Capítulo 96

Capítulo 96 – Acontecendo de verdade

de Otherside - Como a vida deveria ser, por Elin Varen

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Capítulo 96 – Acontecendo de verdade.

A primeira aula terminou.
Rebeca ainda estava guardando o material quando Márcia apareceu na porta da sala.
— Rebeca?
A menina levantou os olhos.
— A Carol está com um horário disponível agora. Se você quiser conversar com ela, pode ir.
Rebeca ficou alguns segundos em silêncio.
Não era uma convocação.
Não havia nenhuma obrigação.
Ela poderia continuar ali.
Pensou.
Então fechou o estojo.
— Eu vou.
Márcia assentiu.
— Está bem.
Rebeca saiu da sala.
O corredor estava movimentado.
Alunos conversavam.
Portas se abriam e fechavam.
Professores passavam carregando livros e pastas.
Rebeca caminhou.
Uma batida.
Depois outra.
E outra.
Seu coração parecia cada vez mais alto.
Passou por uma porta.
Mais uma batida.
Dobrou o corredor.
Mais uma.
A sala de Carol estava perto.
O som dos passos parecia distante.
Outra batida.
Mais forte.
Rebeca parou diante da porta.
Respirou.
Levantou a mão.
Bateu.
— Pode entrar.
Ela abriu a porta.
Entrou.
Fechou.
E começou a chorar.
Não houve aviso.
Nenhuma palavra.
As lágrimas simplesmente vieram.
Carol se levantou imediatamente.
— Rebeca?
A menina tentou responder.
Não conseguiu.
Carol deu a volta na mesa e se aproximou.
— Tudo bem. Não precisa falar.
Rebeca levou as mãos ao rosto.
O choro aumentou.
Carol permaneceu perto, mas sem tocá-la.
— Olha para mim.
Rebeca ergueu os olhos por um instante.
— Vamos fazer uma coisa.
Carol apontou para a cadeira.
— Sente aqui.
Rebeca sentou.
Carol se agachou diante dela.
— Sente o tecido da sua roupa.
Rebeca obedeceu.
— Isso.
— Está áspero ou macio?
Rebeca passou os dedos pela camiseta.
— Macio...
— Muito bem.
Carol esperou alguns segundos.
— Agora presta atenção no cheiro.
Rebeca respirou.
— O que você sente?
Ela demorou.
— Café.
Carol sorriu.
— Tem café aqui.
Rebeca respirou novamente.
— E... alguma coisa doce.
— Eu trouxe biscoitos.
Um pequeno soluço escapou.
Carol continuou:
— Olha ao redor.
Rebeca levantou os olhos.
— O que você vê?
— A mesa.
— Mais alguma coisa.
— Livros.
— Isso.
Carol apontou para a janela.
— E ali?
— A árvore.
— Muito bem.
O choro foi diminuindo aos poucos.
Não desapareceu.
Mas deixou de ser incontrolável.
Carol sentou-se diante dela.
Por alguns segundos, não disse nada.
Então falou:
— Você está aqui.
Rebeca abaixou os olhos.
— Eu sei.
— Sabe?
Rebeca assentiu.
Carol esperou.
— Às vezes, saber não é suficiente.
Rebeca não respondeu.
— Você já me contou que tem medo de acordar e descobrir que tudo isso era um sonho.
Os olhos da menina se encheram novamente.
Carol continuou, com calma:
— Então vamos lembrar onde você está.
Rebeca permaneceu em silêncio.
— A casa da sua tia é real.
Uma lágrima escorreu pelo rosto dela.
— A vida que você tem com os Carvalho é real.
Carol fez uma pequena pausa.
— Dona Maria Helena é real.
Rebeca apertou os dedos contra a própria roupa.
— A família Valente também.
Mais uma pausa.
— Você esteve na casa deles.
Rebeca respirou fundo.
— A Helba é real.
A menina levantou os olhos.
— E sim... ela é sua professora.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Rebeca.
Durou pouco.
Mas apareceu.
Carol sorriu também.
Rebeca fechou os olhos.
— A Janis existe.
Dessa vez, Rebeca deixou escapar um soluço diferente.
Carol esperou.
— Miriam existe.
Rebeca assentiu.
— E você não está naquele quarto.
A menina abriu os olhos.
Carol falou devagar:
— Você está aqui. Agora.
Rebeca respirou.
Uma vez.
Depois outra.
— Eu tenho medo de acordar.
Carol inclinou a cabeça.
— Eu sei.
— E se eu acordar?
— Então você vai perceber que não acordou sozinha.
Rebeca ficou olhando para ela.
— Porque vai ter gente aqui.
Carol sorriu.
— Exatamente.
E, pela primeira vez desde que entrara naquela sala, Rebeca conseguiu respirar sem sentir que precisava correr.
Carol esperou que Rebeca se acalmasse.
Então puxou uma cadeira para perto e se sentou.
Por alguns instantes, nenhuma das duas falou.
— Então... — Carol começou. — Alguma novidade?
Rebeca respirou fundo.
E, quase imediatamente, começou a sorrir.
— Eu fiz biscoitos.
Carol sorriu.
— Você fez?
— Fiz.
— E ficaram bons?
Rebeca fez uma careta.
— Mais ou menos.
— Mais ou menos?
— Eles ficaram muito duros.
Carol segurou o riso.
— Muito?
— Muito.
Rebeca começou a rir também.
— O Júnior quase quebrou um dente.
Carol riu.
