Capítulo 95 – Era domingo à noite.
Miriam não pôde deixar de sentir alívio ao ver Rebeca zanzando pela casa, lamentando a própria sorte.
Quando chegara ali, a menina estava determinada a mostrar que, apesar de tudo o que havia acontecido com o pai, a dor da violência não a afetava.
Agora, porém, depois de algum tempo longe daquela atmosfera, parecia ter entendido uma coisa diferente.
Ela estava segura.
E, estando segura, não precisava fingir que nada doía.
No começo, Miriam pensou que aquilo fosse apenas uma maneira de chamar a atenção de Janis.
Afinal, a queda tinha acontecido justamente quando as duas estavam juntas.
Mas, depois que terminou o curativo, Miriam acomodou a sobrinha no sofá.
— Que tal vocês ficarem aqui, quietinhas? Assistindo a um bom filme.
Rebeca levantou os olhos.
— Quero pipoca.
— Está certo.
Miriam abriu um dos armários e pegou uma manta.
— Com manteiga — acrescentou Rebeca.
Miriam olhou para ela.
— Com manteiga.
Janis se aproximou devagar, desconfiada.
— Posso ficar aqui?
Rebeca olhou para ela.
Janis apontou para o ombro machucado.
— Agonizando junto com você?
Rebeca sorriu.
— Pode.
E assim as duas ficaram.
Janis sentada no sofá.
Rebeca deitada, com a cabeça apoiada no colo da namorada.
Miriam observou as duas por alguns segundos.
Vai passar...
Assim que Janis for embora, isso vai passar.
Mas não passou.
Rebeca continuou manhosa pelo resto da noite.
Deixou que Augusto cortasse o bife para ela.
Permitiu que Júnior lhe servisse o suco.
Aceitou a manta sem reclamar quando sentiu frio.
E, para Miriam, aquilo quase foi motivo para pular de alegria.
Porque, em tão pouco tempo, Rebeca havia aprendido uma coisa com a família Carvalho.
Ela merecia ser tratada com dignidade.
Merecia cuidado.
Merecia respeito.
E, pela primeira vez, parecia não ter medo de pedir essas coisas.
Miriam estava terminando de organizar a casa para o adormecer da família quando passou em frente ao quarto de Rebeca.
Parou.
A menina estava deitada de lado na cama.
O ombro ferido permanecia o mais longe possível do colchão.
Nas mãos, segurava o novo livro de Alice e observava atentamente as ilustrações, virando as páginas com cuidado para não precisar se apoiar sobre o braço machucado.
Miriam olhou para o relógio.
— Já passou da hora de dormir.
Rebeca ergueu os olhos por cima do livro.
Miriam entrou no quarto.
No caminho, pegou o skate que estava largado no meio do chão e o encostou na parede.
Depois recolheu alguns livros espalhados pelo quarto e os colocou sobre a escrivaninha.
Foi até o banheiro.
Voltou alguns segundos depois com o pequeno estojo da placa de bruxismo.
— Você esqueceu?
Rebeca olhou para o estojo.
Miriam apontou para ele.
— Ou está evitando usar sua placa na frente da Janis?
Rebeca fez uma careta.
Miriam sorriu.
— Tenho certeza de que a Janis não vai se importar com isso.
Rebeca hesitou.
Depois pegou a placa.
Colocou-a.
Miriam ajeitou a manta sobre ela.
— Boa noite.
Virou-se para sair.
— Tiaaaaaaaaa...
A voz saiu enrolada por causa da placa.
Miriam parou.
— O que foi?
Rebeca levantou um pouco o livro.
— Lê pra mim?
Miriam ficou olhando para ela.
— Como é?
Rebeca fez uma expressão extremamente séria.
— Eu estou sofrendo.
Miriam piscou.
— Está?
Rebeca assentiu solenemente.
— Muito.
Miriam olhou para o ombro enfaixado.
Depois para o livro.
Então voltou a olhar para a sobrinha.
— E a leitura faz parte do tratamento?
Rebeca pensou por um instante.
— Faz.
— Entendi.
Miriam sentou-se na beirada da cama.
