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  • Sob o Encanto de Maya
  • Segunda Temporada - ENTRELAÇADAS I

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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

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Palavras: 32213
Acessos: 10937   |  Postado em: 31/12/2017

Notas iniciais:

Na medida em que nossa concepção de mundo permanece fragmentada, na medida em que continuamos sob o encanto de Maya e pensamos estar separados do meio e das pessoas que nos cercam, agimos como se fôssemos senhores do tempo e da vida, sem pensar nas conseqüências inevitáveis de nossos atos. Iludidos somos em querer acreditar que existe liberdade sem responsabilidade... Estamos todos interligados.

 

“Isto sabemos,

Todas as coisas estão ligadas,

Como o sangue

Que une uma família...

Tudo o que acontece com a Terra,

Acontece com os filhos e filhas da Terra.

O ser humano não tece a teia da vida;

Ele é apenas um fio.

Tudo o que faz à teia,

Ele faz a si mesmo.”1

Segunda Temporada - ENTRELAÇADAS I

 

 

 

 

06:40h. 07 de março de 2001, Edifício Rubro Negro, Flamengo, Rio de Janeiro


Priscila e Tatiana tomavam café e se preparavam para mais um dia de aulas. Lady acordou um pouco mais tarde e se uniu a elas.



--Bom dia meninas! -- sorriu -- Ai, tô atrasada e tenho que voar! -- pegou duas bananas e uma caixa de sucrilhos



--Você não disse que só tem aulas à tarde? -- Priscila perguntou desconfiada



--Sim, mas eu tenho que ir pra Lagoa a tempo de pegar o treino dos rapazes. -- pegou a caixa de leite na geladeira


--Treino dos rapazes?! Do que você tá falando? -- Tatiana perguntou sem entender


--Gente, mas vocês não sabem nada! -- riu enquanto se servia -- A equipe de remo do Vasco da Gama vai estar lá! Isso quer dizer: homens, pretendentes, um futuro namorado, um marido! -- começou a comer


--Lady... -- Priscila tomava os últimos goles de café -- esses caras que praticam esporte, ainda mais na frente dos amigos, ficam uns esnobes. E eles estão acostumados com o assédio das garotas, são super galinhas e acham que todo mundo é piranha! Você, se quiser, poderá ir pra cama com a equipe inteira, porque estarão todos disponíveis pra sacanagem, mas não vai arrumar um namorado. Vai é ficar com má fama e se aborrecer.


--Ou então se pegar com um que vai te chifrar por demais. -- Tatiana complementou


--Ai, gente... acontece que as mulheres de hoje em dia são muito fáceis e por isso eles agem assim. Eu não saio por aí indo pra cama com qualquer um. Sou moça de família e isso é nítido! -- comia -- Eles vão notar isso. Aí vão querer coisa séria!


--Você é tão machista, Lady! -- Tatiana respondeu revoltada


--E totalmente desprovida de noção! – Priscila complementou


--Os homens de todas as épocas sempre foram fáceis e nem por isso a gente sai por aí com todos. É um absurdo justificar a galinhagem de uma pessoa por causa de outra! -- Tatiana protestou -- Tem base isso não!


--Vocês vão ver como é que eu vou arrumar um namorado bonito, sarado e sério pra casar! -- deu outra colherada -- As duas são feministas demais, Deus me guarde! -- revirou os olhos


--Você vai é quebrar a cara, mas é problema seu. -- Priscila acabou de comer -- O que me importa é que dê um jeito naquele teu papagaio possuído!


--Papagaio não; maritaca austral! -- respondeu chateada -- E o que tem ele?


--Eu fui beber um copo d’água na cozinha ontem à noite e ouvi uma voz diabólica dizendo: “Sangue, treva, fogo...”, quase morri de medo! Quando fui procurar da onde vinha a voz dei de cara com teu bicho; os olhos esbugalhados, coisa mais horrível!


--O que??? -- perguntou em choque -- Você sonhou!! Clint não fala! Maritacas austrais não falam como papagaios e por isso não incomodam. São silenciosas e agradáveis parceiras!


--Você me disse isso no dia em que chegou aqui, mas quando minhas irmãs estavam nessa casa, Tamires me acordou apavorada por conta de vozes na cozinha. Fomos ver o que era e não deu outra: Clint com o mesmo papo brabo que Priscila ouviu! -- Tatiana relembrou o caso da semana do carnaval -- Esse teu papagaio não é de Deus não, viu, fi?


--Ai, não gente... vocês pegaram implicância com meu bichinho... Ele tá comigo há dois anos e eu nunca ouvi nada!


--Claro! Você tem um sono pesado pra danar! -- Priscila respondeu enquanto lavava a própria louça


--Deixa eu te perguntar, onde você comprou ele? -- Tatiana perguntou no momento em que se levantou da mesa


--Ganhei de presente de um tio meu. -- continuava comendo


--Então procura saber com ele da onde esse bicho veio, porque é possuído! -- Priscila colocou a louça para secar -- E agora tchauzinho porque hoje é dia de prova! -- saiu da cozinha


Tatiana lavou sua louça rapidamente e se despediu também. -- Se cuida, hein, garota? E não vai fazer papel de caipira de Pau d’Arco pra remador! -- olhou para Lady --Tchau! -- saiu da cozinha


--Tchau! -- respondeu em voz alta -- Eu hein... essas garotas são implicantes! -- resmungou sozinha -- Onde já se viu, Clint falando... Loucas! Elas é que são caipiras...  -- deu mais uma colherada -- Quando me virem toda linda, vestida de noiva com um noivo remador vão morrer de inveja!

***


Camille estava no computador lendo o arquivo que Conceição lhe enviou. Era o edital de transferência e isenção do ano de 2001.


--Mãe, corre aqui!!! -- Camille gritou animada -- De acordo com o edital vai ter vaga de transferência pra engenharia de produção da UFRJ pro segundo semestre!!


Mariângela veio correndo.


--E o que isso quer dizer? -- perguntou sorridente -- Explica!


--Quer dizer que são vagas no segundo semestre pra alunos transferidos. Ouve só: “Transferência externa facultativa: os alunos regularmente matriculados em cursos de graduação no Brasil (com matrícula ativa ou com matrícula trancada) no ano letivo de 2001, em outras instituições de ensino superior reconhecidas pelos órgãos competentes.” -- olhou para ela -- É o meu caso!


--E que documentos você precisa pedir pra sua universidade? -- sentou-se na cama da filha


--Um comprovante de matrícula e o histórico. -- continuava lendo o documento -- Vou ter que fazer uma prova específica e uma redação. Mas isso aqui no Rio.


--Ah, você tira de letra! -- Mariângela sorriu -- Além do mais, sempre escreveu bem!


--As notas dessas provas aí é que decidem quem pega as vagas. -- lia o documento -- São provas classificatórias e eliminatórias.


--Quantas vagas tem pra aluno transferido?


--Deixa eu ver... -- pausou -- UMA?! Ô louco, meu! Puta que pariu, porca miséria! Porr*!!! Droga!!!!


--Camille!! -- ralhou de cara feia -- Será possível que dessa boca só sai palavrão?


--Ai, mãe, que droga! -- pausou - E ainda tem mais outra: o número de períodos que serão cursados na federal daqui tem que ser maior do que o número de períodos que eu cursei lá... -- olhou para a mãe com tristeza -- Já era...


--Calma, filha, tenha fé! -- ajoelhou-se perto dela -- Ligue pra dona Conceição e vamos marcar uma entrevista com ela. Vamos explicar o seu caso... Há de haver solução! -- Camille respirou fundo e olhou para o teto -- Faça isso que te pedi! -- a moça olhou para ela de novo -- Veja, estamos sempre orando por você e Deus pôs Tatiana em nosso caminho que nos levou até dona Conceição. Ela pode nos aconselhar...


--Mãe, essas normas são da federal daqui! -- respondeu impaciente -- Dona Conceição é da federal de lá! Ela não tem como fazer nada!


--Mas pode nos orientar! Pode conhecer alguém aqui no Rio! Ligue pra ela e peça uma entrevista! -- pausou -- Mas seja humilde, tenha paciência e fale com a mulher com jeito de gente, pelo amor de Deus! -- levantou-se -- Não vá mandar ela tomar aqui ou ali!


Camille ficou pensativa e perguntou: -- Você me acha uma grossa, não é mãe?


--E por acaso você não é? -- pôs as mãos na cintura -- Agora deixe de enrolação e cuide de sua vida porque já perdeu tempo demais! -- saiu do quarto


Camille ficou pensando quanto ao que fazer. -- Que merd*!!! -- berrou


--Olha a boca menina!! -- a mãe ralhou gritando da cozinha

***

Sabrina estava em uma casa de sucos da zona sul paquerando uma garota, que se despediu deixando o telefone. A moça ficou sorrindo sozinha pensando no que gostaria de fazer na cama com aquela bela mulata que acabava de partir. Estava perdida em seus pensamentos quando foi abordada por uma mulher negra de meia idade e aspecto humilde.


--Com licença, filha. -- abordou-a humildemente -- Você é Sabrina Magalhães?


--Sou... -- respondeu desconfiada -- E a senhora, quem é?


--Você não me conhece, meu nome é Sueli. -- pausou -- Meu filho é seu fã. Ele ficou até tarde acordado vendo sua entrevista no Lô. Eu só deixei porque ele queria muito...


--Ah! -- Sabrina sorriu de orelha a orelha -- Ele gosta de escaladas?


--Ele nunca subiu nessas pedronas tão altas porque é novinho, só tem treze anos... mas ele é seu fã desde que a TV falou de você porque foi pra um lugar danado de longe. E aí quando soube da entrevista no Lô ficou doidinho pra assistir... -- sorriu -- Poderia me dar um autógrafo? Ele ficaria feliz... -- pediu sem graça


--Claro!!! A senhora tem um papel? -- sentia-se celebridade


--Tenho. -- abriu a bolsinha e tirou uma pequena folha -- O nome dele é Paulinho. -- estendeu o papel para a moça


Sabrina escreveu uma pequena dedicatória e assinou. “Nossa, meu primeiro autógrafo!” -- pensou -- Tome aqui! -- estendeu o papel para ela de volta


--E tem também outra coisa... -- pegou o papel e guardou -- Na verdade eu queria falar com você por outra razão... -- pausou -- Eu devo muito a falecida Patrícia e ela era sua... companheira, não é? -- perguntou constrangida


--Ah, eu... -- Sabrina não esperava por aquilo e ficou sem ter o que dizer -- Patrícia era...


--Eu não quero ser inconveniente... -- interrompeu a escaladora com muita educação -- O fato é que Paulinho não era registrado no nome do pai e ele me cobrava muito por isso porque tinha vergonha dos pontinhos na certidão e nos papéis da escola. Eu sou uma burra, não tenho estudo, e não sabia o que fazer e como fazer... sou diarista e não entendo de lei, de fórum... Patrícia me ajudou, me deu orientação... ela acompanhou o processo todo mas não viu o final. -- sorriu -- O pai teve que registrar o menino! Não tem argumento contra o tal do DNA, sabe? E agora José tem até que pagar pensão e isso mudou tudo na vida da gente. -- pausou. Estava emocionada -- Eu queria muito agradecer a ela por tudo que fez... mas como não pude... -- olhou para Sabrina -- agradeço você!


Sabrina não sabia o que dizer. Estava surpresa, sem graça e um pouco emocionada.


--Eu... eu... -- passou a mão no rosto -- Acho que ela ficaria imensamente feliz em saber disso. -- sentia-se desconsertada


--Meu filho disse que quando tiver uma filha o nome dela vai ser Patrícia. E que ele vai ser um pai muito bom. -- sorriu


--Tenho certeza  que vai... -- Sabrina respondeu emocionada


--Eu sou cristã e muita gente na minha religião condena mulheres como você e Patrícia... -- pausou -- De minha parte considero que o papel do cristão não é julgar. O papel do cristão é fazer com que a Luz do mestre Jesus brilhe diante de todos. Eu não entendo como pode ser assim, como vocês são, mas não condeno. Jesus não condenou os pecadores, por que eu faria isso? Quem sou eu?  À Patrícia só dedico minha gratidão e respeito.


--Nossa, eu nem sei o que dizer!


--Bem... -- passou as mãos nos olhos -- Eu não esperava encontrá-la aqui, estou voltando do serviço... Acho que foi Deus que me ouviu pedir uma chance de poder mostrar minha gratidão... Eu oro todos os dias pra pegarem os homens que fizeram aquilo. Creio na Palavra que diz: “bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados.”2


--Obrigada!


--Tchau. -- despediu-se e partiu


--Tchau...


Sabrina ficou tocada pelo que ouviu e pensou que talvez Patrícia fosse uma pessoa muito bonita que ela não se deu ao trabalho de conhecer.


“Se eu pudesse voltar no tempo...” -- tentava não chorar


E uma música tocando no rádio servia de pano de fundo para seus conflitos internos.


https://www.youtube.com/watch?v=a6uU2psAAwg

“Meu caminho é cada manhã,
Não procure saber onde estou,
Meu destino não é de ninguém,
Eu não deixo meus passos no chão,
Se você não me entende, não vê,
Se não me vê, não entende.
Não procure saber onde estou,
Se o meu jeito te surpreende...”


A escaladora lembrou-se de todas as vezes em que tratou Patrícia mal.


“Se um dia eu pudesse ver,
Meu passado inteiro,
E fizesse parar de chover,
Nos primeiros erros...”


E sentia muito arrependimento.

"Mas só chove, chove,
Chove, chove...”
Primeiros Erros - Simonny [a]



22:00h. 12 de março de 2001, ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA E DESPORTOS, Ilha do Fundão, Rio de Janeiro


Seyyed esperava pela namorada de braços cruzados e encostada no carro. Não demora muito avista a ruiva e sorri. A garota vinha com mais duas moças e sorri em retribuição. Despede-se das duas e se aproxima quase correndo.


--Que surpresa boa! -- abraça a morena


--Achou que eu fosse te deixar voltar sozinha? -- beijou-lhe a testa


--Adorei que viesse! -- beijou-lhe o rosto


--Vem, entra. -- abriu a porta do carro para ela -- Hora de ir embora. -- Isa sorriu e entrou. Ed deu a volta e entrou também -- E então? Como foi? -- ligou o carro e começou a dirigir. Antes, beijaram-se nos lábios


--Amor, eu adorei as aulas! -- disse animada -- Gostei da turma toda! Tivemos um alongamento como atividade de integração e ficou tudo mundo impressionado com a minha flexibilidade!


--E eles não sabem da missa a metade... -- sentiu um tapinha na coxa -- Ei! -- sorriu


--Eu sei o que quer dizer, viu, sua safada? -- sorriu


--Eu me referia ao seu profissionalismo bailarino. -- brincou -- À sua elasticidade teatral.


--Sei... -- respondeu sorrindo


--O pessoal sabe que você é bailarina profissional?


--Sim. Sou a única bailarina clássica da turma. A segunda aula foi de Arte e Movimento. Adorei o professor!


--Fico feliz que seu primeiro dia tenha sido tão bom, mas a pena é que termina tarde... Vai ser sempre assim no primeiro período, começar às seis da tarde e terminar praticamente às dez da noite?


--Lembre-se de que o curso é noturno. Sábado é que as aulas serão de manhã.


--Vai ter aula sábado?? -- olhou para ela assustada


--Sim.


--Caraca... perdi a namorada...


--Perdeu nada, sua boba! -- acariciava sua perna -- A gente dá um jeito de se ver um pouquinho nos dias de semana e teremos os domingos!


--E vai dar? Você vai trabalhar de dia e mais os ensaios... E quando for estudar pras provas? Vai ficar difícil...


--Você tá chateada por causa dos meus estudos? -- perguntou um pouco triste


--Eu tô aqui pensando... Só há um jeito de resolver isso. -- fingia seriedade


--Como? -- perguntou receosa


--Casando! -- olhou para ela sorrindo


--Boba, e eu aqui achando que você ia terminar comigo. -- beijou-lhe o rosto


--Só se eu fosse doida!


--E você, como foi seu dia?


--Muito trabalho e graças a Deus matamos todas as pendências com os clientes. Prazos cumpridos! E hoje chegaram mais três carros pra consertar.


--Que bom, amor! Logo, logo você também resolve o problema financeiro.


--Pois é... -- respondeu pensativa -- Mariano hoje descarregou a última bomba que faltava explodir! Tenho mais uma última dívida que não sabia existir. Eu podia tentar pagar logo a maior parte, mas ficaria sem dinheiro na conta e aí não rola. É perigoso isso.


--Ed, me perdoe te perguntar, mas onde você andava que não via como seu contador te roubava tanto? -- perguntou chocada


--Eu confiava nele... Aquele cara andava desempregado há séculos e fui eu quem o tirou da penúria. Acreditei que ele teria consideração... -- pausou -- Se não fosse o acompanhamento de Julinho acho que ele teria me levado à falência!


--Eu não consigo me conformar com isso! Você precisou que um jovem especial te mostrasse a corrupção acontecendo debaixo do seu nariz! -- balançou a cabeça negativamente -- Não pode confiar tanto assim nas pessoas, Seyyed! Você é inocente demais...


--Eu sei que fui boba demais nessa história, mas não pretendo desistir das pessoas só porque algumas são ingratas ou desonestas.


--Algumas?? -- perguntou revoltada -- Eu diria que a maioria é, mas enfim... Já pensou em pedir um empréstimo?


--Não... dívida não se transfere. Eu tenho que pagar isso com a grana que entra na oficina! E vou dar meu jeito...


--Ed, eu fiquei pensando... Você não aplica seu dinheiro. Por que não começa a ver isso aí? Renderia muito mais do que deixar aquela grana parada na sua conta.


--Sei não, Isa... Tenho medo dessas coisas...


--Conversa com Mariano e procura saber. Eu vou dar uma sondada no meu pai como se eu estivesse pensando em aplicar dinheiro. Ele pode sugerir algum produto interessante.


--É, eu vou conversar com Mariano sobre isso mesmo...


--Hum... -- lembrou-se -- Eu acabei de ler aquele livro que você me deu. Adorei!!! É uma leitura agradável, interessante e questionadora. O Machismo Invisível deveria ser o livro de cabeceira de toda mulher!


--Eu sabia que você ia gostar. -- sorriu -- E o mais legal é que a autora mostra que não é preciso ser anti-homem pra ser pró-mulher! -- pausou -- Olha só... A gente podia discutir essas questões filosóficas lá em casa... Dorme comigo hoje, vai? --  pediu


Ela sorriu e pegou o celular. Ligou para um número. -- Alô, pai? Mamãe está? -- pausou -- Oi mãe! -- pausou -- O primeiro dia foi ótimo e eu adorei o pessoal, os professores e as aulas. Olha só, Ed veio me buscar... vou dormir na casa dela, tá? -- pausou -- Tá, tudo bem. -- pausou -- Também, tchau! -- desligou e olhou para a namorada -- Durmo!


--Tem roupas suas lá em casa que estão no meu armário deeeesde o carnaval.


--Fala como se fizesse tanto tempo... -- riu


--“O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que lamentam, muito curto para os que festejam. Mas, para os que amam, o tempo é eternidade.”3 -- sorriu


--Hum, que lindo... -- beijou-lhe o rosto

***

Ed e Isa estavam deitadas na cama nos braços uma da outra. A ruiva de camisola e a morena de short e blusinha. Fazia muito calor e o ar condicionado estava ligado. As duas estavam de frente uma para outra.


--E então? Já pensou em todas as mudanças que quer fazer nessa casa? -- Ed perguntou sorrindo


--Já! Tenho tudo anotado. -- sorriu também


--A primeira de todas eu já executei desde o começo do nosso namoro: trocar de cama! -- riu


--Claro! Eu é que não iria me deitar com você em cama onde fazia amor com outra... -- respondeu fazendo dengo


--Relaxa, porque nessa cama aqui só você se deitou. Ela já tem até seu cheiro gostoso... -- beijou-a


--Falando em casamento, nós temos que esclarecer algumas coisinhas aqui, Seyyed Khazni... -- passou a mão nos cabelos da amante -- Por que ainda tem o telefone de Juliana gravado na memória do celular e por que ela disse que queria falar contigo sobre o aluguel? -- olhou bem para a morena -- Eu pensei que ela tava mentindo, mas depois essa história de aluguel ficou martelando na minha cabeça... Que conversa é essa?


Ed respirou fundo e respondeu: --Eu pago o aluguel dela. E dou uma espécie de pensão mensal também. -- olhou para a bailarina


--O que???????? -- perguntou revoltada sentando-se na cama -- Eu não acredito que nunca tenha me contado isso!!! -- ficou de cara feia -- Tem mais algum segredinho com essa ou com outra mulher que eu precise saber, Seyyed? -- estava furiosa


--Não era segredo, Isa. Foi simplesmente um assunto que nunca surgiu. -- sentou-se também, encostando-se na cabeceira da cama


--Claro, porque eu nunca imaginei que você sustentasse sua ex mulher até hoje! -- respondeu zangada -- Dorme com ela até hoje também?


--A última vez que dormi com ela a gente nem se conhecia, Isa. -- respondeu séria


--Por que isso? -- perguntou revoltada -- Por que faz isso, posso saber?


--Ela vivia em um apartamento alugado e trabalhava em uma pregada de lugar. Era o Silva Avelar, posto de saúde, clínica... Juliana ralava muito e ao mesmo tempo era uma enfermeira que não estava nem aí. Eu achei que tinha obrigação de dar conforto a ela e por isso pedi que ficasse trabalhando só no Silva Avelar, pois assim ela poderia se dedicar mais ao trabalho e ao mesmo tempo se sacrificar menos. E ela fez o que pedi. -- pausou -- Quando a gente se separou não tinha sentido que continuasse morando comigo, então ela teve que ir embora, e eu não podia deixá-la se virar sozinha. Afinal de contas, trabalhando somente em um lugar ela ganhava menos que antes e não tava preparada pra arcar com aluguel e todas as despesas de uma casa.


--E aí, você tinha que bancar a boazinha e ficar sustentando a pobre coitada? Até hoje? -- perguntou com agressividade e deboche


Seyyed desencostou-se da cabeceira da cama e olhou para Isa falando seriamente: -- Eu nunca fui debochada ou faltei ao respeito com você. Não vou admitir isso, viu Isa? Espero que tenha sido a última vez que falou comigo desse jeito! -- levantou-se da cama


Isabela ficou olhando para a mecânica e nada respondeu.


--Entenda o que tô lhe dizendo e tente se colocar no lugar dela. -- olhava para a ruiva -- Eu pedi pra que ela fizesse uma coisa que reduziu o salário dela. Eu a deixei sem ter onde morar. Se fossemos um casal hetero ela poderia me colocar na justiça e pleitear alguma coisa, mas somos duas mulheres! Ela não tem direito a nada meu. A Justiça não reconhece o relacionamento que tínhamos. -- pausou -- Minha obrigação era ter um mínimo de respeito pela mulher com quem me casei. -- passou a mão nos cabelos -- Mamãe arrumou o apartamento e eu fechei o aluguel com a imobiliária. O contrato termina em novembro, vai ver ela queria falar sobre isso... -- esfregou as mãos uma na outra -- E quanto a pensão é um complemento do salário. O que receberia se não tivesse largado os outros trabalhos que tinha. -- pausou brevemente -- Eu não pensei em fazer isso por ela pelo resto da vida, até porque é uma mulher jovem e saudável, mas durante o tempo em que estivesse se recuperando.


--E ela não se recupera nunca... -- reclamou

--Ela faz tratamento, Isa. Pode ter suas recaídas mas melhorou muito.


--E não moveu uma palha pra arrumar outros trabalhos. É nítido que ela se acomodou com o dinheiro que você dá, e enquanto isso você vive uma crise com as contas da oficina!


--Não é o que faço por ela que me prejudica. E eu não me arrependo de nenhum centavo gasto com ela. É o mínimo que eu poderia fazer porque tenho responsabilidades quanto a essa situação! -- pausou -- E ela, à despeito dos ciúmes, sempre foi muito companheira!


--E você paga o aluguel do apartamento onde ela dorme com a delegada... gosta de fazer papel de idiota, não é, Ed?


--Isa, escuta, -- pegou um travesseiro e um lençol no armário -- já é bem tarde e a gente trabalha amanhã. Chega dessa conversa! Se você não consegue entender ou aceitar eu não vou mais gastar tempo com explicações! -- preparou-se para sair do quarto


--Aonde vai? -- perguntou preocupada


--Dormir no outro quarto. -- deu as costas para ir embora


--Não! -- correu até ela e abraçou-lhe pela cintura -- Fica aqui, não faz isso! -- Ed não respondeu ou se mexeu -- Perdoe pelo que eu disse, perdoe pelo modo como falei com você... Perdoe, perdoe, por favor!


Ed virou-se de frente libertando-se de seu abraço e olhou para ela.


--Seja sincera, e me diga se não acha que eu seria uma cafajeste sem coração se a deixasse sem ajuda alguma? Ponha-se no lugar dela e me responda.


-- Você há de convir que é uma situação difícil pra mim...


-- Ponha-se no lugar dela e me responda! -- insistiu


--Sim... -- respondeu baixinho


--Eu não fujo das minhas responsabilidades, Isa. -- segurou o rosto dela com carinho -- Não vou ser menos mulher pra você por causa dela ou do que faça por ela. Não te traio nem em pensamento.


Isabela abraçou-se com a morena e fechou os olhos.


--Me perdoa! Sou capaz de te implorar que me perdoe! -- pediu


--Tudo bem... -- beijou sua cabeça -- Eu vou procurar por Juliana e acertar estas coisas com ela; tem minha palavra. Confie em mim.


--Eu... não tô acostumada a me colocar no lugar dos outros... não tô acostumada com pessoas que se importam com os outros, já lhe disse isso mais de uma vez... -- olhou para ela


--Confie em mim. E não vamos brigar mais!


