Segunda Temporada - ENTRELAÇADAS II
Lady e Silvio jantavam em um restaurante na Barrinha. O local era cercado de motéis por todos os lados.
--Estou adorando esse jantar! O carpaccio de javali estava excelente e essa lula recheada com cuscuz marroquino é o must! Não sei como se contenta só com uma Caesar Salad!
--Eu não como muito. Sou um atleta, minha dieta é especial. -- sorriu -- “Eita garota desgraçada pra escolher as coisas mais caras do cardápio!”
--Agora acho que vou pedir um vinho. Essa lula pede por um vinho tinto. -- olhou para os lados -- Cadê o garçom? Queria pedir a carta!
--Ah, claro! -- sinalizou para o garçom -- Por favor, a carta!
O homem prontamente trouxe e entregou nas mãos de Silvio.
--Eu entendo muito de vinhos. Se me permite sugerir... -- mentiu
--Claro! -- Lady sorriu
Silvio começou a ver os preços e quase caiu para trás. “Mas é tudo caro demais!” -- pensou em pânico
Continuou olhando até que achou um vinho de cinqüenta reais e pediu aquele ao garçom.
--Confie em mim. É um excelente vinho! -- sorriu
--Eu gosto de vinhos mas confesso que não entendo muito a respeito...
--Eu entendo, fique tranqüila!
O celular de Lady começou a vibrar. Ela parou de comer e olhou.
--Ih, é mamãe! -- disse espantada -- Ela nunca liga! -- olhou para ele -- Se incomodaria se eu...
--Fique à vontade!
O garçom chegou trazendo o vinho, fez aquele ritual clássico para servi-lo e foi saindo com a garrafa. Silvio segurou no avental dele.
--Ei! -- aproveitou que Lady não prestava atenção -- Por que está levando a garrafa?
--O senhor pediu duas taças e não a garrafa!
--Aquele preço é por taça? -- perguntou apavorado
--Sim! A garrafa sai por cento e oitenta.
--Pode levar! -- despachou. O garçom se foi -- “Ah, mas eu tenho que comer essa garota hoje pra esse gasto todo valer a pena!” -- pensou
Lady desligou o telefone. -- O filho de uma das minhas primas que estava grávida nasceu prematuro... nasceu de sete meses...
--Ah, mas hoje em dia isso não é mais um problema! Eu mesmo nasci de oito meses e veja como sou normal.
--Nossa, você é lindo!
Silvio ficou todo cheio. -- Você é que é uma lady! -- sorriu
--Ai, Silvio você é tão galante! Não será assim com todas? -- perguntou fazendo charme
--Oh, não... Não sou homem de todas, sou homem de uma! -- fez cara de santo -- Sabe, eu sou um homem romântico! Quero casar, ter filhos, envelhecer ao lado de uma mulher honesta e de bem. Eu sou tão romântico que me envergonho com essas coisas que os homens fazem: traições, mentiras... Eu sou da moda antiga, namoro sério. Se ainda não casei foi porque ainda não tinha encontrado minha lady. -- olhou para ela fazendo tipo de sedutor
--Ai... -- derreteu-se -- “Gente, encontrei o homem da minha vida! A gente tem que se casar ainda neste ano!” -- pensou esperançosa
Lady pegou a taça de vinho.
--Calma, Lady! -- advertiu -- Eu não escolhi esse vinho à toa! Só tomaremos uma taça e isso é por causa das características especiais desta bebida. -- mentia descaradamente -- Esse é um vinho que se avoluma na boca! Você precisa degustá-lo devagar para sentir aquela coisa.
Lady provou desconfiada e bem devagar.
--E então? -- Silvio perguntou
--Não senti nada! -- colocou a taça na mesa -- “Nossa, que vinho ruim!” -- pensou
--Então beba ainda mais devagar que perceberá os efeitos. -- bebeu um gole -- Hum... que maravilha! -- fez caras e bocas -- "Que vinho horroroso!!!” -- pensou
“Nossa, que homem fino! Eu é que não devo ter classe suficiente pra saber apreciar esta bebida que me parece ter gosto de mijo...” -- pensou sem graça
--Eu vou lhe dizer uma coisa, minha querida, não sou do tipo que vai pra cama com qualquer maluca, eu não. Até hoje só tive uma mulher, uma ex noiva, e só não casamos porque ela morreu.
--Ai, meu amor, que triste! -- ficou penalizada
--Desde então, vivo uma vida monástica!
--Coitado...
--Não sou de bagunça, Deus me livre! -- pausou -- E você?
Lady acabava de tomar o segundo gole. -- Eu namorei sério um rapaz por um ano e depois outro por dois anos. E só. -- pausou -- Pensei que fosse casar, mas eles não queriam nada!
--Loucos que foram de deixá-la escapar. -- sorriu -- Agora que a encontrei, será só minha!
--Ai... -- suspirou apaixonada
***
Após o jantar Silvio pagou a conta e quase foi à falência. Entraram no carro dele e saiu do restaurante dirigindo bem devagar.
--Veja Lady, quantos lugares agradáveis que nos cercam...
--Lugares agradáveis? -- perguntou com espanto -- São motéis!
--De família, diga-se de passagem!
--Eu não freqüento motéis! -- cruzou os braços
--Nem eu! -- mentiu -- É que... já que vamos nos casar poderíamos nos conhecer melhor...
--Quando vamos nos casar? -- perguntou animada
--Ah, vamos combinando direitinho... -- desconversou
--Vamos lá pra casa! Não gosto de motéis, mesmo os de família.
--Suas amigas estarão em casa? -- perguntou interessado
--Acho que não.
--Então vamos lá! -- acelerou o carro e sorriu
Após alguns minutos e muitas mentiras da parte de Silvio chegaram no edifício de Lady. Pegaram o elevador e subiram.
“Engraçado, eu conheço esse prédio dela... Quando estive aqui?” -- Silvio pensava
O apartamento estava vazio.
“Eu conheço esse lugar...” -- ele pensou intrigado
--Quer uma água, alguma coisa? -- ela perguntou
--Sim! -- fez olhar de sedutor e deu um puxão em Lady -- Quero você, minha futura esposa e mãe dos meus filhos!
--Ai... -- Lady envolveu o pescoço dele com os braços
Começaram a se beijar e caíram na poltrona. Lady meteu a mão entre as pernas dele e apertou.
“Essas casadoiras são sempre assim!” -- pensou excitado
Deitou-se por cima dela na poltrona. Apertou um seio da garota, que gem*u alto.
De repente, ouvem-se vozes e a porta se abriu. Tatiana e Priscila chegavam do cinema.
--Ai, meu Deus! -- Lady exclamou envergonhada. Ela e Silvio sentaram-se depressa
--Silvio?! -- Priscila perguntou surpresa -- É esse o seu engenheiro casadoiro? -- não agüentou e caiu na gargalhada
--Gente, e não é que é ele mesmo! -- Tatiana exclamou -- Num dou conta disso! -- riu
--Vocês se conhecem? -- Lady perguntou surpresa
--Eu... deve haver algum engano! -- não sabia o que dizer -- “Que droga, eu sabia que já havia estado aqui!”
--Engano que nada, seu mentiroso! -- olhou para Lady -- Isso aí é o maior piranhudo que se tem notícia! Já foi até preso por trans*r na rua! -- Priscila falou
--Ele nunca foi engenheiro ou dono de oficina! Trabalhava no mesmo lugar que Renan e pediu demissão depois de levar uma bronca da chefe porque estava excitado na frente dos clientes enquanto cantava uma garota de 13 anos! -- Tatiana disse olhando para ele
--Isso é verdade, Silvio? -- Lady perguntou decepcionada
--Essas garotas estão loucas! -- levantou-se depressa
--Deixa de ser cara de pau! Quer que chame Renan aqui pra te reconhecer? -- Tatiana perguntou com raiva
--Vai embora, seu safado! Deixa de ser mentiroso e vai enganar o diabo! -- Priscila escancarou a porta -- Some!
--Eu não acredito! -- Lady pôs as mãos na cabeça -- Não pode ser... -- fechou os olhos
--Eu... -- ele olhou para todos os lados -- Depois a gente conversa! -- correu para fora. Priscila fechou a porta
--Faça-me o favor, hein, Lady? -- Tatiana falou -- Você que gosta de chamar todo mundo de piranha, trouxe um desconhecido pra cá e ainda tava no maior amasso com ele no sofá? Se a gente não chegasse a tempo ia ter sex* pela casa inteira, não é?
--Eu pensei que a gente ia se casar!
--Deixa de ser burra, garota! Ninguém casa assim, não! -- Priscila rebateu -- Ele ia trans*r contigo, mentir, trans*r de novo, mentir e depois sumir quando estivesse de saco cheio! -- balançou a cabeça -- E depois diz que é antenada!
--Tem certeza de que era ele o homem de quem vocês falavam? -- insistiu
--Claro garota! Priscila até ficou com ele por um tempinho...
--Sem compromisso, diga-se de passagem. E vi que era o maior galinhão.
--Ai meu Deus... -- fez cara de tristeza -- Volta a guardar o vestido no armário... -- caminhou pesadamente para o quarto
--Eu posso com essa garota? -- Tatiana perguntou
--Agora, pra fechar com chave de ouro, só falta o papagaio do cão começar com seu recital de magia negra na calada da noite... -- Priscila disse enquanto ia para seu quarto
***
Camille havia acabado de chegar na casa de Fátima. Decidiu ir sozinha e de ônibus apesar dos protestos de sua mãe. A loura havia procurado o contato da nadadora porque queria saber notícias e contar suas novidades, daí foi convidada para uma visita e não resistiu.
--Ah, você deve ser Camille. Entre querida! -- disse Jurema, mãe de Fátima, ao abrir a porta. Deu beijos de comadre na jovem
A loura entrou e praticamente se jogou no sofá. Estava de muletas.
--Desculpe, mas estou cansada. -- passou as mãos no rosto -- Acho que nunca suei tanto! E ainda rodei uma baiana com o motorista do ônibus e com o da Kombi. Ô bando de viado, viu? Esses ônibus daqui do Rio correm demais! Em cada curva eu pensava que ia ser cuspida do meu assento. Ô louco, meu! E na Kombi tem gente que aceita viajar de pé, acredita? Uma mulher meteu a bunda na minha cara e eu não tinha nem como respirar direito. Vou te contar, porca miséria! Na hora de descer eu me enchi de vez e dei muletada na cabeça de todo mundo! -- pausou -- Desculpe... -- pôs a mão sobre a boca -- Eu já cheguei reclamando... -- ficou sem graça
--Sem problemas, filha. Eu vivo tendo aborrecimentos como esses. -- riu -- Quer água?
--Ai, eu quero sim. Desculpe.
--Pare de se desculpar. -- riu -- Fátima! -- chamou -- Sua amiga está aqui. -- foi para a cozinha
--Eu sei. -- ela vinha -- Pude ouvir. -- riu -- Olá pequena rebelde. Vejo que veio fazendo arruaça pelo caminho! -- sorriu
--Oi Fátima! Como vai o braço?
--Doendo, mas vai passar. Quer dizer, espero que passe depois da operação. -- deu um beijo na cabeça da outra e se sentou -- Fico feliz que tenha vindo. -- sorriu
--Aqui está sua água! -- Jurema entregou um copo cheio e Camille bebeu quase de um gole só -- Quer mais?
--Não obrigada! -- estendeu o copo de volta. Jurema pegou e foi para a cozinha
--Foi difícil chegar pelo que ouvi dizer. -- Fátima comentou
--Eu não conhecia esse bairro... Taquara. Mas não foi difícil, só foi louco. -- sorriu
--Veio de muletas... Que coragem, tô orgulhosa! -- brincou
--Se viesse de cadeira de rodas eu nem sei como seria... -- revirou os olhos -- A gente paga imposto e as merd*s das contas todas, mas o planejamento urbano das nossas cidades considera apenas as pessoas que podem andar com suas duas perninhas normais. E claro, não existe cego, surdo, mudo, idoso... Todo mundo é jovem, saudável... -- desabafou -- Não vou mentir: tô morta de cansada!
--Fico feliz em notar como está ficando cada vez mais forte e independente. -- Camille corou -- E você tem razão, as cidades são planejadas sem levar em consideração que existem deficientes de toda ordem. Só me dei conta disso depois que fiquei cega!
Jurema voltou para sala.
--Filha, quer tomar um banho? Estou com pena de você, suada do jeito que está! -- pôs as mãos na cintura -- Sei que vocês são guerreiras mas mesmo um guerreiro precisa de um refresco. Quer?
--Ah, eu... não seria inconveniente? Eu já entrei aqui toda esbaforida, não queria deixar uma impressão tão ruim...
--Não seja boba, garota! -- Fátima disse
--Não será incômodo! -- Jurema acrescentou -- Só se você quiser que eu esfregue suas costas! -- riu
--Fique tranqüila quanto a isso! -- Camille riu também -- Ah, então eu aceito! -- respondeu sorrindo
--Vou pegar toalha e sabonete. Espere aí! -- foi para o quarto
--Pra mim não seria incômodo! -- Fátima respondeu baixinho
--O que? -- Camille não entendeu
--Esfregar as suas costas... -- sorriu
A loura novamente corou. “Ainda bem que ela é cega...” -- pensou
***
As três estavam conversando e lanchando na sala até que o telefone tocou. Jurema atendeu e depois de um tempo uniu-se às outras duas novamente.
--Meninas tenho que ir pra casa de minha irmã! Missão limpeza, nem sei que horas volto! -- revirou os olhos
--O que houve, mãe?
--Sua tia foi cozinhar seis quilos de aipim na panela de pressão e a danada, sabe-se lá porque, explodiu! Graças a Deus ninguém se machucou mas a cozinha tá toda coberta de aipim! Ela disse que tem aipim até na cara do cachorro! -- foi para o quarto
--Nossa! -- Fátima exclamou
--Ô louco! Seis quilos de aipim? Fala sério, meu... -- Camille resmungou sozinha
Em pouco tempo Jurema estava pronta e partiu para socorrer a irmã. Fátima e Camille cuidaram da louça e voltaram para sala para conversar.
--Talvez eu deva ir... -- a loura afirmou -- São quase seis da tarde...
--Ah, fique mais! Tem um taxista amigo nosso, e que é muito sério, que pode te levar sem problemas... -- pediu
--Meu tio disse pra eu voltar de táxi mesmo... -- sorriu
--Então fique! Está decidido! -- afirmou sorrindo
--Você gosta mesmo da minha companhia ou tá pensando só em sacanagem e daí encara o que vier? -- calou-se -- “Por que diabos eu disse isso?” -- pensou se recriminando
Fátima riu. -- Não sou do tipo que encara o que vier só para ter alguns momentos de prazer... -- disse com muita delicadeza -- Eu me interesso por você! Gostaria muito de conhecê-la melhor, mas sei que você não se permite, mesmo que deseje a mesma coisa.
--Eu não sou lésbica! -- afirmou como se tivesse medo
--Ai, ai, menina... -- estendeu as mãos e tocou o rosto dela. Estavam sentadas uma de frente para a oura -- Diga-me, Camille, quem é você? -- tocava delicadamente as sobrancelhas da jovem
--Eu... eu não sei... -- respondeu desconcertada -- E você? Quem diria que eu sou?
--Você é uma pessoa tão presa que não tem coragem de olhar para dentro de si mesma, e quando tenta fazer isso, não aceita o que encontra e pára. Você se julga tão pequena, tão ruim, que vive na defensiva, agride os outros pra que as pessoas não te vejam e não encontrem o que você esconde, por achar que não é digno de ser revelado... No fundo você espera que alguém apareça e te liberte dessa solidão auto imposta mas isso não vai acontecer. Cabe a você, e somente a você, tornar-se livre... -- tocava suas bochechas com suavidade
--Por que acha que se eu me assumir lésbica eu vou ser mais feliz, mais livre? Você quer me influenciar! -- tirou as mãos de Fátima de seu rosto com revolta
--O que eu disse não se refere necessariamente a ser lésbica ou não. Você não se aceita, Camille! E isso vem desde antes do acidente, tenho certeza. A diferença é que antes você usava uma capa de presunção e auto estima falsamente elevada, e hoje em dia o disfarce não lhe cabe mais. Ficou a agressividade.
--Pára com isso! Eu não gosto quando usa sua psicologia de merd* comigo! -- falou mais alto
Fátima respirou fundo. -- Você não gosta de ser forçada a se olhar por dentro, a se questionar... Eu estava apenas respondendo a sua pergunta mas tudo bem, Camille. Mudemos de assunto. -- respondeu conformada
--É melhor eu ir! -- pegou as muletas nervosamente
--É o que quer fazer? É mesmo o que quer fazer? -- questionou a atitude da outra
Camille tentou se levantar mas desistiu. Jogou as muletas para o lado e disse: -- Não... -- passou a mão no rosto
--Deixe-me vê-la? -- pediu -- Só que de verdade.
--O que quer dizer?
--Além dos sentidos. Quero vê-la com os únicos olhos que tenho, os olhos da alma.
A loura reparava nas feições da nadadora. Fátima era branca, cabelos castanhos margeando os ombros, levemente cacheados. Seu rosto era suave porém marcado por um par de olhos deformados e brancos. Não era bonita fisicamente, mas a beleza de sua alma tornava-a uma mulher linda.
--Eu acho que você foi a única pessoa que eu conheci, fora da minha família, que por alguma razão se deixou conquistar por mim... -- desabafou
--Por alguma razão? -- riu -- Você não é só uma moça bonita por fora... tenho certeza de que há muita beleza aí dentro desse coração. Deixe isso aparecer a toda gente!
--Eu não sei como fazer isso... Eu vivo com raiva, sei lá o que se passa comigo!
--Tente descarregar essa cólera que te agoniza no esporte, convertendo em energia, em estímulo pra nadar cada vez melhor. Tente não usar palavras rudes, porque as palavras são muito mais importantes do que parecem. Tente se permitir amar...
--Você é tão estranha... Como pode saber tanto? Conversamos tão pouco... -- sorriu -- Parece saber que vivo em dois mundos: no real e no interior, que é só meu...
--E onde você é mais feliz...
--Isso... -- afirmou pensativa
--Saia para o mundo real, Camille! -- pediu delicadamente
--E quem estará lá fora me esperando?
--Eu... -- sorriu
A loura não resistiu e subitamente beijou a nadadora sem que esta esperasse. Fátima segurou seu rosto e retribuiu o beijo com muita intensidade. Ao final Camille se jogou na poltrona em que a outra estava e puxou-a para perto de si.
--Calma, querida... -- Fátima pôs a mão no ombro da jovem -- Não quero que chegue em casa cheia de dúvidas e depois nunca mais queira olhar na minha cara. Uma coisa de cada vez... -- estava sendo bastante gentil. Camille se afastou dela
--É melhor eu ir... -- respirou fundo -- Chama o tal taxista? -- pediu constrangida
--Tudo bem... eu chamo. -- virou-se na direção do telefone e fez a ligação
A loura não sabia o que fazer. Sentia-se envergonhada, confusa, nervosa...
--Ele pediu 20 minutos. -- Fátima disse -- Sempre pede 20 minutos... -- achou graça
--Ah tá... -- não sabia o que responder
--Venha cá, me dê suas mãos. -- estendeu os braços e abriu as mãos. Camille segurou-as -- Não precisa ficar assim... Não fizemos nada de mau. -- beijou as mãos da loura -- Você vai para sua casa em segurança e ao chegar lá não vai se consumir em dúvidas, angústias ou sensações desagradáveis que façam seu dia terminar mal. Você vai ficar bem e vai atrair para si sempre o melhor. -- sorriu -- Quero que se sinta amada, que se sinta uma pessoa importante... Fique tranqüila, nada aconteceu de mau. -- soltou suas mãos e beijou-lhe a testa
A jovem ficou desconcertada e abaixou a cabeça. Não podia negar que Fátima a fazia bem.
--Eu... achei isso bonito... -- disse em voz baixa
--Pode ser muito bonito... só depende de você.
Camille segurou o rosto de Fátima com as duas mãos e a beijou novamente. Sem ansiedade, sem medos ou angústias e esse beijo foi o melhor que já havia provado a vida inteira.
***
Suzana e Juliana estavam paradas diante da porta de Olga. A delegada estava nervosa.
--Calma, Su! -- Juliana apertou a mão dela, que nada respondeu
Olga veio abrir a porta. -- Olá queridas! -- sorriu -- Venham, entrem!
As duas entraram e a japonesa deu um abraço apertado em Olga. -- Abraço gostoso na minha mãezinha... -- beijou sua testa
--Você me parece tão bem! -- segurou o rosto dela e beijou-lhe a testa -- Fico muito feliz com isso! -- sorriu e olhou para a delegada -- E você é a famosa Suzana. É uma bela índia com esses cabelos lindos e olhinhos puxados. Venha cá, me dê um abraço!
A morena abraçou Olga um tanto constrangida.
--É um prazer! A senhora também é muito famosa. -- sorriu encabulada -- E bonita.
--Fique à vontade, filha. Juliana é de casa, você também pode ser. -- pausou -- Eu vou pra cozinha trazer a comida. A mesa tá posta, se quiserem se sentar... -- apontou as cadeiras
--Eu ajudo! -- a japonesa se ofereceu
--Obrigada querida, mas fique com sua namorada fazendo sala. Eu cuido de tudo, relaxe. -- foi para a cozinha
As duas se sentaram à mesa.
--Ela é simpática... -- a delegada falou -- Achei incrível a naturalidade dela ao dizer que sou sua namorada.
--Ela é uma pessoa maravilhosa! Conheça-a melhor e verá isso. -- sorriu
Olga trouxe a comida e suco de uva. As três começaram a jantar e conversar sobre vários assuntos.
--Ah, deixa eu contar! -- Juliana se lembrou -- Encontrei sem querer com meu irmão Ivo na rua. -- deu uma garfada
--É mesmo? Que bom! E como foi? -- Olga perguntou curiosa. Bebeu um gole de suco
--Eu dei carona a ele até sua casa. Mora em Ramos, é professor, casado e tem uma filhinha. Falou de nossos irmãos, de nossos pais... Descobri que papai morreu... -- limpou os lábios com guardanapo
--Sinto muito! -- Olga respondeu
A enfermeira balançou a cabeça. -- No final ele não me convidou a entrar em sua casa e nem quis nem saber meu endereço. Tudo pra que eu não servisse de mau exemplo pra menininha dele! -- disse revoltada
--Eu achei isso tão absurdo... -- Suzana comentou antes de dar uma garfada
--É uma tristeza mesmo... mas não deixe isso te magoar, querida! -- disse para a enfermeira -- As pessoas de sua família são muito duras. Eles buscam sofrimento pra si e esse sofrimento vem, mais cedo ou mais tarde. Não guarde mágoas e nem se endureça, porque senão o problema passa a ser seu. -- olhou para a mulher mais jovem com ternura -- Você já mudou tanto, vem fazendo tanto bem aos outros! Não se deixe contaminar com essas coisas ruins!
--Eu sei que tem razão... mas é difícil não guardar mágoas! Quando Ivo disse que papai teve um derrame e ficou com o lado direito todo paralisado, vivendo uma vida miserável até morrer de infarto, eu não consegui não achar que foi castigo!
--Não é castigo, Juliana, são conseqüências naturais daquilo que fazemos. Nós semeamos, nós colhemos, não tem jeito! Não existe liberdade sem responsabilidade, a gente é que se deixa iludir com as aparências das coisas que estão na superfície. -- pausou -- Mas não perca seu tempo com mágoas e pensamentos infelizes. Faça a sua parte e basta isso. -- deu uma garfada
--Eu entendo o raciocínio da senhora, mas eu também não consigo não guardar mágoas! -- Suzana bebeu um gole de suco -- Tenho ódio de tanta coisa... Desculpe falar de uma forma tão amarga durante um jantar preparado com tanto carinho, mas eu acho o mundo podre e tenho muito desgosto do ser humano. E esses pais irresponsáveis entregam homens e mulheres da pior espécie pro mundo!
Olga olhou para Suzana, limpou os lábios com o guardanapo e disse: -- Na sua profissão, eu imagino que a carga de negatividade que te cerca diariamente seja pesadíssima. E levando-se em conta seu drama pessoal, que é seriíssimo, acho admirável que tenha tanta fibra e lucidez em suas determinações interiores. Não tô falando com você como alguém que quer se colocar superior, porque isso estou longe de ser, falo como alguém que se preocupa com saúde. Esqueça qualquer lado religioso, falemos apenas em saúde. -- propôs -- Pense comigo: imagine-se como alguém que trabalha como Juliana, cercada por pessoas doentes, todos os tipos de doença. Se ela não se cuidar com uma boa alimentação, descanso adequado, higiene pessoal e se não seguir a profilaxia que a profissão exige, o que vai acontecer a ela mais cedo ou mais tarde? Vai adoecer seriamente! Da mesma forma você. Se não se cuidar, não apenas fisicamente, mas se não alimentar sua alma com idéias positivas, se não cuidar da limpeza de seus pensamentos e não se descontaminar de todas as cargas negativas que te cercam, você vai adoecer! O fato de ser indígena, oriunda de uma cultura que preza pelo respeito à Natureza e pela honestidade, ajuda você a se manter equilibrada em meio ao caos, mas ainda assim precisa urgentemente tentar se livrar de tanta amargura! É pelo seu próprio bem, pela sua saúde!
--De fato eu já adoeci seriamente algumas vezes... -- respondeu -- Já pensei em me matar algumas vezes também...
--Verdade, Su? -- Juliana perguntou penalizada
--Verdade... -- pausou -- Eu sou uma delegada totalmente não convencional. Não sigo o protocolo como deveria... Já me ferrei muito com isso! Muitas vezes me sinto uma idiota...
--A gente sempre se sente idiota quando faz o certo, Suzana. Mas no final, quando alguma coisa muda pra melhor, a gente esquece de todos os aborrecimentos.
--Quando eu era da faculdade, meu professor de anatomia sempre falava: "O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer."9 -- Juliana relembrou -- O problema é que tem muita gente fazendo o mal, e mais gente ainda deixando acontecer!
--Às vezes eu acho que faço a minha parte, vejo que outras pessoas também fazem, mas não muda nada! -- Suzana desabafou desanimada -- É a mesma pouca vergonha de sempre!
--É que os bons são tímidos, ficam desestimulados com o que vêem e se calam. Existe muita gente boa no mundo! E há muitas pessoas que não são ruins mas estão com os corações endurecidos por conta da crise que vivemos há tempos nesse planeta. Vivemos uma crise de percepção, onde os valores foram invertidos, e o ter vale mais que o ser. Porém, não somos obrigados a nos contaminar com isso. Podemos ser felizes apesar de tudo! A felicidade não exige muito... nossas ilusões sim! -- Olga sorriu e olhou para a delegada -- Mas me responda: o amor de Juliana está lhe fazendo bem, não está?
--Muito! -- olhou para a japonesa sorrindo
--Porque o amor é o alimento da alma, minha querida! -- Olga segurou a mão dela -- E o amor mais permanente de todos é o amor de Deus. Confie nEle e continue sendo honesta como sempre foi! "E qual é aquele que vos fará mal, se fordes zelosos do bem?"10 Peça a Deus todos os dias pra que Ele te ajude a se livrar de todas as suas mágoas e Ele vai ouvi-la. Dedique um pouco do seu tempo pra olhar dentro de si mesma e se cuidar. Sua vida é preciosa demais pra que sequer pense em desistir dela.
--Eu já fiz coisas horríveis, dona Olga... -- abaixou a cabeça -- Como posso falar com Deus se minhas mãos estão sujas de sangue? Não dá!
--Em primeiro lugar perdoe-se. Você foi vítima da violência e ela foi a lei que conheceu. Mas isso é passado! Você é uma mulher madura e já tem outro entendimento. Não repita o que fez, peça perdão a Deus e viva da forma mais digna que puder. Sua profissão põe a violência diante de você a todo momento, mas não precisa se contaminar com ela, da mesma forma como nunca se contaminou pela corrupção.