— Então me dá esse livro.
Rebeca abriu um sorriso.
Entregou o livro à tia e se ajeitou melhor no travesseiro.
Miriam abriu na primeira página.
Rebeca fechou os olhos, satisfeita.
Miriam começou a ler.
E, antes mesmo de chegar ao fim da primeira página, percebeu que a menina já estava completamente acomodada.
Como se aquele lugar — aquela cama, aquele livro e alguém disposto a ficar ali mais alguns minutos — fosse exatamente onde ela deveria estar.
Como era um livro pop-up, a história de Alice estava adaptada para uma versão mais curta.
Miriam não demorou muito para chegar ao fim.
Fechou o livro parcialmente e olhou para a sobrinha.
Rebeca já estava sonolenta.
Os olhos mal permaneciam abertos.
Miriam sorriu.
— Pronto.
Esperou alguns segundos.
Então Rebeca murmurou:
— Lê outra vez...
Miriam soltou uma risada baixa.
— Você está abusando.
Rebeca abriu os olhos apenas o suficiente para encará-la.
— Por favooooooor...
Miriam balançou a cabeça.
— Está bem.
Abriu novamente o livro.
Dessa vez, leu mais devagar.
A voz ficou baixa e tranquila, acompanhando o silêncio da casa.
As páginas foram viradas uma a uma.
Antes mesmo de chegar à metade, Rebeca já lutava para manter os olhos abertos.
Piscava demoradamente.
Às vezes, parecia perder uma frase inteira.
Miriam continuou.
Quando chegou ao fim, a menina já dormia.
Miriam ficou alguns segundos em silêncio, olhando para ela.
Então fechou o livro com cuidado e o colocou sobre a mesa de cabeceira.
Ajeitou a manta.
Inclinou-se e beijou a testa da sobrinha.
— Boa noite, minha menina.
Levantou-se.
Apagou a luz.
E saiu do quarto, deixando a porta entreaberta antes de seguir para o próprio quarto.
***
Quando Janis chegou em casa, encontrou um baú no meio do quarto.
Parou na porta.
Olhou para o objeto.
Depois olhou para o corredor.
— Vó?
A voz de Maria Helena veio da sala.
— O que foi?
Janis apontou para o quarto.
— Tem um caixão dentro do meu quarto?
Houve alguns segundos de silêncio.
— Espero que não.
Maria Helena apareceu na porta.
Olhou para o baú.
— Ah...
Então pareceu entender.
— É isso.
Janis continuava olhando para o objeto.
— O que é?
— Uma das minhas amigas da igreja me deu.
Aproximou-se e abriu a tampa.
— É para você guardar os materiais de desenho que ganhou.
Janis olhou para dentro.
Depois para a avó.
Um sorriso apareceu em seu rosto.
— Sério?
— Sim.
Maria Helena apontou para o chão.
— Nada de deixar coisas espalhadas por aí.
Janis bateu continência.
— Sim, senhora!
Maria Helena meneou a cabeça.
— Quero seu quarto impecável.
— Entendido.
A avó voltou para a sala.
Janis fechou a porta.
Então começou a organizar tudo.
Os papéis foram acomodados primeiro.
Depois os pincéis, as tintas e os outros materiais que Samira havia colocado na mochila e na sacola de lona.
Janis parou por alguns segundos para examinar cada coisa antes de guardá-la.
As canetas, os marcadores e os lápis de cor, porém, ficaram de fora.
Esses foram para a gaveta da escrivaninha.
Quando terminou, Janis fechou o baú.
Olhou para o quarto.
Não havia mais materiais espalhados pelo chão.
Tudo estava no lugar.
Ela sorriu.
Então abriu a gaveta novamente.
Pegou um dos marcadores que Samira havia dado.
Ficou olhando para ele por alguns segundos.
E, sem perceber, começou a pensar na ida ao Dois Tons.
Então, Janis começou a organizar as coisas que precisaria usar no dia seguinte.
Primeiro, colocou os materiais da escola dentro da mochila.
Conferiu os cadernos.
Depois os livros.
Estojo.