--Não, não vamos! -- segurou seu rosto e a beijou


--Vamos dormir, -- colocou-a no colo -- que está bem tarde... -- andou até a cama e se deitou com ela



18:00h. 13 de março de 2001, Edifício Rubi, sala 1033, Centro da Cidade, Rio de Janeiro

--Eu tô péssima, Ivone! -- Juliana falava de cara feia -- Quando aquela bailarina da coxa fina me disse que estavam noivas, -- falou com despeito -- eu tive vontade de ir lá e socar a cara daquela salafrária! Parece até que cheirou uma coisa azeda que só vive com a aquela cara assim, o nariz arreganhado! -- fez uma careta achando que imitava a ruiva -- E justo agora você foi suspender a medicação que eu tomava! Preciso de mais remédios e drogas fortes! Fortes do tipo quase pra matar! Coisa de deixar abestalhada!


--Não precisa de mais remédios. Você fez uso deles na medida certa pro seu caso.


--E eu tô bem, por acaso? -- perguntou chateada -- Não curei... Olha minha cara! Pareço o cão ch*pando manga!


Ivone riu brevemente. -- Você acha que os remédios sozinhos fazem efeito? Não despreze a capacidade de auto cura que você e qualquer pessoa tem! Agora precisa começar a racionalizar, refletir e ter muita fé em Deus pra que possa se descobrir e resolver os problemas que te trazem dor e revolta.


--Eu sei quais são os meus problemas! -- respondeu impaciente -- Me dá logo um remédio de tarja roxa e acabe com isso!


--Você quer uma pílula anti-depressão, cura imediata, processo irreversível, só que esse remédio não existe! A pílula que você precisa está dentro de si mesma. Somente na interiorização, avançando e superando seus limites, sua vida será harmonizada. E isso tudo quer dizer: trabalho! -- pausou -- A vigilância sobre pensamentos e atitudes, Juliana, é o exercício diário necessário pra qualquer pessoa. -- explicava com calma -- É pela mudança de atitudes que as situações se transformarão.


--Você fala e filosofa demais, Ivone! Parece até mulher de comercial de absorvente! Em pleno período menstrual elas estão lá, de roupinha branca, passeando pelas ruas e rodopiando sorridentes e saltitantes como gazelas apaixonadas! -- falava impaciente e gesticulando muito -- Só que não é assim que a coisa funciona!


--E como funciona então? -- perguntou cruzando os braços


--Me dê um remédio bom, eu tomo, eu melhoro e fim.


--Isso não existe, meu bem. Combatendo-se os efeitos, sem cuidar das causas, você nunca vai se ver livre da depressão. O indivíduo é um todo: físico, emocional, espiritual e social. Você não encontra a cura real sem atuar em todas as esferas do ser. Se o foco recai apenas no físico, por exemplo, os sintomas desaparecem de um lado e ressurgem de outro. Quer viver em um círculo vicioso?


--Não... -- respondeu contrariada


--Você teve uma recaída por conta de uma nova constatação de perda, querida... Isso é normal. Não encare como um fracasso completo... -- falou com muita delicadeza


--Por que diz que tive uma nova constatação de perda? Por causa do noivado daquelas duas?


--Porque quando você fez amor com Suzana ficou aquele sentimento de que tinha desistido completamente de Seyyed e isso lhe entristeceu. Daí você tentou ver se havia sobrado alguma coisa do passado, Suzana percebeu isso e foi embora e você experimentou uma nova perda e mais culpa. Quando soube que Seyyed estava noiva mais certeza teve de tê-la perdido. E por fim, mais sentimento de perda e solidão. -- pausou -- Não foi isso?


--Sim... -- secou uma lágrima dos olhos


--A perda é o grande indicador da depressão. Temos grande dificuldade em lidar com perdas. Considero que todas as vezes que fatores de perda e culpa se cruzam com os da rebeldia estaremos inexoravelmente diante da depressão. É o despedaçar das ilusões... Você não aceita que sua vida tenha mudado como aconteceu quando se separou...


--Porque eu gostava muito da vida que tinha... -- chorava contidamente


--Eu sei, meu bem... -- respondeu compreensiva -- Você experimentou muitas perdas... Seus pais, seus irmãos, as pessoas com quem convivia... Você teve de se virar sozinha muito jovem, ingressou em uma carreira exigente, se decepcionou com o que viu nos hospitais, com o tão falado ‘sistema’... E aí Seyyed lhe apareceu como um bálsamo, um porto seguro, mas o relacionamento acabou...


--É isso mesmo... -- continuava chorando


--Agora vamos encarar essa situação por um novo prisma. No momento em que perde a família você conquista a oportunidade de cursar uma boa faculdade e conhece gente interessante, forma-se em uma belíssima profissão... Conforme foi se desiludindo com a profissão, conhece uma pessoa que lhe dá amor, apoio e incentivo. Depois que esta mulher cumpre um papel importante na sua vida e sai de seu caminho, outras coisas acontecem, e na luta pra superar uma adversidade você se torna uma pessoa capaz de fazer a diferença na vida dos outros. E você já fez isso por muita gente! -- pausou -- E aparece Suzana, uma mulher cheia de conflitos interiores,  mas que você está ajudando a aprender a amar de novo, e ao mesmo tempo está se dando uma nova chance...


--E estraguei tudo... -- respirou fundo e passou as mãos no rosto


--Estragou não. -- Ivone estendeu dois lenços de papel para a japonesa, que os recebeu agradecendo -- Procure-a e converse com ela. Desabafe, seja sincera, peça desculpas e ouça o que ela tem a dizer.


--E se ela não quiser me receber? -- secava o rosto


--Primeiro tente. Não sofra por antecipação.


--Eu... vou tentar.


--E não se apegue a ela como fez com sua ex. O apego excessivo assim como o desinteresse fazem muito mal.


--Hoje eu sei disso... -- respondeu pensativa


--O sofrimento ensina, meu bem. E ele persiste até que tenhamos aprendido a nos livrar dele.


--Mas eu ainda não consigo aceitar que Ed vai se casar com aquela... aquela coisinha sequinha e sem sal! Bailarina do capeta, medusa do Municipal!!


--Vai ter que aceitar, senão vai sofrer por mais quanto tempo? Não há remédio em toda a medicina que possa lhe ajudar com isso! É um trabalho que você tem que fazer por si mesma!


--Vamos orar, Ivone? -- esticou as mãos para que ela segurasse -- Preciso muito disso! Senão sou capaz de fazer alguma besteira... mais do que o meu habitual!


Ela segurou as mãos da japonesa e respondeu: -- Confia em Deus, meu amor. Nunca vai perdê-lO. -- pausou -- E esse momento ruim também vai passar!

***


Suzana estava trabalhando como louca. Não queria ter tempo livre para pensar em Juliana. Ficava na delegacia por horas a fio. Uma das coisas que estava fazendo era estudar o caso de Patrícia Feitosa. Com base em tudo o que vinha analisando desde o começo, procurou Brito para raciocinar em dupla.


--Estes caras não são simplesmente homofóbicos, daquele tipo que encontram por acidente um gay na rua e o agridem. Eles são psicopatas, reunidos em uma espécie de seita! Veja, eles escolheram Patrícia por alguma razão, pesquisaram ela e esperaram um momento pra abordá-la e então fazer o que fizeram.


--É mesmo! Aquela história da ONG, o modo como a abordaram... foi calculado!


--Tatiana afirma em seu depoimento que Klauss/Otávio disse: “Nós acompanhamos seu trabalho de mobilização popular não é de hoje e queríamos te convidar pra proferir uma palestra na nossa sede.” -- pausou -- “Acompanhamos não é de hoje!” Isso foi calculado!


--Pois é... -- Brito ficou pensativo -- Eles cometeram o crime e se separaram... Certamente iriam se reunir em outro momento e em outro lugar para pegar mais outra moça indefesa.


--E não foram só dois homens! O laudo mostra que Patrícia foi estuprada por seis a sete homens...


--Onde estão os outros?? Quem são os outros?? -- socou a mesa -- Sabe, chefe? Quando eu vejo essas coisas, dá até vergonha de ser homem...


--Não diga isso! Você e vários outros homens são honrados e merecem o nosso respeito. Essa cambada aí e tantos outros iguais a eles não são homens. Nem sei o que seriam! Mas, quanto aos assassinos, sei que José é um deles. A droga é que não temos ainda como provar.


--A Justiça novamente recusou os pedidos de Habeas Corpus de Clóvis e Otávio. Ainda bem!


--Estes dois estão ferrados: falsidade ideológica, o testemunho de Tatiana, o fragmento da blusa de Clóvis nas unhas de Patrícia, Otávio sendo surpreendido fazendo sex* com um garoto e mais o material que apreendemos nas casas dos dois. Eles não me preocupam! Quero saber é dos outros! -- ficou calada pensando


--E os desgraçados não entregam e nem confessam, não é?


--A fidelidade deles me faz pensar em uma seita, muito mais do que em uma quadrilha! -- pausou -- Acho que vou visitar a cena do crime novamente...


--Já fez isso umas cinco vezes!


--Confio muito na minha intuição, meu caro. Algo me diz que eu devo ir, e eu vou.

***


Suzana estava na rua Santo Cristo, olhando para o local onde o corpo fora encontrado. Já estava escuro.


--Alguma coisa, qualquer coisa que me dê uma luz... -- falava baixinho


Nesse momento um mendigo se mexe do outro lado do terreno. Acende uma fogueira e começa a fritar um ovo em uma frigideira velha. Decidiu ir abordá-lo.


--Salve! -- cumprimentou


--Salve. -- ele respondeu sem tirar os olhos da frigideira


--Está sempre aqui, amigo? -- ficou agachada. Ela reparou na cena e era nítido que aquele lugar era habitual para o mendigo


--Sim e não... -- respondeu desconfiado -- O que quer? -- olhou para ela


--Uma amiga minha foi encontrada morta aqui, nesse terreno, no dia 26 de outubro do ano passado... mas fizeram o serviço na noite do dia anterior. -- pausou -- Eu quero esses caras! -- olhava fixamente para ele


--Eu não tenho nada com isso. -- voltou a olhar para a frigideira


--Eu sei... Mas estes caras não pensam assim. Se você vive por aqui, eles virão te procurar. Sabe que tem uns playboyzinhos aí que gostam de matar mendigos por esporte...


--Você deve ser é cana! E eu tô fora de polícia! -- continuava olhando para a frigideira


--Tudo bem... -- levantou-se -- Aconselho a mudar de ‘casa’, porque eles virão atrás de você. Estes caras eliminam as testemunhas e sabem que morte de mendigo não dá o menor IBOPE. -- preparou-se para se afastar do homem quando reparou que havia um pedaço de pau na carrocinha dele que era idêntico ao que foi introduzido em Patrícia -- Onde arrumou isso? -- apontou para o pau


--Um pedaço de pau se acha em qualquer lixo. -- respondeu


--Sabia que, -- pegou o pedaço de pau -- um pau exatamente como esse foi usado contra minha amiga? Deste exato diâmetro, textura e comprimento. -- ficou olhando -- Parece um cabo de vassoura cortado mas não é...


--Olha, dona... -- tirou o pedaço de pau das mãos dela -- eu peguei isso aí do pessoal de um circo que andava pela Praça Onze. Peguei um só!


--Tem certeza? -- olhou seriamente para ele e segurou seu braço com força. A frigideira com o ovo caiu no chão -- Você estava aqui na noite do crime e eu quero saber como aqueles canalhas conseguiram um pau igualzinho a esse pra agredir a moça. Será que você também não participou da festa?


--Não, não, pelo amor de Deus! -- pediu com medo -- Eu tava aqui dormindo e acordei com aquele velho mexendo nas minhas coisas. Ele pegou o outro pau igual a esse e se juntou com os amigos. Foi aí que eu vi!


--Velho??? -- perguntou desconfiada -- Desembucha, homem, o que houve aqui afinal?


--Eu conto, calma... -- olhou para a frigideira virada -- Lá se foi meu jantar!


--Eu te pago comida de verdade, agora conta! -- continuava segurando o braço dele


--Foi mais ou menos assim... -- rememorou -- Eu estava dormindo debaixo dos papelões quando escutei barulho de carro e moto. Ouvi uma risadaria e vozes de homens, mas pensei que fosse sonho meu. Fiquei naquela madorna e de repente ouvi alguém se aproximar e mexer nas minhas coisas. Como o mato aqui é alto acho que ele não me viu, mas vi que um velho mexia na minha carrocinha e se foi com um pau desses na mão. Eu tinha dois deles... Isso é coisa de malabarista e eu achei interessante, por isso tinha pego pra mim.


--E aí?


--Eu me dei conta que uma mulher gritava enquanto uns homens riam. Fiquei sentado espiando e vi que batiam nela. Eles estavam em uma roda e jogavam a garota pra lá e pra cá. Aquele que mexeu nas minhas coisas se juntou a eles e jogou a garota no chão. Aí eles ficaram cantando uma música estranha e um a um começou a estuprar ela. Saí de fininho e só voltei aqui dois dias depois.


--Quantos eles eram?


--Eu não sei... Talvez uns cinco, seis homens...


--E mais o velho?


--É. -- pausou -- O tempo virou naquela noite, parecia que ia chover feio... isso aqui tava deserto. Dava medo!


Soltou o braço do homem e ficou pensando.


--Viu alguma coisa marcante nele? No tal velho? Algo de que possa se lembrar?


--Ele tinha uma barba branca enorme e usava um cordão estranho.


--Estranho como?


--Não sei dizer.


--E quanto aos outros homens?


--Eles estavam mais longe... não enxergo muito bem de dia, imagine de noite.


Suzana ficou pensativa e disse: -- É, meu amigo você vai ter que repetir essa historinha na delegacia... Porém, como já é noite, eu vou ser maneira e depois do jantar vou te hospedar lá na DP e aí você já acorda pronto pra depor... Fica uma noite sem dormir ao relento e nem precisa me agradecer. -- sorriu



10:00h. 14 de março de 2001, Oficina ESSALAAM, Meyer, Rio de Janeiro

Seyyed estava realizando uma cambagem em um carro quando Mariano veio e se aproximou dela.


--Ed? -- falou timidamente


--Sim? -- olhou para ele


--Camille conseguiu uma entrevista com uma funcionária da USP na quinta-feira que vem e eu queria saber se podia acompanhá-la. Mari também vai mas eu... eu queria ir junto.


--Pode ir. -- respondeu sorrindo -- Minha mãe me contou que Tati arrumou o contato da madrinha de Priscila. Vai dar tudo certo, pode crer.


--Eu... estou nervoso. Camille tem medo de não conseguir a transferência...


--Vá tranquilo, vai dar tudo certo, tenha fé!


--Se Deus quiser! -- sorriu -- Bem, deixa eu voltar ao trabalho. E obrigada! -- acenou com a mão e voltou para a sala onde trabalhava


Renan se aproximou.


--Ed, cadê seu carro? -- perguntou estranhando -- Tem um outro aqui do mesmo modelo  e eu queria tirar uma dúvida.


--Eu vou contigo e você me mostra a dúvida. -- chamou outro mecânico, que se aproximou  -- Termina aqui, por favor! -- disse ao rapaz e foi andando com Renan -- Meu carro tá com a Isa. Ela tá estudando de noite e eu deixei com ela.


--Eu não sei se teria coragem de deixar meu carro com a Tati... ela é meio barbeira... -- riu


--Vocês homens são muito mesquinhos com esse lance de carro, mas não esperava isso de você. -- mexeu com ele


--Ed, ela não consegue estacionar em um uma vaga enorme! Deixa o carro torto e rala o pneu no meio fio.


--Ensina a ela! Direção é prática! Se ela não praticar, nunca vai aprender.


--Mas tem que ser no meu carro? -- perguntou contrariado

***


Olga estava em uma loja do Meyer comprando coisas para crianças quando de repente três homens armados e encapuzados entram gritando: -- Todo mundo quietinho que isso aqui é um assalto!


--Ai, meu Deus!! -- Gisele se desesperou


--Calma, fique calma! -- Olga lhe pediu baixinho


Os homens vinham assaltando as pessoas e dando tabefes em quem cismavam. Algumas pessoas choravam e outras tremiam como se estivessem doentes. Quando chegou perto de Olga, um dos bandidos paralisou.


--Essa aqui não! -- apontou para ela


--Ai, meu Deus, não façam mal a gente! -- Gisele malandramente se joga em cima de Olga


--Qual é cara? -- um dos bandidos perguntou ao parceiro sem entender


--Eu disse que essa aqui não! -- pausou por segundos -- E nem essa! -- apontou Gisele


“Uff! Me dei bem com essa coroa!” -- Gisele pensou


Após fazerem a limpa no caixa da loja e nas bolsas das pessoas, os bandidos atiraram nos vidros e se mandaram. As pessoas berraram apavoradas.


--Vamos embora, dona! -- Gisele disse a Olga -- Vamos aproveitar o tumulto e sumir! -- as duas saíram de lá quase correndo


Do lado de fora e a uma boa distância da loja Gisele comentou: -- Que sorte a minha! – passou a mão no rosto -- Eu ando armada e se aqueles caras abrissem minha bolsa e dessem de cara com meu trinta e oito... a essa altura acho que estaria morta! É melhor ir de táxi pra casa. -- olhava para todos os lados


--Você anda armada?? -- Olga perguntou surpresa -- É um risco muito grande...


--Meu avô era policial. Depois que ele morreu eu passei a mão no revolver dele e fiquei usando. Já me livrou de muitas situações desagradáveis, mas sei que é um risco.


--Deus me livre de andar armada! Tenho o maior medo de armas de fogo! -- pausou -- Eu vou pra casa da minha filha e depois pra minha! Preciso beber uma água e me acalmar.


--A senhora me parecia super segura...  -- olhou para ela desconfiada


--Tenho muita fé em Deus. Mas passado o momento fica uma insegurança natural.


--Por que será que o bandido não deixou te assaltarem? -- estava curiosa


--Talvez ele seja uma das tantas crianças que passaram por nós e agora, apesar de crescido, se lembre de mim. Não seria primeira vez que vejo isso acontecer.


--Ah, a senhora faz caridade... -- concluiu -- Onde sua filha mora? Será que vamos para o mesmo lado? Eu moro na Taquara. Podemos dividir o táxi...


--Minha filha mora aqui no Meyer. Eu vou ligar e pedir pra me buscar. Infelizmente não dividirei o  táxi com você.


--Pensando bem, vou ligar pra Anselmo e pedir pra vir me buscar. Será que ficaria um pouco aqui comigo? Tô me sentindo meio perdida... -- parou de andar. Pararam em um ponto de ônibus


--Tudo bem. -- Olga sorriu


Gisele pegou o celular e ligou para Anselmo. Falou sobre o assalto, chorou um pouco, disse onde estava e depois desligou.


--Ele vem! Melhor assim, pois poupo dinheiro! -- sorriu secando as lágrimas


--De onde ele vem? Dependendo do tempo que vai levar eu espero aqui com você.


--Ele é gerente de uma agência bancária no Leblon, mas saiu de lá faz uma hora e estava no Centro da cidade por causa de nem sei o que. Então vai vir do Centro.


--Posso esperar com você um pouco. Não estou percebendo engarrafamentos então talvez ele não demore.


--Tomara! -- olhou para ela -- Não vai ligar pra sua filha?


--Por enquanto não, senão ela vai chegar aqui em dois segundos. Aí não poderei ficar com você. -- riu


--A senhora é muito gentil. -- sorriu -- Olha, desculpe fingir que lhe conhecia mas é que...


--Tudo bem. Não precisa se explicar, eu entendo.


Gisele respirou fundo e reclamou: -- Eu tinha um carro, sabe? Mas roubaram ele quando fui na praia um dia desses, acredita? E eu nem tinha seguro...


--Nossa, que situação chata!


--Nem te conto! -- sorriu -- Mas eu tô fazendo a cabeça de Anselmo e ele vai me dar um. Sabe como é um coroa com mulher mais nova, né? -- piscou


--Hum...


--E ele já tá estabilizado na carreira, ganha bem. Tem uma filha, então não me pressiona querendo filho, coisa que eu não quero... Eu pego a parte boa, sabe como é!


--Não sei, mas posso imaginar.


Gastaram um tempo conversando e Olga decidiu ligar para Seyyed. Anselmo estava demorando demais. Acabou que Ed e ele chegaram na mesma hora.


--Oi mãe! -- Ed veio na S-10 -- Tudo bem? -- perguntou preocupada e lhe abraçou -- Oi, tudo bem? -- cumprimentou Gisele


--Tudo. -- sorriu


--Vamos? -- olhou para a mãe


--Fofucha, meu amor! -- Anselmo saiu do carro e beijou a moça nos lábios. Parecia cena de filme


Ed levou um susto.


--Ih, caraca! -- exclamou surpresa


--Que foi? -- Olga perguntou sem entender


Ed foi guiando a mãe para dentro do carro enquanto que o casal continuava aos beijos. As duas entraram.


--Sabe quem é aquele cara? O beijoqueiro? -- Ed ligou o carro e preparou-se para sair


--Eu não! -- respondeu curiosa -- Quem é?


--O pai da Isa. Não lembra dele quando foram pra Manaus? -- saiu com o carro -- Caraca!

***


Juliana chegava do centro e se surpreendeu ao ver Seyyed esperando por ela no hall do prédio.


--Oi, Ed. -- cumprimentou desconfiada


--Oi Juliana. -- deu-lhe dois beijos de comadre -- Será que podemos conversar ou eu cheguei em má hora?


--Podemos sim... -- olhou para o relógio. Eram dez para às oito da noite -- Já jantou?


--Hoje eu trouxe a comida! -- mostrou duas caixas de papelão dentro de um saco plástico -- Acho que vai gostar. -- sorriu


--O que é isso tudo, Ed? -- perguntou cheia de esperanças


--Precisamos conversar. Nem você e nem eu podemos começar uma vida com outras pessoas sem antes haver uma conversa séria e equilibrada entre nós de uma vez por todas.


--É... -- respondeu desanimada -- Já era hora mesmo... Vamos subir. -- foi até o elevador

***


Ed e Juliana jantaram e conversaram sobre amenidades. Após cuidar da louça e do lixo as duas se sentaram na sala uma de frente para a outra. Não sabiam como entrar no assunto que realmente interessava até que a mecânica tentou começar: -- Parece que você queria conversar comigo sobre o aluguel... -- olhou para ela


--Pois é... o contrato vai acabar em novembro mas tô buscando um outro lugar... -- sorriu e abaixou a cabeça -- Aqui é bonito, é legal, mas está fora de minhas posses...


--Não tô te pressionando a sair daqui...


--Eu não quero mais depender de você, Ed! -- olhou para ela -- É cômodo, é conveniente, mas eu cuidei de mim sozinha desde os dezoito anos, não tem porque ficar dependente agora com trinta e seis anos na cara. -- pausou -- Eu andei apática, deixei a vida seguir como se eu fosse uma mera espectadora mas isso acabou. -- pausou -- Ainda não procurei mais outro lugar pra trabalhar mas verei isso também.


--Tudo bem... -- esfregou as mãos -- Mas me permita continuar como venho fazendo até novembro. Então você se muda e aí ficará por sua conta, sem minha interferência.


--Sem sua ajuda, quer dizer. -- cruzou as pernas


Seyyed abaixou a cabeça constrangida. -- Eu sei que não é uma situação... -- passou as mãos nos cabelos -- agradável pra você... mas eu nunca quis tirar uma de boazinha ou comprar seu perdão ou uma consciência tranqüila pra mim... -- olhou bem para ela  -- Faço o que acho que é minha obrigação!


--Eu sei, Ed... eu conheço você como é, e só por isso aceitei essa situação. Eu também... queria um vínculo com você e isso me parecia um caminho... -- pausou -- Mas é hora de superar e deixar passar... não é? -- perguntou com uma certa tristeza


--É... -- ajoelhou-se diante dela -- Será que um dia poderia me perdoar? Por todo mal que te causei? -- seu olhar era súplice e sincero


A japonesa sentiu-se verdadeiramente tocada.


--Você não me fez mal... -- acariciou o rosto dela -- nunca fez... pelo contrário! -- sorriu


--Quando eu te pedi em casamento queria que fosse pra sempre... -- uma lágrima rolou de seus olhos -- Eu queria ter sido a parceira que você idealizou a vida toda, mas não soube... eu não soube... -- outra lágrima escapou


--Eu também não... -- Juliana estava emocionada


--Não sabe o quanto eu te admiro e respeito... -- passou  mão sobre os olhos -- Eu amo você, Juliana, não do jeito como você gostaria... mas amo...


--Também te amo! E sempre vou amar...


As duas se abraçaram e a enfermeira se deu toda naquele momento. Ela sabia que nunca mais teria tal oportunidade e que outros abraços, se acontecessem, seriam breves e superficiais.


Ambas choravam; um pranto sentido e verdadeiro, carregado por silenciosos pedidos de desculpas, boas lembranças e muitas saudades. Estavam se despedindo, e Juliana pela primeira vez permitiu-se deixá-la ir. Ela entendia que um ciclo havia se encerrado e não haveria mais volta; Seyyed seguia seu caminho ao lado de outra mulher. Finalmente a japonesa percebeu que era hora de se libertar e aceitar as mudanças que inexoravelmente se impunham. Agora estava claro que não importava que o relacionamento houvesse chegado ao fim, por mais doloroso que isso fosse, o mais importante era o que havia vivido. Agora entendia que o “eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundos, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força consegue destruir.” 4

***


Suzana estava na delegacia quando um policial chega trazendo Silvio, que vinha gritando e xingando alto.


--Ei, mas que abuso é esse, aqui? -- deu um soco na mesa -- Fala baixo aí, malandragem, tá pensando o que? -- ela reclamou


--Aí, delegada, o elemento foi surpreendido fazendo sex* no meio da rua com uma piranha! -- o policial deu-lhe um tabefe na cabeça


--E cadê a mulher? -- ela perguntou


--Fugiu correndo! E a bicha corre, viu? -- exclamou impressionado -- E esse otário ficou querendo bancar o machão e brigar comigo.


--Esse cara abusa do poder! Eu quero meu advogado! -- Silvio reclamou


--Eles estavam em frente à igreja e o pessoal de lá ligou denunciando.


--Mas você é descarado mesmo, hein? Sexo na rua e em frente à igreja? Isso é atentado violento ao pudor, vai dormir no xilindró hoje.


Nesse momento Juliana chega. Os policiais ficaram de olho nela. Alguém assoviou.


