Capítulo 98 – Você conseguiu.
A família estava reunida à mesa quando Augusto começou a demonstrar uma cautela incomum.
Miriam percebeu.
Claro que percebeu.
Ele mexia na comida sem muita convicção, olhava para ela de vez em quando e parecia estar escolhendo cuidadosamente as palavras.
Miriam continuou comendo por mais alguns segundos.
Então suspirou.
— Fala logo.
Rebeca e Júnior imediatamente olharam para ela.
Miriam manteve os olhos fixos no marido.
— Eu sei que você quer me dizer alguma coisa.
Os dois adolescentes viraram a cabeça na direção de Augusto.
Ele estava usando uma camisa polo.
Ajeitou a gola.
Uma vez.
Depois outra.
Como se estivesse tentando decidir se aquela gola poderia servir de corda para uma forca.
— Então... — começou.
Parou.
Respirou fundo.
— A irmã Ana me ligou.
Miriam mastigou tranquilamente.
— Hum.
— Ela está com a impressão de que você está evitando as ligações dela.
Miriam ergueu uma sobrancelha.
— É mesmo?
Deu de ombros.
— Talvez eu esteja.
Mais um segundo.
— Talvez não.
Júnior abaixou a cabeça para esconder um sorriso.
Rebeca não conseguiu.
Augusto ignorou os dois.
— Hoje é seu dia na escala.
Miriam parou de comer.
— Vai tocar na igreja?
Ele fez uma pausa.
— Ou a irmã Ana vai ter que procurar outra pessoa?
Rebeca olhou imediatamente para Miriam.
Havia uma expectativa quase infantil em seu rosto.
A última vez que tinha visto a tia tocar na igreja fora muitos anos antes, quando ainda era criança. Mesmo assim, lembrava-se perfeitamente da postura elegante de Miriam diante do instrumento, da segurança com que tocava e da maneira como parecia pertencer à música.
Miriam percebeu o olhar da sobrinha.
Olhou para Augusto.
Depois para Rebeca.
— Vou pensar no assunto.
Júnior soltou uma risadinha.
Augusto fechou os olhos por um instante.
— Isso não é exatamente um sim.
— Eu sei.
— Nem um não.
— Também sei.
Miriam voltou tranquilamente ao jantar.
— Por enquanto, é o que você tem.
Enquanto Augusto e Miriam conversavam, Rebeca permaneceu em silêncio.
Uma coisa havia começado a incomodá-la.
Desde que chegara à casa dos Carvalho, Miriam não tinha ido à igreja nenhuma vez.
Rebeca olhou para a tia.
Talvez fosse por causa dela.
Talvez Miriam estivesse evitando aquele lugar para que ela não precisasse voltar a tudo aquilo.
A culpa apareceu antes mesmo que ela percebesse.
Miriam notou a mudança no rosto da menina.
— O que foi?
Rebeca hesitou.
— É que...
Olhou para o prato.
— Desde que eu cheguei aqui, a senhora não foi à igreja.
Miriam ficou quieta por um instante.
— E você acha que é por sua causa?
Rebeca deu um pequeno aceno.
Miriam se inclinou um pouco sobre a mesa.
— Não é.
Rebeca ergueu os olhos.
— Durante uma parte considerável da minha vida, eu acreditei que frequentar a igreja era fundamental na vida de qualquer ser humano.
Ela fez uma pequena pausa.
Pegou o copo e tomou um gole de água.
— Mas, com o passar do tempo, comecei a perceber algumas contradições entre aquilo que era dito nas tribunas e aquilo que era praticado por quem pregava.
Rebeca permaneceu atenta.
Miriam apoiou o copo sobre a mesa.
— Isso me fez reavaliar muita coisa na minha vida.
Ela respirou fundo.
— E percebi que ir à igreja, por si só, não me ajudaria a me tornar uma pessoa melhor. Eu teria que colocar em prática uma forma de amor que, até então, eu nem sabia que existia.
Rebeca franziu levemente a testa.
— Que tipo de amor?
Miriam sorriu.
— Um que me faz conviver com pessoas diferentes de mim. Pessoas de diferentes credos, diferentes histórias, diferentes experiências... e aprender a conviver com elas com respeito e sabedoria.
Pegou o copo novamente.
Outro gole.
Augusto observava a esposa em silêncio.
Miriam colocou o copo sobre a mesa.
— E é por isso que eu tenho ido pouco.
Augusto levantou um dedo.
— Muito pouco.
Miriam lançou um olhar para ele.
— Muito pouco.
Júnior segurou o riso.
Rebeca também sorriu.
Miriam voltou a olhar para a sobrinha.
— A música é a única coisa que ainda me agrada lá. E é ela que ainda me faz sentir perto de Deus quando estou na igreja.
Rebeca ficou pensando naquilo.
Então perguntou:
— Então a senhora vai tocar hoje?
Miriam olhou para ela.
Por alguns segundos, pareceu considerar a possibilidade de voltar atrás.
— Talvez.
Augusto soltou um suspiro.
— Lá vamos nós.
Ao perceber a expectativa crescente ao redor da mesa, Miriam finalmente suspirou.
Olhou para Rebeca.
Depois para Júnior.
Por fim, para Augusto.
— Bom... já que o meu pequeno fã-clube anseia pela minha presença...
Ela fez uma pausa dramática.
— Hoje eu estarei lá.
Augusto sorriu.