Tudo no lugar.
Fechou o zíper.
Então olhou para os catálogos que Samira havia lhe dado.
Eles não tinham sido guardados no baú.
Foram acomodados em cima da escrivaninha, organizados e prontos para serem levados.
Assim, quando voltasse da escola, bastaria trocar o conteúdo da mochila.
Nada de esquecer alguma coisa.
Nada de procurar material pela casa inteira.
Janis abriu uma das gavetas.
Pegou o livro que Helba havia lhe dado.
Frankenstein.
Passou os dedos pela capa.
Colocou o livro em cima da pilha. Ele seria lido na condução.
Janis olhou novamente para tudo.
Mochila pronta para a escola.
Materiais do Dois Tons esperando.
Livro separado para a viagem.
Tudo certo.
Fechou a gaveta.
Então ouviu a voz da avó:
— Janis! O jantar está pronto!
— Já vou, vó!
Janis olhou uma última vez para a escrivaninha.
Depois saiu do quarto.
***
Era domingo à noite.
Rute e Josué haviam acabado de jantar.
A casa estava silenciosa. Josué permanecia deitado no sofá, com a cabeça apoiada no colo dela, enquanto Rute passava os dedos devagar por seus cabelos.
Por alguns minutos, o mundo parecia ter ficado do lado de fora.
Até uma voz atravessar o portão.
— RUTE!
Ela levou um susto tão grande que quase derrubou Josué do sofá.
— Meu Deus!
Josué se sentou num salto.
A cor desapareceu de seu rosto.
— Não...
A voz veio novamente, agora mais próxima.
— Rute! Eu sei que você está aí!
Josué fechou os olhos.
— Ele voltou.
Rute não respondeu.
O coração batia depressa demais.
Por alguns segundos, ela permaneceu imóvel, como se pudesse impedir a presença do pai simplesmente não se aproximando do portão.
Não podia.
A voz de Moisés tornou a ecoar pelo quintal.
— Rute!
Ela respirou fundo.
Josué segurou sua mão.
— Você não precisa ir.
Rute apertou os dedos dele.
— Preciso.
Levantou-se.
Atravessou a sala e seguiu para o quintal.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Quando chegou ao portão, parou.
Do outro lado estava o pai.
Depois de alguns dias de ausência, Moisés havia voltado.
Rute percebeu então que ele não estava sozinho.
Um pouco mais afastado, Pastor Elias permanecia junto ao portão.
Não dizia nada.
Parecia tremendamente constrangido.
Moisés foi direto ao ponto:
— Onde está sua mãe?
Rute permaneceu em silêncio.
Alternou o olhar entre os dois homens.
A pergunta parecia simples.
Mas alguma coisa na maneira como o pai a fizera a deixou ainda mais inquieta.
— Rute!
Ela deu um pequeno salto.
— Eu...
Moisés se aproximou um passo.
— Você o quê?
Rute piscou algumas vezes.
— Eu não sei...
Moisés franziu a testa.
— Não sabe?
— Ela não foi viajar com o senhor?
Por um instante, ninguém respondeu.
Elias se adiantou antes que Moisés pudesse dizer qualquer coisa.
— Moisés...
O tom era baixo, mas firme.
— É melhor se acalmar.
Moisés virou o rosto para ele.
Elias sustentou o olhar.
— E pensar no que está fazendo.
O silêncio se prolongou.
Moisés parecia prestes a responder, mas se conteve.
Elias aproveitou a pausa.
— Vamos voltar para sua casa.
Apontou discretamente para a rua.
— Conversar. E decidir o que vamos fazer... sem precipitações.
Moisés permaneceu imóvel por alguns segundos.
Então desviou os olhos de Rute.
Elias esperou.
Por fim, Moisés deu um passo para trás.
Rute continuou junto ao portão, sem saber se podia respirar aliviada.
Elias ainda lançou a ela um olhar breve.
Não disse nada.
Mas, naquele momento, pareceu pedir desculpas sem encontrar palavras para isso.
Os dois começaram a se afastar.
Rute se afastou do portão devagar.
Só então percebeu que estava prendendo a respiração.
