mais Seyyed nos deu os ingressos, ficaria muito chato não ir! -- ajeitava os cabelos -- Eu quero muito ir!
--E a gente ainda vai na carona da Ed! -- revirou os olhos -- Por que, hein? Não podíamos pegar um táxi? Tio Mariano não podia passar aqui?
--Mariano mora na Ilha, Camille, você sabe disso. Seyyed mora aqui do lado. E ela ofereceu, não tem porque a gente negar. -- olhou para a filha -- E vê se acaba de se arrumar porque daqui a pouco a moça vem aí!
--Moça??? -- riu -- Moça, não, né, mãe? Faz-me rir...
--Calça esse sapato! Você fala demais e age pouco!
--Sapato, sapatão, sapatanice, sapatérrima... Eu tenho ódio desse prefixo ‘sapa’! -- tentava calçar o sapato
--Você tem verdadeira obsessão com esse negócio de lésbica, cruz credo! Deixa isso pra lá criatura, eu hein! Vai acabar sendo presa um dia desses!
--Presa?! -- fez um bico -- Humpf! E você ainda me inventou essa história de querer fazer aula de balé com a ruiva metida!
--É só junho começar que eu me matriculo! E você não se atreva a se meter nisso!
--Dona Olga também tá nessa? -- estava se maquiando
--Ela não, só eu.
--Essa é boa! A sogra não vai e você, que não tem nada a ver com a fofoca, vai! -- fez um bico -- Ô louco, viu?
A campanhia toca.
--Ih, deve ser ela! -- Mariângela disse -- Acaba logo aí. -- correu para a porta -- Nossa, Seyyed! Você tá lindíssima!
A loura ficou curiosa. Minutos depois Seyyed surge no seu quarto, usando um vestido longo e justo na cor azul turquesa. Os cabelos negros com suaves cachos nas pontas pareciam ainda mais brilhantes e negros que o normal. O rosto estava maquiado com muito bom gosto. A loura perdeu a fala.
--Nossa, como tá bonita! -- a morena parou na porta e cruzou os braços. Camille usava um vestido longuete preto e brilhoso com um belo e elegante decote na frente
--Obrigada... -- foi o que conseguiu responder
--E você também tá muito bonita. -- olhou para Mariângela -- Vai sair de lá com um belo namorado! -- sorriu
Mariângela era uma mulher de 1,68m, loura, cabelos lisos que lhe margeavam os ombros e olhinhos verde muito vivos. Era uma Camille mais velha. A diferença, além da idade, era o comprimento dos cabelos da filha, que eram curtos.
--Que nada, menina! -- sorriu sem graça -- Não quero saber de homem nem pintado!
--Quem sabe? -- sorriu de novo -- Mamãe foi viúva por tantos anos até que apareceu um paulistano aí e conquistou o coração dela! Essa família de vocês tem poder!
--Não sei que poder! -- Camille protestou -- Estou pronta!
--Não deveria dizer isso! -- caminhou até mais para perto dela e se abaixou um pouco olhando-a fixamente -- Você é a maior gata e só fica sozinha porque quer! É bonita de tudo! -- olhou para Mariângela -- Com todo respeito, o comentário.
--Eu vivo dizendo isso a ela, mas essa menina... Como vive dizendo: ô louco, viu? -- imitou a filha
Camille ficou rubra de vergonha mas ao mesmo tempo feliz em saber que Seyyed a achava tão bonita.
***
Isabela chegou no Theatro com os pais.
--Filha, eu... -- Anselmo cruzou os braços -- Tudo vai dar certo...
--Obrigado, pai. -- respondeu educadamente
--Querida, vamos logo para o camarim. Você é a estrela Dalva desse espetáculo e tem que se preparar como deve!
--Estrela Dalva... -- a ruiva riu -- Ai, mãe, você viaja... -- foram para o camarim.
Anselmo andava pelos corredores e tentava contatar Gisele.
--Fala fofucho! -- ela respondeu
--Fofucha... -- fez a voz de criancinha -- Já cheguei. Quando estiver chegando me deixa saber.
--Calma, amor! Vocês têm que ir mais cedo porque a garota tem que se preparar, mas a gente, o público normal, não precisa chegar nessa antecedência toda! -- tentava acalmar a ansiedade do amante -- Relaxa. Quando eu chegar, ligo.
--E a vovó? -- perguntou falando normalmente
--Ainda não operou. Depois queria que falasse com teu cliente de novo.
--Tá, eu falo. -- pausou -- Beijão, viu?
--Beijo! -- desligou
Gisele estava em casa no maior amasso com um professor da academia e interrompeu para atender Anselmo.
--Fofucho? -- perguntou sorrindo -- Qual é, Gi?
--Ué, você chama sua noiva de Tchutchuca... Qual é pior? -- sentou-se no colo dele
--Porque ela gosta... -- abraçou-a pela cintura
--Ele também gosta! -- beijou-o -- Nossa, agora que eu reparei. Que cordão de ouro é esse? Tem medo de andar com isso pela rua, não, professor? -- perguntou sorrindo
--Foi Clarisse que me deu! -- beijou-a -- Tá pensando que só o teu coroa te dá as coisas? A minha também é mão aberta...
--Hum... -- sorriu -- Acho que a gente já falou demais, não é mesmo? -- beijou-o com desejo
Os dois rolaram na cama arrancando as roupas um do outro.
***
Seyyed, Mariângela, Camille, Mariano, Olga, Tatiana, Renan, Flávia, Fábio, Priscila e Lady aguardavam o momento de entrar no Municipal confraternizando no Amarelinho da Cinelândia.
--Gente, vocês vão me dar licença que eu vou tentar falar com a Isa. -- Ed levantou-se e deu tchauzinho para todos
--Lá vai ela... -- Camille resmungou
--O que?
--Nada, mãe! -- respondeu mal humorada
--Gente, deixa eu falar, mas eu tô nervosa por demais da conta! -- Tatiana exclamou -- E olha que nem sou eu que vou dançar, mas só de saber que minha amiga tá prestes a subir no palco me dá uma ansiedade que chega dói. Num dou conta... -- riu
--Você tinha que ver a Ed hoje na oficina! -- Renan comentou -- Ri muito! Ela tava tão nervosa que colocou sal no café do cliente!
--Eu não sei porque ela tem essa mania! -- Olga relembrou rindo -- Ela coloca sal no café. Khazni colocava pimenta!
--Meu Deus! -- Mariano exclamou -- Devia ficar uma delícia!
--Quando eu fico nervosa costumo a sair socando tudo! Tenho um político de pelúcia no meu carro pra quando bater aquele estresse eu pegar ele e meter o cacete.
--Que coisa é essa de político de pelúcia, Flávia? -- Camille perguntou curiosa -- Nunca vi isso aí!
--É nada disso! -- Fábio riu -- É um coelho velho gigante que minha sobrinha tinha. Ela arrancou as orelhas, os olhos e o rabinho dele e tava pra jogar fora. Aí Flávia cismou que o bicho se parecia com um certo político e resolveu adotar o pobre como saco de pancada. Vocês têm que ver! Ela pegou uma gravata velha que eu tinha, arrumou um casaco velho não sei de quem e ainda pregou uma peruca com cola de sapateiro! -- riu
--E desde então meu político virou minha válvula de escape nos momentos de tensão.
--Essa é boa! -- Mariângela riu -- Ah, mas eu quero ver isso aí!
--Essa tal de Flávia é esquisita, né? -- Lady cochichou com Priscila -- Parece até que... sei lá! Se não tivesse namorado eu diria que ela não é muito chegada...
--Eu nunca nem vi essa! Ela é engraçada... -- Priscila respondeu -- Mas essas coisas não têm nada a ver. A mulher pode ser meio bruta e não ser lésbica e vice versa.
--Pois é... Essa Isa, amiga de vocês... Ninguém diz! Uma garota fina, bonita, bailarina... A namorada dela também é toda bonitona... eu hein! -- revirou os olhos -- O mundo tá perdido...
--Lady, me poupe de seus preconceitos, tá? -- Priscila reclamou -- Cada um faz da própria vida o que melhor lhe convém!
Lady ficou sem graça. -- Bem, -- mudou de assunto -- Kawai ficou de me ligar e até agora nada! -- olhou para o celular
--Ele vem??? -- Priscila perguntou surpresa
--Não, ele disse que ia pegar onda mas me ligava antes do espetáculo.
--Pegar onda na sexta-feira à noite? E você acreditou? -- olhou para a outra incrédula -- À propósito, já preparou sua cartinha pro Papai Noel? Pede um papagaio mudo de presente!
Seyyed conhecia os funcionários do Theatro e conseguiu entrar para ver Isa. Encontrou com uma das bailarinas no corredor e ela mostrou onde a ruiva estava. Ao entrar viu os artistas se maquiando e cuidando do figurino. Logo localizou a jovem e foi até ela.
--Isa?
A bailarina virou-se rapidamente para ela. -- Ed? -- abraçou-a com força e olhou para Seyyed -- Nossa! -- sorriu levando as mãos aos lábios -- Você tá linda! -- olhou-a de cima a baixo
--Engraçado que eu ia dizer a mesma coisa de você!
A bailarina estava de coque, maquiada e parcialmente vestida. -- Ainda nem me vesti completamente, boba! -- sorriu
--Sabe que eu te prefiro nua! -- sorriu maliciosa. Isa riu e deu um tapinha em seu braço
A bailarina envolveu o pescoço da morena com os braços. -- Você não me procurou mais... pensei que nem viesse... -- disse com certo receio
--Eu não faria isso. -- segurou o rosto dela -- Queria te desejar boa sorte pessoalmente!
--Ainda quer se casar comigo? -- perguntou receosa -- Perdoe-me, por favor! Não sabe o quanto me arrependi pelo que lhe disse... Eu não acho que me dê restos, do contrário, você é a melhor namorada que uma mulher poderia ter, eu te amo, eu te amo...
Seyyed interrompeu o que dizia puxando-a para um carinhoso beijo nos lábios. -- Isso responde a sua pergunta?
--Não desiste de mim, amor! -- abraçou-a pela cintura -- Eu sei que faço coisas que podem deixar a entender que eu não quero, que não tô segura, mas eu quero muito me casar com você!
--Não pensa nisso agora! -- novamente segurou o rosto da ruiva -- O que eu quero é que você mostre no palco, com toda segurança e humildade, que a minha mulher é uma das melhores bailarinas desse país, entendeu?
Ela sorriu. -- Pensa isso de mim?
--Com toda certeza. Eu não me prendo a qualquer maluca, não! -- sorriu
--Posso dormir na sua casa depois que acabar? -- perguntou fazendo dengo
--Claro que pode!
--É... eu não queria interromper, mas... -- Ana se aproximava. Ed e Isa olharam para ela -- A menina tem que se concentrar e terminar de se arrumar... Afinal de contas, temos aqui uma estrela Dalva, não é gente?
--Eu sei. -- beijou a testa da ruiva -- Manda ver! -- piscou
--Tchau, amor! -- ela sorriu
Ed cumprimentou Ana com a cabeça e foi embora.
--Isa, que você tem na cabeça, hein? -- perguntou aos sussurros e fazendo cara feia -- Você ficou igual a uma boba com ela e ainda nessa beijação aqui na frente de todo mundo!
--Não houve beijação alguma, mãe. -- voltou a se arrumar -- E eu adorei que ela viesse me desejar boa sorte... viu como estava linda com aquele vestido? -- sorriu
--É... ela nem parece sapatão... Mas, você também não. Pra dizer a verdade nem a japonesa doida. -- pensou -- Até que vocês disfarçam direitinho!
--Mãe!!! -- exclamou revoltada -- A gente não disfarça os modos, nós somos o que somos! Você é que acha que ser lésbica é sinônimo de ser ogra!
--Seja como for nunca mais fique se beijando aqui na frente dos outros! E se Ana Fluminense visse isso??
--Ah! -- riu -- Ela não ia fazer nada! É uma mulher de muita classe e cabeça aberta! -- olhava-se no espelho cuidando dos últimos retoques
--Pensando bem, ela deve estar acostumada com isso. Esses seus coreógrafos, por exemplo! Que bichonas das mais loucas! -- revirou os olhos e riu -- Eu acho que coreógrafo hetero não deve dar IBOPE.
--Mãe, por que sempre usa os piores termos, hein? Podia ter mais respeito pelas pessoas? E ao contrário do que pensa, existem coreógrafos heterossexuais de sucesso no Brasil e no mundo.
--Hum... vamos esquecer esses assuntos polêmicos! Concentra na apresentação e seja a estrela Dalva do espetáculo! -- começou a falar fazendo gestos como se discursasse para uma multidão -- Brilhe, minha filha! Faça com que sua luz resplandeça diante dessa gente que vem te prestigiar! Sobe, estrela Dalva, sobe!
--Quer parar com essa coisa de estrela Dalva? -- olhou para a mãe colocando as mãos na cintura
***
O espetáculo foi muito bonito e a casa lotou de gente. Ana Fluminense fazia um esforço muito grande para popularizar o gosto pelo balé no país, e seus espetáculos costumavam a atrair muitas pessoas. Isabela foi impecável e chamou a atenção dos amantes da dança. Não menos brilhantes foram seus outros colegas. Ana Fluminense, como sempre, maravilhosa.
--Nossa, que coisa linda! -- Olga aplaudia emocionada -- Amei este espetáculo! Gostou, querido?
--É bacana, não é? -- ele respondeu -- Pensei que não fosse gostar mas adorei!
--Viu que coisa linda, Camille? -- Mariângela aplaudia -- Até chorei!
--Ah, mãe, você chora até com a novela das seis, que é um saco! -- aplaudia de má vontade -- Foi bonzinho, nada de mais! -- não queria dar o braço a torcer mas havia adorado
Discretamente a loura prestava atenção em Seyyed, que não tirou os olhos do palco por um minuto sequer e aplaudia empolgadíssima.
“Eu não sei como ela pode gostar tanto dessa garota metida!” -- pensou com despeito
--Gostou, Fábio? -- Flávia perguntou discretamente -- Só vim nesse negócio por causa da Ed. -- olhou para os lados -- Troço chato!
--Ah, eu... gostei... -- Fábio foi pego de surpresa. Estava paquerando uma mulher sentada nas proximidades
--Gostou, amor? Deixa eu te falar, foi bonito demais da conta! -- Tatiana aplaudia sorrindo
--Não sou muito chegado a balé, mas achei até maneirinho! -- ele respondeu
--Ai, amiga, que coisa linda!!! -- Lady olhou para Priscila -- Que pena que Kawai não pôde ver isso!
--Ah, é, ele nem vai dormir essa noite. -- revirou os olhos enquanto aplaudia -- Mas eu AMEI. -- gritou -- É minha amiga, gente! Valeu Isaaaaa!!!! Uhuu!!
Isabela sorria no palco ao lado dos colegas. Olhava para o Municipal lotado, para o efeito das luzes e deixava-se invadir pelo som cadenciado dos aplausos.
“Eu quero isso pra mim! Eu quero esse glamour, esse sucesso!” -- viu que Ana Fluminense recebia um buquê de rosas das mãos do Secretário de Cultura do Rio -- "Eu ainda serei igual a ela! É só uma questão de tempo!” -- pensava
***
Era tarde da noite. O ‘velho’ estava reunido com seus seguidores em uma gruta na Floresta da Tijuca. Estavam escondidos; eram ao todo dezessete homens. Faziam seus rituais macabros e entoavam cânticos. Após um tempo de concentração o ‘filho’ lhe falou: -- Mestre, mais uma vez não consigo! -- levou as mãos a cabeça
--Como não?? -- perguntou furioso -- Aquela amaldiçoada tem a alma mais impura do que sei descrever. Como não consegue com ela, o que há com você?
--Ela tem proteção! -- exclamou exausto -- Eu até consigo perturbá-la, mas os enviados da Luz chegam e me ofuscam... daí eu tenho que retroceder... -- olhou para ele -- Não dá! Alguém vela por ela... e com muito ardor, eu diria...
--Hum... -- pensou -- É a enfermeirazinha, só pode ser! -- deu um soco no ar -- Aquela mulher...
--Meu ‘irmão’ morreu por causa dela... Como pode ter tanto poder? -- perguntou intrigado
--Não despreze o poder da Luz, meu caro! Nós temos nossos métodos, eles têm os deles!
--O que fazer, mestre?
--Vamos cuidar daquela maldita... -- mirou um ponto no infinito -- Com ela fora do caminho, a delegada estará a nossa mercê!
--E como vamos fazer?
Olhou para o ‘filho’. -- Você fará! -- respondeu com firmeza -- E não se desconcentre como deve ter acontecido com seu irmão.
--Mestre, meu rosto já se expôs! E eu ainda temo por ser traído!
Subitamente o ‘velho’ deu-lhe um forte tapa no rosto que o fez cair. Os demais homens interromperam a cerimônia.
--Você viu -- olhou para os demais -- todos viram o que acontece aos traidores de Sammael! José está morto! Misteriosamente morto! -- seu olhar era tenebroso -- Quem serve a mim não tem medo! O medo aqui é inadmissível!
O ‘filho’ se levantou com a mão no rosto e posicionou-se diante do ‘velho’. -- Não mais fraquejarei! Confia em mim!
O ancião apontou para fora da gruta e o homem saiu indo para o meio do mato, onde continuou com seus rituais. -- Seth? -- chamou
--Sim, mestre! -- fez reverência
--Meu ‘filho’ tem uma missão a cumprir. Seja lá o que aconteça, se ele for bem ou mal sucedido, não importa, leve-o para o submundo. -- olhou para o homem -- E você assume o lugar dele!
--Sim, meu mestre! -- sorriu agradecido
O ancião fez um sinal com as mãos e o ritual continuou. Dali a instantes, o ‘filho’ e mais outros homens vieram trazendo os membros da seita que haviam sido presos por Suzana. Os cinco sentaram-se no centro de um circulo.
***
Juliana lia um jornal no seu horário de almoço. Uma notícia chamou-lhe a atenção.
“Após a denúncia de um grupo de amigos que caminhavam na Floresta da Tijuca, a polícia investiga o assassinato de cinco homens no interior de uma caverna. Os caminhantes buscavam ao local para descansar quando encontraram os cadáveres dispostos em um círculo. O estudante de economia, Sandro Dias, chegou a passar mal.
--Nunca vi uma coisa daquelas! Foi chocante demais! A gente chegou na caverna e deu de cara com aquela cena macabra. Minha pressão aumentou tanto que eu quase tive de ir parar no hospital! Desde garoto eu curto a floresta e nunca soube de nada igual acontecer por lá!
A delegada Suzana Mello afirma que as vítimas tratam-se dos homens presos durante uma emboscada realizada pela polícia no mês passado, em Niterói.
--Dando continuidade às investigações do caso Patrícia Feitosa nós prendemos seis homens no mês passado, em Niterói, os quais estavam reunidos em uma espécie de ritual que contava com uso de armas brancas e consumo de entorpecentes. Apenas um destes homens, Pedro de Barros, não estava entre as vítimas encontradas hoje pela manhã na Floresta da Tijuca. Temos aqui um provável ritual realizado pela seita da qual todos eles fazem parte, caracterizando um verdadeiro processo de queima de arquivo.
A delegada Suzana está tentando envolver a Polícia Federal nas investigações por acreditar que a tal seita, representada por um signo de Salomão, pode estar espalhada pelo país promovendo rituais macabros e crimes contra mulheres homossexuais.
--Temos investigado casos de assassinatos envolvendo lésbicas e encontramos ocorrências semelhantes a de Patrícia Feitosa em São Paulo e Porto Alegre. Foram sete mulheres, todas caracterizadas pelo fato de assumirem publicamente sua opção sexual e serem formadoras de opinião. Não necessariamente uma militância gay, mas pessoas que lutam pelos direitos de minorias excluídas na sociedade brasileira.
O crime chocou a administração do Parque e a população da cidade. Em toda a história da Floresta da Tijuca não há registros de ocorrências como esta. O designer gráfico, Rafael Lemos, estava revoltado.
--Eu caminho nesta floresta há anos com meus amigos e nunca vi uma coisa assim! Já imaginou o que é estar curtindo uma caminhada bacana e dar de cara com cinco cadáveres? A polícia tem que fazer alguma coisa e prender esses loucos que, além de matar os outros, desrespeitam um local que faz parte da riqueza da nossa cidade. Eu estou revoltado. A palavra é essa: revolta!
A polícia estima que o pretenso ritual ocorreu na noite da sexta-feira passada.
Patrícia Feitosa, paraibana, estudante de direito e lésbica assumida, era conhecida por conduzir militâncias pelos direitos das mulheres, dos homossexuais e dos cidadãos de classes sociais menos favorecidas. A jovem foi assassinada no dia 25 de outubro do ano passado e o crime gerou grande repercussão na imprensa. Patrícia tinha 21 anos.”
--Meu Deus! -- Juliana balançou a cabeça -- Mas essa história é sinistra demais! -- fechou o jornal -- Imagino como não estavam esses cadáveres!
--Falando sozinha, Ju? -- uma enfermeira mexeu com ela
--É... um crime aqui me deixou chocada!
--Hoje é domingo, leia notícias boas! Ai, que eu queria ganhar na loteria e nunca mais colocar os pés nessa clínica aqui! -- olhou para todos os lados e falou mais baixo -- Acredita que apareceu uma mulher com um corte pequeno no braço e eles cobraram cento e nove reais por dois pontos?
--Misericórdia! -- arregalou os olhos
--Pois é! E pagam tão mal a nós e aos médicos...
--É uma pouca vergonha, viu? -- olhou para o relógio -- Hora de ir! -- levantou-se
--Vai não, boba! Se alguém precisar de nós que grite! Eu ainda vou tirar um ronco!
Juliana não respondeu e voltou ao trabalho.
***
--Ai, finalmente eu posso descansar... -- Isa jogou-se na cama de Ed -- Sexta que vem a maratona recomeça... -- levantou os braços e fechou os olhos
--Pois é... -- Ed deitou-se a seu lado -- E daí, na outra semana, será a vez de São Paulo.
