Capítulo 97

Capítulo 97 - Finalmente parecia ter encontrado seu lugar

de Otherside - Como a vida deveria ser, por Elin Varen

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Capítulo 97 – Finalmente parecia ter encontrado seu lugar.

Janis acordou antes do despertador.
Abriu os olhos.
Olhou para o relógio.
Ainda faltava muito.
Fechou os olhos novamente.
Alguns minutos depois, tornou a acordar.
Olhou para o relógio.
Ainda faltava muito.
Virou para o outro lado.
Tentou dormir.
Não conseguiu.
Quando o despertador finalmente tocou, Janis já estava acordada havia tempo suficiente para estar irritada com ele.
Levantou.
Tomou banho.
Vestiu-se.
Arrumou o cabelo.
Em poucos minutos, estava pronta.
Pegou a mochila.
Maria Helena estava na cozinha.
— Café da manhã.
— Eu estou atrasada.
A avó olhou para o relógio.
— Não está.
Janis olhou também.
Realmente não estava.
— Eu posso comer no caminho.
— Não pode.
— Vó...
— Senta.
Janis sentou.
Tomou café.
Comeu.
Olhou para o relógio.
Comeu mais rápido.
— Devagar.
— Estou comendo devagar.
— Isso não é devagar.
Finalmente, foi liberada.
Chegou à escola cedo demais.
Muito cedo.
O pátio ainda estava praticamente vazio.
Janis parou no meio dele.
Olhou ao redor.
— Não.
Começou a andar.
De um lado para o outro.
Depois voltou.
Andou novamente.
Parecia uma onça presa em um espaço estreito demais.
Alguns alunos chegaram.
Depois outros.
O pátio foi ficando cheio.
Janis continuou andando.
Quando finalmente o sinal tocou, ela quase sentiu alívio.
Quase.
Vieram as aulas.
Uma.
Depois outra.
Uma parecia mais longa que a anterior.
Janis fez o possível para prestar atenção.
Copiou a matéria.
Fez anotações.
Respondeu quando perguntaram.
Olhou para o relógio.
Pouco tempo havia passado.
Voltou a olhar.
Continuava quase no mesmo horário.
Suspirou.
A aula terminou.
Veio outra.
E outra.
No intervalo, Janis voltou a andar pelo pátio.
Os primos chegaram a se aproximar.
Um deles deu dois passos na direção dela.
Parou.
Olhou para os outros.
— Melhor não.
Recuaram.
Janis continuou andando.
Quando o último sinal finalmente tocou, ela foi uma das primeiras a sair.
Praticamente correu até em casa.
Entrou pela porta.
Abriu a mochila.
Já estava pronta para trocar os materiais da escola pelos que havia deixado sobre a escrivaninha.
Então ouviu a voz da avó:
— Janis!
Ela fechou os olhos.
— Já vou.
Maria Helena estava à mesa.
— Almoço.
— Vó, eu tenho que ir.
— E você vai.
Janis quase sorriu.
— Sério?
— Depois que almoçar.
O sorriso desapareceu.
Maria Helena apontou para a cadeira.
— Senta.
Janis sentou.
— Eu só preciso trocar as coisas da mochila.
— E vai trocar.
— Depois do almoço?
Janis respirou fundo.
Maria Helena colocou o prato diante dela.
— Sou uma mulher moderna, por isso vou lhe dar uma escolha.
Janis levantou os olhos.
— Qual?
Maria Helena sorriu.
— Ou você senta seu rabo nessa mesa e almoça com calma e paciência...
Fez uma pausa.
— Ou eu vou enfiar a comida na sua garganta.
Janis ficou em silêncio.
Olhou para o prato.
Depois para a avó.
— Essa não parece uma escolha.
— É uma escolha moderna.
Janis pegou o garfo.
— Está bem.
Maria Helena assentiu, satisfeita.
— Muito bem.
Janis começou a comer.
Com calma.
E com a paciência de quem estava sendo impedida de alcançar o destino mais importante de sua vida naquele momento.
O Dois Tons.
A poucas horas de distância.
E, naquele instante, parecia estar do outro lado do mundo.
Janis finalmente conseguiu trocar o conteúdo da mochila e vestir uma roupa limpa.
Estava prestes a sair correndo para o ponto de ônibus quando Maria Helena apareceu no corredor.
Em uma das mãos, a velhinha carregava uma pequena frasqueira.
— Seu lanche. E não discuta. Você vai levar de um jeito ou de outro.
Janis abriu a boca para protestar, mas desistiu antes mesmo de começar.
— Tá bom...