--Suzana, eu preciso falar com você! -- afirmou resoluta


--Juliana, que bom que chegou! Estou sendo vítima de um processo descarado de abuso de poder. -- Silvio disse a ela -- Quero testemunhas! -- olhou-a de cima a baixo -- Nossa, mas você anda mais gostosa do que nunca, viu? -- fez voz de sedutor


--Silvio??? -- olhou surpresa -- O que faz aqui??


--Chega dessa conversa toda! -- Suzana decidiu -- Lemos, leva esse maluco pro xilindró. -- levantou-se


--Isso é abuso! Eu vou na imprensa! Eu vou no rádio! Eu vou na  TV! Eu vou... -- levou um tapa na boca


--Pro inferno, é pra lá que tu vai! -- Lemos respondeu enquanto levava Silvio para a cadeia


--Que foi que ele fez? -- Juliana perguntou curiosa


--Sexo em locais públicos! -- olhava para a japonesa


--Nossa, eu sabia que ele era galinha mas tá se superando! -- balançou a cabeça


--Da onde conhece esse? -- perguntou curiosa


--Foi funcionário de Seyyed. É mecânico. Competente, mas piranhudo até não mais poder!


--Seyyed... -- revirou os olhos -- Essa aí quando não me perturba de um jeito manda um mensageiro... -- reclamou. Aproximou-se dela e falou mais baixo -- Não devia ter vindo aqui.


--Quando você vai sair? -- perguntou -- Precisamos conversar...


Suzana reparou que os policiais presentes prestavam atenção.


--E vocês estão fazendo o que dando mole por aqui? Vambora, meu povo, trabalhando! -- bateu palmas -- Vambora! -- os homens se dispersaram


--Nós precisamos conversar! E muito! -- Juliana insistiu caprichando no seu olhar mais sedutor


--É... a gente precisa... precisa... -- Suzana reparou no decote da japonesa e desviou o olhar -- Daqui a mais meia hora eu saio.


--Posso esperar aqui? -- sentou-se e cruzou as pernas. Usava um vestido preto e muito sensual sem ser vulgar


--Você quer parar essa delegacia, não é? -- pegou o blazer -- Cobre isso aí! -- colocou-o sobre as pernas dela. Juliana achou graça


Brito chega com dois homens algemados.


--Roubo de carro! Peguei com a boca na botija!


--Ih, que gostosa! -- um dos homens disse para Juliana -- Tu é puta? -- piscou


--Que é isso??? -- a japonesa e a delegada perguntaram ao mesmo tempo -- Você perdeu a noção do perigo, malandragem? -- a morena deu-lhe um tapa na cabeça -- Brito, leva pro xilindró! -- ordenou


--Olha, eu não tenho nada com isso! -- o outro bandido afirmou -- Eu só estava de passagem quando esse doido tentou roubar o carro... e nem reparei na moça. Eu vejo mal pra cacete! -- apertou os olhos


--Deixa de ser kaozeiro, bicho besta! -- deu-lhe um tapa -- Vai pro xilindró e chega de conversa!


Brito levou os homens.

***


Suzana e Juliana faziam amor na casa da delegada.


--Ah, ah... eu adoro assim! -- respirava com sofreguidão -- Ah, ah, ai, Su!! -- fechou os olhos e gozou


Suzana gozou também e manteve-se ainda fazendo pressão com seu corpo até deixar de sentir a outra estremecer. Caminhou até a cama e deitou-se com a enfermeira.


--Cansada? -- começou a beijar o pescoço de Juliana


--Depois de ter feito amor desse jeito? -- riu brevemente -- Arrasada. Deliciosamente arrasada...


--Sério? Que pena... -- beijou-lhe o queixo -- Não estava a fim de parar...


--Eu não me incomodo que continue deitada sobre mim, mas preciso de um tempo para me recuperar... -- arranhou as costas da amante


--Precisa de um tempo e me provoca assim? -- lambeu o pescoço da outra


--Sossega, delegada faminta! -- deu-lhe um tapinha no ombro. A morena parou de lambê-la e olhou para ela -- Me imprensa literalmente contra a parede, daquele jeito faminto, e ainda quer mais? -- sorriu -- Você é terrível, sabia?


--Eu que sou?? -- Suzana riu -- Você chega toda gostosa na delegacia e eu é que sou terrível?  -- beijou-a -- Tava a ponto de bater em todo mundo por sua causa...


--Você nem me deu tempo de conversar... -- sorriu e deslizou o dedo nos lábios da amante


--Fala como se tivesse tido interesse nisso! -- beijou os dedos da japonesa


Mordeu o queixo da morena. -- Sabia que eu adoro fazer amor com você? -- sorriu -- Eu gosto do seu jeito animal...


--Gosta? -- ficou olhando para ela. Lembrou-se da existência de Seyyed -- Não... tá apenas passando o tempo. -- saiu de cima da japonesa e deitou-se de barriga para cima com um braço cruzado sob a cabeça


Juliana virou-se e ficou deitada de bruços, apoiando-se pelos cotovelos para olhar para o rosto de Suzana.


--Precisamos conversar... é sério... -- estava séria


--Eu não resisti a você e deixei rolar... mas a gente tem que conversar mesmo... Já te disse e repito que não quero ser jogadora reserva... -- olhava para a outra


A japonesa respirou fundo e disse: -- Tenho muitas coisas a lhe dizer... queria que me ouvisse.


--Já estou ouvindo.


--Eu vou ser o mais sincera possível. Deixe-me falar tudo e depois pode dizer o que quiser. -- Suzana ouviu e apenas balançou a cabeça -- Sabe que faço análise... Tenho colocado todos os fatos mais importantes pra mim durante as sessões com a psiquiatra e ela tem me ajudado a ver uma série de coisas através de uma ótica diferente. Então eu pude ser bem honesta comigo mesma e pude enxergar coisas que passavam despercebidas. -- pausou -- Quando a gente fez amor -- olhou bem para a morena -- foi como um grito de liberdade pra mim. Eu fiquei eufórica com aquilo tudo, mas depois veio uma constatação: estava desistindo completamente de Seyyed... e aquilo me entristeceu.


--Humpf! -- Suzana não gostava do que ouvia


--Eu procurei por ela, falei de nós duas, você e eu, mas no fundo queria ver se havia sobrado alguma coisa... E aí ela deixou a entender que estava mal com a namorada e isso me deixou confusa e esperançosa... Mas havia você e eu não sabia o que fazer. -- prestava atenção nas reações da outra


Suzana ficou olhando para o teto. Estava com medo do que iria ouvir e se sentia angustiada.


--Então você e eu tivemos aquela discussão e você foi embora... eu me senti passando por uma nova perda e me senti culpada por te magoar. Depois que você saiu de lá de casa daquele jeito, eu fiquei muito mal... -- pausou -- Eu fiquei ainda mais perdida e aí aproveitei de uma necessidade real e procurei Seyyed novamente, mas a namorada dela atendeu meu telefonema, não a deixou falar comigo e disse que estavam noivas. Fiquei arrasada.... Tive mais certeza de tê-la perdido e sofri bastante. Eu me senti sobrando e burra! Ao mesmo tempo, quando pensava em você me sentia uma canalha...


A delegada continuava olhando para cima, calada e sem deixar transparecer seus sentimentos. Anos de condicionamento haviam ajudado muito nesse sentido.


--Seyyed foi lá em casa anteontem e tivemos uma conversa muito franca e bonita. Nós fomos bastante sinceras uma com a outra e eu a deixei ir. Sob todos os aspectos... -- pausou -- Podemos ter amizade, mas acabou, sabe? Acabou e isso não é mais o fim do mundo pra mim. A ficha caiu, finalmente caiu... Eu pensei muito em tudo e me decidi quanto ao que vou fazer e ao que eu quero.


--O que vai fazer? -- olhou para a japonesa


--Recomeçar! Eu já me modifiquei muito no trabalho, agora vou mudar quanto às minhas expectativas. Não estou mais disposta a esperar por Ed e não quero mais viver de recordações. Eu estava iludida... agora não estou mais. Acordei! Saí do encanto...


--E o que quer?


--Ser feliz... -- olhou intensamente para morena -- Estou disposta a amar, a me envolver, a ser companheira e fiel. E não tenho mais aquela neura do ‘pra sempre’. Que dure o tempo for, mas que seja intenso e verdadeiro... Quero viver um relacionamento de verdade com você, Suzana! Somos duas sobreviventes. Eu te entendo e você pode me entender também... -- pausou por uns segundos -- Estaria disposta a me dar uma chance?


A delegada segurou seu rosto e a beijou com intensidade.

***


A campainha tocava com desespero. Mariângela estava na casa de Olga, Mariano no trabalho e Camille sozinha estudando. Com a insistência de quem estava lá fora a loura se assustou e se apressava para ver quem era. Quase se desequilibrava com as muletas.


--Calma, já vai! Ô que diabo! Se for vendedor ou gente de religião eu vou xingar muito!!! -- chegou na porta -- Gente, é Flávia! -- constatou animada -- Calma, doida! -- sorria


A fisioterapeuta entrou na casa como uma bala.


--Maluquete, você não sabe de nada!!!! Escuta essa: ganhei o Pan!! -- levantou os braços -- E por nocaute!!! -- sorriu feliz -- Foi pancadaria pra todo lado! Eu me empolguei tanto que bati no juiz e em quem tava perto! Desmaiei bem uns três! Foi animal! -- deu um soco na mão


--Gente!! -- cobriu a boca com as mãos e riu -- Parabéns, Flávia!!! Você é doida, mas merece! -- riu - E agora, o que vai ser???


--Agora vem o mundial! Já estou dentro! Minha vida daqui pra frente será treino, treino, treino, trabalho e um sex* básico pra descontrair de vez em quando. -- riu


--E vai ter festa? -- perguntou


--Só tá tendo festa! Teve festa lá, já rolaram duas festas aqui...


--Você nem me convidou... -- respondeu chateada


--Claro! Você é cheia de coisa! E a gente está com o relacionamento abalado. -- pausou -- Sem nenhum caráter lésbico nessa frase, que fique esclarecido! -- riu


--Mas se você está aqui eu acho que é porque me perdoa... não é? -- perguntou esperançosa


--Eu pensei muito no teu caso... -- sentou-se e colocou a maleta no chão -- Tua mãe me pediu, teu tio gato me pediu, Juliana me pediu, Ed me pediu, dona Olga me pediu, até Fabio me pediu... aí eu fiquei doida com tanto pedido! E você me ligou toda humilde... pensei até que fosse trote!


--Eu senti muito sua falta... -- disse de cabeça baixa


--Também senti a sua, loura Belzebu. -- pausou -- Sei que você tem ido nadar, isso é bom.


--Quem te contou? -- perguntou curiosa


--Conheço geral ali no ginásio, esqueceu? -- pausou -- E as mãos?


--Doem muito. Especialmente após usar o computador.


--Não pode exagerar na digitação.


--Estou estudando. Vou voltar pra faculdade e concluir meu curso. -- pausou -- Quer dizer, vou tentar...


--Tu vai é conseguir, sua doida! Esse negócio de só tentar não tá com nada! -- abriu a maleta -- E chega de papo porque é hora de fisioterapia! -- começou a preparar seus equipamentos -- E se prepara que hoje vou te furar toda com agulha!


--Então você voltou!!! -- exclamou excitada


--Pra bagunçar o seu penteado! -- sorriu enquanto passava um algodão embebido em álcool nos pontos onde colocaria as agulhas


--Seja bem vinda! -- Flávia espetou uma agulha no seu pulso -- Ai!!! -- reclamou


--Ih, mas já? Sempre com medo das agulhas! -- balançou a cabeça -- Nem dói...


--A gente não podia pular essa parte? -- Flávia espetou outra agulha entre o dedão e o indicador, nas costas da mão -- Que merd*!


--Olha boca! -- ralhou


--Isso é mesmo necessário? -- perguntou descrente


--Fique sabendo que a acupuntura é indicada no tratamento de mais de 45 enfermidades de acordo com um documento que a OMS divulgou em 1979! Estas agulhas aqui estimulam os pontos cutâneos de onde emergem os nervos periféricos para obter respostas reflexivas através do sistema nervoso, visando a homeostase do organismo. -- continuava aplicando agulhas -- É a terapia mais conhecida da medicina oriental e, de acordo com os budistas, estamos estimulando o seu fluxo de Ch’i.


--Ch’i? Pois eu digo: que merd*!


--Ai, maluquete... certas coisas parecem não mudar nunca... -- balançou a cabeça


--Ai!!!

***

Gisele chegou em casa às 16:00h.


--Chegou cedo, filha. -- Maria comentou


--Oi, vó. -- respondeu secamente


--Fiz bolo. Quer um pedaço? Está quentinho... -- ofereceu sorrindo


--Tô a fim não... -- entrou no quarto e fechou a porta


Maria de Lourdes era morena, gordinha, tinha 78 anos e criou Gisele desde os 9 anos da menina, após a morte de sua mãe. O pai da moça era seu filho e nunca quis nada com responsabilidade. Ele não dava notícias há 15 anos. Abandonou esposa e filha sem qualquer razão e por isso ela e o falecido marido se sentiram na obrigação de ajudar. Apesar de tudo, Gisele nunca foi sua amiga e não tinha grande respeito por ela. Para Maria, a velhice era uma fase triste da vida. Tudo parecia cinza. Sentia-se muito só e abandonada.


Sabia que a neta tinha um caso com um homem casado e que saía com um monte de homens para se divertir, mas não interferia pois quando tentava conversar a respeito quase apanhava da jovem.


Gisele era morena, magra, corpo bem feito, cabelos levemente encaracolados e olhos verdes. Trabalhava como técnica em informática e era muito boa no que fazia. No auge dos seus 22 anos, sonhava que sua empresa a transferisse para os Estados Unidos. Sua ambição desmedida fazia com que se enredasse por caminhos que Maria considerava desastrosos.


Enquanto a idosa terminava de arrumar a cozinha o telefone tocou.


--Alô?


--Oi, dona Maria. O celular da Gi tá desligado... será que ela tá em casa? -- era Anselmo


--Espere um pouco. -- deixou o telefone fora do gancho e foi chamar a neta -- Gisele, telefone!


--Quem é?


--Aquele sujeito! -- Maria não falava o nome dele


A moça saiu do quarto e correu para atender.


--Alô, fofucho? -- atendeu fazendo charme. Maria fez um bico -- E aí?


--E aí que você tá intimada a passar o final de semana comigo. Vamos pra Saquarema? Penso em te buscar por volta das sete.


--Saquarema? E tão cedo! -- reclamou -- Ah, eu também não tava pensando em viajar. Estou cansadinha... -- respondeu desanimada


--Que pena, porque eu queria que minha fofucha fosse dirigindo pra lá...


--Por que? Não tá podendo dirigir? -- não entendia o que ele pretendia


--Eu posso, mas achei que você fosse gostar de estrear seu carro novo. É 0km! -- mordeu os lábios esperando a reação dela


--AHAHAHAHAHAH!!! -- deu um berro e pulou excitada. Maria se assustou -- Claro que eu quero, claro, claro!!! -- sorriu -- Ai, amor que surpresa boa!!!


--Meu nenenzinho queria, eu não podia dizer não, meu chuchuzinho!! -- falava com voz de criança


--Ai, eu te amo, fofucho!!!


--Também te amo, fofucha!!


--Quando a gente chegar lá, vou te agradecer de um jeito tooodo especial.


--É, fofucha? -- continuava com voz de criança -- E como vai ser isso?


--O meu gnominho vai poder se esconder na caverninha da frente, na de trás... -- estava toda dengosa -- E vou dar um monte de beijinho nele...


“Minha nossa!” -- Maria pensava em choque


--É verdade? -- continuava com a voz de idiota -- O gnominho vai poder entrar na caverninha de trás? Você não deixa...


--Agora eu deixo...


--Ai, só de pensar nisso o gnominho já até colocou a cabecinha pra fora! -- apertou-se entre as pernas


--Hum... guarda ele quietinho aí, porque amanhã eu quero ele bem espertinho! -- sorriu


--Nossa... deu até um calor! – sorriu



--Então sonha comigo... Sonha com a minha caverna doida pra receber o gnominho usando seu chapeuzinho vermelho.


“Mas que conversa mais miserável!” -- Maria pensava. Decidiu ir para seu quarto e não escutar mais aquilo


--Eu vou sonhar... ai, que coisa que o tempo demora a passar... -- suspirou


--Mas passa... -- pausou -- Agora deixa eu tomar um banho e ficar bem gostosa. Vou me preparar desde já.


--Vai sim, fofucha.


--Tchau, te amo!


--Eu também! -- ouviu o telefone desligando do outro lado


Anselmo estava excitado e pegou umas folhas de papel, colocando-as na frente da virilha e correu para o banheiro antes que algum colega de trabalho percebesse aquilo.


Gisele sorriu e foi tomar um banho.


--“O maior prazer do inteligente é bancar o idiota diante de um idiota que banca o inteligente.” 5 Eu sabia que você ia me dar um carro, seu imbecil. Era só uma questão de tempo... -- riu

***


Ed havia acabado de voltar da casa da mãe. Eram nove da noite. O telefone tocou.


--Alô?


--Oi, amor... -- Isa respondeu dengosa


--Oi linda. Como está? Eu tô louca pra te ver... -- sorriu


--Eu pensava em ir pra sua casa hoje quando a aula acabar... -- sorriu


--Então vem que eu te faço uma massagem bem relaxante.


--Hum... tentador... -- pausou -- Mas sei o que vai querer em troca... -- mordeu o lábio inferior


--Quero você a noite inteira! -- respondeu com decisão


--Nossa... -- riu -- Mas eu tô cansada... e amanhã tem ensaio...


--Tudo bem, a massagem se mantém. Eu vou ser boazinha contigo...


--Sabia que eu não vou ter aula amanhã? A professora tá viajando e só volta domingo.


--Então vamos pra Saquarema? -- convidou -- Eu queria te curtir, aliviar o estresse...


--Amor, mas eu tenho que ensaiar!


--Não pode ensaiar de manhã, já que não vai ter aula? Você ensaia todo dia.


--Vou ver. Parte do grupo ensaia pela manhã. Telefono pros coreógrafos daqui a pouco e pergunto se posso me unir a eles.


--Te espero então. -- sorriu


--Beijo. Te amo!


--Também te amo!

***


Isa estava deitada somente de calcinha e de bruços, com o rosto virado para o lado apoiado sobre as mãos. Ed estava ajoelhada na altura dos quadris da namorada sem se sentar sobre ela e massageava suas costas. Usava blusa de alças e shortinho.


--Ai, você faz massagem divinamente... -- estava adorando


--Você merece. -- comprimia os ombros da jovem -- Uma estrela tem que ter tratamento de diva, não é não?


A ruiva riu. -- Com quem aprendeu a massagear assim?


--Minha primeira namorada era massagista, terapeuta, acupunturista, auriculoterapeuta e entendia de tudo um pouco. -- sorriu -- Ela me ensinou um monte de coisas interessantes...


--Hum, imagino... -- respondeu enciumada -- Mas pra ser tudo isso ela tinha que ser mais velha que você, não?


--Eu tinha dezoito e ela quarenta e um.


--Gente! -- surpreendeu-se -- Dona Olga não falava nada??


--Ah, foi meu primeiro relacionamento homossexual, eu estava me assumindo... tudo era novo pra mamãe e pra mim. Ela se preocupou, claro, mas viu que era uma coisa legal, maneira, séria... Bárbara e ela ficaram muito amigas.


--Você nunca tinha namorado ninguém antes?


--Beijei três carinhas em festas por aí, mas foi só coisa de adolescente. Relacionamento a vera foi com ela.


--Juliana é mais velha que você... Sempre namorou mulheres mais velhas?


--Pois é, até que... veio você, onze anos mais jovem. -- sorriu


--E por que fui exceção?


--Você me atraiu, me encantou e eu me apaixonei! Sabe daquelas mulheres que chegam na vida da gente pra barbarizar? Pois foi. -- brincou


--Mas por que? -- perguntou curiosa -- Por causa do seu fetiche com bailarinas? -- arriscou


--Por que acha tão estranho que eu tenha me apaixonado por você? Por que a senhora estava somente se aproveitando do meu corpinho? -- brincou -- Você foi cruel com esse pobre coração...


--Hum... -- fez beicinho -- Hoje é você quem se aproveita do meu corpinho...


Continuava massageando. Agora apertava a cintura da moça.


--Ai, que gostoso...


--Vou te deixar bem relaxada... -- percorria com as mãos uma trilha entre o pescoço e o cóccix da ruiva


--Eu tô adorando isso... -- sorria


Ed caprichou bastante. Agora cuidava dos braços dela.


--Você me pegou quase virgem, sabia? -- sorriu


--O que seria uma quase virgem? -- a morena perguntou brincando


--Eu só fiquei com um rapaz em uma festa, beijinhos e nada mais, e com Alex. E a gente só foi pra cama cinco vezes.


--Você contava? -- riu


--Eu também contava com você, mas desisti. -- sorriu


--Por que?


--Porque você me fez perder as contas...


Ed virou a jovem de barriga para cima. Deslizou as mãos delicadamente desde a cintura da ruiva até os seios. Ela sorriu.


--Viaja comigo amanhã? -- perguntou -- Conheço uma pousadinha legal em Saquarema e você adoraria... -- massageava os ombros dela


--Eu consegui antecipar o ensaio... -- sorriu -- Podemos ir sim. -- pensou -- Mas não vai ser problemático? Nós temos uma dívida... -- estava preocupada


Ed achou bonito o fato dela ter assumido a dívida como sendo conjunta. -- Não será uma diária de pousada que vai quebrar a firma, pode crer... -- sorriu -- E já que podemos ir, que bom. -- curvou-se e beijou-lhe nos lábios. Uma trilha de beijos suaves seguiu-se pelo corpo da jovem desde os lábios até o umbigo.


Isa acariciava a cabeça da mecânica.


-- Você foi o presente do meu ano 2000! -- sorriu


--E você do meu! -- olhou para ela


--Por que você não assiste meu ensaio amanhã? Aí a gente almoçava juntas e seguia viagem...


--E quem sou eu pra recusar um convite de uma estrela? -- sorriu


--Vem cá, vem? -- sorriu e abriu os braços


Ed deitou-se sobre ela e beijou-a com carinho. A bailarina abriu as pernas e envolveu a morena com elas.

***


Camille acordou nervosa e excitada. Havia acabado ter um sonho sensual envolvendo Seyyed e Fátima. Sentou-se na cama e passou as mãos nos cabelos curtos.


--Só me faltava essa! -- disse para si mesma -- Como se não bastasse tanta sapatanice na minha vida me cercando por todos os lados ainda me descubro uma devassa de marca maior. Seyyed e Fátima!! -- balançou a cabeça -- Eu devo estar enlouquecendo...


Sentou-se na cama e arrastou-se até a cadeira em frente ao computador, que estava em modo de hibernação. Ligou a máquina e acessou a história que vinha escrevendo. Já havia alguns dias que se dedicava a elaborar um conto lésbico após terminar de estudar. O nome era O Despertar de Um Desejo.


--Vou escrever esse sonho no meu conto. Mas vou colocar só duas mulheres ao invés de três porque não quero incentivar as leitoras a partir pra pouca vergonha. -- raciocinava em voz alta


Camille descobriu dois sites lésbicos e planejava submeter seu conto a ambos. Algum haveria de aceitar o trabalho. Adotou o codnome de Crisálida.


Narrou o sonho e ficou pensando no que viria depois. Conseguiu situá-lo no contexto da narrativa mas ficou sem idéias dali para diante. Decidiu navegar na internet para buscar inspiração e deparou-se com outro site lésbico. A introdução era uma foto montagem de duas personagens femininas de um seriado de TV abraçadas e nuas da cintura para cima.


--Mas esse povo lésbico gosta de fazer referência a esse seriado! Ô louco, viu? – reclamou


Haviam links para outras foto montagens e pouca coisa útil escrita. A curiosidade e excitação incentivaram a loura a continuar navegando, embora percebesse que o conteúdo daquela página era nitidamente erótico. Em um cantinho podia-se ler ‘Coisas Gostosas’ e três links encontravam-se disponíveis para seleção. A jovem selecionou o primeiro, que não abriu, fez o mesmo com o segundo e depois com o terceiro e nisso o computador travou.


--Ô louco!! -- reclamou -- Fui escolher os três e agora me danei! Que merd*! -- deu um tapa na coxa


Após alguns minutos o primeiro link abriu uma tela exibindo uma foto de sex* explícito entre mulheres.


--Gente! -- exclamou de olhos arregalados


Depois o segundo link exibiu uma foto de uma mulher penetrando outra com os dedos. Camille olhava curiosa.


--Filha, tá acordada até essa hora? -- Mariângela perguntou se aproximando da porta. A loura rapidamente fechou as duas fotos


--Eu, eu... -- não sabia o que dizer -- Acordei durante a noite e... eu... -- estava nervosa -- “Por que não tranquei a porta dessa vez?” -- pensou


Mariângela entrou no quarto e viu que usava o computador.


--Que faz aí? -- perguntou curiosa olhando para a tela


Camille estava a ponto de desmaiar. Faltava ainda o terceiro link abrir e sua mãe daria de cara com alguma cena dantesca; a loura não saberia explicar porque estava vendo aquilo. Se a pedisse para sair do quarto também poderia deixar a mãe ainda mais curiosa o que não seria nada bom.


De repente uma tela se abre e a jovem, desesperada, se joga no chão caindo da cadeira. Um barulho se fez ouvir: BUFF!


--Menina, o que é isso? -- Mariângela perguntou assustada e ajoelhou-se ao lado da filha


Mariano apareceu do nada, correndo e perguntando: -- Gente, que barulho foi esse? -- perguntou preocupado -- Camille caiu?? Se machucou, menina?? -- foi até ela


A loura ficou estatelada no chão de boca aberta batendo os lábios sem produzir som.


--Ela tá meio besta! -- a mãe cobriu os lábios com as mãos -- Mexe a boca e não diz é nada! E agora, meu Deus? -- começou a apalpar a filha -- Fala comigo, menina, o que houve?