A ruiva abriu os olhos e virou-se de lado olhando para Seyyed. -- Você não tem o que fazer por lá, não? -- brincava com os cabelos dela -- Hein?
--Até tenho... -- virou-se de lado e ficou frente a frente com a bailarina
--Então vem comigo... -- beijou-a
--Tenho que ver... Te respondo mais pra perto.
--E o carro do seu Marciano? Você nem me disse se ele gostou... -- aproximou-se mais da morena até que os rostos estivessem bem próximos
--Ele adorou! Me deu um abraço tão danado que quase me quebrou a coluna no meio. -- riu
--E já pagou? -- perguntou interessada
--Já!
--Quanto?
--Nós negociamos o pagamento de modo muito interessante... Ele quitou todas as minhas dívidas e me deu ainda uma quantia de duzentos mil. -- riu
--Gente!! -- sentou-se na cama em choque -- Como pode ter tanto dinheiro??
--Homem do agronegócio... -- virou-se de barriga para cima -- A família dele é do ramo desde a época do bisavô. Tem terras pelo centro oeste quase todo. -- pausou -- Isso é surreal! Como pode alguém gastar tanto dinheiro com um carro?
--É mesmo! -- deitou-se sobre a namorada -- O que pensa em fazer com esse dinheiro?
--Vou me preparar pra montar a oficina em Goiás, investir na oficina daqui... Apliquei uma parte do dinheiro também.
--E na gente? Você não pensa? -- perguntou decepcionada
--Claro que penso... -- sorriu -- Eu sabia onde queria chegar, Isa... Por isso não falei de nós. -- pausou -- E pensei no que me pediu. -- acariciou o rosto da ruiva
--A gente vai morar na zona sul? -- perguntou esperançosa
--Isso é o que você quer, ou o que a sua mãe quer que você me exija? -- foi direta
Isabela corou e abaixou os olhos. -- Claro que é o que eu quero... e claro que mamãe também gostaria... -- olhou para a morena -- Mas eu não quero forçar a barra. Se você não quiser sair daqui... eu venho pra cá sem problema algum... -- acariciou o rosto da mecânica
--Vamos combinar assim: depois que a temporada do espetáculo terminar, a gente conversa com calma. Casar é coisa séria e eu acho que sou ansiosa demais quando me apaixono...
--Está decepcionada comigo ou zangada? -- perguntou receosa
--Eu fiquei zangada naquele dia e depois decepcionada... Não fui te procurar porque pensava no que fazer... -- pausou -- Acho que a gente tem que conversar mais e com calma. Colocar tudo em às claras. -- olhou bem para a ruiva -- Mas por enquanto quero que se concentre no espetáculo e não fique agoniada por causa da gente. Não tô pensando em terminar, não tô desistindo de você, nada disso...
--Eu fiquei tão mal com o seu sumiço... -- deitou a cabeça no ombro da outra -- Cheguei a pensar que não iria conseguir me sair bem na estréia e nos outros dias. Não te procurei porque você me pareceu tão chateada... Tive medo que quisesse terminar... Queria te dar um tempo...
--Relaxa, Isa. Minha zanga passa rápido. -- abraçou-a
--Te amo, Ed! -- fechou os olhos
--Também te amo, menina... -- fechou os olhos também
***
Flávia fazia fisioterapia em Camille. A loura exercitava as mãos.
--Sabe, Flávia, eu pesquisei na internet aquilo da prótese e fiquei com medo. Tem que ter muita confiança e equilíbrio e eu não me sinto preparada ainda. Além do mais é caro...
--A gente trabalha seu equilíbrio. Não notou como tem evoluído?
--Claro que notei! Mas daí a me considerar apta a usar uma perna de mentirinha é outra conversa, meu! -- olhou para Flávia
--Vamos trabalhando mais e você vai começar a treinar usar apenas uma muleta ao invés de duas.
--Ô louco! Só uma muleta?? -- arregalou os olhos
--Tem que confiar mais no seu taco, maluquete!
--Humpf!
--E quanto à grana, vá juntando.
--Eu? Juntando? -- riu -- Flávia, não te ocorreu que eu sou uma ferrada? Não ganho dinheiro, não ganho mesada, mamãe é uma pobre costureira e quem segura a onda aqui em casa é meu tio! E ele não nada em dinheiro!
--Seyyed tá pagando mal, é? Vou falar com ela... -- brincou
--Não é que pague mal, mas as despesas são várias. Meu primo e papai deixaram alguns prejuízos. -- pausou -- Eu dei prejuízo quanto tentei me matar... e ainda dou...
--Pare de falar assim! -- olhou bem para ela -- Você vai ser engenheira e pode ganhar um bom salário, dar conforto pra sua mãe e desobrigar seu tio. Tem que acreditar.
Passados alguns minutos, a fisioterapeuta iniciou a acupuntura nas mãos da loura.
--O que houve, Flávia? -- a loura perguntou com estranheza -- Não tô acostumada a te ver calada assim... Até quando você fala não tem aquele ânimo habitual. Nem me chamou de loura Belzebu...
Ela respirou fundo e confessou: -- Tô triste, maluquete. Mas vai passar... -- olhou para ela -- E sossega com essas mãos!
--Ai!! -- reclamou quando Flávia espetou uma agulha nas costas de sua mão, entre o dedo indicador e o polegar -- Eu odeio esse ponto! -- outra agulha foi espetada no pulso -- E esse também! -- trincou os dentes
--Odeia todos eles! -- riu brevemente
--Não se aproveite da situação... -- brincou -- Por que tá triste? -- perguntou com interesse -- Você sempre me deu força, talvez hoje seja meu dia de retribuir...
A fisioterapeuta ficou surpresa. -- É você mesma? Ou é clone? -- colocou a mão na testa dela para ver se estava com febre
--Deixa de ser boba, tá! -- fingiu que ia morder a mão da outra -- Até parece que eu sou uma cavala!
--Digamos que você não come capim mas dá uns coices bem certeiros... -- riu
--Tá, eu sei... -- ficou meio sem graça -- Mas eu sou sua amiga e queria realmente ouvir você desabafar... Se quiser, é claro. -- falou com delicadeza
Flávia terminou de aplicar as agulhas, sentou-se e olhou para Camille. -- Terminei com Fábio no domingo.
A loura arregalou os olhos. -- Por que???
--Ele me traiu. -- abaixou a cabeça
--E como soube disso?
--Naquela sexta, a da estréia da Isa, ele ficou de olho numa mulher lá e nem sei como abordou a tal pra marcar encontro. -- olhou para ela de novo -- O safado se aproveitou que passei mal do intestino e fiquei de molho no final de semana pra poder se encontrar com ela no domingo. Só que eles foram pra um bar onde uma amiga minha tem freqüentado e ela os viu aos beijos. Ligou pra mim e falou, mas eu não fui lá pra ver. Na segunda imprensei ele contra a parede e confessou.
--Que canalha! -- exclamou revoltada
--E ele... -- estalou os dedos -- Falou coisas que me magoaram muito...
--Como assim?
--Ele disse assim: “-- Se mulher normal não segura homem faz idéia uma como você!”
--Pôxa, que desgraçado! -- deu um soco no braço da poltrona
--Garota, as agulhas!! -- exclamou preocupada
--Ah, foi mais forte do que eu! -- pausou -- Mas me conta, e aí?
--Ele veio com aquele papo que homem é naturalmente infiel, testosterona e aquela pseudo biologia ridícula que um monte de babaca insiste em impor como lei da natureza, embora ninguém nunca tenha produzido uma prova conclusiva a favor de tais argumentos.
--Ah, isso é babaquice pra favorecer os homens e legitimar a infidelidade deles! Afinal, qual o gênero dos cientistas que historicamente publicam essas baboseiras?
--Eu nem perco meu tempo em discutir isso! Mas o lance é que a traição e as palavras dele doeram muito. -- derramou uma lágrima -- Ele vinha me apoiando tanto, era tão companheiro... Como pôde, hein? -- lutava para não chorar -- Eu acreditava nele, no amor dele... -- calou-se e começou a chorar cobrindo o rosto com as duas mãos
--Ah, Flávia, não chora por causa daquele bisco... -- estava agoniada em não poder fazer nada por conta das agulhas nas mãos e antebraços
A fisioterapeuta esfregou as mãos nos olhos e fungou um pouco. -- Eu não vou voltar com ele, mesmo tendo me vinculado muito a ele. -- continuou limpando o rosto -- Não quero mais o apoio financeiro dele, vou me virar sozinha e continuar com meu boxe. Mas traição eu não deixo passar! Em vista do que falou e com a facilidade com que foi atrás de outra, certamente não foi a primeira vez que me pôs chifre...
--Eu também não aceito isso de traição. Pra mim, se trair já era!
--Sabe? Eu sempre me perguntei como um homem bonito e com dinheiro como Fábio podia se interessar por mim. Hoje acho que ele queria apenas lucrar comigo no esporte, ou nem sei o que passava na cabeça dele... mas, de fato, uma mulher pouco feminina como eu não podia ter alimentado tal ilusão... -- pausou -- Sonhei alto demais...
--Que é isso?? -- perguntou revoltada -- Ah, não! Eu não permito que você fale assim!! Flávia, pelo amor de Deus... Uma mulher só tem valor se ela for perfeitamente linda? Pára, vai? Nem parece você falando e não pode deixar que aquele canalha cafajeste fingido desgraçado pilantra puto sem vergonha miserável e salafrário balance a sua auto estima desse jeito!
--Nossa, quantos adjetivos... -- achou graça
--Ah, não! Pára com isso! -- pausou -- Flávia, você é uma guerreira como poucas! Você serve de exemplo pra muita gente! Você cura as pessoas, sabe o que é isso? Cura porque ensina, apóia, faz seu trabalho e nunca deixa que a gente desista! Você me chamou pra vida várias vezes! Você me fez deixar de ter pena de mim mesma e começar a recuperar tudo que perdi, fosse pelo acidente, fosse por minha própria culpa! -- emocionou-se -- Você me ensinou a encontrar forças dentro de mim quando eu achava que não tinha. Você mudou a minha vida! Eu vou repetir: VOCÊ MUDOU A MINHA VIDA! -- pausou -- E embora eu me aborreça contigo em alguns momentos e ache que é muito abusada, não vou negar... eu queria muito mesmo ser igual a você! Queria ter a sua força, a sua alegria contagiante, a sua vontade de viver! -- derramou uma lágrima -- Você é uma das minhas maiores referências e eu sou egoísta. Se você se permitir cair desse jeito, o que vai ser de mim?
Flávia foi realmente tocada pelo que ouviu e dessa vez chorava de emoção pela sinceridade que sentiu naquelas palavras. -- Camille... nem sei o que dizer... me sinto honrada...
--Você nunca me chama pelo nome... -- riu -- Foi muito sincero!
--Eu sei! Você fala as coisas na lata! -- riu -- Se disse isso é porque pensa assim... e eu não ouvia algo tão forte e bonito há muitos anos...
--Então será que me faria um favor se eu pedisse? Dois, na verdade.
--Quais? -- perguntou desconfiada
--Prometa que nunca mais vai deixar que homem algum balance sua auto estima! Seja ele quem for.
--Prometo... -- riu -- e o segundo? -- perguntou desconfiada
--Tira essas merd*s de agulhas de mim???
Flavia riu gostosamente: -- Essa é a loura Belzebu!
***
--Ahahahahahahahahah!!! Ai, não... não, não, não, não... -- Lady chorava aos berros
--Meu Deus, o que é isso?? -- Priscila perguntou assustada e saiu do quarto -- Que gritaria é essa?
--Que susto! -- Tatiana veio se encontrar com Priscila -- Tava concentrada estudando e o berro de Lady quase me matou de medo! Chega doeu!
--Ahahahahahah!!! Eu não acredito, não, não, não, não!!!
Priscila e Tatiana entraram no quarto de Lady.
--Dá licença, lady. -- Tatiana pediu -- Deixa eu te perguntar, o que você tem?
A garota continuava chorando escandalosamente e estendeu uma folha de papel para elas verem. Priscila pegou.
--Eu não entendo esses garranchos. Parece até garatuja de criança!
--Deixe ver! -- Tatiana pegou -- Minha nossa!
--É carta de Kawai... Aiaiaiaiaiaiai... Carta de Kawai... -- chorava
--Deixa eu tentar traduzir! -- Tatiana semicerrou os olhos -- "Nada a ver... aí. Num deu. Foi!”
--Nossa, que carta! -- Priscila revirou os olhos
--“Ó. Levei o punk!” -- Tatiana olhou para Lady -- Não entendi!
--Punk era como ele chamava o Clint! Aiaiaiaiaiai... -- chorava -- Ele terminou comigo e ainda roubou minha maritaca austral...
--Jura?! -- Priscila perguntou felicíssima -- Ah, mas eu tenho que conferir isso! -- correu para a cozinha
--O safado veio aqui... -- fungou -- almoçou, dormiu, eu fui pra faculdade e quando voltei... aiaiaiaiaiaiai -- chorou de novo -- encontrei essa carta aí...
Priscila voltou da cozinha correndo. -- Ai, Tati, ele levou aquela peste mesmo!! O puleiro tá vazio, uhuhuhu!!! Kawai, valeu!!! -- gritou -- Obrigado Senhor, por ter ouvido minhas preces!! -- levantou as mãos para o céu
--Eu vou me lembrar que no meu momento de dor você cuspiu em cima do meu sofrimento, tá, Priscila? -- olhou para ela de cara feia -- Aiaiaiaiaiai... -- gritou
Tatiana olhou para Priscila -- Amiga, pega leve com ela, tá? -- virou-se para Lady -- Lady, deixa eu te falar! Você acredita demais nos homens, é muito ingênua, dá mordomias demais da conta... Não pode ser assim, não... Era nítido que aquilo ali não era homem pra casar contigo.
--Ele queria cruzar contigo, isso sim. E comer a nossa comida também.
--Priscila, não tá ajudando!
--Ai, gente, eu quero ficar sozinha, por favor... -- enfiou a cabeça no travesseiro -- Aiaiaiaiaiaiai -- chorava e gritava
As duas saíram do quarto dela.
--Graças a Deus! -- Priscila levantou as mãos como quem reza -- O traste foi embora e ainda levou o papagaio do cão! Maravilha! -- olhou para Tatiana e abaixou as mãos -- Agora só falta ela arrumar um louco pra se casar e ir embora daqui.
--Você não gosta dela, né, fí? -- perguntou rindo
--Eu não! Garota chata, eu hein! Casamentomaníaca e só me arruma confusão!
De repente a campanhia toca.
--Ué? O porteiro não anuncia quem chega? As pessoas simplesmente sobem?
--Ah, Tati, depois que Lady veio morar aqui, tudo virou bagunça! -- foi ver quem era -- Ih! Sabrina! -- abriu a porta -- Já vi que hoje a noite é de intensas emoções! -- cruzou os braços -- Veio fazer o que aqui, garota?
--Nossa, Priscila... -- Sabrina respondeu constrangida -- Que recepção! Nem me convida pra entrar?
--Entra! -- respondeu secamente
A escaladora entrou e se sentou.
--A gente não anda satisfeita contigo, viu, fi? -- sentou-se do lado dela
--Por que Tati? -- perguntou surpresa
--Porque você fez o maior tipo de viuvinha com Lô Tavares, só por isso! -- Priscila sentou-se na outra poltrona -- Desde quando foi companheira de Patrícia? Você tá se aproveitando do que aconteceu pra aparecer!
--Isso é muito pequeno de sua parte, viu Sabrina? Quando eu te liguei pra perguntar sobre ela você mal queria me deixar falar, e depois que eu contei tudo me despachou por conta de sua reunião. Lembro muito bem disso!
--Gente, olha... televisão manipula muito as informações... eu fiquei em uma saia justa...
--Ah, qual é, Sabrina? Me poupe, viu? -- Priscila olhou bem para ela -- E o que veio fazer aqui, afinal?
--Ahahahahahahah!!! Aiaiaiaiaiaiaiaiai!!! Não, não, não!!! Ahahahahahah!!
--Cruzes, que é isso?? -- Sabrina deu um pulo no sofá
--Nossa nova colega de apartamento. -- Tatiana esclareceu
--Ai, Pat, quantas saudades... -- Priscila suspirou
--Bem... -- Sabrina começou a falar -- Eu precisava vir aqui conversar com vocês... -- pausou -- Tenho sofrido com saudades da Pat. -- as outras duas fizeram cara de descrença -- Sério, gente! Não sabem como me arrependo... Eu lembro de um monte de coisas de nós duas e sinto uma dor como nem saberia dizer... -- mexeu na bolsa -- Ontem eu procurava por um documento e o encontrei na gaveta da mesinha ao lado de uma caixa, -- tirou uma carta e deu na mão de Tatiana -- que foi um presente que ela me deu. -- pausou -- Ela chegou lá em casa, de noite, debaixo de chuva e me deu o presente. Daí foi embora de moto. Eu tava cansada, nem abri e joguei na gaveta. Ficou lá esquecido até ontem...
--Poxa... mas você é sem consideração! -- Priscila foi incisiva. Sabrina não respondeu
--Dentro da caixa tinha um chaveiro de uma boneca escaladora e essa carta.
--Quer que eu leia? -- Tatiana perguntou. A morena balançou a cabeça
--AHAHAHAHAHAHAH!!! Aiaiaiaiai!! Quanta dor, quanto sofrimento! -- Lady berrava
--Daí-me forças! -- Priscila pedia
--O que ela tem? -- Sabrina perguntou curiosa
--Ela é doentinha, esquece! -- Priscila revirou os olhos
--Pára de implicar com a pobre, Pri! -- abriu a carta -- Deixe eu ler: “Sabrina, você há de se perguntar: por que Patrícia insiste tanto em me conquistar? Ela é louca, masoquista ou simplesmente me deseja porque sou linda e gostosa? Na verdade, eu me interessei por você desde antes de vê-la. Tudo começou quando uma amiga me falou de você, de sua paixão pelas montanhas, do vínculo com a natureza. Eu ouvi histórias sobre sua coragem, ousadia e empreendedorismo esportivo e pensei: uma mulher dessas é tudo que eu quero! E aí, quando te conheci e vi como é linda tive certeza: eu a quero! Você é uma pérola escondida dentro de uma concha de desinteresse pelo ser humano, mas sei que a verdadeira Sabrina não é tão superficial. Eu quero conhecer a mulher que chega no cume das mais altas montanhas, vencendo todos os desafios que o caminho impõe. Eu quero desvendar a mulher que se encanta com a natureza, que gosta de ver o sol nascer sobre os cimos e que conquista a montanha sem a pretensão de dominá-la. Eu quero amar a mulher que não se curva diante dos obstáculos e quer ir sempre mais além. Dê-me esta honra! Você não pode ser tudo o que é nas montanhas e a pessoa fria que se mostra para mim aqui, na superfície. “Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.”17 Seus frutos não são podres... a árvore não pode ser má. Se você é o mistério, deixe-me desvendá-la!” -- pausou -- É bem Patrícia mesmo!
--Pouco antes de eu viajar, uma mulher me abordou e agradeceu por tudo que Patrícia fez por ela e seu filho. Ela me viu no Lô... -- passou as mãos nos cabelos -- Eu acabo de voltar do Shishapangma, uma montanha de 8013m, após quase dois meses de excursão com um grupo chinês. E a experiência foi... -- riu -- Vocês não têm idéia do que é uma montanha com mais de oito mil metros!
--E se Deus quiser nunca hei de ter. -- Priscila respondeu secamente. Não entendia onde Sabrina estava querendo chegar com sua conversa
--Eu me superestimei! Cheguei no cume, desci, tô aqui viva, mas foi a coisa mais difícil da minha vida! -- pausou -- Eu tive que amputar um dedo mindinho de cada pé...
--Meu Deus!! -- Tatiana exclamou horrorizada
--Gente!!! -- foi a vez de Priscila
--AHAHAHAHAHAHAH!!! Quanta dor, quanto sofrimento!! Aiaiaiaiaiai!!
--No meio daquele gelo, de tantas dificuldades, do sofrimento, eu pensei em um monte de coisas... -- olhou bem para as duas -- Gente, eu preciso de vocês!
--O que quer da gente? -- Priscila perguntou desconfiada
--Me ajudem a descobrir quem Patrícia era! Eu preciso muito saber! Tudo sobre ela, tudo! Me ajudem?
--Está querendo usar a memória dela a seu favor ou...
--Não, Tati, é sério! Eu preciso conhecê-la melhor! Por favor!
--Garota, isso é loucura! Ela morreu, acabou, já era! Não deu valor na hora certa, agora babau!
--Priscila, eu sabia que vocês não iriam me entender, mas eu preciso disso... -- olhou para as duas -- Por favor!
--Aahahahahahahah!!! Aiaiaiaiaiaiai!!! Como pode, meu Pai, como pode??
--Eu sinto muitas saudades dela...
--E eu! Principalmente quando ouço coisas como esse lamento aí! -- apontou para o quarto de Lady
--Tudo bem, Sabrina. Você quer saber tudo sobre Patrícia? Eu lhe direi tudo o que sei. -- sorriu -- Ela mudou a minha vida... Me ajudou a deixar de ser uma goiana assustada em meio a loucura do Rio de Janeiro... Ela me ensinou a amar essa cidade, me deu força, me ajudou em um monte de coisas...
--Eu também tenho minhas histórias... Ela me ensinou a respeitar as opções das pessoas... -- Lady deu mais um berro choroso -- Menos as da Lady porque isso está muito além da minha capacidade! -- falou impaciente
--Eu pensei muito em Patrícia durante a excursão para o Shishapangma... Preciso conhecê-la melhor... A montanha abre espaço pra gente meditar, sabe? Olhar para coisas que aqui na superfície não se quer ver...
--Deixa eu te perguntar, você vai ter que passar por todo esse mesmo sofrimento mais treze vezes? Por que são quatorze cumes, não é?
--Isso mesmo, Tati.
--É muito cume pra pouco dedo, Sabrina.