Na outra mão, Maria Helena trazia uma pequena pochete. Tão fina que quase desaparecia sob a roupa.
Janis franziu a testa.
— O que é isso?
— Dinheiro para alguma emergência. Você está indo para o centro e lá é perigoso.
Janis sentiu o rosto esquentar.
— Vó...
— Se, por acaso, alguém pedir sua mochila, você entrega. Sem tentar bancar a heroína.
Maria Helena ergueu a pochete.
— E isso aqui vai garantir que você consiga voltar para casa.
Janis olhou para a pochete e depois para a avó.
Não teve coragem de rejeitar.
Levantou a camiseta e prendeu a pochete na cintura.
Maria Helena examinou a menina de cima a baixo.
— Ótimo. Não dá para ver.
Janis baixou a camiseta e ajeitou a roupa.
— Obrigada, vó.
Deu um beijo no rosto de Maria Helena, pegou a mochila e enfiou a frasqueira lá dentro.
Então saiu.
A primeira parte da viagem não foi nem de longe tão rápida quanto Janis gostaria.
O ônibus parecia ter sido projetado especificamente para testar sua paciência.
Quando finalmente chegou à estação de trem, Janis praticamente correu até a bilheteria e, de lá, para a catraca.
Assim que embarcou, teve a sorte de encontrar um lugar para sentar.
Encostou a cabeça na janela e soltou um suspiro.
Ainda demorou algumas estações antes que ela abrisse a mochila.
Tirou Frankenstein.
Abriu o livro.
Começou a ler.
Virou uma página.
Depois outra.
E, conforme avançava, a expressão foi mudando.
Até que ela parou.
Olhou para o livro.
Franziu a testa.
— Que droga é essa?
Fechou o livro.
Guardou de volta na mochila.
Talvez Frankenstein não fosse a melhor companhia para aquele momento.
Quando chegou à estação de baldeação, Janis se levantou imediatamente e seguiu para o metrô.
Dali em diante, alguma coisa mudou.
Cada estação que a composição deixava para trás fazia sua ansiedade crescer.
Mais uma.
Mais uma.
Mais uma.
Ela já conseguia imaginar a fachada amarela.
As mesas.
As prateleiras.
As tintas.
As pessoas.
Samira.
O Dois Tons.
Quando finalmente chegou à estação de destino, Janis precisou se segurar para não forçar as portas com as próprias mãos.
Assim que elas se abriram, ela saiu junto com o fluxo da multidão.
Subiu as escadas quase correndo.
Mais alguns degraus.
Mais um lance.
E então alcançou a calçada.
Parou por um instante.
Respirou fundo.
Ali estava.
O centro.
A cidade inteira passando diante dela.
E, em algum lugar no meio daquela confusão, estava o lugar onde ela começaria a descobrir se aquilo que fazia tão naturalmente também poderia virar alguma coisa maior.
Janis apertou a alça da mochila.
E saiu andando.
Como quem acabava de abrir um portal para o próprio futuro.
***
Samira estava inquieta.
Muito inquieta.
O relógio no pulso parecia ter se tornado o objeto mais importante do atelier. A cada poucos minutos, ela olhava para ele.
Rui percebeu.
É claro que percebeu.
— Está tudo bem, querida?
— Hum-hum.
Samira continuou organizando alguns materiais sobre a mesa.
Rui observou por mais alguns segundos.
— Faz muito tempo que eu não te vejo tão inquieta assim...
— Me deixa em paz, Rui.
Ele sorriu.
— Será que é ansiedade por alguma coisa boa...
Samira lançou um olhar de lado.
— ...ou uma espécie de arrependimento por uma decisão precipitada?
Ela abriu a boca para responder.
Não teve tempo.
A porta se abriu de repente.
Janis entrou praticamente correndo.
— Cheguei!
Rui se levantou imediatamente, pegou uma vassoura encostada na parede e estendeu para ela.
— Ótimo. Você pode começar varrendo o chão.
Janis largou a mochila atrás do balcão.
— Beleza.
Pegou a vassoura das mãos dele.
Samira virou lentamente a cabeça na direção do marido.
O olhar era capaz de atravessar uma parede.
Rui sustentou a expressão por dois segundos.
Então abriu um sorriso zombeteiro e deu de ombros.
— Que foi?
Samira meneou a cabeça e chamou pela menina.
— Janis.
— O que foi?
Samira observou a garota por um instante.
A ansiedade estava estampada nela. Janis parecia prestes a sair andando pelas paredes.
Samira não queria que a primeira lembrança dela trabalhando no Dois Tons fosse aquela.