Suzana olhou para Olga e Juliana e se sentiu mal. -- Eu... nós deveríamos estar aqui falando amenidades, rindo, brincando... eu peço desculpas por ter trazido esses assuntos pesados durante o jantar, foi muito inconveniente, eu reconheço... Eu nem costumo a falar tanto!
--Então eu tenho de me desculpar também porque fui eu a começar quando falei de minha família...
--Nenhuma das duas precisa se desculpar! Claro que seria melhor se estivéssemos aqui rindo e nos divertindo, mas vocês falaram de coisas íntimas que estão dentro de si e que incomodam. É bom dividir certas coisas, é bom desabafar. Não com qualquer um ou a qualquer hora, mas quando o coração pede. -- pausou -- Eu não me canso de recomendar a “higiene interior” e uma vida pautada no amor para quantos possa. Não se trata de religião, mas de necessidade. Se não quiser pensar em Deus, pense no Cosmos, na Natureza, no que quiser! O importante é buscar uma base sólida pra si. Ser feliz é o objetivo do ser humano e pra isso precisamos nos manter limpos e equilibrados.
--Confesso que depois que deixei que Deus entrasse mais na minha vida eu me sinto muito melhor. Continuo pavio curto, ciumenta e muitas vezes impaciente, mas a partir do momento que passei a olhar pro lado, me tornar sensível ao sofrimento dos outros e buscar ajudar as pessoas, meus problemas aos poucos foram me parecendo menores. Às vezes posso ter recaídas, mas a vida me parece mais leve, embora ainda tenha algumas mágoas aqui dentro.
--Você mudou muito, Juliana. Pra melhor, inegavelmente.
--Vocês são pessoas boas! -- Suzana afirmou com sinceridade
--E você também é. Você se importa, Suzana. Você tem conteúdo, tem riqueza no coração.
--Então... a senhora faz gosto da Juliana ficar comigo? -- estalava os dedos por baixo da mesa
--Claro que faço gosto! Olha, eu desejo de coração que as duas se acertem, se complementem, se ajudem a crescer, mas sem criar vínculos de dependência. Desejo que sejam muitíssimo felizes e deixo claro que essa casa estará sempre de portas abertas. Podem desabafar comigo sobre o que quiserem! Estarei sempre disposta a ouvi-las e a recebê-las.
--Fico feliz com isso! -- a enfermeira disse sorrindo
--Só quero que as duas busquem se conter! Duas mulheres de pavio curto como vocês não são qualquer coisa... -- Olga riu brevemente -- Conheço Juliana e você com certeza não é menos danada que essa menina!
Juliana beijou o rosto de Suzana, que sorriu encabulada.
***
José estava muito nervoso. Havia tido outro pesadelo e decidiu ligar para um de seus comparsas que estava em Volta Redonda.
--Alô! -- atendeu desconfiado
--Cara, sou eu. Escuta, a gente tem que conversar! -- falava angustiado
--Sobre?
--A história daquela garota! A gente entrou de gaiato naquele negócio! Aqueles malucos é que têm a psicose deles, as manias deles e a gente se ferrou por ter participado achando que a grana valia a pena e que não ia dar em nada. A pressão é muito forte e eu tenho tido uns pesadelos diabólicos! Ando a ponto de ficar maluco! -- passou a mão na cabeça -- Eu vou confessar tudo!
--A pressão é muito forte porque você e Clóvis foram dois idiotas, isso sim! E você ainda foi dedar Otávio! Eu não tenho nada com isso! Confesse e apodreça na cadeia!
--Claro que tem, Luis! Você tava lá, lembra? A gente foi na onda e comeu a garota, lembra? Eu nunca tinha feito nada daquele tipo com mulher nenhuma!
--Idiota! Não me ligue mais! E vê se fica calado, porque senão eles vão acabar te matando! -- desligou
José arremessou o celular no chão. Não sabia o que fazer. Esfregava as mãos nervosamente.
***
--Deixa eu te falar, Pri, você não acredita!!! -- Tatiana comemorava -- A delegada Suzana conseguiu prender novamente Clóvis e Otávio, além de levar junto o safado do José e mais um tal de Luis que foi preso hoje em Volta Redonda!! -- pulava de satisfação -- José confessou tudo e entregou todo mundo!
--Ai, amiga, me abraça! -- Priscila agarrou a outra -- Esses malditos serão todos condenados e apodrecerão na cadeia! -- pulava junto com ela
--Faltam outros, e a delegada vai achá-los, eu sei! -- continuavam pulando
--Gente, o que aconteceu? -- Lady já chegou pulando -- Antecipou o casamento, Tati? Decidiu antecipar o grande dia pra quando? -- perguntou sorrindo
--Pelo amor de Deus, viu? -- Priscila parou de pular e largou Tatiana -- Será possível que você só pensa em casar? -- reclamou -- Isso é doença, já pensou em procurar um psicólogo?
Tatiana também parou de pular. -- Estávamos comemorando a prisão dos assassinos da nossa amiga, garota! Acorda! -- deu um tapinha na testa da outra e riu -- Eu hein, só pensa em casamento, uai! -- balançou a cabeça
--Ah! -- Lady ficou sem graça e parou de pular também -- É... que bom, né? -- sorriu encabulada
--Aqui, eu queria mesmo falar contigo! -- Priscila virou-se de frente para Lady -- Aquele teu papagaio dos infernos se superou ontem à noite! Eu estava na sala estudando e ouvi um grito horroroso na cozinha. Parecia até filme de horror! Quase morri de medo, mas me lembrei do teu bicho possuído. Corri pra cozinha e a peste gritava: “Gosto de sangue, gosto de sangue... demo, demo!” Aí não conversei: joguei o pano de prato em cima e ele ficou lá se debatendo!
--Maritaca austral, sua desgraçada! Papagaio não! -- Lady pôs as mãos sobre a boca -- Por isso ele amanheceu exausto e horrível. Pensei até que estivesse doente! -- deu um tapa no braço dela -- Como pôde?
--Como pôde você, trazer pra cá um diabo desse que só grita um verdadeiro recital dos infernos e deixa todo mundo louca! -- empurrou a outra
--Calma, gente, não briguem! -- Tatiana se colocou entre as duas -- Parou com isso! Num dou conta, não!
--Mas, Tati, você sabe disso! -- Priscila reclamou
--Eu nunca escutei nada! -- Lady gritou
--Porque você tem um sono surreal!
--Chega vocês duas! -- Tatiana repetiu mais enérgica -- Eu tô feliz e não quero estragar a noite com vocês duas brigando por causa daquela peste possuída!
--Você também, viu? -- Lady reclamou com Tatiana
--Lady, eu já li Quintana, Clarice Lispector, Fernando Pessoa e mais alguns clássicos pra ele mas não tem jeito! Teu papagaio só fala mesmo é frase do Bicho Ruim! Já te disse que aquela coisa não é de Deus!
--Olha, eu vou falar com minha mãe e procurar outro lugar pra ficar! Vocês duas são preconceituosas, não gostam de animais e são duas perdidas que ficam trans*ndo por aí ao invés de procurar um casamento!
--Você é maluca, isso sim! E é tão metida a puritana mas já ia trans*r com o galinha do Silvio naquela noite. Além de tudo é uma burra, que acredita em tudo que homem diz! -- Priscila respondeu furiosa -- Vai mesmo, que ninguém vai sentir a menor falta!
--Não demora muito e eu vou mesmo! -- fez cara feia -- Tenham uma boa noite! -- foi para o quarto
--E olha, compra um quilo de naftalina porque aquele teu vestido ainda vai mofar por muito tempo no armário, sua doida! -- Priscila gritou
--Chega, Priscila! -- Tatiana ralhou -- Deixa a garota! -- respirou fundo -- A droga é que sem ela as contas da casa ficam muito pesadas e nem sei quem convidar pra ficar no lugar dela!
--Ah, que se dane! Essa garota é pior que a pior de todas as caipira de Pau d’Arco! Pior que todas as caipiras do universo! -- Priscila foi para seu quarto pisando duro
--Gente, essa casa precisa é de um bom descarrego! Acho que vou convocar uma equipe multidisciplinar com padre, pastor, pai de santo, rabino, monge e tudo mais... -- pôs as mãos na cintura -- Num dou conta, não!
***
Camille acabava de desligar o telefone.
--Ai mãe, que bom! -- olhou para Mariângela -- Fátima já está em casa e passa bem! -- sorriu
--Eu rezei muito por ela. Graças a Deus tudo deu certo! -- costurava na máquina
--Eu fiquei preocupada quando a gente a visitou logo depois da operação. Ela tava tão fraquinha, pálida, trêmula...
--Operar não é mole! Lembro muito bem de você nas duas vezes em que operou. Não gosto nem de falar nisso. -- parou de costurar e se benzeu
--Eu vou na casa dela um dia desses visitar. -- foi indo para o quarto
--Fico feliz por você finalmente ter uma amiga! -- sorriu -- E cuide da vida porque daqui a pouco Flávia chega pra sua fisioterapia. -- voltou a costurar
Camille foi para o quarto e terminou de fazer uns exercícios no livro de gestão empresarial. Decidiu interromper os estudos para esperar por Flávia, que estava alguns minutos atrasada. Nesse meio tempo, rendeu-se aos pensamentos que tomavam sua mente desde a primeira visita a casa de Fátima.
Deitou-se na cama e fechou os olhos. “Será que eu sou mesmo lésbica? O que será que eu sou? Uma mulher que beija outra e gosta disso não pode ser hetero. Uma mulher que tem sonhos eróticos com outra não pode ser hetero. Uma mulher que escreve um conto lésbico pode ser hetero? Acho que não... Ai, mas eu não queria isso, que inferno!” -- abriu os olhos e rolou na cama -- “Fátima me encanta, ela é uma pessoa muito meiguinha, muito linda! Seyyed me atrai, ela é interessante... Mas que droga, eu não vou assumir isso! Fátima não vai se conformar com o pouco que estou disposta a dar a ela e Seyyed além de tudo tem a bailarina metidinha. Que merd*, viu?” -- deu um soco na cama
--Que é isso, loura? -- Flávia estava entrando no quarto dela -- Rolando na cama e dando soco no colchão? Sei não, viu? -- riu
--Flávia! -- sentou-se constrangida -- Nem te ouvi chegando! Como entra aqui assim?
--E desde quando eu peço audiência, maluquete? -- puxou a cadeira, sentou-se e abriu a maleta -- Ei, fiquei sabendo que você foi pra Taquara sozinha e de muletas! Tua mãe acabou de me dizer. Gostei de ver, tá ficando esperta igual a mim! -- sorriu
--Humpf! Como sempre, pretensiosa... Meu ideal de vida não é ficar parecida contigo! -- ajeitou-se na cama e passou a mão nos cabelos
--Eu sei, é muito pra você! -- sorriu e pegou uns objetos de madeira -- Vai encaixando isso aí! -- estendeu para ela
--Que é isso? -- pegou os objetos curiosamente
--Vamos dar trabalhos a esses dedinhos. Vai encaixando as peças. Usa a cabeça que você descobre como!
--Eu hein? -- acabou rindo -- É complicado! -- tentava encaixar
--Complicado porque te exige alguns movimentos com os dedos que você ainda não recuperou de todo. -- pausou -- Diga, como consegue digitar? Sua mãe disse que você fica escrevendo à beça de noite.
--Eu uso só três dedos... -- continuava tentando montar as peças
--Tem que se conter nesse tec tec -- fingiu que estava digitando -- porque pode ficar com tendinite. Ou então com LER. Já pensou?
--Relaxa, eu paro pra alongar, coloco compressa nas mãos...
--O que diabos tanto escreve? -- perguntou curiosa
--Nada de mais... tô estudando, sabe disso. É só uma vaga pra transferência e tem mais gente querendo. -- não tinha coragem de assumir que escrevia um conto depois que terminava de estudar
--Olha, não vá ficar como esses jovens que têm por aí! A galerinha passa o dia no computador, não pratica exercícios físicos, não faz nada útil e vive uma vida toda virtual. Isso é um verdadeiro crime contra si mesmo! Não é à toa que os jovens têm a saúde toda ferrada: comem mal, são sedentários, só lêem besteira, fumam, bebem... Tenho medo do futuro dessa geração perdida que está se formando! E quando digo perdida não é por moralismo, mas falo como profissional de saúde.
--Eu não fumo, não bebo, tenho me alimentado bem e não fico lendo bobagens. Tô nadando, correndo atrás do prejuízo na vida profissional, então não tem o que dizer de mim! -- terminou de montar uma parte -- Pronto, agora falta pouco... -- sorriu
--É, você evoluiu muito... Fico feliz. Mas não se torne uma taradinha virtual, por favor... -- pausou -- Você agora tem que cuidar mais da sua vida social. Tô sabendo que é amiga da Fátima, isso é bom, mas também deveria deixar que outras pessoas se tornassem suas amigas. E devia namorar... Já pensou nisso?
--Ai não, Flávia, não começa com essa coisa de se meter nesse compartimento da minha vida que eu não gosto! -- respondeu de cara feia -- “Eu aqui cheia de dúvidas e ela vem me falar de namoro!” -- pensou
--Tudo bem, esquece... -- pausou -- Escute, que acha de usar uma perna mecânica, assim como eu? -- olhou bem para ela
--Ah, eu... -- olhou para Flávia -- Nunca tinha pensado nisso...
--Não gostaria?
--Claro! Mas... não deve ser fácil, né? Ainda mais considerando esse pequeno cotoco de coxa que me sobrou!
--Pra que você tem fisioterapeuta, loura Belzebu? -- deu um tapinha na cabeça da outra
--E deve ser caro também...
--Eu vou te ajudar a buscar as informações que precisa! Converse com tua mãe e com teu tio. Quanto a grana, há de pintar uma solução. Não é barato mas não é nada impagável!
Camille terminou de montar as peças e ficou pensando nas possibilidades. “Já pensou começar as aulas e chegar na faculdade andando? Sem muletas ou cadeira?” -- sorriu -- “Eu iria me sentir normal de novo...”
***
Gisele chegava em casa acompanhada por um homem. Beijaram-se e ela entrou sozinha. Ele foi embora.
--Outro, menina? -- Maria de Lourdes perguntou chateada
--Ai, que susto! -- pôs a mão sobre o peito -- Não sabia que estava aí de prontidão me esperando! -- colocou a bolsa em cima da poltrona
--E não estava. Assisti a um filme que terminou agora. -- desligou a TV
--Sei... -- fez um bico
--O que quer da vida, hein, Gisele? -- levantou-se do sofá -- Você tem um caso com aquele canalha casado, sai com outros homens... O que quer? -- olhou para a neta
--Já tivemos essa conversa e eu não vou mais tocar nesse assunto, vó! -- deu-lhe as costas -- Cuide da sua vida que eu cuido da minha!
--Ele ligou pra cá várias vezes. -- falou alto
--Anselmo? O que disse a ele?
--Que não sabia de você. Ele reclamou que seu celular estava desligado...
--Deixe ele sofrendo angustiado... Homem gosta disso! De ser esnobado, pisado, chifrado... -- riu -- E os outros são uns vagabundos metidos a garanhão que eu uso pra me divertir!
--Pior que ela parece ter razão... -- resmungou para si mesma -- Vou é dormir! -- foi para seu quarto chateada
--Vó, assim não dá! -- Gisele foi atrás da avó revoltada -- Até hoje não fez a bainha da minha calça? -- estendeu a calça para a senhora
--E nem vou fazer a essa hora da noite! Eu esqueci, oras!
--Você é uma inútil mesmo! -- voltou para o próprio quarto com raiva
--Não é assim que se fala com a própria avó! Você deveria ter mais respeito! -- gritou magoada
--Eu não vejo a hora de ir pros Estados Unidos, viu? Aí me livro de todos vocês!
Maria fechou a porta de seu quarto. Não queria mais ouvir.
Sentou-se na cama e ficou pensando na vida. Queria muito encontrar algo para fazer que lhe ajudasse a se sentir menos infeliz. Queria se sentir amada, valorizada, respeitada.
“É muito difícil envelhecer... você vira um bagulho inconveniente que as pessoas ficam doidas pra jogar fora...” -- pensou com tristeza
***
A bailarina chegava em casa após voltar da faculdade.
--Isabela, nós temos que conversar! -- Ana falou seriamente. Estava sentada na poltrona
--Nossa, mãe! -- exclamou surpresa -- Boa noite! -- respondeu desconfiada
--Sente aqui e me explique isso! -- jogou um talão de cheques sobre a mesa
Isabela sentou-se e pegou o talão. --Ué? Quer que eu explique os gastos do papai? -- olhou para a mãe sem entender
--Leia o canhoto do último cheque que ele passou! -- apontou para o talão
A bailarina fez isso e constatou que o pai havia gasto uma boa soma de dinheiro com algo que ele não discriminou no canhoto. -- É um valor alto... -- respondeu largando o talão sobre a mesa
--E eu me lembrei de uma conversinha ácida entre vocês um dia desses. -- fez uma voz mais fina -- “Imagina que uma outra amiga minha GANHOU um Citroên C5 0km, acredita? Foi o namorado que deu...” -- olhou bem para a filha -- Você falava de seu pai e da amante, não é? Ele já sabe de você e você sabe que ele deu um carro novo e caro pra amante, não é, Isabela? -- perguntou furiosa
A ruiva virou o rosto para o lado, respirou fundo e olhou para a mãe de novo. -- É isso mesmo! Eu não disse nada porque achei que seria somente mais sofrimento pra você...
--Como soube disso?? -- deu um soco na mesa
--Calma, mãe! -- pediu -- Lembra quando fui pra Saquarema com Ed? Papai estava lá com a amante. Estacionou o carro do lado do nosso e o quarto dele era do lado do nosso, mas eu só soube disso na hora de ir embora porque demos de cara um com o outro. -- pausou -- Foi uma discussão horrível! Ele me destratou, eu fui grossa com ele... Não me peça pra entrar em detalhes sobre isso porque não vou fazê-lo!
Ana se levantou e circulou pensativa pela sala. -- Em vinte e três anos de casamento ele nunca nem tencionou em me dar um carro... E sabendo que você estuda de noite nunca se incomodou em saber como voltaria pra casa tão tarde, saindo da Ilha do Fundão! -- continuava circulando -- Tenho tanta raiva dele! Esses malditos homens arrumam amantes e são mais legais com elas do que com a família que têm. -- pausou -- Maldito! Maldito! -- berrou
--Mãe, por favor! -- Isa correu até ela e a abraçou -- Não faça isso com você mesma! -- olhou para ela -- Deixe dessa bobagem de não querer ser a separada da família e peça o divórcio! Não precisa passar por isso! Papai não é companheiro, não tem consideração! Ele é um homem vazio que quer fugir da velhice e do fantasma da impotência se enganando com uma mulher quase da minha idade!
--Como ela é? -- desvencilhou-se da filha e perguntou curiosa -- É bonita, gostosona, desse tipo funkeira poposuda?
--Não... ela é feia e sem graça. Só é jovem. -- mentiu
--Tomara que ponha muito chifre nele, tomara! Desgraçado, vagabundo! -- gritou de novo
--Mãe, não vá pra cama com ele! Desculpe dizer isso, mas não vá porque se arrisca a pegar uma doença!
--Seu pai e eu não fazemos amor há três anos, Isa... -- respondeu triste
--Nossa! -- olhou para ela surpresa -- Ai, mãe, eu não sei como você tolera um marido desses há tanto tempo!
--E eu não vou pedir divórcio droga nenhuma! Acha que vou abrir mão de meus direitos assim tão facilmente? Ah, não mesmo! Não vou ficar em audiências intermináveis mendigando uma pensãozinha pra seu pai. E vou morar aonde? No subúrbio? E enquanto isso ele fica aqui com a amante? Ah, não... -- cruzou os braços e balançou a cabeça
Isa olhou para a mãe penalizada. -- Sinto muito que pense assim... mas, a vida é sua. -- preparava-se para ir para seu quarto
--Fique parada aí, mocinha, temos que conversar sobre você agora! -- Ana afirmou autoritária
--Sobre mim?? -- perguntou surpresa -- E o que é?
--Você tá fazendo tudo errado! Vai acabar ficando igual a mim! -- olhou bem para os olhos da bailarina -- Por que se deixou apaixonar pela mecânica? É nítido que hoje em dia você anda de quatro por ela! -- pôs as mãos na cintura
--Ah! -- sorriu -- Mãe, eu não escolhi isso! Seyyed é uma pessoa muito envolvente, bonita, transparente... Ela simplesmente me conquistou! -- passou as mãos nos cabelos -- E eu a amo de verdade.
--Ai, meu Deus... -- balançou a cabeça -- Já que aconteceu assim seja pelo menos inteligente e volte a assumir o controle desse relacionamento! Responda-me: vai pra cama com ela toda vez que ela quer?
--Ai, mãe... -- ficou sem graça -- Ah... -- virou-se de costas -- Ela sabe me seduzir e me deixar com vontade... -- sorriu
--Tem que aprender a fechar as pernas no momento certo e abri-las no momento exato! -- virou a filha de frente para si -- Tem que se fazer de difícil, fazer um doce... Não pode ficar correndo pra casa dela toda sexta-feira pra voltar pra sua casa na segunda! Pare com isso! Não vá pra lá amanhã!
--Mas mãe, se não for assim a gente quase não se vê! -- reclamou
--Deixe ela ficar com saudades, sua tola! Deixe-a ficar doida de tesão te querendo! Olha pra você! -- olhou a filha de cima a baixo -- Você é linda, interessante, inteligente, naturalmente cheia de classe! É magra mas não é sem graça! Você tem garbo, minha filha, elegância! Você é uma artista, uma futura estrela internacional! Não pode virar uma mera mulherzinha apaixonada! Acorda pra vida, garota!
--Mãe... -- levantou as mãos -- O que quer que eu faça? Não tô te entendendo! Quer que eu me faça de difícil, que eu veja Ed com uma freqüência menor do que a que temos... ou seja, você quer arruinar meu relacionamento!
--Nada disso! Você esnobava ela e veja no que deu: te pediu em casamento! -- pausou -- A amante de seu pai consegue muito mais dele do que você consegue de Seyyed, que tem mais dinheiro e é solteira! Esse carro que você dirige, por exemplo! Por que não está no seu nome?
--Mãe, isso é irrelevante!
--Irrelevante coisa nenhuma! Se vocês terminarem ela pode pegá-lo de volta. No seu nome, já era! Fica sendo seu! E a conta conjunta, ela abriu?
--Ah, pra que eu quero conta conjunta?
--Você ao menos tem que pedir a ela pra te dar um cartão de crédito adicional ao que ela tem! Não me surpreenderia se soubesse que Anselmo já fez isso pra talzinha dele! -- pausou -- E as viagens que vocês fazem? Sempre pra lugares próximos, coisa que qualquer um pode fazer! Vocês só ficam nessa de programas culturais, praia, essas viagens bobinhas... -- pegou a filha pelos braços e sacudiu -- Tem que pedir mais! Tem que viajar pra Europa, Estados Unidos, Austrália... Austrália tá na moda, sabia? Taiti, Tailândia, Bali... O Chile tem cada coisa muito chique! Argentina, Bariloche! Deixa de ser burra, minha filha!
--Mas, mãe! -- desvencilhou-se da mãe e andou para mais longe dela -- Seyyed é autônoma, ela não pode ficar muito tempo longe dos negócios! Além do mais eu tenho que me firmar nesse país e não posso me dar ao luxo de sumir em viagens longas! Também é uma limitação minha não ficar viajando por aí sem rumo!
--Acontece que você já protagonizou um espetáculo em Manaus e vai dançar com Ana Fluminense! As coisas mudaram e você até hoje se comporta como se tivesse acabado de se formar!
--Mãe, eu tô no começo, fala como se fosse uma bailarina tarimbada!
--Por que você não ganhou um papel de relevo nesse espetáculo de agora? Por que?
--Porque tem gente mais experiente do que eu! -- respondeu enfática
--Você tem aprender a aparecer e roubar a cena, Isabela! Roube a cena! -- olhou nos olhos da filha -- Eu fico triste de ver como você é tola! Tola na carreira e tola com Seyyed!
--Roubar a cena! -- riu -- A vida não é como nos filmes, mãe, não funciona assim! E Ed ainda tem uma dívida pra saldar! Não posso ficar inventando gastos!
--Você não disse que apareceu um goiano podre de rico com um Porsche pra consertar? O homem não disse que paga o que for? Por que Seyyed não apronta logo esse carro? De repente pode pagar as dívidas com esse dinheiro e sair no lucro!
--Mas a esperança dela é essa, e pode acreditar que tem trabalhado dia e noite nesse carro! Só que não é fácil e nem rápido! Eu vi o estado em que se encontra, vai dar muita dor de cabeça mesmo!
--Humpf! -- respirou fundo -- Então espere ela pagar essa maldita dívida e quando isso acontecer não dê bobeira! Enquanto isso, faça o que eu falei. Seja difícil pra ela! -- franziu o cenho -- Além do mais tem outra coisa: seu casamento!
--O que tem meu casamento?
--Eu não acredito que vai se mudar pro subúrbio!
--Ai, mãe, ainda com esse papo de subúrbio? Parece até Priscila, viu?
--Porque sua amiga tem visão, assim como eu. Você se apaixonou e uma pessoa apaixonada é mais burra que não sei o que! -- segurou os ombros da filha -- Você é uma artista, minha filha! Logo vai ficar famosa! E vai morar no Meyer? Pelo amor de Deus!
--Mãe, a casa de Seyyed fica lá! A gente vai morar aonde? -- libertou-se da mãe que a apertava com muita força
--Você quer ir morar naquele bairro, sua doida? Pensa, Isa, pensa! O que tem lá? Ed mora naquela ruazinha sem graça. Pode ser um casarão, mas o que adianta? É no subúrbio! O que tem de bom no Meyer? Aquele comércio besta da Dias da Cruz, aquelas galerias de gente pobre, uma estação de trem que é um horror e um punhado de ônibus abarrotados de gente! Já pensou em sair de lá todo dia pra ensaiar e voltar pra lá de noite da faculdade? Só o tempo que vai perder no trânsito... Isso é burrice! -- falava alto
--Mãe a vizinhança tá ouvindo isso! -- Isa falou envergonhada
--Quer morar na casa em que ela viveu com a japonesa doida? Casa que tá impregnada daquela mulher por toda parte? -- cruzou os braços. Isa não soube o que responder -- Seyyed tem dinheiro! Não seja burra! Mande ela comprar um apartamento aqui na zona sul e peça pra que o coloque no seu nome!
--Mas eu não tenho coragem de pedir isso! -- arregalou os olhos
--Então pelo menos diga que quer morar aqui na zona sul e mande ela comprar um bom apartamento!
--Mas ela não vai querer! Ela tem muita comodidade, mora onde trabalha e mora com conforto. Eu mesma acho que lá é legal!
--E é só o conforto dela que importa, não o seu? Ela não pode se deslocar daqui pro Meyer pra trabalhar e você pode ficar rodando pela cidade inteira pra resolver seus problemas? Francamente, Isa! Se ela não quiser morar por estas bandas você não casa!
--Mas eu quero casar!
--Faça jogo duro, filha! -- gritou -- Ela não precisa saber que você tá doida pra casar! Seja inteligente! Não permita que aconteça com você o que aconteceu comigo!
--Seyyed não é o papai!
--Anselmo não era assim! -- respondeu aos berros e se calou -- Houve um tempo em que ele também babava por mim e me olhava do jeito como Seyyed te olha. Só que esse tempo acabou! -- esfregou as mãos nos olhos
Isa ficou calada pensando nas coisas que ouviu da mãe.
--Eu ando muito preocupada com você! Nunca mais nem falou em ir pro exterior! Nunca mais fez uma audição...