--Priscila!!! -- Tatiana ralhou
--Foi mal! -- sorriu sem graça
--Mas eu vou me preparar muito melhor! Coisas como essa nunca mais vão acontecer.
--Aiaiaiaiaiaiaiaiai Kawai!!! Aiaiaiaiaiaiai Kawai!!!
--É... tem gosto pra tudo! -- Priscila respondeu com um suspiro
***
Juliana estava no plantão noturno. Depois do jantar passou pelas enfermarias para dar uma olhada nos pacientes. Conversou com muitos deles. Viu que Maria de Lourdes estava muito triste olhando pensativamente para a janela.
--Boa noite, dona Lourdes! -- cumprimentou sorrindo
--Boa noite, filha -- olhou para ela com tristeza
--Ainda não operou, não é? Deram alguma data pra senhora?
--Talvez daqui a duas semanas... -- respondeu desanimada
--Hum... -- reparou bem nela -- Quer mudar de posição?
--Eu adoraria mas o joelho dói muito... não sei se poderia.
--Claro que sim. Sei como fazer. Espere um minutinho. -- saiu da enfermaria e voltou com dois travesseiros duros -- Vamos colocar um deles entre suas pernas e outro para apoiar o joelho!
Juliana assim o fez e manobrou para virar a idosa de lado sem magoar o joelho dela.
--Melhor assim?
--Nem me diga! -- deu um sorriso triste -- Obrigada!
--Não há de que! -- sorriu
--Não é à toa que os pacientes falam bem de você. É uma mocinha de ouro!
--Sou não... -- pôs as mãos na beirada da cama dela -- Ainda não me viu furiosa... – sorriu
--Não? E naquele dia que brigou com minha neta?
Sorriu constrangida. -- Desculpe por aquilo mas não deu pra segurar...
--Desculpar você?! Mas eu adorei! Nunca vi Gisele tão humilde quanto naquele dia... -- suspirou -- Eu não soube criar aquela menina. A mãe dela, meu marido e eu a deixamos mimada demais...
--É... Fazer o que? -- quis mudar de assunto -- Mas, vamos conversar. Hoje a noite está tranqüila, pelo menos até agora, e posso papear um pouco... Quer dizer, a menos que não queira...
--Eu quero! Nunca tenho com quem conversar... -- seu olhar era triste -- Quem gosta de conversar com velho?
--Eu adoro!
--Você é uma menina de ouro, eu já disse! -- sorriu
--O que a senhora fazia? É aposentada ou dona de casa?
--Dona de casa. Nunca trabalhei fora.... Meu falecido marido era delegado de polícia e dizia que eu não deveria trabalhar porque ele ganhava o suficiente. Aí eu obedeci...
--A senhora mora com sua neta?
--Na verdade é ela quem mora comigo. O pai dela é meu filho e nem sei por onde anda. E a mãe dela faleceu quando ainda era criança...
--Eu conheço uma delegada de polícia. O nome dela é Suzana Mello. Será que a senhora a conhece?
--Suzaninha? Claro que conheço! Meu marido adorava ela! Aquela menina foi lá em casa várias vezes!
“Suzaninha?” -- pensou achando graça -- Ela não combina com esse ‘inha’!” -- sorriu -- É mesmo? -- perguntou
--Ela era como se fosse uma filha pra ele! Quando começou na polícia era como se ele fosse um tutor pra ela, sabe?
--Não sabia que a polícia tinha isso!
--E não tem! Mas Valadão se apegou a ela porque admirava a coragem, a ousadia e a honestidade. -- riu -- Eles eram muito parecidos... Valadão nem se importava dela ser lésbica. Achava até melhor assim, vê se pode? -- riu
--E a senhora... -- perguntou -- Se importava com isso?
--Eu não! Cada uma faz de sua periquita o que bem entende. O que não aprovo é esse negócio de ser cacho de homem casado e se trocar por dinheiro. Acho muito pior! -- lembrou-se de Gisele
--E por que se afastaram? Sua família e Suzana?
--Porque inventaram uma situação, sabe? Nitidamente uma calúnia! Eu disse a ele que não era verdade, mas Valadão era tão teimoso! Ô homem danado!
--Suzana também é! -- revirou os olhos
--Com isso, eles ficaram brigados e se afastaram! Acho que não vejo Suzaninha há uns oito, nove anos, sei lá...
--E seu marido? Desculpe perguntar, mas ele morreu de que?
--Uma emboscada... Eu não gosto nem de me lembrar...
--Os policiais honestos sofrem, não é?
--Muito... e a família também. Passamos por cada coisa...
--É, eu imagino... -- ficou pensativa
--E você? Da onde conhece Suzaninha?
A japonesa pensou antes de responder mas confessou: -- A gente... eu não vou mentir pra senhora... a gente namorava... -- deslizou as mãos pelos lençóis do leito da idosa -- Mas ela terminou comigo...
--Nossa, eu nunca soube de Suzaninha namorar ninguém... Sabíamos que era lésbica mas nunca a vimos sequer olhando pra uma mulher.
A enfermeira notou naturalidade da parte da outra e sentiu-se à vontade. -- Ela é uma loba solitária... -- sorriu com tristeza
--Agora eu entendo o que aconteceu naquele dia... Porque aquelas senhoras religiosas não quiseram que você se aproximasse delas... Ouça o que diz uma velha: não deveria fazer alarde de sua condição. Tem muita gente ignorante no mundo e você passa por constrangimento à toa!
--Eu não faço alarde... É que minha mãe esteve interna aqui há tempos atrás e ela sim, fez alarde... Aí sabe como é fofoca... O povo não esquece, né? Ficou a fama de sapatão! -- pausou -- Mas, quem é lésbica e não vive no armário está acostumada com as piadinhas, a zombaria, as agressões gratuitas... Essa escolha mudou tudo na minha vida há muito tempo...
--E sua família? Suzaninha não tem família então pra ela, de certa forma, é mais fácil.
--Minha família me jogou no vento, como diria minha ex mulher... Antes da Suzana eu fui casada, sabe? A mãe da minha ex é como se fosse minha mãe. É uma pessoa maravilhosa. Tenho certeza de que a senhora ira gostar de conhecê-la!
Nesse momento um alarido se faz ouvir no corredor. Médicos e enfermeiros corriam para receber pessoas baleadas.
--Tenho que ir, dona Lourdes!
--Vai lá, filha! E obrigada!
Juliana se despediu e saiu correndo para ajudar.
***
Juliana voltava para casa de ônibus e não percebeu que um homem a acompanhava. Ele se sentou na última fileira de bancos no fundo da condução e buscava fingir que não prestava atenção nela.
--Ai, que droga! -- deu um tapa na testa -- Esqueci as chaves de casa no ambulatório! Ai, que saco! -- levantou-se e puxou a cigarra. O ônibus parou e ela desceu na Praça XV. Pedro desceu atrás
A japonesa caminhava para sair do mergulhão e voltar para o Centro quando sentiu um mal pressentimento. Olhou para trás e reparou em um homem louro de boné vermelho. Haviam outras pessoas nas ruas mas aquele homem chamou sua atenção. Decidiu apressar o passo. Pouco depois olhou para trás e o suspeito havia sumido, porém não se sentia em paz.
Pedro continuava sua perseguição mas disfarçava para não ser percebido. Juliana decide ligar para a delegada. -- Atende, Suzana, por favor! -- pedia mentalmente
Suzana ouve o telefone tocar mas não pode atender de imediato devido a um tumulto que acontecia na DP. A japonesa desiste.
Continuou andando e chegou até o hospital em segurança. Entrou, pegou as chaves e voltou para o ponto de ônibus. “Agora a peste do ônibus vai demorar toda vida! Que merd*!” -- pensou
Um ônibus parou no ponto e todas as pessoas que estavam lá foram embora. A enfermeira ficou sozinha. Sentiu medo e uma imensa vontade de buscar um táxi, mas estava sem dinheiro suficiente para isso. Depois de momentos de hesitação, decide sair dali. Deu meia volta para partir, foi surpreendida ficando cara a cara com Pedro e de repente uma dor causticante a invade e tudo ficou escuro.
Pedro roubou a carteira dela para que ficasse parecendo um assalto, deixou-a estendida no chão e saiu correndo. Foi para um estacionamento próximo e saiu com o carro. Ligou para o ‘velho’: -- Mestre! Fiz o que me ordenou e foi mais fácil do que eu pensava. Cravei a faca na barriga dela e deixa-a estendida no chão. A coisa ficou como se fosse um assalto. Tudo colaborou a meu favor!
--Quantas facadas?
--Uma! -- estranhou a pergunta -- Eu não tinha muito tempo...
--IDIOTA!!! -- berrou -- E como garante que ela está morta??? -- perguntou furioso
--Eu sei que está. Foi certeira! Além do mais, ela parecia desconfiar de minha presença. Eu não poderia ficar me arriscando. Já fui visto! -- exclamou nervosamente -- Se eu ficasse me detendo com ela alguém veria e chamaria a polícia!
Pedro na verdade tinha medo de Juliana por conta do que sentia quando a Luz aparecia em suas visões. Achava que ela era uma espécie de protegida dos céus.
--Seu tempo acabou.
--O que quer dizer? -- perguntou assustado
O ‘velho’ desligou o telefone. Pedro continuou dirigindo sem saber para onde ir. Seth o seguia de moto.
***
Ed estava na oficina resolvendo uns problemas com Renan e mais dois mecânicos quando Murilo vem lhe chamar. -- Ed, é sua mãe! É coisa séria!
--Nossa! -- olhou para Renan
--Vamos lá! -- ele disse -- Os dois correram para atender o telefone.
--Mãe? O que houve? A senhora tá bem? -- Renan quase colou o ouvido no rosto da morena para poder ouvir a resposta
--Comigo sim, mas Juliana sofreu um assalto ou sei lá o que! -- estava nervosa -- Foi esfaqueada e tá muito mal aqui no Silva Avelar e eu não sei o que fazer! Não consigo pensar direito, minha filha!
--Eu tô indo pra aí! Fica calma! Se Deus quiser vai dar tudo certo! Beijo, tchau! -- desligou o telefone
--O que aconteceu, Ed, fala?
--Juliana foi esfaqueada e tá mal no hospital. Eu vou correndo pra lá. Segura pra mim aí, Renan! -- olhou bem para ele
--Vai dar tudo certo, Ed!
A morena se despediu e saiu correndo.
***
Camille estava em casa estudando enquanto a mãe costurava na sala. Terminou com aquele livro e decidiu descansar um pouco. Perdeu-se em pensamentos e se lembrou de Seyyed. Lembrou-se do modo apaixonado como a morena admirava a ruiva dançando no palco. Seyyed era nitidamente louca por Isa e isso a deixava muito enciumada. Queria receber aquela atenção de alguém. Queria que alguém babasse por ela da mesma forma, mas Ed não seria essa pessoa... Seu coração já tinha dona.
Lembrou-se de Fátima. Pensou que a nadadora poderia lhe dar esse amor, essa atenção. Fátima não era bonita e charmosa como a mecânica, mas não achava que uma mulher valia apenas pela beleza. E a beleza daquela jovem cega não era física. Vinha de dentro, de uma alma cheia de paz. Pensou e remoeu suas angústias até que finalmente decidiu telefonar para Fátima.
--Alô? -- ela respondeu curiosa
--Sou eu... Camille... -- ainda não sabia o que dizer
--Ah! -- exclamou feliz -- Que bom que me ligou! O que deseja?
A loura sorriu com a empolgação que sentiu da parte da outra. -- Eu... queria ouvir sua voz...
--Que bom! Eu não ouço a sua voz desde o casamento de seu Mariano.
--É... e o braço, como vai?
--Recuperando. Daqui a duas semanas volto a nadar. Claro que em ritmo lento, mas só que usando os dois braços, ao contrário de todas as previsões negativas.
--Meu, que notícia da hora!!! Uau, que bom!! -- ficou animada -- Eu pedi pra minha mãe fazer uma promessa pra Virgem Maria por causa de você! Vou dizer a ela que deu certo!
--Você acreditando em promessa?? -- Fátima riu -- Fico lisonjeada, agradecida e totalmente boquiaberta! Você é uma caixinha de surpresas!
--Humpf! Pra que eu falei, né? -- respondeu contrariada
--Zanga não, pequena... estou feliz que se importe comigo.
--Você me confunde, mas eu me importo...
--E quando a vejo de novo? Quer dizer, ver no sentido figurado do termo. -- riu
--Eu... -- pausou -- Poderia ir na sua casa...
--Sim, claro que pode! Mas eu pensei que não quisesse vir por conta da problemática que foi quando veio aqui sozinha. Pensei que talvez quisesse passear.
--Passear?! -- riu -- Uma aleijada e uma cega passeando juntas? -- riu -- Ô louco, pára com isso, vai? Isso seria um verdadeiro circo dos horrores ou um clip de Michael Jackson nos anos 80! -- riu de novo -- Coisa mais tosca!
A nadadora calou-se por uns instantes. -- Pôxa, Camille... -- lamentou -- Não sabia que a imagem de nós duas juntas te era tão triste assim...
A loura imediatamente se arrependeu pela brincadeira. “Mas você só dá mancada, Camille!” -- pensou enquanto se recriminava -- Desculpa... Eu não deveria ter dito isso...
--Tudo bem se quiser vir aqui. Ainda não tô fazendo nada da vida então pode vir no que dia que quiser. Nem precisa avisar. Basta chegar. -- respondeu com tristeza -- Agora tenho que desligar porque é hora da fisioterapia
--Tá, tudo bem. -- respondeu envergonhada -- Tchau.
--Tchau, pequena. Fique com Deus. -- desligou
Camille pegou o outro livro e preparou tudo para recomeçar a estudar. Faltava pouco para terminar com o conteúdo que deveria rever. Estava arrependida pela brincadeira, mas de fato achava que ela e Fátima eram um casal ridículo sem qualquer apresentação. A nadadora, certamente, não tinha essa mesma opinião.
“Incrível como vivo ferindo os outros... faço isso com uma facilidade que às vezes me assusta... vai ver foi por isso que perdi a perna, pra aprender com o sofrimento...” -- pensou -- "Ah, mas isso é muito nada a ver. Eu nem acredito nessas palhaçadas, como não acredito em droga nenhuma!” -- sentou-se na cama -- "Por que liguei pra Fátima? Pra usar ela como prêmio de consolação porque Seyyed nem me vê? Mas por que eu quero ela ou Seyyed se eu não sou lésbica? Eu não sou, não sou!! Já pensou? Eu, lambendo uma... argh! Só de pensar dá nojo! E aquele gosmeiro todo, tanto muco, tanta...” -- fez careta -- "Mas eu quero namorado? Eu não! Pra passar pelo que Flávia passou? Pra ouvir o que ela ouviu? Ah, mas a vida é complicada demais!” -- suspirou -- Que merd*!!! -- gritou
--Olha a boca menina!!! -- Mariângela gritou lá da sala
***
--Fofucho, quando que vovó vai ser operada, hein? -- Gisele perguntava enquanto tomava banho na banheira do motel
--Eu não sei, fofucha! Já pedi pra meu cliente mas ele disse que ficou difícil. Pode ser daqui a duas semanas, mas... -- estava deitado de bruços na cama -- Eu não tenho como obrigá-lo! Já estou pedindo favor! A droga foi que faltou energia justo no dia em que ele conseguiu marcar!
--Isso tá uma droga, sabia? -- perguntou chateada
--Claro que sei que ela está sofrendo!
--E a casa anda uma bagunça! Toda desarrumada, não tenho quem me faça janta, quem cuide das minhas roupas...
--Gisele! -- levantou a cabeça em choque -- Não acredito que me cobra por isso apenas porque quer sua avó pra ser sua empregada!
--Claro que não, eu hein? -- disfarçou -- Tô apenas desabafando com você! -- esfregava as pernas com uma buchinha
--Vamos falar de assuntos mais interessantes... -- deitou-se de novo -- Gostou da apresentação da minha filha?
--Humpf! E desde quando isso me interessa? -- resmungou
--O que?
--Eu disse... amei! Ela é tudo! -- mentiu -- “Não suporto balé!” -- pensou
--Isa dança desde pequenininha... sempre teve talento. -- sorriu -- Fiquei tão preocupado quando ela foi sozinha pra França! Se Ana não tivesse me pedido tanto não teria deixado. -- suspirou -- É uma pena que ela seja... daquele jeito! -- disse contrariado
--Lésbica! -- Gisele afirmou enquanto esfregava os braços
--É inacreditável... A princesinha do papai... Sempre tão delicada, tão mimosinha, tão meiguinha... -- balançou a cabeça contrariado -- Isso foi culpa da Ana! Sempre com a cabeça nas nuvens nem viu o que acontecia debaixo do nariz dela!
--E você viu, por acaso?
--Fofucha! Eu sou o homem da casa, eu trabalho! Cabe a mãe educar os filhos! Especialmente as filhas! Eu dei tudo do bom e do melhor praquela menina e o que Ana fez? Nada! Viu o mal acontecer e fingiu que não viu! E quando viu ainda cooperou! -- protestou -- E ela anda tão mudada que ainda aprova que nossa filha seja amante daquela, daquela... Ed! -- falou com raiva -- Coisa mais ridícula!
--Veja pelo lado bom, essa tal de Ed é uma mulher bonita e apresentável. Já pensou ver sua filha com aquelas sapatões que se vestem de homem, peitudas e gordas? Aquilo ali é trash demais, meu Pai... -- riu
--Nem brinca! Se minha princesinha me aparece com uma daquelas machonas eu acho que iria morrer! Mas sendo feia ou bonita eu não gosto daquela desgraçada. Aposto que foi ela que colocou essas coisas na cabeça da menina!
--Por que não coloca ela pra se tratar? Vai ver cura!
--Isa é maior de idade, eu não posso fazer isso. E Ana não deixaria. Tá achando lindo que a filha seja mulherzinha daquela tarada sem vergonha nariguda! Aquilo ali é uma terrorista disfarçada, isso sim!
--Como eu disse uma vez, Anselmo: perdeu! Põe o galho dentro e deixa rolar! Agora já era... -- esfregava as axilas -- Fazer o que se a garota gosta de uma aranha?
--Gisele!! -- levantou a cabeça de novo -- Que maneira de falar!! -- deitou-se novamente -- E o pior é que minha filha agora me odeia...
--Por que diz isso?
--Ela mal me olha, não me dá a mínima...
--Deixa pra lá. Um dia isso vai passar. Além do mais veja pelo lado bom, ela não vai engravidar de uma hora pra outra!
--Mas eu queria ser avô um dia!
--Esquece isso. Você ainda é muito novo pra ser avô de alguém. -- levantou-se da banheira -- Queria era que cuidasse da minha avó! -- falou de modo bem insinuante -- Eu saberia agradecer tão bem... -- sorriu
Anselmo levantou-se da cama excitado. -- Olha o gnominho como ficou! -- fez voz fininha
--Vem gnominho... -- sentou-se na beira da piscina
Anselmo quase pulou em cima dela.
***
--Delegada ! -- Lemos entra na sala dela correndo -- Tem uma mulher aí fora que insiste em falar contigo. O nome dela é Said, Siad, Sied...
--Seyyed!
--Isso!
--Deixe entrar! -- Lemos saiu -- Por que diabos essa peste vem atrás de mim aqui? -- perguntou contrariada para si mesma
Seyyed entrou e logo de imediato Suzana deduziu que algo ruim havia acontecido com Juliana. A morena estava abatida e o semblante nitidamente triste.
--O que houve com Juliana? -- levantou-se da cadeira
--Foi esfaqueada... -- Suzana prendeu a respiração -- e tá muito mal no hospital. -- Ed colocou o capacete sobre a cadeira
--E quando foi isso? -- foi até a mecânica e a sacudiu pelos braços -- Fala, mulher!
--Ontem pela manhã! -- desvencilhou-se de Suzana -- Parece que foi um assalto, mas eu não acredito nisso!
--E não deve ter sido mesmo! E vocês prestaram queixa aonde?
--E acha que eu ou mamãe tivemos cabeça pra isso?
--Onde ela está?
--No Silva Avelar.
--O que?? E você permitiu isso?? Por que não a levou pra um lugar melhor, sua miserável? -- gritou com a mecânica segurando-a com firmeza pelo braço
--Escuta aqui, Suzana! -- deu um safanão na outra e a empurrou contra a parede segurando-a pelo colarinho. Suzana sentiu dor e falta de ar -- Ela foi levada pra lá nem sei por quem e mamãe foi contatada e correu pro hospital imediatamente. -- gritava com ela -- Quando me chamou eu larguei tudo e fui! Tentei removê-la pra um hospital de ponta mas não deu! É muito arriscado remover alguém que tá no CTI! -- largou a delegada, que ficou passando a mão no pescoço, e caminhou até o meio da sala dela -- Eu passei a noite toda lá! -- pausou -- Você deixou ela porque quis e agora vem crescendo pra cima de mim sem nem saber de nada? -- olhou para ela -- Onde estava quando isso aconteceu?
--Não se atreva a falar comigo dessa forma! -- foi até ela com o dedo em riste -- E olha quem é você pra falar! Abandonou a garota e quase a deixou maluca!
--Eu terminei com ela, não abandonei como você fez! -- deu um tapa no dedo da outra
--Como sabe o que eu fiz ou deixei de fazer?
--Ela contou pra minha mãe.
--Ah, e a fofoca corre solta... -- respondeu com deboche
--Tá chamando a minha mãe de fofoqueira, Suzana? -- deu um empurrão na outra fazendo-a desequilibrar e quase cair
--Podia te prender por desacato agora mesmo! -- gritava
--Quer me prender pra se sentir melhor? Me prende então! -- abriu os braços -- Não teve competência pra prender quem deveria e aí aconteceu isso!
A delegada avançou sobre Seyyed pegando-a pelo pescoço e apertando com força. A mecânica caiu de joelhos no chão. -- Nunca mais se atreva a me dizer isso de novo, entendeu? -- Seyyed sentia falta de ar -- Eu jamais permitiria que algo de ruim acontecesse com ela! Jamais! -- soltou a outra, que desabou no chão.