— E ninguém te proibiu de entrar na cozinha depois disso?
— Não.
Rebeca parecia genuinamente surpresa com a própria resposta.
— A tia Miriam até me ajudou a limpar tudo.
Contou sobre os biscoitos.
Depois contou sobre a ida à casa de Janis.
Falou de dona Maria Helena, da comida, do roupão que havia ganhado, do café da manhã e dos biscoitos que aprendera a fazer.
— Ela é muito legal.
— A dona Maria Helena?
— É.
Rebeca sorriu.
— Eu gosto muito dela.
— Por quê?
A menina pensou por alguns segundos.
— Porque ela faz eu me sentir em casa.
Carol não respondeu imediatamente.
— Como assim?
Rebeca mexeu os dedos sobre o próprio colo.
— Não sei explicar.
Pensou um pouco mais.
— Lá eu posso comer o que eu quiser.
Carol sorriu de leve.
— Isso é importante?
— É.
Rebeca assentiu.
— Ela sempre pergunta se eu quero comer. E se eu digo que quero, ela faz.
A voz dela diminuiu.
— E eu posso muito.
Carol percebeu a mudança.
— Você não podia fazer isso antes?
Rebeca balançou a cabeça.
— Não.
Ficou em silêncio.
— Meu pai controlava o que eu comia.
Carol esperou.
— Às vezes eu tinha medo de comer mais porque achava que ele ia perceber.
A menina baixou os olhos.
— E agora?
Rebeca demorou um pouco para responder.
— Agora eu ainda fico com medo.
Carol falou com cuidado:
— Mesmo estando longe dele?
— Às vezes.
Rebeca apertou as mãos.
— Eu penso que fiz alguma coisa errada e que ele vai descobrir. Ou que eu vou voltar pra lá.
Carol não tentou corrigir imediatamente.
Deixou que ela continuasse.
E Rebeca continuou.
Falou sobre Samira.
Sobre o Dois Tons.
Sobre os materiais.
Sobre a quantidade de lojas que tinha visto no Centro.
Sobre as livrarias.
Sobre o livro pop-up de Alice.
Sobre a viagem de trem.
Cada lembrança parecia puxar outra.
E, pouco a pouco, o rosto de Rebeca voltou a se iluminar.
— Foi tudo muito bonito.
— O quê?
— Tudo.
Ela sorriu.
— Eu nunca tinha andado de trem.
Contou dos vendedores, das pessoas, das estações.
Depois falou de Janis.
E, quando chegou nela, a voz mudou.
Ficou mais suave.
— Eu gosto de estar com ela.
Carol sorriu.
— Eu sei.
Rebeca também sorriu.
— A gente se diverte.
— Parece que sim.
Rebeca continuou falando.
Da oficina.
Da livraria.
Da noite na casa de dona Maria Helena.
De como Janis havia ficado com ela.
Até que Carol reparou no curativo.
— E esse ombro?
Rebeca olhou para ele.
— Ah.
— Isso também aconteceu nesse fim de semana?
— Foi.
— Tem alguma coisa a ver com essas aventuras que você viveu com a Janis?
Rebeca sorriu, meio sem graça.
— Eu caí do skate.
— Caiu?
— Eu estava tentando fazer uma manobra.
Carol olhou para o curativo.
— E conseguiu?
Rebeca fez uma pequena careta.
— A manobra, não.
Carol riu.
— Imagino.
Rebeca ficou alguns segundos em silêncio.
Depois sorriu novamente.
— Mas foi divertido.
Carol observou a menina.
Era impressionante a quantidade de coisas que Rebeca conseguia contar quando se sentia segura.
Biscoitos duros demais.
Comida.
Livros.
Trens.
Lojas.
Um ateliê.
Uma garota de quem gostava.
Pequenas coisas que, para qualquer outra pessoa, poderiam parecer apenas acontecimentos de um fim de semana.
Para Rebeca, eram descobertas.
E talvez fosse justamente por isso que o medo ainda aparecesse no meio delas.
Carol apoiou as mãos sobre a mesa.
— Sabe de uma coisa?
Rebeca levantou os olhos.
— Você é uma menina muito criativa.
Rebeca sorriu.
— Eu sei.
Carol riu.
— Convencida.
— Um pouco.
— Mas tem uma coisa que nem você conseguiria inventar.
Rebeca ficou séria.
— O quê?
— Tudo isso.
Carol fez um gesto pequeno, como se reunisse todas aquelas histórias entre as duas.
— A casa da sua tia. A dona Maria Helena. A Janis. A escola. O Dois Tons. A viagem de trem. Os livros.
Rebeca permaneceu quieta.
— Você poderia imaginar um mundo inteiro, Rebeca. Mas não conseguiria imaginar todos esses detalhes desse jeito.
A menina baixou os olhos.
Carol continuou:
— Porque eles estão acontecendo de verdade.
Rebeca respirou fundo.
— De verdade?
— De verdade.
Carol sorriu.
— Você está aqui. Está estudando. Está fazendo amigos. Está descobrindo coisas novas.
Fez uma pausa.
— E aquele passado que você viveu... ficou para trás.
Rebeca permaneceu em silêncio.
— Você não está mais naquela casa, Rebeca.
A menina ergueu os olhos.
— E não precisa voltar para lá.
Dessa vez, Rebeca assentiu.
Ainda havia lágrimas em seus olhos.
Mas ela sorriu.
Um sorriso pequeno.
Cansado.
E verdadeiro.

Fim do capítulo

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