--Eu mudei meus planos temporariamente. Ainda quero passar um tempo fora, mas não por agora... -- respondeu pensativa
--Filha... -- andava pela sala -- Uma coisa que eu nunca entendi. Por que não ficou estudando na França? Tinha tudo pra dar certo! Lembro da empolgação daquela Beatrice com você!
--Eu falei porque...
--Mas agora eu quero a verdade! -- olhou firme nos olhos da ruiva -- Eu pensei muito naquilo e cheguei à conclusão que você mentiu pra nós naquela época!
Isa respirou fundo e confessou. -- Beatrice era lésbica, mãe. Ela queria ter um caso comigo e como eu não quis...
--E por que não quis?
--Mãe?! -- perguntou em choque -- Não tinha condições, pelo amor de Deus! -- revirou os olhos
--Você é romântica demais... -- balançou a cabeça -- No amor e na guerra vale tudo, minha criança! E trabalho é guerra! Todo mundo quer crescer e só os fortes sobrevivem! Não há nada de mais em... aturar certas coisas por um bem maior. Se você fosse hetero eu não digo nada, mas uma vez que é lésbica podia ter tentado com a francesa...
--Não acredito que está me dizendo isso! -- respondeu ofendida -- Eu não sou prostituta!!!
--Eu não disse que era! -- pausou -- Filha, já lhe disse o que penso que deveria ter dito. Espero que ouça os conselhos que te dei. Quem vive nessa de tudo por amor, só se ferra! Eu abri mão de muita coisa por Anselmo e veja no deu: traída e humilhada!
--Eu... vou tomar um banho porque essa conversa está me fazendo mal... -- olhou para a mãe -- Com licença! -- foi para o quarto
--Ai, menina... se eu fosse você tirava tudo que pudesse dessa Seyyed e depois me mandava pra dançar na Europa... -- disse para si mesma -- Ela é muito ingênua... -- suspirou -- Exatamente como eu na idade dela...
***
Camille e a mãe estavam na casa de Fátima. As duas mulheres mais velhas se enveredaram a falar de costura e Jurema estava mostrando roupas que gostaria que Mariângela fizesse. Fátima e a loura conversavam no quarto. A nadadora estava deitada.
--Parece que nossas mães têm interesses em comum. Mamãe sempre quis encontrar uma costureira das boas, coisa rara nos dias de hoje, e sua mãe quer encomendas. -- sorriu
--Minha mãe é das melhores costureiras que existem por aí! -- respondeu orgulhosa -- Pena que nenhum estilista famoso tenha descoberto seu talento!
Fátima buscou uma das mãos de Camille e segurou carinhosamente. -- Fico feliz que tenham vindo me visitar... -- disse sorridente
--Sua mãe diz que essa casa não pára com tanta gente que vem!
--Mas sua visita é especial... a mais desejada com toda certeza!
Camille ficou sem graça e recolheu a mão que a outra segurava. -- Então você se recupera bem? -- perguntou para mudar de assunto -- Já descobriu se poderá continuar a nadar como antes?
--Não sei e é cedo pra dizer qualquer coisa. Vamos ver. -- sorriu -- “Ela está tão distante...” -- pensou
--É, vamos ver... -- a loura repetiu pensativa
--O que há com você, pequena? Parece triste...
--Tenho uma coisa pra lhe dizer.
--Estou ouvindo. -- respondeu tensa
--Eu... não vou mais procurar por você. E nem quero que me procure...
Fátima permaneceu calada e depois de um tempo perguntou: -- Por que?
--Eu não sou lésbica! -- respondeu baixo -- Não quero ser... Você me confunde...
--Camille, não seja tão radical! Nós podemos...
--Não! -- interrompeu-a -- Eu não quero discutir sobre isso, Fátima! Já pensei e repensei nesse assunto e não dá pra mim! Decisão tomada!
--Tudo bem... -- suspirou
--Eu queria te ver, saber se estava tudo bem... mas estamos nos despedindo aqui. E agora. -- lutava para que sua voz não evidenciasse a dor que sentia
--Sentirei saudades... e não vou esquecer daquele beijo. Foi muito especial... -- falava baixo
--Também não vou... -- pegou as muletas e se levantou -- Tudo de bom pra você, Fátima. Fique... com Deus. -- abaixou-se com dificuldade e beijou-lhe a testa
--Deixe-me vê-la pela última vez? -- pediu com tristeza
Camille sentou-se de novo e fechou os olhos. A nadadora levou uma das mãos ao rosto da jovem e o tocou com muito carinho. Ela parecia querer memorizar cada traço de sua fisionomia. Depois de alguns segundos recolheu a mão. A loura levantou-se novamente e saiu em silêncio.
--Vá com Deus, menina! -- Fátima disse em voz mais alta.
Mariângela foi até o quarto se despedir dela e a nadadora pôde ouvir quando as duas partiram. Virou o rosto para o lado, fechou os olhos e chorou.
Ao chegar em casa, Camille concluiu seu conto tomada pela tristeza daquela despedida. Embora as circunstâncias fossem bastante diferentes, lembrou-se do momento em que o pai foi esfaqueado e de quando despertou no hospital e constatou que não tinha uma perna. Perdas e as sensações que elas trazem... Fátima seria mais uma perda e um segredo guardado na intimidade do seu mundo interior.
A jovem queria muito falar, desabafar. Queria gritar e extravasar a dor que tomava seu peito, mas preferiu o silêncio. Ele sempre lhe parecia mais seguro.
“Muitas coisas melhor se diz calado, pois o silêncio não tem fisionomia, mas palavras, sim, muitas faces.”11
***
Juliana estava saindo do hospital por volta das 8:00h. Quando se preparava para entrar em seu carro foi abordada por homem que apareceu repentinamente e encostou o cano de um revólver na sua cintura.
--Entra nesse carro bem quietinha e passa pro banco do carona! -- sussurrou assustadoramente em seu ouvido
A enfermeira sentiu-se congelar e fez conforme lhe era ordenado. Outro homem apareceu e sentou-se no banco de trás.
--Sem gracinha porque meu berro tá apontando pra tuas costas! -- anunciou. A enfermeira podia sentir a pressão do metal imprensando o encosto do assento em suas costas
--Gente, eu não tenho dinheiro... -- respondeu assustada
--E quem disse que é dinheiro que a gente quer? -- o bandido ligou o carro e os dois riram. Saíram do estacionamento do hospital
“Meu Deus, me ajude a me manter equilibrada e saber o que fazer! Por favor, me livre do mal que estes homens querem me fazer!” -- orava de olhos fechados
--Tá com sono, belezinha? -- o motorista perguntou com deboche. Ela nada respondeu, mas olhou para ele de relance e reconheceu em seu cordão o símbolo que Suzana andara pesquisando.
--Tá olhando pro meu cumpadi por causa de que, sapata? -- o homem sentado atrás deu um tapa na cabeça dela -- Não encara a gente, não, piranha!
Juliana ficou furiosa mas teve que se conter. Respirou fundo e novamente entrou em oração.
O motorista nitidamente rodava, talvez para confundi-la, porém decidiu-se por tomar a rua Bento Ribeiro. Pareciam estar indo para a zona portuária.
“Meu Deus, por favor!!” -- lembrou-se que Patrícia fora encontrada naquela região -- "Por favor, me salve, eu Lhe imploro!” -- lágrimas rolaram-lhe involuntariamente
--Antes de fazer o que tem que fazer, me deixa curtir com essa gostosinha aqui. Esculacha ela antes da diversão, não... -- o homem sentado atrás passava uma das mãos no seio dela. Juliana pôde sentir que o revólver não apontava mais para suas costas
--Relaxa que vai ter diversão pra todo mundo! -- o motorista respondeu olhando para o comparsa pelo retrovisor
Aproveitando esse momento de distração da parte de ambos, a japonesa pegou o volante do carro e mudou bruscamente o trajeto deles, entrando na rua Senador Pompeu. Daí aconteceu o mais inesperado: um motoboy imprudente vinha correndo demais na contramão e se chocou contra o carro da enfermeira. O rapaz foi projetado a metros de distância e o carro rodopiou na pista, batendo em dois carros e por fim em um ônibus. Pessoas gritavam e um tumulto se estabeleceu.
Devido ao movimento brusco no momento em que mudaram de trajetória, o bandido sentado na parte de trás do carro foi lançado para as costas do motorista e com isso derrubou o revólver no assoalho do veículo. A colisão com o ônibus se deu justo pelo lado esquerdo fazendo com que os dois homens ficassem presos entre as ferragens.
Juliana abriu a janela do carro, tirou o cinto e tentou sair, sendo ajudada por dois homens.
--Meu Deus, o que aconteceu aqui? -- um deles perguntou -- Seus amigos, meu Pai do céu... Chamem uma ambulância! -- gritava para as pessoas ao seu redor
--Não são meus amigos... -- ela respondeu tentando se recuperar -- Eu tava sendo seqüestrada... -- sentiu uma dor na altura do ombro e levou a mão até ele
--Nossa, mas você... -- o outro homem olhava para ela atentamente -- Não sofreu um arranhão sequer! -- exclamou surpreso
A japonesa se lançou no chão agradecendo a Deus de joelhos. “Novamente, o Senhor me fez nascer de novo...” -- chorava de emoção
***
Juliana foi levada para o Silva Avelar apenas para ser examinada e do hospital ligou para Suzana, que veio correndo. O homem que dirigia seu carro morreu no momento do impacto com a moto, o outro bandido estava muito mal no hospital e o motoqueiro se machucou bastante mas não corria risco. O que chamou a atenção da delegada foi o cordão que o cadáver usava, pois era exatamente o símbolo que Tatiana havia lhe desenhado. Decidiu investigar detalhes sobre aquele sujeito aproveitando-se do fato de que o mesmo portava documentos nitidamente falsos. A japonesa prestou queixa na delegacia e ficou um tanto abalada. Em pouco tempo Olga estava lá.
--Filha, eu vim correndo assim que soube! -- abraçou-se com a enfermeira -- Graças a Deus que nada de mau lhe aconteceu!
--Estou feliz em vê-la mas não deveria ter vindo... -- beijou-a com carinho. Não queria trazer problemas para Olga
--É lógico que eu viria, eu hein? Qual mãe não faria isso? -- perguntou indignada. A japonesa ficou toda prosa. Olhou para Suzana -- Olá querida. Como está? -- cumprimentou-a
--Foi um susto, viu? -- beijou a cabeça de Olga -- Eu liguei pra senhora porque ela precisa descansar! -- falou mais baixo -- Será que podia levá-la pra sua casa? Seria bom que passasse uns dias por lá.
--Claro! Podemos sair agora ou ela ainda tem que fazer algo mais por aqui?
--Podem ir sem problemas.
--O que vocês cochicham aí? -- a japonesa perguntou intrigada
--Você dorme lá em casa hoje, menina. Mariano também estará lá e daí seremos três pessoas. Pode ficar uns dias conosco.
--Dona Olga, eu não quero lhe dar trabalho de novo, por favor... -- protestou. Não queria ser inconveniente -- E dessa vez não me machuquei. Não foi como quando fui atropelada.
--Pois foi até pior! Foi vítima de violência! -- Olga respondeu -- Precisa de apoio e carinho!
--Aceite Juliana! -- Suzana pediu -- Por favor! Nós vamos conversar melhor sobre isso, mas por agora simplesmente aceite.
A enfermeira respirou fundo e argumentou: -- O ruim é que amanhã vou trabalhar e minhas coisas estão todas lá em casa...
--Por que não falta? -- a delegada perguntou
--Tem gente contando comigo, Suzana, não dá! E faltar pra que? Pra ficar ociosa e com um monte de minhocas na cabeça? Isso não!
--Façamos assim: vamos pra sua casa, pegamos algumas coisas e você vem comigo. Moramos no mesmo bairro, não será nada difícil.
--Concordo com a senhora. Posso mandar uns homens escoltarem as duas pra garantir que nada de mau vai acontecer.
--Mas por que tudo isso, Suzana? Me diz, eu quero entender! Não se trata apenas de deixar passar o trauma de hoje. O que está acontecendo? Você estudava o símbolo no cordão daquele homem e eles me levavam pra onde Patrícia foi encontrada. Isso tem a ver com o assassinato dela, não é? -- perguntou aflita
A delegada pensou antes de responder mas confessou: -- Com certeza isso se refere ao caso de Patrícia Feitosa e eu não a quero sozinha em casa. Lá em casa também não, porque eu sou um alvo. Só que sei me virar... -- foi até ela e disse bem baixinho -- Eu disse que mais cedo ou mais tarde haveriam as conseqüências de se ligar a alguém como eu... já está acontecendo!
--E eu não me arrependo de nada! -- olhou firmemente para ela -- Se é assim, -- olhou para Olga -- eu não devo ir pra sua casa, porque automaticamente envolverei mais gente nessa perseguição.
--Juliana! -- Olga protestou
--Gente, vou passar o tempo todo fugindo a partir de agora? -- voltou a olhar para a delegada -- Se tô sendo perseguida porque você investiga o caso da Patrícia e tem colocado os canalhas na cadeia, não seria prudente envolver mais gente inocente nessa história!
--Hoje ninguém fará coisa alguma porque o plano deles deu errado. Vão dar um tempo, eu sei... Gostaria que dormisse hoje e mais um ou dois dias na casa de sua mãe porque está abalada e a solidão não combina bem com o medo e a tensão. -- pausou -- Prestem atenção a tudo! -- olhou alternadamente para as duas -- Qualquer coisa estranha, me deixem saber.
--Por favor, Juliana, ouça o que ela te diz. Eu não tenho medo de você ficar lá. Não estamos colocando a cabeça a prêmio e confio em Deus! Maior que Ele ninguém é. Seja o bandido ou o psicopata que for!
A japonesa pensou e decidiu ceder. -- Eu vou ficar na sua casa por duas noites, mas depois volto pro meu apartamento. Também confio em Deus, dona Olga, mas não quero expor a senhora a nada de mau. Não sabe como fico grata pelo que faz por mim, mas aceite minhas condições, pois do contrário não me sentiria nada bem. -- Olga balançou a cabeça positivamente. Olhou para Suzana -- Eu vou pegar uns plantões noturnos quando sair da casa dela. No hospital, que vive sempre cheio de gente, eu me sinto segura sem colocar ninguém em risco.
--Mas foi exatamente lá que te pegaram, mulher! -- a delegada protestou
--Na garagem! De agora em diante eu nunca mais irei pra lá sozinha. Além do mais, até a seguradora resolver tudo ficarei sem carro mesmo... -- deu de ombros
--Tudo bem, faça assim. -- Suzana concordou contrariada
--Vamos? -- olhou para Olga
--Agora! -- estendeu a mão para Juliana e as duas saíram de mãos dadas
--Juliana é muito mulher! -- a morena disse para si mesma com orgulho -- Ai de quem faça mal a ela! -- deu um soco na mesa
***
Era noite e Seyyed estava na casa da mãe. As duas conversavam com Mariano e Juliana.
--Deveriam ter me dito sobre o que aconteceu! -- Ed reclamou -- A coisa toda se desenrola ontem e eu só sei agora! Ouvi notícias no rádio mas nunca imaginava que a mulher seria justamente Juliana!
--Se eu tivesse dito ontem você teria vindo pra cá tarde da noite. Não, foi melhor assim. -- Olga esfregou a mão na perna da filha -- E quando voltar pra casa, preste muita atenção! Você mora sozinha e em um lugar cheio de carros!
--Muito cuidado mesmo, Ed! E bandido tá sempre de olho em moto! -- Mariano advertiu
--Relaxem, eu tô sempre ligada! -- olhou para Juliana -- E você? Como está? -- perguntou solícita
--Pensei que teria algum princípio de síndrome do pânico ou coisa do gênero mas graças a Deus não tô me sentindo apreensiva. Meu medo se converteu em revolta, sabe? Em muita revolta e ódio! Mas, você conhece a mãe que tem... Tenho sido bastante tranqüilizada com bons fluídos. -- sorriu para Olga que lhe retribuiu
--Vamos falar de assuntos melhores! Chega de pensar nessa violência urbana! -- Mariano propôs -- E quanto àquele Porsche que te toma tanto tempo, Ed? Vai conseguir devolvê-lo tinindo ao dono? -- sorriu
--Do que estão falando? -- Juliana perguntou -- Carro antigo, Ed?
--Um fazendeiro goiano ricaço me apareceu na oficina pedindo pra que a gente restaurasse um Porsche 550 Spyder, de 1955, que foi dirigido simplesmente por James Dean! O carro é avaliado pela bagatela de cem milhões de dólares. Ou melhor, é mais caro que isso!
--Gente! -- a japonesa arregalou os olhos -- Até quem tem olhinho puxado abre os olhos ouvindo uma coisa dessas! -- riu
--Pois é! O filho do coroa detonou o carro e agora tá difícil... Tem recursos que eu preciso e que não temos no Brasil. Acho que vou ter que ir pros Estados Unidos.
--Sério? -- Mariano perguntou surpreso -- E você tem visto?
--Ela tem. -- Olga respondeu
--Você fez um curso em Dallas, que eu lembro. -- a japonesa comentou -- Vai procurar o pessoal de lá?
--Na verdade eu penso em procurar a irmã do Aldrey Johannes. Esse cara, que era muito fera, era o mecânico do seu Marciano.
--O nome do coroa é Marciano? -- a enfermeira riu -- Realmente, com tanto dinheiro pra gastar é um homem do outro mundo!
--Por que pensa em procurar a irmã de Aldrey? -- Olga perguntou -- Ela assumiu os negócios dele?
--Na verdade ela vendeu a oficina dele pros sócios, mas seu Marciano disse que não gostou dos caras. Além do mais parece que ela também ficou com algumas coisas pra si, dentro de um galpão que ele mantinha perto de casa. Tenho esperança de poder encontrar algo interessante lá com ela.
--E o que te faz pensar que ela vai te dar abertura pra isso? -- Mariano perguntou
--Vou tentar. E se der errado posso passar em Dallas e ver o que consigo com os conhecidos de lá.
--Onde essa mulher mora afinal? -- Olga perguntou
--Em Houston, Texas.
--Ah, então eu vou fazer uma lista das coisas que você vai trazer pra mim! -- brincou -- Dizem que em Houston vende-se de tudo e mais um pouco!
--Realmente, Juliana... -- Ed olhou sorrindo para ela -- Você não tem nenhum vestígio de síndrome do pânico. Eu é que vou ficar com essa doença depois de receber sua listinha...
***
Isa terminou sua aula de balé para adultos e arrumava suas coisas enquanto conversava com a última aluna que restou no salão. De repente percebeu Seyyed encostada na porta. Estava de braços cruzados olhando para ela.
--Ih, professora, acho que vem aí aluna nova! -- a aluna falou antes de sair
A ruiva pegou suas coisas e caminhou até a morena. -- Oi... -- sorriu
--Olá. Eu queria notícias sobre Isabela Guedes. Sabe alguma coisa sobre ela? -- fingia seriedade, mas estava chateada. Pegou as bolsas das mãos da ruiva
--Ah... -- sorriu -- Dizem que ela dá aula até essa hora, vai almoçar, depois ensaia e daí vai para faculdade e fica lá até quase às dez da noite.
--É, eu sei que ela rala pra caramba, mas é que ultimamente tem sido muito difícil falar com ela. E eu sou namorada da garota, sabe como é! Fico com saudades...
--Hum... -- fez beicinho e beijou-lhe o rosto -- Também sinto, meu amor. -- sorriu -- Almoça comigo?
--Tem certeza que sua agenda tá livre pra um almoço comigo agora?
--Boba! -- deu-lhe um tapinha no braço
***
--Aconteceu alguma coisa, Isa? -- Ed perguntou enquanto almoçavam -- Por que tá me dando esse gelo?
--Não tô, amor! -- mentiu. Estava fazendo o jogo que a mãe lhe recomendou -- É que a gente começou a fazer uma hora de aula extra, que é nosso preparo técnico, e depois umas três horas de trabalho diário. Todo esse ensaio é bem necessário, porque primeiro a gente aprende a coreografia e então precisamos trabalhá-la pra que ela pareça natural e as pessoas acreditem realmente na história que vamos contar dançando.
--E aí não sobra nem um tempinho pra mim? -- perguntou chateada
--Não é isso, amor... a estréia é em maio, você sabe. Abril já chegou, daqui a pouco o mês termina... o tempo voa e quando mais próximo do espetáculo fica pior!
--Tudo bem... -- respondeu sem argumentar -- Só queria te dizer que no domingo viajo pros Estados Unidos. Vou tentar conseguir recursos pra consertar o carro do seu Marciano em Houston. Fico lá por uma semana.
--Nossa! -- estava surpresa -- Eu pensava em passar a Páscoa com você!
--Meu domingo de Páscoa não será totalmente passado dentro de um avião. O vôo é noturno. Vai ter um almoço na casa do Mariano.
--E você não combina coisa alguma comigo! -- exclamou revoltada -- E me avisa da viagem assim? Nas vésperas?
--Está reclamando? -- perguntou olhando bem para ela -- Tô há duas semanas sem notícias suas, e se não fosse otária o suficiente pra vir aqui atrás de você talvez pudesse ir e voltar e você nem notaria qualquer diferença! -- desabafou
--Não é nada disso! -- ficou constrangida -- Já lhe expliquei o que tá acontecendo.
--Não é possível que você não possa nem me telefonar ou pelo menos me atender quando eu ligo! Isa, eu sou dona de oficina e tenho tempo de te procurar, como é que você não consegue?? -- pausou -- Você se limitou a mandar torpedinhos evasivos e isso umas duas vezes! -- estava chateada
--Ah... -- não sabia o que fazer -- Será que posso passar o final de semana com você? -- olhou para ela esperançosa -- Posso me desculpar de um jeito bem especial... -- sorriu maliciosa
--Sempre pode ir lá pra casa, Isa, mas o lance é que você tem me esnobado... -- acabou de comer -- Eu te dou mole demais, só que isso vai mudar...
--O que quer dizer? -- perguntou preocupada -- Não queria te magoar... -- estava receosa -- Perdoe-me. -- esfregou o pé nas pernas dela por baixo da mesa -- Sabe que eu te amo, não sabe? -- sorriu
--Você gosta de jogar comigo, mas eu não sou mulher de joguinhos. -- olhou bem para ela -- Fique concentrada nos seus treinos e tudo mais. Quando eu voltar de viagem a gente conversa com calma. -- pausou -- Se você tiver tempo, é claro! -- estava sendo irônica
--Então não quer me ver no final de semana? -- perguntou tensa
--Eu acho que... -- abriu a carteira e tirou um dinheiro que colocou sobre a mesa -- não terei tempo! -- sorriu e se levantou -- Tenha um bom dia, Isa. -- foi embora
A ruiva permaneceu sentada e ficou olhando Seyyed ir embora. “Eu exagerei... Não deveria ter ficado tanto tempo longe... E o pior é que isso não foi nada fácil pra mim...” -- pensou -- “Ah, mas eu vou reverter isso...” -- sorriu -- “Eu sei te provocar, Seyyed Khazni... eu sei te provocar...”
***
O grupo ensaiava. Durante o solo das três bailarinas principais uma delas escorregou e caiu; seu tornozelo inchou imediatamente. As pessoas ficaram tensas buscando por socorro e a bailarina saiu conduzida por uma ambulância, sendo acompanhada por duas colegas.
Logo estava claro que aquela moça não teria condições de se apresentar na estréia do espetáculo e talvez durante toda a temporada. Os coreógrafos discutiam sobre possibilidades, já que estava muito em cima para escalar outra pessoa. Sem pensar, a ruiva se intromete nas conversas e anuncia: -- Eu posso assumir o lugar dela!
Todos olharam surpresos. Ana Fluminense perguntou contrariada: -- Como acha que pode fazer isso? A coreografia dela, a participação dela é totalmente diferente da sua!
--Eu conheço cada passo da coreografia dela. -- afirmou com firmeza -- Dê-me uma chance e provo isso!
--Então prove agora! -- Neyan, um dos coreógrafos, desafiou
--Agora? Mas assim? Gente, houve um lance extremamente desagradável aqui, estamos todos abalados... -- o outro coreógrafo protestou
--Eu aceito! -- Isa afirmou confiante
Todos ficaram atônitos até que Neyan respondeu: -- Por que estão todos com essas caras? O show tem que continuar! -- olhou para a ruiva -- Você diz que tem condições, então vai, ruiva. Prova o que tá dizendo!
A bailarina se concentrou, respirou fundo e começou a dançar, repetindo exatamente os passos que a colega executava antes de cair. Todos acompanharam atentamente até que Neyan interrompeu e disse: -- Precisa aprimorar alguns movimentos, mas por mim, o papel é seu! Não temos tempo pra inventar!
--Eu concordo! -- o outro coreógrafo apoiou -- E você, Ana?
A bailarina mais experiente olhou bem para Isa e disse: -- Vai ter que ensaiar agora até aos domingos! -- sorriu -- Está preparada pra responsabilidade?
--Não imagina o quanto! -- respondeu quase sem fôlego
A ruiva ficou radiante e no momento em que pôde ficar sozinha ligou para a mãe e disse: -- Mãe, aconteceu! Roubei a cena! -- sentia-se nas nuvens
***
Embora estivesse preso, Suzana conseguiu acesso a José e o pressionava mostrando a foto do homem que morreu dirigindo o carro de Juliana.
--Olha pra essa foto, cara! -- mostrou a imagem ao outro -- Confirma se esse homem é dos que você denunciou. Eu sei que ele, além de assassino, fazia parte da seita! -- estava jogando com ele
--Ele tava lá sim, é um dos dois filhos do velho como denunciei. Se não o pegou antes foi por pura incompetência da polícia! Não sei porque tá falando comigo como se ainda tivesse algo a esconder. Eu denunciei todo mundo e me ferrei sendo preso nessa cadeia imunda e cheia de gente da pior espécie! -- respondeu nervoso
--Queria o que? Achou que por denunciar o bando de amigos assassinos que você tem, o senhor fosse receber um tratamento diferenciado? Lugar de bandido é na cadeia mesmo! E agora pára de enrolar e fala da seita! -- falava com agressividade
--Não há qualquer seita na jogada...
--Ah, não? E esse cordão? -- apontou -- Eu sei que é o símbolo dessa seita de vocês! -- agarrou-o pelo colarinho -- Desembucha, vagabundo! -- afirmou entre dentes
--Eu, eu... -- estava nervoso -- Eu não tenho esse tipo de cordão e não é porque Afonso estava com isso...
--Vocês eram sete, só me faltam mais dois! O amigo desse canalha que morreu não era do bando, é só mais um bandidinho de rua... Eu quero os assassinos da garota... Principalmente o velho! Me diz mais coisas, solta mais detalhes pra eu pegar esses salafrários!!
--Delegada... -- o carcereiro interrompeu preocupado -- Não pode fazer isso!
Suzana soltou o homem que respirou aliviado. -- Você já tá ferrado, idiota! Mas se me ajudar eu posso arrumar um jeito de aliviar tua barra. -- jogava com ele -- Não tem nada a perder.
--Homens são assassinados na cadeia todos os dias, delegada... -- José tentava se recompor -- Claro que eu tenho o que perder...
--Você já falou demais e todo mundo sabe disso! Seus amiguinhos têm motivos de sobra pra arrumar um final trágico pra você aqui dentro e você está por sua conta. Se quiser cooperar, posso mexer meus pauzinhos... -- guardou a foto -- Vou te dar dois dias pra pensar. E olha, muita coisa acontece em 48 horas! -- deu as costas e preparou-se para sair
José olhou para o lado e viu o vulto da mulher de seus pesadelos parada de braços cruzados. Foi uma visão de relance, mas suficientemente assustadora.
--Eu digo! -- gritou -- Eu colaboro! -- Suzana virou-se de frente para ele -- Não sei o que aconteceu nessa tentativa de sequestro, porque eles não falham... Eu sei, pelo menos acho que sei, onde pode encontrar os outros dois: o velho e o segundo filho!