Suzana deu um soco na mesa e percebeu que muitos policiais observavam o que acontecia ali. -- E vocês vão ficar aí de camarote, é? -- berrou com eles. Todos se dispersaram com medo
Seyyed se levantou esfregando o pescoço. Respirou fundo e disse : -- Enquanto estamos aqui discutindo e brigando como duas idiotas ela tá lá com minha mãe... -- estalou o pescoço -- Não sou de briga, nunca fui, mas não nego que adoraria quebrar sua cara porque tô com raiva de você, como não me lembro de ter sentido de ninguém a vida toda. -- olhou bem para ela -- Mas agora ela precisa da gente! Não temos tempo pra essas palhaçadas!
--Vamos pra lá agora! -- a delegada pegou a mochila
Seyyed pegou o capacete e saiu.
***
Mariano passou no hospital e levou Olga para casa. Seyyed esperava sentada por Suzana, que estava com Juliana no CTI.
--E aí? -- perguntou para a delegada assim que ela voltou
--Mal... -- respondeu atordoada -- Eu... Você tinha razão... ela não pode ser removida...
Ed se levantou. -- Eu sei que você não gosta de mim e hoje tivemos uma discussão... pesada. -- pôs as mãos nos bolsos -- Mas se sente algo por ela, precisamos esquecer essas diferenças e unir forças.
--Eu amo essa mulher, Seyyed! -- respondeu com firmeza
--Então não a deixe mais! -- olhou no fundo dos olhos dela
--Eu fiz isso porque... -- calou-se para não chorar. Conseguiu manter o controle -- Não queria que nada de mal acontecesse a ela e no entanto...
--Não foi culpa sua! Eu disse o que disse na hora da raiva. -- pausou -- Perdoe, eu não deveria ter sido rude, ter gritado contigo... Eu não tenho raiva de você, foi um momento de descontrole... Desculpe...
--Eu... também deveria me desculpar... eu não tinha o direito de falar o que falei e fazer o que fiz... desculpe. É que... eu morro de inveja de você!
--Por que?? -- perguntou espantada
--Porque você faz sucesso com as mulheres e mais que isso... Juliana te ama!
--Ela ama você! -- segurou-a pelos braços -- Quando vai perceber isso? -- olhava fixamente para ela -- Juliana hoje me ama do mesmo modo como eu a amo! Com amizade! Mas você... ela aprendeu a te amar, criatura, do jeito como você é! Ela ama você e ponto final! -- soltou-a
--Acha isso?
--Tenho certeza! -- pausou -- Vamos orar por ela?
--Eu não rezo! Você tem condições, não eu.
Seyyed balançou a cabeça. -- Vai passar a noite com ela?
--Sim! Vou pedir pra meu amigo Brito trazer coisas minhas pra cá e passo a noite toda ao lado dela. Eles não deixam dormir no CTI, mas eu posso dormir aqui igual você fez.
--Tem muita gente velando por ela!
--Eu sei... -- sorriu -- Minha japonesa enfasadinha é muito especial...
--Ela é... Escute, a gente pode ir revezando. Umas vezes eu durmo aqui, outras você...
--Eu só não vou dormir aqui quando realmente não puder por causa do trabalho.
--E aí você me dá um toque e eu venho. De qualquer forma, vou aparecer pra saber dela.
--Obrigada!
--Então... -- estendeu a mão -- Eu vou indo!
Suzana segurou sua mão e puxou-a para um abraço. -- Valeu mesmo! -- soltou-a
--Vai dar tudo certo! Deus está com ela! -- despediu-se e saiu
Pouco tempo depois o celular de Suzana tocou.
--E então? Já soube da notícia?
--Velho maldito! -- falou enfurecida -- Espero que tuas magias sejam muito fortes, porque quando eu te pegar você não sabe o que te espera!!!
--Vai me matar? Como nos velhos tempos? Vai voltar para o seu lado escuro? -- riu
--O que sabe da minha vida, desgraçado?
--Mais do que imagina... -- desligou
A delegada chutou o chão com raiva.
***
Seyyed estava apenas de calcinha e deitada de bruços enquanto Isabela massageava suas costas. A ruiva vestia uma camisola.
--Mas, amor... se Juliana tem a delegada por que você tem que ficar indo lá praquele hospital? -- Isa perguntou com jeitinho -- Não dormiu ontem, trabalhou o dia inteiro hoje e ainda foi pra lá de novo... Olha só como está... -- apertava os ombros dela
--Isa... ela tá muito mal... Muito mal mesmo...
--Sério? -- perguntou com arrependimento -- Ai, Ed, desculpe... eu não sabia que era tão grave!
--E é! Mamãe e Mariano reuniram umas vinte pessoas e começarão hoje a fazer uma espécie de vigília na casa deles. Até Mariângela está no grupo!
--Tomara que dê tudo certo... eu não gosto dela mas não quero que morra, isso não! -- massageava o pescoço da outra
--Ela não vai morrer, se Deus quiser! -- virou a cabeça para o lado -- Mas, e você? -- mudou de assunto -- Pronta pra recomeçar a maratona amanhã? -- sorriu
--Sim, mas eu queria muito... -- beijou as costas dela e foi seguindo uma trilha de beijos até o pescoço -- muito... -- mordeu o ombro da morena -- fazer amor com você... -- beijou a orelha da amante e começou a sussurrar -- Desde que essa correria começou eu não tive o prazer de... -- mordeu a orelha de Ed -- sentir você... ser sua... -- deslizou as mãos pelas costas dela
--Isa... -- sentiu a bailarina arranhar seus braços
--Vem cá, amor... -- ficou de joelhos e puxou a morena para que se virasse de frente. Sentou-se sobre os quadris dela -- Vem? -- tirou a camisola e ficou só de calcinha -- Vem! -- puxou-a pelos braços para que se sentasse. Ed assim o fez. A ruiva envolveu a própria cintura com os braços da amante e ficou arranhando as costas dela de leve -- Tô com saudades... -- beijou-a
A mecânica abraçou a namorada com força e começou a beijá-la, percebendo que Isa estava bastante excitada. Porém, não conseguia sentir vontade. Interrompeu o beijo.
--Amor, me desculpe mas não dá... -- a ruiva não se importou com o comentário e continuou beijando o pescoço da amante -- Sério, minha gata... não dá, hoje não dá...
Isabela interrompeu o que fazia e olhou para Seyyed com espanto. -- Você nunca... Nossa, amor, o que há com você?
--Tô cansada, preocupada... -- respirou fundo -- Desculpa, Isa mas eu quero dormir.
--Mas... nem naquela vez que você ficou três dias trabalhando sem parar não aconteceu isso... -- comentou desconfiada
--Mas isso acontece. E você já me disse não também.
--Mas é diferente!
--Por que?? -- perguntou sem entender
--Porque você tem mais tesão do que eu. -- pausou -- Não me deseja mais? -- perguntou insegura
Ed riu. -- Eu te amo e te desejo muito, mas hoje não dá... fica zangada não...
--Não estou.
--Eu te amo, tô do seu lado nessa correria que envolve seu espetáculo, mas hoje eu preciso de um colinho seu. -- acariciava o rosto dela -- Eu gosto da Juliana, fiquei triste com isso, mamãe tá triste... Eu sei que você tem motivos pra estar estressada também, mas preciso de você.
--Hum... -- beijou os lábios dela -- Você me tranqüiliza, me dá segurança... não dá pra ter estresse do seu lado... -- sorriu -- E claro que eu dou colinho pra você. Dou tudo que quiser... -- beijou-lhe a testa
A ruiva deitou-se de barriga para cima enquanto Seyyed deitou com a cabeça no seu colo, abraçando-a. Isabela também a abraçou e fazia um cafuné.
“Será que ela ainda sente alguma coisa por Juliana? Nunca vi Seyyed desse jeito... Será que pensa nela? Será que minhas atitudes a deixam tão insegura de meu amor que ela chega a pensar em voltar pra outra?” -- pensou -- "Eu não abro mão dela! Pra ninguém!” -- beijou a cabeça da morena -- "Eu não vou encontrar outra pessoa assim, nunca mais vou... Ai, eu acho que vou desistir daquela idéia de morar na zona sul e vir logo pra cá mesmo! Depois, no futuro, a gente se muda!” -- decidiu
***
Tatiana estava lendo o jornal.
--Ouve aqui, Priscila! -- chamou. Priscila veio -- Escuta isso: “Um homem foi encontrado morto em Paciência perto da estação de trem. O cadáver foi identificado como Pedro de Barros, o qual havia sido preso no mês passado como um dos prováveis assassinos de Patrícia Feitosa. Pedro foi liberado por falta de provas que o ligassem ao caso. A delegada Suzana Mello afirma que Pedro é o principal suspeito da agressão sofrida pela enfermeira Juliana Okinawa Mitsui, no Centro da cidade, nesta quarta-feira. Juliana tem 36 anos e encontra-se no CTI em estado grave.” -- pausou -- Chega dói ler umas notícias dessas! -- olhou para a amiga
--Você toma cuidado, viu Tati? Ainda mais que você denunciou os caras e reconheceu aqueles dois safados! -- advertiu
--Ave Maria! -- benzeu-se -- Pára com isso, viu, fi? -- voltou a olhar para o jornal -- A Polícia Federal agora tá investigando essa tal seita maluca. Eu acho que esses bandidos estão com os dias contados! Só falta o tal do velho e todos os assassinos estarão na jaula.
--Dois já se foram... -- suspirou -- Olha só, vamos mudar de assunto porque já me basta estar em casa estudando em plena sexta-feira à noite!
--Eu nunca me incomodei com isso de estudar em final de semana. Amanhã Renan e eu vamos pra casa de Dona Olga e domingo estarei aqui estudando.
--Ah, eu gosto de sair de noite... E tava de olho em um gatinho da fisioterapia...
--Deixa eu te perguntar, quando você vai parar com namorado, hein?
--Ah, não, Tati! Já me basta minha mãe com essas cobranças... E Lady, é claro! -- revirou os olhos
--Oi, pessoas!! -- Lady entra em casa acompanhada por um rapaz
--Falando no diabo... -- Priscila resmungou
O rapaz que estava com Lady era alto, muito forte e parecia disposto a bater em quem olhasse para ele por mais que dois segundos. Usava calça jeans justas, camisa regata colada e botas pretas.
--Gente, esse aqui é o Carlão! -- apontou para o rapaz -- Carlão, estas são Tatiana e Priscila!
--E aí? Tranqüilidade? -- perguntou
--Boa noite. -- Tatiana respondeu desconfiada. Priscila nem se deu ao trabalho
--Imaginem que Carlão me pediu em namoro hoje! -- abraçou-o -- Ele é lá da faculdade! -- sorriu -- Faz engenharia mecânica! Curso de macho!
--Muito macho! -- afirmou enfático
--Ai, mas quem não sabe que você é muito macho? Olha os braços dele? -- sorriu enquanto o rapaz mostrava os bíceps trabalhados
--Lady, você sabe qual é a sua comida. Então nada de pegar a dos outros pra alimentar essa macheza toda, valeu? -- Priscila foi direto ao ponto
--Obrigada, mas nós já lanchamos! -- respondeu desdenhando -- Não precisamos de nada seu! -- olhou para Carlão -- Vamos, amor. Deixa eu te apresentar a casa! -- entraram
--Nossa! Pra quem gritava como uma bezerra desmamada há tão pouco tempo ela já se recuperou completamente! -- olhou para Priscila -- Viu aqueles trem que ele usa no pulso? Parece até coisa de punk!
--Eu só sei que é mais um maluco nessa casa! -- levantou-se da poltrona -- A gente tem que situar essa garota! Eu não fico com namorado aqui em casa. Eles vêm me esperar e a gente sai. Você não fica instalada com Renan aqui dentro. Lady mal conhece um maluco qualquer e BUFF! O cara aterrissa aqui! Muito errado isso!
--Veja pelo lado bom: Clint Eastwood foi embora! -- sorriu
--Nem me fale! -- foi indo para o quarto -- Agora só falta ela!
Tatiana ficou rindo.
12:10h. 16 de junho de 2001, Esplanada dos Ministérios, Brasília, DF
--E então, mãe? Como vai Juliana? -- Seyyed perguntou ao telefone
--Ainda na mesma. Nada mudou. -- pausou -- E nós continuamos orando por ela. Você tem que ver quanta gente vem visitar e saber notícias! Pena que não dá pra todos entrarem.
--Juliana tornou-se uma pessoa muito amada. Sei que vai dar tudo certo, se Deus quiser! -- caminhava
--E vocês aí? Como estão?
--Tudo bem. Isa tá se preparando pro espetáculo de hoje. Ontem deu tudo certo e o teatro tava lotado! Hoje deve bombar de novo! Ainda mais com o nome da Ana Fluminense protagonizando a coisa toda. -- continuava caminhando -- Tem que ver a mãe da Isa! -- riu -- Aquela ali é muito Pau d’Arco, mãe! Toda pessoa bem arrumada que vê na cidade cisma logo que é político! Já pagou cada mico...
--Eu, hein? -- riu -- E você? O que está fazendo?
--Turismo! -- riu -- Tô dando uma circulada aqui. Nesse exato momento estou em frente a Catedral apreciando umas flores secas lindas que eles vendem aqui. Cada coisa... Vou comprar pra senhora!
--Não precisa me dar presentes... -- sorriu -- Não vai trabalhar amanhã?
--Renan vai abrir a oficina e segurar as pontas até eu chegar, o que deve ser por volta de umas duas ou três da tarde. Sabe que não se pode confiar em horário de empresa aérea...
--Peguei pavor de avião depois daquela sua experiência voltando de Houston... Cuide-se minha filha!
--A senhora também, mãe! E olha, vai dar tudo certo! Fica com Deus!
--Tchau querida! Fique com Deus também! -- desligou
Ed entrou na Catedral e fez uma oração por Juliana. Na saída, esbarrou em uma mulher.
--Desculpe, moça... -- olhou para a morena -- Ih! Você!
--Ora, mas que coincidência! -- cruzou os braços -- Mundo pequeno, esse!
Gisele ficou sem graça. -- Não deveria estar paparicando sua estrela? -- perguntou pela absoluta falta do que dizer
--E você não deveria estar com fofucho? -- perguntou sorrindo
--Olha só, você não devia de me sacanear tendo em vista sua condição dantesca!
--Condição dantesca! -- riu -- Ainda não tinha ouvido essa classificação... Mas relaxa que não vou te dar trabalho e nem te entregar pra Isa. Ela já está sob muita pressão pra eu colocar mais lenha na fogueira.
--Obrigada! -- passou a mão nos cabelos -- Eu não queria vir, mas Anselmo insiste... Ele quer ficar sempre comigo por perto...
--É muito amor... -- brincou -- Vou deixar você continuar com seu turismo. Hora de almoçar e daqui a pouco encontrar com a minha ruiva.
--Espera! Deixa eu ir almoçar contigo? Anselmo tá aí com mãe, irmão, mulher... Eu não tenho companhia até o show da sua ruiva terminar.
--Então vamos! -- fez sinal com a cabeça
***
--Bem, você também vai fazer o favor de não dizer pro pai da Isa que almoçou comigo. Ela ficaria uma fera se soubesse que estivemos aqui no restaurante anexo do Congresso Nacional. -- comia
--Se Anselmo soubesse disso ele me mataria! É um segredo que ambas levaremos pro túmulo! -- sorriu -- Sabia que ele te detesta?
--Nunca desconfiei! -- respondeu ironicamente
--Isabela também deve sentir o mesmo por mim, não é? -- bebeu um gole de cerveja
--Taí, ela nunca me disse nada!
--Anselmo acha que ela o detesta.
--Ela ficou magoada, o que é compreensível, você há de convir.
--Aquilo não deveria ter acontecido! A gente dar de cara com vocês... Que vexame!
--Nem me fale. -- balançou a cabeça
--Minha avó tá operando hoje! -- falou sem pensar
--Que ela tem?
--Quebrou o joelho vai ter que colocar platina, prótese, sei lá o que é! O hospital enrolou toda vida mas agora vai!
--Ela tá aonde?
--No Silva Avelar.
“Nossa, como o mundo é pequeno!” -- pensou -- E você não fica preocupada de não estar lá?
--Eu não! Não sou médica; muito menos enfermeira!
--Caraca! -- exclamou surpresa
--Eu não sou apegada a ninguém. Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu.
--Beleza... -- terminou de comer -- Vou te perguntar uma coisa. Pode me dar um fora se quiser. -- olhou bem para ela -- Você não ama o pai da Isa, não é?
--Que você acha? -- acabou de comer também e entornou o resto da cerveja no copo
--Que não.
--Então... -- sorriu e bebeu a cerveja -- Você não bebe ou não estava a fim?
--Não bebo.
--Você não me parece do tipo santinha... -- pensou -- Deixa eu te fazer uma pergunta. Quem deu o bote em quem? Você ou a ruiva?
--Ah, eu não vou te falar sobre isso... -- sorriu -- Mas posso te dizer que a amo.
--Tem que rir, viu? Mulher com mulher... Nunca experimentei isso e nem me dá vontade.
--Fazer o que? -- deu de ombros. O celular tocou -- Alô, querida!
--Cadê você?
--Almoçando! Acabei de acabar!
--Vem pra cá, então... queria ter você por perto... ficou a manhã toda longe... -- falou com voz melosa
--Só vou pagar aqui e corro pra aí!
--Não demora! Até logo, amor!
--Até! -- desligou e olhou para Gisele -- Sinto muito mas terei de deixá-la. Minha gata me chama! -- piscou e se levantou da mesa
--Vai lá... -- bebeu o último gole da bebida. Reparou que um coroa de terno preto a olhava fixamente -- Será que é político? -- perguntou para si mesma enquanto reparava nele -- Vai que é? -- sorriu
14:20h. 17 de junho de 2001, Barra Shopping, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
--Eu nunca tinha vindo aqui. -- Camille comentou -- Mas eu não vou pra muitos lugares, então o comentário nem se justifica.
--Descreva o shopping pra mim? -- Fátima pediu
Enquanto descrevia o local, as duas passeavam pelo primeiro andar do shopping. Camille foi de muletas e Fátima seguia confiante com sua bengala.
Desde que retomou o contato com a nadadora, Camille buscou estar com ela na medida do possível. Esteve em sua casa uma vez, recebeu sua visita em outra e agora passeavam. O contato telefônico havia se tornado freqüente.
--Você é boa narradora. Seria uma escritora?
--Como sempre sabe tudo? -- perguntou surpresa -- De fato escrevi um conto e postei na internet. Já sou autora favorita de um monte de gente! -- comentou -- Estão me pedindo pra escrever mais.
--E sobre o que escreveu?
--É um romance... mais ou menos... diferente... -- respondeu constrangida
--Homossexual? -- riu -- Tudo bem, já entendi. Você escreve o que não tem coragem de viver, não é isso?
--Ai, não, pára. Não começa com a psicologia barata, pode ser? -- respondeu contrariada
--Tudo bem... -- pausou -- Mas me responda: porque resolveu voltar atrás e me procurar?
--Porque... ah, eu sei lá! Porque cismei, é isso!
--Que bom que cismou. -- riu
--Mas isso não quer dizer que rola nada!
--Eu tô quietinha, não tô?
--Acho bom. Aqui é amizade pura e simples!
--Tudo bem!
--Sem segundas intenções.
--Tudo bem!
--É isso aí. -- chegaram à praça de alimentação -- Ô louco, meu! -- exclamou surpresa
--O que?? -- perguntou sem entender
--Duas garotas aos beijos aqui na praça de alimentação!
--E por que isso te choca? -- perguntou naturalmente
--Por que?? Ora, porque é uma pouca vergonha!
--Não é o que você está acostumada a ver. Só isso.
--Humpf! -- fez um bico -- Eu acho uma pouca vergonha, só isso! -- continuavam andando
--Então porque não pára de olhar?
--E como sabe disso?
--Pela mudança na entonação e direção da sua voz. Característica de quando se vira o pescoço muito pra trás.
--Fátima, você é muito chata, viu?
A nadadora riu.
***
Um tio de Fátima buscou-as de carona e foi embora depois de deixá-las na casa da nadadora. Segundos depois caiu um toró daqueles. Fátima ligou para o taxista amigo da família mas o homem não queria sair de casa naquele temporal. As horas foram passando e a noite chegou sem que a chuva desse tréguas. Jurema estava na casa da irmã e ligou para dizer que não tinha como sair de lá e dormiria fora por conta disso. A loura teve que ligar para Mariângela dizendo que dormiria na casa da colega.
--Cuidado, hein, Camille? -- a mãe advertiu -- Muito cuidado!
--Relaxa mãe! Tá tudo bem aqui dentro. Ruim tá é lá fora!
Despediram-se após alguns poucos segundos de conversa.
--Parece que terei de arrumar roupa pra você dormir. Venha comigo e escolha a camisola que quiser.
Camille escolheu a roupa e foi tomar banho. Fátima também o fez.
--Pode dormir na minha cama. Eu vou pra cama de mamãe.
E a chuva não parava.
--Quem diria... e um dia tão bonito! -- Camille afirmou olhando para fora pela janela fechada -- Nossa, parece até que o mundo vai se acabar em água!
--Boa noite, pequena! Beijinhos! -- foi para o quarto da mãe
Camille deitou-se na cama e ficou deitada de barriga para cima. Estava sem sono. Minutos depois ouve-se um estrondo forte de um raio e a luz acabou.
--Ah, não! -- sentou-se na cama -- Fátima! -- gritou -- Tá acordada?
--Sim. -- ela respondeu
--A luz acabou... Tá tudo escuro aqui... -- disse com medo
--Pra mim é tudo escuro sempre. -- brincou
--Pára com esse humor negro e vem pra cá! Tenho medo do escuro!!
--Ai, que fofo! -- riu -- Tô indo!
Ela veio com sua bengala e um travesseiro debaixo do braço. Deitou-se do lado da loura.