Rebeca e Júnior também.
Quando o jantar terminou, Miriam pegou o telefone.
Encontrou o número da irmã Ana e ligou.
A ligação foi atendida depois de alguns toques.
— Alô?
— Irmã Ana? Perdão pelo horário.
— Não precisa pedir perdão.
Houve uma pequena pausa.
— Inclusive... estou muito feliz por poder conversar com você.
Miriam franziu a testa.
— É mesmo?
— Sim.
A voz de Ana parecia genuinamente satisfeita.
— Soube que você assumiu a criação da sua sobrinha caçula.
Miriam olhou para Rebeca, que estava na sala com Júnior.
— Hum...
— E isso é maravilhoso.
Outra pausa.
— Precisamos conversar a respeito do futuro da menina.
Miriam ficou séria.
— Futuro?
— Sim.
Ana parecia quase divertida.
— O futuro musical dela na igreja.
Miriam ficou muda.
Ela realmente não esperava por aquilo.
Ana continuou:
— Sou examinadora há trinta anos. E, sinceramente, achei que minha cota de surpresas já tivesse acabado.
Miriam se encostou na cadeira.
— Continue.
— Acredito que você conheça as circunstâncias em que ela fez o teste.
Miriam apertou o telefone contra o ouvido.
— Conheço.
— A princípio, ela parecia tão assustada que era difícil avaliar a capacidade técnica dela.
Miriam não respondeu.
— Então o pastor finalmente se afastou.
A voz de Ana mudou ligeiramente.
— E a menina se transformou.
Miriam franziu a testa.
— Como assim?
— Foi como se aquele órgão fosse o lugar para o qual ela havia sido destinada a estar.
Miriam olhou novamente para Rebeca.
— Pelo próprio Criador — completou Ana.
Miriam permaneceu em silêncio.
Ana prosseguiu:
— O mundo estava ruindo ao redor dela, Miriam. E Rebeca tocava com calma. Com serenidade.
A mão de Miriam apertou o telefone.
— Se, no meio daquela turbulência, ela foi capaz de fazer aquilo...
Ana fez uma pausa.
— Imagine o que poderá fazer com o estímulo certo.
Miriam finalmente conseguiu falar.
— Você está dizendo...
— Que Rebeca foi aprovada no teste.
Silêncio.
— E eu estou pensando em reservar um horário para ela na escala das irmãs musicistas.
Miriam olhou para a sobrinha outra vez.
Rebeca estava conversando com Júnior, completamente alheia àquela conversa.
Miriam não conseguiu responder imediatamente.
Por alguma razão, a notícia parecia grande demais para caber naquela noite.
Na hora combinada, a casa inteira começou a se movimentar.
Um por um, todos foram se arrumando.
Rebeca, por sua vez, demorou um pouco mais.
Maquiou-se.
Escolheu o vestido.
Depois veio a bolsa.
Depois os sapatos.
Quando finalmente terminou, desceu as escadas.
Miriam olhou para ela.
— Casaco.
Rebeca parou.
— Mas...
— Agora.
Rebeca olhou para o vestido.
Depois para os sapatos de salto.
Suspirou.
Tirou os sapatos e voltou correndo para o quarto.
Pegou um casaco.
Ao sair novamente, deu de cara com Júnior.
Parou.
Ele estava impecável.
Terno preto.
Gravata preta.
Delineador.
Unhas pintadas.
Cabelo espetado.
Rebeca olhou para ele de cima a baixo.
Júnior arqueou uma sobrancelha.
— O que foi?
Ela não respondeu.
— Você é a única que pode se arrumar para ir à igreja?
Rebeca abriu a boca.
— Eu...
— Quem chegar por último é a mulher do padre!
Júnior disparou.
— Ei!
Sem pensar, Rebeca foi atrás.
Os dois foram correndo pelo corredor.
Júnior tentou barrar a passagem dela com o braço.
Rebeca simplesmente o empurrou.
Ele perdeu o equilíbrio por um instante.
— Ei!
Rebeca aproveitou.
Passou à frente.
— Eu vou ganhar!
— Nem ferrando!
Miriam apareceu na parte de baixo da escada.
— Devagar!
Rebeca já estava alguns degraus à frente.
Só que Júnior era mais alto.
E tinha muito mais intimidade com aquela escada.
Começou a descer os degraus de dois em dois.
— Não!
Rebeca percebeu que estava perdendo terreno.
Olhou para os últimos cinco degraus.
Olhou para Júnior.
Tomou a decisão mais insensata possível.
Pulou.
— REBECA!
Augusto antecipou o movimento.
Deu dois passos para a frente e conseguiu segurá-la no ar.
Por um instante, tudo ficou em silêncio.
Rebeca estava no colo dele, completamente descabelada.
As pontas dos dedos do pé direito tocavam o chão.
Júnior ainda estava na escada.
Olhou para ela.
Olhou para Augusto.
— Ok.
Pausa.
— Você venceu.
Rebeca respirou fundo.
Ainda no colo de Augusto, declarou:
— Quando eu me casar, vai ser por amor e não por ter perdido uma aposta.
Júnior arregalou os olhos.
— Você é maluca.
Augusto a colocou melhor nos braços.
— Maluca, não. Ela é romântica.
Júnior apontou para a escada.
— Ela pulou da escada!
— Julieta fez pior do que isso e é famosa até hoje.