Mariano vira-se para a tela do computador e diz: -- Ah, mas olha só o que ela anda vendo!


--O que?? -- Mariângela pergunta curiosa


“Ai, meu Deus, e agora?” -- fechou os olhos -- “Que eu digo?? Pensa, pensa...” -- abriu os olhos


--Mas filha... por que não falou nada com a gente??


--Eu... eu posso explicar, mãe... -- tentou se sentar


--Por que não falou que era o que você queria? -- o tio perguntou penalizado enquanto se ajoelhava a seu lado para ajudá-la a se sentar


--E vocês iam fazer o que por acaso?? -- respondeu irritada -- Além do mais eu não disse que queria... -- olhou para a tela do micro -- isso!


O terceiro link exibiu a foto de uma mesa de jantar cheia de iguarias e a frase: “Fala se não são coisas gostosas? Uauaua!”


--Você come pouco, vive estudando, vive nadando, olha como anda magrinha! -- a mãe reclamou enquanto ajudava o irmão a levantar a moça -- Aí acorda no meio da noite com fome e fica vendo comida na internet. Tem comida em casa, criatura!


--Ah, eu... “Nossa, que sorte!” -- pensou -- Eu... é eu pensei em comida... -- mentiu e sentou-se na cama


--Eu vou fazer um mingau pra você! -- a mãe decidiu -- Fique aí esperando que não demoro. -- foi para a cozinha


--Sua mãe está certa! Você precisa se alimentar melhor! Já anda até desmaiando de fome! -- beijou-lhe a testa -- Coma o mingau que sua mãe vai fazer e nada de reclamações, pirraças ou seja lá o que for. -- saiu do quarto


Camille deitou-se na cama e fechou os olhos.


“Nossa, essa foi por pouco!” -- pensou -- “Nunca mais na minha vida vejo sacanagem na internet!”

***


Tatiana dormia com Renan na casa dele e acordou nervosa. Sonhou com Patrícia, alguns homens dispostos em uma roda, gritos e cenas de violência. Sentou-se na cama e olhou para o namorado que continuava dormindo. Lembrou-se de uma espécie de medalhão que lhe apareceu diversas vezes e pegou um papel para desenhá-lo.


“Isso pode parecer loucura, mas vou procurar a delegada para conversar sobre esse pesadelo e mostrar o desenho desse medalhão.” – pensou


Os advogados de Otávio e Clóvis finalmente conseguiram o Habeas Corpus dos dois assassinos, ao contrário do que todos imaginavam que pudesse acontecer. Desde então Tatiana vinha se sentindo angustiada e tensa.


Caminhou até a janela e lembrou-se do dia em que conheceu a amiga.


“Patrícia discursava para uma pequena multidão: -- Quero deixar uma coisa bem clara: eu particularmente não sou a favor do aborto e o que digo aqui não se trata de ser a favor ou contra. O aborto é sempre a última saída para uma gravidez indesejada. Não é política de controle de natalidade. Não é curtição de adolescentes irresponsáveis, embora algumas vezes possa resultar disso. É uma escolha dramática para a mulher que engravida e se vê sem condições, psíquicas ou materiais, de assumir a maternidade. Se nenhuma mulher passa impune por uma decisão dessas, a culpa e a dor que ela sente com certeza são agravadas pela criminalização do procedimento. O tom acusador daqueles que põem o dedo na cara de uma mulher que aborta impede que aconteçam discussões éticas sobre problemas muito sérios: o que fazer quanto aos incalculáveis procedimentos de curetagem, realizados pelo sistema público de saúde, decorrentes de abortos em clínicas clandestinas? O que fazer quanto ao estado psicológico de uma mulher que se vê como criminosa porque interrompeu uma gravidez? O que fazer quanto aos homens que não recebem uma educação que lhes aponte suas responsabilidades como futuros pais? Eu não vejo discussões sérias nesse sentido e nem um esforço real pra que estes problemas sejam resolvidos. E vamos ser realistas, minha gente! Podem proibir à vontade, mas os abortos sempre acontecerão! Temos que atuar na educação, na conscientização das pessoas, especialmente dos homens! Vocês já pararam para analisar o perfil majoritário das abortantes? Pois eu já! E posso dizer com segurança que as razões que as levam a cogitar, ou praticar, um aborto, raramente são levianas. São situações de abandono por parte de um namorado, marido ou amante, que às vezes desaparece sem nem querer saber que a moça engravidou. Situações de pobreza e falta de perspectivas para constituir uma família ou aumentar ainda mais a prole já numerosa. Situações de estupro! -- pausou -- O debate deveria envolver políticas de saúde pública e todo um trabalho educativo desde a infância. Não se trata de distribuir camisinhas, porque isso nunca resolveu e nem vai resolver essa questão. -- as pessoas interromperam sua fala para aplaudi-la -- Às vezes me parece que vivemos uma situação bipolar: por um lado existe um endeusamento do sex*, uma verdadeira dinastia do prazer, e por outro uma condenação, onde o discurso que se faz ouvir me parece ter saído dos tribunais da Inquisição. Ou talvez esta situação não seja uma condenação ao sex*: só à recente liberdade sexual das mulheres. Enquanto a dupla moral favoreceu a libertinagem dos bons cavalheiros cristãos, tudo bem. Mas a liberdade sexual das mulheres, pior, das mães, este é o ponto, é inadmissível. Em mais de um debate público escutei o argumento de conservadores linha-dura, de que a mulher que faz sex* sem planejar filhos tem que aguentar as consequências. Eis a face cruel da criminalização do aborto: trata-se de fazer do filho o castigo da mãe pecadora. Cai a máscara que escondia a repulsa ao sex*: não se está brigando em defesa da vida ou da criança. O que me parece é que existe um desejo de se castigar a mulher que desnaturalizou o sex*, ao separar seu prazer sexual da missão de procriar.6 Enquanto for assim, nunca chegaremos a lugar algum. Eu luto em defesa da vida e em defesa de uma sociedade que está disposta a se transformar como um todo, sem hipocrisias! E é isso! -- as pessoas aplaudiam maciçamente


Patrícia passou o microfone para um rapaz e desceu do palanque. Muitos vieram abordá-la e Tatiana foi uma destas pessoas.


--Oi, tudo bem? Deixa eu te falar, você não me conhece mas eu queria te dizer que concordei com cada palavra que você falou! Foi bom demais da conta! -- sorriu estendendo a mão para que a outra apertasse, coisa que Patrícia imediatamente o fez -- Meu nome é Tatiana, comecei a estudar Comunicação este ano e estava saindo da Biblioteca Municipal quanto comecei a ouvir seu discurso. Não consegui ir embora antes de você terminar! -- pausou -- Parabéns!


--Obrigada! Meu nome é Patrícia e eu sou estudante de direito. -- sorriu -- Faço parte de vários grupos que buscam lutar por mudanças sociais. Eu me empenho na causa das mulheres, das pessoas pobres e, claro, dos homossexuais.


Patrícia vestia calça jeans, tênis e uma blusa colada com gola em V. Os cabelos eram curtos e seu estilo era bem masculinizado.


--Eu fazia parte de um grupo que lutava pelos direitos dos negros e sua luta pela cidadania. Aqui no Rio tô perdida quanto a isso.


--Você veio de onde, mulher? -- perguntou curiosa -- De Minas?


--Da Goiânia. E você? É nordestina, mas não consigo reconhecer a origem.


--Campina Grande. Sou paraibana com muito orgulho! -- pausou -- Se quer assumir essa luta pelos negros temos espaço pra você. Me passa teus contatos que a gente te procura.


--Vou te dar meu e-mail porque meu endereço e telefone logo vão mudar. Eu moro em uma pensão, que está um horror, e tenho procurado outro lugar pra viver porque num dou conta!


--Ei, eu moro com uma amiga no Flamengo. Outra garota vivia com a gente mas ela se formou e foi embora. Estamos procurando por alguém pra ficar no lugar dela. Que acha de passar lá em casa um dia desses e conversar com a gente? -- sorriu -- E relaxa que a garota que divide comigo é hetero e eu não estou te dando uma cantada. Tenho namorada. -- piscou para ela


--Eu nem pensei nisso, uai! Dá teu endereço que isso me interessa, sim! -- sorriu"


“Quem poderia imaginar que aquele encontro mudaria minha vida?” -- pensou -- “Engraçado... nós nos conhecemos na Cinelândia e nos despedimos, mesmo sem saber, na Cinelândia...” -- lágrimas teimosas rolavam-lhe pela face -- “Ai, amiga... chega dói demais da conta não ter impedido você de ir embora naquela noite... Por que tinha que ser tão custosa? Queria muito mesmo que ainda estivesse aqui!”

***


Ed acompanhava o trabalho de Isa nos ensaios. Admirava verdadeiramente sua leveza e dedicação. Quando ela dançava, aquilo era uma completa entrega. Podia-se sentir que aquela jovem se entregava de corpo e alma à dança. Era bonito, muito bonito de se ver.


--Que amor, hein? -- um rapaz sentou-se do seu lado e comentou brincando. Era nitidamente gay -- Chega a babar...


--Como ser diferente? -- respondeu olhando brevemente para ele -- É minha mulher e sua arte... ambos apaixonantes. -- sorriu


--Aquele que dança com ela é meu namorado. Que acha dele?


--Todos aqui são espetaculares! -- respondeu com sinceridade


Eram 12:50h e o ensaio estava terminando. Os bailarinos e coreógrafos se cumprimentavam e Isa desceu os degraus saltitando. Seyyed se levantou.


--Amor, me espera trocar de roupa e já vamos! -- sorriu


--Estou aqui. -- sorriu em resposta


Isa correu para dentro junto com os demais.


--Eu vou indo. -- o rapaz anunciou -- Tchau! -- deu tchauzinho


--Tchau! -- acenou para ele e se sentou novamente


Depois de algum tempo Isa voltou devidamente pronta e as duas namoradas saíram de mãos dadas.


--Que achou? -- perguntou


--Como sempre, maravilhosa! -- beijou-lhe o rosto


--Eu tive medo de não agüentar depois de ter passado a noite anterior fazendo amor com você. -- beijou-lhe o ombro -- E eu te disse que estava cansada... mas você me seduziu. -- sorriu


--Eu?? -- fez cara de inocente -- Eu apenas te fiz massagem, não tenho culpa que tenha mudado de idéia depois que terminei...


--Ah, tá! Você sabe muito bem que criou as condições pra me fazer mudar de idéia... -- agarrou-se no braço da morena e apoiou o queixo no ombro dela


--Eu não! -- continuava fingindo seriedade -- Você é que tá sempre querendo se aproveitar de mim... -- a ruiva riu -- Que prefere? Almoçar aqui ou no caminho? -- olhou para ela. Haviam acabado de chegar no carro


--Trouxemos pão e suco. Melhor a gente pegar a estrada e almoçar no caminho. -- foi até a porta do carona -- Se der fome antes de aparecer um lugar legal a gente come um sanduíche expresso. -- sorriu -- Concorda?


--Beleza! -- abriu a porta do carro para ela -- Vamos embora minha bailarina!

***


Gisele e Anselmo chegaram em Saquarema exatamente na hora em que Ed e Isa saíam do Rio. A moça veio radiante dirigindo seu Citroën C5 novinho em folha.


--Amei esse carro! -- exclamou ao estacionar na pousada -- Adorei, fofucho! -- olhou para Anselmo


--Eu sabia que você gostaria... -- sorriu -- Foi caro, viu? Mas você merece... -- fez voz de criança


--Você vai ter um final de semana inesquecível! -- piscou para ele e saiu do carro


--A pena é que demos azar de ter acontecido aquele acidente na ponte! Poderíamos ter chegado bem mais cedo e o final de semana seria mais bem aproveitado. -- pegou as malas no bagageiro


--Calma, amor! Acabamos de chegar! E pra mim o final de semana está apenas começando! -- dirigiu-se à recepção da pousada


Enquanto isso, na estrada...


--Amor, deixa eu te dizer. Priscila e eu papeamos por longo tempo ao telefone na quarta e ela me contou um monte de coisas que esqueci de te falar. -- sorriu -- É que aconteceu tanta coisa nessa semana que perdi até a noção! -- olhou para Ed -- Vamos fofocar!


--Conta aí. -- sorriu


--Elas têm uma nova colega de apartamento. É uma garota que se chama Lady Dy da Silva!


--Caraca! Lady Dy?? E da Silva?? -- riu -- E eu que pensei que meu nome é que era excêntrico! -- riu de novo


--Seu nome é bonito, é diferente. -- passou a mão nos cabelos -- Priscila diz que a garota faz engenharia de produção só porque queria fazer um curso com muito homem pra poder se casar fácil.


--Sério?! -- perguntou incrédula


--E diz que ela vive correndo atrás de homem pra ver se arruma um namorado sério. Passou a semana vendo o treino de uns remadores na Lagoa e não conseguiu foi nada! Deu em cima de Renan sem saber que era o namorado da Tati... -- riu -- Como diria minha amiga, é a típica caipira de Pau d’Arco!


--E eu já notei que tudo que é mulher desesperada pra casar só se pega com troço ruim. Ela vai acabar namorando uma boa bisca...


--E ainda tem um papagaio maluco, que ela chama de maritaca austral, que tem a mania de falar coisas medonhas em determinadas noites. Já deu susto em todo mundo. E quando elas dão queixa, essa tal de Lady diz que maritacas austrais não falam.


--Eu nunca nem ouvi falar nesse bicho! -- riu -- E ele fala o que? Que seriam as coisas medonhas?


--Sangue, fogo do mal, trevas... e uns urros, uns gemidos... sei lá!


--Eu hein! -- riu


--Tatiana tem lido poesia pra ele toda noite antes de dormir pra ver se o bicho aprende a recitar outra coisa!


--É mole? -- Ed riu de novo --E pelo que vejo, as meninas não simpatizam muito com essa Lady.


--Eu acho que não. -- balançou a cabeça -- Mas já falei pra Priscila dar um tempo pra garota. Apesar de ser maluca e de ter um bicho possuído ela pode ser boa gente, por que não? Priscila diz que não entende ela ser assim porque estudou nos Estados Unidos, é viajada e por isso deveria ser mais antenada.


--Ah, mas isso não tem nada a ver. -- pausou -- Priscila não pode querer mudar a personalidade da garota. Tem que aceitar, respeitar e buscar um mínimo de convivência harmoniosa.


--Também acho... -- pausou -- Outra coisa que ela me disse foi que se revoltou com a entrevista de Sabrina no Lô.


--Ela deu entrevista no Lô??? -- perguntou surpresa -- Gente, quando foi isso?


--Segunda-feira, imediatamente antes do carnaval. Sabrina foi lá pra falar da escalada na Antártida.


--Nossa, então ela já foi??? -- perguntou mais surpresa ainda -- Quando dei carona pra ela ainda nem sabia como chegar lá!


--Pois ela teve uma sorte danada e foi convidada por uma exploradora polar que se encantou com ela por ser lésbica.


--E por que Priscila se revoltou?


--Você sabe que a morte de Patrícia alavancou a carreira da Sabrina, não sabe? O Lô acabou tocando no assunto e ela apareceu como companheira de Patrícia.

--Companheira??? Ela disse isso na televisão?? -- perguntou chocada


--Lô disse isso e ela não negou. -- olhou para Ed -- E ela falou dos discursos de Patrícia como se conhecesse sua atividade militante de perto, o que é uma tremenda mentira. Tatiana e Priscila acham que Sabrina fez tipo de viuvinha e ficaram revoltadas com a atitude dela.


--É, se foi desse jeito mesmo, não é legal que se aproveite. Ela me disse que ganhou um status diferenciado com a morte da garota, mas não me pareceu que fazia um tipo de viuvinha. Do contrário, ela se arrepende muito por uma série de coisas, inclusive por não lhe ter amado.


--Acho que ela esqueceu isso e agora está se aproveitando. -- pausou brevemente -- Pelo menos foi o que as meninas disseram...


--Eu hein... Agora deixa eu te contar minha fofoca. Silvio passou dois dias preso e teve de pagar multa por atentado violento ao pudor. Foi pego fazendo sex* em frente a uma igreja.


--Não brinca?! -- riu


--Pois é. Estava com uma prostituta, mas a mulher correu e só ele ficou.


--Quem te contou isso?


--Juliana. Ela foi se reconciliar com a delegada Suzana e chegou no momento em que Silvio estava sendo preso. -- riu -- E ele ainda disse que ela tava gostosa. -- riu de novo -- A delegada ficou irada e prendeu ele com mais vontade ainda! -- riu mais uma vez


Isabela não gostou de saber que Seyyed conversou novamente com a ex.


--Por que fica de conversa com ela? Será que ainda têm tanto a dizer assim?


A morena olhou brevemente para a namorada antes de responder.


--Não fique tão contrariada... Eu fui conversar com ela sobre nossa situação e depois ela teve que me ligar pra resolver uma última questão referente ao aluguel. -- pausou -- Eu estou com você, meu amor. E ela desistiu de mim... de verdade. Está com a delegada e é sério.


--Eu não gosto de saber que vocês ficam conversando... -- olhou para a estrada virando o rosto para o lado oposto


--Não tenha medo. Eu não traio. Não vou trair você. -- pausou -- Eu te amo, Isa.


Isabela nada respondeu.


***


Camille nadava desde às oito da manhã. Parou por volta das 12:00h e foi se trocar no vestiário. Ao terminar de se aprontar, ficou enrolando esperando pela carona de Mariano. Enquanto isso, viu Fátima indo embora e, sem pensar, chamou seu nome: -- Ei, Fátima!


A moça parou, mudou a direção que seguia e caminhou para perto de Camille.

--Pequena rebelde... como vai? -- sorriu


--Como sabia que eu estava exatamente aqui? -- perguntou surpresa


--Você me chamou! Segui a direção de onde veio sua voz. -- buscava uma cadeira. Camille puxou uma e ela se sentou -- Obrigada!


--Eu pedi desculpas a minha fisioterapeuta, ela me deixou esperando, mas acabou voltando.


--Hum, que bom!


--Quinta-feira vou lá na USP. Tô tentando cuidar de uma possível transferência pro Rio e preciso esclarecer algumas coisas e pedir documentos.


--Nossa, quanta notícia boa!


--É... -- pausou -- E você? Não te vi nadando! Nem sabia que tava aqui! -- reparou bem em Fátima -- Está machucada... -- olhou para seu braço


--Eu vim pra conversar com o preparador físico. -- pausou -- Você não sabe mas eu fui assaltada na segunda passada e o ladrão me deu um tranco em cheio. Caí de mau jeito e machuquei o braço. As calças compridas escondem que as pernas estão bem arranhadas e com manchas roxas também. -- pausou -- Pelo menos é o que me dizem, mas posso sentir a dor por mim mesma. -- riu


Camille ficou chateada. -- Nossa, que coisa chata! Então você não pode treinar por enquanto, não é?


--Talvez não mais... -- sorriu com uma certa tristeza


--Como assim???


--Eu vou ter que operar o ombro. Vou ficar um tempo fora do circuito e ninguém acredita que eu volte a nadar depois da operação... nem o preparador. Quer dizer, eles dizem que não poderei mais usar este braço.


--Mas... não, eles estão errados! -- deu um soco no braço da cadeira -- Quem pode prever o futuro? E você é uma atleta! Está sendo preparada pras olimpíadas. Você vai lá, vai representar o Brasil e voltar com o peito cheio de medalhas!


--Eu não desisti, meu amor... -- sorriu -- Lutarei até o final. Mas se for isso mesmo, tô preparada pra recomeçar. Terei de aprender a nadar sem usar esse braço e isso vai levar tempo. Se tiver de perder a chance de participar das próximas olimpíadas, eu perco, fazer o que? Virão outras.


--Como pode falar isso assim tão calma? -- revoltou-se -- Se eu estivesse no seu lugar estaria possessa!


--E o que adiantaria? -- sorriu -- Você ficaria estressada, revoltada e depois deprimida. Seriam dois problemas sérios ao invés de um. Encaro o que vier e é vida que segue.


--Como pode ser tão conformada?


--Não é conformismo é objetividade! Eu não crio problemas, Camille. Apenas luto pra resolver os que já tenho. Sou budista e a revolta não faz parte do meu credo.


Um homem maduro se aproximou das duas.


--Com licença, sim? -- olhou para Camille -- Boa tarde! -- ela respondeu -- Vamos, Fátima? -- sorriu


--Vamos! -- levantou-se -- Tchau, lourinha! Espero que dê tudo certo pra você. Vai dar, se Deus quiser! -- sorriu


Camille olhou para ela e respondeu: -- Eu te desejo o mesmo... Você é muito especial, Fátima! Vai dar tudo certo sim e você vai voltar das próximas olimpíadas cheia de medalhas.


Fátima mandou um beijo e foi embora com o homem. Camille ficou olhando para ela admirada com a força e a serenidade que a caracterizavam sempre.

***


Ed estacionou o carro na garagem da pousada e as duas desceram. Pegou as malas e Isa uma bolsinha.


--Nossa! Olha o carro aqui do nosso lado: Citroën C5 Sedan 2.0, lançamento desse ano! -- fez cara de impressionada -- Bacana!


--Bonito! -- Isa respondeu -- Mas o seu não fica atrás! -- piscou para a namorada


--Eu ainda não tive a oportunidade de pôr as mãos nesse carro aí.


Após o check in as duas se trocaram, foram comer em um restaurante caseiro, tomaram um pouco de banho de mar e caminharam pela praia. Sentaram-se na areia e aproveitaram o que sobrava da luminosidade do dia.


--Dia bonito, não foi? -- Isa perguntou.


Ed estava sentada a seu lado na mesma posição que ela, abraçando as próprias pernas dobradas.


--Melhor com você do meu lado. -- beijou o ombro dela


--Hum... -- virou o rosto na direção da namorada -- Vamos pro quarto? Queria te namorar um pouco... -- sorriu


--Nossa, fiquei até arrepiada... -- beijou a testa da ruiva


--Eu disse namorar, viu? -- deu um leve tapinha no braço da outra -- Tô muito cansada e não queria fazer amor... -- pausou -- Você ficaria zangada comigo? -- perguntou insegura


--Claro que não! Quando eu disse que queria curtir você não estava me referindo somente a sex*. Tô te curtindo agora, por exemplo. -- sorriu


--Então não vai ficar magoada se não fizermos amor? -- olhou nos olhos da morena para se certificar da verdade em sua resposta


--Não. Tem minha palavra. -- estava sendo sincera


As duas voltaram para a pousada e tomaram um banho juntas. Depois deitaram-se nuas na cama e ficaram conversando enquanto se acariciavam e beijavam. Mal sabiam que Anselmo e Gisele estavam no quarto ao lado e já haviam feito sex* duas vezes antes das duas voltarem da praia.


Isa e Seyyed estavam deitadas de lado, uma de frente para outra, pernas entrelaçadas. Os rostos estavam muito próximos e elas se olhavam com carinho.


--Tem certeza que essa vinda pra cá não vai te complicar ainda mais? -- a bailarina perguntou


--Tenho. -- beijou-a -- Fique tranqüila que tá tudo certo.


--Eu posso pagar... -- deslizou o dedo no rosto da amante


--Não precisa. Deixe comigo. -- beijou o dedo da ruiva


--Ai, minha fofucha, olha o gnominho aqui! Ele quer se esconder na caverninha lá de trás! Ai,ai,ai,ai!! -- fazia voz fina


--Ih! -- a mecânica exclamou -- Ouviu isso? -- perguntou para Isa sorrindo


--Gente, parece até que esse cara tá aqui dentro, de tão bem que se ouve! -- arregalou os olhos


--Coloca a capinha nele, fofucho!!


--Vou colocar, olha só... Lá, lá, lá, lá!!


--Caraca, ouve a vozinha que ele faz... -- a morena riu


Isa revirou os olhos. -- Nós fazemos nossas brincadeiras mas não é idiota assim, é? -- perguntou preocupada


--Ué, minha ruiva, cada casal tem o seu estilo. -- sorriu -- Você é mais interessante nas coisas que inventa.


--Olha a caverninha aqui, meu gnominho. Vem, vem e se esconde aqui dentro. -- Gisele fazia uma voz bem fina


--Ai, ai, ai, ai. -- Anselmo respondeu. Só falava fazendo voz de criancinha -- Ai, que gotosuuuuu!!!


--Ai, ai, ai, que gnomo gostoso!! Ah, ah... -- gritava -- Que coisa grande, grossa e gostosa é essa, minha gente?


Ed ria e Isa tampou sua boca com as mãos. -- Ri baixo! -- sorriu


--Ah, ah, ah!! -- a mulher gemia alto


--Uh, uh, uh, uh, uauauauaua!! -- o homem urrava


--Parece até um boi brabo! -- a morena ria


--Gente, que coisa tosca! -- Isa revirava os olhos


--Ah, ah, ah, ah, que gnomo é esse, minha gente?


--Eu não agüento esse ‘minha gente’ dela! -- a bailarina comentou


--Uh, uh, uh, uh!!! -- urrava -- Eu sempre quis me esconder aqui, fofuchaaaa!!!


--Esse sujeito tem futuro! Ouve como ele vai do tom de boi brabo pro de Teletubie sem a menor dificuldade.


--Pára, Ed. -- a ruiva ria


--Ai, ai, ai, fofuchaaa...


--Fofucha e fofucho!! Que coisa brega! -- a ruiva riu de novo


--Eu acho que agora vou te chamar de ruivucha! -- Ed brincou


--Não se atreva! -- Isa beijou-a e mordeu seu lábio inferior


--Eu vou, eu vou, eu vou!!! Ai, ai, ai, eu vou!!!


--Vem, vem, vem, fofuchoooo!!!


--Estes dois ganharam o Oscar de os maiores caipiras de Pau d’Arco! -- Isa afirmou


E uma gritaria louca se fez ouvir.


--Nossa, parece até que tem alguém morrendo! -- Ed riu


--Olha essa sacanagem aí!!! Tem criança no hotel, porr*!!! -- um homem berrou


--Ih! -- Isa cobriu os lábios com as mãos -- Ouviu isso, Ed?


A mecânica confirmou com a cabeça enquanto ria.