--E onde eu encontro essa família maldita? -- a delegada perguntou ameaçadora
--Não sei onde vivem, mas sei de dois lugares onde se reúnem pra suas cerimônias... Eles alternam entre um local e outro. -- pausou -- Tem razão, é uma seita sim, e somente Luis e eu não participamos dela. Entramos de gaiatos nessa história horrível!
--E quando as tais cerimônias acontecem?
--Nas noites de lua cheia...
***
Juliana estava no hospital em plantão noturno. Até agora ainda não tinha buscado outro lugar para trabalhar além do Silva Avelar e isso a incomodava.
“Eu me acostumei a trabalhar em um lugar só... ficar em vários lugares é tão ruim... você não vive...” -- respirou fundo -- “Mas eu não posso e nem quero depender de Seyyed a vida inteira... Pena que só o salário daqui é tão pouco...”
Era meia noite e ela andava pelo corredor. As enfermarias estavam quietas e os colegas plantonistas assistiam TV. De repente uma acompanhante de paciente aparece correndo e gritando: -- Minha mãe tá com falta de ar! -- agarrou-se ao jaleco de Juliana -- Não consegue falar, tá morrendo! -- estava desesperada
--Vamos até ela! -- correram
A senhora, de uns 70 anos, entrava em parada cardio respiratória.
--Chame a médica e as outras enfermeiras, vá! -- a japonesa ordenou e a mulher obedeceu. Juliana pegou uma máscara, colocando-a sobre nariz e boca da idosa, ligou o oxigênio e começou a fazer massagem cardíaca no peito da paciente
Uma enfermeira apareceu muito tempo depois. Vinha acompanhada por uma médica. A filha da paciente gritava como louca.
--Ela entrou em parada cardio respiratória e o quadro não está revertendo! -- Juliana falou
--Tragam o desfibrilador! -- a médica gritou
--Mas, não tem nenhum funcionando aqui! -- a outra enfermeira disse
--Eu sei onde tem um! -- Juliana se lembrou -- Continua com a massagem aqui que eu vou arrumar. -- a outra enfermeira assumiu o seu lugar
A médica ficou administrando o oxigênio.
Juliana correu até o telefone e ligou para a cardiologia. -- Anda, merd*, atende, praga! -- resmungava -- Alô? Jane! A gente precisa do desfibrilador! O aparelho de vocês funciona? -- pausou -- Tá, eu vou pegar aí! -- desligou e saiu correndo para dois andares acima
Jane estava parada com o aparelho nas mãos. --Aqui! -- estendeu-o para ela
--Valeu! -- pegou e voltou correndo
Chegando na enfermaria, a médica e a enfermeira ainda tentavam reanimar a paciente.
--Tá aqui! -- entregou o aparelho para a médica
--Coloca os eletrodos no tórax dela! -- ordenou à japonesa que assim o fez. A médica programou o equipamento -- Agora! -- uma descarga foi aplicada e o corpo da idosa estremeceu -- Agora! -- outra descarga
A filha da idosa não entendeu aquele procedimento e gritou revoltada: -- Vocês estão matando a minha mãe, suas malditas!
--Não é nada disso! -- a outra enfermeira gritou
--Calma! -- Juliana pediu -- Ela tá reanimando!
--Ela tá morrendo! -- a mulher empurrou a japonesa sem que esperasse, fazendo com que caísse na direção da paciente
Nesse momento a médica aplica um novo choque, a idosa abre os olhos e agarra Juliana pelo braço. A eletricidade foi transmitida à japonesa que desmaia subitamente caindo no chão.
***
Era sexta-feira. Isabela havia se arrumado impecavelmente para seduzir Seyyed. Decidiu que mataria as aulas na faculdade e iria procurar a mecânica logo depois dos ensaios e assim o fez.
Chegando lá, viu que Ed estava com a mãe, Renan e Mariano em uma espécie de festinha com os jovens especiais e mais algumas crianças de aparência humilde. Eles distribuíam ovinhos de Páscoa e brinquedinhos.
A ruiva parou o carro e ficou olhando para a namorada atentamente. “Ela é uma pessoa tão bonita, tão pura... Não, eu não posso perdê-la... Eu não quero perdê-la! Não acredito que um dia será como meu pai, porque duvido que algum dia ele tenha sido assim, do jeito que ela é.” -- pensou e sorriu -- Não vai ser bem do jeito como eu imaginava, mas... vamos lá! -- falou para si mesma e saiu do carro indo de encontro a morena
***
Ed e Isa estavam na cama.
--Ai, amor, assim, assim... -- arranhava as costas dela -- Ah, ah... -- fechou os olhos
--Ah, ah... -- Ed gemia
Isa sentiu que iria goz*r. -- Ah, ah, ah!! -- gritava de prazer -- Ai, ai... eu vou goz*r de novo, ai!!! -- cravou as unhas nas costas da mecânica
--Ah, ah... assim, vai, Isa...
--Ah... -- Isabela gem*u e respirou fundo -- Ai, amor, você acaba comigo... -- sorriu
Ed continuou a beijá-la e mordia seu pescoço devagar.
--Hum... -- a ruiva acariciava sua cabeça -- Não pára e nem sai de cima de mim... -- fechou os olhos novamente -- Eu gosto...
--Que é que você quer comigo, hein, garota? -- sussurrou no seu ouvido
--Você já me perguntou isso, meu amor... -- respondeu dengosa -- E eu disse que queria tudo que você quisesse... -- mordeu seu queixo
--Você joga comigo, Isa... -- beijou-a -- E eu não gosto desses joguinhos... -- beijou-a novamente
--Jogo não... -- deslizou os dedos sobre o rosto dela -- Eu ando apenas enrolada pra administrar meu tempo, só isso... -- sorriu
--Só isso? -- beijou os dedos dela -- Eu vou dar menos mole pra você... -- lambeu seu pescoço
--Hum... faz isso não, vai? -- segurou seu rosto e mordeu seu lábio inferior -- Eu te amo... -- lambeu seus lábios -- Me perdoa, vai, amor? -- beijou-a -- Eu te amo! -- beijou-a de novo -- Amo, amo... -- sorriu
--Você sabe que me deixa doida e se aproveita muito bem disso. -- saiu de cima dela e se levantou da cama
--Ah, volta aqui... -- pediu fazendo beicinho e esticando os braços -- Eu quero você aqui...
--Por hoje é só, Isa! -- foi para o banheiro -- “Eu sou uma idiota! Ela me sacaneia, chega tirando onda de boazinha, depois vem toda provocante e eu não resisto!” -- pensou -- “Você sempre se deixa levar pelo desejo, Seyyed! Aprenda a se controlar!” -- olhava-se diante do espelho
--Você não devia estar aqui... -- Isa veio por trás e a abraçou -- vamos pra cama, hum? -- beijou-lhe o ombro -- Tô com saudades... -- encostou o rosto no braço da namorada e olhou para ela pelo espelho -- Volta pra cama... tava tão bom com você em cima de mim... -- mordeu-lhe o ombro -- Eu ainda quero mais de você essa noite... -- falou sensualmente
Seyyed desvencilhou-se dela e virou-se de frente, encostando-se na pia. A bailarina envolveu seu pescoço com os braços e colou seu corpo no dela.
--Não tô mais a fim por hoje. -- olhava para a ruiva. Suas mãos estavam apoiadas no mármore da pia
--Hum, não acredito... -- fez beicinho e mordeu-lhe o queixo -- Eu sei quando você tá com fome... Aliás, o que essas mãos fazem longe de mim? -- pegou as duas mãos da morena e colocou-as sobre suas nádegas
--Isa... -- Ed resmungou
--Eu sei que você gosta... -- sorriu e envolveu-lhe o pescoço com os braços de novo -- Pára de ficar zangada, comigo, vai? Eu não sumo daquele jeito de novo, prometo! -- beijou-a
--Você gosta de me sacanear e eu não faço isso contigo!
--Ah, mas eu não faço nada disso com você! -- beijou-a -- Não acredito que não esteja com saudades... Por que não vem e se aproveita de mim? -- mordeu-lhe o pescoço e sussurrou no ouvido -- Eu quero você a noite toda... -- Ed ficou totalmente excitada --Vem? -- sorriu e se afastou caminhando sensualmente até a porta -- Eu nem tenho mais vergonha de ficar totalmente nua pra você... -- fez uma pose provocante encostada no portal
Seyyed desencostou da pia e veio caminhando lentamente em sua direção. Isa sorriu e mordeu o lábio inferior. A mecânica avançou sobre ela e beijou-a com desejo. A bailarina enroscou as pernas em sua cintura e foi levada para cama pela amante. As duas deitaram-se e começaram a se beijar e morder com ansiedade.
--Adoro sentir seu peso... -- deslizou uma perna ao longo das pernas da morena
De repente, ouve-se um toque de celular.
--É o seu... -- Ed comentou enquanto beijava os seios da namorada
--Ai, que droga... -- reclamou -- Ai... ai, assim tá gostoso... -- fechou os olhos
--Você... sempre... acha que... tá gostoso... -- respondeu entre lambidas, beijos e mordidinhas no seio da amada
E o celular continuava...
--Ai, amor, eu vou ter que atender essa praga! -- reclamou
Ed interrompeu o que fazia. -- Pode ir. -- sorriu
Isabela levantou-se e foi atender o telefone que estava dentro da bolsa. -- Alô?
--Garota, mas você é difícil de encontrar! -- era Neyan
--Ah. Oi, Neyan. Aconteceu alguma coisa? -- voltou para a cama e se deitou de bruços
--Neyan?! -- Ed perguntou rindo
--Sim. Nós estávamos conversando aqui e achamos por bem fazer um treinamento intensificado só com você pra garantir que vai trabalhar a coreografia perfeitamente durante o espetáculo. Seu treino de amanhã vai se estender pra bem depois do horário. Algum impeditivo?
--É... -- sentiu que Ed beijava sua panturrilha -- Não... -- sorriu
--Vamos ter ficar aqui até a noite.
--Ah! -- Ed beijava suas coxas -- Nossa, mas... -- a mecânica mordia seu corpo -- Gente... -- não conseguia pensar direito
--E vamos ter que treinar no domingo mas ainda não marcamos o horário.
--Pode ser... -- a morena seguia por suas costas e deitou o corpo sobre o dela -- ai, assim não dá... -- sentia as mãos da outra lhe provocando -- Ai...
--Isa, você tá prestando atenção? Só fica se lamentando e não diz coisa com coisa! -- ele reclamou
--Não é que... -- Ed mordia sua orelha -- eu tenho um... animal... de estimação... -- sentia as mãos da mecânica provocá-la -- Que fica aqui em cima de mim e não me deixa... nem pensar direito! Ai... -- sorriu
--Espanta esse bicho e presta atenção porque nossa conversa é profissional, mona!
--Eu vou... -- enfiou o celular entre as cobertas -- Quer parar, seu bicho safado! -- deu-lhe um tapinha. Ed imitou cachorro chorando -- Pára! -- riu e pegou o telefone de volta -- Já espantei! -- jogou um travesseiro na morena -- Espantei! -- riu -- Olha só, domingo é Páscoa então será que poderíamos ensaiar pela manhã? Eu acordo a hora que for!
Ed pegou o travesseiro e deitou a cabeça sobre ele ficando de barriga para cima. Cruzou os braços e prestou atenção na conversa da namorada.
--É que eu queria almoçar com a minha família... -- a jovem lamentou-se -- Ah, mas eu dou aulas às segundas, quartas e sextas. -- pausou -- Vamos explorar as terças e quintas? -- pausou -- Ah, então tá ótimo, Neyan!
--Neyan! -- Seyyed protestou de novo
--Tá, querido... -- sorriu -- Tchau. -- desligou
--O que houve, Isa? Quem é esse tal de Neyan? -- riu -- Que nome!
--Um dos dois coreógrafos do meu espetáculo. -- olhou para ela -- Amor, tem umas coisinhas que não te contei ainda! -- deitou-se sobre a namorada -- Sabia que por causa de um acidente que infelizmente tirou uma das principais bailarinas do espetáculo... -- beijou o queixo da morena -- eu vou assumir o lugar dela? -- sorriu
--Hã?! Uma das bailarinas se acidentou e você vai pegar o papel dela? Como sabia a coreografia dela? -- perguntou surpresa
--Eu prestava atenção em cada passo delas... -- sorriu -- Foi uma fatalidade, ela torceu o tornozelo, mas alguém tinha que assumir o papel e não dava tempo de chamar outra pessoa pra compor o grupo. Então eu me ofereci! -- beijou-a -- E fui aceita! Roubei a cena! -- sorriu
--Nossa! -- sorriu também -- Tô orgulhosa, então! -- beijou-a demoradamente. Línguas dançavam juntas sensualmente
--Ai... -- suspirou -- Você beija tão bem... -- mordeu o lábio inferior da morena
--Nós beijamos... -- acariciou seu rosto -- E me diz! Quem vai ficar no seu lugar?
--Ninguém. O meu antigo par fará um pequeno solo. -- beijou-a
--E aí, por causa disso, a carga de ensaios que você tem com Neyan e sua trupe vai aumentar, não é?
--É... -- brincou com o cordão da namorada -- Mas eu vou poder ir no almoço de Páscoa no domingo...
Seyyed riu. -- E eu te convidei, garota? -- estava provocando ela
--Ah, mas eu sou sua noiva e quero ir! -- protestou
--Você disse que queria ficar com a sua família... -- continuava provocando
--E menti, por acaso? Se vai se casar comigo, sua família também será a minha. -- respondeu fazendo biquinho
--Hum, que biquinho lindo! -- beijou-a várias vezes -- Claro que eu quero que você vá, meu amor! Tava só te provocando! -- sorriu
--Mas você não tinha me convidado mesmo... -- respondeu fazendo dengo
--Claro! Você não tava nem aí pra mim! -- acariciou seus cabelos
--Mentira... -- beijou-a -- Já lhe expliquei o que aconteceu. Amanhã, por exemplo... a gente nem vai poder se ver... A não ser que... eu dormisse aqui.
--Amanhã é o evento de Páscoa do grupo espírita. Ficarei o dia todo no centro. A que horas deve estar de volta?
--Por volta de umas onze...
--Caraca! Eu já devo estar em casa a essa hora. -- beijou-a -- Tudo bem, pode vir.
--Domingo eu ensaio pela manhã. Será que se chegar na casa do seu padrasto por volta das duas ainda haverá algo pra mim? -- perguntou dengosa
--Eu peço pro pessoal te esperar. Mas se passar desse horário não garanto que a galera vá segurar o apetite... -- sorriu
--Não vou passar, sou pontual. -- beijou-a -- Posso continuar usando seu carro? -- perguntou
--Pode.
--Olha só, eu fico pensando... Você tem dívidas e dá festa de Páscoa, banca almoço... você gasta demais, Ed! -- acariciou os ombros da morena
--O almoço foi dividido entre um monte de gente e a festinha de hoje... Poxa, proporcionar alegria a quem não tem quase nada e à pessoas especiais, criancinhas... isso nunca é gastar demais. No dia em que eu não puder mais fazer isso, aí estarei realmente falida!
--Você é muito generosa... Com todo mundo! Não quero que se aproveitem de você. -- beijou-a -- EU não quero me aproveitar de você...
--Ah que pena! -- mudou de posição rapidamente ficando sobre ela -- Porque eu estava contando com isso! -- começou a beijar seu pescoço
--Ai, amor... -- sorriu e fechou os olhos
***
Uma mesa enorme estava montada no quintal. Mariano havia armado uma cobertura com lona para proteger o espaço em caso de chuva. Ele e Mariângela preparavam a comida desde cedo. Camille ajudava com a louça.
--Não achei justo vocês fazerem a comida sozinhos. Aquele jantar pra família de Tatiana foi pra menos gente e dona Olga e a bailarina ajudaram a cozinhar! -- a loura reclamava
--Acontece que Olga fez aquele jantar! Isa e eu simplesmente ajudamos. -- olhou para a filha -- Dessa vez eu pedi pra que o almoço fosse aqui porque estou homenageando a Virgem e Seu Filho, que têm nos dado muitas coisas boas!
--E quando você for transferida e começar a estudar temos uma promessa pra pagar. -- Mariano complementou -- Esse almoço é apenas pra mostrar nossa gratidão.
--Humpf! Vocês têm cada uma... -- fez um bico
--Podia ter convidado sua amiga Fátima. À propósito, como vai ela?
--Ela vai bem, mãe. E tá comemorando com a família, que é enorme! -- mentiu. Não soube mais da nadadora
--Fábio disse que vem com a picape por causa das bebidas. Aonde a gente vai deixar o isopor dele, Mari? Não vai caber tudo na geladeira, não...
--Debaixo do meu pé de azaléia. Eu deixei aquele cantinho livre por via das dúvidas.
--Eu também achei super nada a ver esse núcleo sapatanesco que vocês convidaram, viu? Essa casa aqui vai virar um covil de sapatão como nunca se soube! Por que não chamaram um gay também pra variar?
--Camille do céu, será possível que você só reclama? -- Mariano ralhou -- Goste ou não você deve favor a Juliana e se ela tem uma namorada você tem que engolir! E Seyyed é filha de Olga, o que você esperava? Que ela não viesse? E que não quisesse trazer a namorada?
--Que por sinal está pedindo pra todo mundo esperar até às duas da tarde porque a belezinha tem que ensaiar... É uma estrela, aquela ali... Estrela de sapatanice!
--O que é ótimo, porque tem muita coisa pra fazer e dá tempo de terminar antes do povo chegar!
--Ah, mãe... você e o tio acham que ser sapatão é bonito! Eu não!
--Camille, cala a boca e trabalha! -- Mariano ordenou
--Ah, tio... isso é muito chato! Vai ter mais sapatão aqui do que mulher que gosta de homem! É muita sapatanice na minha vida, viu? Ô louco! Tem sapatão na TV, pelas ruas e agora até dentro da minha própria casa!
--Você se preocupa demais com a vida dos outros, menina! -- Mariano respondeu
--Pois é, e pelas minhas contas você está errada! Olga, você, Flávia, Tatiana e eu. Seyyed, Isabela, Juliana e Suzana. Cinco a quatro. -- Mariângela brincou -- E mais três homens.
--E chega de tanto homem, por favor! -- Mariano brincou também
--O mundo tá perdido... -- a jovem reclamou -- Já não se sabe mais quem é homem e quem é mulher nessa bodega!
--Camille, cala a boca e vai trabalhar! -- sua mãe ordenou
***
Estavam todos na casa de Camille, exceto Isabela. Era por volta de uma da tarde.
--Conta aí, Flávia! Fale dos preparativos pro mundial! -- Mariano pediu
--Ah, rapaz, fica quieto aí que você não sabe é nada! -- riu -- Tenho treinado horrores e mantive só alguns clientes mais cativos pra trabalhar. Senão eu não me dedico aos treinos! Quero chegar nesse mundial só dando soco certeiro! -- olhou para o namorado -- Ainda bem que tenho namorado rico pra me bancar. -- gargalhou
--A gente tem que incentivar o esporte, como não? -- Fábio brincou -- Além do mais eu sou o empresário dela!
--Ainda bem que manteve Camille na sua lista. -- Mariângela comentou -- Eu ficaria triste se você se afastasse de nós por muito tempo.
--Ah, essa maluquete é reclamona mas eu gosto dela. -- olhou para a loura -- A garotinha me diverte... Gosto de gente rebelde! E gosto da senhora também e do seu irmão bonitão. -- olhou para Olga -- Com todo respeito pelo patrimônio, viu?
--Ô Mariano, vamos ter um particular lá fora! -- Fábio deu um soco na mão fingindo estar com raiva
--Olha que existe a Lei Nacional do Idoso, me respeite, viu? -- ele brincou -- Tem autoridade aqui e você pode ir preso!
--Su, deixa de ser boba! Quer deixar eu te apresentar a Seyyed? -- Juliana cochichava com a delegada em outro espaço da casa -- Vai ter que almoçar na mesma mesa que ela, isso é ridículo!
--Ah, mas o que eu vou dizer a ela? -- perguntou contrariada -- Acabei de chegar e você já quer me colocar em furada?
--Que furada o que! Você vai dizer: “oi, tudo bem?” Essas coisas que todo mundo fala quando se conhece!
--Ah! -- revirou os olhos
Seyyed veio com uma bandeja servindo refrigerantes.
--Quando ela vier pra cá, eu vou apresentá-las! -- a japonesa afirmou
--Humpf! -- a delegada esfregou as mãos
Ed foi até elas com os dois últimos copos.
--Servido? -- ofereceu
--Obrigada! -- Juliana se serviu. Suzana pegou o copo sem emitir som -- Ed, deixa eu te apresentar. Essa é Suzana! -- sorriu
--Como vai, Suzana? -- sorriu e estendeu a mão para ela
A delegada apertou com força fazendo a mão da mecânica estalar. “Mania desse povo de querer quebrar meus ossinhos!” -- pensou -- Calma, mulher, assim você me quebra! -- pediu
A delegada soltou a mão. -- Pensei que uma mecânica fosse menos frouxa! -- afirmou desafiadora
--Frouxa?! -- Ed perguntou
--Ela tá brincando, não é amor? -- a japonesa discretamente beliscou a bunda da outra
--Ai, é! -- olhou para a enfermeira
--Bem, -- sacudiu a mão -- fique à vontade porque o pessoal aqui é gente fina! -- piscou para Juliana -- Qualquer coisa, fala com mamãe ou Mariano! -- saiu de perto delas
--Você tem o que na cabeça, Suzana? -- ralhou com ela -- Queria quebrar a mão dela por que?
--Eu não queria isso! Pensei que uma mulher com a profissão dela fosse mais forte. Fracote, eu hein?
--Mãe, a gente fez uns cálculos e Tati vai se formar no final do ano que vem. Aí quando chegar dezembro e eu for pra Goiânia, vou visitar um lugar que o pai dela disse que seria bom pra abrir a oficina nova! -- Renan disse empolgado
--Muito bom! Mas você e Seyyed têm que ver isso muito direitinho pra saber como fazer, quem contratar...
--Seyyed falou que depois que consertar o carro do seu Marciano e pagar as dívidas ela vai começar a ver isso comigo com mais calma! Pra senhora ver, até hoje não achamos quem ocupasse a vaga de Silvio!
--Deixa eu falar, vocês podiam aproveitar que esse Marciano é de Goiás e conquistar a freguesia dele! -- olhou para o namorado -- De minha parte, tenho me embrenhado pra conhecer gente da minha área por lá e arrumar emprego no momento certo! -- Tatiana disse
--Você escreve muito bem. De quando em vez O Mundo publica uma coluna sua e eu não acho nada amadora, embora o nome seja Espaço do Amador. -- Olga disse sorrindo
--Eu queria arrumar um emprego na coligada que a TV Mundo tem no Goiás. -- sorriu -- Vamos ver!
--Filho, à propósito, tem tido notícias de Silvio? -- Olga perguntou
--Ele nunca mais se firmou em emprego algum. Faz um bico aqui e outro ali. Seu Romeu se aborreceu tanto com ele que saiu de casa e foi morar com a família do irmão em Juiz de Fora, aí Silvio ficou sozinho no apartamento. Já fazem duas semanas que isso aconteceu e desde então não sei de mais notícias. Era seu Romeu quem conversava comigo de quando em vez.
--Como vocês conheceram esse Silvio? -- Tatiana perguntou
--O pai dele andou freqüentando nosso centro e estava desesperado porque o filho era viciado em drogas. Aí nós conseguimos, após muita oração e insistência, que Silvio participasse do programa pra dependentes químicos e Seyyed arrumou um emprego pra ele na oficina, que ainda era um negócio pequeno. Ele foi ficando e batalhou ao lado dela por todos esses anos... Naquela época, quando nós o conhecemos, Renan tinha apenas quinze anos.
--Eu era estagiário! -- relembrou orgulhoso
--Silvio já era mecânico... Ele e Seyyed têm a mesma idade... -- Olga disse com certa tristeza
--Que coisa! -- Tatiana exclamou -- Ele foi ingrato por demais da conta! E à troco de nada! É por isso que muita gente vê os outros precisando de ajuda e nem liga!
--Não se pode fazer as coisas pelos outros esperando gratidão, minha querida. O feriado de hoje existe exatamente porque a maioria de nós somos ingratos... -- Olga olhava para Tatiana
Seyyed reparou que Camille não conversava com ninguém e sentou-se do lado dela.
--Eu sei que você não gosta muito de conversar... -- cruzou as pernas -- Muito menos comigo, mas hoje é domingo de Páscoa e a gente podia ter um papo light... Pelo menos sem qualquer agressão ou implicância, não acha? -- sorriu
--Vocês têm uma coisa com a Páscoa! É um dia como outro qualquer! E o capitalismo ainda inventou um jeito de ganhar dinheiro com isso...
--Certamente. Assim como acontece no natal e em tantas outras datas festivas. Mas o lance da Páscoa não é comprar chocolate, fazer uma social no domingo... A data tem um significado muito especial, independentemente de quantos se aproveitem dela.
--E qual seria? A ressurreição de Cristo? Me poupe! Essa história é baixo astral demais... -- revirou os olhos -- O Mestre da humanidade vem com o propósito de mudar o mundo e a galera prega Ele na cruz. Eu hein? Isso é muita tristeza...
--Não... tudo depende de como se veja a coisa. -- olhava bem para ela -- Cristo veio ao mundo em uma época em que os vencedores sempre se impunham pela violência. Os vencidos eram massacrados, humilhados, mortos... Ele veio mostrar um outro tipo de vitória, que não precisa se impor com armas. Uma vitória moral, verdadeira! No primeiro momento, quem visse Pilatos e aquele bando de fariseus maledicentes poderia dizer: eis os vencedores. Mas não! Eles passaram... Todos eles! Cristo permaneceu, e sua mensagem acendeu luzes pra milênios! Ele trouxe uma lei revolucionária e nova para nós: a lei do amor! E provou que o amor resiste a todas as coisas!
Camille ouvia Seyyed embevecida. Teve que lutar para disfarçar. -- Eu... nunca tinha pensado sob este aspecto... -- respondeu sem graça
--Você é objetiva demais. Isso é bom, mas não o tempo inteiro. Pense na Páscoa como um convite ao renascimento. -- pausou -- Eu sei como você se sente! -- descruzou as pernas e apoiou os cotovelos sobre os joelhos -- Você se sente inadequada por não ter uma perna. Por muito tempo eu me senti inadequada por ser lésbica. -- olhou para ela -- Mas isso passou. Eu aprendi a me aceitar e a gostar de mim do jeito como sou, mesmo se eu não sou como ‘deveria’ ser.
--Eu... não acho que dê pra comparar... -- não sabia o que dizer -- “Se você soubesse, Ed...” -- pensou
--Dá sim... Se a gente se aceita, Camille, as coisas acontecem muito mais tranquilamente. -- Renan acenou para ela -- E lembre-se: renascer! -- beijou a testa dela e foi ver o que o rapaz queria
A loura ficou completamente corada e abaixou a cabeça.
--Eu queria lhe contar da experiência que tive! Foi incrível! -- Juliana disse para Olga -- Sabe que levei um choque por acidente e desmaiei. Não sabe o que se passou durante o tempo em que fiquei desmaiada.
--O que? -- perguntou curiosa
--Eu tive uma sensação de ter sido jogada no tempo... como se tivesse visitado o futuro... Era tudo tão confuso, sabe? Eu via as pessoas e inclusive a mim mesma como se assistisse a um filme... Coisa muito surreal, dona Olga! Quando eu contar isso a Ivone ela vai ficar surpresa!
--E o que viu? Você lembra?