Miriam levou as duas mãos ao rosto.
— Pelo amor de Deus...
Ela ficou alguns segundos daquele jeito.
Então começou a rir.
Primeiro baixinho.
Depois mais alto.
Até perder completamente o controle.
Augusto endireitou Rebeca.
— Calça os sapatos.
Rebeca obedeceu.
Augusto virou-se para Miriam.
— Chaves?
Ainda rindo, Miriam tirou as chaves da bolsa e entregou a ele.
Rebeca olhou para a tia.
— Desculpa.
Foi um erro.
Miriam começou a rir ainda mais.
Júnior passou por Rebeca e deu um tapinha em seu ombro.
— Não esquenta. Ela vai ficar bem.
Miriam continuava escondendo o rosto nas mãos, tentando inutilmente recuperar a compostura.
— Eu vou matar vocês...
Júnior abriu a porta.
— Depois da igreja.
E saiu.
Rebeca foi atrás.
Augusto balançou a cabeça, ainda sorrindo.
— Vamos antes que eles inventem outra competição.
Miriam respirou fundo.
— Eu mereço isso.
Já estavam na metade do caminho quando Miriam ainda soltava risadinhas ocasionais.
Não era mais aquela crise de riso que quase a impedia de falar.
Mas bastava lembrar de alguma parte da cena para o sorriso voltar.
Augusto perguntou:
— Acalmou?
Miriam respirou fundo.
— Sim.
Mais alguns segundos.
Ela sorriu novamente.
— Mas ver a Rebeca voando pelo hall de entrada, determinada a ganhar uma corrida que nem deveria ter acontecido...
Começou a rir outra vez.
— Isso é algo que jamais vai sair da minha memória.
Augusto sorriu.
— Ela é competitiva.
— Bastante.
Do banco de trás, Rebeca se manifestou:
— Eu tô aqui...
Miriam virou o rosto para trás.
— Agradeça ao Augusto por isso.
A família chegou à igreja pouco antes do início do culto.
Augusto e Júnior seguiram juntos para os bancos.
Miriam chamou Rebeca com um gesto.
— Vem comigo.
As duas foram para o lado reservado às musicistas.
Rebeca olhou ao redor.
O templo era enorme.
Muito maior do que aquele que frequentara durante a infância. Talvez quase dez vezes maior.
Por um instante, sentiu-se pequena.
Felizmente, a maior parte das pessoas parecia muito mais interessada em Miriam do que nela.
Alguns cumprimentaram a tia, outros perguntaram sobre o retorno dela à escala e houve apenas alguns olhares curiosos na direção de Rebeca.
Nada que lhe causasse desconforto.
Quando o culto começou, Miriam assumiu seu lugar diante do órgão.
Rebeca ficou no banco próximo, observando.
E não conseguiu esconder o orgulho.
A tia parecia ainda mais segura e elegante diante daquele instrumento.
Rebeca sorriu.
Miriam tocou conforme o combinado.
Tudo transcorreu tranquilamente.
Até o último hino.
A irmã Ana levantou a mão.
O irmão que presidia o culto percebeu e lhe deu a palavra.
— Irmã Ana?
— Gostaria de escolher o último hino.
Ele fez um gesto afirmativo.
Ana abriu o hinário.
Escolheu um número.
Era um dos hinos mais difíceis do hinário.
Ana fechou o livro.
Então olhou para Miriam.
Depois, para Rebeca.
— E gostaria que a irmã Rebeca tocasse.
Rebeca arregalou os olhos.
— Eu?
Miriam olhou para ela.
Havia um sorriso discreto no rosto.
— Vai.
Rebeca ficou alguns segundos parada.
Depois se levantou.
Ao perceber que a prima seria chamada para tocar, Júnior se levantou imediatamente.
Pegou o celular.
Augusto olhou para ele.
— Você vai filmar?
— Claro.
Júnior atravessou o corredor e procurou um lugar mais à frente, de onde pudesse ter uma visão melhor do instrumento.
Miriam permaneceu tranquila.
Ela conhecia Rebeca.
Já a tinha visto tocar muitas vezes.
Sabia do que a menina era capaz.
Augusto, porém, não conseguia esconder o nervosismo.
Ele também já tinha visto Rebeca tocar.
Sabia que ela tinha talento.
Mas aquilo era diferente.
Havia uma igreja inteira diante dela.
Uma orquestra.
E dezenas de pessoas esperando para ouvir.
Augusto apertou as mãos sobre os joelhos.
— Vai dar certo — murmurou para si mesmo.
O caminho até o instrumento pareceu muito maior do que realmente era.
O irmão que presidia o culto acompanhou aquela criatura baixinha com curiosidade.
Rebeca sentiu os olhares.
Todos eles.
O coração começou a bater mais rápido.
As mãos ficaram frias.
Por alguns segundos, teve vontade de voltar para o banco.
Então se sentou.
Ficou diante das teclas.
E tudo mudou.
O barulho ao redor pareceu desaparecer.
Rebeca respirou fundo.
Abriu o hinário.
Colocou as mãos sobre o teclado.
A introdução saiu exatamente como deveria.
A orquestra entrou.
E, logo depois, toda a igreja começou a cantar.
No início, o compasso pareceu um pouco perdido.
Rebeca precisou ouvir atentamente.
Não estava acostumada àquela quantidade de vozes.
Mas bastaram algumas linhas.
Ela encontrou o ritmo.