--Olha só, mas isso aqui não é filme não, tá? -- foi logo dizendo
--Que quer dizer? -- não entendia
--Porque em filme um casal se deita na cama porque só tem uma cama, porque acaba a luz ou sei lá o que... e tudo acontece...
Ela riu. -- Fique tranqüila. Sou bem comportada. E não somos um casal, não é mesmo?
--Claro que não somos! -- virou-se de lado e ficou olhando o contorno da silhueta dela na escuridão -- Posso te fazer uma pergunta bem desagradável?
Ela riu novamente. -- Será que tô preparada pra um diálogo forte?
--Como é ser cega? Não sente saudades de quando podia ver?
Fátima permaneceu um tempo calada e respondeu: -- É uma longa resposta...
--Tô sem sono... se você também estiver...
--Ser cega é viver no escuro completo. Então você constrói o mundo na sua cabeça. Você idealiza as coisas como são. Os outros sentidos aprendem a ver, além de fazer o que naturalmente deveriam fazer. E a atenção deve ser redobrada. Sua velocidade diminui pra que tenha cuidado, mas há coisas nas quais pode ser muito rápida. Como quando eu nado, por exemplo... E claro sinto saudades da luz, das cores... Queria ver algumas coisas de novo, mesmo que por alguns segundos... Queria ver mamãe, queria ver o sol nascer, queria ver as copas das árvores balançando ao sabor do vento, queria ver os pássaros voarem no céu e os arco íris quando as chuvas deixam de cair. Queria ver este temporal que te assusta e o brilho dos raios cortando os espaços... Mas tudo isso eu sei como é, porque não nasci cega. Eu sinto falta mas não dói tanto, porque posso buscar na memória... A única imagem que eu nunca vi e gostaria muito de ver é o seu rosto. -- virou-se de lado
Camille ficou emocionada com isso e não resistiu aos próprios desejos. Segurou o rosto de Fátima e beijou-a com intensidade. A nadadora virou-se de lado e puxou a loura pela cintura. As mãos percorriam o corpo da jovem com firmeza e carinho e os lábios assaltavam seu pescoço.
--Ah... -- Camille gem*u com os olhos fechados
Fátima deitou-se sobre ela e continuou beijando, enquanto passava a mão na coxa da loura. -- Você quer? -- sussurrou em seu ouvido
--Sim... -- respondeu quase que com um suspiro
Fátima tirou a própria camisola e a camisola de Camille. Seguiu beijando os seios da jovem que gem*u alto e segurou-a pelos cabelos. A nadadora não parava, como que se quisesse conhecer cada parte do corpo da outra com todos os sentidos dos quais pudesse dispor.
--Eu queria entender... -- sussurrou.
Em pouco tempo sente o hálito quente da mulher em seu ouvido : “Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”18
Camille não pensou em mais nada e se entregou ao que sentia. A nadadora era toda carinho, desejo e muito sentimento. Apesar de cega, parecia capaz de ver nela o que ninguém nunca tinha visto. A jovem se descobria sob os toques, beijos e carícias de, simplesmente, uma outra mulher. Seus preconceitos não tinham espaço naquele momento.
***
Camille acordou ouvindo as vozes de Fátima e Jurema conversando na cozinha e levou um susto. Olhou para si e viu que estava nua por debaixo das cobertas. “Meu Deus, aquilo não foi sonho!” -- pensou apavorada
Buscou as muletas, levantou-se e vestiu a camisola. Pegou as roupas que usava no dia anterior e foi para o banheiro. As mulheres não a viram.
Lavou-se com a duchinha e começou a se vestir. Lances da noite anterior surgiam em sua mente e ela tentava apagar da memória. “Mas o pior é que foi tão bom... Fátima é uma amante tão carinhosa e quente...” -- balançou a cabeça -- "Mas o que é isso, Camille? Não sou sapatão, não sou, não sou! Eu tava fragilizada pelo meu medo de tempestades!”
Terminou de se aprontar e saiu do banheiro. Deu de cara com Jurema.
--Bom dia moça! -- cumprimentou sorrindo -- Que noite foi aquela, hein?
--Bom dia. -- sorriu sem graça -- Pois é, que noite...
--Bom dia, pequena! -- Fátima estava sentada na mesa da cozinha e sorria -- Venha tomar café!
--Bom dia, Fátima. Eu... -- olhou para Jurema -- Eu vou embora. Poderia chamar o táxi?
--Chamo, meu bem. Mas senta e vai comer! Não se sai de casa em jejum.
--Ah, eu não tomo café da manhã. -- mentiu -- Obrigada!
Fátima percebeu que Camille estava querendo fugir dali o mais rápido e seu sorriso foi se desmanchando aos poucos. -- É melhor ela ir, mamãe. Dona Mariângela deve estar preocupada.
--Eu ligo agora mesmo, então. Além do mais tenho que falar com a esposa dele. -- foi telefonar
A loura foi até a cozinha e sentou-se diante de Fátima. -- Esqueça o que aconteceu ontem, ouviu? E nunca, nunca fale com ninguém! Eu tava sugestionada pelo medo e você se aproveitou de mim! -- falava baixo
--Ao que me lembre, você me chamou pra dormir a seu lado, você me beijou e você disse sim quando perguntei se queria. -- respondeu seriamente
--Eu tava fragilizada... você já chegou com segundas intenções. Desde que seu tio nos buscou você já tava tramando isso! -- olhava para ver se Jurema ainda estava conversando
--E eu interferi nas forças da natureza e fiz cair um toró, fiz o taxista não querer sair de casa, minha mãe ficar presa na casa da titia, a luz acabar... e ainda manipulei sua mente pra você me chamar e me beijar. Eu usei minha camisola mais sexy pra te provocar. Logo eu que sou tão atraente! -- respondeu com sarcasmo
--Você sabe que se aproveitou, não venha com deboche!
--Quer saber, Camille? Você não passa de uma hipócrita! Está louca, louquinha pra viver isso mas não tem coragem e então me culpa por seus próprios desejos! Você não aceita o que é e se esconde com a máscara de homofóbica. -- pausou -- Sinto muito que seja tão infantil, porque eu gosto de você, gostei de fazer amor com você, mas não vou ser sua válvula de escape. -- uma lágrima rolou-lhe pelo rosto
A loura sentiu uma dor no coração ao perceber a lágrima que descia lentamente pelo rosto da outra. -- Eu... talvez eu não tenha me expressado bem...
--Talvez só se expresse bem em seus contos... Aprenda uma coisa, Camille, “és dona das palavras que não diz, mas escrava das que te escapam à boca”19.
--Ele pediu pra que espere por vinte minutinhos. -- Jurema entrou na cozinha distraída e não percebeu o clima entre elas
Fátima levantou-se com o prato na mão e foi lavar a louça. Camille ficou pensando no que fazer dali para frente.
***
Um ritual religioso acontecia na calada da noite no Parque do Grajaú. Seth dá um grito e cai ajoelhado no chão. Os demais homens interrompem os cânticos.
--Não consigo mestre! É aquela luz. Está ainda mais forte e me ofusca de um jeito que... -- olhou para o velho -- Não dá!
O ancião quebra seu cajado com um golpe no chão. -- Maldição! -- berrou -- Será possível que aquela maldita, mesmo à beira da morte, é capaz de ser mais forte que você???
--Não consigo mestre! -- levantou-se constrangido -- Mesmo com seu apoio... -- abaixou a cabeça
--Seu irmão teve medo... Medo de uma mulher... -- balançou a cabeça com desgosto -- Alguém tem que completar o que se encontra inacabado...
Suzana estava no CTI olhando para Juliana. -- Você precisa melhorar, Ju... -- passou a mão na testa dela -- Não pode morrer... por favor, precisa lutar! Eu sei que você tem força! Volte pra mim, meu amor... Eu te amo! -- uma lágrima escorreu de seus olhos. A delegada saiu da sala e ficou andando pelo hospital sem rumo
Através da janela pôde ver a lua. Lembrou-se de Sammael e sentiu ódio. Fechou os olhos e deu um soco na parede. “Não, eu não posso me contaminar pelo ódio... É como dona Olga diz... Isso dá mais força pra ele!” -- pensou e abriu os olhos novamente
Andou mais um pouco e ficou relutante quanto ao que fazer. Ao final, voltou para onde Juliana estava. Chegando perto do leito dela, ajoelhou-se e encostou a cabeça no chão. --- Meu Deus... eu não busco pelo Teu nome há muitos anos... sei que não tenho merecimento para isso, mas, por favor... eu imploro Teu perdão pela minha ousadia! E se estou cometendo tal pecado não é por mim, mas por Juliana, que é uma boa filha para Ti. Eu Lhe imploro, meu Deus, não deixe que ela morra! Por favor, eu Lhe imploro! Ela não merece morrer por minha causa! O mundo precisa de gente como Juliana, mas não de gente como eu... Eu não farei falta a quem quer que seja, mas ela sim... Ela é amada, ela é querida, ela ajuda as pessoas no hospital, ela leva esperança aos doentes... Eu Lhe imploro meu Pai! Que eu morra seja como for, mas que ela fique! E que quando tiver que morrer, que seja na velhice, depois de fazer tudo o que sempre quis, dormindo segura em uma cama confortável. Ela não merece morrer pela espada, eu sim! Eu Lhe imploro Senhor! Salve-a, por favor! -- levantou o tronco e permaneceu ajoelhada -- Você não vai morrer, meu amor! Não pode morrer! Lute, lute! Eu sei que pode! -- levantou-se, passou a mão nos cabelos e secou os olhos úmidos com as mãos -- Eu te amo! -- beijou-lhe a testa e saiu da sala novamente
Sentiu o telefone vibrando no bolso da calça. -- Alô!
--Alô, Suzana, Seyyed. Como vão as coisas aí?
--Na mesma...
--Precisando de alguma coisa?
--Não, obrigada, Ed... Não há o que possa fazer...
--Tudo bem. Qualquer coisa, me deixe saber. Você não tá sozinha nessa, sabe disso.
--Eu sei. -- pausou -- Valeu!
--Então tá. Tchau!
--Tchau. -- desligou
Seyyed havia acabado de voltar da academia. Após ligar para a delegada tomou um banho e foi se deitar, mas estava sem sono. Pensava em Juliana e em Isa. Fez uma oração pela ex mulher e virou-se de lado. “E quanto a você, hein? Que eu faço com você, Isabela Guedes?” -- pensou
O telefone tocou. Era Isa. -- Eu tava pensando em você! -- foi a primeira coisa que disse ao atender
--Então por que não abre a porta pra mim? -- perguntou insinuante
--Você tá aqui??? -- levantou-se rapidamente -- Espera aí! -- desligou o telefone e desceu as escadas correndo
A morena abriu a porta da garagem e a bailarina entrou manobrando. Saiu do carro e sorriu para a namorada. Isabela usava calças jeans justas, botas de salto, blusa de gola rolê e um casaco de couro marrom. Estava linda.
--Estava dormindo? -- perguntou insinuante
--Deitada mas não dormindo. -- sorria
--Você disse que pensava em mim... -- caminhou sensualmente até a outra -- Sobre o que pensava? -- parou bem perto dela
--Sobre o que eu deveria fazer com você...
--Vou te ajudar a decidir... -- ameaçou beijá-la mas não o fez. Afastou-se de Ed e se encostou no carro. Tirou as botas e as meias -- Já que anda tão indecisa...
Seyyed riu. -- Não sou eu a pessoa reticente aqui...
--Eu não sou reticente... -- respondeu fazendo charme e tirando a jaqueta
--Ah, não? -- estava ficando excitada
--Não... -- tirou a blusa e jogou-a em cima de Ed
--A sua condição é morar na zona sul... -- aproximava-se devagar
--Não é condição, foi um pedido... -- levantou uma perna e interrompeu a aproximação de Seyyed colocando o pé sobre o ombro dela -- Eu não disse que você podia se aproximar! -- falou fingindo ser arrogante
--E é você quem manda aqui? -- pegou o pé dela e o beijou
--Eu sou sua rainha! -- continuava fingindo
--E a minha rainha só casa comigo se for morar na zona sul? -- abriu as pernas dela sem que esperasse e se colocou entre elas segurando-a pelas coxas. Imprensou-a contra a chaparia do carro e ficaram frente a frente -- Quem manda aqui sou eu, entendeu? -- afirmou com voz rouca
--Ai... -- gem*u excitada envolvendo os braços no pescoço dela
--Pára de bobeira, vem morar aqui e a gente pensa no resto depois! -- disse com firmeza -- Eu quero você aqui pra mim e não aceito um ‘não’ como resposta! -- olhava no fundo dos olhos da ruiva
--Você me deixa arrepiada quando fala assim comigo... -- beijou-a -- Me leva pra cama agora! -- beijaram-se apaixonadamente
Ed interrompeu o beijo e arrancou as calças de Isa com calcinha e tudo. Ela ficou rindo.
A morena mergulhou entre suas pernas fazendo-a gem*r com vontade. Seguiu uma trilha de beijos e arrancou o sutiã da outra com os dentes. Enquanto isso a ruiva arrancou a blusa de Seyyed e removeu seu short com os pés, envolvendo as pernas na cintura dela logo em seguida.
A mecânica subiu para o quarto aos beijos com a namorada e rapidamente deitou-se com ela na cama.
--Vem amor, faz o que quiser comigo... -- fechou os olhos ao sentir o peso da outra sobre seu corpo
--Você é minha, Isa! -- sussurrava no ouvido dela -- Minha... pára de criancice!
--Eu sou sua... toda sua... -- arranhava as costas da outra, que explorava seus seios com voracidade -- E você é minha... -- sorriu
--Casa comigo, vai? -- beijava e lambia o pescoço da ruiva
--Caso, caso... -- puxou-a para um beijo -- Quem é... sua... rainha, hein? -- perguntou entre beijos
--Isabela Guedes! -- não parava de beijá-la e explorá-la com as mãos
--Quem é... sua... musa? -- novamente perguntava entre beijos
--Isabela Guedes!
--Você... me ama?? Ai... -- gem*u
--Amo... só você... me interessa... -- seguia beijando novamente o corpo da amante para invadi-la com volúpia
--Ah, ah, ah, amor!!! -- curvou o tronco agarrando-se aos cabelos da morena
Fizeram amor por muito tempo noite e madrugada afora.
***
Seyyed e Isa estavam deitadas na cama. A morena de barriga para cima e a ruiva com a cabeça no ombro dela, acariciando seu braço.
--Amor, eu sei que você ficou magoada com o que eu disse, mas só falei aquelas coisas porque era muita pressão e um desafio enorme...
A morena fez cara de contrariedade. -- Sempre teremos problemas quando você estiver sob pressão? -- pausou -- Eu tenho minhas ‘pressões’ de minha parte e não saio descontando em você! Imagine se estivesse no meu lugar quando me descobri endividada?
Ela ficou calada e depois respondeu. -- Tem razão... -- mexia no cordão da amante -- Eu... acho que meti os pés pelas mãos.
--Você me surpreendeu com essa conversa de não querer mais morar aqui, mas eu não quero forçar a barra com isso pra que depois, na primeira briga, você não jogue na minha cara que fez o que não queria fazer...
--Eu não vou fazer isso...
--Você diz isso agora e depois esquece e muda de opinião. -- desvencilhou-se dela devagar e sentou-se olhando para seu rosto -- Você é muito inconstante. Fala com sinceridade pra mim: você quer mais tempo? Acha que é muito cedo pra gente casar? Eu reconheço que me empolgo e vou logo de cabeça... posso ter forçado uma barra sem querer!
A bailarina também se sentou, pensou e respondeu: -- Eu não quero saber de reformas, mudanças na sua casa ou nada mais! Quero viver com você e ponto final! -- Seyyed ficou boquiaberta -- A gente vai se preparando, procurando um apartamento na zona sul com bastante calma e, quando encontrar, decide se vai morar lá ou fica aqui mesmo! Mas gostaria que ao menos quisesse procurar com seriedade.
--Isa?? É você mesma, é clone, tá delirando, o que é isso?? -- não acreditava no que ouvia
--Nunca estive tão sóbria na minha vida!
--Ah... -- não sabia o que dizer -- Eu não tô entendendo mais nada! -- riu excitada
--Eu cuido da minha mudança. -- respondeu com segurança -- Só vou trazer coisas como roupas, acessórios, livros... nada de móveis.
--Tá... -- continuava espantada
--Quando Juliana melhorar a gente faz uma festa. Não quero que digam que não respeito a dor dos outros.
--Tá... -- não entendia o que estava acontecendo
--Você aceita a proposta que eu fiz? Que a gente more aqui mas procure um imóvel legal na zona sul? Imóvel nunca é desperdício, Ed. Pode-se alugar, vender mais caro depois... Nunca é prejuízo!
--Tá, eu topo! -- sorriu
--Posso me mudar neste final de semana?
--Pode! -- continuava estupefata -- O que aconteceu, Isa?
--Digamos que... -- engatinhou até Ed e se sentou no seu colo envolvendo a cintura dela com as pernas -- seus argumentos, a forma como falou comigo... Não dá pra te dizer não. -- beijou-a
--Quem vai ter forças pra trabalhar logo mais? -- mudou as posições rapidamente e deitou-se sobre ela, beijando-a com desejo. A bailarina riu e deixou rolar
***
Camille estava estudando o último livro que deveria. Às nove e meia da noite estava cansada e decidiu parar. Navegou na internet e viu que seu nome estava em alta no universo lésbico virtual. Sua caixa de e-mails estava lotada. Sentiu-se orgulhosa.
Lembrou-se de Fátima e ficou triste. Sabia que tinha sido infantil e que havia ferido os sentimentos dela mas não sabia o que fazer. Pensou e decidiu telefonar. Jurema atendeu, ela se desculpou pelo horário e pediu para falar com a nadadora.
--Alô? -- respondeu sem saber o que esperar
--Oi, Fátima... como vai? -- estava envergonhada
--O que deseja, Camille? -- perguntou sem emoção
--Sei que está magoada comigo... olha, eu fui uma idiota... por favor, me perdoe...
--Eu não entendo você, pequena...
--Nem eu me entendo! -- respondeu agoniada -- Não tente conseguir se nem eu consigo!
--Por quanto tempo vai ficar nessa? A gente se beija, você tem uma crise e diz que não quer mais me ver. Depois a gente faz amor e você me acusa de ter me aproveitado de sua inocência... E agora, o que será?
--Tá falando isso aí com sua mãe em casa?? -- perguntou apavorada -- Você é louca, tem merd* na cabeça, meu??
--Mamãe tá vendo novela. Só atendeu seu telefonema porque era hora do comercial.
--Ela sabe de nós?? -- estava morrendo de medo
--Existe nós, Camille?
--Pelo amor de Deus, responda! -- estava nervosa
--Eu não falei de ‘nós’ pra ela... -- respondeu como se estivesse cansada
--E que continue assim. -- respirou aliviada -- Por favor, Fátima, ninguém pode saber disso!
--O que você quer, Camille? Ter um caso secreto comigo apenas para saber como é?
--Não é isso... Eu não tenho condições, Fátima...
--Camille, já é muito tarde e tô cansada. Obrigada por ter ligado. Você também deveria dormir porque estuda muito e deve ficar exausta.
A loura respirou fundo e concordou. -- É... é melhor eu desligar... Tchau.
--Tchau. -- desligou o telefone
Camille deitou na cama e ficou pensando. Dessa vez Fátima havia ficado mesmo magoada com ela. O que fazer?
Pensou nas possibilidades. “O inferno é que somos muito limitadas! Não temos um lugar pra nos ver em segredo, ela é cega, eu sou aleijada... tudo contra!” -- pensou -- “Queria vê-la, conversar com calma, mas não sei como.” -- fechou os olhos -- "É muito ruim não ter liberdade...” -- pensava com tristeza -- Que merd*! -- falou baixo para a mãe não ouvir
--Camille, eu escutei! -- Mariângela gritou da sala -- Olha essa boca!
***
--Isa, você é maluca ou o que??? -- Ana estava aos berros -- Depois de impor tantas condições a Seyyed vai correndo assim pra casa dela só porque tem medo que ela queira voltar pra ex, que tá no maior no morre não morre no hospital???
--Estou indo e isso não está sob discussão! -- arrumava as coisas dentro das malas
--E vai embora assim e só me fala hoje??? Isa, não podia me dizer de supetão que vai sair de casa amanhã!!! -- continuava gritando
--Já sabia que a gente ia se casar. -- respondeu calmamente
--Mas não assim, desse jeito!! -- levou as mãos à cabeça e rodava pelo quarto -- Meu Deus, filha, está fazendo tudo errado! -- olhou para ela agoniada
--Mudança de planos, mamãe! Se eu continuar naquela de antes perco a mulher que amo a custa de nada! -- continuava arrumando as coisas -- Depois, com o tempo, eu faço a cabeça dela e a gente se muda pra zona sul. Ela topou procurar imóveis comigo, e quando comprar será uma coisa boa! Por agora, -- olhou para a mãe -- minha prioridade é segurar a mulher da minha vida. -- voltou a olhar para suas coisas -- E muito bem segura!
Ana estava inconsolável. -- E vai levar o que?? -- cruzou os braços
--Minhas coisas que estão neste quarto. Menos os móveis.
--Ela comprou móveis novos, pelo menos?
--Ela tem tudo o que eu preciso, mãe.
--Isa, pelo amor de Deus... -- sentou-se na cama da filha -- E como vai levar estas coisas?
--Levo uma parte amanhã e a outra no domingo. Daí por diante, serei uma mulher casada.
Riu por estar nervosa. -- Seu pai vai ter um troço!
--Nem ligo! Ele não tem moral pra dizer nada! E nem pode se meter na minha vida! -- olhou para a mãe -- Espero que não vá correndo contar a ele!
--Eu não! Ele verá com seus próprios olhos. Ou não vai ver, não sei se estará aqui ou com a amante.
--Acho uma pena que fique aqui sozinha aturando isso, mas não quer mudar essa situação...