Miriam não pôde deixar de sentir alívio ao ver Rebeca zanzando pela casa, lamentando a própria sorte.
Quando chegara ali, a menina estava determinada a mostrar que, apesar de tudo o que havia acontecido com o pai, a dor da violência não a afetava.
Agora, porém, depois de algum tempo longe daquela atmosfera, parecia ter entendido uma coisa diferente.
Ela estava segura.
E, estando segura, não precisava fingir que nada doía.
No começo, Miriam pensou que aquilo fosse apenas uma maneira de chamar a atenção de Janis.
Afinal, a queda tinha acontecido justamente quando as duas estavam juntas.
Mas, depois que terminou o curativo, Miriam acomodou a sobrinha no sofá.
— Que tal vocês ficarem aqui, quietinhas? Assistindo a um bom filme.
Rebeca levantou os olhos.
— Quero pipoca.
— Está certo.
Miriam abriu um dos armários e pegou uma manta.
— Com manteiga — acrescentou Rebeca.
Miriam olhou para ela.
— Com manteiga.
Janis se aproximou devagar, desconfiada.
— Posso ficar aqui?
Rebeca olhou para ela.
Janis apontou para o ombro machucado.
— Agonizando junto com você?
Rebeca sorriu.
— Pode.
E assim as duas ficaram.
Janis sentada no sofá.
Rebeca deitada, com a cabeça apoiada no colo da namorada.
Miriam observou as duas por alguns segundos.
Vai passar...
Assim que Janis for embora, isso vai passar.
Mas não passou.
Rebeca continuou manhosa pelo resto da noite.
Deixou que Augusto cortasse o bife para ela.
Permitiu que Júnior lhe servisse o suco.
Aceitou a manta sem reclamar quando sentiu frio.
E, para Miriam, aquilo quase foi motivo para pular de alegria.
Porque, em tão pouco tempo, Rebeca havia aprendido uma coisa com a família Carvalho.
Ela merecia ser tratada com dignidade.
Merecia cuidado.
Merecia respeito.
E, pela primeira vez, parecia não ter medo de pedir essas coisas.
Miriam estava terminando de organizar a casa para o adormecer da família quando passou em frente ao quarto de Rebeca.
Parou.
A menina estava deitada de lado na cama.
O ombro ferido permanecia o mais longe possível do colchão.
Nas mãos, segurava o novo livro de Alice e observava atentamente as ilustrações, virando as páginas com cuidado para não precisar se apoiar sobre o braço machucado.
Miriam olhou para o relógio.
— Já passou da hora de dormir.
Rebeca ergueu os olhos por cima do livro.
Miriam entrou no quarto.
No caminho, pegou o skate que estava largado no meio do chão e o encostou na parede.
Depois recolheu alguns livros espalhados pelo quarto e os colocou sobre a escrivaninha.
Foi até o banheiro.
Voltou alguns segundos depois com o pequeno estojo da placa de bruxismo.
— Você esqueceu?
Rebeca olhou para o estojo.
Miriam apontou para ele.
— Ou está evitando usar sua placa na frente da Janis?
Rebeca fez uma careta.
Miriam sorriu.
— Tenho certeza de que a Janis não vai se importar com isso.
Rebeca hesitou.
Depois pegou a placa.
Colocou-a.
Miriam ajeitou a manta sobre ela.
— Boa noite.
Virou-se para sair.
— Tiaaaaaaaaa...
A voz saiu enrolada por causa da placa.
Miriam parou.
— O que foi?
Rebeca levantou um pouco o livro.
— Lê pra mim?
Miriam ficou olhando para ela.
— Como é?
Rebeca fez uma expressão extremamente séria.
— Eu estou sofrendo.
Miriam piscou.
— Está?
Rebeca assentiu solenemente.
— Muito.
Miriam olhou para o ombro enfaixado.
Depois para o livro.
Então voltou a olhar para a sobrinha.
— E a leitura faz parte do tratamento?
Rebeca pensou por um instante.
— Faz.
— Entendi.
Miriam sentou-se na beirada da cama.
— Então me dá esse livro.
