Capítulo 94 – Ocupadas demais.
Miriam retirou o bolo de limão do forno.
O cheiro se espalhou pela cozinha.
Ela deixou a forma sobre o fogão e começou a preparar a cobertura.
Enquanto misturava os ingredientes, ouviu passos atrás dela.
Augusto entrou na cozinha.
Olhou para o bolo.
Depois para Miriam.
Depois para o bolo novamente.
Estendeu a mão.
Miriam bateu nos dedos dele.
— Ai!
— Não se atreva.
Augusto assoprou a ponta dos dedos.
— Duvido muito que as meninas percebam que está faltando um pedacinho.
Miriam continuou preparando a cobertura.
— Eu não teria tanta certeza se fosse você.
Augusto olhou para o bolo.
Depois para a esposa.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
Miriam terminou a cobertura e espalhou cuidadosamente sobre o bolo.
Então tirou o avental.
Lavou as mãos.
Ajeitou os cabelos.
— Estou de saída.
Pegou a bolsa.
— Nada de ficar beliscando.
Augusto levantou as mãos em sinal de rendição.
— Está bem.
Miriam pegou as chaves do carro.
— E não mexa no bolo.
— Eu nem estava pensando nisso.
Ela olhou para ele.
Augusto sorriu.
— Tá bom. Talvez estivesse.
Miriam balançou a cabeça.
— Eu volto com as meninas.
Saiu da cozinha.
Pouco depois, o carro deixou a casa.
Miriam tinha um compromisso naquela tarde.
Buscar Rebeca e Janis na casa de dona Maria Helena.
Quando Miriam chegou à casa de dona Maria Helena, mal teve tempo de descer do carro.
Rebeca correu até ela e se jogou em seus braços.
Miriam a abraçou e deu um beijo em seus cabelos.
— Também senti sua falta — brincou.
Rebeca se afastou apenas o suficiente para olhar para ela.
— Tia, você não sabe o que aconteceu!
Miriam sorriu.
— Pelo jeito, não.
Rebeca começou a falar.
Contou sobre o metrô, os vendedores dentro do trem, a oficina de guache, Samira, os quadros, as livrarias e as lojas que havia visto no centro.
Falava rápido, misturando os acontecimentos e voltando a assuntos que já havia contado quando se lembrava de algum detalhe.
— Calma, Rebeca. Uma coisa de cada vez.
— Mas aconteceu muita coisa!
— Eu estou percebendo.
Foi então que Janis apareceu.
Apoiava uma das alças da mochila no ombro.
Miriam olhou para ela.
Depois para a mochila.
Estava cheia.
Janis percebeu o olhar e sorriu.
— Ah. Isso aqui?
Tirou a mochila do ombro, colocou-a no chão e abriu o zíper.
— A Samira deu um monte de coisa pra eu testar.
Miriam se abaixou um pouco para olhar.
Havia pincéis, papéis, pequenos potes de tinta, lápis e vários outros materiais cuidadosamente acomodados lá dentro.
— Tudo isso?
— Isso é só uma parte — disse Janis.
Rebeca se aproximou imediatamente.
— Tem mais!
— Muito mais. — respondeu Janis, rindo.
E então as duas começaram a falar ao mesmo tempo.
Miriam tentou acompanhar.
Soube da oficina, da correção que Samira havia feito no desenho de Janis, das diferentes maneiras de cada uma enxergar a pintura e dos livros que ela havia mostrado.
Depois veio a parte que fez Miriam prestar ainda mais atenção.
— E a Samira ofereceu um trabalho pra Janis! — contou Rebeca.
Janis tentou interrompê-la.
— Não foi exatamente assim...
— Foi sim.
— Ela disse que tinha uma vaga no ateliê — explicou Janis. — Meio período. Para ajudar com os alunos, receber as pessoas, cuidar dos materiais...
— E você perguntou quando começava. — completou Rebeca.
Janis deu um pequeno sorriso.
— Perguntei.
Janis deu um pequeno sorriso.
Miriam observou a menina por alguns segundos.
— E quando você começa?
O sorriso de Janis aumentou.
— Amanhã.
Por alguns instantes, ficaram as três ali, na calçada, conversando sobre coisas menores. Miriam fez algumas perguntas sobre a oficina, Janis respondeu com mais calma e Rebeca, de vez em quando, interrompia para acrescentar algum detalhe que considerava importante demais para ser esquecido.