— Pega a sua mochila e vem comigo.
Janis apoiou a vassoura atrás do balcão, pegou a mochila e seguiu Samira para o fundo do ateliê.
Samira abriu uma porta e fez um gesto para que ela entrasse.
A sala era pequena e simples. Havia um conjunto de armários, uma geladeira e uma mesinha com uma garrafa térmica de café e algumas xícaras.
Samira apontou para um dos armários.
— Pode colocar suas coisas aqui. E, se tiver trazido alguma coisa para comer, pode guardar na geladeira.
— Legal.
Janis abriu o armário e começou a guardar as próprias coisas, ajeitando tudo com um cuidado quase exagerado.
Samira esperou.
— Costumamos fazer uma inspeção nos materiais a cada três meses. Principalmente nas tintas.
Janis parou por um instante para prestar atenção.
— É mesmo?
— É. A gente verifica o estado das embalagens, procura material ressecado, vê o que está acabando...
Samira cruzou os braços.
— E, já que o Rui resolveu te colocar para limpar, que tal juntarmos as duas atividades?
Janis fechou o armário.
— Como?
— Você varre os corredores, um por um, e me ajuda a verificar o estado geral dos materiais.
O pequeno sorriso que apareceu no rosto de Janis foi imediato.
— Vai ser divertido.
Samira sorriu de volta.
— Vai sim.
Ela apontou para a porta.
— E, de quebra, poderemos descobrir se você realmente estudou os manuais que eu te dei.
Janis ergueu as sobrancelhas.
— Eu estudei.
— Vamos descobrir.
Rui observou de longe.
Esperava ver algum sinal de irritação.
Talvez uma careta.
Talvez aquela expressão típica de quem tinha acabado de descobrir que o primeiro dia de trabalho não seria exatamente como imaginara.
Nada.
Para sua surpresa, o ego da garota parecia perfeitamente intacto.
Pelo contrário.
Janis e Samira estavam sentadas lado a lado, examinando tubos de tinta, lendo rótulos e comparando informações. A menina falava com as mãos, apontava para as embalagens e fazia perguntas.
Samira respondia.
Janis perguntava outra coisa.
Samira mostrava uma diferença entre dois produtos.
Janis imediatamente queria saber por quê.
E, em algum momento, as duas começaram a rir.
Rui ficou olhando.
Aquilo era uma inspeção de rotina.
Uma tarefa que provavelmente faria qualquer outra pessoa bocejar depois de cinco minutos.
Mas as duas pareciam estar se divertindo horrores.
Rui balançou a cabeça.
— Eu não acredito...
Voltou ao que estava fazendo, mas ainda lançou mais um olhar para as duas.
Janis parecia exatamente onde queria estar.
Janis encontrou um tubo de tinta quase no fim da validade.
— Hum... — Samira examinou o rótulo. — Vamos guardar essa para as aulas.
— Beleza.
Janis colocou o tubo na cestinha indicada.
Samira continuou a inspeção por alguns segundos antes de comentar, como se fosse a coisa mais casual do mundo:
— A propósito... eu gostaria que você participasse das minhas aulas.
Janis levantou os olhos.
— Sério?
— Amanhã eu tenho uma turma de aquarela. Na quinta, uma de guache.
O rosto de Janis se iluminou.
— Vai ser demais!
Samira sorriu.
— Eu imaginei que você gostaria.
As duas voltaram ao trabalho.
Continuaram examinando as tintas, conferindo embalagens, datas e condições dos materiais. Quando finalmente terminaram, a tarde já estava avançada.
Samira olhou para o relógio.
— Vamos fazer o seguinte: você termina de varrer e vem me encontrar lá nos fundos. Está certo?
— Pode deixar.
Janis pegou a vassoura.
Dessa vez, não deixou um único cantinho para trás.
Passou pelos corredores, pelos espaços entre as mesas, debaixo das estantes e até pelos lugares mais apertados.
Quando terminou, guardou a vassoura e foi procurar Samira.
Encontrou-a perto da estante.
Ao lado dela, havia uma pequena pilha de livros.
Janis parou.
Olhou para os livros.
Depois para Samira.
— O que é isso?
Samira apontou para a pilha.
— Seu próximo trabalho.
Os livros tratavam de assuntos diferentes.
Estruturas e Proporções.
Luz e Sombra.
Perspectiva.
Anatomia Humana.
História da Arte.
Janis passou os olhos pelas capas.
Um por um.
Samira cruzou os braços.
— Já que vai trabalhar aqui, precisa estudar.
Janis ergueu os olhos.
— Estudar?