O ritmo do povo.
E passou a conduzir o hino junto com eles.
Quando a última nota terminou, Rebeca retirou as mãos das teclas.
Por alguns segundos, ficou parada.
Então fechou o hinário e se levantou.
Sentiu apenas que tinha encontrado o lugar certo para colocar as mãos.
Quando o culto terminou, a família se reuniu no hall de entrada da igreja.
Miriam estava radiante.
Júnior, todo satisfeito, mostrava à mãe a gravação que havia feito.
— Olha essa parte aqui.
Ele voltou o vídeo alguns segundos.
— Ela foi muito bem na introdução.
Miriam sorriu.
— Eu vi.
— Mas olha de novo.
— Júnior...
Enquanto os dois discutiam a gravação, Augusto ainda tentava secar as lágrimas.
Não adiantava muito.
Cada vez que lembrava de Rebeca sentada diante daquele instrumento, os olhos voltavam a se encher.
Ele olhou para a menina.
Ela estava conversando com Miriam, ainda um pouco sem jeito com tantos elogios.
Augusto se aproximou.
— Posso?
Abriu os braços.
Rebeca sorriu.
Caminhou até ele.
Augusto a envolveu em um abraço apertado.
— Estou orgulhoso de você.
Rebeca fechou os olhos por um instante.
— Obrigada, tio.
Ele apertou um pouco mais o abraço.
— Muito.
Júnior, ainda com o celular na mão, olhou para os dois.
— Eu gravei essa parte também.
Augusto levantou a cabeça.
— Você não gravou.
— Gravei.
— Apaga.
— Não.
Miriam começou a rir.
— Júnior...
— É patrimônio histórico da família.
Augusto olhou para Rebeca.
— Eu mereço isso.
Rebeca riu contra o peito dele.
— Merece.
Então, irmã Ana se aproximou com cautela.
— Rebeca, podemos conversar em particular?
Rebeca olhou para Miriam.
A tia assentiu.
— Claro.
Alguns minutos depois, Rebeca estava sentada no escritório da irmã Ana.
Sobre a mesa, diante dela, havia uma folha.
O documento de aprovação.
Ela ainda não conseguia acreditar.
Passara no teste.
Oficialmente.
Ana percebeu que a menina continuava olhando para o papel como se esperasse encontrar algum erro.
— Você parece surpresa.
Rebeca passou o dedo pela borda da folha.
— Eu não deveria ter feito aquilo.
Ana inclinou levemente a cabeça.
— Aquilo o quê?
Rebeca respirou fundo.
— Quando eu toquei Sweet Dreams.
Miriam permaneceu em silêncio.
— Na igreja — continuou Rebeca. — Eu não deveria ter feito aquilo. A igreja é um lugar sagrado. Eu desrespeitei o templo... e magoei as pessoas.
Rebeca baixou os olhos.
— Eu queria provocar meu pai.
— Eu sei.
A menina ergueu o olhar.
Ana apoiou as mãos sobre a mesa.
— Mas existe uma diferença entre provocar alguém e tentar ser ouvido.
Rebeca ficou quieta.
— Naquele dia, eu não vi uma menina tentando humilhar ninguém — continuou Ana. — Vi uma menina tentando ser ouvida.
Rebeca franziu a testa.
Ana prosseguiu:
— Você mostrou que era possível reagir à violência sem recorrer a ela. Usou a música para provocar pessoas que estavam usando a igreja para preservar relações injustas de poder.
Rebeca continuou olhando para ela, sem saber exatamente o que fazer com aquelas palavras.
Ana percebeu.
— Você não está entendendo.
Rebeca balançou a cabeça.
— Não muito.
Ana sorriu suavemente.
— Então vou explicar de outra maneira.
Fez uma pequena pausa.
— Você tocou Sweet Dreams não para desrespeitar o templo.
Rebeca permaneceu imóvel.
— Você tocou porque queria mostrar ao mundo que estava se sentindo oprimida.
Silêncio.
— Isso é diferente.
Rebeca olhou novamente para a folha sobre a mesa.
Ana continuou:
— Aquilo não foi um grito de desafio, Rebeca.
A menina levantou os olhos.
— Foi um pedido de socorro.
Rebeca não respondeu.
Ficou alguns segundos olhando para a irmã Ana.
Depois baixou os olhos outra vez.
Aquela possibilidade nunca havia passado pela cabeça dela.
Talvez, pela primeira vez, alguém estivesse olhando para aquela lembrança sem enxergar apenas o erro.
E Rebeca ficou pensando nisso.
Ana ficou em silêncio por alguns instantes, permitindo que Rebeca absorvesse o que havia acabado de ouvir.
Então pegou a folha de aprovação sobre a mesa.
— Você não é obrigada a aceitar.
Rebeca levantou os olhos.
— Mas, se desejar, posso incluir você na escala para tocar nos cultos dos jovens e das crianças.
Ela estendeu o documento para a menina.
— Não precisa responder agora.
Rebeca pegou a folha.
Ana sorriu.
— Pense com calma.
Rebeca voltou a olhar para o próprio nome no papel.
Ainda parecia estranho vê-lo ali.
Aprovada.
Ana então completou:
— Independente da sua decisão, você conseguiu.
Rebeca levantou os olhos.
Por um instante, não soube o que responder.
Então sorriu.
Pequeno.
Mas verdadeiro.