Foi então que Ester apareceu.
Trazia a chave do carro em uma das mãos e uma pequena maleta na outra.
— Vou pegar a estrada.
Janis se virou.
— Já?
— Já. Vocês vão passar a tarde com a Miriam, então eu posso ir mais cedo para casa.
Ester apontou a chave do carro para as duas.
— Se comportem.
Rebeca abriu a boca para responder.
Ester levantou a chave novamente.
— As duas.
Rebeca fechou a boca.
Janis riu.
Ester se aproximou da filha e a abraçou.
— Tchau, mãe.
— Tchau, filha.
Depois se virou para Rebeca e também a abraçou.
— Tchau, tia Ester.
— Tchau, querida.
Ester se afastou, ajeitando a alça da bolsa.
— E nada de inventarem moda.
Rebeca fez uma expressão inocente.
— Eu?
Ester olhou para ela.
— Principalmente você.
Janis começou a rir.
Antes que Miriam pudesse dizer qualquer coisa, dona Maria Helena apareceu na porta.
E carregava coisas demais.
Em uma mão, dois potes.
Na outra, mais dois.
Havia ainda uma sacola pendurada no braço.
Miriam arregalou os olhos.
— Dona Maria Helena...
— Leva.
— Mas eu...
— Macarrão com almôndegas.
Maria Helena ergueu um dos potes.
— Carne assada.
Levantou outro.
— Salada de maionese.
Miriam já sabia o que viria a seguir.
Maria Helena sorriu.
— E pudim.
Rebeca abriu um sorriso.
— Pudim!
— Eu sabia que você ia gostar.
Miriam recebeu os potes, sem saber muito bem onde colocar tanta coisa.
— A senhora não precisava mandar tudo isso.
Maria Helena fez uma expressão de quem já estava cansada de ouvir aquilo.
— Quantas vezes vou ter que dizer que vocês duas já são de casa?
Miriam olhou para Rebeca.
Depois para Janis.
As duas estavam sorrindo.
Ela suspirou.
— Está bem.
Maria Helena entregou a última sacola.
— E leva logo antes que eu resolva colocar mais alguma coisa.
Miriam segurou a sacola com as duas mãos.
— Não duvido.
Miriam colocou os potes no porta-malas e entrou no carro.
Rebeca foi para o banco de trás com Janis, ainda falando sobre a oficina.
Miriam ligou o carro.
Por alguns minutos, ouviu as duas conversarem.
Então, lembrando-se de alguma coisa, olhou pelo retrovisor.
— Então... como foi mesmo essa história da oferta de emprego?
Janis sorriu.
— Ah...
E foi como se a pergunta tivesse aberto uma porta.
***
Todas as atividades que Samira propôs já haviam sido feitas.
Os trabalhos escolhidos pelos participantes estavam expostos no mural, lado a lado, e as pessoas começavam a se despedir.
Samira aproveitou o movimento para se aproximar discretamente de Helba.
— E então? O que achou?
Samira olhou na direção de Janis.
A garota estava guardando os materiais que havia recebido, junto com o desenho que fizera durante a oficina.
— A Janis é exatamente como você descreveu.
Helba sorriu de leve.
Samira olhou ao redor.
— Faça o possível para manter as duas aqui atrás. Vou despedir o resto do pessoal.
Helba assentiu.
Pouco depois, ela e Ester se aproximaram das meninas.
Rebeca e Janis estavam tentando acomodar dentro da mochila tudo o que haviam ganhado.
— E então? — perguntou Helba.
Rebeca ergueu os olhos.
— Foi divertido.
Helba sorriu.
— Melhor que o cinema?
Rebeca pensou por um instante.
— Não exagere.
Janis riu.
— Para mim... foi tão divertido quanto.
Fez uma pausa.
— Só faltou a pipoca.
Helba balançou a cabeça, divertida.
Samira, enquanto isso, conduzia os últimos participantes para fora do ateliê.
Despedidas, agradecimentos, alguns elogios aos trabalhos e a promessa de novos encontros.
Tudo feito com tanta delicadeza que ninguém parecia perceber que estava, na verdade, sendo discretamente colocado para fora.
Quando a porta finalmente se fechou, Samira voltou para os fundos.