--Essa mulher fingiu o tempo inteiro e o idiota da voz fina nem notou! -- a ruiva comentou -- Os gemidos dela eram tão falsos que parecia até mulher de filme pornô.


--Você vê filme pornô, é, gata? -- Ed mudou as posições e deitou-se por cima dela -- Que safadinha... -- começou a beijá-la e fazer cócegas


--Pára, Seyyed! -- pediu rindo -- Deixa de ser safada... -- fechou os olhos


--Vem cá, minha chapeuzinho vermelho! -- beijou-a nos lábios e deslizou as mãos pelo corpo dela deixando-se pesar sobre a jovem


--Ai, Ed... -- gem*u entre beijos -- Ai, amor...


--Tá ouvindo isso, fofucho? -- no outro quarto Gisele perguntou ao amante -- Tem sapatão no quarto do lado!


--Essa pousada é uma pouca vergonha, viu? -- respondeu contrariado -- E enquanto isso o palhaço bate na parede e grita com a gente. Ele tinha que ver era isso! -- levantou-se da cama e foi para o banheiro


--Do quarto dele não deve dar pra ouvir as sapatas. -- ela respondeu -- Eita, que a coisa tá boa... -- riu


--Eu acho que isso tinha que ser proibido, viu? -- respondeu de dentro do banheiro -- Tem muita pouca vergonha nesse mundo, vou te contar! Ficar em pousada freqüentada por sapatão! Vou dar queixa amanhã na hora do check out!


Gisele se ajeitou na cama esperando Anselmo sair do banheiro. Queria tomar um banho e sem ele junto.


“Anselmo é muito ruim de cama, minha nossa! E sex* anal é horrível!” -- pensou -- “Mas um sedan 2.0 lançamento do ano vale o sacrifício...”

***


Olga foi visitar Mariano e família no final da tarde do sábado. Levou um bolo. Mariângela fez chá e eles conversavam animadamente na sala. Camille estava no quarto estudando. Depois de algum tempo Mariano bateu na porta e chamou: -- Estamos lanchando. Olga trouxe bolo de laranja. Venha comer conosco pra depois não ficar por aí caindo pelos cantos.


Camille odiou ouvir aquilo mas teve que ficar calada quanto ao comentário.


--Já vou, tio. -- revirou os olhos contrariada


Foi de muletas para a sala. O lugar ao lado da mãe estava vazio e ela se sentou.


--Olá, querida! -- Olga cumprimentou sorridente


--Oi. -- respondeu sem graça


Camille queria não gostar de Olga, mas não conseguia tratá-la com indelicadeza.


--Prova só, que bom! -- Mariângela apontou o bolo


--Ouvi dizer que bolo de laranja é o seu doce preferido. -- Olga comentou


Camille se serviu e provou um pedaço.


--Ô louco, é da hora esse bolo! -- exclamou surpresa


Olga riu. -- Que bom que gostou!


--Mas o meu doce preferido é o seu pudim de leite! -- Mariano exclamou


--Eu fiquei dividida entre o pudim de leite e esse bolo. -- Mariângela comentou


--Já eu gosto da sua macarronada, - olhou para o noivo -- e do seu caldo verde. -- olhou para a cunhada


--A macarronada de Mariano e meu caldo verde faziam sucesso nas festas da família! -- relembrou orgulhosa


Camille se serviu novamente.


--Camille, tenho uma coisa interessante para lhe dizer. -- a loura olhou para Olga com desconfiança -- Uma das minhas amigas do centro trabalha na secretaria da Escola de Engenharia da Federal e eu não tinha a menor idéia disso! Conversávamos ontem e ela me falou. Por coincidência, ela cuida dos processos de transferência pra Escola.


--Meu Deus, Olga! -- Mariano sorriu empolgado


--E aí? -- Mariângela perguntou sorridente


--Ela disse que vocês poderiam ir conversar com ela na terça, entre nove e onze da manhã.


--Mas... -- Camille estava boquiaberta -- O que a senhora disse a ela?


--Falei de você como o que penso que é: uma moça esforçada que está lutando pra recomeçar. E é assim que ela te vê, e não como uma coitada que precisa de ajuda. -- olhou bem diretamente naqueles olhinhos verdes


--Eu... -- não sabia o que dizer. Corou -- Obrigada! -- olhou para a mãe -- Vai comigo na terça? -- pediu


--Claro!!! -- limpou a boca com o guardanapo -- Oh, Olga, você sempre fazendo coisas boas por nós! -- segurou a mão dela -- Nem sei como te agradecer!!


--Pois eu sei: vamos conosco amanhã pro teatro! -- sorriu


--É! É uma comédia que tem sido muito bem criticada. Poderíamos ir nós quatro!


--Ah, querido, isso não é legal. Vocês são um casal, querem se curtir...


--E por que não estaremos nos curtindo se vocês forem? -- Olga perguntou


--Faz séculos que não assisto a uma peça!


--Vai com eles, mãe. -- Camille disse -- Eu vou ficar aqui estudando.


--Por que não tira uns momentos de folga e vai conosco? Podia se divertir! -- Mariano disse a sobrinha


--Eu prefiro ficar... -- abaixou a cabeça e continuou a comer o bolo


--Então... eu vou! -- Mariângela sorriu


--Seyyed também vai? -- a loura perguntou -- “Não acredito que perguntei isso!” -- pensou


--Não, ela tá em Saquarema e quando voltar vai ficar em casa com Isa.


A jovem não gostou do que ouviu e nada respondeu.


--Ah! Vocês sabiam que Flávia ganhou o Panamericano de boxe amador e se prepara pro Mundial? Ela contou tudo pra Camille!


A jovem observava as três pessoas a sua frente. Não prestava atenção ao que diziam, mas observava o modo como conversavam. Mariângela repetia as histórias de Flávia enquanto que Olga e Mariano ouviam atentos e achando graça de um monte de coisas. Pareciam bem, leves, felizes... Ela queria muito ser assim, mas não sabia como. De repente sentiu-se muito triste. Camille sabia que vivia em um mundo interior do qual somente ela fazia parte. Desejava ardentemente que alguém aparecesse e a trouxesse para a vida. Sozinha não sabia fazer isso e reconhecia que não se deixava ajudar. Às vezes pensava na hipótese de buscar apoio profissional, como lhe sugeriram mais de uma vez, porém tinha vergonha e preconceito.


“Psicólogo, psiquiatra, isso aí é coisa pra gente doida! Não sou doida!” -- pensava enquanto comia

***


Juliana se preparava para administrar os remédios dos pacientes que eram medicados nas primeiras horas da manhã. Na última enfermaria que visitou, observou que um velhinho chorava e sentiu-se tomada por imensa pena daquela criatura. Mais e mais a japonesa sentia-se muito ligada aos idosos e gostava de dedicar atenção especial àquelas pessoas.


--O que houve, querido? -- acariciou a cabeça dele com delicadeza


--Já estou cansado de ficar aqui, deitado nessa cama... e ninguém vem me ver... eles esqueceram de mim e não me querem mais... -- chorava


Juliana ficou penalizada. Achava incrível como a cultura ocidental tratava os idosos. Ao contrário da tradição do oriente, deste lado do mundo as pessoas viam seus velhinhos como fardos, gente inútil que deveria ser largada aos cuidados de outros. Isso era muito triste. Esquecem-se de que todos envelhecerão um dia, a menos que a morte os surpreenda antes.


--Não chore... -- falava com carinho -- Eu vou lhe ajudar a mudar de posição, venha. Vamos deitar de lado. -- ajudou-o a se virar e ficou surpresa com uma escara enorme que se formava em suas costas -- Eu vou fazer um curativo no senhor, não chore. Tenha fé em Deus que tudo vai dar certo.


--Até Deus me abandonou!


--Não... Ele não faz isso! -- pausou -- Espere só um minutinho.


Juliana correu para pegar uma pomada cicatrizante, gaze, álcool e luvas. Voltou e começou a cuidar da ferida.


“Senhor, me ajude a ser digna de receber Suas bênçãos e ser capaz de trazer alívio a este pobre velho. Imploro para que ele se sinta melhor e não chore mais sofrendo desse jeito. Por favor meu Deus, imploro por Teu poder renovador. Acalma o sofrimento dele e permita que alguém de sua família seja impelido por um  forte desejo de visitá-lo, por favor!” -- orava em seus pensamentos -- Pronto! -- terminou o curativo e deu a volta ao redor da cama para vê-lo -- Fique um pouco deitado de lado. É importante que todo o dia o senhor mude de posição e se não conseguir fazer isso sozinho peça ajuda a alguma enfermeira. -- segurou a mão dele -- E tenha fé. Tudo vai dar certo! -- sorriu e beijou sua testa


Ele parou de chorar e nada respondeu.


“A velhice é uma fase tão triste quando se vê tamanho abandono... Como me dói ver o desprezo com que são tratados estes velhinhos...” -- a japonesa pensou


Juliana terminou seu trabalho e saiu do hospital às 8:00h. Encontrou com Débora quando foi pegar seu carro.


--Oi, Ju! -- cumprimentou


--Oi, Débora! -- sorriu -- Quer carona?


--Ai, eu quero. Obrigada! -- sorriu também


Elas conversavam sobre o hospital até que Débora falou: -- Eu acho você tão diferente...


--Diferente como? -- perguntou desconfiada


--Você se envolve demais com os pacientes! Nem parece aquela que eu conhecia! -- pausou -- E agora tem mais calma, mais tolerância. Nunca mais te vi rodando baiana no hospital! -- olhou para ela -- A velharia te adora!


--As pessoas mudam... Hoje eu tenho orgulho de ser enfermeira e tenho noção de como nosso trabalho é importante!


--Ah, pára, vai? -- balançou a cabeça -- Esse é o discurso de quando a gente é estudante! O mundo real é outra coisa... Você deve ficar arrasada, exausta com esse envolvimento todo! O sistema é ruim, não dá pra ajudar todo mundo, falta um monte de coisa, inclusive o básico. Você deve sofrer muito e não sei como não nota que está se matando...


--Pois posso te dizer que nunca estive tão viva! -- olhou rapidamente para a colega -- O sistema é composto por pessoas, Débora. Nós somos as pessoas!


--E a gente não tem poder pra mudar essa merd* do jeito que é!


--Mas a gente pode e deve fazer alguma coisa! “Não é o grito dos maus que me preocupa, mas o silêncio dos bons.”7 -- respondeu enfática -- Eu cansei de não me importar! Eu me estresso sim, fico triste, tenho vontade de mandar tudo a merd* mas... fazer a diferença na vida de alguém... isso é pra sempre!


--Nem todo mundo reconhece...


--Mas eu sei o que fiz e o que não fiz e isso me basta!


--Tu virou crente ou sei lá o que? -- perguntou sem entender


--Eu acordei, Débora, foi isso. -- olhou para a outra -- E você também quer acordar. -- voltou a olhar para frente -- Mas tem aquela inércia pra fazer isso! Aí você quer se convencer de que eu estou errada, então automaticamente você também se convence de que não deve mover uma palha.


--Virou psiquiatra? -- perguntou com deboche


--Pense um pouco e você vai me dar razão.


--Você virou uma beata! E eu tô fora dessa coisa chata de Deus, de religião... Não tenho saco pra essa coisa transcendental!


--Pode ser atéia e fazer a diferença! Não é preciso se converter pra ser uma pessoa boa. Religião não dá bom caráter a ninguém. Comportamento é o que muda tudo e transforma uma sociedade! Religião é um caminho filosófico e ideológico de se aproximar de Deus, mas só vale se você se permitir a isso com sinceridade. Sendo uma pessoa boa e correta você se aproxima dEle inexoravelmente, mesmo que seja atéia. Conheço pessoas incríveis em todas as religiões e conheço gente que não vale nada nestas mesmas religiões. O que importa é o modo como o ser humano se comporta.


--Humpf! -- fez um bico


Chegaram na Ilha e Débora desceu logo perto do quartel.


--Obrigada pela carona. -- agradeceu de cara feia


--De nada.


Poucos minutos depois a japonesa estava em casa. Mal entrou o telefone tocou.


--Alô?


--Bom dia!


--Oi, Su... -- sorriu -- Bom dia!


--Muito cansada?


--Sim... mas queria você aqui... Quando volta? Não deveria estar trabalhando hoje...


--Eu disse que tinha de fisgar um peixe... fisguei! Pegamos um tarado que andava infernizando em Vila Isabel!


--Graças a Deus, menos uma praga nas ruas... Agora vem pra cá!


--De tarde eu tô aí, pode confiar!


--Eu vou tirar um cochilo e depois vou fazer uma comidinha pra nós.


--Pois eu quero é você! -- disse com voz rouca -- Você é o alimento que eu preciso!


--Hum... Eu vou me preparar pra você... -- mordeu o lábio


--Se prepara, porque vai ter que me pedir pra parar!


--Ai... dá até medo de você... -- sorriu

***


Ed e Isa tomaram café, arrumaram as coisas e foram passear na praia no tempo que lhes restava. Almoçaram em um quiosque e voltaram para o quarto para tomar banho e se arrumar.


--O check out é até às 14:30h, não é amor? -- Isa perguntou


--Isso! -- Ed já estava pronta


--Preciso de mais uns dez minutinhos. -- olhava-se diante do espelho do banheiro


A mecânica foi até ela e abraçou-a pela cintura beijando-lhe o pescoço.


--Tudo bem, eu espero! -- sussurrou no seu ouvido


--Hum, se continuar assim os dez minutos viram mais tempo... -- sorriu


No quarto ao lado...


--Acabou, fofucha? -- Anselmo perguntava disfarçando a impaciência. Esperava sentado na cama


--Dez minutos, meu bem! Você acordou mais cedo que eu, não mandei me deixar dormindo! -- respondeu do banheiro


--Temos que sair daqui até às 14:30h. Falta pouco! -- reclamou com jeito


--Espere! E não me apresse!


Ed pegou as malinhas e Isa acabou de se arrumar.


--Tudo certo? -- perguntou -- Esqueceu alguma coisa? -- olhou para ela


--Nada! -- beijou-a e sorriu -- Podemos ir.


--Abre a porta, por favor, minha ruiva? -- pediu sorrindo


--Acabei! -- Gisele afirmou


--Ufa! -- Anselmo levantou-se de um pulo e pegou as malas -- Abre a porta, por favor, fofucha?


Isa e Gisele abriram as respectivas portas ao mesmo tempo. As duas saíram dos quartos seguidas por seus pares.


--Pai?????? -- Isa deu um berro -- Mas, que pouca vergonha!! -- olhou para Gisele e ele -- Então eram vocês, mas que ridículo!!!


--Isa???? -- olhou para ela e Seyyed -- Meu Deus!! -- soltou as malas no chão -- Você... você estava no quarto com essa... essa...


--Não se envergonha de deixar mamãe em casa e vir pra cá com amante?? -- perguntou com raiva


--E você que vem com uma sapatona?? -- respondeu furioso


--Olha só gente, eu entendo que o momento é péssimo mas isso aqui é o corredor da pousada e tá todo mundo ouvindo. -- Ed interferiu -- Vamos fazer o check out e aí vocês discutem em outro lugar.


--Ela tá certa, fofu... Anselmo. Vamos sair daqui, vamos? -- Gisele também se meteu


--Isso é o fim do mundo! Minha filha! Minha única filha! Lésbica!! -- Anselmo pegou as malas do chão


--Não tem moral pra falar de mim, pai! -- olhou para a morena -- Vem, Ed! -- foi para a recepção


--Ed... que coisa ridícula!  -- olhou para ela com desdém


--Não mais que fofucho! -- respondeu com deboche e seguiu a namorada


Gisele revirou os olhos e também foi para a recepção. “Que droga, só faltava essa!” -- pensou


Os dois casais fizeram os check outs e o clima na recepção era péssimo. A dona da pousada não entendia o que estava acontecendo. Foram para a garagem e a ruiva constatou que o carro que chamou a atenção de Seyyed era da amante do pai.


--Foi você que deu esse carro pra ela, pai? -- perguntou com raiva


--Ei, você não tem nada com isso! -- Gisele respondeu


--Isso é entre nós, não se meta! -- a ruiva respondeu sem olhar para a moça -- Fala pai!


--E esse carro aí, de quem é? -- perguntou desaforado -- Eu o vi na garagem do nosso prédio!


--Você nunca me ofereceu carona pra me buscar na faculdade e nem me deu um carro mesmo sabendo que eu estudaria à noite. Pra mamãe muito menos. Mas pra amante você compra um zerinho, não é? E lá em casa sempre se queixa de crise e falta de dinheiro! Já sei pra onde vai o dinheiro! -- olhou para a outra moça


--Ei, eu te conheço! -- Gisele olhou bem para Seyyed -- Você é a filha daquela senhora...


--Que não te deixou ser assaltada! -- sorriu -- De lá pra cá o carro veio rápido, não?


--Onde você conheceu essa sem vergonha?? -- apontou para a mecânica -- Sua mãe sabia disso, não é? -- falava alto


--E você saberia também se desse um mínimo de atenção pra gente!


--Foi por isso que ficou assim, filha? Por que não te dei atenção? Está querendo me agredir, é isso?


--Eu sou o que sou, não tem nada a ver com você! E sou solteira!! Você sempre foi um metido a santinho, um conservador, mas não passa de um hipócrita sem vergonha! -- gritou


--Olha o que fala porque sou seu pai!


--Infelizmente é!


--Eu também não queria uma filha sapatão! -- gritou


Haviam pessoas assistindo de camarote e Gisele morreu de vergonha.


--Olha, entrei no carro pra ir embora, tá? -- entrou e fechou a porta


--É muito melhor ser lésbica do que ser uma pessoa hipócrita e sem caráter como você! -- falou segurando o choro


--Vamos embora, querida! -- abriu a porta do carro para ela -- Aqui não é o lugar pra esse tipo de conversa. Tem um monte de gente assistindo e nada do que disserem muda qualquer coisa. -- a mecânica falou com delicadeza


Isa olhou para ela, mordeu os lábios e entrou. A morena fechou a porta.


--Você está desgraçando a vida dessa menina, sua maldita.


--Sua dívida e a do seu gnominho é muito maior que a minha... senhor. -- deu a volta e entrou no carro também


Anselmo chutou o pneu do carro de Seyyed e entrou no Citroën de Gisele.


--Vamos embora, amor, por favor! -- Isa pediu de olhos fechados


A morena ligou o carro e partiu.


--Siga aquelas duas, Gisele. Quero saber pra onde vão! -- Anselmo disse nervoso


--Eu, hein? -- ela respondeu -- É ruim! Vamos embora e chega dessa história! -- ligou o carro e saiu da pousada -- Vou até dar uma volta maior pra gente perdê-las de vista o quanto antes.


--Ela é minha filha, tenho que saber o que tá acontecendo!


--Anselmo, dá um tempo, tá? Pra cima de mim? -- Gisele respondeu -- Agora já era! Como dizem os traficantes: perdeu!

***


Isa veio chorando e Seyyed respeitou esse momento. Depois de um tempo, secou as lágrimas e perguntou: -- Da onde conhece aquela tal?


--Lembra que falei do assalto que mamãe não sofreu? Aquela foi a mulher que fingiu que a conhecia e se deu bem.


--Ah! -- olhava para fora -- É a típica golpista!


--Quando eu fui buscar mamãe, seu pai chegou exatamente junto comigo e correu até ela cheio de decisão. Pegou a garota e os dois ficaram se beijando como aquela cena clássica de O Vento Levou. O homem tava tão doido que me olhou e não me viu!


--E você não me disse nada? -- olhou para ela -- Papai dando espetáculo na rua e você não me conta?


--Pra que? Você já sabia que ele tinha um caso! Por que eu iria colocar mais minhocas na sua cabeça?


A bailarina respirou fundo. -- Eu não vou dizer isso pra mamãe. Iria magoá-la demais. -- pausou -- E ela já sabe que ele tem amante!


--Bem, isso é coisa de família e eu não posso me meter.


--Está decidido! Não vou abordar  esse assunto em casa e só falo com meu pai quando ele puxar conversa comigo. Pra mim essa história acaba aqui. -- cruzou os braços -- Posso contar com sua discrição? -- olhou para ela de novo


--Sim. Por mim, isso nem aconteceu. -- pausou -- Mas... acho que deveria tentar ser mais amiga, mais íntima da sua mãe. Ela deve sofrer e se sentir muito só!


--Ela deveria deixá-lo, isso sim!


--Também acho, mas ela não quer. Então dê apoio! E não tenha ódio do seu pai. Isso é assunto do casal. Não o julgue.


--É difícil não ter raiva dele e não julgar. Esses homens babacas que arrumam amantes são sempre assim: dão mais pra elas do que pra família que têm.


--E a vida cobra isso deles, você não precisa fazer o papel de credora. Não tenha ódio, querida, porque daí o problema passa a ser seu. Reze por eles, porque ambos precisam. E aquela mulher, que muito provavelmente pagou aquele carro com sex*, é digna de pena. Estão todos completamente equivocados.


--Ouviu como ele falou de nós?


--É o preconceito dele. Deixa pra lá!


--Ele tem vergonha de mim...


--Ele estava com raiva, surpreso e constrangido. Deixe passar. Esquece isso!


--Eu não tenho sua grandeza, Ed. Não mesmo! -- balançou a cabeça negativamente


--Não tenho grandeza alguma, Isa. Apenas quero tornar a vida, que é muito complicada, numa coisa mais fácil. -- beijou o rosto dela rapidamente -- E te amo, não esqueça disso.


Ela sorriu e deitou a cabeça no ombro da morena depois de beijar-lhe a bochecha.


--Também te amo! -- fechou os olhos -- Promete que nunca vai agir igual a ele?


--Prometo!


Depois de um longo silêncio a ruiva teve coragem de fazer um comentário: -- Sabe, Ed? Eu não queria me apaixonar... eu não pensava que a gente chegasse até aqui... mas fui inevitavelmente me envolvendo e me apaixonando por você cada vez mais... -- pausou -- Eu não minto quando digo que te amo! Por isso não quero que me sacaneie como meu pai faz com mamãe.


--Eu não vou fazer isso! E gostaria que você agisse sempre com muita honestidade comigo.


--Eu não vou ferir você, Ed... não mesmo...

***


Juliana estava nua e sentada na mesa de cabeceira do seu quarto, enquanto Suzana beijava seu corpo. A japonesa se apoiava pelos cotovelos, reclinando-se para trás ante as investidas da delegada.


--Ah, ah, ah, meu animal... -- fechou os olhos -- Você acaba comigo!! Ai, ai... -- gemia -- Ah, ah, ah!!!! -- sorriu -- Você é má, Suzana Mello, muito má...


A morena continuou beijando a amante e mordendo cada pedaço de pele que encontrava seguindo sua trajetória até alcançar o pescoço da japonesa. Estava curvada sobre ela.


--Você é incansável!!! – a enfermeira sorria


--E você me deixa doida... -- mordia sua orelha


--Tô arrasada...


Suzana parou de beijá-la e puxou-a pela cintura para que se sentasse.


--Eu disse que ia ter que me pedir pra parar... -- lambeu seu pescoço -- Você gosta de me provocar... -- mordeu sua orelha -- agora agüenta... -- mordeu seu queixo


--Pára! -- empurrou-a com delicadeza -- Ai... -- suspirou e colocou a mão no peito -- Você acaba comigo... -- deu um tapinha no ombro da delegada


A delegada parou de beijá-la e ficou mais ereta. Continuava posicionada entre as pernas da japonesa e alisava uma de suas coxas.


--Peguei pesado? -- perguntou receosa


--Não... -- segurou uma das mãos dela -- Eu é que não dou conta de você, Suzana... -- sorriu


--Dá sim... -- puxou-a pela cintura para que ficasse de pé e a abraçou


--Hum... -- deu um abraçou apertado na morena -- Eu acho você tão fofa! -- olhou para ela -- Adorei o macaco de pelúcia que você me deu! -- riu -- Aliás você só me dá bichinho diferente...


--É que eu acho que esse negócio de urso é muito complicado... -- lembrou-se dos conselhos de Brito


--Eu hein? -- riu e segurou a mão da delegada -- Vem, vamos pra cama...


Suzana abraçou-a por trás e ficou mordendo a nuca da enfermeira, que ria sentindo cócegas. Deitaram-se na cama com a delegada de barriga para cima e Juliana com a cabeça em seu ombro direito, abraçada a sua cintura.


--Quando você tira férias, Su? -- deslizava o dedo na clavícula da amante


--Eu nem me preocupo com isso... nunca saí de férias... continuo trabalhando.


--O que??? -- levantou a cabeça para olhá-la -- Ah, não Suzana, trate de perder esse hábito!


--Eu sempre fui sozinha, Ju! Pra que ia tirar férias?


--Mas agora você tem mulher! -- afirmou enfática -- Vai tirar férias sim e ficar comigo! -- fez um bico


Suzana sorriu e mordeu os lábios da enfermeira. -- Tá bom, eu tiro férias... vai ser uma experiência nova pra mim...


--Onde já se viu! Quinze anos sem férias, eu hein! -- deitou a cabeça no ombro dela novamente


--E quando serão as SUAS férias? -- acariciava as costas da amante


--Agosto.


--Tudo bem, então vai ser em agosto que eu vou marcar as minhas. -- sorriu


--Acho bom! -- sorriu -- Senão vai conhecer a fúria de Juliana Okinawa Mitsui, e isso não é legal!


--Tá louca? Eu encaro bandido, traficante, polícia e o diabo, mas a fúria da minha japonesa me deixa de perna bamba! Eu lembro do fuzuê que você fez com minha síndica... -- riu -- Puro barata voa!


--Claro! Aquela mulher quer resolver tudo do condomínio só com você e sempre usando camisolinha com roupão de seda! Tá pensando o que? -- reclamou -- Eu cuido do que é meu...


--Ela é meio doida, Ju.


--Doida, sei...


--E agora ela não quer resolver mais nada comigo! -- riu


--Hum... -- olhou para ela -- Ela pode ser doida mas não é maluca... -- beijou-a

***


Lady circulava pelo aterro à caça de namorado. Olhou para o relógio e percebeu que tinha pouco tempo antes de se arrumar e ir para a faculdade. Estava quase desistindo quando esbarra em um homem.