Rebeca abriu um sorriso.
Entregou o livro à tia e se ajeitou melhor no travesseiro.
Miriam abriu na primeira página.
Rebeca fechou os olhos, satisfeita.
Miriam começou a ler.
E, antes mesmo de chegar ao fim da primeira página, percebeu que a menina já estava completamente acomodada.
Como se aquele lugar — aquela cama, aquele livro e alguém disposto a ficar ali mais alguns minutos — fosse exatamente onde ela deveria estar.
Como era um livro pop-up, a história de Alice estava adaptada para uma versão mais curta.
Miriam não demorou muito para chegar ao fim.
Fechou o livro parcialmente e olhou para a sobrinha.
Rebeca já estava sonolenta.
Os olhos mal permaneciam abertos.
Miriam sorriu.
— Pronto.
Esperou alguns segundos.
Então Rebeca murmurou:
— Lê outra vez...
Miriam soltou uma risada baixa.
— Você está abusando.
Rebeca abriu os olhos apenas o suficiente para encará-la.
— Por favooooooor...
Miriam balançou a cabeça.
— Está bem.
Abriu novamente o livro.
Dessa vez, leu mais devagar.
A voz ficou baixa e tranquila, acompanhando o silêncio da casa.
As páginas foram viradas uma a uma.
Antes mesmo de chegar à metade, Rebeca já lutava para manter os olhos abertos.
Piscava demoradamente.
Às vezes, parecia perder uma frase inteira.
Miriam continuou.
Quando chegou ao fim, a menina já dormia.
Miriam ficou alguns segundos em silêncio, olhando para ela.
Então fechou o livro com cuidado e o colocou sobre a mesa de cabeceira.
Ajeitou a manta.
Inclinou-se e beijou a testa da sobrinha.
— Boa noite, minha menina.
Levantou-se.
Apagou a luz.
E saiu do quarto, deixando a porta entreaberta antes de seguir para o próprio quarto.
***
Quando Janis chegou em casa, encontrou um baú no meio do quarto.
Parou na porta.
Olhou para o objeto.
Depois olhou para o corredor.
— Vó?
A voz de Maria Helena veio da sala.
— O que foi?
Janis apontou para o quarto.
— Tem um caixão dentro do meu quarto?
Houve alguns segundos de silêncio.
— Espero que não.
Maria Helena apareceu na porta.
Olhou para o baú.
— Ah...
Então pareceu entender.
— É isso.
Janis continuava olhando para o objeto.
— O que é?
— Uma das minhas amigas da igreja me deu.
Aproximou-se e abriu a tampa.
— É para você guardar os materiais de desenho que ganhou.
Janis olhou para dentro.
Depois para a avó.
Um sorriso apareceu em seu rosto.
— Sério?
— Sim.
Maria Helena apontou para o chão.
— Nada de deixar coisas espalhadas por aí.
Janis bateu continência.
— Sim, senhora!
Maria Helena meneou a cabeça.
— Quero seu quarto impecável.
— Entendido.
A avó voltou para a sala.
Janis fechou a porta.
Então começou a organizar tudo.
Os papéis foram acomodados primeiro.
Depois os pincéis, as tintas e os outros materiais que Samira havia colocado na mochila e na sacola de lona.
Janis parou por alguns segundos para examinar cada coisa antes de guardá-la.
As canetas, os marcadores e os lápis de cor, porém, ficaram de fora.
Esses foram para a gaveta da escrivaninha.
Quando terminou, Janis fechou o baú.
Olhou para o quarto.
Não havia mais materiais espalhados pelo chão.
Tudo estava no lugar.
Ela sorriu.
Então abriu a gaveta novamente.
Pegou um dos marcadores que Samira havia dado.
Ficou olhando para ele por alguns segundos.
E, sem perceber, começou a pensar na ida ao Dois Tons.
Então, Janis começou a organizar as coisas que precisaria usar no dia seguinte.
Primeiro, colocou os materiais da escola dentro da mochila.
Conferiu os cadernos.
Depois os livros.
Estojo.
Tudo no lugar.
Fechou o zíper.