Encontrou as meninas ainda perto da mesa.
— Pronto.
Olhou para as duas.
— Agora podemos conversar com mais calma.
Rebeca sorriu.
Janis ajeitou a mochila no colo.
Samira se apoiou na mesa.
— Fiquei muito satisfeita com a participação de vocês duas. Helba fez bem em inscrever vocês.
— Foi muito legal — disse Rebeca.
Janis assentiu.
— Eu sempre quis conhecer um ateliê.
Samira ergueu as sobrancelhas.
— Sério?
— Sim.
Janis olhou ao redor.
— Eu via os ateliês dos artistas na televisão e pensava que seria muito legal conhecer um. Mas não acreditava que fosse possível.
Samira ficou em silêncio por um instante.
Então, como quem comentava algo sem grande importância, disse:
— Bom... nós temos uma vaga aqui no ateliê.
Janis parou.
Samira continuou:
— Um trabalho de meio período.
Janis levantou os olhos.
Agora, sua atenção estava inteira ali.
— Precisamos de alguém para nos ajudar a atender os clientes, recepcionar os alunos, cuidar dos materiais...
Janis nem esperou que ela terminasse.
— Quando eu começo?
Samira não conseguiu segurar o sorriso.
— Vou acertar os detalhes com a sua mãe.
Janis sorriu.
Dessa vez, não tentou esconder o quanto estava feliz.
***
— Eu adoraria poder acelerar o relógio. Não vejo a hora de voltar ao Dois Tons.
Rebeca, sentada ao lado dela no banco de trás, cruzou os braços.
— Como é que é?
Janis congelou.
Olhou para Rebeca.
Depois para Miriam, pelo retrovisor.
— Não é que... Eu... Você sabe...
A expressão de Rebeca não mudou.
Janis tentou sorrir.
Não ajudou.
Miriam, que acompanhava tudo pelo espelho, deixou escapar um pequeno sorriso.
— Certo...
Resolveu poupar a garota.
— Mas voltando à conversa principal: você já conversou com o dono da padaria sobre mudar de emprego?
Janis quase suspirou de alívio.
— Na verdade... foi a minha mãe que teve uma conversa com ele.
***
A viagem de retorno foi muito mais barulhenta do que a primeira.
As duas meninas tinham muito a dizer sobre tudo o que haviam vivido nas últimas horas, e coube a Ester ouvir.
Mesmo contra a vontade.
— Socorro...
Nenhuma das duas pareceu se importar.
Janis estava encantada com a quantidade escandalosa de materiais que havia recebido de Samira.
A mulher explicara que boa parte daquilo eram cortesias dos fabricantes. Afinal, quanto mais o vendedor conhecesse os materiais, melhor seria sua capacidade de explicar e vendê-los.
Janis parecia estar levando aquela missão muito a sério.
A mochila abarrotada estava no chão, ao lado de uma grande sacola de lona. Um dos manuais permanecia aberto sobre seu colo.
Janis passou os olhos por uma das páginas.
— Caramba... Eu não sabia que alguns papéis eram feitos de algodão.
Ester olhou rapidamente para ela.
Depois voltou a olhar para a frente.
— Você vai ler tudo isso?
— Vou.
— Tudo?
— Claro.
Rebeca riu.
— Ela está estudando.
— Eu estou vendo.
Janis virou mais uma página.
— Aqui fala da diferença entre os tipos de papel, da absorção, da textura...
Ester soltou um suspiro.
— Misericórdia...
Dessa vez, Rebeca ouviu.
— O quê?
— Nada.
Ao lado de Janis, Rebeca examinava com atenção os livros que havia comprado.
Ester e Janis tinham prometido que passariam nas livrarias antes de voltarem para casa, e Rebeca, naturalmente, cobrara a promessa.
Naquela parte do Centro, porém, as livrarias eram diferentes das que ela conhecia.
Os livros nem sempre eram novos.
Alguns pareciam ter passado por muitas mãos.
Mas eram raros.
Muito raros.
Rebeca havia se encantado com vários deles.
Principalmente com um exemplar de Alice no País das Maravilhas em versão pop-up.
Ela o segurava com todo o cuidado, virando as páginas devagar.
Cada ilustração parecia saltar para fora do livro quando a página era aberta.