— Obrigada.
A família estava reunida à mesa quando Augusto começou a demonstrar uma cautela incomum.
Miriam percebeu.
Claro que percebeu.
Ele mexia na comida sem muita convicção, olhava para ela de vez em quando e parecia estar escolhendo cuidadosamente as palavras.
Miriam continuou comendo por mais alguns segundos.
Então suspirou.
— Fala logo.
Rebeca e Júnior imediatamente olharam para ela.
Miriam manteve os olhos fixos no marido.
— Eu sei que você quer me dizer alguma coisa.
Os dois adolescentes viraram a cabeça na direção de Augusto.
Ele estava usando uma camisa polo.
Ajeitou a gola.
Uma vez.
Depois outra.
Como se estivesse tentando decidir se aquela gola poderia servir de corda para uma forca.
— Então... — começou.
Parou.
Respirou fundo.
— A irmã Ana me ligou.
Miriam mastigou tranquilamente.
— Hum.
— Ela está com a impressão de que você está evitando as ligações dela.
Miriam ergueu uma sobrancelha.
— É mesmo?
Deu de ombros.
— Talvez eu esteja.
Mais um segundo.
— Talvez não.
Júnior abaixou a cabeça para esconder um sorriso.
Rebeca não conseguiu.
Augusto ignorou os dois.
— Hoje é seu dia na escala.
Miriam parou de comer.
— Vai tocar na igreja?
Ele fez uma pausa.
— Ou a irmã Ana vai ter que procurar outra pessoa?
Rebeca olhou imediatamente para Miriam.
Havia uma expectativa quase infantil em seu rosto.
A última vez que tinha visto a tia tocar na igreja fora muitos anos antes, quando ainda era criança. Mesmo assim, lembrava-se perfeitamente da postura elegante de Miriam diante do instrumento, da segurança com que tocava e da maneira como parecia pertencer à música.
Miriam percebeu o olhar da sobrinha.
Olhou para Augusto.
Depois para Rebeca.
— Vou pensar no assunto.
Júnior soltou uma risadinha.
Augusto fechou os olhos por um instante.
— Isso não é exatamente um sim.
— Eu sei.
— Nem um não.
— Também sei.
Miriam voltou tranquilamente ao jantar.
— Por enquanto, é o que você tem.
Enquanto Augusto e Miriam conversavam, Rebeca permaneceu em silêncio.
Uma coisa havia começado a incomodá-la.
Desde que chegara à casa dos Carvalho, Miriam não tinha ido à igreja nenhuma vez.
Rebeca olhou para a tia.
Talvez fosse por causa dela.
Talvez Miriam estivesse evitando aquele lugar para que ela não precisasse voltar a tudo aquilo.
A culpa apareceu antes mesmo que ela percebesse.
Miriam notou a mudança no rosto da menina.
— O que foi?
Rebeca hesitou.
— É que...
Olhou para o prato.
— Desde que eu cheguei aqui, a senhora não foi à igreja.
Miriam ficou quieta por um instante.
— E você acha que é por sua causa?
Rebeca deu um pequeno aceno.
Miriam se inclinou um pouco sobre a mesa.
— Não é.
Rebeca ergueu os olhos.
— Durante uma parte considerável da minha vida, eu acreditei que frequentar a igreja era fundamental na vida de qualquer ser humano.
Ela fez uma pequena pausa.
Pegou o copo e tomou um gole de água.
— Mas, com o passar do tempo, comecei a perceber algumas contradições entre aquilo que era dito nas tribunas e aquilo que era praticado por quem pregava.
Rebeca permaneceu atenta.
Miriam apoiou o copo sobre a mesa.
— Isso me fez reavaliar muita coisa na minha vida.
Ela respirou fundo.
— E percebi que ir à igreja, por si só, não me ajudaria a me tornar uma pessoa melhor. Eu teria que colocar em prática uma forma de amor que, até então, eu nem sabia que existia.
Rebeca franziu levemente a testa.
— Que tipo de amor?
Miriam sorriu.
— Um que me faz conviver com pessoas diferentes de mim. Pessoas de diferentes credos, diferentes histórias, diferentes experiências... e aprender a conviver com elas com respeito e sabedoria.
Pegou o copo novamente.
Outro gole.
Augusto observava a esposa em silêncio.
Miriam colocou o copo sobre a mesa.
— E é por isso que eu tenho ido pouco.
Augusto levantou um dedo.
— Muito pouco.
Miriam lançou um olhar para ele.
— Muito pouco.
Júnior segurou o riso.
Rebeca também sorriu.
Miriam voltou a olhar para a sobrinha.
— A música é a única coisa que ainda me agrada lá. E é ela que ainda me faz sentir perto de Deus quando estou na igreja.
Rebeca ficou pensando naquilo.
Então perguntou:
— Então a senhora vai tocar hoje?
Miriam olhou para ela.
Por alguns segundos, pareceu considerar a possibilidade de voltar atrás.
— Talvez.
Augusto soltou um suspiro.
— Lá vamos nós.
Ao perceber a expectativa crescente ao redor da mesa, Miriam finalmente suspirou.
Olhou para Rebeca.
Depois para Júnior.
Por fim, para Augusto.
— Bom... já que o meu pequeno fã-clube anseia pela minha presença...
Ela fez uma pausa dramática.
— Hoje eu estarei lá.
Augusto sorriu.
Rebeca e Júnior também.