Então olhou para os catálogos que Samira havia lhe dado.
Eles não tinham sido guardados no baú.
Foram acomodados em cima da escrivaninha, organizados e prontos para serem levados.
Assim, quando voltasse da escola, bastaria trocar o conteúdo da mochila.
Nada de esquecer alguma coisa.
Nada de procurar material pela casa inteira.
Janis abriu uma das gavetas.
Pegou o livro que Helba havia lhe dado.
Frankenstein.
Passou os dedos pela capa.
Colocou o livro em cima da pilha. Ele seria lido na condução.
Janis olhou novamente para tudo.
Mochila pronta para a escola.
Materiais do Dois Tons esperando.
Livro separado para a viagem.
Tudo certo.
Fechou a gaveta.
Então ouviu a voz da avó:
— Janis! O jantar está pronto!
— Já vou, vó!
Janis olhou uma última vez para a escrivaninha.
Depois saiu do quarto.
***
Era domingo à noite.
Rute e Josué haviam acabado de jantar.
A casa estava silenciosa. Josué permanecia deitado no sofá, com a cabeça apoiada no colo dela, enquanto Rute passava os dedos devagar por seus cabelos.
Por alguns minutos, o mundo parecia ter ficado do lado de fora.
Até uma voz atravessar o portão.
— RUTE!
Ela levou um susto tão grande que quase derrubou Josué do sofá.
— Meu Deus!
Josué se sentou num salto.
A cor desapareceu de seu rosto.
— Não...
A voz veio novamente, agora mais próxima.
— Rute! Eu sei que você está aí!
Josué fechou os olhos.
— Ele voltou.
Rute não respondeu.
O coração batia depressa demais.
Por alguns segundos, ela permaneceu imóvel, como se pudesse impedir a presença do pai simplesmente não se aproximando do portão.
Não podia.
A voz de Moisés tornou a ecoar pelo quintal.
— Rute!
Ela respirou fundo.
Josué segurou sua mão.
— Você não precisa ir.
Rute apertou os dedos dele.
— Preciso.
Levantou-se.
Atravessou a sala e seguiu para o quintal.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Quando chegou ao portão, parou.
Do outro lado estava o pai.
Depois de alguns dias de ausência, Moisés havia voltado.
Rute percebeu então que ele não estava sozinho.
Um pouco mais afastado, Pastor Elias permanecia junto ao portão.
Não dizia nada.
Parecia tremendamente constrangido.
Moisés foi direto ao ponto:
— Onde está sua mãe?
Rute permaneceu em silêncio.
Alternou o olhar entre os dois homens.
A pergunta parecia simples.
Mas alguma coisa na maneira como o pai a fizera a deixou ainda mais inquieta.
— Rute!
Ela deu um pequeno salto.
— Eu...
Moisés se aproximou um passo.
— Você o quê?
Rute piscou algumas vezes.
— Eu não sei...
Moisés franziu a testa.
— Não sabe?
— Ela não foi viajar com o senhor?
Por um instante, ninguém respondeu.
Elias se adiantou antes que Moisés pudesse dizer qualquer coisa.
— Moisés...
O tom era baixo, mas firme.
— É melhor se acalmar.
Moisés virou o rosto para ele.
Elias sustentou o olhar.
— E pensar no que está fazendo.
O silêncio se prolongou.
Moisés parecia prestes a responder, mas se conteve.
Elias aproveitou a pausa.
— Vamos voltar para sua casa.
Apontou discretamente para a rua.
— Conversar. E decidir o que vamos fazer... sem precipitações.
Moisés permaneceu imóvel por alguns segundos.
Então desviou os olhos de Rute.
Elias esperou.
Por fim, Moisés deu um passo para trás.
Rute continuou junto ao portão, sem saber se podia respirar aliviada.
Elias ainda lançou a ela um olhar breve.
Não disse nada.
Mas, naquele momento, pareceu pedir desculpas sem encontrar palavras para isso.
Os dois começaram a se afastar.
Rute se afastou do portão devagar.
Só então percebeu que estava prendendo a respiração.
Fim do capítulo

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