Rebeca inclinou o exemplar na direção da janela, observando os recortes e as pequenas estruturas de papel.
— Olha isso...
Janis levantou os olhos do manual.
— Bonito, né?
— É.
Rebeca abriu outra página.
Uma nova cena surgiu diante dela.
Seus olhos se iluminaram.
— Eu nunca vi um livro assim.
Se Ester não estivesse com elas, provavelmente as duas teriam perdido a estação em que precisavam descer.
E, considerando a facilidade com que haviam se encantado com tudo pelo caminho, era bastante provável que também tivessem pegado o ônibus errado.
Com Ester, porém, chegaram ao destino sem maiores problemas.
A viagem de volta para casa seguia tranquila.
Até Janis avistar a padaria.
Ela ficou em silêncio por um instante.
Então soltou um palavrão.
— Janis!
A menina olhou para a mãe.
— Eu já tenho um emprego.
Ester ergueu uma sobrancelha.
— Que bom que você finalmente se lembrou disso.
Janis olhou para a padaria.
Depois para Ester.
Então para Rebeca.
— O que eu faço?
Rebeca abriu a boca.
Parecia prestes a responder.
Mas se calou.
Talvez porque, naquele momento, qualquer resposta que envolvesse a palavra “torta” não fosse exatamente útil.
Ester suspirou.
— Deixe comigo. É melhor vocês irem para casa.
Antes que Janis pudesse perguntar qualquer coisa, Ester atravessou a rua.
Janis ficou olhando para ela.
— Eu nunca mais vou poder entrar aí.
Apontou para a padaria com a cabeça.
Rebeca acompanhou o olhar.
— Que pena.
Janis olhou para ela.
— A torta de morango deles é maravilhosa — completou Rebeca.
Janis assentiu, resignada.
— E o pão também.
Ester entrou na padaria.
O movimento estava tranquilo naquela hora.
Ela se aproximou do balcão.
— Um café, por favor.
O atendente serviu a bebida.
Ester tomou um pequeno gole antes de perguntar:
— O Tião está aí?
O rapaz olhou para os fundos.
Não respondeu.
Apenas gritou:
— Tiiiiião!
Alguns segundos depois, um homem apareceu.
Parou atrás do balcão e olhou para Ester com certa desconfiança.
— Posso ajudar em alguma coisa?
Ester colocou a xícara sobre o balcão.
— Meu nome é Ester. Sou mãe da Janis.
Tião pareceu entender imediatamente que aquela conversa não era sobre café.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Na verdade, aconteceu uma coisa boa.
Ester tomou outro gole.
— Apareceu uma oportunidade de emprego para ela.
Tião ficou em silêncio.
— Um trabalho de meio período, em um ateliê de arte.
A expressão dele mudou.
— Ah...
Ester continuou:
— É uma oportunidade melhor para a Janis. Tem mais a ver com o que ela gosta e com o que pretende fazer.
Tião abaixou os olhos.
Por um instante, pareceu genuinamente abatido.
— Ninguém gosta de trabalhar em padaria.
Ester franziu a testa.
— Não se engane. Janis gosta daqui.
Tião levantou os olhos para ela, como se não acreditasse.
— Gosta?
— Gosta.
Ester deu mais um gole no café.
— O problema é que o ateliê combina mais com ela.
Tião olhou para a porta.
Lá fora, através do vidro, Janis estava parada na calçada.
Rebeca estava ao lado dela.
As duas esperavam.
Tião soltou um suspiro.
— Eu sabia que um dia ela ia querer sair.
Ester sorriu de leve.
— Ela ainda é jovem. É normal querer experimentar outras coisas.
— E esse trabalho é mesmo melhor?
— Para ela, acredito que sim.
Tião ficou alguns segundos em silêncio.
Parecia procurar algum argumento para fazê-la mudar de ideia.
Não encontrou.
Por fim, assentiu.
— Está bem.
Ester esperou.
— Peça para ela passar aqui na próxima sexta-feira. A gente acerta os dias que ela trabalhou e o que ficou pendente.
— Vou pedir.
Tião fez uma pequena careta.
— Vou sentir falta daquela menina.
Ester sorriu.
— Eu sei.
Terminou o café.
— Obrigada, Tião.
Ela deixou a xícara sobre o balcão e caminhou até a porta.