--Ai, desculpa! -- olhou para ele e deparou-se com um careca alto e atlético -- “Nossa, que homem!” -- pensou


--Que desculpa nada! -- sorriu -- Eu deveria é lhe agradecer. Não é todo dia que esbarro em uma mulher maravilhosa! -- Silvio respondeu fazendo olhares


--Ai, mas você deve dizer isso a todas... -- sorriu fazendo charme


--Não... Eu sou devagar. Um homem das antigas, por assim dizer. -- mentiu


--Eu também sou das antigas. Quero namorar sério, noivar e casar! -- fez cara de menina moça


--É exatamente o que eu quero pra mim! -- mentiu novamente -- Ah, que cabeça a minha! -- pegou a mão da garota e a beijou -- Silvio. Encantado! -- sorriu


“Gente, que homem é esse?” -- pensou -- Meu nome é Lady. Encantada!


--Lady? -- surpreendeu-se -- Eu não esperava menos. Melhor se fosse, sua Majestade! -- fez reverência


--Ai... -- sorriu empolgada -- Olha, infelizmente eu tenho que ir porque vou pra faculdade daqui a pouco... -- mordeu o lábio inferior -- “Que pena!” - pensou


--Sei como é. Sou engenheiro mecânico e lembro bem daqueles tempos de estudo árduo. -- não parava de mentir


--Jura?? -- sorriu empolgada -- Eu faço engenharia de produção!


--Ah, que bom! -- respondeu sem graça -- Ouça, será que poderia acompanhá-la até sua casa?


--Melhor não! Sou moça de família e fica chato, sabe como é... -- fez um tipo


--Ah, eu sei... coisa rara nos dias de hoje. -- pegou a carteira e tirou um cartão -- Por favor, fique com meus contatos. -- estendeu para ela, que logo pegou -- Mas, ligue apenas para o celular porque o fixo da oficina vive ocupado. Sabe como é, muitos clientes! -- era um cartão de apresentação da época em que trabalhava com Seyyed


--Você trabalha em oficina? -- leu o nome da ESSALAAM


--Eu sou o dono, meu bem! -- mentiu cheio de pose


--Gente! -- sorriu empolgada -- "Nossa, que coisa promissora!” -- pensou


--Vai me dar seu telefone? -- pediu


--Deixa que eu te ligo. -- respondeu sorrindo -- E agora, -- olhou para o relógio -- tenho mesmo que ir!


--Foi um prazer. -- sorriu e beijou-lhe a mão novamente


--Igualmente... -- sorriu, jogou os cabelos e se foi


“Logo, logo eu jogo essa moça de família numa cama e como ela todinha!” -- Silvio pensou sorrindo -- "Que belos peitões...”-- imaginava um monte de cenas eróticas com Lady

***


Lady entrou saltitando no apartamento. Tatiana preparava-se para sair.

--Nossa, que alegria! -- exclamou sorrindo


--Conheci um verdadeiro gentleman no aterro. E além de tudo era bonito e gostoso! -- sorriu -- Dono de oficina mecânica, engenheiro... -- rodopiou pela sala -- Era tudo que eu queria.


--Calma, mulher, você mal o conhece, uai! -- riu


--Você e Priscila são sempre assim, é? -- perguntou chateada -- Eu sei quando vejo um homem decente na minha frente! E aquele ali é pra casar! -- afirmou convicta


--Tudo bem, não tá mais aqui quem falou. -- pegou a bolsa -- Até mais.


--Até! -- foi pulando para o quarto para começar a se arrumar

***


--Ai, mãe, essa maldita mulher não atende a gente nunca! -- Camille reclamou em voz baixa -- Estamos aqui há uma hora e essa égua sem rabo nem pra se mancar e fazer alguma coisa!


--Pelo amor de Deus tenha paciência e não vá destratar a mulher! -- ralhou aos cochichos -- E trate de melhorar essa cara!


O telefone tocou. A secretária atendeu, falou rapidamente e depois se dirigiu a Camille e a mãe: -- Dona Geni disse que as senhoras podem entrar! -- sorriu -- É por ali, segunda porta a direita.


--Obrigada! -- Mariângela se levantou e Camille também. Ela havia ido de muletas


--Geni! -- Camille resmungou -- E joga pedra na Geni... -- começou a cantarolar


--Menina! -- a mãe ralhou


--Precisa de ajuda? -- a secretária se levantou solícita


--Não, obrigada! -- Camille respondeu contendo o mau humor


Foram até a sala da mulher que as esperava com um sorriso no rosto.


--Muito bom dia! Por favor, sentem-se! -- levantou-se e apontou duas cadeiras


--Bom dia! -- Mariângela sorriu e discretamente olhou para a filha


--Bom dia! -- Camille respondeu tentando ser simpática


Geni apertou as mãos das duas e ofereceu café; ambas recusaram delicadamente. Pediu para que se sentassem e elas assim o fizeram.


--Desculpem a demora, é que tivemos uma reunião e ela durou um pouco mais do que eu previa.


--Não tem problema, aliás, nós devemos é lhe agradecer por nos ceder um pouco do seu tempo. É muito gentil de sua parte. -- olhou para a filha


--Certamente. -- Camille complementou -- Eu tenho procurado me inteirar ao máximo sobre o processo de transferência e fico feliz que tenha nos recebido com tão boa vontade. -- tentava disfarçar a raiva que sentia por ter esperado tanto -- "Maldita Geni...” -- cantarolava mentalmente


--Não têm do que agradecer! -- balançou a cabeça enquanto servia café para si mesma -- É o meu trabalho e além do mais eu devo muito a Olga e vocês são parentes dela...


--Parentes?! -- Camille perguntou surpresa. A mãe deu-lhe um beliscão na coxa. -- Ah, claro! -- esfregou a mão na perna -- E que família unida, viu? Coisa linda de se ver! -- tentou disfarçar


--Ela me disse que vocês passaram por uma situação desagradável em São Paulo e vieram pra cá querendo recomeçar. -- olhou para Camille -- Fiquei admirada com sua força de vontade e coragem pra continuar! E ainda é nadadora! -- bebeu um gole de café -- Falta essa coisa, essa ‘raça’ aos jovens de hoje em dia! Parabéns!


Camille ficou surpresa com a descrição tão positiva que Olga havia feito a respeito dela. --Obrigada! -- agradeceu encabulada


--Não, é verdade! Você teve força pra dar a volta por cima sem fraquejar! Admiro muito isso! -- bebeu mais café


Mariângela estava radiante por conta da boa impressão que Olga passou sobre sua filha.


--Mas agora o meu receio é que... -- a loura pausou -- Bem, eu recebi o edital de transferência por parte de dona Conceição, lá da USP, e no texto dizia que o número de períodos que seriam cursados aqui tem que ser maior do que o número de períodos que eu cursei lá... E só me faltam dois períodos pra me formar...


--É, eu sei, mas existem as exceções, casos omissos no edital e questões particulares. -- cruzou as pernas -- Você é um caso todo à parte e ainda é uma portadora de necessidades especiais. Nós podemos contornar esse problema de forma totalmente lícita e idônea. -- pausou -- Olga me disse que você era uma excelente aluna.


--Nós trouxemos um histórico... -- olhou para a mãe que tirou o documento de dentro de uma pastinha -- não está atualizado mas trouxe apenas para a senhora ver.


--Veja, dona Geni. -- Mariângela entregou o documento a outra mulher


--Nossa, CRA de 8,7... pra uma estudante de engenharia é ótimo! Ainda mais considerando que a USP é uma excelente escola! -- devolveu o histórico a Mariângela -- Eu vou lhe dar uma lista da documentação que você precisa solicitar a sua universidade. -- colocou os óculos e olhou para a tela do computador -- Pra começar no segundo semestre estes documentos devem estar com você até julho, e eles têm tempo de sobra pra providenciar. Porém, -- mandou o documento para impressão -- a carta do diretor vai demorar a ficar pronta porque eles têm milhões de documentos pra assinar, então você terá que ficar em cima, porque senão perde o prazo por causa disso. -- pegou a folha de papel ejetada pela impressora e estendeu a Camille, que logo a recebeu -- Você vai ter de fazer a prova, como qualquer outro candidato, e se passar vai voltar aqui e nós resolveremos a sua situação em termos de burocracia. -- sorriu


--Nossa, eu nem sei como agradecer! -- sorriu também


--E nem eu! -- Mariângela complementou -- A senhora não sabe a alegria que está nos proporcionando! -- sorriu agradecida


--Faça a sua parte e estude pra passar na prova. -- tirou os óculos


--Faço isso todos os dias por horas a fio! -- Camille respondeu com sinceridade


--Eu sou testemunha! -- Mariângela atestou


--Acredito. Pelo pouco que sei de você, acredito completamente nisso. -- pausou -- Às vezes as pessoas não conhecem seus direitos e por isso perdem oportunidades. Estamos aqui pra esclarecê-los! -- o telefone tocou -- Com licença! -- olhou para as duas -- Alô! -- pausou -- Ah, sim. Me dê cinco minutos, pode ser? -- pausou novamente -- Ótimo, até! -- desligou -- Queridas, eu gostaria de conversar mais, porém tenho que ir pra outra reunião.


--Claro, quem somos nós pra lhe atrapalhar? Já fez muito! -- levantou-se e estendeu a mão -- Muito obrigada pela ajuda a minha filha!


Geni apertou a mão dela e respondeu: -- Eu não ajudei, ela foi quem se ajudou. Aí as coisas vêm por acréscimo! -- sorriu


Camille levantou-se e estendeu a mão também: -- Muito obrigada mesmo! -- agradeceu com sinceridade


--Estude e ganhe aquela vaga! -- respondeu com firmeza enquanto apertava a mão da jovem


--Tem minha palavra! -- respondeu decidida


As duas saíram da sala de Geni e se despediram da secretária. Foram se encaminhando para o elevador.


--Meu Deus, Olga tem sido um anjo que foi colocado nas nossas vidas só pra fazer o bem! E pensar que eu tive preconceito com ela se envolver com meu irmão... -- relembrou envergonhada -- Mariano hoje é outro homem... E ela nos apresentou a Flávia e agora a essa mulher...


--É, eu tenho que reconhecer que nós devemos... que eu devo a ela. -- o elevador chegou e as duas entraram -- Tomara que dê tudo certo!


--Vai dar... e eu vou pagar a promessa que fiz a Nossa Senhora quando você estiver matriculada aqui. -- saíram do elevador


--Promessa, mãe? -- perguntou com ceticismo -- Ainda nesse tempo de fazer promessa pra santo?


--Camille, respeite minha fé! -- reclamou -- Se depois de tudo que já nos aconteceu, você não acredita em Deus e na Virgem até hoje, só me resta lamentar! Não consegue ver um palmo a frente do nariz!


Foram caminhando para o ponto de ônibus.


--Mãe, se eu pedir pra você fazer uma promessa dessas aí pra uma colega de natação você faz? -- pediu envergonhada


--Que colega? -- perguntou com estranheza -- Você nunca fala de ninguém de lá!


--É uma nadadora cega que eu admiro muito. Ela é atleta de verdade. Estava até sendo preparada pras olimpíadas, mas uns bandidos miseráveis assaltaram ela e machucaram a garota... ela vai ter que operar o braço e corre o risco de não poder mais nadar usando ele.


--Nossa, que maldade! -- olhou para Camille -- Qual o nome dela?


--Fátima. -- pausou -- Fátima Borges. Ela é uma pessoa ótima... totalmente diferente de mim!


Mariângela parou de andar e olhou para a filha. -- Você pode ser uma pessoa difícil, Camille, mas não quero que pense que é ruim! E você é assim porque quer! Pode se modificar a qualquer tempo.


--Ah, mãe, pára, meu... -- parou de andar também -- Você não gosta muito de mim... só me atura porque sou sua filha e não tem jeito! -- fez cara feia -- Pra que fingir o contrário?


--E da onde tirou isso? -- perguntou surpresa -- Você é que nunca gostou de mim! Somente do seu pai. -- pausou -- E aqui não é o lugar pra termos essa conversa! -- olhou para todos os lados vendo se alguém prestava atenção


--Eu era criança mas lembro bem de te ouvir dizendo pra meu tio que você não me queria! Você fez o que meus avós queriam que fizesse! -- relembrou magoada


--Quando eu disse isso, menina? -- perguntou chocada -- Quando? Você está é louca! -- conteve-se para não elevar a voz


--No meu aniversário de cinco anos! Eu lembro muito bem! Fui no banheiro e te ouvi falando na cozinha com meu tio!


Mariângela ficou pensando e se lembrou do que aconteceu. -- Meu Deus, Camille... -- seus olhos se encheram de lágrimas -- Eu não falava de você, falava de seu pai! Nós tivemos uma discussão feia naquele dia e eu pensei em me separar! Então eu disse pra Mariano que não queria ter me casado com ele! Disse que só fiz isso porque nossos pais queriam assim! -- tocou o rosto dela -- Eu nunca, nunca rejeitei você! E sempre sofri com seu desprezo e a distância que sempre impôs entre nós!


--É verdade?? -- perguntou em choque -- Eu... -- não conteve uma lágrima teimosa -- eu acreditei a vida toda que você não me queria... por isso me apeguei mais ao papai...


--E eu sempre sofri muito com isso! -- também não conteve a emoção -- Sempre tive muito orgulho de você, minha filha! E aquilo tudo que Olga disse sobre você, eu concordo completamente!


--Mas é mentira! Eu não fui forte, eu fiquei deprimida, eu quis morrer! -- começou a chorar -- Eu tentei me matar!


--Mas você mudou! -- segurou o rosto da jovem com as duas mãos -- Você está dando a volta por cima e eu tenho muito orgulho!


--Desde que voltou de Manaus você mudou comigo! Não é mais como era! -- continuava chorando -- Como pode ter orgulho?


--Eu mudei porque você me trata mal, é estúpida comigo! Queria que aprendesse a me respeitar e que me desse valor! -- chorava -- Não sabe como me dói quando me despreza, quando me agride... Não sabe o que sinto quando me acusa pela morte de seu pai e pelo que aconteceu a você...


--Você não foi comigo...


--Porque eu não podia ir! Tinha encomendas a entregar e precisava do dinheiro! Seu pai ganhava muito bem mas não me dava nada, minha filha, nada! Aquelas costuras sempre foram minha chance de ter alguma coisa! E ele gostava que eu costurasse porque com isso eu não lhe pedia dinheiro pra mim! -- lutava para não chorar, mas não conseguia -- Ele me propôs de ir com você porque tinha uma folga e podia lhe acompanhar, e aí eu aceitei... Filha, não foi culpa de ninguém! Ninguém poderia imaginar o que iria acontecer...


Camille calou-se e olhou para cima chorando. A mãe soltou seu rosto. Respirou fundo e respondeu: -- Eu sei... é que eu queria alguém pra culpar... não sabe como é difícil pra mim aceitar o que houve...


--Eu imagino... e foi por isso que mudamos tudo por você...


--E eu nunca nem agradeci... --  olhou novamente para a mãe


--Já me agradece voltando a viver...


--Você me ama? -- perguntou insegura


--Muito! -- passou as mãos nos olhos -- Você é amada, filha! Por mim, por seu tio... e posso dizer que até Flávia e Olga amam você! As pessoas não se aproximam mais porque você não deixa...


Camille ainda chorou um pouco e disse com muita sinceridade: -- Perdoe mãe... por tudo... e... muito obrigada...


--Ô meu amor... -- cobriu os lábios com as mãos


--Eu queria ser uma pessoa melhor... mas eu não sei... eu sou estranha, eu vivo com raiva... me ajuda? -- pediu humildemente


Mariângela abraçou a filha e as duas choraram juntas com muita emoção. As muletas de Camille caíram mas ela não se importava; a firmeza do abraço da mãe equilibrava seu corpo.


Duas vendedoras de bombons, que prestavam atenção a tudo, se abraçaram também emocionadas.


--Que coisa bonita, não é, Lindaura? -- uma comentou chorando


--Ai, Nein, eu não posso ver essas coisas que me emociono... -- a outra respondeu passando um paninho nos olhos

***


Renan estava regulando o motor de um Chevrolet quando foi abordado por um homem.


--Ei, rapaz, faz favor! -- o mecânico olhou para ele -- Deixa eu te perguntar, é aqui que é a oficina da Seyyed Khazni? -- alisou os bigodes


--Sim senhor! Quer falar com ela?


--Gostaria muito! É coisa séria! -- pôs as mãos na cintura


--Tudo bem... -- respondeu desconfiado -- Um segundo que vou chamá-la. -- correu até a mecânica


A morena estava deitada debaixo de um carro consertando o escapamento.


--Seyyed! -- abaixou-se perto dela -- Tem um homem com um chapelão enorme querendo falar contigo! Parece até um cowboy!


--Nossa, rapaz, e quem é esse? -- deslizou a prancha e saiu de debaixo do carro


--É sério, Ed... E parece gente de dinheiro! A fivela do cinto dele reluz que nem ouro!


Ela se sentou rindo. -- E cadê ele?


--Ali! -- apontou o homem


Ed levantou-se e caminhou até ele enquanto limpava as mãos com estopas.


--Boa tarde! -- sorriu -- Seyyed! -- estendeu a mão


--Marciano! -- apertou a mão da morena. Ela viu estrelas -- Queria conversar contigo! E em particular!


--Tudo bem. -- sacudiu a mão discretamente -- “Ave Maria, que aperto de mão!” -- pensou -- Vamos pro escritório. -- apontou o caminho e seguiu atrás do homem


Chegando na sala, a morena puxou uma cadeira para o homem e se sentou também.


--O senhor gostaria de um café, um chá, água... -- ofereceu


--Agradecido, mas não necessita. -- cruzou as pernas e tirou o chapéu -- Aliás, devo lhe dizer que eu passei os olhos e gostei do que vi nessa oficina. Eu tenho um filho especial, sabe? -- pausou -- Gostei de ver que tem jovens do jeitinho dele trabalhando aqui.


--É, eles são meu orgulho... -- respondeu


--Bem, vou direto ao assunto porque nosso tempo é precioso. -- alisou os bigodes -- Eu sou um homem de negócios e aproveitei uma viagem ao Rio pra vim ter com você...


--Estou à disposição, sobre o que gostaria de conversar?


--Eu sou amigo do Eugênio Cremeti, presidente do Clube do Carro Antigo, deve conhecê-lo.


--Claro, gente muito boa...


--Ele me falou muito bem de você e do seu trabalho... eu tive uma experiência ruim com uma oficina de São Paulo e resolvi tentar contigo. Eugênio disse que eu não me arrependeria...


--Presumo que o senhor seja colecionador de carros antigos.


--Tenho alguns... a coleção é modesta, são só 752 carros.


--Setecentos e cinqüenta e dois?? -- perguntou em choque -- Nossa, deve ser o maior colecionador da América Latina! -- exclamou -- Talvez o maior colecionador do hemisfério sul!


--Talvez... -- sorriu -- Quando tinha problemas eu costumava a cuidar da minha coleção nos Estados Unidos, com um mecânico chamado Aldrey Johannes, já ouviu falar?


--Aldrey Johannes, como não? Esse homem era o meu ídolo profissional! Só lamento não tê-lo conhecido pessoalmente.


--É, a perda dele foi uma lástima... e me deixou sem um profissional de confiança. -- alisou os bigodes -- Um amigo me recomendou Paulo Smiglione mas eu achei o serviço ruim demais da conta...


--Mas o Paulo é ótimo! Perdoe perguntar, mas o que aconteceu?


--Aconteceu que ele se pegou com uma jovem ninfeta que se veste com Band Aid, porque os trem que ela usa não são roupa, e agora ele só quer saber de sacanagem. Largou a oficina nas mãos dos funcionários, que fizeram um serviço porco que quase me fez perder meu carro favorito. Chega doeu! -- descruzou as pernas e olhou fixamente para ela -- Quero que você reverta o problema e me devolva o carro tinindo de novo!


--Eu preciso ver o carro pra saber o que houve e lhe dizer se tenho condições... Quero lhe dar uma resposta verdadeira e justa quanto às possibilidades. -- pausou -- Qual é o modelo?


--Porsche 550 Spyder, de 1955, dirigido por James Dean em uma propaganda logo depois das gravações de Rebeldes Sem Causa. Ele gostou tanto do modelo que comprou um igual: o Little Bastard.


--Uau! -- arregalou os olhos -- É um carro e tanto! E tendo sido dirigido por James Dean deve valer uma fortuna!


--Esse carro é avaliado em mais de cem milhões de dólares. -- alisou os bigodes. Seyyed ficou sem palavras -- Quero que conserte ele pra mim! -- afirmou com seriedade


--E onde está o carro?


--Na minha fazenda no norte de Goiás. -- pausou -- Eu posso mandar trazer ele aqui pra você ver! -- a mecânica novamente ficou sem saber o que dizer -- Pago cinquenta mil reais pra você avaliar e ver o que acha.


--Mas é muito dinheiro! Não precisa me pagar por isso, eu não cobro por avaliações...


--Mas eu pago, uai! -- bateu o pé no chão -- E quero que avalie com muita atenção... Se consertá-lo, eu lhe darei muito dinheiro. Mais do que já recebeu a vida inteira em qualquer serviço.


--Nossa... -- Ed balançou a cabeça abestalhada -- E quando verei esse carro?


Marciano levantou-se e fez uma ligação no celular. Após dizer algumas coisas respondeu a ela: -- Amanhã!


--É, o senhor não brinca em serviço! -- exclamou surpresa -- Então tudo bem, eu vejo ele amanhã. -- pensou -- E afinal de contas o que houve com esse carro que ficou precisando de restauro?


--Meu menino mais velho... Ele corre muito e dirige... mal.


--Hum...


--Se fizer um bom trabalho, não vai se arrepender. -- colocou o chapéu -- Agora tenho que ir.


Ela se levantou também. -- Eu o acompanho.


Seyyed levou o homem até a entrada da oficina e viu que um motorista parado diante de um carro de luxo o aguardava na porta. Despediram-se. Depois que o homem se foi Renan veio correndo.


--Que ele queria, Ed? -- perguntou curioso -- Sujeito diferente!


--De agora em diante, você, Rubens e eu não pegamos mais serviço nenhum pra fazer. Temos um Porsche 550 pra restaurar.


--Porsche 550??? -- Renan arregalou os olhos -- Qual é o problema dele?


--Seja lá o que for! -- olhou bem para ele -- A gente vai resolver. E vai entrar um bom dinheiro nessa oficina!


--Que sorte!

--Sorte?! “Sorte é estar preparado para a oportunidade quando ela aparece.”8 Tá nessa comigo?


--Com você? Sempre! -- sorriu

***


Isa chegava na faculdade quando levou uma fechada de um sujeito e teve que manobrar para não bater. Acabou arranhando o carro em uma mureta e desceu para ver. -- Ai, que droga! -- passou a mão no pescoço -- Droga! -- entrou no carro novamente e o estacionou em uma vaga


Quando estava caminhando para o prédio uma moça a abordou. -- Ei, você tá bem?


Isa olhou para trás e respondeu: -- Sim, foi só um susto! -- pausou -- E um baita arranhão!


--Ai, que pena... e o seu Taurus tão novinho e bonito!


--E nem é meu... é da minha namorada. -- falou naturalmente


A outra moça olhou para ela surpresa. -- Nossa! -- respondeu sem graça -- E como será que ela vai reagir?


--Vou descobrir. -- sorriu -- Meu nome é Isabela, e o seu?


--Danuza! -- respondeu ainda constrangida -- Eu sei quem você é. Te vi em Manaus. Minha família é de lá e eu fui assistir o espetáculo.


--Ah, é? -- perguntou surpresa e lisonjeada -- E gostou?


--Excelente! O que faz aqui? Deveria estar no exterior estudando o clássico!


--Eu queria conhecer mais do contemporâneo.


--Vai levar quatro anos conhecendo. Tempo precioso, não acha? Poderia fazer uma audição e tentar ir pra fora. Você é ótima!


Isa sorriu e ficou um pouco desconcertada. -- Eu quero me dar a chance de estar aqui. Acho que vai ser bom pra mim.


--Você é quem sabe. -- pausou -- Bem, eu vou lá. Tchau!


--Tchau... -- respondeu pensativa


A ruiva ficou pensando enquanto caminhava. “A coisa que eu mais quero é estudar no exterior, mas acho que devo dar um tempo porque Beatrice pode me queimar. Mas talvez ela não possa e eu esteja viajando na maionese... Ao mesmo tempo eu queria conhecer a dança contemporânea, mas essa garota tem razão e talvez minhas chances daqui a quatro anos sejam menores porque estarei mais velha. Até quantos anos uma bailarina é aceita nestas escolas tradicionais da Europa? E nos Estados Unidos? E se eu fosse pro exterior agora ou daqui a quatro anos o que faria com Ed? Ela não vai comigo, como eu faria? Será que um casamento resiste a quatro ou cinco anos de distância? Eu não queria perdê-la, mas não queria abrir mão de meus sonhos. O que eu faço? Eu não queria ir agora porque a gente ainda nem casou e seria um golpe fatal no relacionamento...”


Entrou na sala de aula e as colegas já estavam lá. Cumprimentou a todas e se sentou. Pegou o celular e ligou para a namorada.


--Alô, minha gata!


--Oi, amor! -- a ruiva sorriu


--Você não sabe o que aconteceu! Apareceu um fazendeiro ricaço de Goiás que quer a gente restaure um Porsche dele. Só pra avaliar o carro ele quer pagar cinqüenta mil, e eu nem cobro por esse serviço!


--Gente! -- ficou impressionada -- Amor, você tem que consertar o carro dele!


--E eu quero! Esse homem era o que eu precisava pra terminar de pagar minhas dívidas!


--Ai, Ed, eu sei que você consegue! -- sorriu


--Vou fazer de tudo pra isso. -- pausou -- Mas e você aí? Como está?


--Estou bem... Acredita que papai age como se nada tivesse acontecido?


--Então deixe que assim continue.


--É o que tô fazendo, mas não é fácil... eu fiquei muito magoada com ele...


--Não guarde mágoas, menina... faz mal pra gente...