Quando o jantar terminou, Miriam pegou o telefone.
Encontrou o número da irmã Ana e ligou.
A ligação foi atendida depois de alguns toques.
— Alô?
— Irmã Ana? Perdão pelo horário.
— Não precisa pedir perdão.
Houve uma pequena pausa.
— Inclusive... estou muito feliz por poder conversar com você.
Miriam franziu a testa.
— É mesmo?
— Sim.
A voz de Ana parecia genuinamente satisfeita.
— Soube que você assumiu a criação da sua sobrinha caçula.
Miriam olhou para Rebeca, que estava na sala com Júnior.
— Hum...
— E isso é maravilhoso.
Outra pausa.
— Precisamos conversar a respeito do futuro da menina.
Miriam ficou séria.
— Futuro?
— Sim.
Ana parecia quase divertida.
— O futuro musical dela na igreja.
Miriam ficou muda.
Ela realmente não esperava por aquilo.
Ana continuou:
— Sou examinadora há trinta anos. E, sinceramente, achei que minha cota de surpresas já tivesse acabado.
Miriam se encostou na cadeira.
— Continue.
— Acredito que você conheça as circunstâncias em que ela fez o teste.
Miriam apertou o telefone contra o ouvido.
— Conheço.
— A princípio, ela parecia tão assustada que era difícil avaliar a capacidade técnica dela.
Miriam não respondeu.
— Então o pastor finalmente se afastou.
A voz de Ana mudou ligeiramente.
— E a menina se transformou.
Miriam franziu a testa.
— Como assim?
— Foi como se aquele órgão fosse o lugar para o qual ela havia sido destinada a estar.
Miriam olhou novamente para Rebeca.
— Pelo próprio Criador — completou Ana.
Miriam permaneceu em silêncio.
Ana prosseguiu:
— O mundo estava ruindo ao redor dela, Miriam. E Rebeca tocava com calma. Com serenidade.
A mão de Miriam apertou o telefone.
— Se, no meio daquela turbulência, ela foi capaz de fazer aquilo...
Ana fez uma pausa.
— Imagine o que poderá fazer com o estímulo certo.
Miriam finalmente conseguiu falar.
— Você está dizendo...
— Que Rebeca foi aprovada no teste.
Silêncio.
— E eu estou pensando em reservar um horário para ela na escala das irmãs musicistas.
Miriam olhou para a sobrinha outra vez.
Rebeca estava conversando com Júnior, completamente alheia àquela conversa.
Miriam não conseguiu responder imediatamente.
Por alguma razão, a notícia parecia grande demais para caber naquela noite.
Na hora combinada, a casa inteira começou a se movimentar.
Um por um, todos foram se arrumando.
Rebeca, por sua vez, demorou um pouco mais.
Maquiou-se.
Escolheu o vestido.
Depois veio a bolsa.
Depois os sapatos.
Quando finalmente terminou, desceu as escadas.
Miriam olhou para ela.
— Casaco.
Rebeca parou.
— Mas...
— Agora.
Rebeca olhou para o vestido.
Depois para os sapatos de salto.
Suspirou.
Tirou os sapatos e voltou correndo para o quarto.
Pegou um casaco.
Ao sair novamente, deu de cara com Júnior.
Parou.
Ele estava impecável.
Terno preto.
Gravata preta.
Delineador.
Unhas pintadas.
Cabelo espetado.
Rebeca olhou para ele de cima a baixo.
Júnior arqueou uma sobrancelha.
— O que foi?
Ela não respondeu.
— Você é a única que pode se arrumar para ir à igreja?
Rebeca abriu a boca.
— Eu...
— Quem chegar por último é a mulher do padre!
Júnior disparou.
— Ei!
Sem pensar, Rebeca foi atrás.
Os dois foram correndo pelo corredor.
Júnior tentou barrar a passagem dela com o braço.
Rebeca simplesmente o empurrou.
Ele perdeu o equilíbrio por um instante.
— Ei!
Rebeca aproveitou.
Passou à frente.
— Eu vou ganhar!
— Nem ferrando!
Miriam apareceu na parte de baixo da escada.
— Devagar!
Rebeca já estava alguns degraus à frente.
Só que Júnior era mais alto.
E tinha muito mais intimidade com aquela escada.
Começou a descer os degraus de dois em dois.
— Não!
Rebeca percebeu que estava perdendo terreno.
Olhou para os últimos cinco degraus.
Olhou para Júnior.
Tomou a decisão mais insensata possível.
Pulou.
— REBECA!
Augusto antecipou o movimento.
Deu dois passos para a frente e conseguiu segurá-la no ar.
Por um instante, tudo ficou em silêncio.
Rebeca estava no colo dele, completamente descabelada.
As pontas dos dedos do pé direito tocavam o chão.
Júnior ainda estava na escada.
Olhou para ela.
Olhou para Augusto.
— Ok.
Pausa.
— Você venceu.
Rebeca respirou fundo.
Ainda no colo de Augusto, declarou:
— Quando eu me casar, vai ser por amor e não por ter perdido uma aposta.
Júnior arregalou os olhos.
— Você é maluca.
Augusto a colocou melhor nos braços.
— Maluca, não. Ela é romântica.
Júnior apontou para a escada.
— Ela pulou da escada!
— Julieta fez pior do que isso e é famosa até hoje.
Miriam levou as duas mãos ao rosto.