--Eu vi a mim mesma trabalhando numa coisa que não era hospital. Não sei o que era, mas as pessoas me conheciam! As pessoas nas ruas. E elas me pediam coisas, mas eu não entendia o que diziam. Vi a senhora e Mariano com um garotinho, mas foi muito rápido... Ele era um menino magrinho, moreno... Vi aquela bailarina de Ed toda perua, parecia que tinha ficado rica, sei lá. Camille andava, vê se pode? Acho que ela trabalhava com Ed e era uma pessoa até legal, olha a viagem! -- riu
--E por que ela não pode ser uma pessoa legal? -- perguntou rindo
--Duvido muito! -- olhou para Suzana que conversava com Tatiana e Renan -- E Suzana... eu não a via em lugar algum... -- olhou para Olga -- Se isso foi uma previsão, acho que ela vai me abandonar no futuro...
--Não sofra por antecedência. Pode ter sido um misto de previsão com outras coisas que por agora não entendemos o significado.
--Ah, e o mais legal: vi pessoas que passaram pelo Silva Avelar e já desencarnaram. Ex pacientes, sabe? Elas sorriam pra mim e uma chuva de luz começou a cair sobre minha cabeça. Aí eu ouvia uma voz dizendo: você ainda tem muito trabalho a fazer. Aí acordei.
--Muito bonito mesmo! Tem gente do outro lado protegendo você, minha filha. -- acariciou o rosto da japonesa
Seyyed percebeu que Suzana a olhava de esguelha em vários momentos. Decidiu ir abordá-la. -- Será que a gente pode conversar um pouco? -- olhava bem nos olhos dela
--E temos assunto? -- a delegada estufou o peito
--Devemos ter. Você parece que tá prestes a me chamar pra um duelo a qualquer momento!
--Olha, Seyyed... essa situação não é confortável pra mim. -- olhou para os lados -- Juliana vê dona Olga como mãe dela, mas você não é ‘irmã’ dela. Eu sei que ela queria mesmo é ficar contigo, e você também sabe! Ninguém no meu lugar ia gostar de te conhecer. Na verdade, eu queria mesmo é meter um soco bem dado na tua cara! -- sussurrou ameaçadora
--Eu não vou te pedir pra ser minha amiguinha, mas está se colocando em uma situação delicada porque quer. As coisas mudaram um bocado. Juliana tá em outra, ela não me quer mais. Pode ter se confundido em algum momento, mas ela tá em outra, ou seja, a fim de você! -- pausou -- Eu tenho a minha garota e com ela vou casar. Ao invés de ficar nessa de se sentir um prêmio de consolação, valoriza a mulher que tá contigo e fica com ela!
A delegada riu. -- Está me aconselhando a fazer o que você não fez?
--Aí é que você se engana! Eu sempre valorizei ela. É que em algum momento a gente se perdeu e tem coisas que uma vez perdidas... ficam perdidas. Eu não quero viver em guerra contigo, até porque a gente vai se encontrar outras vezes na vida. Só queria que acreditasse que Juliana e eu ficamos no passado.
--Está acontecendo alguma coisa aqui? -- Juliana chegou desconfiada e segurou a mão de Suzana
--Nada de mais... só uma conversa... esclarecedora. -- a delegada respondeu sem tirar os olhos de Seyyed
--Seyyed! -- Olga chamou -- Isa chegou!
--Bem, eu já falei o que queria. -- sorriu -- Espero que pense nisso! -- afastou-se delas e foi receber a namorada
--O que acontecia aqui, hein? -- a japonesa queria entender
--Eu disse. Uma conversa esclarecedora. -- sorriu
--Oi, amor! -- Isa sorriu -- Cheguei às duas em ponto! -- bateu com os dedos no relógio
--É... muito bom! -- abraçou-a com carinho -- Linda como sempre! -- sussurrou no ouvido dela
Camille ficou olhando chateada. -- Pouca vergonha... -- resmungava
***
--Gente, hoje sou eu quem gostaria de falar um pouco! -- Mariângela pediu. Estavam todos sentados à mesa -- Em abril do ano passado, Camille e eu estávamos chegando nessa casa. Ela, dilacerada pelo sofrimento e eu, não menos destruída. Estava me sentindo perdida, desgostosa e quis acreditar que a mudança pra essa cidade nos faria bem. Eu achava que longe das lembranças nós poderíamos ser felizes... -- pausou -- E me enganei, porque as lembranças nunca estiveram longe. Estão onde sempre estarão: dentro de nós... Porém é inegável que tudo mudou depois dessa vinda pro Rio. Todos vocês aqui presentes entraram nas nossas vidas, com maior ou menor intensidade, e a coisa aconteceu de uma forma tal que ficamos todos interligados, entrelaçados... E eu espero que assim permaneça por muitos e muitos anos. -- pausou -- Eu agradeço muito a Deus, nosso Pai, e a Virgem, nossa Mãe divina, por terem permitido que tantas maravilhas acontecessem ao longo desse um ano morando aqui. Glória a Deus! Glória a Cristo Jesus, que se sacrificou pela nossa salvação!
--Vamos rezar! -- Mariano pediu. Todos se levantaram e se deram as mãos para rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. Suzana ficou de cabeça baixa e boca fechada
Sentaram-se, começaram a almoçar e foram conversando sobre assuntos variados.
--E então, Isabela? Olga me disse que você tá dando aula de balé pra pessoas adultas... -- Mariângela puxou conversa
--Sim. -- sorriu -- Agora são dezessete alunas e um aluno!
“Grandes coisas...” -- Camille pensou despeitada
--Homem de coragem, esse! -- Flávia comentou
--Eu... -- ficou encabulada -- eu sempre achei balé tão lindo... mas deve ser difícil aprender... -- Mariângela disse
--Nem tanto como pode parecer. Com treino, boa vontade e persistência muito se consegue. -- Isa respondeu delicadamente
--Por que não tenta aprender, Mari? Você gosta, podia experimentar!
“O que?! Meu tio sempre com idéia de jerico!” -- a loura se revoltou
--Eu?! -- perguntou surpresa -- Quisera eu! -- Mariângela sorriu
--Por que, Mari? Seu irmão tem razão, podia tentar! -- Olga deu força
“Essa dona Olga também se mete em tudo!” -- Camille estava ficando nervosa
--As aulas acontecem pelas manhãs das segundas, quartas e sextas. -- a ruiva explicou -- Podia ir assistir a uma delas sem compromisso, e se gostar, se matricula.
--Ah, mas... -- tinha vontade, mas a vergonha era maior
--Tente Mari! Você assiste a uma aula sem compromisso e se gostar, encara! Será um presente meu.
--Ah, meu irmão... -- riu constrangida
“Não acredito que mamãe vai dar essa moral pra bailarina do nariz em pé!!” -- pensou -- Gente... vocês não acham que estão exagerando? Mamãe em balé a essa altura do campeonato? -- Camille começava a participar da conversa
--Qual o problema? -- Isa olhou para ela -- Minha aluna mais velha tem 61 anos!
--Pra você nenhum, mas mamãe vai voltar pra casa toda arrebentada!
--Minhas alunas não dizem isso! E não faltam às aulas!
--Eu hein, maluquete? Isso é balé ou é boxe? -- Flávia se meteu
--Eu também não sou tão velha e enferrujada assim, tá Camille? -- protestou
--Mãe, será que não vê que você não pode fazer balé? -- perguntou impaciente
--E por que não, Camille? -- Mariano perguntou revoltado
De repente todos ficaram calados esperando a loura responder.
--Garota chata, essa aí! -- Suzana cochichou com Juliana
--Fala baixo! -- disfarçou o riso e beliscou a delegada por debaixo da mesa
--Porque... -- sentiu as bochechas queimarem -- Porque... você pode se desequilibrar, cair, quebrar a perna e daí seremos duas pernetas... -- não sabia o que dizer
--Francamente, Camille! -- Mariano acabou rindo
--Nenhuma aluna minha nunca passou por isso, Camille. Eu não deixaria que sua mãe fosse a primeira! -- respondeu secamente
--Se quiser ir assistir a uma aula sem compromisso eu vou com você, Mari. -- Olga se ofereceu -- Eu posso? -- perguntou para Isa
--Claro! -- respondeu orgulhosa -- Claro que podem ir juntas! Vai que a senhora se anima também? -- sorriu
--Então a gente marca, Olga! -- sorriu -- Eu vou com você!
“Só era essa que me faltava! Mamãe treinando com a metidinha!” -- a loura revirou os olhos
--Isa, você me inspirou! Depois que eu ganhar o mundial, e eu vou ganhar, que fique claro nessa mesa, vou começar a dar aula de boxe pra mulherada. -- bateu na mesa -- E tu vai ser minha aluna, maluquete!
--Eu?! -- Camille perguntou em choque -- Sai fora, ô louco!
--Aí, Flavia, acho que me interessa, viu? -- Ed brincou -- Eu ando meio frouxa... -- riu lembrando do que Suzana lhe disse
--Pra mim também! De repente seria útil! -- Tatiana riu
--Não tá pensando em me usar como corpo de teste, né, Tati? -- Renan perguntou fingindo estar com medo
--Boxe, eu tô fora... -- a ruiva riu -- Muito forte pra mim!
-- Humpf! -- Juliana fez um bico - Mas que essa ruiva é besta, isso é! Ô garota feia! -- resmungou -- A Moranguinho era mais bonita e eu nunca gostei daquela boneca horrível e cabeçuda...
--O que foi? -- a delegada olhou para ela
--Nada... -- bebeu um gole de suco
***
Seyyed acabava de chegar em Houston. Eram quatro e meia da manhã. Tomou café no aeroporto, alugou uma moto e foi para o centro da cidade.
Já havia entrado em contato com os antigos sócios de Aldrey e através deles conseguiu o endereço de sua irmã. Não sabia o que esperar. A mulher podia nem mesmo querer recebê-la, mas não custava tentar. Sabia apenas que o nome dela era Cindy.
Depois de quarenta minutos de viagem chegou em um posto de gasolina e pediu informações quanto ao endereço de Cindy. Gastou mais de uma hora rodando até que chegou em um grande terreno plano onde só haviam uma casa velha e um imenso galpão. Uma cerca de madeira delimitava a propriedade.
--Deve ser aqui! -- desacelerou a moto e olhou para o relógio -- Dez e meia... É, acho que é uma boa hora. -- seguiu mais um pouco e parou a moto perto do portão -- Será que tem cachorro? Mas daqui dessa distância, se eu chamar, ninguém ouve. -- parou a moto e abriu o portão. Entrou e fechou. Dirigiu lentamente até perto da casa e estacionou, tirando o capacete
Uma mulher apareceu e ficou atrás da porta da casa, que era de madeira e vidro. Ed pôde vê-la apesar da cortina de renda.
--Good morning, mam! (Bom dia, senhora!) -- cumprimentou -- My name is Seyyed Khazni, we don’t known each other yet but I’m here because of your brother. Could you give me some minutes of your attention, please? (Meu nome é Seyyed Khazni, nós ainda não nos conhecemos, mas estou aqui por causa do seu irmão. Poderia me dar alguns minutos de sua atenção, por favor?) -- arriscou
A mulher saiu da casa com uma espingarda em punho. -- You have a terrorist’s name! (Você tem nome de terrorista!) -- afirmou com um forte sotaque texano -- And my brother is gone, don’t you know? What do you want from us? (E meu irmão está morto, você não sabe? O que você quer de nós?) -- apontou a arma para ela
--Please calm down, mam! (Por favor, calma, senhora!) -- levantou as mãos -- I’m from Brazil and I work fixing and restoring cars just like Mr Johannes. You can see my passport if you want to. (Eu sou brasileira e trabalho consertando e restaurando carros como o senhor Johannes. Pode ver meu passaporte se quiser.) -- pausou -- I have some friends in Dallas and they can confirm what I’m telling you. Maybe you remember a Brazilian gentleman called Marciano. I’m here because he asked me to do so. (Eu tenho alguns amigos em Dallas e eles podem confirmar o que estou lhe dizendo. Talvez se lembre de um senhor brasileiro chamado Marciano. Estou aqui porque ele me pediu.)
--Marciano! -- repetiu com seu sotaque característico -- He used to bring some Brazilian coffee... very nice! (Ele trazia café brasileiro... muito bom!) -- abaixou a arma -- And some cachaça! (E cachaça!)
--I know... (Eu sei...) -- abaixou as mãos desconfiada -- And I did the same. (E eu também trouxe.) -- afirmou -- I also brought lemon... (Eu também trouxe limão...) -- sorriu sem graça -- “Uff!” -- respirou aliviada -- “E eu que não tinha levado fé quando seu Marciano disse que a coroa não resistia a café brasileiro e caipirinha!” -- pensou
--Come in! (Entre!) -- abriu a porta -- My name is Cindy! (Meu nome é Cindy!) -- pausou -- Lets drink some Brazilian coffee! (Vamos beber café brasileiro!) -- piscou para ela
--My pleasure! (É um prazer!) -- sorriu
***
Priscila entrou em casa e deu de cara com um rapaz louro parafinado sentado no sofá todo arreganhado e coçando o saco.
--Quem é você? -- perguntou desconfiada
--Aloha! -- saudou levantando o braço
--Eu fiz uma pergunta! -- fez cara feia
--Ih, nada a ver, aí! -- respondeu igualmente desconfiado -- Cabulosa...
--Boa tarde! -- Lady apareceu na sala -- Esse é meu namorado Kawai!
--Kawai? -- Priscila repetiu o nome -- Aqui, -- aproximou-se de Lady -- mudou de idéia? Disse que ia embora, ficou e ainda traz um namorado pra cá? -- perguntou em voz mais baixa
--Eu falei com mamãe mas ela não quer que eu saia daqui porque conhece sua família e disse que não me quer com gente desconhecida. Paciência, viu filha? -- respondeu com ironia -- Agora deixa eu levar meu namorado pro quarto, com licença! -- olhou para o rapaz -- Amor, quer lanchar alguma coisa? -- ofereceu
--Ih, tudo a ver! -- sorriu
--Então vem! Me espera no meu quarto! -- foi para a cozinha e ele para o quarto dela
--Só me faltava essa! -- Priscila revirou os olhos e foi para o próprio quarto
--Amor, -- Lady gritava da cozinha -- você gosta de mussarela de búfula?
--Stryle!! Tudo a ver! -- ele gritava do quarto
--Gosta de alface, presunto, ovo?
--Tuuuudo a ver!
--Suco de uva ou de maracujá?
--Ei, o suco de uva é meu! -- Priscila correu para a cozinha -- Ô, Lady, o suco de uva é meu, pode esquecer! -- olhou para ela de cara feia
--Ai, mas você é tão mesquinha! -- cerrou os olhos com raiva
--E pode tirar esse queijo daí porque é da Tati, o seu é o amarelo seco e ruim! -- apontou para o sanduíche
--Priscila, não se nega comida nem a um cachorro!
--Segundo você eu não gosto de animais, lembra? Então eu négo, sim!
--Gente, mas o que se passa aqui? -- Tatiana chegava em casa e entra na cozinha -- É a semana começando e vocês brigando, num dou conta, não!
--Simplesmente porque o coelhinho da Páscoa trouxe um namorado maluco pra ela! Com tanto homem interessante pegando onda, claro que Lady tinha que escolher justo um burro esfomeado! -- apontou para Lady -- E a nossa amiguinha aqui ainda quer servir o gostosão com a NOSSA comida!
--Ei, fui eu que comprei a mussarela de búfula e os ovos! Deixa eu te perguntar, não me diga que você quer colocar meus trem tudo no lanche do teu namorado? Essa comida não é pra ele, não, fi! -- Tatiana estava revoltada
--Galera, paz! -- Kawai entrava na cozinha -- Nada ver isso aí, nada a ver... Coisa de jojolão, ai!
--Como é? -- Tatiana perguntou sem entender
Priscila olhou para Tatiana. -- Pra se comunicar com ele basta dizer: nada a ver ou tudo a ver! -- olhou para Kawai -- Aqui, meu filho! Nada ver você aqui! E nada a ver comer a NOSSA comida!
--Vocês são duas miseráveis, viu? -- Lady afirmou revoltada e abriu a geladeira guardando os ovos, o queijo e o suco de uva. Pegou o queijo amarelo -- Pronto, eu faço o sanduíche pra ele de pão com queijo amarelo, alface e nada mais! Satisfeitas?
--Clima deprê, viu? Nada a ver... -- Kawai balançava a cabeça
--Vai pro quarto, amor! Eu levo pra você lá! -- beijou-o. Ele foi
--Lady, você quer se casar com esse boyzinho?? -- Tatiana perguntou chocada -- Meu Deus, você é mais sem noção que todas as primas de meu pai juntas!
--Olha só, vocês são muito negativas, tá? -- respondeu enquanto fazia o sanduíche -- Da minha vida cuido eu!
--Cuide à vontade, só não abasteça o seu namorado louco com a MINHA comida! -- Priscila foi para o banheiro
--E nem com a minha, viu, fi! -- Tatiana pediu. Foi para seu quarto
--Inferno da minha vida, viu? -- Lady resmungava sozinha -- Mas deixa estar... Eu logo, logo me caso com Kawai, ele ganha o mundial de surf, vai enricar e elas vão morrer de inveja! -- cortava o queijo de cara feia
***
Suzana e Brito estavam escondidos no meio do mato.
--Chefe, tem certeza que o lugar das magias dos malucos é aqui mesmo? -- Brito perguntou desconfiado
--Tenho. Macumba e Rogério estão no outro lugar e se os caras se reunirem lá a gente voa pra lá também!
--Nós temos outros homens escondidos aqui pra nos ajudar, então eu deduzo que você tem mais certeza que nossos ratos vão dar as caras por aqui...
--Tenho. Intuição! -- sorriu
--Seja como for, essa tal de Serra da Tiririca me dá arrepios... -- Brito se estremeceu todo
--Eu nunca tinha vindo aqui mas acredito que de dia seja bem mais agradável. -- de repente ouve um barulho -- Fica quieto!
Um velho vinha a frente de um grupo de uns seis homens, todos regulando uns vinte e poucos anos.
--É o velho! -- Brito disse para si mesmo
Os homens sentaram em círculo, acenderam velas e começaram a falar coisas incompreensíveis.
--Quando a gente pega eles? -- cochichou para Suzana
--Quando estiverem bem entretidos nesse ritual aí.
Lá pelas tantas os homens começaram a fumar uma espécie de droga e Suzana entendeu aquele como o momento perfeito para prendê-los. Brito e ela surgiram das sombras empunhando suas armas e ordenando que todos deitassem no chão com as mãos na cabeça. Os outros policiais apareceram para dar reforço.
A morena avançou de encontro ao velho, que lhe lançou um olhar gelado, e ela de repente sentiu uma dor excruciante, exatamente igual a que sentiu quando foi baleada há anos atrás. Caiu no chão ajoelhada sendo pega de surpresa por aquela dor.
--Ah!! -- exclamou levando a mão ao abdômen
O velho se embrenhou nas sombras e desapareceu como por encanto.
--Delegada, -- Brito veio correndo -- pegamos todos! -- olhou para ela preocupado -- O que houve? -- ajudou-a a se levantar -- Está ferida?
--Eu... -- estava atônita -- eu não sei o que houve... -- olhou para ele -- O velho fugiu!
--Fugiu?! -- estava pasmo -- Como?? Isso aqui tá cercado de policiais!
--Ele conhece a região e aqui tem pequenas cavernas. -- sentia a dor lentamente se acalmar -- Mande alguns homens descerem com a cambada que prendemos e os acompanhe. Eu vou procurar o velho com Rodolfo e Jailson. Quero pelo menos cinco homens na entrada desse parque de prontidão esperando pra ver quando esse miserável desce!
--Delegada... -- tentou se opor -- não parece bem...
--Isso é uma ordem, Brito! -- asseverou
--Tudo bem... -- suspirou -- E eu achando que o negócio aqui ia ser fácil...
--Fácil nada... custou muito pra gente chegar até esses miseráveis e não sei no que vai dar isso tudo! -- olhou para os prisioneiros -- Eles parecem que estão em outro mundo, tudo alucinado! -- pausou -- Menos o velho... -- sentiu que a dor passou
--Delegada, olha isso aqui! -- um dos policiais se aproximava com facas e mais drogas -- Armas brancas e heroína!
--Que bom, tudo que eu quero é motivo pra colocar esses malditos na cadeia! -- Suzana respondeu -- Vambora levar essa cambada morro abaixo! Tá todo mundo preso e muito preso! -- olhou para Brito -- Faça o que eu mandei!
--Copiado! -- ele respondeu
--Rodolfo, Jailson! -- ela gritou -- Vocês vem comigo!
***
Isa estava terminando mais uma aula. Fazia o último alongamento.
--Professora, socorro, eu não consigo colocar as mãos nos pés! -- Adauto disse gem*ndo de dor
--Calma rapaz, vá até aonde conseguir. -- respondeu tranquilamente -- Com o tempo você chega lá.
--Reclama não, Adauto! -- Rosana brincou -- E eu que só vou até os joelhos e olhe lá! -- riu
Ao final, a turma aplaudiu e o pessoal foi se despedindo e saindo.
--Professora, eu fico boba de ver! Você tem um alongamento! Parece até que é de borracha! -- Jessica disse sorrindo -- Queria ser assim!
--Eu danço desde criancinha e faço exercícios todos os dias. Já são muitos anos de condicionamento! -- sorriu
--Você é noiva? -- apontou para a aliança na mão dela -- Usa uma aliança linda! Não tem medo de ladrão roubar?
--Às vezes eu escondo ela. E sim, sou noiva sim.
--Qual o nome dele? O que é que ele faz? É bailarino também? -- perguntou empolgada
--Na verdade... -- pegou a bolsa -- Ela é mecânica de automóveis. -- respondeu naturalmente e esperou a reação da aluna
--Ah... -- engasgou-se -- Nossa! -- sorriu sem graça -- E... quando casam? -- queria se mostrar uma pessoa de cabeça aberta
--No dia dos namorados, se Deus quiser!
--É... legal... -- não sabia o que dizer
De repente Isa percebe que alguém estava parado na porta e olhando para ela. -- Ai, Ed!! -- gritou e correu até a morena dando-lhe um forte abraço
A mecânica a abraçou em retribuição e beijou sua testa.
--Deve ser essa aí... -- Jessica deduziu e saiu de fininho
--Ai, que bom te ver! -- beijou-lhe o rosto repetidas vezes -- Você quer matar todo mundo de susto, é? -- deu um tapa no ombro dela
--Calma, gata, eu não tive culpa. Depois de muito fuzuê cheguei hoje às dez da manhã. Passei na mamãe e agora vim aqui pra te ver! -- sorriu
--Eu fiquei com tanto medo! Quase cancelei a aula de hoje, só não fiz isso porque não tinha como avisar a todo mundo.
--Agora tá tudo bem. -- beijou-a na testa
--Eu quero saber todos os detalhes dessa viagem! Inclusive as confusões!
--Com toda certeza! Almoça comigo e eu te conto!
--Claro! -- sorriu e a abraçou de novo -- Eu te amo, viu? Não quero que nada de mal te aconteça.
--Não vai acontecer, se Deus quiser. -- segurou o rosto dela com carinho -- Tenho uma coisa pra você! -- pegou uma bolsa que estava no chão e deu a ela -- Deu trabalho pra encontrar mas espero que goste!
Isa pegou a bolsa e tirou um embrulho de lá de dentro. Era uma caixa relativamente grande. Abriu curiosa e encontrou um cartão e um par de sapatilhas.
--Gente, sapatilhas Gaynor Minder, eu não acredito!!! -- deu pulinhos -- Nossa, elas custam caro e são as melhores! Minha professora dizia que são super confortáveis mas ela não recomendava pras iniciantes. Então eu acabei usando as sapatilhas da Capézio a vida toda! Não acredito!! -- estava eufórica
--Uma mulher que vai estrear como uma das protagonistas em um espetáculo da Ana Fluminense não pode calçar menos que isso!
--Deixa eu ler este cartão! -- sorria -- Que fofo! -- leu em voz baixa e olhou para Seyyed -- Lindo! -- puxou-a pelo pescoço e beijou-lhe os lábios
--Hum... -- olhou para os lados -- Pode fazer isso aqui? -- sorriu
--Eu adoro como você presta atenção nas minhas coisas! Só falei das sapatilhas uma única vez e você lembrou. E o que escreveu no cartão... é lindo! -- olhava para a morena fixamente em seus olhos
--Eu te amo! -- respondeu com firmeza
--Eu não quero almoçar! Me leva pra um motel e faz amor comigo! -- continuava olhando fixamente para a amante
--Pra mim isso é um convite pra lá de tentador mas você tem ensaio e eu tenho que ir pra oficina...
--Me leva pra um motel e faz amor comigo! -- repetiu com ainda mais ênfase
--Claro que a gente pode se atrasar um pouquinho... -- segurou-a pela mão e partiram -- Vambora!
***
Estavam deitadas na cama. Seyyed de barriga para cima e Isabela com a cabeça em seu ombro, envolvendo a cintura da amante com o braço. Sua perna estava roçando nas pernas da morena.
--Eu não me canso de dizer que ADORO fazer amor com você. -- sorriu -- Adoro como me faz goz*r... e quando acontece duas vezes eu fico louca...
--Eu também ADORO fazer amor contigo. O jeito como me provoca, excita e dá prazer... Adoro! -- beijou a cabeça da ruiva
--Me conta da viagem! -- levantou a cabeça para olhar para o rosto de Ed -- Conseguiu o que queria?
--Deu um trabalho danado, porque primeiro tive de convencer a dona Cindy a me deixar ver as coisas no galpão do irmão dela, depois tive que fuçar tudo lá dentro e tentar entender alguma ordem naquela bagunça e depois tentei convencê-la a nos vender alguns recursos que a gente precisa pra consertar o Porsche. Liguei pra seu Marciano um monte de vezes pra negociar, negociei com ela... Conclusão: ela topou vender e ele vai pagar tudo, inclusive o transporte do material e do ferramental pra cá. Aí, ele e eu acertamos que as ferramentas podem ficar comigo se eu der preferência total a ele sempre que precisar de mim.
--Ótimo, amor! -- sorriu -- Admiro o modo como encontrou soluções! Gosto disso, dessa ousadia! -- beijou-a nos lábios -- E foi difícil convencê-la a vender as coisas?
--Pra caramba! -- riu -- Ela impôs um monte de condições que a gente tem que cumprir! Mas também não posso negar que vendeu por um preço bem abaixo do que deveria.
--E quais são as condições? -- perguntou intrigada
--Ela quer vir ao Brasil e ficar por conta. Só vai pagar as passagens aéreas e as bugigangas que comprar. O resto a gente banca!
--A gente?!
--Seu Marciano e eu! Ela quer vir pro Rio, ficar lá em casa, visitar os pontos turísticos, conhecer a Rocinha, beber café, comer feijoada, conhecer um barracão de escola de samba e ter umas aulinhas de surf. Depois vai pra Goiás e aí seu Marciano vai rodar com ela por todo canto.
--Gente, mas que coisa! E quando essa mulher vem? -- estava surpresa
--Em janeiro! -- riu -- Fez uma listinha de must see e what to do! Se prepara porque vai ficar quinze dias com a gente!
--Quinze?! -- fez um bico -- Mas que m...! -- suspirou -- E ela é legal, pelo menos?
--Hum... eu te diria que ela é legalzinha mas se puder evitar fica melhor ainda!
--Ai, não... -- riu e deitou-se sobre o ombro da morena novamente -- E quanto a viagem? Por que não voltou no domingo? Você falou que foi por causa de mau tempo...
--É que eu não queria apavorar vocês... O que aconteceu foi que pegamos um hurricane básico pela proa, o avião fez um pouso forçado em Atlanta e foi uma loucura completa! O bicho tremia tanto que parecia até que ia quebrar no meio! E as luzes acendiam e apagavam, os alarmes sonoros dispararam sem ter fumaça, liberaram as máscaras de oxigênio... E no auge da confusão um homem pedia uma garrafa vinho, vê se pode? -- riu -- Pensei que fosse acordar nos braços do capeta!