— A confiabilidade dos clientes aumenta quando eles percebem que nós somos pessoas de talento.
Janis voltou a olhar para a pilha.
Passou o dedo pela lombada de Perspectiva.
Depois pegou Anatomia Humana.
— Eu tenho que estudar tudo isso?
— Sim.
Janis ficou em silêncio por alguns segundos.
Janis olhou novamente para a pilha.
— E por onde eu começo?
Samira se surpreendeu.
Era comum que artistas iniciantes quisessem partir direto para as partes mais complicadas. Anatomia, perspectiva, técnicas avançadas... qualquer coisa que desse a sensação de que estavam aprendendo algo importante.
Janis, não.
Ela estava perguntando.
Disposta a ouvir.
Samira pegou o livro de Estruturas e Proporções.
— Por aqui.
Entregou-o para Janis.
— Antes de aprender a desenhar coisas complicadas, você precisa entender como elas são construídas.
Janis passou os dedos pela capa.
— E depois?
Samira apontou para os outros livros.
— Luz e sombra. Depois, perspectiva. Anatomia.
Janis assentiu.
Então seus olhos foram parar no último livro da pilha.
Era muito maior que os outros.
Capa grossa, muitas páginas e uma quantidade absurda de ilustrações. Havia pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e fotografias espalhadas pelas páginas.
Janis o pegou.
— E esse?
Samira sorriu.
— Esse não tem ordem.
Janis franziu a testa.
— Como assim?
— Você não precisa começar pela primeira página e ir até a última. Não precisa terminar um capítulo antes de abrir outro.
Samira bateu de leve na capa.
— Esse aqui é para quando você quiser.
Janis abriu o livro.
Uma reprodução ocupava quase duas páginas inteiras.
— Posso ler junto com os outros?
— Deve.
Janis virou mais algumas páginas.
— Então ele não tem que ser estudado?
— História da arte também se estuda. Mas não precisa ser uma obrigação o tempo todo.
Samira apontou para as páginas.
— Quando você tiver curiosidade sobre alguma coisa, procure. Quando encontrar um artista que não conhece, leia. Quando gostar de uma obra, descubra quem fez. Quando alguma coisa te incomodar, tente entender por quê.
Janis continuou folheando.
— Então eu posso abrir em qualquer lugar.
— Pode.
— Mesmo sem saber onde estou?
— Principalmente.
Janis sorriu.
Samira apontou para os outros livros.
— Esses vão te ensinar a construir. Esse vai te ensinar a olhar.
Janis fechou o livro devagar.
— Gostei desse.
— Eu sabia que ia gostar.
Janis agradeceu e foi buscar a mochila.
Foi só então que se lembrou da frasqueira.
Abriu a mochila.
O lanche estava exatamente como Maria Helena havia colocado.
Intocado.
— Droga.
Samira soltou uma risada.
— A culpa é minha. Eu tenho o péssimo hábito de trabalhar demais e comer de menos.
Rui, que passava por perto, ouviu.
— Ótimo. Agora eu tenho duas criaturas hiperfocadas para cuidar.
Samira revirou os olhos.
— Foi só hoje.
— Sei...
Rui desapareceu por alguns segundos.
Quando voltou, trazia um caderno nas mãos.
Estendeu para Janis.
— Um caderno confortável vai te ajudar a estudar.
Janis pegou o presente.
— Obrigada.
— De nada.
Ela acomodou cuidadosamente os livros, o caderno e os materiais que havia recebido dentro da mochila.
Então abriu a frasqueira novamente.
Separou o lanche para comer no caminho de volta.
Uma maçã.
Uma caixinha de suco.
E um bolinho coberto com chocolate.
Dessa vez, não deixaria a avó descobrir que ela tinha voltado para casa com tudo intacto.
Despediu-se de Samira e Rui e seguiu para a estação.
A viagem de volta foi bem menos agitada que a ida.
Janis não precisou ficar olhando o relógio.
Não precisava chegar logo.
Sentou-se no trem, abriu um dos livros e começou a ler.
Depois outro.
E mais outro.
Entre uma estação e outra, foi descobrindo coisas novas sobre desenho, materiais, artistas e maneiras de enxergar aquilo que já conhecia.
Quando finalmente chegou em casa, a tarde já havia terminado.
Janis desceu do ônibus com a mochila pesada nas costas.
Pesada de livros.
Pesada de materiais.
Pesada de possibilidades.
E entrou em casa com uma sensação nova.
Depois de tanto tempo procurando alguma coisa que nem sabia explicar direito, finalmente parecia ter encontrado seu lugar.

Fim do capítulo

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