--Mudar como? Eu já disse que não quero o divórcio! -- falou mais alto
--Eu sei, e acho uma lástima. -- fechou uma das malas -- Mas, não me meto. -- fechou a outra mala
--Filha! -- levantou-se agoniada e segurou-a pelos braços -- Esqueça seu pai e vamos voltar pro que mais interessa agora! Por favor, não vá, não faça isso!
--Pára, mãe! Eu já me decidi! -- desvencilhou-se dela
Ana respirou fundo e olhou para a filha com muita tristeza. -- Eu queria tanto que fosse diferente...
Isa sentiu a decepção na voz da mãe e olhou para ela. -- Apesar de tudo, você não aceita minha opção, não é? -- perguntou magoada
--Nenhuma mãe aceita, Isa! Nem eu, nem Olga, nem ninguém... A gente simplesmente aprende a conviver com o inevitável, porque ou é isso ou a gente perde as filhas... -- pausou -- Não existe a mãe ou o pai que crie seu filho ou filha contando com a hipótese dessa pessoa ser homossexual. Quando você descobre que sua filha é lésbica, ou que seu filho é gay, é como se uma bomba caísse sobre a sua cabeça! Porque você sabe que a sociedade não aceita, você sabe que não é o natural, que as pessoas vão zombar da sua filha... -- emocionou-se -- Você começa a ouvir as piadinhas, as críticas, aquelas coisas desagradáveis que ficam nas entrelinhas e não pode fazer nada... Você quer proteger seu bebê disso tudo e não pode... Você vê sua filha, por melhor que ela seja, por mais bonita, mais talentosa, mais tudo, ser reduzida a um termo: sapatão! E você será só isso, uma sapatão... -- passou as mãos no rosto
--Eu sei que é verdade, mas seria diferente se a gente fosse morar em Ipanema, por exemplo? O preconceito deixaria de existir?
--Não... infelizmente. -- pausou -- Isa, quando você dizia que não queria casar eu nunca me importei com isso! Não tenho essa bobagem, como tem a mãe de Priscila, que quer que filha case, tenha filhos... eu nem me imagino como avó, se quer saber... -- revirou os olhos -- Mas eu não queria que você fosse lésbica, não vou mentir. Mas já que é, fico aliviada de que Seyyed seja uma mulher apresentável e que tenha situação. Só que eu não vou ficar feliz em ver você fazendo esse papel de mulherzinha apaixonada que muda pro subúrbio e joga tudo pro alto!
--E o que eu joguei pro alto??
--Sua dignidade! Está fazendo o que ela quer! Acredita que ela vai se mexer pra vocês mudarem de lá? DU-VI-DO! -- falou mais alto
--Eu vou convencê-la! Por que não acredita nisso? -- pensou -- Também tenho que ceder na hora certa pra que ela me dê o que eu quero!
--Isso é verdade... -- respondeu pensativa -- Mas o que eu vou dizer quando seus parentes perguntarem por você? Eu ia dizer que você foi morar sozinha e Seyyed ia acabar aparecendo. Não ia haver tanto alarde porque se estivesse aqui na zona sul ninguém acharia estranho. Mas agora ninguém vai entender se eu disser que você foi morar em uma casa oficina no Meyer! Vai ser uma bomba pra família toda! O foco não vai ser ‘Isa foi morar sozinha’ e sim ‘Isa é sapatão’!
--Então que o foco seja esse!
--Você acha que vai ser fácil passar por isso? Só é fácil nas novelas e nas historinhas de faz de contas. A vida é dura, meu bem! As pessoas são cruéis!
--Estou disposta a pagar o preço! -- foi até a mãe e segurou a mão dela -- Por favor, fica do meu lado! Se você me apoiar eu encaro tudo! Eu te amo, mãe, não me abandona!
--Mas é você quem está me abandonando! -- soltou a mão da filha
--Por acaso abandonou meus avós quando casou com papai?
--É diferente!
--Diferente por que? Só por que ele é homem e Seyyed não? -- segurou as duas mãos da mulher mais velha -- Tô me casando da mesma forma que você se casou! Posso não ter vestido de noiva, padre, festa, mas tô me casando! Não tô te abandonando!
--Filha...
--Fica do meu lado, mãe! Por favor!! -- pediu súplice -- Eu te amo, nunca te desrespeitei... Não me abandona! -- chorou
--Ah, meu bebê! -- abraçou a ruiva -- Mamãe não abandona você, não... chora não... -- chorava também
--Não sabe como é difícil, mãe... eu não escolhi ser assim... eu sou assim... não me condene...
--Chora não, meu bebê... -- segurou o rosto da bailarina -- Chorar dá rugas e uma estrela Dalva não pode ficar cheia de rugas!
Isabela riu. -- Só você pra me fazer rir agora... Estrela Dalva...-- fungou
--Pare de chorar... -- beijou a testa dela -- Eu fico do seu lado sim, mas com uma condição!
--Que eu convença Seyyed a morar na zona sul! -- repetiu a mesma agonia de sempre
--Isso mesmo! E que ela coloque o apartamento no SEU nome!
--Tá bom, mãe! -- suspirou e pensou -- "Eu não tenho coragem de pedir que ela coloque nada no meu nome...”
Soltou a filha. -- Vamos ver é como todos reagirão. Especialmente seu pai... -- andou até a janela
--Depende da sua postura! Não entre em detalhes, não alimente fofocas... E quanto a papai, esqueça-o!
--É... -- olhou para o relógio -- Aposto que ele vai chegar aqui meia noite e dizer que foi culpa do fechamento do caixa do banco! Seu pai agora é o Galo da Madrugada! Daqui a pouco vai pra Recife desfilar no carnaval... -- pausou -- Ele mudou tanto depois dessa amante! Como eu queria que essa desgraçada sumisse da vida dele!
--Mãe, esquece ele! Agora, por favor, só falta você viver aí pelas macumbas e em cartomantes pra ver se espanta a amante de papai. Vê lá, hein mãe? Isso é muita humilhação pra uma mulher! -- voltou a preparar sua mudança
--Eu hein, Isa? Vê lá se uma mulher da minha estirpe vai andar por aí em macumbinhas de quinta categoria! -- fez cara feia -- “Mas sabe que é uma boa idéia? Onde acho uma cartomante boa ou um terreiro daqueles, hein?” -- pensou
--Outra coisa, pode ir nos visitar quando quiser. Só ligue antes pra pegar a gente em casa. E quando chegar lá, nada de falar mal do Meyer pra Seyyed!
--Ah, tá... -- respondeu desanimada -- E eu vou mesmo porque tenho que ficar de olho, senão você vai virar uma suburbana sem noção! Daquele tipo que anda com rolinho na cabeça no meio da rua e discute com as outras com as mãos nas cadeiras. Pelo amor de Deus, Isa, não deixa ninguém te chamar de nein, neném, nem... esses apelidinhos de pobre! -- pausou -- Nêga! Eu odeio isso de nêga! Não deixa ninguém te chamar de nêga!
--Mãe, não viaja... -- riu
****
Era tarde da noite e Seyyed e Isa ainda não haviam terminado de arrumar as coisas da ruiva na casa.
--Nossa, como você tem coisa! -- a morena riu -- E olha que eu me antecipei e mudei algumas coisas aqui de última hora pra te dar espaço, mas nem assim...
--Falta pouco agora! -- suspirou -- Mas eu queria dormir! -- fez beicinho
--Ah, coitadinha! -- colocou-a no colo -- Mas você vai dormir, sim... -- sentou-a na cama -- Mas antes, temos algo a fazer. -- foi até o criado mudo e abriu uma gaveta
--O que? -- perguntou sorrindo
Ed veio com uma caixinha e se sentou na cama, de frente para a ruiva. -- A gente tem que se casar! -- abriu a caixa. Haviam duas belas alianças lá dentro
--Amor! -- cobriu os lábios e sorriu -- Não sabia que tinha comprado alianças!
--Há tempos... -- sorriu
A ruiva sentou-se no colo da morena e envolveu sua cintura com as pernas. -- Então vamos nos casar! -- segurou o rosto da outra e beijou-a
--Isabela Guedes! -- pegou a mão esquerda da ruiva -- “O amor nasce do desejo respeitoso de fazer eterno o passageiro.”20 Seja eternamente minha mulher, minha amiga, minha companheira e aceite passar sua vida a meu lado e se casar comigo. Aceita?
--Aceito! Aceito, aceito, aceito!! -- sorriu emocionada
Ed pegou a aliança e colocou no dedo da ruiva. Beijou a mão dela em seguida. -- Eu te amo! Não quero que tenha dúvidas disso! -- olhou em seus olhos
--Seyyed Khazni! -- segurou a mão esquerda da morena -- Aceita se casar comigo, apesar de minhas inseguranças e medos tolos? Eu te amo e quero passar o resto de meus dias com você. É o que quer?
--Com toda certeza! É o que mais quero! -- sorriu
A ruiva colocou a aliança no dedo da morena. -- Então agora você é minha e não vale voltar atrás! -- envolveu o pescoço dela com os braços
--E quem disse que eu quero voltar atrás? -- abraçou-a pela cintura -- Vamos pedir a Deus pra que nos abençoe e nos ajude no desafio que é a vida de casadas! Você quer?
--Quero!
--Então feche os olhos e encosta a testa na minha. Vamos?
Isabela assim o fez e as duas oraram com muita sinceridade. Ao final, beijaram-se com ternura e se abraçaram.
--Eu quero muito que dê certo! -- a bailarina disse com os olhos fechados
--Eu também! -- olhou para ela e segurou seu rosto -- Quero que me prometa que não vamos ter segredos uma pra outra e que se houver qualquer problema entre nós a gente vai tentar resolver com diálogo e muita sinceridade. Que seremos sempre transparentes uma com a outra!
--Prometo! Eu quero que seja pra sempre, Ed!
Deitaram-se e adormeceram nos braços uma da outra.
****
--Mas Seyyed... -- Olga dizia espantada -- Como pode ser isso? Você e Isa viviam naquela coisa de casa, não casa, mora no Meyer, mora na zona sul e de repente... Você me liga e diz que estão casadas até que a morte as separe?? Que loucura é essa, criatura?
--Eu não disse que ela falou que queria vir pra cá sábado? Ela veio! E nós nos casamos!
--Nossa, mas eu achei que tinha entendido errado e... -- suspirou -- Seja como for, é a sua vida e você sabe o que faz! Desejo de coração que sejam felizes e que dê tudo certo!
--Obrigada, mãe! -- sorriu
--E onde ela está?
--Terminando de arrumar as coisas. Quando vier aqui em casa vai se surpreender... -- riu
--Ai, ai, vocês duas... -- balançou a cabeça
--Mãe, e Juliana? Mariano contou alguma novidade?
--Não. Ele está lá com ela e disse que nada mudou. Daqui a pouco estou indo também.
--Qualquer coisa, me chamem.
--Eu sei. -- pausou -- Suzana foi pra uma operação dessas de polícia mas disse que passará a noite com ela.
--É... a delegada me surpreendeu! Ela tá firme e forte com a Ju.
--Não estou surpresa. Ela ama Juliana!
--Nossa! Nunca te ouvi falar que eu amo uma mulher assim com essa firmeza toda!
--Porque ainda não vi isso acontecer!
--Que é isso, mãe? – perguntou chateada -- E quanto a Isa? Por que diz isso, por que pensa assim?
--Se está segura de seus sentimentos não deveria se preocupar com minha opinião.
--Amor, preciso de sua ajuda! -- Isa chamou toda dengosa
--Tenho que desligar. Isa me chama.
--Vai lá. -- pausou -- Beijos pras duas!
--Pra senhora também! Tchau! -- desligou e correu para ajudar a ruiva
***
Maria de Lourdes havia sido operada mas não estava bem. Ficava indo e vindo para o CTI por conta de problemas no coração, daí nunca levava alta. Naquele momento, se recuperava na enfermaria. Débora cuidava das pacientes.
--Filha. -- abordou a enfermeira -- E Juliana, como está? -- as demais pacientes prestavam atenção
--Na mesma... -- foi o que se limitou a responder
--Tenho tanta saudades dela... -- a idosa respondeu -- Aquela menina é danada mas é uma pessoa maravilhosa! Ela dá atenção a gente, trabalha com gosto... Nunca vou esquecer quando chamou minha neta de estagiária de bordel. -- pôs a mão sobre o rosto e riu
--Ela é ótima! -- outra senhora afirmou
Débora se sentiu indiretamente criticada e decidiu desabafar. -- Ela não é santa, não! Ficou boazinha depois de um tempo mas antes era pior do que eu e do que muitos aqui!
--O que importa é o hoje! Ontem é passado! -- Lourdes respondeu
--Vocês pensam o que? -- largou a bandeja e pôs as mãos na cintura -- Acham que é moleza trabalhar numa merd* de hospital como esse, lotado de gente, sem recursos, aparecendo pacientes o tempo todo??? Eu acordo às cinco da manhã, pego uma merd* de um ônibus cheio, trabalho aqui sem condição nenhuma e ganho mal! Estudei muito pra me formar, me sacrifiquei e pra que?? Ganho menos que muita gente aí fora que não faz nada de bom pra ninguém! -- calou-se -- Eu trabalho em mais dois lugares e o salário final nem é grande coisa! Eu não tenho tempo de me divertir, de curtir a vida... Mal tenho tempo de me alimentar! Vocês acham que é fácil?? Acham que é boa essa vida de enfermeira? Eu não sei o que houve com Juliana mas eu não quero ser santa e ficar aqui trabalhando como louca pra não ganhar nem um centavo à mais! Ninguém reconhece e você se cansa!
--Todo mundo sabe que isso é verdade mas o que acha que a gente sente? -- Maria de Lourdes respondeu -- A gente paga imposto e contribui a vida inteira pra chegar na velhice e contar com um bom hospital em caso de doença e o que a gente recebe? Nós ficamos esperando toda vida por atendimento e nada acontece! Eu nunca tive problema de coração e olha só como vivo indo pro CTI por causa dele! E quanta gente espera pelos corredores? Quanta gente se desespera vendo seus parentes morrendo sem atendimento?? -- perguntou um pouco mais exaltada -- Até pra ter um filho é um sufoco!
--E isso é culpa minha por acaso? -- Débora respondeu com raiva
--Eu não sei a quem culpar! -- a idosa respondeu emocionada -- Mas nem sequer um bom dia vocês sabem dar... muitas vezes nem olham na nossa cara! Uma vez dentro de um hospital, minha filha, tá todo mundo ferrado! Pra que piorar coisas que já estão ruins?
--Falta Deus no coração de todo mundo! -- uma outra paciente se meteu na conversa -- Está tudo errado, a gente não vai consertar o sistema como é, mas não precisamos alimentar esse ciclo de desleixo e indiferença...
--É por isso que Juliana é especial! -- Maria de Lourdes falou -- Ela sabe que não muda o mundo mas age pra mudar o que está ao seu alcance. E ela não vai morrer! Tenho certeza de que não vai.
--Pessoas boas morrem todos os dias! -- Débora respondeu desaforada
--Mas não deve ser a hora dela... se Deus quiser não é! -- a idosa respondeu convicta
--E se for... ai de nós... -- uma outra idosa complementou
Débora respirou fundo e voltou a trabalhar. Só que fez isso com mais atenção e cuidado. Havia ficado ferida em seus brios pela crítica velada que percebeu quanto à sua atuação profissional. Ela vinha observando Juliana, com certo incômodo, havia tempos. Estava começando a se deixar arrastar pelo exemplo.
***
Camille desligou o telefone sorridente. -- Mãe, aquela nojenta da dona Conceição ligou pra dizer que meus documentos estão prontos e que qualquer pessoa da família pode ir buscá-los!
--Menina! -- correu até a filha e se sentou do lado dela -- A mulher te ajuda e você ainda a chama de nojenta?
--E ela não é uma égua sem rabo?
--Com ou sem rabo ela te ajudou! -- deu um beijo na loura -- Agora temos que pegar esses documentos e ir na dona Geni! -- sorriu
--Que é outra égua sem rabo! Só que essa aí é uma eguinha light.
--Pare de falar mal dos outros! -- ralhou -- Seu tio tem que saber disso! -- levantou-se decidida -- Mude de roupa!
--Por que?? -- perguntou
--Vamos na oficina dizer a ele pessoalmente!
--Ah, não!! -- cruzou os braços
--Por que não? -- olhou para ela surpresa
--Não quero ir para um covil de sapatões desnecessariamente!
--Que covil o que? Ao que eu saiba a única lésbica que tem lá é Seyyed! Pare de reclamar e se arruma!
“Tudo que eu não queria era ver Seyyed por agora...” -- pensou revirando os olhos
***
--Fala sério que você se casou assim no susto, Ed! -- Renan reclamava
--Que casei no susto, Renan? -- mexia no motor de um carro -- Até parece que você não sabia que eu pedi Isa em casamento!
--Ela é muito criança, Ed! Devia ter esperado mais...
--Ela é tão criança quanto você, Tatiana...
--É diferente! E você sabe!
--Ah, Renan... -- deu um tapa no braço dele -- Cresça e apareça, tá bom?
Renan balançou a cabeça contrariado. Depois olhou para a entrada da oficina e exclamou: -- Ih! Olha quem vem lá! -- correu para a porta
--Quem? -- olhou curiosa
Mariângela vinha empurrando a cadeira de Camille e Renan foi ajudá-las.
--Deixa comigo, dona Mari! -- pegou as alças da cadeira -- Tudo bem? Tudo bem, Camille?
--Tudo, e você meu filho?
--Graças a Deus! -- ele respondeu
--Oi Renan... -- Camille respondeu sem graça. Viu que Ed se aproximava
--Bom dia! -- sorriu -- Com certeza cabe a Mariano o motivo dessa visita!
--Bom dia, Seyyed! -- Mariângela sorriu -- Espero que não estejamos sendo inconvenientes!
--Claro que não! -- olhou para Camille -- E aí, loura? Como vai?
--Bem... -- respondeu sem graça
--Eu vou chamar o Mariano! -- Renan correu para o escritório
--Vocês querem uma água, um café, biscoitinho...
--Não, obrigada! -- Mariângela respondeu
--Você casou??? -- Camille perguntou revoltada. Mariângela olhou para a filha espantada
--Casei. -- sorriu -- Foi nesse final de semana!
--Ah, eu não sabia... -- Mariângela não sabia o que dizer -- Parabéns...
--Obrigada! Não fizemos festa porque a Ju ainda tá mal no hospital e aí não combina, não seria muito legal...
--Desejo tudo de bom... -- Mariângela tentava ser natural
--Você só vive casando... -- Camille falou contrariada
--Só vivo casando? -- riu -- É meu segundo e, se Deus quiser, último casamento.
--Não tem vergonha, não?? -- perguntou enfurecida -- Não bastava ser sapatão ainda fica trocando de mulher igual quem troca de roupa? Isso é uma coisa ridícula, sabia? -- estava furiosa -- Ô louco, meu!
Mariângela quase morreu de vergonha e Seyyed se abaixou para olhar bem nos olhos da loura.
--“De que modo ser o que sou impede você de ser o que é?”21 -- Camille não soube o que responder
(Nota da autora: Hanna K é maravilhosa!!!! Essa frase de Espelhos e Miragens é TUDO!!!! – pausa para recuperar a compostura)
Mariano se aproximou sorrindo. -- Oi, que surpresa boa! -- beijou as duas. Reparou no clima estranho e perguntou : -- O que houve aqui? -- olhava para elas três
--Nada! -- Seyyed sorriu -- Vou deixá-los à vontade! -- olhou para Mariano -- Depois apresenta a oficina pra elas!
--Claro! -- respondeu desconfiado
A mecânica acenou com a cabeça e se afastou deles.
--Camille, você é doida? -- Mariângela deu um tapa no braço dela -- Se metendo com o casamento dos outros, onde já se viu! -- ralhou
--Ah, mãe, isso aí é uma pouca vergonha! Ô louco, viu? -- reclamou -- Ela quase esfregou aquela aliança na nossa cara. E viu que aliança? Parece até um cinto amarrado no dedo! Anel de pirata...
--E o que você tem com isso, menina? -- a mãe perguntou com raiva
--Você devia ter agradecido por ela nos ter dado milhas pra ir para São Paulo conversar com dona Conceição ao invés de se meter na vida dela! -- Mariano ralhou com severidade
--Ela quase me matou de vergonha! -- Mariângela comentou constrangida. Estava corada. Camille abaixou a cabeça e nada respondeu
--Deixemos a vida de Seyyed! -- Mariano falou -- O que traz vocês aqui? -- perguntou curioso
--Os papéis de Camille estão prontos, querido! É só ir lá buscar!
--Ah, mas que notícia boa! -- sorriu -- O que importa nessa história toda é que cada vez mais essa transferência se torna uma realidade na vida dessa menina! -- fez cara séria e olhou para a jovem -- E nunca mais se meta na vida na Seyyed, por favor!
Camille estava feliz e ao mesmo tempo triste. Feliz pelos documentos terem ficado prontos à tempo e triste pela notícia que havia recebido. O fato de saber que Seyyed e Isabela estavam casadas deixou-a desanimada como não saberia explicar.
***
--Alô? Fátima? -- Camille perguntava insegura -- Como estão as coisas com você?
--Olá Camille. Eu vou bem, graças a Deus. -- respondeu naturalmente -- E você, como vai?
--Bem e mal.
--Por que?
--Estou bem porque meus papéis da USP estão prontos, tio Mariano foi buscá-los ontem e hoje eu já levei pra dona Geni. A prova de transferência é no dia 30 de julho.
--Ótimas notícias!! -- sorriu -- E está mal por que?
--Porque você está magoada comigo... -- respondeu triste
--Não tô mais magoada, mas é claro que não gostei da sua atitude.
--Precisamos conversar...
--Eu vou voltar ao ginásio na semana que vem. Conversamos lá.
--Ainda tenho chances? -- perguntou esperançosa
--Chances de que? -- a loura não respondeu -- Nem tem coragem de dizer, não é?
--Não é fácil... sou nova nisso!