— Pelo amor de Deus...
Ela ficou alguns segundos daquele jeito.
Então começou a rir.
Primeiro baixinho.
Depois mais alto.
Até perder completamente o controle.
Augusto endireitou Rebeca.
— Calça os sapatos.
Rebeca obedeceu.
Augusto virou-se para Miriam.
— Chaves?
Ainda rindo, Miriam tirou as chaves da bolsa e entregou a ele.
Rebeca olhou para a tia.
— Desculpa.
Foi um erro.
Miriam começou a rir ainda mais.
Júnior passou por Rebeca e deu um tapinha em seu ombro.
— Não esquenta. Ela vai ficar bem.
Miriam continuava escondendo o rosto nas mãos, tentando inutilmente recuperar a compostura.
— Eu vou matar vocês...
Júnior abriu a porta.
— Depois da igreja.
E saiu.
Rebeca foi atrás.
Augusto balançou a cabeça, ainda sorrindo.
— Vamos antes que eles inventem outra competição.
Miriam respirou fundo.
— Eu mereço isso.
Já estavam na metade do caminho quando Miriam ainda soltava risadinhas ocasionais.
Não era mais aquela crise de riso que quase a impedia de falar.
Mas bastava lembrar de alguma parte da cena para o sorriso voltar.
Augusto perguntou:
— Acalmou?
Miriam respirou fundo.
— Sim.
Mais alguns segundos.
Ela sorriu novamente.
— Mas ver a Rebeca voando pelo hall de entrada, determinada a ganhar uma corrida que nem deveria ter acontecido...
Começou a rir outra vez.
— Isso é algo que jamais vai sair da minha memória.
Augusto sorriu.
— Ela é competitiva.
— Bastante.
Do banco de trás, Rebeca se manifestou:
— Eu tô aqui...
Miriam virou o rosto para trás.
— Agradeça ao Augusto por isso.
A família chegou à igreja pouco antes do início do culto.
Augusto e Júnior seguiram juntos para os bancos.
Miriam chamou Rebeca com um gesto.
— Vem comigo.
As duas foram para o lado reservado às musicistas.
Rebeca olhou ao redor.
O templo era enorme.
Muito maior do que aquele que frequentara durante a infância. Talvez quase dez vezes maior.
Por um instante, sentiu-se pequena.
Felizmente, a maior parte das pessoas parecia muito mais interessada em Miriam do que nela.
Alguns cumprimentaram a tia, outros perguntaram sobre o retorno dela à escala e houve apenas alguns olhares curiosos na direção de Rebeca.
Nada que lhe causasse desconforto.
Quando o culto começou, Miriam assumiu seu lugar diante do órgão.
Rebeca ficou no banco próximo, observando.
E não conseguiu esconder o orgulho.
A tia parecia ainda mais segura e elegante diante daquele instrumento.
Rebeca sorriu.
Miriam tocou conforme o combinado.
Tudo transcorreu tranquilamente.
Até o último hino.
A irmã Ana levantou a mão.
O irmão que presidia o culto percebeu e lhe deu a palavra.
— Irmã Ana?
— Gostaria de escolher o último hino.
Ele fez um gesto afirmativo.
Ana abriu o hinário.
Escolheu um número.
Era um dos hinos mais difíceis do hinário.
Ana fechou o livro.
Então olhou para Miriam.
Depois, para Rebeca.
— E gostaria que a irmã Rebeca tocasse.
Rebeca arregalou os olhos.
— Eu?
Miriam olhou para ela.
Havia um sorriso discreto no rosto.
— Vai.
Rebeca ficou alguns segundos parada.
Depois se levantou.
Ao perceber que a prima seria chamada para tocar, Júnior se levantou imediatamente.
Pegou o celular.
Augusto olhou para ele.
— Você vai filmar?
— Claro.
Júnior atravessou o corredor e procurou um lugar mais à frente, de onde pudesse ter uma visão melhor do instrumento.
Miriam permaneceu tranquila.
Ela conhecia Rebeca.
Já a tinha visto tocar muitas vezes.
Sabia do que a menina era capaz.
Augusto, porém, não conseguia esconder o nervosismo.
Ele também já tinha visto Rebeca tocar.
Sabia que ela tinha talento.
Mas aquilo era diferente.
Havia uma igreja inteira diante dela.
Uma orquestra.
E dezenas de pessoas esperando para ouvir.
Augusto apertou as mãos sobre os joelhos.
— Vai dar certo — murmurou para si mesmo.
O caminho até o instrumento pareceu muito maior do que realmente era.
O irmão que presidia o culto acompanhou aquela criatura baixinha com curiosidade.
Rebeca sentiu os olhares.
Todos eles.
O coração começou a bater mais rápido.
As mãos ficaram frias.
Por alguns segundos, teve vontade de voltar para o banco.
Então se sentou.
Ficou diante das teclas.
E tudo mudou.
O barulho ao redor pareceu desaparecer.
Rebeca respirou fundo.
Abriu o hinário.
Colocou as mãos sobre o teclado.
A introdução saiu exatamente como deveria.
A orquestra entrou.
E, logo depois, toda a igreja começou a cantar.
No início, o compasso pareceu um pouco perdido.
Rebeca precisou ouvir atentamente.
Não estava acostumada àquela quantidade de vozes.
Mas bastaram algumas linhas.
Ela encontrou o ritmo.
O ritmo do povo.