--Pára com isso! -- olhou para ela e deu-lhe um tapa no braço -- Mas, poxa, saiu de Houston e fez pouso forçado em Atlanta, como é que pode isso? -- não entendia
--Nem me pergunte porque naquela altura do campeonato eu queria pousar em qualquer lugar! Fiquei sem entender e nem tentei, porque os comissários de bordo entraram em desespero e foi um chororô danado. O povo fazia juras de amor e chorava, era criança se danando, mulher e homem gritando... teve gente que ficou cantando hino de igreja... O homem sentado do meu lado me deu tanto puxão no braço, chorava, me abraçava, gritava e quando o avião pousou o desgraçado ainda assoou o nariz na manga do meu casaco!
--Ai, que nojo! Por que não deu um tapa no sem vergonha?
--Era um coroa, eu fiquei com pena. Tirei o casaco e deixei no banheiro do aeroporto. Depois de tanto desespero eu tava morrendo de calor! E vou te contar: um monte de gente saiu mijada do avião! Teve um até que se borrou com coisa pior!
A bailarina continuava olhando para ela. -- Meu Deus, deve ter sido desesperador!!! Mas e depois?
--Não tinha hotel pra gente pernoitar, e eles alegaram que a gente tinha que esperar no aeroporto, só que lá tava lotaaaado! Fiz um fuzuê dos diabos! Depois apareceu hotel, mas faltou avião pra completar nossa viagem... olha, eles são muito metidos mas aquilo lá é bagunçado em um monte de coisas. As empresas aéreas são bem ruins e muito fracas! Mas, por fim, pegamos um avião de outra empresa e chegamos hoje sãos e salvos!
--E esse vôo foi tranqüilo, pelo menos?
--Foi... graças a Deus!
--Então, quer dizer que você correu risco de vida? -- perguntou preocupada
--Total! -- afirmou com ênfase, mas estava brincando -- E enfrentei o perigo bravamente! Não chorei, não gritei, não fiz xixi... Entreguei pra Deus!
--Hum... Estou orgulhosa da sua coragem, mas eu não queria perder o meu amor em um desastre de avião... -- beijou-a enquanto deslizava as mãos por seu corpo
--Não? -- mudou as posições e ficou deitada sobre ela -- Vaso ruim não quebra fácil, gatinha... -- beijou seu pescoço e abriu as pernas da ruiva se posicionando entre elas -- Eu não vou sair da sua vida assim tão rápido... -- sussurrou no ouvido da jovem
--Ai, amor... nem eu quero que saia... -- sorriu enquanto Ed beijava seu corpo -- Ai, Ed... ai, Ed, ai... ah... -- fechou os olhos
E o celular tocou.
--Mas que droga! -- Isa reclamou
--Deve ser o Neyan! -- Ed brincou
E outro celular começou a tocar.
--Ai, não... -- Ed interrompeu o que fazia
--Deve ser o Renan! -- Isa brincou
--E tudo termina com ‘an'! Ô diacho...
--Acho que a gente tem que ir... -- a ruiva disse fazendo beicinho
--É... mas, depois… to be continued... -- sorriu
***
Juliana e Suzana estavam na cama. A morena beijava o pescoço da amante e percorria as mãos por seu corpo. Seguia uma trilha de beijos descendo até a cintura da outra.
--Ai, Su, vem meu amor, ai... -- empurrava delicadamente a cabeça da outra para que descesse mais
Suzana definitivamente estava sem clima e interrompeu o que fazia para deitar-se ao lado da japonesa, que pensou que a morena estava querendo provocá-la.
--Ah, é, delegada? -- sorriu e deitou-se por cima da outra -- Tá querendo me acender pra interromper e me deixar louca? -- mordeu o queixo dela -- Pois eu também vou te deixar maluquinha... -- seguiu beijando e mordendo o corpo da amante
A morena queria ficar excitada mas não conseguia. Segurou o rosto de Juliana com cuidado e disse: -- Ju? -- a japonesa olhou para ela -- Desculpa, mas hoje não rola... -- ajeitou-se e sentou na cama ficando de costas para a outra
Juliana ficou constrangida, sentou-se também se encostando na cabeceira e cobrindo o corpo com os lençóis. Suzana passou a mão nos cabelos lisos e estalou o pescoço. Um silêncio desconfortável perdurou por alguns segundos.
--Está zangada comigo? -- a enfermeira perguntou receosa
--Não, claro que não! -- virou-se para trás e encarou a amante -- Não é você, querida, sou eu... Nada de errado contigo, eu é que... -- virou-se de frente novamente -- Eu tô sem tesão... você sabe que eu gosto de fazer amor contigo pra caramba, mas é que... eu tô estranha...
--Hum... -- foi até a morena e parou ajoelhada diante das costas dela -- Por que não desabafa comigo, hein? -- beijou o ombro dela -- Eu notei desde o começo que havia alguma coisa errada... E pra você negar fogo deve ser algo muito esquisito... -- começou a massagear seus ombros -- Nossa! Você tá tensa...
Suzana estava gostando da sensação proporcionada pela massagem e sorriu. -- Você é uma terapia e tanto, sabia?
Juliana abraçou-a e beijou sua bochecha. -- Fala pra mim o que é, vai? -- beijou seu ombro e deu a volta ao redor do corpo da amante -- Desabafa comigo! -- sentou-se no seu colo envolvendo-a com as pernas -- Hum? -- sorriu e beijou seus lábios
A morena envolveu a cintura da amante com os braços e sorriu.
--O que houve? -- deslizava as mãos nos braços da delegada
--Você sabe que a gente prendeu aqueles malucos lá em Niterói, mas aconteceu uma coisa tão esquisita naquela noite... -- começou a gesticular um pouco -- Eu tava de frente pro velho, que era o cara que eu mais queria prender! -- Juliana envolveu seu pescoço com os braços -- Tava de arma em punho, só eu e ele, era só pegar o maldito e enquadrar. Mas aí... ele me olhou fixamente nos olhos e eu senti uma coisa... Parecia que ele me olhava por dentro da alma, sabe como é? -- olhava para ela
--E o que aconteceu? -- perguntou curiosa
--Eu senti, assim do nada, uma dor horrível! A mesma dor que senti quando fui baleada há uns anos atrás. Foi um troço repentino que me deixou sem ação! Eu caí de joelhos totalmente abestalhada e o maldito sumiu! E depois de uns minutos a dor passou como por encanto!
--Gente! -- Juliana exclamou -- Nunca ouvi nada como isso na vida inteira!
--Foi estranho demais! Ainda gastamos tempo buscando o cara mas ele desapareceu. Deve conhecer bem o parque e saiu de lá de modo que não o vimos. -- pausou -- Mas o que me deixou chocada até agora foi esse lance que te falei!
--Mas qual é o nome desse velho, afinal? Você pegou os dois filhos! Quer dizer... um dos filhos está morto... mas, seja como for, se tem os filhos, tem o nome do pai!
--São filhos dentro da seita e não na vida real! José me disse que só o chamavam de velho e que alguns se referem a ele como Sammael, mas esse não pode ser o verdadeiro nome do cara!
--Por que pensa assim?
--Esse nome vem do hebraico e significa "Veneno de Deus". É uma espécie de demônio.
--Cruzes!! -- falou apavorada
--Sabe...? Quando eu vivia na tribo, minha mãe era xamã. Ela me ensinou muitas coisas, especialmente porque tenho uma intuição muito apurada. Ela me dizia que um verdadeiro xamã pode ver a aura da pessoa e detectar os pontos fracos, que ficam impressos na alma como um carimbo. Se esse xamã tiver concentração e sensibilidade suficiente pra isso, pode colocar o dedo na ferida... Quero dizer, provocar aquele ponto na sua alma onde existe a marca de um sofrimento e ressuscitar isso, essas sensações desagradáveis!
--Tem todo sentido! Na doutrina nós aprendemos que as impressões boas e ruins de nossas vivências deixam marcas na psicosfera do indivíduo. Uma pessoa sensitiva, médium, xamã ou seja lá o nome que se dê, pode perceber isso.
--Pois é! Pode-se curar ou fazer mal a uma pessoa tendo-se tal conhecimento. E ele sabe como fazer a coisa...
--Não é um mero bandidinho fanático, Su. É um psicopata perigoso e dotado de um certo conhecimento e capacidade!
--E eu o quero preso! -- afirmou com ódio
--Você vai prendê-lo, amor! -- segurou seu rosto e a beijou nos lábios -- Você vai, eu sei que vai...
--Também aconteceu uma outra coisa...
--O que?
--José. Morreu de parada cardio respiratória na prisão. -- olhava fixamente para a japonesa -- Enquanto prendíamos os malucos, ele tava sendo removido, mas não resistiu!
--Minha nossa! -- cobriu os lábios com uma das mãos
--Ele não chegou a reconhecer o último cara envolvido na morte de Patrícia, o tal ‘filho’ do velho que ainda vive. O nome do fulano é Pedro. -- respirou fundo -- Não consigo ligá-lo ao crime. Ele e os parceiros de seita estão presos somente por porte de drogas e armas brancas.
--Os outros que já estão presos não entregam, não é?
--Fidelidade total! Medo, eu diria melhor. -- segurou uma das mãos de Juliana -- Pedro também usava o cordão com o símbolo que Tatiana me desenhou. Acho que só os ‘filhos’ e o velho usam.
--Essa história se mostra cada vez mais sinistra! Su, nós temos que orar muito pra Deus nos proteger e nos livrar desse mal! Esse velho ou quem quer que seja não tá acima de Deus! Veja o meu caso! Foram atrás de mim e se lascaram!
--Mas eu não rezo. Só peço ajuda a meus guias, meus xapiripës.
--Seus o que??
--Xapiripës, os espíritos das florestas. Minha mãe me ensinou muito sobre eles.
--Por que não pede a Deus, criatura? -- deu-lhe um tapa no braço
--Não tenho esse merecimento de me reportar a Ele. -- respondeu de cabeça baixa
--Por que diz isso? -- segurou o rosto dela e o levantou. Olhou dentro de seus olhos -- TODAS as pessoas podem falar com Deus. Ele não despreza filho algum!
--Eu não tenho merecimento! -- repetiu convicta
--Pára de dizer isso! -- replicou agoniada
--Você não sabe quem eu sou, Juliana! -- afirmou enfaticamente -- Não sabe o que já fiz, não conhece meu passado! Tenho as mãos sujas de sangue!
--Meu amor... -- ficou emocionada -- Você mudou! Você é uma pessoa boa! Não fale de si mesma como se fosse um monstro...
--Mas eu sou!! -- desvencilhou-se dela e levantou-se repentinamente -- Eu.... -- olhou para todos os lados -- É melhor eu ir embora! -- começou a catar suas roupas
--Não! -- levantou-se também -- Fica aqui, não vai! -- abraçou-se com a delegada -- Não vá, por favor!
--Juliana, -- desvencilhou-se dela e segurou-a pelos braços -- eu tenho que ir, não dá! -- soltou-a e começou a se vestir
--Tudo isso por causa desse maldito velho? -- perguntou contendo-se para não chorar -- Será que não vê que se agir assim ele ganha a parada?
Suzana vestia-se com pressa e nada respondeu.
--Su... -- olhou para ela preocupada -- Não vai...
A morena terminou de se arrumar, calçou os sapatos e pegou a bolsa. -- Eu vou indo, Ju.
--Por favor... -- pediu
A delegada olhou bem para ela e teve uma enorme vontade de abraçá-la, mas achava que estava lhe fazendo mal. Tinha um sentimento de que havia algo errado no ar e talvez Juliana sofresse por estar com ela. A japonesa já havia escapado da morte por um triz.
--A gente se vê! -- saiu apressada.
Juliana pôde ouvir a porta se fechar. Respirou fundo e pegou o telefone.
--Dona Olga? Tudo bem? -- respirou fundo -- Eu peço mil perdões, seu casamento tá tão perto, a senhora tá a mil, só que... -- pausou para não chorar -- Por favor, ore a Deus pela Suzana... Ela saiu daqui perturbada e aquela história do assassinato de Patrícia... é coisa pesada, coisa maligna mesmo! -- pausou -- Por favor, ora por ela? -- lágrimas rolaram por suas faces -- Tô muito preocupada...
***
--Ivone, eu vim aqui hoje mais como quem procura uma amiga do que quem busca uma profissional médica cheia dos currículos como você é! -- olhou nos olhos da outra -- Ando muito preocupada com coisas estranhas que têm acontecido!
--Calma, querida... -- tentou tranqüilizá-la -- Você esteve aqui depois do susto que passou, mas percebi que estava bem... O que aconteceu agora? Fale-me sobre as tais coisas.
--É Suzana... Ela tem andado tão tensa... Ontem saiu correndo de minha casa como se tivesse uma doença fatal e fosse me contaminar! -- pausou -- Esse caso da Patrícia Feitosa... é coisa de gente de seita fanática, essas coisas horrorosas, sabe? Suzana tá muito perturbada... Ela passou por uma experiência tão esquisita... sei que tem medo que algo de mal me aconteça.
--E não é pra menos, Juliana! -- pausou -- Você tem que ter em mente que se envolver com uma delegada de polícia, e honesta, diga-se de passagem, tem um preço alto em várias circunstâncias. Os policiais honestos sofrem muito! E ela deve ser visada por muita gente, pelo tanto de bandido que já colocou na cadeia. -- reclinou-se na mesa e perguntou com firmeza -- Está preparada pra correr riscos? Do tipo, risco de vida?
--Eu acho que a pessoa que ela é merece que eu esteja! E se eu não estiver preparada, que Deus me ajude a ficar!
Ivone sorriu. -- Você uma vez me disse que não tinha talento pra ser Joanna D’Arc. Está parafraseando o que ela disse enquanto era julgada na prisão pelos inquisidores.
--As coisas mudam... -- balançou a cabeça
--Eu sei... a todo momento! -- respirou fundo e se encostou na cadeira novamente -- Se quer continuar com ela, não há o que possa fazer por sua segurança além de ter muito cuidado, prestar atenção a tudo e orar com fervor. Em suma: orar e vigiar. Você faz o bem, é amada, tem o coração puro... pode ter certeza de que há muitos Iluminados protegendo seus passos, mas nunca se arrisque em vão, entendeu?
--Eu sei! E sim, eu me sinto protegida por Deus e por isso não temo por mim. Não mesmo! Mas temo por ela! -- esfregou o rosto -- Suzana acha que não tem merecimento pra se dirigir a Deus, ela diz que tem as mãos sujas de sangue, se acha um monstro... Eu já tentei fazê-la vir aqui e ter com você mas ela não quer...
--Mesmo se ela quisesse eu teria que recomendar outro colega, pois já trato de você e sei muitas coisas sobre ela devido a seus relatos. Mas, seja como for, se ela não quer ajuda profissional deve deixá-la em paz. De nada adianta forçar alguém a buscar tratamento psiquiátrico ou psicológico se a pessoa não o deseja. -- pausou -- Quanto a forma como se vê, acredito que Suzana tenha cometido alguns despautérios no passado, antes de se tornar policial, mas é totalmente compreensível. Imagine que uma jovem índia, vivendo em paz em sua tribo, amando e sendo amada pela família, é despertada da pureza de sua juventude por um bando de assassinos armados até os dentes que simplesmente dizimam todas as pessoas que fazem parte da vida dela! É um trauma forte demais! Se ela fez coisas más eu acho totalmente compreensível. Não estou dizendo que concordo e apoio a violência, não é isso! Mas digo que entendo que alguém que tenha sido submetida a um trauma tão pesado, logo na juventude, possa fazer coisas ruins em retaliação. É uma reação comum, e é assim que nascem psicopatas... -- pensou -- Eu admiro muito essa mulher por ter conseguido se reorientar e ser uma pessoa que faz a diferença!
--Por isso repito: ela merece meu amor e meu companheirismo! E sei que ela me ama, posso sentir, sei que é verdadeiro! É diferente de como foi com Seyyed, sabe? -- pensou -- Eu amo Seyyed e sempre vou amar, só que percebo que esse amor finalmente virou um sentimento fraternal. Porém, com Suzana, eu... no começo fiquei fisicamente atraída, depois vacilei em alguns momentos, mas no fim senti que temos identidade. E muita identidade! Nós somos sobreviventes, Ivone... cada uma a seu modo. O assassino que invadiu minha casa, minha ‘tribo’, se chama preconceito. E ele tirou de mim todo mundo que eu amava... E eu me tornei agressiva... Sei, mesmo que de forma menos pesada, o que ela sente... E hoje sei que a amo!
--Então ajude-a a ser ver como um ser humano e não como um monstro!
--Como faço isso? -- perguntou aflita -- É o que mais quero fazer!
--Seu amor vai lhe mostrar como fazer! E se ela não tem coragem de se reportar a Deus, façamos isso por ela!
--Vamos orar, Ivone? -- esticou os braços e abriu as mãos -- Por favor? -- pediu emocionada
Ivone segurou as mãos dela e sorriu. -- Claro que sim! Aliás, queria te dizer uma coisa: mais que nunca eu a admiro, Juliana. Não sei se, no seu lugar, eu teria tanta força e tanta firmeza no meu amor. Não sei se encararia os riscos com tanta sobriedade! A gente tem medo de amar e se entregar porque tem medo que a outra pessoa nos magoe, mas você nunca tem esse medo! É uma mulher e tanto!
--Nossa... -- respondeu emocionada -- Sinto-me honrada em ouvir isso de você!
--O amor é a força que a tudo transforma, meu bem! Ele te transformou e vai transformar Suzana também!
***
Tatiana acordou suada e nervosa. Correu para o quarto de Priscila.
--Acorda, Pri, pelo amor de Deus! -- pediu apavorada
--Mas que...? -- rolou na cama -- Que você faz ajoelhada aqui, criatura? -- esfregou os olhos -- Não me diga que o papagaio de Lady deu show de satanismo essa noite de novo? -- se espreguiçou
--Antes fosse só isso! -- sentou-se na cama da amiga -- Tive um pesadelo horrível por demais da conta!
--O que foi? -- respirou fundo -- “Só me faltava essa, Tati me acordando por causa de pesadelo!” -- pensou contrariada
--Sonhei com a Pat. Coisa das mais horríveis e medonhas do mundo! Num dei conta, chega doeu na alma! -- estava transtornada
Priscila percebeu que a amiga estava totalmente abalada e se arrependeu por ter achado que o tal pesadelo seria uma bobagem. -- Nossa, você tá pálida! -- sentou-se na cama -- Quer que te pegue água com... adoçante? -- ofereceu
--Não, amiga, só preciso é desabafar! -- respirou fundo
--Estou ouvindo!
--Eu estava em um lugar horrível, nem sei te dizer. Parecia um mundo de terror, com gente gritando e um desespero medonho por demais da conta! Eu morria de medo procurando uma saída e não achava, até que Pat me apareceu. Ela tava toda desfigurada, como se tivesse levado uma surra, sabe? Quando a vi, congelei! Ela disse: “-- Não tenha medo, Tati. Sou eu!” Não consegui responder. Aí ela falou: “-- Avisa pra delegada ter cuidado e não entrar no jogo dele! É um maldito manipulador e muito cruel! Ela tem que se afastar...” Nesse momento um grito dos mais medonhos invade meus sentidos e não pude escutar mais nada!
--Meu Deus, e o que era?? Quem gritava?? -- perguntou de olhos arregalados
--O papagaio de Lady!
--Ah! -- fez um bico e cruzou os braços -- E aí a gente não sabe tudo que Patrícia queria nos alertar! Ou melhor, alertar à delegada! Tenho um ódio desse bicho! -- deu um soco na cama
--Mas quem seria esse ‘ele’ de quem Pat me falava? -- Tatiana perguntou nervosa
--Deve ser o último assassino que falta ser pego! O que sumiu no mato! -- pensou -- A gente também não sabe de quem que a delegada tem que se afastar! Ou do que!
--Eu tô com medo!
--Não tenha! Tudo vai dar certo! -- segurou a mão dela
--Vamos rezar?
--Ah, Tati, eu não sou mulher de reza não, viu? -- fez uma cara feia
--AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!! -- um grito medonho se fez ouvir -- Sangue, sangue!!! -- as duas amigas se abraçaram apavoradas
--Pensando bem... -- Priscila reconsiderou -- reza aí que eu acompanho!
--Esse bicho traz coisa ruim pra dentro de casa, Pri! Não gosto disso! -- olhou para a amiga
--Claro! A dona dele traz coisa ruim pra dentro de casa! Aquele Kawai é um horror! -- revirou os olhos
--Não falo nesse sentido! -- acabou rindo -- Só você pra me fazer rir numa hora dessas! Tem base? -- balançou a cabeça -- Mas vamos, -- segurou as mãos da outra -- vamos rezar um Pai Nosso! -- fecharam os olhos
***
--Ai, tio, eu não acredito!!!!!! -- Camille exclamou revoltada -- A gente mal acaba de jantar e você me vem com essa notícia bombástica?? Por que tinha que convidar nossos parentes pro seu casamento? Quando a gente ficou na merd* nenhum veio nos socorrer! Ano passado ninguém nos convidou pra passar natal ou ano novo em lugar algum! Agora, porque tem uma boca livre vindo por aí, eles lembram que a gente existe e aceitam vir no casamento? Ah, não! Não devia ter convidado! -- cruzou os braços com raiva
Mariano vestia o terno que usaria na cerimônia e a irmã ajeitava as medidas.
--Calma, menina! -- o homem respondeu -- Querendo ou não são nossos parentes. E eu não convidei tanta gente assim!
--Família é família, Camille. Seu tio tá certo! Está dando tapa com luva de pelica! -- espetava os alfinetes no paletó do irmão
--Que luva de pelica que nada, mãe, eu hein? É uma gente que só quer o ‘venha a nós’, mas ao ‘vosso reino’ nada! -- pausou -- E quem vem, afinal? -- olhou para o tio
--Tio Alípio e tia Rosa, com Rodrigo e Vanda. Vão ficar na casa de Olga.
--O que?? E ela aceitou isso??? Essa mulher deve estar mesmo muito apaixonada! E logo quem vai ficar na casa dela: o tio reclamão, a tia inconveniente, o primo galinha e a prima mal casada! Boas companhias pra uma noiva! -- revirou os olhos
--Sua prima Ligia e Mateus também vêm com os filhos... -- Mariângela comentou insegura -- Ficarão aqui em casa...
--O que??????? -- perguntou abismada -- Aqui em casa?? Mas, mãe, porque tinha que convidar os parentes de papai? E justo Ligia vem? Aqueles gêmeos são o cão em figura de criança! Ô louco, viu? -- deu um soco no braço da cadeira
--Camille, ela é sua prima e nunca soube de não gostar deles!
--Mãe, eu não gosto da má educação dos filhos deles! Aqueles dois fazem o que querem e os pais não dizem nada!! Ligia e Mateus só não dão a periquita e o pinto pros filhos brincarem porque ficaria um troço muito feio!! -- rolou a cadeira para seu quarto -- Só digo uma coisa: se aquelas duas pestinhas forem quebrar minhas coisas vocês vão ver cenas de guerra!! Vai dar treta!! Haverá choro e ranger de dentes nessa casa!!
--Ô Mari, Camille tem razão... -- falou baixo para a sobrinha não ouvir -- Caroline e Michael não são de brincadeira!
--Mas ficava chato, meu irmão! Tia Rosa ia se exibir que foi no seu casamento e eles iriam saber. Ficava muito chato isso...
--Humpf! Vamos ver no que vai dar isso aí... -- passou a mão na careca -- E os outros na casa de Olga, hein? Camille falou de um jeito que me assustou. Será que ela só aceitou pra não me desagradar?
--Olga não se aborrece com coisa alguma, nem sei como pode ser uma pessoa assim! E vocês dois só vão viajar no outro final de semana, então... Ela vai dar conta do recado. Além do mais nossos parentes não ficarão lá por muito tempo. Tia Rosa me disse que chegam sábado de tarde e vão embora na segunda de manhã.
--Tô nervoso, Mari! -- segurou as mãos da irmã -- Tô tão feliz como não me lembro de ter estado um dia! -- sorriu
--Eu sei... -- ela sorriu também -- E eu fico muito feliz por você!
--Queria que um dia encontrasse um bom homem e pudesse viver isso agora na maturidade. -- segurou o rosto dela -- Queria muito mesmo!
--Deus me livre!! -- exclamou resoluta e se libertou das mãos dele -- Não quero mais saber de homem nem pintado de ouro! Chega! -- revirou os olhos e foi se sentar na frente da máquina de costura -- Agora tire essa roupa e me dê que só faltam os últimos ajustes!
Enquanto isso a loura voltou a estudar no quarto e parou por volta das dez da noite. Foi até a cama e se deitou.
“Nem acredito que meu tio se casa no domingo... Quem diria, tio Mariano casando de novo?” -- pensou e sorriu
A jovem rolou na cama e deitou-se de lado. Subitamente se lembrou de Fátima. Nunca mais a tinha visto. Soube através de pessoas do ginásio que ela estava fazendo fisioterapia e voltaria para as piscinas dentro em breve, mas ainda não se sabia nada a respeito do braço operado. “Tomara que dê tudo certo!” -- pensou
Sentia saudades da nadadora, mas sabia que se continuasse a vê-la acabaria se envolvendo e não queria isso. Não teria coragem de se assumir diante da família. Logo ela, que condena tanto os homossexuais. “É uma merd*, viu?” -- pensou contrariada
Lembrou-se de Seyyed. Será que se fosse solteira, ela teria coragem de se envolver com a mecânica? “Ah, mas ela nem me olha com esses olhos... Deve me achar uma pirralha sem graça... Se bem que aquela ruiva é da minha faixa etária... Mas Isabela é toda chique, toda produzida, sempre impecável, bem vestida, bem arrumada... eu não sou assim, nunca nem fui...” -- pensou chateada -- “Ah, mas eu não tenho nada a ver com Seyyed! Ela é uma mulher grandona, desengonçada...” -- suspirou -- “Pior que não...” -- fechou os olhos -- Que merd*! -- gritou sem pensar
--Camille, olha a boca! -- a mãe gritou lá da sala
“Ai, ai, ô vida besta essa minha, viu? Sapatão, perneta... que mais me falta?” -- suspirou e sentou-se novamente -- “Nada mais me falta! Liga e Mateus vêm aí com seus filhos possuídos!” -- Esticou o braço e se apoiou para sentar na mesinha e entrar na internet -- “Enquanto isso, deixa ver a quantas anda meu conto na internet. Será que alguém já leu? Será que a mulherada gostou?” -- ligou o computador e ficou esperando
Quando conseguiu acessar a página Camille deu de cara com um monte de postagens comentando seu conto. Eram mais de cinqüenta leitoras elogiando a qualidade do texto e a sensibilidade da autora.
--Ô louco! -- levou as mãos aos lábios e sorriu -- Já sou autora com cinco estrelinhas!
Começou a ler uma mensagem:
“Crisálida é uma autora como poucas: capta a dor, a angústia e todos os conflitos de uma alma de mulher que se descobre amando outra mulher e transforma isso em pura poesia! Adorei e aguardo ansiosa por outro trabalho dela!”
--Será que ela leu a história de outra pessoa e pensou que fosse a minha? -- perguntou surpresa -- Eu, sensível? -- continuou a ler
“O Despertar de um Desejo é uma história que chega sem grandes pretensões e te conquista de uma forma incrível... Li e amei! Autora, quando vem mais?? (risos)”
“Muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito bom!!!”
“Ai, eu ri, chorei, xinguei, me emocionei... Adorei!!! Parabéns autora!”
Camille estava radiante.
“UAUAUAUAUAUA!!! D+, d+!!! Td di baum!!! Manda +... manda+”
--Que língua é essa, gente? -- perguntou surpresa
“Eu até gostei... um pouco... a autora podia ter caprichado mais nas cenas de sex*... ela só deixa a entender...tem pouca sacanagem nesse negócio... história sem sacanagem não rola...”