--Nisso, o que? -- perguntou achando graça
--Nessa coisa de... -- pausou -- Ah, você tá é me tirando!
--Não estou! -- pausou -- O que acontece com você, Camille? Fica frustrada com a distância que existe entre você e Seyyed, aí me procura, tenta ensaiar alguma coisa, depois se arrepende, veste um escudo protetor e some?
“Essa mulher não existe!” -- pensou estupefata -- Você... não estou usando você, Fátima...
--É o que me parece...
--Você me confunde... EU me confundo... -- passou a mão nos cabelos -- Eu não consigo entender isso, o que eu sinto, o que se passa comigo...
--“Às vezes, a prova de maior entendimento é não compreender.”22
--Se não compreender é entendimento, eu sou a maior sábia do planeta...
--Você deveria ser honesta consigo mesma... e comigo também! Eu gosto de você, pequena, mas não quero ser sua válvula de escape ou um corpo para se refugiar de seus sentimentos por Seyyed.
--Você não é!
--Não mesmo? -- Camille não soube o que dizer -- Eu não gosto de dizer isso, porque queria que não fosse verdade, mas não sou o que você quer.
--Fátima... -- respirou fundo -- Eu preciso de você! Não posso mais continuar a viver assim como vivo... Por favor, me ajude!
--O que quer que eu faça, menina? -- perguntou com delicadeza
--Não me deixe... me dê uma chance... eu sei que sou estranha, grossa, inconstante... mas posso ser uma pessoa legal também... Por favor, não desiste de mim!
--Ai, ai, pequena... -- pausou -- Como já te disse, a gente conversa no ginásio.
--Mas lá nem tem onde! Aquilo ali é cheio de gente por todo lado!
--Eu sei onde. Confie em mim. Aí você volta pra casa um pouquinho mais tarde. É só avisar.
A loura ficou pensativa. -- Fátima, você contou a alguém sobre nós? -- perguntou desconfiada
--Claro! Contei a Marcela. Preciso desabafar de vez em quando também.
--Ô louco, e quem é essa??? -- perguntou apavorada
--Você nem a conhece! Ela também ficou cega e nós nos conhecemos no instituto quando estávamos aprendendo a ler. Somos amigas há anos.
--Pelo amor de Deus, não podia ter guardado a língua quieta dentro da boca? -- perguntou zangada
--Eu não posso escrever contos na internet como você. Preciso desabafar com alguém!
--Não me diga que até sua mãe sabe de nós?
--Mamãe sabe que eu sou lésbica, menina! Isso é lógico! Eu não te disse que fiquei cega por causa dos ciúmes de uma ex? Ela não se sente muito à vontade pra falar nesses assuntos mas sei que pensa que somos namoradas. E pensa isso há muito tempo.
--Minha Nossa Senhora de Achiropita!!! Mas que diabo, eu tô ferrada! Ô merd*!
--Não sei porque! Fique tranqüila que Marcela é uma pessoa super discreta e ela nem te conhece. Quanto a mamãe, no que diz respeito a essas coisas, ela tem boca mas não fala.
--Por favor, Fátima... não me exponha! Eu preferiria morrer a deixar os outros saberem que eu... que nós... que aconteceu...
--Eu entendi. -- respondeu decepcionada
--Não é por ser você! Fosse quem fosse!
--Eu sei...
--E trate de convencer a sua mãe de que não há nada entre nós!
--E não há mesmo... -- respondeu chateada -- Tchau, Camille.
“Maravilha! Ferrei com tudo novamente. Sempre me cago toda no final...” -- pensou contrariada -- Tchau... -- desligou o telefone chateada
***
Suzana estava no hospital. Era noite, e naquela noite estava tudo incrivelmente vazio. Além dos pacientes internos no CTI, apenas duas enfermeiras transitavam nos corredores de quando em vez.
Juliana só podia ter acompanhante em virtude de ser funcionária, pois sua idade não lhe dava tal direito. Suzana podia circular pelas salas aproveitando seu status de delegada, pois isso não era permitido. Estava abusando do poder mas não se incomodava, achava que era por uma boa causa. Da mesma forma, ninguém no hospital nunca lhe recriminou por isso pois ela não causava distúrbio.
A delegada voltava para seu lugar após o jantar. Andava pensativa e de repente sentiu um incrível mau pressentimento. -- Ele está aqui! -- disse alarmada para si mesma. Olhou para todos os lados sem nada encontrar
Preocupada, entrou no CTI, e circulou por todos os leitos. Nada anormal. Pensou nas possibilidades e saiu pela porta de emergência, dando de cara com um homem.
--Eu sabia que você vinha tentar terminar o que começou, seu desgraçado! -- apontou a arma para Sammael
--E você ainda não aprendeu, não é mesmo? -- lançou-lhe aquele mesmo olhar
A delegada sentiu uma dor causticante pelo corpo inteiro. Era a mesma sensação que teve quando se acidentou de moto anos atrás. Caiu no chão como se as pernas estivessem quebradas. Não conseguia empunhar a arma.
--Você é patética, Suzana Mello... -- riu -- Ou devo dizer, Yamaki Nawapë.
“Ele sabe meu nome!” -- pensou abestalhada
Enquanto isso, Seth procurava reconhecer Juliana entre os pacientes internos.
--Ah... ei-la aqui. -- sorriu diabolicamente -- Diga adeus, minha cara! -- ergueu um punhal para cravá-lo no peito da japonesa
Sem que esperasse, uma luz intensa invadiu a sala e ofuscou seus olhos. Ele se jogou no chão assustado e derrubou o punhal. Uma mulher iluminada apareceu diante dele, fazendo-o se emocionar.
--Quem é você, afinal, seu desgraçado? -- Suzana perguntou entre dentes. Não conseguia se levantar -- Como sabe meu nome?
--Você não me conhece, mas eu conheço você, Yamaki. -- sorria -- E ao contrário do que seu povo pensava, os napë também sabem bastante do que se passa entre o céu e a terra!
Ela olhava para aquele rosto parcialmente escondido pela penumbra da noite mas não conseguia reconhecê-lo. “Ele sabe falar ianoman. Sabe o que é um napë...” -- pensou intrigada
--Não sente saudades da serra do Imeri? Era tanta riqueza, não? -- sorriu novamente. Suzana pôde ver um dente reluzindo em sua boca -- Eu poderia te matar agora, mas não quero isso. Eu vou levá-la à loucura... será muito mais divertido!
--Socorro!!! Socorro!!! -- uma das enfermeiras berrava apavorada. O coração de Suzana apertou
--Parece que alguém morreu! -- o velho sorriu e sumiu correndo pelas escadas
A delegada sentia que a dor começava a passar e pôde se levantar aos poucos. Correu mancando para a sala e viu as duas enfermeiras e mais alguns médicos ao redor de um homem sentado no chão. A seu lado, um punhal.
--Delegada! -- um médico a abordou -- Esse homem! -- apontou para ele -- Não sei o que houve aqui, mas ele está em choque!
A morena olhou para Juliana e viu que estava intacta. Respirou aliviada.
--Tá chocado? Então que bote um ovo! Vai preso agora, vagabundo! -- levantou o homem com um puxão no braço -- Teu mestre pode ter fugido, mas você vem comigo!
--Eu vi minha avó! -- repetia em estado de choque -- Eu vi minha avó!
--Pois agora você vai ver é o Bicho Ruim! Vem comigo, desgraçado! -- saiu levando Seth que parecia estar totalmente abestalhado
***
Seth prestou um depoimento bombástico. Entregou alguns membros da seita, aqueles que conhecia, e afirmou que a mesma se ramificava por vários estados do Brasil. Confirmou também os nomes dos responsáveis pelo que aconteceu com Patrícia. De sua parte, confessou que cometera assassinatos, mas não se envolveu no caso da moça. Apenas não forneceu informações sobre seu ‘mestre’ por sinceramente acreditar que se tratava de um espírito e não de um homem maníaco. O verdadeiro nome de Seth era Rodolfo Santos.
--Vocês tinham que ver! – Seth/Rodolfo falava com os olhos arregalados -- Eu ia matar a garota quando uma luz intensa quase me deixou cego e de repente vovó me apareceu! -- sorriu -- Estava linda! Do jeito como me lembro dela! Usava um vestido branco comprido e o rosto era sereno como um rosto de santa. Ela olhou pra mim e disse: “-- Eu não criei você para que virasse um assassino fanático. Volte para Deus, meu filho! Arrependa-se de seus erros, confesse todo o mal que fez e aceite o que a justiça terrena vai lhe impor como castigo. Você precisa ser batizado pelo fogo do sofrimento para que sua alma volte a ter paz!” -- começou a chorar -- Foi uma coisa tão emocionante... era ela, eu sei que era! -- chorava -- Nunca vou esquecer aquilo...
A Polícia Federal, que já andava investigando a seita, conjugou as informações cedidas pelo homem com os dados que possuía e realizou várias prisões. O assunto era tema palpitante nos telejornais brasileiros e como efeito colateral acendeu um debate acalorado sobre homofobia. Para muitos, a grande pergunta era: até onde vai o limite da liberdade de expressão? Para outros, ela seria: não estamos nos tornando politicamente corretos demais? No entanto, para Suzana a pergunta era uma só: quem é Sammael??
--Mas como pode isso, chefe?? -- Brito perguntou sem entender -- Nem eu que te conheço há anos sabia que seu nome na tribo era Yamaki Nawapë. -- pausou -- Nome interessante, devo dizer. Parece nome de moto... Yamaki...
A delegada não gostou do comentário e respondeu secamente: -- Eu não falo sobre minha vida na tribo. São lembranças muito queridas mas invariavelmente me lembro do que veio depois. Dói demais e eu... eu não penso na vida, você sabe!
--Mas como ele pode saber tanto? Será um índio? Tribo rival?
--Não... ele é branco! Ele é napë e sabe o que o termo significa.
--Ele é o que??
--Estrangeiro. Napë quer dizer mais ou menos isso na língua ianoman. Homem branco, estrangeiro, não ianomâmi, gente de fora da tribo... Aliás, ele sabe falar nossa língua. A pronúncia do meu nome e da palavra napë deixa isso claro... -- pensou -- Ele tem um dente de ouro... no primeiro momento pensei que seria um garimpeiro, mas ele não é... não saberia explicar, mas sei que ele não é...
--Não seria um dos homens que massacrou sua comunidade?
--Não... prendi todos eles e os que não foram presos estão mortos.
--Será que não é parente de um destes homens? Dos que prendeu? Ou dos que estão mortos? -- pausou -- Aliás, chefe... estão mortos ou foram mortos? -- olhou fixamente para ela
--O que quer insinuar, Brito? -- perguntou com seriedade
--Eu, nada... mas você tem as respostas, certamente...
Suzana se levantou e olhou para a janela. -- O problema daquele homem é comigo... Eu sei! É pessoal. E não tem nada a ver com a morte de Patrícia Feitosa. Vem antes disso...
--Então vasculhe na sua mente e investigue, -- levantou-se e se aproximou dela -- pois pode ser um processo de vingança.
--Vingança... -- repetiu para si mesma
***
--Ana, cadê essa menina que não chega? -- Anselmo perguntou contrariado ao final da novela -- Eu não a vejo há quase uma semana...
--Você é um pai tão bom e dedicado que nem sequer sabe que Isabela não mora mais aqui desde domingo! -- exclamou revoltada enquanto ia para o quarto
--O que?????????? -- berrou e correu atrás dela -- O que está me dizendo, mulher?
--Ficou surdo, Anselmo? -- perguntou calmamente
--E como você me diz isso??? -- olhava para ela perturbado -- Não me diga que ela foi morar com aquela tal de Ed??
--Ah, então você sabe o nome dela? -- cruzou os braços
--Responda! -- gritou
--O que você acha? Deduz?
--Meu Deus... -- rodou pelo quarto esfregando o rosto -- E você deixou?? Não fez nada??
--E queria que eu fizesse o que? Que amarrasse a menina ao pé da cama? -- olhou bem para ele -- Ela é maior de idade, trabalha e é uma estrela Dalva! Não posso ficar dizendo se ela faz uma coisa ou se não faz!
--Estrela Dalva... -- fez cara feia -- Você é louca! -- gritou e deu um soco na parede
--Quebra a mão. Só não me peça pra ir com você no hospital! -- sentou-se na cama
--Como pode, hein, Ana? Você viu a menina ficando doente e não fez nada!
--Ficando doente??? -- não entendeu
--É! -- berrou -- Essa doença que é mulher gostar de mulher!
--Não é doença! Eu não sei o que é, mas doença não é! Ela me explicou um monte de coisas mas eu não entendo... Negócio de campo mental, corpo físico...
--Ela te explicou... -- retrucou com desdém -- Isa é uma menina, o que ela sabe da vida? -- pausou -- Por que viu acontecer e não fez nada??
--E quem disse que eu vi?? -- respondeu indignada -- Quando eu soube ela já estava namorando sério aquela mecânica! E eu soube de um modo nada agradável, nem queira saber... -- lembrou-se do escândalo de Juliana
--Você é mãe dela!! Onde andava que não percebia isso?? -- gritou
--Não se atreva a me questionar como mãe! -- levantou-se da cama berrando -- Você é que sempre foi ausente! Sempre foi daquele tipo de homem que pensa que basta colocar dinheiro em casa que suas obrigações estão cumpridas! E hoje em dia nem isso você faz direito!
--Não muda de assunto, Ana! Como pôde ver essa menina virando sapatão sem tomar atitude a respeito?
--Não chame minha filha de sapatão! -- deu-lhe um tapa no braço
--Por que não me contou?
--E você ia fazer o que??? Hein??
--Eu não sei!! A gente pensava juntos!
--Não fazemos mais nada juntos, Anselmo! -- respondeu com mágoa
--Está mudando de assunto de novo! -- cruzou os dedos por detrás da cabeça -- A minha garotinha... a princesinha do papai... sempre tão meiguinha, tão delicada... ruiva como o pai... -- derramou algumas lágrimas -- Eu lembro quando ela era pequenininha e me disse: “-- Quer ser bailarina, papai...” e eu a coloquei no balé...
--E ela sempre se destacou... -- Ana relembrou sorrindo
--Sempre tão elegante, tão fina, tão garbosa... meus amigos diziam: “-- A filha de Anselmo é uma verdadeira lady...” Nunca vestiu roupas vulgares, nunca me deu trabalho com nada... -- limpou o rosto
--E ela continua do mesmo jeito!
--Não!!! -- berrou -- Ela dorme com uma mulher! Uma nariguda árabe terrorista, bicha feia e mau caráter da pior espécie! -- fungou
--Libanesa! -- corrigiu
--Que me interessa?? -- gritou -- Minha filha não tinha que estar com ela!
--Mas está! Ou aceita isso ou fica sem filha!
--Já não tenho mais filha não é de hoje, Ana.
--E por que será? -- perguntou desafiadora
--Eu... não sei... -- Anselmo pensava até aquele momento que a esposa não sabia de sua amante
--Não sabe...
--Como isso pode ter acontecido, Ana? -- sentou-se na cama arrasado -- Onde foi que a gente errou?
--Eu fiz tudo o que podia! O enxoval dela foi todo rosa, nunca deixei brincar com coisas brutas, bola, correria... ela usou vestidinho de renda...
--Eu nunca devia ter deixado aquela menina ir pra Paris. -- olhou para Ana -- Só deixei porque você me pediu até o desespero!
--E o que tem a ver??
--Depois que voltou de lá é que a menina virou... aquela coisa!
--Ela me disse que é lésbica desde sempre! O que faltava era conhecer alguém que a... despertasse, por assim dizer!
--E aí vem aquela mecânica maldita! Aquela mulher tinha que ser presa!
--Humpf! -- preparava-se para dormir -- Você tem que ver a coisa pelo lado bom! Pelo menos Seyyed é bonita, apresentável e tem dinheiro!
--Grandes coisas...
--Grandes coisas?? Já pensou se fosse uma daquelas machonas que a gente vê no sinal vendendo bala? Cabelo no sovaco, coçando o saco que não têm... Seria muito pior!
--Nem me fale! -- benzeu-se -- E por que diz que aquela nariguda tem dinheiro?
--Ela é dona de oficina, meu amor! Restaura carro antigo e tudo mais. E vai abrir uma filial em Goiânia com o irmão. Acredita que ganhou duzentos mil reais por um serviço?
--Duzentos mil reais??? -- levantou-se da cama com os olhos arregalados
--Pois é!
--Não será mentira de Isa?
--E desde quando Isa é mentirosa? -- perguntou -- Eu fui no casamento da mãe dela e você tinha que ver! Foi em um clube chiquérrimo em Vargem Grande, com comida e bebida à vontade, decoração de flores maravilhosas, músico tocando na entrada, pista de dança... Tudo do bom e do melhor! Tinha até segurança privê! Convidados a dar com pau! Veio gente até de outros estados! Nem o filho do seu amigo ‘gerentão não sei das quantas’ teve casamento igual!
--É mesmo?? -- perguntou interessado
--E tem que ver a casa de Seyyed! É enorme!! Dá umas cinco da nossa! Cinco?? Umas dez!
--É... pelo carro que deu na mão de Isa ela não sofre com falta de grana... -- pensou -- Onde moram, afinal?
Ana pensou antes de dizer e fez um esforço para não fazer cara feia. -- No Meyer. Mas na melhor parte de lá!
--No Meyer???
--Mas Isa está providenciando mudança. A mecânica quer dar a nossa filha um apartamento aqui na zona sul e Isa disse que quer escolher com calma pra não pegar qualquer coisa. -- mentiu
--Hum... se é assim... menos mau...
--Isabela é artista, Anselmo. Todo mundo sabe que artista vira homem ou vira mulher quando dá na telha! Não vê esse pessoal de televisão?
--Humpf!
--Fique do lado dela, não faça tumulto e tudo há de terminar bem. Além do mais essa menina logo, logo recebe um convite pro exterior. Sabia que ela já foi convidada pra um espetáculo em outubro? Os ensaios começam no mês que vem! Vai estrear no Rio em curta temporada e depois vai ter uma temporada em São Paulo e outra em Porto Alegre.
--Nossa! Ela mal termina um trabalho pega outro...
--Acha que toda bailarina vive assim? Nossa filha sabe roubar a cena! -- vestiu a camisola -- Deixa de ser bobo e dá apoio a ela. Tudo terminará bem.
--Sua objetividade às vezes me assusta. -- pôs as mãos na cintura
--Eu já fui romântica e apaixonada e o que ganhei? Hein? -- olhou bem para ele, que ficou sem graça
****
--Olha, eu entendo que vocês alimentem esperanças mas o ponto é que... Juliana não tem mais chances e não podemos ficar mantendo os pacientes eternamente às custas de aparelhos... o hospital não tem recursos e...
--Está querendo insinuar que querem desligar os aparelhos pra poder sobrar um leito? -- Suzana segurou o médico pelo colarinho
--Delegada, eu...
--Calma, querida. -- Olga segurou o braço de Suzana -- Calma... -- a delegada o soltou
--Se ela estivesse mesmo morta, máquina alguma a manteria sobrevivendo! -- Seyyed afirmou -- Quando ela tiver que morrer vai morrer com ou sem aparelhos!
--Vocês estão levando a coisa para o lado religioso... -- o médico afirmou enquanto endireitava a roupa -- E para o lado pessoal também. -- olhou desconfiado para a delegada
--Quem sabe das coisas é Deus! -- Olga afirmou -- O senhor tem estudo mas não pode prever quem e quando vai morrer. Às vezes o esperado não acontece!
--Mas senhora... -- o médico tentava argumentar
Nesse momento um enfermeiro aparece gritando entusiasmado: -- Doutor, gente, vocês não sabem o que aconteceu! -- estava excitado -- Em plena hora do banho de leito Juliana abre os olhos e se desentuba, arranca os aparelhos e se senta na cama como se estivesse acordando de uma longa noite de sono! -- olhava para todos -- Ela até reclamou que o cabelo tá sem jeito!
Seyyed riu gostosamente. Olga lançou-se de joelhos no chão e Suzana pegou o enfermeiro pela gola. -- Você tava dando banho nela, meu irmão?? -- perguntou ameaçadora
--Calma, delegada! -- pediu assustado -- É tudo muito profissional aqui dentro...
--Mas como pode ser isso?? -- o médico perguntou sem entender
--É milagre de Deus, doutor! -- o enfermeiro respondeu ainda sob as garras de Suzana
--Larga esse homem e vamos lá ver isso! -- Ed pediu para Suzana. Olga já havia corrido para dentro
--Tô de olho em você! -- a delegada afirmou seriamente e largou o homem indo se unir a Seyyed. De repente lembrou-se de uma coisa -- Ei! Se era hora de banho, ela deve estar nua! -- interrompeu a mecânica segurando-a pelo braço
--E o que tem isso? -- desvencilhou-se dela de cara feia
--Não quero você lá pra ver!!
--Humpf! -- Ed cruzou os braços -- Como se eu não conhecesse a anatomia...
***
Juliana estava na enfermaria. Olga, Seyyed, Mariano, Renan, Ivone e Flávia estavam com ela visitando.
--Querida, os médicos disseram que depois de amanhã você ganha alta! -- Olga sorria -- Estão todos pasmos e seu médico disse que vai apresentar o caso em um congresso!
--Casos assim acontecem aos montes! Quando a medicina deixar de ser arrogante vai saber entender e explicar o que é apenas a dimensão espiritual interferindo na vida da gente! -- Ivone afirmou enquanto segurava a mão de Juliana
--Graças a Deus, pois não agüento mais ficar aqui! -- suspirou -- E tenho que dar um jeito nesse cabelo! Tô parecendo um Chinese Crested!
--Que é isso? -- Renan perguntou curioso
--Uma raça de cachorro danada de cara!
--Pelo menos a raça é de estirpe nobre! -- Seyyed riu -- Essa é a Juliana que eu conheço... Tá internada mas não desce do salto!
--Casou? -- perguntou espantada para a morena -- Nossa, aconteceu muita coisa enquanto estive ‘fora’? -- olhou para Renan -- Casou também, meu filho?