E passou a conduzir o hino junto com eles.
Quando a última nota terminou, Rebeca retirou as mãos das teclas.
Por alguns segundos, ficou parada.
Então fechou o hinário e se levantou.
Sentiu apenas que tinha encontrado o lugar certo para colocar as mãos.
Quando o culto terminou, a família se reuniu no hall de entrada da igreja.
Miriam estava radiante.
Júnior, todo satisfeito, mostrava à mãe a gravação que havia feito.
— Olha essa parte aqui.
Ele voltou o vídeo alguns segundos.
— Ela foi muito bem na introdução.
Miriam sorriu.
— Eu vi.
— Mas olha de novo.
— Júnior...
Enquanto os dois discutiam a gravação, Augusto ainda tentava secar as lágrimas.
Não adiantava muito.
Cada vez que lembrava de Rebeca sentada diante daquele instrumento, os olhos voltavam a se encher.
Ele olhou para a menina.
Ela estava conversando com Miriam, ainda um pouco sem jeito com tantos elogios.
Augusto se aproximou.
— Posso?
Abriu os braços.
Rebeca sorriu.
Caminhou até ele.
Augusto a envolveu em um abraço apertado.
— Estou orgulhoso de você.
Rebeca fechou os olhos por um instante.
— Obrigada, tio.
Ele apertou um pouco mais o abraço.
— Muito.
Júnior, ainda com o celular na mão, olhou para os dois.
— Eu gravei essa parte também.
Augusto levantou a cabeça.
— Você não gravou.
— Gravei.
— Apaga.
— Não.
Miriam começou a rir.
— Júnior...
— É patrimônio histórico da família.
Augusto olhou para Rebeca.
— Eu mereço isso.
Rebeca riu contra o peito dele.
— Merece.
Então, irmã Ana se aproximou com cautela.
— Rebeca, podemos conversar em particular?
Rebeca olhou para Miriam.
A tia assentiu.
— Claro.
Alguns minutos depois, Rebeca estava sentada no escritório da irmã Ana.
Sobre a mesa, diante dela, havia uma folha.
O documento de aprovação.
Ela ainda não conseguia acreditar.
Passara no teste.
Oficialmente.
Ana percebeu que a menina continuava olhando para o papel como se esperasse encontrar algum erro.
— Você parece surpresa.
Rebeca passou o dedo pela borda da folha.
— Eu não deveria ter feito aquilo.
Ana inclinou levemente a cabeça.
— Aquilo o quê?
Rebeca respirou fundo.
— Quando eu toquei Sweet Dreams.
Miriam permaneceu em silêncio.
— Na igreja — continuou Rebeca. — Eu não deveria ter feito aquilo. A igreja é um lugar sagrado. Eu desrespeitei o templo... e magoei as pessoas.
Rebeca baixou os olhos.
— Eu queria provocar meu pai.
— Eu sei.
A menina ergueu o olhar.
Ana apoiou as mãos sobre a mesa.
— Mas existe uma diferença entre provocar alguém e tentar ser ouvido.
Rebeca ficou quieta.
— Naquele dia, eu não vi uma menina tentando humilhar ninguém — continuou Ana. — Vi uma menina tentando ser ouvida.
Rebeca franziu a testa.
Ana prosseguiu:
— Você mostrou que era possível reagir à violência sem recorrer a ela. Usou a música para provocar pessoas que estavam usando a igreja para preservar relações injustas de poder.
Rebeca continuou olhando para ela, sem saber exatamente o que fazer com aquelas palavras.
Ana percebeu.
— Você não está entendendo.
Rebeca balançou a cabeça.
— Não muito.
Ana sorriu suavemente.
— Então vou explicar de outra maneira.
Fez uma pequena pausa.
— Você tocou Sweet Dreams não para desrespeitar o templo.
Rebeca permaneceu imóvel.
— Você tocou porque queria mostrar ao mundo que estava se sentindo oprimida.
Silêncio.
— Isso é diferente.
Rebeca olhou novamente para a folha sobre a mesa.
Ana continuou:
— Aquilo não foi um grito de desafio, Rebeca.
A menina levantou os olhos.
— Foi um pedido de socorro.
Rebeca não respondeu.
Ficou alguns segundos olhando para a irmã Ana.
Depois baixou os olhos outra vez.
Aquela possibilidade nunca havia passado pela cabeça dela.
Talvez, pela primeira vez, alguém estivesse olhando para aquela lembrança sem enxergar apenas o erro.
E Rebeca ficou pensando nisso.
Ana ficou em silêncio por alguns instantes, permitindo que Rebeca absorvesse o que havia acabado de ouvir.
Então pegou a folha de aprovação sobre a mesa.
— Você não é obrigada a aceitar.
Rebeca levantou os olhos.
— Mas, se desejar, posso incluir você na escala para tocar nos cultos dos jovens e das crianças.
Ela estendeu o documento para a menina.
— Não precisa responder agora.
Rebeca pegou a folha.
Ana sorriu.
— Pense com calma.
Rebeca voltou a olhar para o próprio nome no papel.
Ainda parecia estranho vê-lo ali.
Aprovada.
Ana então completou:
— Independente da sua decisão, você conseguiu.
Rebeca levantou os olhos.
Por um instante, não soube o que responder.
Então sorriu.
Pequeno.
Mas verdadeiro.
— Obrigada.
Fim do capítulo

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