--Eu sei...eu sei... -- pausou -- Escuta... eu tenho uma coisa pra te dizer... -- fechou os olhos -- Eu levei uma fechada de um maluco quando chegava no prédio e tive que manobrar no susto...


--Você está bem?? -- perguntou preocupada


--Calma, tô sim... -- sorriu -- Mas arranhei o carro...


--Depois eu conserto. -- respondeu tranquilamente


--Só isso? -- abriu os olhos -- Não tá zangada comigo? -- perguntou surpresa


--Eu não.


--Mas... te dei um prejuízo...


--É, isso é... -- pausou -- Se usar uma daquelas suas lingeries deliciosas da próxima vez que estivermos juntas isso vai aplacar a minha fúria... -- respondeu brincando


--Hum... -- sorriu e cruzou as pernas -- Quer que eu pague o prejuízo com sex*, é, Seyyed? Muito feio isso... -- brincou também


--Eu sou assim mesmo, só faço coisa feia!


--Boba! -- a professora entrou na sala -- Amor, a professora chegou, eu tenho que desligar.


--Boa aula!


--Obrigada... te amo!


--Eu também... você vale mais que um carro, garota. Muito, muito mais.


Isa sorriu e desligou o telefone. “Não, eu não troco minha mecânica por nada... por nada...” -- pensou

***


Isabela chegou em casa por volta das 00:00h. Sua mãe estava acordada esperando.


--Meu Deus, menina!! -- pôs as mãos na cintura -- Isso são horas? -- fez cara feia


--Não pense mal, mamãe. -- fechou a porta -- A aula terminou às dez e meia e ainda tinha uma blitz na saída do túnel. Claro que eles me pararam. -- sentou-se na poltrona


--E fizeram alguma coisa com você? -- sentou-se do lado dela -- Te pediram dinheiro ou algo assim?


--Ah, criaram um monte de caso e no final pediram ‘um café’. Mas eu aleguei que era estudante e sem dinheiro. Aí eles falaram que estudante sem dinheiro não fica circulando com um Taurus por aí. Então aleguei que era da minha chefe, porque de dia eu era secretária de uma oficina... -- passou a mão no rosto -- Foi a maior aporrinhação! Mas eu dei sorte que veio um carro com quatro rapazes e o motorista corria como um louco. Aí me deixaram passar pra ir em cima deles.


--Mas que chato, hein? -- olhou preocupada para a filha -- Essa sua faculdade termina muito tarde... -- balançou a cabeça -- Pior vai ser quando se mudar pro Meyer... mais longe vai ficar...


--Vai dar tudo certo, mamãe! E praquelas bandas de lá quase não fazem blitz. Eles vêm pra cá não é à toa! -- levantou-se e beijou a testa da mãe -- Vou tomar um banho!


--Sabia que seu pai ainda não chegou? Ligou dizendo que ia demorar por causa do fechamento do caixa... -- cruzou os braços contrariada -- Acredito muito...


--Mamãe, por que passa por isso? -- olhou para ela -- Papai ou homem algum vale tanto! Você sacrifica sua auto estima, sua felicidade... O comportamento dele é inadmissível!


--Eu já disse que não quero ser a separada da família e não vou ser!


--E daí? Eu vou ser a sapatão da família!


--Você tem mais coragem que eu... -- olhou para um ponto perdido na sala -- E eu... quando eu casei com Anselmo queria que fosse pra sempre...


--Nada é pra sempre, mãe... -- respirou fundo -- Mas, isso é com você... -- lamentou -- De qualquer modo, no seu lugar, eu não faria absolutamente nada pra ele. Que se virasse!


Nesse momento Anselmo abre a porta.


--Ué? -- perguntou surpreso -- Todo mundo me esperando? -- sorriu sem graça


--Não mesmo! -- olhou para ele -- Eu esperava por nossa filha, que acabou de chegar.


--Por que tão tarde? -- perguntou desconfiado


--Minha aula acabou mais tarde e caí em uma blitz. -- a ruiva respondeu secamente


--Claro! -- colocou a maleta sobre a poltrona -- Dirigindo um carrão daqueles, tem que cair mesmo! -- pôs as mãos na cintura -- Afinal de contas, de quem é aquele carro, hein? -- estava de cara feia


--Da amiga dela. -- Ana levantou-se de um pulo -- A moça ficou preocupada com a segurança de nossa filha e emprestou. -- tentava enganá-lo


--Amiga boa essa, não? E ainda empresta um carro do ano!


A bailarina não sabia aonde o pai queria chegar, embora estranhasse que o assunto não tivesse surgido até aquele momento.


--Pois é pai... imagina que uma outra amiga minha GANHOU um Citroên C5 0km, acredita? Foi o namorado que deu... -- respondeu educadamente porém desafiadora


Anselmo não sabia onde enfiar a cara.


--Nossa, que amiga é essa? -- Ana perguntou com olhos arregalados


--Da faculdade, mãe. Ela namora um desses homens de meia idade sem noção que tem por aí, e ganhou o carro de presente. -- olhou para o pai


“Seyyed tinha que fazer o mesmo com minha filha! Vou conversar com essa menina a respeito porque tá dando mole...” -- Ana pensou


--Pelo menos ela ganhou o carro de um homem. Pior seria se fosse de uma mulher, não é? -- respondeu tentando se recompor -- Nos dias de hoje se vê cada coisa, não?


--Pois é, se vê muita coisa... -- preparou-se para ir para o quarto -- Mas se a mulher fosse solteira era bem melhor que um homem casado, fingido e sem vergonha. Aquele tipo que faz a maior média de bom moço na frente da família, vai na igreja puxar o saco do padre, mas por trás é outra coisa... Fico enjoada só de pensar... -- olhou para a mãe -- Boa noite, mãe. E vá dormir porque você precisa de descanso. -- olhou para o pai -- Boa noite pai. -- saiu

Ana estranhou aquela conversa e desconfiou de Anselmo saber do relacionamento de Isabela.


--Tô com fome, Ana. -- tirou a gravata -- O dia hoje foi infernal... -- havia ficado mal humorado


--Tá com fome, bebê? -- perguntou com deboche -- Se vira! -- foi para o quarto


Anselmo ficou sem ação.

***


Priscila havia acabado de jantar em um restaurante da moda com um rapaz bonito que a desinteressou no decorrer da noite. Ricardo tinha presença e porte, mas era um perfeito idiota. Entraram no carro dele.


--É... que tal a gente ir pra um lugar maneiro e ficar mais à vontade, hum? -- perguntou sedutoramente antes de ligar o carro


--Ah, eu sinto muito, mas não quero ir pra motel. -- foi educada porém direta


--Prefere dentro do carro? -- perguntou -- Eu posso ir pra um lugar mais escuro! -- sorriu maldosamente


--Você é idiota ou o que? Achou que eu trans*ria com você dentro do carro? -- perguntou revoltada -- Eu não quero trans*r contigo, é isso! Não entendeu ainda? -- respondeu rispidamente


--Qual é, vagabunda? Eu gastei dinheiro contigo e quero o meu! Meu amigo gastou muito menos e tu deu pra ele! -- respondeu com grosseria


--Vagabundo é você, playboyzinho de merd*! Eu vou pra cama com quem eu quero e ponto final! E não iria contigo nem por muito dinheiro! -- saiu do carro e foi andando apressadamente pelo estacionamento


--Tá pensando o que? -- saiu também e foi atrás dela -- Vai ter que me dar! Piranha, vagabunda!


--Socorro, socorro!!! Tarado, socorro! Socorro!! -- começou a correr e fazer escândalo


--Cala a boca, vadia, tá doida? -- perguntou nervosamente e correu atrás dela. Quando a alcançou tentou tapar sua boca -- Cala a boca, piranha!


--Socorro!! Socorro!! -- debatia-se contra ele


Dois seguranças do restaurante que estavam ali perto fumando vieram correndo.


--Que se passa aqui? -- um deles perguntou com autoridade


--Nada, amigo! Coisa de casal! -- Ricardo respondeu sem graça


--Mentira! -- desvencilhou-se dele -- Esse maldito é um tarado! -- correu para junto dos seguranças -- Eu preciso de um táxi. Chama pra mim? -- pediu aos dois nervosamente


--Peraí, Pri... -- tentava disfarçar


O outro segurança olhava para o casal com cara de desconfiado.


--João, vai ligar pro táxi! -- o colega ordenou. Ele foi -- E você amigo, vá embora! -- disse ao rapaz


--Qual é cara? -- perguntou autoritário -- Isso é entre ela e eu!


--Vai embora seu marginal! -- Priscila disse -- Eu não quero nada contigo! Você é um playboyzinho ridículo!


--Vá embora rapaz! -- o segurança insistiu com firmeza. Ricardo finalmente foi. Partiu cantando pneus


--Ai, obrigado! -- agradeceu e respirou fundo -- Ele é daqueles homens que acham que uma mulher tem que pagar um jantar com sex*. -- estava nervosa e trêmula


--Ele e tantos outros... como meu colega que mandei chamar o táxi pra você. -- pausou -- Quer beber água com açúcar? -- estava preocupado


--Não, eu só quero ir embora... obrigado!


--Escute, moça, eu tenho uma filha da sua idade e o que vou lhe dizer é o que digo a ela: às vezes a gente, que é pai, pode parecer machista porque fica de olho nas filhas, mas pelo menos no meu caso tô preocupado com o que de mau possa acontecer. Um rapaz daqueles é desses playboyzinhos que não respeitam nada e nem ninguém. Eles acham que podem fazer o que quiserem! Você deu sorte porque estávamos aqui fora, mas esse estacionamento é sempre deserto. Aquele cara podia ter feito coisas e ninguém veria... Na hora H, a mulher sempre é vista como culpada e as próprias mulheres endossam as acusações. -- pausou -- Minha irmã foi estuprada e eu lembro bem o que diziam... Não à toa ela acabou ficando maluca... -- olhou bem para ela -- Cuidado com quem você sai... Um homem pode sair com mil mulheres e elas não vão chamar ele de vagabundo e estuprá-lo, até porque não podem fazer isso. E as mulheres respeitam os homens. Se uma mulher sair com mil homens, ao menos um deles vai achar que pode fazer o que quiser e quase todo mundo vai dar razão a ele... A maioria dos homens não respeita as mulheres, e não importa se elas são donzelas ou fogueteiras... Preste muito atenção nisso, e se tem carro, use sempre ele, assim não fica na dependência de ninguém.


Nesse momento o táxi chegou.


--Obrigado... obrigado mesmo! -- foi a única coisa que ela disse


--Vá com Deus! -- ele se despediu


Priscila entrou no carro e ficou pensando nas coisas que aquele homem lhe disse. Ele tinha razão... infelizmente.


“Por que as coisas são assim? Por que as pessoas construíram as regras sociais de uma forma que os homens sempre se dão bem, sempre ficam por cima? Por que não mudamos isso? Por que nós mulheres deixamos isso acontecer? Por que perpetuamos um modo de pensar e agir que só nos prejudica?” -- pensava revoltada -- “Por que evoluímos em tudo, menos na moral sexual e na ética da sociedade? Quando isso vai mudar?”


Ricardo era amigo de um outro com o qual ela havia saído há meses atrás. Na certa, o colega havia falado mal dela e o idiota achou que se pagasse um jantar teria tudo em uma noite. Porém, Priscila, que até havia se interessado por ele, mudou de idéia ao ouvir o papo vazio e carregado de frivolidades. Se fosse o contrário, se ela ‘recomendasse’ um cara a uma amiga, ela não sairia com ele se sentindo como alguém que recorre a um fast food. E mesmo que fosse mesquinha a ponto de pensar assim, não deixaria de vê-lo como uma pessoa. Ricardo viu nela apenas uma vagin* que ele julgou indigna de qualquer consideração e respeito. Da mesma forma ele se desrespeitava, mas diante de si mesmo e da sociedade ignorante, esse fato passava simplesmente despercebido. Ele estava por cima, ele é o homem! Ela era ‘apenas’ uma mulher. E vadia!


“As pessoas não raciocinam! Por que eu sou vadia e não ele? Um homem trans* com quantas mulheres estiverem a fim e ainda gasta dinheiro pra facilitar as coisas. Nós não costumamos a ser tão disponíveis e não precisamos gastar um centavo! Basta olhar mais intensamente para um homem e você, muito provavelmente, o terá em sua cama se quiser. Basta demonstrar que quer e tá feito! E por que nós é que somos as vadias? Pegar um homem é mais fácil que pegar uma doença...” -- continuava pensando


Toda história é contada sob a ótica do narrador e para Priscila era incrível como, até hoje, em matéria de sex* e comportamento, sempre prevalecia a distorcida e ignorante ótica machista. E o que é pior: com o aval das próprias mulheres! Elas ensinavam os homens a pensar assim desde meninos. Até as revistas ditas femininas espalham os pensamentos machistas sob um disfarce de feminismo pós moderno. Basta um olhar mais crítico para se perceber as armadilhas escritas nas entrelinhas.
Lembrou que Isa sempre lhe disse que os homens tinham o papel de juízes: cabia a eles decidir qual mulher era ‘honesta’ e qual não era. Porém, eles não eram julgados. Podiam fazer qualquer coisa e não perderiam o valor por isso; a menos que fossem homossexuais passivos. Podia ouvir a amiga citando Nancy Linn-Desmond: “Fácil é o adjetivo que se utiliza para descrever a mulher que tem moral sexual de um homem.” Ou ainda Marya Mannes: “Ninguém reclama se uma mulher for uma boa escritora, escultora ou especialista em genética, sempre que ela também demonstre ser boa esposa, boa mãe, bonita, estar sempre de bom humor, se vestir bem, estar sempre arrumada e não se queixar nunca.”


Priscila nunca havia se preocupado com as questões ideológicas que a amiga ruiva tanto valorizava, muito menos com as questões sociais que mobilizavam Patrícia e acendiam os ânimos de Tatiana, mas depois daquele episódio começava a pensar que talvez fosse o momento de atentar para as necessárias mudanças que a sociedade precisava. Talvez nunca tivesse fôlego para se lançar em movimentos sociais, porém semearia novas idéias por onde quer que passasse.


E aquela seria a última vez que não sairia no seu próprio carro. A menos que conhecesse o homem muito bem.

***


Lady estava deitada na cama conversando ao telefone com Silvio. Haviam marcado um jantar para sexta à noite. A moça já estava nervosa pensando no que vestir. Desligou o telefone e levantou-se da cama saltitando. Tirou um enorme vestido do armário.


Tatiana havia acabado de chegar em casa. Renan a deixou na porta do prédio.


--Ô de casa!  -- entrou chamando -- Alguém aí? -- perguntou


--Estou sozinha, amiga! -- Lady respondeu de dentro de seu quarto


--Deixa eu te perguntar, Priscila ainda não chegou? -- apareceu na porta -- Meu Deus, Lady, o que é isso? -- olhou em choque


--Meu vestido de noiva, oras! -- sorria enquanto o segurava -- Esqueci de colocá-lo no sol e agora vejo que tem manchas amarelas... -- fez um bico -- O ruim é que nesse apartamento não temos um lugar pra estender roupas volumosas! Aliás, mal temos espaço pra estender o básico num varal!


--Mas... -- foi até ela -- Nossa, que cheiro! -- fez cara feia


--Claro, não é amiga? Tem que colocar naftalina pra não dar barata e traça! -- colocou o vestido em cima da cama


--Esse trem não me parece muito novo... -- olhava desconfiada


--Eu o tenho desde os quinze anos!


--O que??? -- perguntou em choque -- Mas já são cinco anos, uai!


--Ora, eu não sabia quando ia me casar... uma mulher tem que ser prevenida! -- ficou olhando para o vestido


--Mas, tem base isso? -- balançou a cabeça -- E por que tá cuidando dele nesse momento?


--Silvio, meu engenheiro, me convidou pra jantar na sexta.


--E...? -- não entendia a relação entre uma coisa e outra


--Como assim, ‘e’? Nós vamos nos casar, tenho que estar pronta pro momento!


--Como vão se casar, criatura? Você o conheceu agora, ainda vai sair com ele, não sabe nada do cara... como sabe que vão casar? Tem base?


--Por que ele me disse que é rapaz sério e quer casar! -- sorriu -- Fomos feitos um para o outro! -- rodopiou no quarto


--Minha nossa, você é louca! -- riu


--Você é que é! -- voltou a cuidar do vestido -- Vai se casar com Renan e não tem nem vestido e nem nada!


--Eu ainda não me formei e só caso depois disso. Além do mais ele tem que se estabelecer na Goiânia primeiro, assim como eu. Depois de tudo isso, a gente casa, uai!


--Humpf! Você é muito descansada! No seu lugar, eu já teria até os salgadinhos prontos!


--Eu hein! -- riu -- Olha, Lady, vá devagar... Os homens, pelo menos muitos deles, dizem qualquer coisa pra levar uma garota pra cama, e no seu caso é obvio que a palavra casamento te dá tesão demais da conta! -- pausou -- Fique atenta pra não se decepcionar! Você só sabe dele aquilo que ele te contou! Fica esperta!


--Eu sou esperta, filha! -- respondeu decidida -- Estudei nos Estados Unidos, conheço a Europa... sou viajada e antenada, como diz Priscila.


--É... nota-se! -- olhou para o vestido e balançou a cabeça -- Bem, tá tarde e eu vou tomar banho e dormir. Boa noite! -- saiu do quarto da outra


--Boa! -- olhava para o vestido -- Será que Silvio já pensou no terno? -- disse para si mesma


Enquanto isso Priscila chegava esbaforida.


--Amiga! -- Tatiana sorriu para ela, mas ao perceber seu estado mudou de fisionomia -- O que te aconteceu? -- perguntou preocupada


--Nem te conto! -- tirou os sapatos -- Ricardo é um tremendo babaca! Eu desisti dele e aí o cara queria me pegar à força!


--Te pegar a força, você diz, estuprar??? -- perguntou em choque


--Pois é! -- jogou-se no sofá -- Se não fossem uns seguranças do restaurante dando mole na garagem eu nem sei... Um deles era muito gente fina e me disse coisas que me fizeram pensar... -- pausou -- Vocês têm razão: o mundo tem que mudar e a gente tem que fazer alguma coisa...


--Mas, e você? Está bem? -- apalpou a amiga


--Para, Tatiana! -- reclamou -- Tô bem, não me apalpe, tá bom?


--Eu vou te dar água com adoçante! -- levantou-se


--Não, não precisa! -- acabou rindo -- Ai, meu Pai, só você pra me fazer rir agora! Água com adoçante! -- riu de novo


--Açúcar engorda e dá diabetes, uai!


--Sei... -- parou de rir -- Ai! Que ódio!! -- esfregou as mãos no rosto -- Eu queria quebrar a cara daquele viado!


--Esquece amiga! -- sentou-se ao lado dela de novo -- Passou!


--Não conta nada pra nossa caipira de Pau d’Arco, tá? -- olhou para a Tatiana -- Senão ela vai vir com aqueles discursos machistas e conservadores e eu não vou agüentar!


--Relaxa! -- riu -- Só seu eu fosse doida! -- olhou para o corredor -- Aliás, ela tá no quarto cuidando de um vestido de noiva que tem cinco anos de idade! Num dou conta, não... -- falava baixo


--Como é???


--Ela tem um vestido de noiva desde os quinze anos. Mulher prevenida, sabe como é! -- riu baixinho


--Gente! -- riu -- Mas é pior do que eu pensava! E por que tá fazendo isso agora?


--Porque vai sair com o tal boyzinho do Aterro na sexta e já pensa que vai casar!


--Humpf! -- balançou a cabeça -- Essa aí é maluca e burra! -- levantou-se da poltrona


--Eu disse a ela pra não ir com tanta sede ao pote, e ela me respondeu que, como diz você, é antenada! -- levantou-se também


--Ah, é... -- começou a tirar as bijuterias e olhou para cima -- Ah, Pat, que saudades, viu? -- foi indo para seu quarto -- Que saudades!!!


--Nem me fale, amiga... -- Tatiana disse para si mesma -- Nem me fale...


***


--Ai, mãe, vou te contar, viu? Essas mulheres de universidade adoram deixar os outros plantados esperando que nem bestas! -- cruzou os braços revoltada -- Puta que pariu, que merd*! Mulherzinha filha da puta!!


--Camille! -- deu um tapa na perna dela -- Olha essa boca suja! -- olhou para os lados para ver se alguém prestava atenção -- Você não disse que queria ser uma pessoa diferente?


--Ah, mas é difícil demais! Especialmente quando essas malucas me fazem esperar por horas a fio! -- olhou para o relógio -- Essa aí é pior que a amiga de dona Olga. Já vamos pra duas horas de espera!


--Calma menina! -- Mariano pediu -- Pode demorar mas ela vai te atender!


A loura fez um bico.


Mais alguns minutos de espera e a secretária anuncia que eles podiam entrar.


--Vão vocês duas. Eu fico aqui pedindo a Nossa Senhora pra que dê tudo certo. -- olhou para a sobrinha -- Fique calma e trate a mulher com respeito.


--Mas vocês falam como se eu fosse uma cavala! -- resmungou reclamando


Camille estava na cadeira de rodas. Chegaram na sala de Conceição e a mulher as aguardava sorridente.


--Bom dia. Perdoem a espera. -- estava sentada -- Será que tem espaço suficiente pra cadeira? -- perguntou preocupada


--Bom dia. -- Camille respondeu tentando conter a fúria -- Eu já tenho boa prática com a cadeira, obrigada. -- ajeitou-se como pôde


--Bom dia, senhora. -- Mariângela sorriu -- Antes de mais nada, muito obrigada por nos receber. -- olhou para a filha


--Ah, é! Muito obrigada. -- esboçou um sorriso sem sal


--Priscila me falou de você. Parece que são amigas, não é? -- virou-se de costas para mexer no computador


--Priscila?! Não era Tatiana? -- sussurrou para a mãe


--Tatiana é minha cliente, criatura. Priscila é afilhada dessa aí e mora com Tatiana! -- cochichou de volta -- Você nunca sabe nada!


Conceição olhou para trás desconfiada. -- Você é amiga da Pri, não é?


--Da Pri? Ah, sou... amicíssima! -- mentiu


--Ela me falou do seu acidente. -- pausou -- Entendo porque trancou matrícula.


--É, eu precisava me recuperar e nós nos mudamos pro Rio...


--Entendo. -- voltou a atenção para o computador novamente


Um silêncio incômodo se estabeleceu. Mariângela decidiu falar alguma coisa.


--Já estivemos na UFRJ, dona Conceição. Dona Geni disse que precisávamos pedir alguns documentos aqui e mais uma carta...


--E ela disse que demora por causa da assinatura do diretor... -- Camille comentou


--É verdade... O aluno tem que ficar atento! -- continuava a prestar atenção no micro


--Pois é... como moramos no Rio e não temos condição de ficar vindo aqui eu gostaria que a senhora me orientasse quanto a isso... -- mexeu na pastinha -- Trouxe todos os documentos que a senhora me solicitou por e-mail. -- estendeu para a mulher


--Coloque aí na mesa. -- respondeu sem olhar para elas


--Mas que mulherzinha miserável... -- cochichou para a mãe que lhe deu um tapa no braço e fez cara feira


--Priscila me pediu pra cuidar do seu caso pessoalmente. -- olhou para elas -- Eu nunca faço isso, mas como vocês são muito amigas...


--Amiguérrimas! -- a loura mentiu descaradamente


--Como se conheceram? -- perguntou curiosa


--Como foi? Ah... parece que foi ontem! -- riu -- É... foi em um congresso! -- disse o que primeiro lhe veio à mente


--Congresso?! -- estranhou -- Você é da engenharia e ela da odonto! Como pode?


--Ah... -- pensou -- Congresso... de estudantes! Movimento estudantil, gente politizada, essas coisas...


--Gente politizada?! Priscila nunca se envolveu com política! -- estava pasma


--Ah, mas ele anda muito mudada! -- continuava disfarçando -- Priscila é pura consciência social!


--Deve andar mesmo... E a amicíssima que sempre soube que ela tem é Isa!


--Ah, e nós também somos carne e unha! Ô bailarina boa, viu? -- mentiu -- Mamãe foi até prestigiá-la no Theatro Amazonas!


--Lindo espetáculo, aliás! -- Mariângela complementou


--Somos um quarteto! Priscila, Isa, Tatiana e eu! Uma amizade que chega a dar medo!


--Elas até fazem as roupas comigo! -- Mariângela tentava tornar a coisa mais convincente -- Sou costureira e elas amam o meu trabalho!


--Priscila fazendo roupa com costureira?! Mas aquela menina só usa roupa de marca comprada em shopping! -- continuava surpresa


--Ah, ela é eclética, sabe como é! -- Camille interferiu -- Umas horas ela usa roupa de marca, em outras horas prefere uma coisa mais caseira... Até roupa feita de garrafa PET a danada já anda usando! Priscila é pura consciência ecológica!


--Consciência ecológica?! -- Conceição estava pasma. -- Bem... eu vou cuidar do seu caso e vou fazer um esforço pra carta não demorar tanto tempo.


--Obrigada! -- a loura e a mãe agradeceram quase ao mesmo tempo


--A gente vai conversando por e-mail na medida da necessidade. -- olhou para Camille -- Agora se não se incomodam... -- virou-se de costas novamente


Mariângela ficou sem graça. -- Nós já vamos. -- levantou-se -- E mais uma vez obrigada!


--Obrigada. -- Camille também agradeceu e manobrou a cadeira. Sua mãe a ajudou


As duas saíram e a mulher nem olhou para elas ou se despediu.


--Mãe, vou te contar, que mulherzinha antipática e nojenta! Ô louco! Porca miséria!


--Fala baixo, criatura! -- olhou para todos os lados


--E então? -- Mariano levantou-se sorridente ao vê-las -- Foram tão rápido!


--Claro, a mulher só queria saber de computador! -- Camille respondeu e sentiu um tapa da mãe -- Ai! -- esfregou o braço


--A secretária dela pode ouvir, sua faladora! -- cochichou no ouvido dela


Os três se despediram da secretária e foram saindo.