--Seyyed é mais rápida, bem mais rápida do que eu! -- sorriu
--Aconteceu um monte de coisas, Japa San! Eu mesma terminei com Fábio!
--Por que Flávia? -- perguntou curiosa
--Tomei chifre! E pelo que saquei não foi o primeiro par...
--E não bateu nele, não? -- perguntou revoltada -- Tinha que ter quebrado ele ao meio!
--Eu, sem trair, levei um tapão e tanto no meio das fuças... -- Ed relembrou e teve que rir
--Fica quieta aí que você não sabe de nada... eu tô juntando! -- respondeu divertida -- Vou descarregar toda a fúria acumulada no mundial de boxe! Vai ser pancadaria até não poder mais!
--Vem aí outro cinturão! -- Renan comentou rindo -- Nocaute do começo ao fim!
--Tem tido muitos clientes interessantes, Ivone? -- perguntou para a psiquiatra
--Como você, nenhum! -- sorriu -- Praticamente não tenho me divertido!
--A gente leva uma facada no bucho, fica toda vida no morre não morre e a nossa psiquiatra ainda vem e chama a gente de palhaça... Isso é pra aumentar meu período de tratamento, Ivone? -- perguntou divertida
--Estou tão feliz que esteja bem! -- Olga não parava de sorrir
--Olga organizou um verdadeiro mutirão de orações por você, menina! -- Mariano comentou -- Minha irmã participou ativamente e só não está aqui agora porque Tatiana está na casa dela com mais uma colega provando roupa.
--Eu sei... -- olhou sorrindo para a mulher mais velha -- Eu sentia... -- emocionou-se -- Eu... quando a gente está de coma a gente ouve tudo e sente as coisas... eu me sentia protegida, cuidada, resguardada... sei muito bem que todos vocês, -- olhou para eles -- sua irmã -- olhou para Mariano -- e mais um monte de gente esteve do meu lado!
--Isso aqui parecia até romaria! Todo dia vinha gente de outras enfermarias te ver. Só que as pessoas não podiam entrar! -- Mariano respondeu
--Suzana esteve com você em praticamente todas as noites... -- Seyyed complementou
--E ela até rezou por mim... -- a japonesa disse -- eu ouvi... -- respirou fundo -- Mas desde que acordei não sei mais dela!
--Ela estava aqui com Seyyed e eu quando recebemos a boa notícia, mas na hora H decidiu não entrar e foi embora.
--A delegada teme te fazer mal. -- Ed falou -- O caso da Patrícia é coisa muito mais cascuda do que se pensava...
--Eu sei... -- esfregou o rosto -- O líder da seita quer acabar com Suzana... e ele faz a coisa no mundo das trevas.
--Eu hein? -- Flávia disse surpresa
--Eu não sei explicar, mas é uma coisa estranha... -- a japonesa olhou para Flávia
--Vamos mudar de assunto! -- Mariano pediu -- Você está em segurança e isso é o que vale. À propósito, Camille mandou lembranças. Ela não veio porque está estudando como louca pra prova de transferência, que vai ser no dia 30.
--Obrigada. -- Juliana respondeu e pensou -- “Pois sim, que aquela garota chata me mandou lembranças... Ela odeia lésbicas!”
--Isa também mandou lembranças e desejou tudo de bom! Ela e outros jovens bailarinos estão tirando fotos nesse momento pra uma propaganda da Secretaria de Cultura do Rio.
--Ah, tá... -- respondeu descrente e pensou -- “Aquela bailarina da coxa fina deve estar é pensando porque eu não morri logo!”
***
--Ai, dona Mari, quando Tati me mostrou as roupas que a senhora faz eu fiquei louca! -- Lady falou. Segurava uma enorme bolsa plástica -- Será que poderia consertar meu vestido de noiva?
--Consertar seu vestido de noiva? -- perguntou sem entender
--É, olha só! -- tirou o vestido da bolsa -- Está apertado na minha cintura e no busto!
--Nossa! -- Mariângela fez careta e tossiu -- Essa naftalina tá um pouco forte demais...
--Ela tem esse trem desde os quinze anos, dona Mari. -- Tatiana comentou
--E você vai se casar por agora? -- a costureira perguntou desconfiada enquanto segurava o vestido
--Dentro em breve! -- Lady sorriu animada -- Meu namorado novo é um amor! Bonito, estudioso, forte, sério, respeitador... Ele marcou para o final do ano, no dia 29 de dezembro!
--Priscila está rindo à toa! -- Tatiana comentou mais para si do que para as outras
--O que, amiga?
--Nada, Lady!
--É... vamos ver o que eu consigo fazer aqui.
--Ai, dona Mari, usa a criatividade e não poupe esforços! -- Lady falava enquanto rodopiava pela sala da mulher -- A senhora não sabe a alegria que me dá!
Camille vinha para a sala de muletas. Decidiu parar de estudar para fazer um lanche. --Que é isso aí? Que tanto rodopio é esse pela sala? -- perguntou desconfiada
--Oi, moça bonitinha! -- Lady beijou a bochecha de Camille -- Sou Lady Dy e vou casar! -- voltou a rodopiar
--Lady Dy? -- perguntou espantada e olhou para Tatiana -- Oi!
--Oi! -- ela respondeu
--Então tá! Mãe, -- olhou para Mariângela -- enquanto se diverte com a falecida eu vou cuidar da vida na cozinha. Sobrou pão?
--Falecida? -- Lady perguntou sem entender. Tatiana pôs a mão na boca escondendo o riso
--Sobrou. -- respondeu sem graça -- É... meninas, aceitam um lanche?
--Não, obrigada, dona Mari!
--Eu também não, agradeço! Quando se está a beira de um casamento a fome desaparece! -- sorria embevecida
--Vai ficar sem comer de julho até dezembro?? -- perguntou chocada -- Então eu não vou precisar fazer nada nesse vestido!
***
Camille e Fátima conversavam atrás da quadra de vôlei. Estavam sentadas em um banco de cimento duro.
--Ô Fátima, isso aqui é um cantão! -- afirmou olhando para todos os lados -- Não me diga que traz mulheres aqui pra... Ô meu, isso aqui é teu abatedouro??
--Abatedouro? -- riu -- Que coisa mais horrível pra se dizer! -- balançou a cabeça -- Devia me conhecer melhor pra saber que não sou desse tipo. Além do mais nem sou bonita pra ter tantas oportunidades assim se buscasse por isso! -- sorriu
--Você é bonita por dentro... e sabe como chegar em alguém... -- a loura respondeu com sinceridade
--Nossa, um elogio de Camille Trevisani! Será que choverá hoje como naquele dia? -- brincou
--O pior que é verdade... -- abaixou a cabeça -- E você também é... ótima! Acho que entende o que quero dizer... -- corou
--Então nós somos, porque não fiz nada sozinha.
--Ah, fez sim... Eu não fiz nada... -- olhou para todos os lados -- só me entreguei... Até nessa hora fui egoísta...
--Você ainda tem muitas dúvidas, preconceitos... natural que não tenha... retribuído, vamos colocar assim. -- pausou -- Mas posso garantir que não se satisfez sozinha. Eu também gostei muito.
--Já teve muitas mulheres? -- perguntou desconfiada
--Aquela ex namorada que você odeia e mais outras duas depois dela. Três com você.
--Eu só tive meu noivo... -- suspirou -- Ex noivo. E nem era bom... Eu goz*va mais com dois dedinhos do que com ele...
Fátima riu gostosamente. -- Porque não era o que você queria e gostava.
--Mas eu não entendo isso! Essa coisa de lésbicas! Que diabos vocês são, afinal?
--Vocês? Está se colocando de fora?
--Eu não sou lésbica!! -- a nadadora não respondeu ou falou qualquer coisa -- Queria entender o que é ser lésbica!!
--Eu já ouvi uma definição que na verdade é uma pergunta. Tudo a ver com o jeito Camille de ser: “Que são vocês senão mulheres que só fazem amar o ser feminino?” 23
“Essa foi a definição mais romântica que já ouvi sobre ser lésbica!” 24 -- a loura pensou
(Nota da autora : Raydon Donovan foi divina nessa hora!)
--Mas você me enrola e não diz o que quer comigo.
--Fátima, eu... -- não sabia o que dizer -- É que você me confunde demais!
--E o que eu diria de você? Já notou que sempre toma a iniciativa e depois me culpa e some?
--E se a gente fizesse diferente dessa vez? -- perguntou em voz baixa
--Pra deixar a responsabilidade toda comigo? -- Fátima perguntou sorrindo. Camille não respondeu -- Você sempre me culpa mesmo... -- segurou a loura pelo rosto e a beijou nos lábios
O beijo cresceu e as duas se entregaram a muitas carícias.
--Não... Fátima... ai... -- Camille pedia entre beijos -- Alguém pode... ver...
--Eu não... estou vendo... viva alma... -- respondeu brincando entre beijos
17:00h. 30 de julho de 2001, Rua Arquias Cordeiro, casa 6, Engenho, Rio de Janeiro
Mariano chegava trazendo Camille de carro. A loura entrou em casa correndo na medida de seu possível.
--Mãe!!! -- gritou animada
Mariângela veio correndo. -- E então filha? -- estava com as mãos postas como se fosse rezar
--Já falei pro tio! -- Mariano entrava em casa -- A prova tava no papo! Acho que mandei ver!!
--Ai, mas que maravilha!! -- abraçou a filha
--É só sair o resultado no mês que vem que a gente paga a promessa, mana!
--Vem cá, Mariano! Abraça a gente! -- ele veio
--E a redação foi moleza! Era pra falar do governo atual e eu meti o malho nessa pouca vergonha neo liberal que nos governa!
--Menina! -- a mãe olhou espantada e os três romperam o abraço -- A faculdade é federal! Será que uma redação dessas foi conveniente?
--Ih, mãe, e qual é o professor que gosta desse governo que tá doido pra privatizar tudo? Só não privatizam o rabo da gente porque não podem!
--Camille! -- o tio ralhou
Nesse momento, quatro figuras surgem do quarto da loura: -- Surpresa!!!!! -- eram Ligia, Mateus e os gêmeos
--O que é isso, mãe????????? -- a loura perguntou em choque
--Visita surpresa de Ligia... -- respondeu sem graça
--Prima, eu ouvi tudo! -- abraçou a loura -- Parabéns e tudo de bom! -- olhou para ela -- Já sabe que a gente vem pra tua formatura, né?
--É... sabe... -- Camille estava abestalhada
--Garota, que coisa boa! -- Mateus afirmou -- A gente veio no dia certo! -- olhou para Mariano -- E aí, mano? -- deu um tapa no braço dele
--Beleza... -- Mariano respondeu desanimado
Michael e Caroline pulavam como pulgas. -- Prima! Prima! Prima!!
--Camille, você tem um fã clube! -- Ligia falou sorrindo
--E que clube! -- revirou os olhos -- Vão ficar aqui por quanto tempo mesmo, hein? -- foi direto ao assunto
--Só até semana que vem! -- Mateus respondeu
--O que?????????????? -- a loura respondeu com um berro
--É incrível como Camille sempre fica emocionada quando vocês nos visitam! -- Mariângela respondeu sem graça tentando disfarçar
--E que emoção mais desgraçada... -- bateu no peito tossindo de nervosa -- Ô louco!
--É, eu... tenho que voltar ao trabalho! -- Mariano se despediu -- Hoje vou sair um pouquinho mais tarde pra compensar o horário na rua.
--Filha, vai se trocar que vou servir comidinhas pra comemorar as boas notícias.
--Tá... -- foi indo para o quarto e pensou -- "Eu joguei cocô na cruz, será possível... estava tudo indo tão bem e agora me deparo com os quatro cavaleiros do Apocalipse na minha casa...” -- entrou no quarto e olhou para cama -- Ahahahahahahahahahah!! -- berrou enfurecida -- Quem fez cocô na minha cama?????????
--Michael, Caroline... -- a loura pôde ouvir que, na sala, Ligia ralhava com as crianças sem a menor fibra -- Quem fez isso, hein??
***
Priscila entrava em casa sozinha. Eram quase sete da noite e parecia não haver ninguém lá. Foi para seu quarto quando se deparou com Carlão sentado diante de sua penteadeira e mexendo em seu estojo de maquiagens. Deu um berro sinistro que o assustou.
--Aiiiiii... -- ele gritou com voz fina e se recompôs -- Ah... -- falou com voz grossa -- Quer me matar, garota? -- levantou-se coçando o saco -- Eu hein?
--Eu hein digo eu! -- foi até o estojo e o fechou -- Mamãe comprou isso em Paris pra mim, tá? O que faz no meu quarto e mexendo na minha maquiagem?? -- cruzou os braços enfurecida
--Lady saiu pra comprar umas coisas e eu estava no banheiro... entrei no seu quarto enganado e pensei que o estojo fosse dela...
--Ah, sei... nossos quartos são idênticos! -- respondeu com deboche
--Eu sou novo aqui!
--Novo? Está aqui toda noite! E isso não responde a pergunta. Por que mexia nas minhas maquiagens??
--É que... eu escolhia o que sugerir a Lady no dia do nosso casamento!
--E desde quando homem sugere como a mulher vai se maquiar? Ainda mais um machão como você?
--E muito macho, diga-se de passagem! -- mostrou os bíceps
Nesse momento Lady entra em casa. -- Carlão... amor?
--Eu vou lá! -- engoliu em seco -- Não comenta nada, eu queria fazer surpresa! -- saiu do quarto da morena correndo
--Gente... -- Priscila passou as mãos nos cabelos -- Só faltava essa! O noive de Lady... é gay????? -- perguntou chocada para si mesma
****
O porteiro do prédio de Suzana ouvia música no hall do prédio. Juliana aguardava pela delegada e levantou-se resoluta quando a viu chegar. Já estava de cabelos cortados e toda segura de si.
--Olá Suzana!
--Oi... -- não sabia o que dizer e nem onde colocar as mãos
--Essa senhora a aguarda já tem um tempinho, doutora! -- o porteiro informou
--Pode dizer o que quiser, Suzana! -- aproximou-se da morena lentamente -- Eu estava de coma, porém ouvia tudo. Eu sei que você me ama! Eu sei que você rezou por mim com muita emoção. Eu sei que esteve comigo em praticamente todas as noites. -- olhou diretamente nos olhos da outra -- Não saio de sua vida a menos que essa seja sua real vontade e eu sei que não é!
O porteiro estava constrangido ouvindo aquelas declarações. A delegada olhava para a japonesa como se estivesse enfeitiçada.
--Agora a tática é essa? -- pôs as mãos na cintura -- Não fala mais?
https://www.youtube.com/watch?v=t7M89YJAPhM
“Ainda bem,
Que agora encontrei você,
Eu realmente não sei,
O que eu fiz pra merecer,
Você...”
--Palavras nem sempre são necessárias... -- Suzana respondeu
“Porque ninguém,
dava nada por mim,
Quem dava eu não estava a fim,
Até desacreditei,
de mim.
O meu coração já estava acostumado,
Com a solidão,
Quem diria que ao meu lado,
você iria ficar...”
A delegada puxou a enfermeira pela cintura e beijou-a apaixonadamente em pleno hall do prédio.
“Você veio para ficar,
Você que me faz feliz,
Você que faz cantar,
Assim.
O meu coração já estava aposentado,
Sem nenhuma ilusão,
Tinha sido maltratado...”
A japonesa envolveu o pescoço da delegada com os braços e deixou rolar.
“Tudo se transformou,
Agora você chegou,
Você que me faz feliz,
Você que me faz cantar,
Assim...”
Ainda Bem – Marisa Monte [a]
FIM DA SEGUNDA TEMPORADA - se ainda tem força e coragem de ler mais (porque tem é texto!), pode procurar pela terceira temporada em outro canto neste site, que você acha. Confia!
Fim do capítulo
Citações
1- Ted Perry, inspirado pela carta do chefe Seattle
2 – Matheus, 5:6
3- Shakespeare
4- Carlos Drumond de Andrade
5- Confúcio
6- Baseado no trabalho de Maria Rita Kehl
7- Martin Luther King
8- Disrael
9- Albert Einstein
10- I Pedro, 3:13
11- Machado de Assis
12- Gandhi
13- Abraham Lincoln
14- Cecília Meireles
15- Mário Quintana
16- Gandhi
17- Mateus, 7:20
18- Clarice Lispector
19- Provérbio árabe
20- Ramón Gomez de La Serna
21- Hanna K
22- Baltasar Gracián
23 e 24 – Raydon Donovan
Música do Capítulo:
[a] Ainda Bem. Intérprete: Marisa Monte. Compositores: Arnaldo Antunes / Marisa Monte. In: O Que Você Quer Saber de Verdade. Intérprete: Marisa Monte. EMI, 2011. 1 CD, faixa 9 (3min36)
Comentar este capítulo:
jake
Em: 16/03/2024
Eita Sol...continuo lendo me emocionando fiquei feliz com a recuperação da Ju, triste com as atitudes da Camile em relação a Fátima sei que ela vive um drama por não se aceitar curto o jeito divertido fã Flávia e pra finalizar curiosa pra saber o pq dessa perseguição desse velho da ceita em destruir a delegada ...tô curiosa pra terminar de lê que nem consigo comentar direito .Mais uma vez obrigada Sol vc é divina consegui nos prender com sua escrita é cada vez que leio aprendo mto com seus textos. Felicidades...vou lá ler a 3 temporada. Bjs .Gratidão.
Solitudine
Em: 22/03/2024
Autora da história
Olá querida!
Estou super feliz em vê-la aqui, se envolvendo, comentando... isso é maravilhoso para quem escreve! Novamente agradeço por sua gentileza de sempre.
Continue aqui, entrelaçada em Maya.
Beijos,
Sol
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Hana Stewart
Em: 30/03/2023
Eu me identifiquei demais com esse seriado e a cada temporada aumentada o meu amor!
Solitudine
Em: 31/03/2023
Autora da história
Olá querida!
Este foi meu primeiro conto. Saiu realmente do espírito! Fico feliz em saber da afinidade!
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 23/03/2023
Nem me agradeça tá habibem? Huahuahua
Solitudine
Em: 26/03/2023
Autora da história
kkkk Ai, ai...
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Seyyed
Em: 11/09/2022
Maravilhoso!!!!! Terminou lindamentchê! Ri muito da Cami com os pestinhas!
Paro por aqui porque tem que trabalhar e mal cuidei da vida mas vou continuar lendo assim que puder. Arrasou! Beijim!!
Resposta do autor:
Que bom que você manteve-se interessada!
Camille não tinha a menor paciência para aturar as traquinagens dos primos. rs
Obrigada! Bom trabalho sempre!
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 11/09/2022
Eletrizante esse seriado! Os pontos altos fora Suzana e eu quase caindo na porrada por causa da Ju e Lady curtindo fossa! Hehe capítulos grandes mas a gente fica presa!
Resposta do autor:
Gostou de ver a discussão por causa de Juliana? Que feio... rs
Lady sofrendo é um capítulo a parte. Ela sofre e enreda a casa inteira! kkk
Feliz em saber que você esteve aqui tão interessada. E lê bem rápido!
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 17/04/2020
Solzinha tudo bem?
Não sei até que ponto a Isa se deixa manipular pela mãr, duas cobrinhas criadas.
Ed é bobinha demais, ainda bem que dona Olga sempre dá uma situada nela.
Chapolin do sexo? Kkkkkkkk... De onde você tira essas expressões, me acabo de rir!! Kkkkkk...
Não lembrava da briga da Ed e da Suzaninha... Gente que barraco!!
Camille , Camille...
Suzana e Julina... Fofas
Beijos
Resposta do autor:
Olá Gabinha,
Isa era muito menina, muito mimada, convivia com pessoas muito distantes e egoístas. Mas ela tem conteúdo e isso foi evoluindo.
Seyyed ficou babando e aí... Sobrava para a mãe dar as situadas. rs
As expressões da onde eu tiro? Além da mente caipiresca, tem uma pessoa aqui perto que é pródiga nisso. Nossa amiga Cristina sabe perfeitamente de quem falo! kkk
Sim, teve este barraco e outros mais!
Beijos,
Sol
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Irina
Em: 11/04/2020
Kotinha,
Este enigma do velho mestre está deveras interessante! Agrada-me também que tu falas do drama da velhice do abandono. Abordas todos os dramas principais que consigo ver: depressão, homofobia, intolerância, deficiências físicas e especiais... É uma lição e uma grande reflexão. Tu consegues nos deixar a pensar.. E o conto faz bem. Sinto-me leve.
Numa palavra: fixe. Em escala maior: divino.
Foste inspirada pelo Bem.
Resposta do autor:
Olá querida!
Este enigma foi uma coisa que surgiu e foi crescendo. Gostei de trabalhá-lo e espero que você goste do desfecho.
Sim, eu tentei abordar uma série de temas que considero importantes. E buscar provocar a reflexão sobre cada um deles.
Fico muito feliz em ler o que me escreveu.
Beijos.
Sol
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Gagia
Em: 05/02/2018
Outra menção é que escolheste músicas perfeitas para cada cena. E que canções! Tens bom gosto, menos quando Lady chora. rs Mas concordo que as músicas foram perfeitas para aquela agonia.
E tu és sagas porque usaste letras de música como falas, muito bem escolhidas. E escolheste somente cantoras, creio ter sido proposital. Creio que nada de ti seria aleatório, mas ao contrário muito bem estudado. Coisa de gênia.
Também és compositora pagodiana da melhor estirpe. rsrs
Resposta do autor:
Nada neste conto ocorreu à revelia. Nem os nomes do edifícios. As músicas foram selecionadas com critério caipiresco. E é verdade: só cantoras. Proposital.
Admiro que você percebe as coisas, e sempre me cobrindo de gentilezas e elogios. Obrigada!!
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Sem cadastro Em: 15/06/2024
Olá querida,
Pelo visto você é fã do bairro! rs
Sim, Isa foi. O medo de perder Seyyed falou mais altos que os conselhos da maama dela.
Beijos,
Sol