--Ô louco, sempre tem uma estraga raça, viu? -- Camille fez um bico -- Quer pornografia, filha, vai procurar em outro canto! A essa vou responder! Qual é o nick da criatura? -- leu -- Ah, BokaNervosa... Humpf, também pudera! -- começou a digitar -- “Cara Boka, pornografia não leva ninguém a lugar algum! Eu não detalhei e nem vou detalhar cenas de sex* nas minhas histórias, porque senão você vai ficar se cuticando e pensando na sacanagem ao invés de apreender a mensagem! Isso aqui é coisa de nível, minha filha! Fala-se de amor, de coisa da hora! Sou uma lésbica de classe, está pensando o que?” -- parou -- Mas eu não sou lésbica! Vou mudar essa parte! -- disse para si mesma -- “Sou uma mulher de classe, está pensando o que?” -- postou a resposta -- Eu, hein? Que tarada!
***
Priscila e Isa entravam no apartamento.
--Ai amiga, fazia tanto tempo que você não vinha aqui... agora que ficou famosa... -- sorriu para Isa
--Não é nada disso! É que meu tempo anda bastante tomado. São os ensaios, as aulas que dou... Além do mais dona Olga se casa no domingo, Ed anda às voltas com o conserto do Porsche... é tanta coisa! -- sentou-se na cama da amiga -- E daqui a pouco tenho que ir pra faculdade!
--Ah, dá tempo de você ficar aqui por umas duas horas, tá de carrão... -- gesticulou imitando alguém dirigindo -- Bem, como ainda tô no terceiro período não vivo essa correria toda, mas logo vai começar. Período que vem quero fazer iniciação científica e vou estudar sobre próteses! -- sentou-se também -- Eu perdi tempo precioso na faculdade de psicologia! Não sei onde estava com a cabeça quando me inscrevi naquele curso! -- revirou os olhos e tirou os sapatos
--Não diga isso! É uma bela profissão essa de psicóloga. Você apenas não se identificou com o curso, foi isso. -- encostou-se na cabeceira da cama e colocou a bolsa sobre uma cadeira
--Meus pais ficaram possessos! Cursei quatro períodos e mudei pra odonto! Como ouvi reclamação em casa! -- sorriu -- Depois eles entenderam que eu não estava de malandragem... apenas finalmente descobri o que queria. -- deitou-se na cama com a cabeça voltada para a direção de Isa
--A gente termina o segundo grau muito jovem e é difícil saber o que se quer fazer! O importante é ter seriedade e ir adiante. Você é estudiosa, todo mundo sabe! Gosta de sair e tudo, mas leva a coisa a sério.
--Se levo! Quero me formar, ganhar meu dinheiro, ser a melhor dentista que puder e não depender de ninguém!
--E casar? -- cruzou as pernas -- Pensa nisso? -- perguntou curiosa
--Eu não sou vira casaca igual você, que não pensava nisso e mudou de idéia! Minha prioridade continua sendo minha carreira. E claro, meus pais. Casamento e filhos, por mais que mamãe não se conforme, tô fora!
--Ah, mas eu mudei de idéia porque encontrei quem me fizesse mudar... -- sorriu -- E quanto a filhos, não sei... Talvez, no futuro... se Ed quiser...
--E tua mãe, hein? Como anda no meio desse papo de casamento? E teu pai?
--Meu pai... deixe ele pra lá! -- fez cara feia -- E mamãe... -- respirou fundo -- Ela aceita, mas quer porque quer que a gente vá morar na zona sul. Vê se eu tenho cara de pedir isso pra Ed? -- perguntou indignada
--Pois deveria! -- olhou bem para a ruiva -- Amiga, s’il vous plaît, écoutez moi (por favor, me escuta)!! Vai morar no Meyer?? Sair daqui pra ir morar no Meyer?? É pra frente que se anda, Isa! Réveillez-vous (acorda)!
--Você são muito bairristas, gente! Não pode pensar assim! Qual a desonra de morar no Meyer?
--Não é desonra! Mas você devia pensar no lado prático. Pras bandas de lá o governo só dá migalhas! Tudo gira em torno da zona sul, meu bem! Aqui a vida acontece! Além do mais Seyyed parece até caipira, eu hein? Uma mulher de dinheiro que não mora na zona sul, não tem casa de veraneio, não faz viagens alucinantes... Você tem que mudar a cabeça dela!
--Ela é simples, Priscila! Ela gosta das coisas intangíveis! Ela não dá valor ao ter e sim ao ser! -- pensou -- Sabe... Tem vezes que ela me leva pra um lugar bonito, ou mesmo dentro de casa, aí a gente se senta, ela liga o rádio com músicas árabes ou indianas e a gente ora, medita... Ela me ensina a treinar a respiração... É tão bom! É um prazer diferente, sabe? Outro tipo de conexão! É como se fosse um orgasmo, só que é mais bonito e mais forte! São momentos maravilhosos... -- sorriu
--Você tá ficando espiritual demais pro meu gosto! -- fez um bico -- Pode até curtir essas coisas aí, porque você é artista e artista gosta dessas paradas místicas e tal, mas não pode perder a objetividade! Paga suas contas com reza, que eu quero ver! -- Isa riu -- E além do mais você tem que ver que sua mãe só quer teu bem! Deveria pedir a Ed, assim, depois do amor, com jeitinho, pra ela comprar um apê bacana por aqui. Do jeito como aquela mulher beija o chão que você pisa, ela vai comprar! E dos bons!
--Mamãe também disse que eu deveria ter encarado Beatrice pra ter estudado na França... -- olhou bem para a amiga -- Não me diga que também concorda com isso?
--Ah, mas aí não... Dona Ana pegou pesado! Beatrice é tudo de ruim! Mulherzinha triste... -- riram -- Mas quanto ao lance do apê, eu tô com ela e não abro!
Ouviram uns barulhos na sala e depois uma voz melosa no quarto ao lado. -- Ai, Kawai... Assim não, só depois de casar...
--Kawai?? -- Isa perguntou curiosa -- Essa é a tal da Lady?
--Lady e o namorado, minha filha! Já vi que a figura chegou! -- fez um bico -- Todo dia é isso! Ela traz o cara pra cá, dá comida pra ele, ele tenta trans*r e ela fica nesse lesco lesco... Às vezes muda-se a ordem: primeiro o lesco lesco e depois a comilança, como parece ser o caso de hoje...
--E ele ainda anda comendo a comida de vocês?
--É só a gente dar mole! -- respirou fundo -- Ai, amiga, como sinto saudades de Patrícia, viu?
--Aí, nada ver, aí... nada a ver... Vou pro mar! Nada ver total...
--Não, Kawai, fica! Você ainda nem lanchou!
--F – o – i ! -- soletrou -- Fui!
--Nem soletrar o maluco sabe! -- Priscila reparou. Isa riu
Ouviram o barulho da porta se fechando. De repente, tocam a campanhia.
--Ih, será que Kawai se arrependeu? -- a ruiva perguntou rindo
O entra e sai do rapaz se repetiu por três vezes.
--Faça-me o favor! Deus, dai-me forças! -- gritou olhando para o alto
--Kawai, quando a gente vai casar, hein? -- perguntou com voz melosa -- Ai, pára, assim não...
--Nada a ver, aí, nada a ver... Libera logo, gata?
--Gente, ele conhece o verbo liberar! Não é tão burro de todo, Pri! -- Isa ria e a amiga revirava os olhos
--Ai, não Kawai... Olha! Vamos papar... Eu vou pra cozinha agora! Hoje tem lasanha verde pra papar... É só eu colocar no microondas... -- saiu do quarto
--O que?? -- Priscila levantou-se com um salto -- A lasanha verde é minha, Lady!! Pode esquecer!! -- abriu a porta e correu atrás da outra
A ruiva não agüentou e soltou uma gargalhada.
***
Sábado à tarde. A campanhia toca na casa de Mariângela.
“Ai, meu Deus, é agora!” -- Camille pensou enquanto escondia suas coisas e montava armadilhas anti crianças destruidoras
--Ligia, Mateus... há quanto tempo! -- ouviu Mariângela falar
--Nossa, as crianças estão enormes! -- Mariano disse
--Já têm sete anos, tio! O tempo voa! -- ouviu Ligia responder
--Caroline, Michael! Cumprimentem os parentes, vamos lá! -- Mateus ordenou
Muito alarido se ouviu na sala e mais um barulho de vidro quebrando.
--Michael, pára com isso! -- Ligia pedia sem firmeza
“Ai, já começou...” -- Camille pensou revoltada
***
Mariano, Mariângela, Ligia, Mateus, Camille e as crianças tentavam lanchar. Caroline e Michael brincavam de guerrinha com o lanche e sujavam as coisas, além de resvalar comida nas pessoas. A jovem loura lutava para não esganar os pequenos bagunceiros.
--E então, Camille? Tô gostando de ver! Dando a volta por cima, estudando, nadando... -- Ligia disse -- E tá mais bonita do que nunca! -- sorriu
--Obrigada. -- agradeceu controlando a própria fúria
--Não queria ser inconveniente, mas não sabe quem encontrei anteontem lá na Paulista: Augusto!
--Ai, não Mateus! -- Mariano reclamou -- Não me fale daquele rapaz que tenho enjôo só de pensar na cara dele!
--Ih, mas o senhor não sabe! -- ele respondeu -- O cara teve dengue hemorrágica e quase morreu! Acredita que perdeu quase quinze quilos? Nem o reconheci quando vi! Foi a voz dele que me fez associar aquele cadáver ambulante com o Augusto dos velhos tempos. E ainda tá desempregado!
--Humpf! Deixe ele pra lá! -- Camille falou -- Já me basta ser infernizada pelo que vejo agora!
--O que vê agora, Camille? -- Ligia perguntou sem entender
Mariângela sabia que a filha se referia às crianças e tentou disfarçar. -- Coisas da vida, Ligia... é isso. -- respondeu sem graça
--É, Ligia... -- um pedaço de queijo resvala na bochecha de Camille. Ela o remove com ódio contido -- Coisas... da vida! -- olha para as crianças com cara feia
--E então, Ligia? Vai falar? -- Mateus olhou para a mulher e perguntou
--Ai, sei lá... deu vergonha.. -- ela fez dengo
--O que é, gente? -- Mariano perguntou
--É que... -- Ligia e o marido se entreolharam e riram -- A gente queria saber se podia ficar aqui até domingo que vem... Mateus já comprou as passagens mas ele pode antecipar se vocês disserem que não dá... -- sorriu
--Domingo que vem??? Domingo que vem??? -- a jovem loura perguntou enfurecida. Mariano também estava em choque
--Claro!! -- Mariângela interveio -- Claro!! E Camille ficou até nervosa de tanta satisfação, não é filha? -- beliscou a coxa da jovem por debaixo da mesa
--Ah, é... -- respondeu contrariada -- Eita, satisfação bandida, viu? -- esfregou a pele que a mãe beliscou
--Ah, então a gente fica! -- Ligia afirmou sorrindo
Nesse momento, as crianças derrubam o bule de café na mesa, que se abre e derruba todo o conteúdo sobre o colo de Camille. A loura se vê dominada pelo ódio.
--Caroline, Michael, olha o que vocês fizeram! Sujaram a prima de vocês e derrubaram todo o café! -- Mateus ralhou sem firmeza alguma
Mariângela veio com um pano molhado para ajudar a filha a se limpar. Nisso, a loura virou-se para ela e pediu baixinho: -- Me amarra na minha cadeira de rodas! Agora!
--Por que isso, menina? -- respondeu baratinada
--Porque estou a ponto de cometer assassinatos em série! -- respondeu entre dentes
***
Suzana se aprontava para buscar Juliana e ir para o casamento de Olga. Pensou em desistir de ir e se afastar da namorada para protegê-la, pois ainda sentia algo estranho no ar, só que havia dado a palavra quanto a sua presença e não poderia voltar atrás. Seu pai sempre lhe ensinou que palavrada dada tinha que ser cumprida.
Quando estava saindo o celular tocou. Número desconhecido. -- Alô!
--Delegada Suzana... Gostaria de parabenizá-la. Não imaginava que fosse chegar tão longe... -- sentia a ironia na voz do homem
--Você... -- pensou -- É você, não é, Sammael? Vejo que conseguiu meu número, que interessante!
--Agora sei muito mais sobre você do que imagina, Suzana... Eu olhei na sua alma...
--O que você quer, seu maldito? -- perguntou encolerizada
--Você é que é uma das amaldiçoadas! -- falava como se estivesse profetizando -- Assim como aquela pequena que tanto quer vingar...
--Ah, descobriu que eu sou lésbica? Que novidade... Parabéns, ganhou o prêmio Nobel! -- respondeu sarcástica
--Eu vi o seu fim... Será uma morte trágica com o corpo cravejado de balas... E não terá nada a ver comigo ou com meus filhos... Outros ceifarão sua vida...
--Conta outra novidade! -- respondeu apreensiva
--Deseja o mesmo fim pra sua enfermeirazinha?
--O que??? -- respondeu mais encolerizada ainda -- Não se atreva a colocar um dedo nela, seu desgraçado! Você vai se arrepender pra vida toda! Sou capaz de te perseguir pela eternidade inteira!!!
--Se a ama tanto... afaste-se dela! Eu tenho poder pra cuidar dela sem muito esforço. Exatamente como fiz com José.
--Você é tão metido a profeta, a poderoso, mas eu tô pegando um a um dos membros dessa tua seita maldita! -- desafiava o homem -- “O que mais me impressiona nos fracos, é que eles precisam humilhar os outros para se sentirem fortes.”12
--Não deveria me desafiar dessa forma. Deixei-a de joelhos diante de mim, ou já se esqueceu? -- deu uma gargalhada diabólica e desligou o telefone
--Droga!! -- berrou
Suzana sentou-se no sofá e cruzou os dedos por trás da nuca. Respirou fundo e tomou uma decisão. -- Depois desse casamento, eu me afastarei de Juliana! -- lágrimas vieram-lhe aos olhos -- Vai ser a coisa mais horrível da minha vida, mas pior seria vê-la morrer por minha causa!
***
Olga e Mariano estavam terminando de se arrumar, cada um em um dos banheiros do clube. Ainda não tinham se visto. Seyyed, Isa, Renan, Tatiana e Juliana corriam como formigas para cuidar dos últimos detalhes e Mariângela se revezava entre os noivos cuidando de suas roupas.
Seyyed alugou um clube muito bonito em Vargem Grande, repleto de árvores frondosas dispostas em um belo jardim. Esse foi seu presente de casamento para a mãe.
A dona do clube arrumou as cadeiras e o pequeno altar exatamente como se vê nos casamentos diurnos de filmes norte americanos. Juliana deu de presente a decoração floral e os decoradores capricharam nas gérberas cor de abóbora e rosas chá, entremeadas por pequenas gazânias amarelas, que marcavam presença no local. Os arranjos dispostos em colunas também estavam lindos, repletos de rosas chá, vermelhas e brancas. Isa presenteou com a contratação de seis músicos, dois violinistas, dois flautistas e dois violoncelistas, os quais conhecia do Municipal, e os artistas se preparavam para começar quando os noivos entrassem.
As pessoas do grupo espírita deram de presente um excelente serviço de buffet e os garçons e garçonetes preparavam as mesas. Um dos jovens que Olga ajudou na infância tinha uma banda de música e se ofereceu para tocar no casamento, na hora da dança. Outro faria o trabalho de DJ nos intervalos. Todos se preparavam no pequeno palco, montado mais adiante, afinando os instrumentos e passando o som.
Suzana providenciou a segurança e já haviam três homens e duas mulheres de prontidão no clube desde cedo. Veio até um rapaz como manobrista no ‘pacote’.
Os convidados deveriam chegar às dez horas para que a cerimônia começasse às onze e logo em seguida viesse o almoço. Depois seria o momento para dançar na pista de dança coberta por um belo e enorme toldo branco.
Era por volta das nove e meia e a temperatura estava amena. O dia despontava como um belo sorriso da natureza.
--Gente, eu tô tão nervosa! -- Olga exclamou -- A primeira vez que me senti assim foi no meu primeiro casamento! -- sorriu -- Depois a outra grande emoção que tive na vida foi o nascimento de Seyyed! Agora, me caso de novo e coração parece que vai explodir!
--Calma, mulher, dará tudo certo. -- Mariângela terminava os últimos retoques no vestido de Olga -- Ah, agora sim! -- sorriu orgulhosa
--Caraca, mãe!! -- Ed exclamou -- Está linda!! -- sorriu orgulhosa -- Mariano vai ficar louco quando ver tudo isso!
--E mais linda vai ficar quando se maquiar! -- Isa veio trazendo seu mega estojo de pintura -- Agora que está pronta vamos sentar e cuidar desse belo rosto!
--Eu sempre maquiei ela! -- Juliana cruzou os braços despeitada. Isabela olhou para a japonesa de cara feia
--Meninas, por favor! -- Olga pediu -- Ela já tinha dito que cuidaria de me maquiar, Juliana. -- olhou para a japonesa
--Humpf, tudo bem! Eu estive envolvida desde o início dos preparativos desse casamento mesmo... -- respondeu ainda com despeito -- Mas vou ficar aqui acompanhando pra garantir que vai fazer direito! -- olhou para Isa
--Como quiser! -- a ruiva respondeu
--Gente, agora dá licença que tenho de terminar com o noivo. Priorizei você, cunhada, agora tenho que terminar com meu irmão. -- saiu do banheiro
--Mariângela costura muito, não é? -- Ed comentou olhando para a roupa da mãe -- Que vestido bonito! Sem muita roda e rococó, mas chique na medida certa!
--Eu quero que ela faça meu vestido quando a gente casar, amor! -- Isa respondeu enquanto maquiava Olga -- Agora olha pra cima, dona Olga.
--E ela também vai fazer o meu quando me casar com Suzana! -- Juliana continuava disputando com a ruiva
--E quando vocês casam, Juliana? Já tem data marcada? -- Ed perguntou
--Ainda não. Mas logo a gente vê isso! -- respondeu sorrindo
--Eu não me sinto nervoso assim desde meu primeiro casamento! Ou quando fiquei na maternidade esperando pra ver Ricardinho! -- Mariano estava indócil e não parava
--Quer ficar quieto, homem? Se não eu não termino com sua roupa!
--Mariano, você tá muito da hora, mano! -- Mateus falou -- Vai deixar a noiva de perna bamba!
--Dona Mari, será que a senhora faria a roupa da Tati e meu terno quando a gente casar?
--Claro Renan. -- respondeu sorridente -- Ah, agora sim! -- levantou-se -- Terminei!
--Deixa eu me ver! -- olhou-se no espelho e sorriu -- Eu gostei!
--Agora EU vou terminar de me arrumar senão vão pensar que sou uma penetra no casamento do meu próprio irmão! -- Mariângela saiu para se juntar as outras mulheres
Do lado de fora dos banheiros Camille esperava com os parentes. Michael e Caroline brincavam no jardim desconfiadamente sendo observados por Suzana.
--Eu não sei o que há com meus filhos que eles estão tão calmos! -- Ligia comentou desconfiada -- Desde que aquela mulher apareceu eles viraram anjos! -- referia-se a delegada -- Olha lá! Ela fica parada olhando e eles quase nem se mexem...
--Minha heroína! -- Camille suspirou
--O que? -- olhou para a loura
--Eu disse que é melhor deixar quieto! -- respondeu com um sorriso forçado -- Aquela mulher é delegada de polícia, então não convém contrariar...
--Prima, quem é aquela mulata deliciosa que anda pra lá e pra cá ajudando a arrumar as coisas? -- Rodrigo perguntou com a mão entre as pernas
--Tatiana, namorada de Renan, filho de dona Olga. Esqueça!
--E aquela mina alta, morena bonita de macacão azul marinho colado no corpo?
--Seyyed, filha de dona Olga. -- pensou -- Esqueça também!
--E a japonesa gostosona que sumiu dentro do banheiro?
--Juliana. Esqueça!!
--E a ruivinha mignon? Sumiu também no banheiro.
--Isabela. Esqueça também!
--Ora, meu, tudo quanto é mulher você me manda esquecer! -- exclamou revoltado mexendo entre as pernas -- E a delegada? Gosto de mulher braba!
A loura riu gostosamente. -- No way! Vai por mim que eu sei o que tô dizendo! -- teve que rir
O rapaz se levantou e foi paquerar as garçonetes do buffet.
--Mas e então, Camille? -- Rosa puxou conversa -- Rodrigo tá trabalhando como frentista de posto de gasolina e ganha os tubos do dinheiro! Vanda trabalha numa lanchonete e também ganha horrores! -- exibiu-se dos filhos -- Agora que se encontra nesse estado tão pouco favorecido o que planeja pro futuro?
--Nesse estado?! -- perguntou revoltada -- Vou considerar que a senhora quis dizer: nesse estado do Rio de Janeiro! E que não é nada pouco favorecido, diga-se de passagem -- pausou -- Vou me formar como engenheira e conseguir emprego! Estes são os planos.
--Mas como, faltando uma perninha? -- olhou para ela com pena -- Coitadinha! Quem daria emprego pra alguém que é aleijadinha?
--Ah, pra tudo dá-se um jeito! -- respondeu contendo a fúria -- De mais a mais, se eu não der pra nada, posso me consolar com seus filhos, né? -- estava sendo sarcástica. Rosa ficou sem graça
--Olha, mas eu vou dizer, minha Nossa Senhora de Achiropita! A cama que me deram na casa da futura esposa de Mariano é um horror! -- Alípio reclamou -- Minhas costas estão um lixo! E os mosquitos dando rasantes nos meus ouvidos? Uma vizinhança bagunceira... Inferno, viu?
--Ah, tio quando for assim fica em hotel! Na casa dos outros a gente não paga então não tem cara pra reclamar, não é mesmo? -- respondeu novamente sarcástica
--Prima, deixa eu me desculpar por meu marido! -- foi a vez de Vanda -- Ele teve que trabalhar e não pôde vir, coitado!
--Desde quando ele trabalha?! -- perguntou descrente
Vanda fingiu que não ouviu. -- E eu aqui pensando em como ele vai fazer pra almoçar e jantar sozinho! Coitado... -- balançou a cabeça -- Eu deixei a comida pronta no freezer, mas será que o pobrezinho vai saber o que fazer?
--Ah, não sei, prima! É tão difícil abrir o freezer, tirar um pote de dentro, colocar no microondas, aquecer e depois se servir, que eu nem sei! Ô coisa engenhosa, viu? Da próxima vez deixa um manual de instruções na porta da geladeira! -- continuava debochada
Os convidados foram chegando. A família de Tatiana veio direto do aeroporto, pois o vôo do dia anterior foi cancelado. Correram todos para os banheiros e se arrumaram lá.
--Prima, e aquelas outras duas mulatas maravilhosas? As que chegaram correndo? É pra esquecer também? -- Rodrigo perguntou esperançoso
--Aquelas ali... é, eu acho que você pode tentar... Só que se prepara que elas têm bom gosto! -- Camille respondeu
--Você quer dizer o que? -- perguntou revoltado -- Que elas vão me achar um idiota?
--“É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida.”13 -- respondeu com um sorriso irônico
Os amigos de Olga foram chegando e nesse meio tempo a mãe de Isa apareceu.
--Seyyed! -- deu de cara com a morena assim que chegou -- Como vai? -- perguntou sorrindo
--Bem, e você? -- deu beijos de comadre nela
--Será que poderia pagar meu táxi? -- perguntou -- O motorista está lá fora esperando. É que não ando com dinheiro, sabe como é! -- sorriu
--Tô sabendo! -- revirou os olhos -- Mas eu não tenho dinheiro aqui! -- fez cara feia
Ana fingiu que não ouviu. -- E cadê a Isa? -- olhou para todos os lados -- Nossa, que lugar lindo! Que chique! -- estava extasiada -- Eu não sabia que pra essas bandas de cá houvesse coisa bonita desse jeito!
--Isa tá no banheiro ajudando mamãe com os últimos detalhes. É ali. -- apontou -- E como vai ficar essa história do táxi? -- perguntou com seriedade
--Sei lá! Como já lhe disse, eu não me preocupo com coisas materiais. -- foi para o banheiro
Seyyed decidiu ir para a entrada do clube e conversar com o taxista. O homem esperava contrariado. O taxímetro marcava oitenta e dois reais.
--Até quando eu vou ficar aqui? Quero meu dinheiro! -- já a recebeu reclamando
--Calma, amigo! -- Seyyed pediu -- A mulher que você trouxe te disse que eu ia pagar mas não me disse isso. Eu não tenho dinheiro aqui, então a gente tem que negociar com a tua cooperativa.
--Tem negócio, não! Eu quero meu dinheiro!
--Quanto é? -- Fábio vinha de mãos dadas com Flávia -- Fala aí, irmão! -- foi abrindo a carteira
--Noventa reais! -- respondeu convicto
--Pôxa, mas eram oitenta e dois! -- Ed exclamou revoltada
--Relaxa, Ed. -- Fábio deu cem reais na mão do motorista -- Me dá meus dez e vaza daqui parceiro! -- olhou para a morena enquanto pegava o troco -- Fica por todas as vezes em que consertou meu carro de graça!
--Tá vendo, Ed? Homem rico e agradecido é outro papo! -- Flávia brincou
--Valeu! -- a morena sorriu -- Agora vamos entrando!
Ivone chegou minutos antes das onze horas com o marido. Ela seria a pessoa a dirigir a cerimônia religiosa. Cumprimentou os conhecidos e foi se preparar diante do púlpito.
Fátima chegou com a mãe nos últimos minutos que antecediam a cerimônia. Foram as últimas a aparecer.
--Mãe, eu não acredito!!! -- olhou para Mariângela -- Quem convidou Fátima??
--Eu! -- respondeu tranquilamente
--Quando? Como? Por que? -- perguntou confusa
--Jurema me ligou porque combinamos que eu faria umas roupas pra ela, não lembra? Aí, convidei as duas, só esqueci de te dizer. Além do mais, ela é sua amiga, qual o problema?
--É que... ela tem que descansar... -- não sabia o que dizer
--Camille, cabe a ela decidir o que pode ou não fazer! Você e essa mania de se meter em tudo!
“É, Camille, não te faltava mais nada...” -- a loura pensou revirando os olhos
***
Os convidados estavam todos sentados em seus lugares. Ivone esperava sorridente diante do púlpito. A seu lado esquerdo Seyyed aguardava e do lado direito Camille estava sentada em sua cadeira. Os músicos começaram a tocar Per Amore e Mariano entrou de braços dados com a irmã. Parou diante de Ivone enquanto Mariângela se uniu a Camille. Depois foi a vez de Olga, que entrou com Renan, o qual se colocou ao lado da irmã.
O casal se olhou sorrindo e emocionado e Mariano beijou a mão da mulher que amava. Na sequência, ambos olharam para a psiquiatra, que disse palavras belíssimas para consagrar a união daquelas duas almas afins. Todos se emocionaram muito, até mesmo a renitente Camille, que discretamente secava as lágrimas que lhe desciam do rosto de quando em vez.
--Olga, eu... -- era o momento de Mariano falar -- Eu nunca vou me esquecer daquele dia em que eu estava perdido e você entrou no meu carro e me mostrou o caminho. Isso foi tão simbólico na minha vida... porque eu me sentia solitário e perdido e você chegou e me apontou o caminho e eu fui. Você me pediu sem palavras para confiar e eu confiei. -- sorriu -- Eu não sei explicar como pude me apaixonar tanto em tão pouco tempo, mas sei que não é euforia de momento! Você me dá paz, me tranqüiliza, me deixa feliz, com vontade de viver! Você trouxe luz a minha vida! Por favor, fique do meu lado até nossos últimos dias. -- ajoelhou-se -- Eu amo você, Olga!
--Sim, eu quero ficar com você até nossos últimos dias! -- puxou-o com delicadeza para que se levantasse e ele assim o fez -- Porque você é o presente que Deus me enviou para tornar o outono da minha vida mais feliz! Você é aquela cor bonita do meu sol da tarde, você é o vento tranqüilo que preenche todos os espaços sem arruaça e torna meus dias mais agradáveis. Você é a música suave que me invade, me emociona e me faz sorrir! Também te amo, querido!