--Mas e então? O que houve? O que a mulher falou? -- Mariano estava agoniado


--Ela disse que vai cuidar do meu caso e que “a gente vai conversando por e-mail na medida da necessidade.” -- Camille respondeu imitando Conceição -- Nem olhou os documentos que eu trouxe! -- olhou para a mãe -- E você ainda queria trazer presentinho pra ela! -- fez um bico -- Tenho medo de que ela deixe meus documentos largados por aí e esqueça do meu processo.


--Calma, filha! -- Mariângela pediu -- Eu vou conversar com Tatiana e pedir que fale com a amiga daqui a uns tempos. Aí a moça pode conversar de novo com a madrinha só pra ela não esquecer. E tenha fé, vai dar tudo certo...


--Tomara! -- respirou fundo -- É mole? Tanto tempo de espera pra não gastar nem vinte minutos na sala daquela tal! A mal educada não ofereceu nem um cafezinho!


--Podia ter sido pior! Graças a Deus você conseguiu ter quem cuide do seu caso aqui e lá. Graças a Deus e a Nossa Senhora! Isso é muita oração por você! -- Mariano falou


A loura não respondeu.


--Eu tô cheia de esperanças! Agora vamos embora porque temos uma ponte aérea nos esperando! -- Mariângela disse


--Vamos fazer uma novena pra Virgem, mana! Vou pedir pra Olga e Seyyed orarem também.


--Até parece que Seyyed perde tempo rezando por mim! -- respondeu desaforada


--Aí é que você se engana! Olga me diz que as duas oram por você. E as nossas passagens aéreas foram trocadas por milhas de Seyyed. Só paguei as taxas de embarque, ou seja, um troco.


--Sério?! -- perguntou surpresa


--Eu disse e você não me acreditou, meu bem: você é amada! E Olga não mentiu quando disse que somos da mesma família. Acaba que somos mesmo!


--Olga será sua tia meu bem, e Seyyed sua prima!


“Ah, tio, eu não queria que Seyyed fosse minha priminha...” -- pensou

***


Juliana estava dirigindo voltando do hospital. Parou em frente a uma padaria para comprar um frango assado. Nisso, um homem quase foi atropelado por uma moto e o maior tumulto começou a se formar. Ele se jogou no chão para evitar um acidente, enquanto que o motoqueiro sumiu com velocidade.


O homem se levantou com dificuldade e se sentou no meio fio enquanto que algumas pessoas vieram lhe falar. A japonesa decidiu se aproximar para ver se precisava de ajuda.


--Tudo bem com você? Se machucou? -- curvou-se na direção dele e perguntou solícita


--Tá tudo certo, obrigada! -- levantou a cabeça para olhar para ela -- Eu... -- não conseguiu continuar a falar


--Ivo?! -- perguntou sem acreditar na possibilidade


O homem encarou bem com ela e perguntou igualmente incrédulo: -- Juliana?!


--Meu Deus! -- ela pôs a mão sobre os lábios


Ele se levantou com dificuldade. -- Há quanto tempo...


--Simplesmente dezoito anos...


As pessoas foram se dispersando e os dois caminharam até o meio da calçada.


--Que faz aqui? -- ele perguntou curioso


--Trabalho no Silva Avelar, sou enfermeira, e parei aqui pra ir na padaria. Queria comprar um frango assado pro jantar. -- respondeu -- E você?


--Sou professor de matemática e dou aula neste cursinho daqui da esquina. Tava indo pegar o ônibus.


--Você, professor de matemática? -- riu -- Ai, meu Deus, a vida dá voltas...


--Pois é... -- sorriu -- Mas eu não me espanto que seja enfermeira, era o que você queria...


--Onde mora, Ivo?


--Ramos.


--Vamos comigo comprar o frango e eu te dou uma carona. Pode ser? -- ofereceu


--Pode. Por que não? -- aceitou sorrindo

***


Juliana e Ivo estavam dentro do carro amargando um engarrafamento.


--E então, Ivo? Conte-me um resumo dos últimos dezoito anos de sua vida. -- quebrou o silêncio


--Ah... -- passou a mão nos cabelos curtos -- Eu fiquei muito desorientado depois que você foi embora... Sei lá, de última hora prestei vestibular pra matemática, passei, estudei e virei professor. Nem sei explicar o porquê... -- pausou -- Dou aula no Município e complemento com os cursinhos. Há cinco anos atrás tive uma aluna da minha idade e a gente começou a namorar e casou um ano depois. Temos uma filha de três aninhos.


--Qual o nome delas? De sua mulher e de sua filha?


--Ana Paula e Mariana. Mariana é a minha filha. -- abriu a carteira -- Olha só elas!


--Ai, que menininha linda! -- sorriu e pegou a foto -- Sua mulher também é bonita. -- devolveu a fotografia para ele -- E quanto a Henrique e Guilherme?


--Dois anos depois de você ter partido Henrique finalmente conseguiu entrar pro ITA. Ele se formou em engenheiro aeronáutico e fez mestrado no MIT, nos Estados Unidos. Já é major e trabalha no CTA de São José dos Campos desde que voltou pro Brasil. Casou-se com uma garota riquinha de lá e tem um casal de gêmeos. Ele e a família raramente dão notícias. Faz uns cinco anos que não os vejo.


--Hum, ficou metido... -- fez um bico


--Isso te surpreende? -- perguntou sorrindo


--Não... Henrique sempre foi bestinha... Também, ele é o mais velho e preferido de papai...


--E Guilherme é vendedor do Ponto Frio. Ele também entende de máquina de lavar e geladeira e faz bico fazendo consertos na casa dos outros. Casou com Naiance, lembra dela?


--Lembro! Ela brincava comigo quando a gente era criança...


--Mas ele traiu a garota e os dois se separaram. Depois se casou com uma colega minha da faculdade, tiveram um garotinho e se separaram também. Depois ele casou com uma outra lá, teve uma menina e tornou a se separar... Agora tá enrolado com uma mulher quinze anos mais velha. -- riu -- Quer casar mas ela não tá a fim...


--Putz! -- riu -- Guilherme não deixou de ser enrolado...


--Não mesmo! -- pausou -- E você?


--Eu cuidei de minha vida como pude, cara! Ralei muito... Mas me formei, logo passei no concurso pro Silva Avelar, trabalhei em outros lugares também... -- pausou -- Fui casada com uma mecânica de automóveis e ficamos juntas por quase três maravilhosos anos... Agora começo um relacionamento sério com uma delegada de polícia.


--Não entendo como pode gostar de viver assim... -- comentou com um certo desgosto


--E como eu vivo? -- olhou bem para ele. Seu tom era agressivo


--Calma, não vamos brigar, Juliana... Eu nunca briguei com você por causa disso... -- continuava olhando para frente


--É... de fato você foi o único que não me deu uma surra... -- afirmou com deboche e mágoa


Ele nada respondeu. Permaneceram em silêncio por um bom tempo.


--Mamãe esteve internada lá no Silva Avelar... -- disse repentinamente -- Eu nunca vi nenhum de vocês no hospital! -- olhou para ele


--Somente eu ia ou minha esposa. Vocês duas não se conhecem e aconteceu que nós dois não nos encontramos. Vai ver eu só fui ver mamãe em dias que não eram os seus, não sei. -- pausou -- Eu nem sabia que você trabalhava lá...


--Mamãe não disse?


--Desde que foi embora mamãe nunca mais tocou no seu nome...


Juliana sentiu muita dor ao ouvir isso. -- Eu não fui embora, como insiste em dizer! Eu fui condenada, surrada e expulsa... -- afirmou com mágoa


--Eu não fiz nada disso com você!


--Mas nem tentou me ajudar! -- olhou para ele -- Você era meu melhor amigo... viu o que aconteceu e não falou nada!


--O que queria que eu fizesse? -- olhou para ela -- Eu só tinha 19 anos, Juliana! -- afirmou revoltado


--E eu dezoito! -- respondeu com a mesma revolta -- Eu fiquei completamente sozinha, Ivo! -- voltou a olhar para o trânsito -- Você estava no meu ‘enterro’!


--Papai disse que todos deveríamos estar!


--E vocês, como sempre, cegamente obedientes... -- disse com deboche


Ivo respirou fundo. -- Há uma coisa que talvez você não saiba... Papai está morto. Aconteceu no ano passado...


--E como foi? -- perguntou sem qualquer sentimento


--Ele teve um derrame pouco depois do meu casamento e ficou com o lado direito todo paralisado. Nunca melhorou e viveu uma vida miserável até morrer de infarto. Foi um fim triste, viu?


--É... aqui se faz aqui se paga!


--Juliana! -- olhou para ela em choque -- Não acredito que esteja feliz em saber disso!


--E não estou! -- olhou para ele -- Acho uma lástima e uma droga que aconteceu e eu não estava lá. Mas ele não podia pensar que depois do que fez comigo pudesse ter um final feliz, podia? -- olhou para a frente novamente -- Eu sofri muito, Ivo! Eu tive câncer no seio, tive depressão... Você não sabe o que eu passei! -- silenciou por muito tempo -- E mamãe, como está?


--Ela se acabou muito com os anos... você a viu, sabe do que tô falando... Ainda vive naquela mesma casa em Itaguaí sendo cuidada por uma moça que eu e minha esposa pagamos. -- respondeu -- Mamãe é teimosa! Ela não aceita sair de lá!


--Henrique e Guilherme não dão a mínima pra ela, não é? Como também não devem ter dado a mínima pro papai!


--É, eles não dão... -- pausou -- A sua partida, ou seja lá o que for, mudou tudo Juliana... Ficou um buraco, um vazio... ninguém fala sobre isso, mas todo mundo sabe... -- pausou -- Acho que nossos irmãos tomaram um certo desgosto por nossos pais... sei lá!


Não conversaram mais e após algum tempo chegaram na casa de Ivo.


--É aqui! -- apontou


Juliana parou o carro e olhou para a casa. -- Sua mulher deve estar aí. As luzes estão acesas.


--Não. Ela deixa aquela luz acesa quando não estamos em casa. Ana Paula ainda deve estar na mãe dela. Dona Célia fica com nossa filha enquanto estamos fora e quem chega primeiro vai lá buscar a menina. Ana deve estar ainda de papo com a mãe.


--Hum... -- balançou a cabeça


Ivo olhou bem para ela. --Você tá muito bem, Juliana. Acho até que mais bonita do que eu me lembro. -- sorriu


--Você também tá bem... Só ganhou uns quilinhos a mais, o que não foi ruim, porque você era muito magrinho! -- sorriu também


--Mas fiquei barrigudo, olha só! -- apertou a barriga -- Eu sou totalmente sedentário!


“Ele não vai me convidar para entrar.” -- pensou -- É... vou deixar você descansar e vou pra casa antes que meu frango vire um picolé. -- pausou -- Quer meu endereço?


Ivo pensou e depois respondeu constrangido. -- É melhor não... -- corou -- Eu tenho uma filha muito criancinha e não seria um bom exemplo pra ela...


--Chega, Ivo! -- interrompeu-o com rispidez -- Eu entendi! Você não quer que a tia sapatão sirva de mau exemplo pra menina! -- abriu a porta do carro para ele -- Foi bom revê-lo, agora se manda!


--Calma, Juliana...


--Some, Ivo! E pode deixar que eu nunca mais voltarei aqui! -- disse com raiva


Ivo ficou sem graça e desceu do carro cabisbaixo. Juliana ligou o motor e partiu furiosa.


--Adeus, irmã... -- disse para si mesmo -- Eu sinto muito...

***


Suzana andava pesquisando o símbolo que Tatiana lhe mostrou e descobriu que se tratava de um signo de Salomão. Aprendeu que os símbolos muitas vezes são desvirtuados de seus significados originais e que, pelo menos, uns trezentos grupos se utilizavam dele por motivos diversos.


De repente uma gritaria se fez ouvir.


“Mas o que é isso?” -- pensou contrariada


Lemos e Ronaldo chegavam, cada um segurando um travesti pelo braço.


--Delegada, se prepara que isso aqui é confusão da grossa! -- Lemos anunciou -- Briga no casamento gay!


--Delegada, isso é um acinte! O dia mais feliz da minha vida arruinado por essa bicha de encruzilhada! -- a noiva, um travesti alto e louro, dizia


--A culpa é dessa biscatona, delê! Ela roubou meu macho! -- um travesti branco do cabelo preto rebatia


--Que negócio é esse de delê? Olha o respeito! -- Suzana reclamou -- E afinal de contas, o que aconteceu nesse casamento? -- olhou para os policiais


--As duas aí brigaram, quebraram quase tudo na casa de festa, bateram na polícia... barata voa completo! -- Ronaldo respondeu


--Ela roubou meu macho!! Afonsinho é meu! -- gritou para a rival


--Ele é meu! Tanto que ia se casar comigo, e não contigo! -- retrucou


--E cadê ele? -- Suzana perguntou


--Nocauteado! No meio da confusão uma das duas loucas acertou a cabeça do cara com um anjo de mármore desse tamanho. -- Lemos mostrou o tamanho com as mãos


--Minha nossa! -- Suzana exclamou


--Tudo culpa dessa piranha! -- gritou para a noiva


--Culpa tua que invadiu meu casamento! -- olhou para Suzana -- Tinha que ver, delegada! Tudo bonito, arrumadinho, cheio de flor... Meu pai tava lindo de madrinha, com um vestido rodado...


--Você é piranha igual teu pai! -- gritou -- Eu vou matar os dois! E com meus próprios dentes!


--Ih, mas chega dessa baixaria aqui! -- a delegada deu um soco na mesa -- Leva esse bando de loucas pra dormir na jaula, vambora! -- ordenou aos policiais -- Brito cuida da papelada!


Eles foram levando os travestis para dentro da prisão. Ambos gritavam como porcos a beira do abate.


--É cada coisa, viu? -- pegou o telefone -- Vou ligar pra Ju. Preciso ouvir a voz dela... -- esperou -- Alô, querida!


--Oi, Su... -- respondeu desanimada


--O que foi? -- perguntou preocupada -- Parece triste...


--Reencontrei com meu irmão, Ivo, dezoito anos depois... por acaso... Tivemos uma conversa, ele me atualizou sobre as últimas fofocas da família e terminou nem querendo saber de meu endereço com medo de meu mau exemplo pra filha dele... Acredita que nem me convidou pra entrar em casa? E eu dei carona pra ele! -- pausou -- Também soube que papai morreu super mal...


--Sinto muito, Ju... eu nem sei o que dizer...


--É uma merd*, viu? Às vezes eu me sinto uma idiota completa!


--Eu também... Principalmente quando vou votar! -- a japonesa riu -- Estava pensando em você... -- falou mais baixo


--Por que não vem pra cá? -- perguntou dengosamente


--Posso ir? -- perguntou insegura


--Sabe que não precisa pedir permissão... e hoje eu precisava de um colinho...


--Daqui a pouco eu tô aí... me espera... -- sorriu


--Você vai mesmo sábado à noite jantar comigo na casa de dona Olga?


--Eu não me sinto muito à vontade com o fato dela ser mãe da sua ex, mas se é a mulher que considera como sua mãe...


--Queria muito que se conhecessem... -- pediu


--Eu vou, pode deixar... -- passou a mão nos cabelos -- Ajoelhou tem que rezar, não é?


--É... -- pausou -- Agora sai daí e vem pra cá. -- pediu fazendo dengo


--Só mais alguns minutos... -- sorriu


--Demora não... -- pausou -- Até logo! Beijo!


--Beijo! -- desligou o telefone


--Delegada! -- Lemos aparece correndo -- Os dois travestis estão se engalfinhando na cela! O pessoal tá apostando neles igual rinha de galo!


--E vocês colocaram aquelas duas criaturas na mesma cela, idiotas? Vamos lá! -- correu para ver

 

 

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Música do Capítulo:

 

[a] Primeiros Erros. Intérprete: Simonny. Compositor: Kiko Zambianchi. In: Simonny Primeiros Erros. Intérprete: Simonny. Warner Music Brasil, 1995. 1 CD, faixa 1 (3min19)

 

Novamente as explicações sobre a depressão dadas por Ivone baseiam-se principalmente no livro Depressão e Mediunidade de Jairo Avelar, Célio Alan Kardec, Wanderley Oliveira e Wander Luis Lemos. Editora Itapuã.


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Comentários para 7 - Segunda Temporada - ENTRELAÇADAS I:
NovaAqui
NovaAqui

Em: 13/06/2024

Pobre Laidy! Silvio vai enrola-la

Esse pai da Isa é um preconceito. Precisa de uma lição 


Solitudine

Solitudine Em: 14/06/2024 Autora da história
Lady será uma história a parte! rs

Anselmo, assim como todos, tem um caminho. Observe. ;)

Estou felicíssima em ver você comentando cada capítulo!

Beijos,
Sol


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jake
jake

Em: 16/03/2024

Olá Sol !!!

Olha Pri e Tati sofre com Lady e seu papagaio do mal ,além de roubar a comida das meninas para dar aos seus futuros maridos rsrsr.Não gosto da Isa acho que ela só está aproveitando da Ed.Sabrina agora que dá valor a Pri,Cami até que está melhor até gosto do seu humor ácido, Ju me comoveu com oq sofreu com sua Familia. Gostei da delegada.

 


Solitudine

Solitudine Em: 22/03/2024 Autora da história
Olá querida!

Lady é uma figurinha que chegou para bagunçar o penteado das garotas! Vamos ver como saberão lidar com ela! rs

Não gosta da Isa? Coitada! rs Ela e Camille dividiram as leitoras na época em que Maya foi postada no abcLés. Sabrina precisou perder para ver a pessoa que estava tão perto e ela deixou longe.
Camille tem facas na língua! rs
Juliana é outra figurinha! Ficou cheia de fãs. A delegada também soube conquistar as meninas.

Beijos,
Sol


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Samirao
Samirao

Em: 25/09/2023

Elas apagam eu repolho HUAHUAHUA! FICO PASSADA COM TANTA PALHAÇADA!


Solitudine

Solitudine Em: 11/11/2023 Autora da história
Ai, ai...


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Samirao
Samirao

Em: 23/03/2023

Vamos na fé como dizvc


Solitudine

Solitudine Em: 26/03/2023 Autora da história
Não se pode dizer que você é uma pomba sem fé! kkkk


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Seyyed
Seyyed

Em: 11/09/2022

Lady a caça foi engraçado. Logo quem ela foi pegar... hehe Cami e a mãe foi bacana. Tu mete uma Priscila num tremendo momento de reflexão aí me pega um Marciano ricaço e Suzana fazendo de tudo e mais um pouco até com maluquice na delegacia. Muito foda! Haha


Resposta do autor:

Lady vivia à caça! kkk E nessa, caçou alguns espécies complicados! 

Camille demorou mas entendeu a realidade da própria mãe, que eu ela interpretava erradamente.

Fazer o que, uai? Tem que variar! kkk

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 11/09/2022

Capítulo enooormeer!!! Cararra! Tô bem Seyyed mandando ver sem sair de cima pra ler SEM! hehe Isa pisa, puta merda.. chora Sabrina! Perdeu! Cami tá evoluindo e só atrás da coisa safadinha hehe Ju na Ivone me mata haha Suzana agora vai na fé. Eu já liberei a Ju e foi até emocionante... porra que merda foi aquela na pousada? Fofuchos hehehe já ri já chorei. Tô apaixonada!!!


Resposta do autor:

Verdade, esse capítulo continuou enorme, ainda depois da divisão que eu fiz.

Isa pisa, é verdade também! Você também tem umas tiradas interessantes, viu, fi?

Camille ainda muito dividida quanto a essa "coisa safadinha" rs

Juliana se libertou do apego a você e daí por diante tudo mudou.

Na pousada foi um "encontro" inesperado mas bombástico! rs

Que bom que o conto mexe com suas emoções! Feliz em saber!

Beijos,

Sol

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 17/04/2020

Enquanto não fizer as pazes com a Isa, vou seguir reclamando dela... kkkkkk... Chatinha, chatinha!!

 

Beijossss

 

Ps. Já arrumou tudo ou ainda falta muito?


Resposta do autor:

Maltrata a ruiva!!! kkkkkk

Ainda falta! Porque ontem não mexi e agora que vim fazer isso. Mas priorizei os comentários.

Acho que toda autora deve adorar recebê-los. Chega dá um trem nas coisa! kkkk

EU AMO COMENTÁRIOS!!!

E com isso, Samira fica feliz. Ela ama em dobro, eu acho! rs

Beijos,

Sol

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 16/04/2020

Olá Solzinha!!

 

Lady tinha coragem, porque noção, não tinha nenhuma!! Kkkkkk...

 

Sabrina acordou um pouco tarde, que pena! 

 

Isa é um porre (como eu gostava dela?), mas de fato é bem estranho saber que sua namorada paga pensão e aluguel para ex, tentei me colocar no lugar da Ed e da Juliana... Difícil viu?

 

Fofucho? Ecaaaaa...

 

Segunda fase iniciada com sucesso!!

 

Beijos


Resposta do autor:

Olá Gabinha!

Lady é Lady, não tem o que dizer! kkkk

Sabrina vive uma coisa dura: arrependimento tardio para esta vida. Mas tem outras, ela será melhor.

Coitada da bailarina! Mas você fará amizade com ela de novo. Seyyed foi honesta; ela propôs que Juliana mudasse de vida e arcou com isso.

Fofucho é demais, não é? kkk E como todo fofucho, acha que pode bancar de santo com os outros, como Seyyed e a própria filha.

Beijos,

Sol

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Irina
Irina

Em: 09/04/2020

Kota, uma coisa que deverias ter feito, perdoa-me a ousadia, é criar capítulos menores. Não me queixo é um deleite, mas demora a carregar no celular e são tantos tópicos que me perco a comentar...

Amo Juliana em consultas com Ivone. Juliana e Camille juntas no consultório como seria? Ponho-me a rir. Camille forjando um desmaio para fugir de um flagrante parece eu. 

A cena da pousada foi divertida e constrangedora ao mesmo tempo. Seria possível isto acontecer?

Existem Ladys por teu lado? E eu a pensar que são coisas só do meu lado de cá. Se bem que hoje estou a pousar em Rio.

Belíssima série! Apaixonante.

Inspira-nos até a ler com um fato melhor.


Resposta do autor:

Olá querida,

Os capítulos já foram maiores, na época do abcLés, e eu recebi esse mesmo retorno e os dividi. Vejo que não foi o suficiente, mas agora já não dá para mudar.

No Tao e no CONVIDE-0 eu coloquei capítulos bem menores, embora no Tao ainda sejam grandes.

Espere que Camille também será devidamente atendida. rs

Sim, minhas personagens, apesar de todo caráter ficcional, sempre têm um fundo de verdade. E as casadoiras estão por toda parte, já que esta ideologia dentro do feminino ainda é muito forte, infelizmente.

Obrigada por seu retorno sempre tão positivo.

Fato quer dizer roupa? Perdoe a ignorância.

Beijos,

Sol

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Luhemi
Luhemi

Em: 20/07/2018

No Review


Solitudine

Solitudine Em: 03/05/2024 Autora da história
Boa noite,

Depois de anos esse comentário me aparece! Mil perdões!
Com certeza o texto foi revisado, este comentário é que nos passou despercebido. Seja como for, espero que tenha gostado do conto.

Beijos,
Sol



Sem cadastro

Sem cadastro Em: 04/05/2024
Boa noite,

Depois de anos esse comentário me aparece! Mil perdões!
Com certeza o texto foi revisado, este comentário é que nos passou despercebido. Seja como for, espero que tenha gostado do conto.

Beijos,
Sol


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Gagia
Gagia

Em: 05/02/2018

Lindíssima tua ideia de nomear cada temporada com a tônica essencial que ela tem. Escolha mui acertada porque foi oportuno em cada caso. Em mudanças nos apresentaste a grandes personagens e às mudanças que se lhes impuseram na vida e as tiraram de suas zonas de conforto.

Em entrelaçadas mostra-nos explicitamente como todas se ligaram de um jeito ou de outro. E em cada temporada tu nos brindas com dizeres, por sua vez, correlatos ao nome dela e sempre tocantes.

Não necessariamente comento no local certo porque a memória me trai sobre onde li cada coisa, mas esta criação chamada Lady Dy donde concebeste? Muito me pus a rir por causa dela. rs  A história da barata, dos namoros mal sucedidos e os shows de canto depressivo, a loucura para casar, os sonhos, as entrevistas de emprego, oh, como foi divertido! O papagaio, Deus que bicho seria aquele? rs

Seyyed é para apaixonar e quando estava a viver loucuras sob os lençois com Isabela cheguei a ter raiva de ti pois estou solteira e só ficava a me sentir mais só. Nem queria devanear muito pois não teria com quem executar o que pensava. rs  Existe uma Seyyed? Alguém que faz tanto bem desinteressadamente. Se ela existir eu quero!!!

Juliana muito me fez rir também com as coisas que falava e fazia, mas amei as terapias com Ivone. Aprendi bastante como seu teu conto fosse uma enciclopédia Larousse LGBT. rs

Suzana era puro foco e paixão por Juliana, outro casal que me deixava atiçada, mas me emocionou muito em sua ida a Serra do Imery. E no perdão a Lucas. Ri deveras quando estive em um aniversário pagodiano e na consulta a ginecologista embusteira. Donde crias estas passagens mulher? rs

Camille, Camille, que evolução. Muito me fizeste chorar com ela pois que muito me identifiquei... seus dramas, seus conflitos... por vezes me parecia que ouviste minha voz interior e transformaste em personagem. Chorei quando tentou suicidar, quando por tantas vezes terminou com Fátima, quando negou o óbvio reiteradamente. Emocionei-me quando encontrou Jesus, quando ganhou emprego, comprou a prótese, reconciliou-se com a mãe... lindo, lindo, lindo. Mui belo. E gargalhei quando chegavam os filhos de Ligia, nas sessões com Ivone e nas conversas com aquela amiga, acho que é Aline. Só tu, diva! rs


Resposta do autor:

Seu comentário sobre as temporadas captou verdadeiramente o objetivo. E o que escreveu sobre as personagens foi muito romântico, eu diria.

Sim, a amiga maluquinha é Aline. RS

PS: Lady tem MUITO mais de realidade do que parece. Ela não me foi inspirada só na mente de caipira... kkk

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