Arranjo por Nay Rosario
Notificação Preferida - Priscila Senna
11 - Às Claras
"Já doeu. Mas hoje não dói mais..."
Não sabia exatamente definir as sensações que passavam por mim. Não queria admitir,mas era visível que eu não conhecia um lado de Katrina. Um lado vil e dissimulado. Ela se mostrou ser daquelas mulheres que jogam baixo para ter seus desejos e caprichos atendidos. Eu começava a me dar conta de que, talvez, eu fosse uma das vítimas de seus encantos.
O motorista do aplicativo conduzia o automóvel de maneira tão suave que eu não sentia o tempo passar, não via os coqueiros que antecedem a entrada de meu sítio e só voltei a realidade com o seu chamado e o aviso do término da viagem. Agradeci, peguei a mochila com meus objetos e saí. Ísis e Osíris, meus gatos, vieram se enroscar por entre minhas pernas. Provavelmente Carmem, a esposa do caseiro, deve ter colocado a ração deles, conhecendo-os como os conheço sei que só comeriam se eu estivesse em casa. Ísis escala minha perna na intenção de que eu a carregue. Danada! Entramos os três. Carmem ao ver meu estado corre para me ajudar.
-Calma! Foi só um acidente.
-Dom, você é desastrada em alguns momentos. Cadê sua namorada mala para ajudar?
-Me largou no hospital. -Respondi enquanto deitava no sofá com formato em L.
- E sua amiga sonsa?
Não era segredo pra ninguém que Carmem não gostava nem de Ingrid, nem de Katrina. Cada vez que ela fazia referência a elas usava adjetivos amáveis tais como cobra, insossa,fingida e por aí vai. Eu sempre a repreendia,mas estava começando a pensar que ela possa ter visão além do alcance. Me posicionei melhor e gemi um pouco devido a ardência provocada pelo atrito do machucado e o tecido da roupa.
-Essa eu que não quero ver.
-Olhe... Gostei de ver. Mas vamos saber até quando vai essa sua decisão.
-Bote fé em mim, mulher.
-Eu boto. - Gritou da cozinha.
"...Tanto fiz. Que agora tanto faz..."
Amava quando ela vinha limpar a casa porque fazia umas comidinhas gostosas. Devido a noite mal dormida acabei por cochilar. Foi um sono sem sonhos, de cansaço. Senti a presença de algo aproximar-se. Permaneci de olhos fechados e senti uma leve carícia em meu rosto. Não sabia se era sonho ou real até que ouvi aquela voz me chamando. Abri os olhos apenas para me ver na imensidão do olhar que se desacortinava a minha frente. Os lindos olhos de Helena. Posso não verbalizar, mas compreendo o fascínio que ela exerce sobre Katrina e penso agora que talvez essa volta delas não seja interessante para a dona do Compasso.
-Por que fugiu da minha casa?
-Não fugi. Saí quando sua funcionária chegou e deixei um bilhete agradecendo a estadia, mas que preferia meu lar. Não gosto de ser estorvo ou empecilho.
-Quê? - Ela arqueou a sobrancelha. - Estorvo desde quando? Para quem?
-Vocês acabaram de voltar. Devem estar na fase de matar as saudades e, sinceramente, não quero presenciar.
"...Apanhou, apanhou que cansou..."
Baixei o olhar. Os sons de ontem voltaram a minha mente. Senti o sofá afundar ao meu lado. De soslaio a vi passar as mãos no cabelo e no rosto. Pensava em como levantar já que o braço esquerdo estava imobilizado quando senti seus dedos tocando os meus. Acompanhei o percurso do seu corpo até parar em seus olhos.
-Desculpa. - ela pronunciou quase inaudível.- Imagino o que deves ter escutado a noite e... Só... Me desculpe.
-Tudo bem. É sua casa.
-Sim, mas desrespeitei seus sentimentos.
-...- nem soube o que dizer. Me faltavam palavras.
-Eu vejo teu olhar para Kat. Sempre percebi, mas como ela nunca retribuiu nunca me preocupei. E ela não tem ciência de que sei.
-E você me leva pra dentro da tua casa?! E se tua mulher te traisse comigo?
-Sinal de que ela não me amava assim ou talvez... Tivesse algum sentimento por ti.
-Sei... Olha. Se veio aqui para tentar me convencer a voltar não vai dar certo. Ainda mais agora.
-Sim. Por isso tomei uma decisão.
-Que seria...?
-Ficarei aqui para te ajudar.
-NÃO! - Espantei-me com minha própria reação. -Não precisa. Tem a Carmem que vai me ajudar.
-Está decidido. Vou em casa buscar algumas peças de roupa e a noite estarei de volta.
"...Tá facin de entender..."
Carmem apareceu na sala anunciando que o almoço estava servido. Helena agradeceu, porém declinou e saiu. Fiquei olhando a porta e pensando no quão surreal foi essa breve conversa. Ela sabia que eu estava afim da garota dela e nunca fez nada. Nada! Tentei me levantar e Carmem me ajudou em completo silêncio. Atípico. Eu a conhecia a tempo suficiente para saber que seu silêncio era uma turbulência ou algum comentário que me soaria beirando o humor ácido.
-Diga o que pensa.
-Sobre?! - A expressão dela não enganava que havia escutado tudo.
-A conversa.
-Que conversa?!
-A que você ouviu. - ela sorriu. Sabia!
-Acho essa dona tinhosa. Vai te dar trabalho.
-Chega de problemas na minha vida. - coloquei um pedaço de frango na boca.
-Ao que parece, ela é a solução. - Carmem disse baixo, mas ouvi.
-O que?
-Não disse nada não.
"Foi, mas não é mais a minha notificação preferida. Já foi, mas não é mais a número um da minha vida..."
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Rosangela451
Em: 14/07/2019
Solução?
Nem vou falar que meu queixo caiu .....
Interessante o rumo da história ...... Nao demore
Bjos
Resposta do autor:
"Levanta a cabeça, princesa."
Se você acha esse impactante. O wue digo do próximo?!
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