--Meus queridos... Que o amor de vocês seja a força a uni-los por toda vida! -- Ivone sorriu -- Podem se beijar!
Eles assim o fizeram e todos aplaudiram.
--Que casamento chique! -- Ana cochichou com a filha enquanto batia palmas -- E bonito! -- secou uma lágrima -- Devem ter gasto uma fortuna!
--Aí é que se engana! Tudo nesse casamento foi presente de alguém. Seyyed só pagou o aluguel do clube e nem foi tão caro.
--Que pena que você não pode ter uma festa dessas... -- lamentou suspirando -- Se casasse com um homem poderia ter... e poderia convidar as pessoas todas e seria uma coisa natural... ninguém te condenaria, ninguém zombaria... que pena que escolheu o caminho mais difícil pra seguir...
--O que tanto fala que eu não ouço nada? -- a ruiva perguntou curiosa
--Nada, minha filha! -- sorriu disfarçando a momentânea tristeza -- Eu não disse nada...
****
Durante o almoço os convidados estavam dispostos em mesas para dez pessoas. Comida e bebida farta de boa qualidade.
--Que carne dura! -- Alípio reclamou -- Meus dentes já estão doendo! -- levou a mão ao queixo -- Os legumes estão crus e também são duros como pedra! E a salada? Parece que está cheia de bichos!
--Mas o bom é que o senhor já comeu tudo, não é tio? -- Mariângela beliscou a coxa da filha -- Ai... -- Camille olhou para a mãe chateada
--Esse casamento está chique como foi o casamento de Vanda, não é filha? -- Rosa perguntou olhando para ela
Camille se engasgou com a bebida ao ouvir tamanha mentira.
--Gente, mas estou pasmo com essas crianças! -- Mateus exclamou -- Estão comendo sem brincar com a comida!
Enquanto isso Suzana mantinha os olhos firmes nas duas crianças.
--Suzana, por que olha tão desconfiada pras crianças daquele pessoal? -- Juliana perguntou intrigada
--Eu me propus a cuidar da segurança desse casamento, Ju. Tô de olho em tudo! Inclusive nessas duas criONÇAS! Reconheço uma de longe! -- continuava olhando
--Humpf! O que mais se vê é isso! Os pais deixam os filhos fazerem o que bem entendem! -- a enfermeira respondeu enquanto comia -- Só faltam arriar as calças pras crianças baterem na bunda deles!
Na hora da dança, Olga e Mariano, Seyyed e Isa, Tatiana e Renan e Flávia e Fábio se acabavam de tanto curtir as músicas. Vários outros convidados também dançavam muito. Rodrigo convidou quase todas as mulheres do casamento para ir com ele para a pista; sempre com segundas intenções.
--Vamos dançar, Su? -- pedia -- Vamos, vamos??
--Eu não danço, Juliana! -- respondeu envergonhada -- Mas pode dançar com aquele sujeito que tá catando papel na ventania. -- olhou bem para ela -- Se ele vier de gracinha me faz um sinal que dou um jeito no elemento! -- a japonesa suspirou chateada
--E então, Camille? -- Fátima aproximava-se da loura -- Será que podemos conversar?
A loura puxou uma cadeira. -- Sente-se aqui! -- e a nadadora se sentou -- Como vai o braço?
--Antes todos diziam ‘não’; agora dizem ‘talvez’. -- sorriu -- Algo me diz que não perco as olimpíadas! Só terei um pouco mais de trabalho, mas quem tem medo disso?
--Como sempre otimista... -- sorriu -- Vai dar tudo certo... e você não tinha medo nem quando todos diziam ‘não’!
--“Aprendi, com a natureza, a me deixar cortar e voltar sempre inteira.”14 -- pausou --Chateada porque sua mãe nos convidou? Eu só vim porque mamãe queria muito... Fazia tempo que ela não ia a uma festa.
--Não... sim... -- suspirou -- Ah, sei lá... Como disse, você me confunde...
--Senti muito sua falta...
--E eu a sua... -- pausou -- Mas vamos manter as coisas como estão, tudo bem?
--Fazer o que? -- respondeu desanimada -- Você não quer nem ser minha amiga...
--Sabe que não haveria só amizade! Sabe disso!
--É... talvez tenha razão... -- pausou -- Mas acho uma pena, porque estava desejosa de conhecer o seu rico universo interior.
--Como sabe que é rico?
--As conchas muito duras costumam esconder pérolas em seu interior.
Camille olhou para Fátima. Como tinha vontade de tentar com ela! Faltava apenas coragem. Respirou fundo e olhou para as pessoas que dançavam.
--Esse casamento tem mais gente do que eu imaginei que fosse ter! Dá uma agonia isso...
--Você agora me lembrou uma frase que Luca gosta de dizer: “Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas...”15 -- riu
--Meu caso deve ser bem esse... Ou simplesmente frescura mesmo.
--Gostava de dançar, pequena?
--Sim... Nunca fui grande dançarina mas eu gostava.
--Eu também... Mas às vezes me arrisco, dependendo do lugar. -- Camille nada respondeu -- Seyyed está aqui, com toda certeza. Ela dança?
--Eu hein, Fátima? -- perguntou constrangida -- E eu lá presto atenção no que ela faz... -- mentiu
Como se pudesse ver, Fátima perguntou isso exatamente no momento em que Camille observava a morena alegremente dançando com Isa.
--Você mente tão mal... -- riu -- Mas, mudemos de assunto. Conte-me as novidades!
--Nem me fale! Terei uma semana infernal pela frente!
--Por que???
--Minha prima, o marido e os dois filhos mini psicopatas ficarão lá em casa até domingo! Tô a ponto de surtar!
Fátima riu gostosamente. -- Posso imaginar! Mas é bom pra você! Um exercício pra sua tolerância e capacidade de suportar as provas da vida.
--Queria te pedir um favor.
--Quantos quiser.
--Me leva cigarro na prisão?
Fátima riu de novo. -- Que papo é esse de prisão? E você por acaso fuma, criatura?
--É pra usar como moeda de troca com as outras presas. Lá deve ter uma pá de sapatão e eu não quero virar bonequinha de ninguém!
--E por que será presa? Vai matar os mini psicopatas? -- continuava rindo
--Eles e os pais, porque quem cria esses selvagens merece um castigo pra deixar de ser canalha! Anote aí: hoje, 29 de abril de 2001 pode ser o último dia de Camille em liberdade.
--Ai pequena... eu dava os dois braços pra poder ver você e essas crianças juntas...
***
Suzana estava na delegacia. Fazia pouco mais de uma semana que não via Juliana e pensava na forma como daria um fora nela. Queria deixá-la com raiva para que a enfermeira não quisesse insistir no relacionamento, mas ao mesmo tempo o coração doía só de pensar nisso.
Lembrava-se de que Tatiana contou do sonho com Patrícia, no qual a jovem a pedia para se afastar. Certamente se afastar da japonesa, para que não acontecesse o pior a ela. E como doía...
Largou os papéis sobre a mesa e levantou para esticar as costas. Nesse momento, Juliana chega esbaforida. Estava ainda vestida de branco. Macumba vinha correndo logo atrás dela.
--Você tem fugido de mim, Suzana! -- foi a primeira coisa que disse -- Eu vim aqui saber o que está havendo!
--Delegada, eu tentei evitar mas essa mulher... -- Macumba tentou se justificar
--Tudo bem! -- olhava para a japonesa -- Pode deixar.
--Vai me dizer o que está havendo? -- pôs as mãos na cintura
--Vem comigo! -- pegou o blazer, vestiu e foi saindo. Juliana veio logo atrás -- Tá de carro?
--Não acredito que não sabe que ainda não me acertei com a seguradora e tô a pé! --respondeu chateada
--Eu não vivo prestando atenção a tudo na sua vida, garota! Tenho mais com o que me ocupar! -- respondeu com impaciência
Juliana entristeceu ao ouvir essa resposta. -- Nunca falou comigo desse jeito!
A delegada quis tomá-la nos braços quando a olhou nos olhos, mas fingiu com todas as forças que não sentia nada. Estava acostumada a esconder seus sentimentos.
--Eu tava pensando em quando e como te dizer isso e acho que o momento é esse. -- pôs as mãos na cintura
--Dizer o que? -- perguntou preocupada
--Que eu não quero mais nada contigo! -- respondeu friamente -- Minha vida ficou muito complicada depois de você e eu já me enchi de tudo isso! -- Juliana ficou boquiaberta -- Eu não quero viver preocupada com a sua segurança e nem quero me envolver na sua vida porque é uma coisa que me causa distúrbio e eu me enchi. Passei vinte anos sozinha e assim posso continuar... Pra dizer a verdade, vivo sozinha desde os quinze anos e me acostumei com isso! Você é só aporrinhação!
--Eu não acredito em você! -- balançava a cabeça
--E se quer saber não me agrada aquele seu grude com a mãe de Seyyed! E esse seu papo espiritual, essas coisas todas que você se mete a fazer... Isso é um saco!
--Eu sei que você me ama...
--Juliana, acorda pra vida! -- segurou-a pelos ombros -- Será que nem fazendo terapia você consegue aprender a levar um fora de alguém? Olha nos meus olhos e copia minha mensagem: eu não te amo, eu não te quero, eu cansei de você, eu enchi o saco, droga!! -- gritou
A japonesa se libertou e se afastou da outra. Passou as mãos nos cabelos e olhou para a delegada com muita tristeza. -- Você disse que me amava... -- uma lágrima rolou-lhe pelo rosto
Suzana sentiu uma dor intraduzível, mas não deixou transparecer. -- Eu me enganei! Sou uma verdadeira ignorante nessa coisa de relacionamento e confundi tesão com amor! Agora suma daqui e nunca mais volte a me procurar! -- falou rispidamente
--Su, escuta! Está querendo que eu te odeie pra garantir que nada de mal vai me acontecer, mas eu não quero me afastar. Eu te amo...
--Vá embora daqui!
--Su!
--Vá embora daqui! -- berrou enfurecida
https://www.youtube.com/watch?v=OrVFYsc6gAI
“Pra que falar,
Se você não quer me ouvir?
Fugir agora não resolve nada...”
A delegada sabia perfeitamente se esconder por detrás de uma expressão fria e Juliana, em vão, lançou-lhe um último olhar como se procurasse algum vestígio de sentimento nela, mas nada encontrou. Respirou profundamente e partiu caminhando para longe da delegacia.
“Mas não vou chorar,
Se você quiser partir,
Às vezes a distância ajuda,
E essa tempestade um dia vai acabar...”
--Eu te amo, Juliana! -- sussurrou para si mesma -- Espero que um dia possa me perdoar...
A enfermeira seguia caminhando como se as pernas não mais a obedecessem. Não sabia para onde ir. Estava confusa.
“Só quero te lembrar,
De quando a gente andava nas estrelas,
Das horas lindas que passamos juntos...”
--Eu não acredito em você, Suzana... -- dizia para si mesma como quem repete um mantra -- eu não acredito...
“E hoje eu tenho certeza,
A nossa história não termina agora,
Pois essa tempestade um dia vai acabar...”
Suzana acompanhava a amante lentamente sumir de seu campo de visão e chorava por dentro, guardando todas as lágrimas em si mesma, como fez por tantas vezes.
“Quando a chuva passar,
Quando o tempo abrir,
Abre a janela e veja eu sou o sol...”
--Eu não acredito em você, Suzana... -- continuava repetindo com o olhar perdido
“E o meu amor é a imensidão...”
Quando a Chuva Passar -- Ivete Sangalo [a]
17:00h. 21 de maio de 2001, Edifício Rubro Negro, Flamengo, Rio de Janeiro
Tatiana estava estudando quando foi desconcentrada por Lady fazendo escândalo. --Amiga, socorro, vem aqui!! Socorro!!! -- gritava do seu quarto
--Mas o que aconteceu, mulher? Num dou conta desse fuzuê! -- pulou da cama e correu para o quarto da outra
Lady estava encostada na parede olhando fixamente para uma enorme barata no chão. -- Mata, mata, eu morro de medo de barata, aaaaaaaahhh!! -- gritou
--Calma, mulher! -- tirou o chinelo e tentou acertar o inseto que voou para outra posição pousando na cortina
--Ai, ela voa, ela voa, socorro!!!! -- subiu na cama apavorada
--Pousou muito lá no alto! -- Tatiana tentava alcançá-la sem sucesso
--Ai, socorro, ai, ai!!!
A barata voou novamente e pousou na cabeça de Lady que gritou desesperada e, por um ato reflexo, pegou o inseto e fechou a mão. A garota gritava como louca olhando para a própria mão fechada em desespero.
--Lady, abre essa mão, mulher!!! -- Tatiana pedia impaciente
--Ah, ah, ah, ah, ai misericórdia, ai, ai, ai, aahahahahah!!! -- gritava
Priscila chegou em casa nesse momento e ouviu a gritaria.
--Humpf! Lady decidiu trans*r com Kawai dentro de casa, que inferno! -- revirou os olhos
--Ai, ai, ai, ai, ah, ah, ah!!!! -- gritava e respirava ofegante
Priscila entrou no seu quarto e começou a trocar de roupa. Estava contrariada achando aquilo tudo um abuso.
--Calma, Lady. Eu sei que é difícil, mas vai abrindo devagar! -- Tatiana pediu com delicadeza
--O que???? -- Priscila arregalou os olhos
--Ai, eu não consigo, não consigo!!! Ai, ai, ai, ai, meu Pai, ai meu Pai!! -- gritava e respirava com nervosismo
--Lady, por favor! Confia em mim! Vai abrindo devagar!
--Minha nossa! – Priscila estava em choque
--AAAAAHHHH!!! -- Lady gritou ainda mais alto
--Solta essa barata, Lady!!! -- Tatiana gritou -- Solta essa barata!!!
--Ah, não!!! -- Priscila exclamou revoltada e correu para o quarto da outra
Nesse momento Lady ensaia um desmaio e Tatiana corre para segurá-la. As duas caem abraçadas na cama.
--Pára tudo!!! -- Priscila chegou apavorada e se chocou com a cena -- Tatiana, saia dessa cama imediatamente!
A outra levantou-se de um pulo e disse: -- Você não sabe o que aconteceu aqui!
--E nem quero saber! -- segurou a outra pelos ombros -- Por favor me escuta: seja lá o que aconteceu entre você e Renan, se está disposta a tentar uma coisa nova pode querer a barata de qualquer uma, mas não a da Lady, essa não!
--Hã?! -- não entendeu o que Priscila queria dizer
--Socorro... -- Lady continuava deitada e com a mão fechada -- socorro... eu não consigo abrir... -- dizia com voz fraca
--Mas... -- Priscila raciocinou -- Pensando bem vocês estão de roupa!
--Mas o que...? -- pensou -- Não acredito que pensou besteira, hein, Priscila!! Num dou conta, não!! -- Tatiana pôs as mãos na cintura -- Ela tem uma barata presa na mão e não quer abrir! -- apontou para a mão da outra
--Ela também tem outra barata... Deixa pra lá! -- olhou para Lady e depois para Tatiana -- Ai, que alívio...
--Tem base uma coisa dessa? -- deu um tapa no ombro de Priscila -- Me ajuda porque quando é fé essa criatura pode até morrer!
--Ô... -- Priscila olhou para cima como se pedisse aos céus para considerarem essa possibilidade
--Lady, levanta! -- foi até ela e deu-lhe um puxão pela outra mão -- Joga esse trem no vaso e vai lavar essa mão!
--Eu não consigo, amiga!
--Ih, quando Kawai chegar e ver isso... -- Priscila disse -- Vai terminar contigo! -- Lady prontamente correu para o banheiro. A morena olhou para Tatiana -- Ao invés de ter travado esse diálogo erótico com ela, deveria ter usado de psicologia ladyana.
--Humpf! O que eu sei é que já é a décima barata em menos de um mês! -- calçou o chinelo novamente
--Claro! Com tanta simpatia usando açúcar, mel e um monte de coisa doce, o que você queria? Me admira não haver um condomínio baratesco nesse quarto dela.
--Deixa eu te contar, as baratas que surgem aqui são tão abusadas que andam até de duas patas! E voam com dificuldade de tão bem nutridas!
--Olha, eu só te digo uma: Lady, o papagaio do cão... Tudo o que eu queria era me livrar desses dois encostos!
--Então estuda e se forma, porque no ano que vem eu vou embora pra Goiânia e você vai ficar sozinha com os dois, fi!
--Ah, não... eu não fui tão má assim pra receber esse castigo! -- olhou para cima -- Por favor, faz aparecer um marido pra essa criatura porque eu não agüento mais!
***
Ed e Isa conversavam em um barzinho.
--Eu adorei não ter tido aula hoje! Essa semana da pré estréia vai bombar e foi bom ter uma segunda-feira mais tranqüila... -- olhou para a morena -- E o Porsche, Ed?
--Agora vai, Isa! Quinta-feira entrego o carro do seu Marciano prontinho! -- sorriu
--Graças a Deus! E, provavelmente, adeus dívidas! -- bebeu um gole do suco
--Aí vou aplicar uma parte do meu dinheiro segundo o que você e Mariano me recomendaram. -- comeu o último pão de queijo
--Que bom! -- sorriu -- Vai ver como valerá a pena!
--E, dentro em breve a gente se casa! Só tô pensando em como vai ser. Dia 12 de junho é terça-feira, sabia? E eu pensando esse tempo todo que seria sábado! -- riu
--É que eu cismei com essa data! Nem parei pra olhar em calendário. -- riu também
--Depois que a gente casar vocês seguirão pra Brasília. Caso contigo na terça e você viaja na quinta! Vou casar e logo perco a mulher pro estrelato! -- limpou os dedos com um guardanapo
--E por que você não vai pra Brasília comigo? Nossa viagem de lua de mel pode ser depois, qual o problema? -- soprou um beijo para a namorada e bebeu outro gole do suco
--É... Brasília é maneiro mas eu não pensava em passar a lua de mel por lá. -- riu -- Outra coisa, temos que decidir sobre como vamos comemorar e fazer os ajustes que você quer na casa. -- bebeu o finalzinho do mate
--Amor... -- pigarreou -- temos que conversar sobre isso... Eu andei pensando e mudei de idéia... -- falou com insegurança
--Quanto ao que? -- perguntou desconfiada
Isa terminou de beber seu suco. Buscava tomar coragem para dizer o que esperava há dias.
--Eu não queria mais morar naquela casa...
--Por que?? -- perguntou em choque
--Tem Juliana demais ali...
--Como é??? -- perguntou surpresa
--Ela viveu ali contigo por dois anos...
Ed ficou sem saber o que dizer. Até derrubou o canudo do mate no chão.
--A gente podia ir morar na zona sul...
--Isa... -- passou a mão nos cabelos -- Como me diz isso assim e há menos de um mês da data que você mesma escolheu pra gente se casar?
--Eu andava pensando no momento certo pra dizer e não encontrava!
--É, você tem uma certa dificuldade com essa coisa de administrar o tempo... -- respondeu contrariada
--Por que não pensa nessa possibilidade?
--Eu nem sei o que dizer! Você me pegou de surpresa! -- cruzou os braços
--Se precisar de mais tempo podemos adiar a data. -- falou sem pensar
Seyyed olhou bem para a namorada. -- Como é?
--Ué... casar é uma coisa séria, Ed. Não pode ser assim, no susto, como foi com Juliana.
--É, não pode... -- respondeu pensativa e chateada -- E a gente também tá indo de qualquer jeito, não é? -- perguntou com um certo sarcasmo enquanto olhava para a outra
--Vamos discutir isso com calma. Você mora no Meyer há muitos anos e é hora de mudar. Aqui na zona sul é tão melhor e tem tudo! Você deixava a oficina lá, como sempre foi, e a gente vinha morar aqui. Podia ir e voltar pro trabalho de moto pra fugir do trânsito! -- sorriu
--Isa... acha que comprar um apartamento é somente escolher um lugar e pagar? Demora-se tempo pra escolher o lugar, tem que analisar as condições do imóvel, a documentação... E tem que ter dinheiro pra pagar! -- argumentou chateada
--E por acaso você não tem dinheiro? Você guarda ele pra que? Pra enterrar no caixão quando morrer? -- respondeu com certa rispidez -- Deixa de ser tão sovina e investe no nosso relacionamento! Você quer começar uma vida comigo me dando restos?
A morena levou um impacto ao ouvir aquilo. -- Você acha que eu tenho quanto dinheiro, Isa? Acha que eu tenho milhões no banco? Hein? -- reclinou-se sobre a mesa -- Quando se tem uma empresa, você ganha dinheiro com ela, mas tem conta pra pagar. Tem funcionário pra pagar. Sabia disso? Não posso parar no tempo, tenho que comprar equipamento, me atualizar, repor estoque... Eu não tenho milhões de dólares ociosos no banco esperando um capricho pra eu gastar. E não sou uma mulher mesquinha que fica se amarrando enquanto junta grana no banco por razão alguma! -- estava nitidamente zangada -- Você não sabe como tive de ralar muito pra conquistar cada coisa que tenho, garota! E eu nunca te dei restos! Se você se sente assim, alguma coisa tá errada com a gente! Eu acho que te dou até demais!
Isabela percebeu que abordou a questão de forma errada e ficou com medo de ter arruinado tudo. Não sabia o que dizer.
Seyyed olhou para o relógio. -- É melhor a gente ir embora. Amanhã é dia de trabalho, eu tenho um monte de coisas pra fazer e você anda a mil com a proximidade do espetáculo. -- acenou para o garçom e pediu a conta
--Ed... -- olhou para ela receosa -- Me perdoe, eu não deveria ter dito aquilo e não estou dizendo que não quero me casar...
--Isa! -- interrompeu-a -- Depois a gente conversa. -- abriu a carteira e pagou a conta
A morena levou a bailarina para casa e parou na porta do prédio dela.
--Zangada? -- arriscou -- Sabe que eu te amo, não sabe? -- virou-se de lado e beijou o rosto dela
--Eu acho que eu devo ter forçado uma barra contigo! -- olhou para ela
--Não, você não forçou! Eu quero muito me casar com você! -- respondeu convicta -- Eu só queria que a gente discutisse melhor...
--Isa! -- interrompeu-a novamente -- Vamos fazer assim: depois que acabar de atuar nesse espetáculo, no Rio e em todo lugar, a gente conversa com calma. E daí, talvez um dia a gente se case!
--Ed, não faz isso...
--Você me quebra muito, garota... -- respondeu como se estivesse cansada -- Vamos curtir a nossa solteirice por mais tempo. -- sorriu e olhou para o relógio -- Vai pra casa, vai? -- olhou para ela
--Eu não acho que você seja sovina ou que me dê restos, meu amor! Você é ótima, é a melhor namorada que eu poderia ter! Às vezes eu sou infeliz nos meus comentários e...
--Vai embora, Isa! -- interrompeu o que a outra dizia
--Ed, eu...
--Vai embora agora! -- repetiu com frieza
A ruiva respirou fundo, abriu a porta do carro e saiu contrariada sem se despedir ou beijar a namorada. Seyyed acompanhou-a com o olhar até que entrasse no prédio, ligou o carro e partiu decepcionada com as palavras dela e com a falta de firmeza que sentiu em Isabela mais uma vez.
Fim do capítulo
Música do Capítulo
[a] Quando a Chuva Passar. Intérprete: Ivete Sangalo. Compositor: Ramón Cruz. In: As Supernovas. Intérprete: Ivete Sangalo. Umiversal, 2005. 1 CD, faixa 8 (4min05)
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jake
Em: 16/03/2024
Lady procura tanto e acaba caindo nas mãos do Silvio.Camile não aceita ser lésbica e cria uma máscara homofobica e com isso usa mágoa mto a Fátima. A seita me dá medo .Curiosa pra saber oq liga a delegada ao velho .Ju sofre com a distância da delegada e agora com atentados Isa mais uma vez me decepciona.
Solitudine
Em: 22/03/2024
Autora da história
Lady cata papel na ventania, viu, fi? rs
Camille nega a si mesma por muito tempo. Vamos ver como e se ela vai mudar essa postura e como Fátima vai se colocar nesse meio de caminho.
A história da seita, Suzana e tal vai se esclarecendo ao longo do conto. Continue aqui!
Isa ainda é muito imatura, mas ela cresce.
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 23/03/2023
Que autora não queria uma Samira? Aproveita habibem huahuahua
Solitudine
Em: 26/03/2023
Autora da história
Pois é! Feliz de quem tem! rs
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Samirao
Em: 23/03/2023
E eu aqui lembrando que no abcles esse conto teve mais de 2000 coments
Solitudine
Em: 26/03/2023
Autora da história
Verdade!
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Seyyed
Em: 11/09/2022
Lady e o bicho dela me divertem! Hahaha Fiquei triste com a morte da Paty mas tô adorando esse mistério que você criou e a caçada da Suzana. Ela e Ju tão demais, muito da hora! Cami e Fátima é muito sofrido a loura é tensão total, dá tristeza. Isa pisaaaa puta merda! A conversa dela com a mãe foi tensa. Sufoco hein Ju? Sorte a tua que o pessoal lá em cima gosta de ti e delegada tá de quatro! hehe
Resposta do autor:
Aquela "maritaca austral" de Lady era como a dona: aprontava todas! kkk
Esse mistério foi algo que surgiu sem eu premeditar, mas depois me empolguei e o fiz crescer e se expandir. Que bom que você gostou!
Camille maltratava muito o coração da Fátima, porque também feria muito o próprio coração.
Juliana estava bem com a espiritualidade. E Suzana, você bem disse. rs
Beijos,
Sol
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Irina
Em: 10/09/2022
Kotinha, doce poetisa! Eis que vossa amiga leitora embrenhou-se pela noite e madrugada sob os encantos de Maya... Encantada estou mais uma vez!
Não há como negar que amo este conto!
Suspiros
Resposta do autor:
Olá querida!
E que bom que você ama!!!
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 01/05/2022
Amore olha os coments chegando! Quero ver Maya com 2000 igual foi no abcLes!
Resposta do autor:
Boa tarde, Samirão! kkk
Você está sempre de olho, não é? Fico impressionada!
Mas não fique aí alimentando muitas expectativas. Voltar ao patamar de 2000 comentários como aconteceu no abcLés é uma hipótese extremamente remota. Na ocasião tínhamos umas sete comentadoras fiéis, que escreviam muito, e mais várias outras eventuais. Não será assim, até porque o conto está concluso há muito tempo e a imensa maioria dessas comentadoras não leem mais o que escrevo, ao que tudo indica. Já lhe disse e repito: não se preocupe com estas coisas.
Porém, digo de coração que acho muito bacana que você se preocupe, mesmo que brigue comigo por causa disso de quando em vez! rs
Beijos,
Sol
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Samira Haddad
Em: 23/04/2020
O episódio de Lady e Silvio e o vinho crescendo na boca! uauauaua
Resposta do autor:
Isso tem história, não é? kkkk
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Gabi2020
Em: 16/04/2020
Solzinha!!
Faz um spin off da Lady , ela é demais!! Kkkk...
Lendo hoje é impossivel negar a química entre Camille e Fatima, muito fofas e Camille cabeção nessa fase.
Isa tão bobinha, tão infantil, tão egoísta, ou seja, uma chata completa, que se deixava levar pelas bobagens da mãe. Não dá pra defender.
Beijos
Resposta do autor:
Eita, que nessa releitura a bailarina está sendo nocauteada! kkk Calma, Gabinha. Você sabe que a ruiva dará uma senhora volta por cima.
Quanto a Camille e Fátima, na época quase ninguém percebeu esta química. Só no final.
Spin off de Lady só depois do Tao! Senão o que fazer com aquele pobre conto?
Beijos!!
Sol
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Solitudine Em: 14/06/2024 Autora da história
Olá querida!
Essa mulherada vai viver é coisa!
Isa ainda é muito menina e imatura.
Sim, Suzana ainda perde para o velho. Mas ela vai ficar esperta! rs
Beijos,
Sol