***
— Fico muito feliz por você.
Janis abriu um sorriso largo.
Um daqueles sorrisos que Miriam começava a apreciar.
Ela olhou para a menina por alguns segundos, antes de voltar os olhos para o banco de trás.
Rebeca continuava bicuda.
Miriam conhecia aquela expressão.
Pensou por um instante.
Então perguntou:
— E o que foi feito daqueles livros maravilhosos que você mencionou?
A mudança foi imediata.
Rebeca descruzou os braços.
— Ah!
Miriam mal teve tempo de terminar a frase.
A mochila, que havia sido largada no assoalho do carro, foi puxada para o colo da menina.
Rebeca abriu o zíper e começou a tirar os livros, um por um.
— Olha esse!
Ergueu o primeiro.
— Esse é antigo. E olha a edição!
Tirou outro.
— Esse aqui eu nunca tinha visto!
Mais um.
— E esse...
Janis riu.
— Você vai mostrar todos?
— Claro.
Miriam olhou pelo retrovisor.
Rebeca já havia esquecido completamente que estava emburrada.
Agora explicava cada uma das aquisições com o mesmo entusiasmo com que, minutos antes, havia contado sobre a oficina.
Miriam sorriu.
Aquilo a fez se lembrar do telefonema de sábado à noite.
***
Ester, Janis e Rebeca chegaram à casa de dona Maria Helena naquela noite.
No quarto de Janis, já estavam separadas as toalhas e as roupas que cada uma usaria depois do banho.
Maria Helena apareceu na porta.
— Ninguém vai jantar sem tomar banho.
As duas levaram a ordem muito a sério.
Rebeca foi primeiro.
Quando voltou para o quarto, com os cabelos ainda úmidos, Janis entrou no banheiro.
Rebeca sentou-se na cama e pegou o celular.
Discou para Miriam.
A tia atendeu pouco depois.
— Oi, minha menina.
— Tia!
E Miriam mal teve tempo de dizer qualquer outra coisa.
Rebeca começou a contar.
Tudo fora de ordem.
Uma novidade atropelava a outra, e Miriam simplesmente ouvia.
De vez em quando, conseguia encaixar uma pergunta.
— Espera. O que aconteceu primeiro?
E Rebeca continuava.
Mesmo assim, havia valor demais em cada uma daquelas pequenas novidades para Miriam se incomodar com a falta de ordem.
Aos poucos, a voz de Rebeca foi diminuindo.
O entusiasmo continuava ali, mas já não vinha em disparada.
Quando começou a falar sobre os livros que havia comprado, parecia finalmente ter encontrado um assunto que conseguia contar com mais calma.
— Tia, a senhora tinha que ver esse livro.
Miriam sorriu do outro lado da linha.
— É mesmo?
— É! E tem um da Alice que...
Rebeca parou por um instante, procurando a melhor maneira de explicar.
— A senhora vai adorar.
Miriam fechou os olhos por um segundo.
— Tenho certeza que sim.
Rebeca sorriu.
Antes que pudesse responder, uma voz veio da cozinha:
— Rebeca! Jantar!
Ela olhou para a porta.
— Tenho que ir.
— Está bem. A gente conversa mais amanhã.
— Tá.
Rebeca não desligou.
Esperou.
Miriam também não.
Passaram-se alguns segundos.
Então:
— Tia...
— O quê?
Rebeca hesitou.
— Te amo.
Do outro lado da linha, Miriam ficou em silêncio.
Precisou de um minuto para se recompor.
Quando finalmente conseguiu falar, sua voz estava mais baixa.
— Também te amo, minha menina.
***
Miriam voltou a olhar para a sobrinha pelo retrovisor.
— Vamos ter que marcar um dia para visitarmos juntas as livrarias que você conheceu.
Rebeca abriu um sorriso.
— Vai ser maravilhoso.
Janis riu.
— Leve seu cartão de crédito e um carrinho de pedreiro.
Miriam olhou para ela pelo espelho.
— Um carrinho de pedreiro?
— A Rebeca vai comprar tanta coisa que vai ser impossível transportar tudo em sacola.
Rebeca debochou.
Mostrou a língua para Janis.
— A Lara me entende.
Janis revirou os olhos.
— Pronto... começou.
— Você está com ciúmes da Lara.
— Não estou, não!
— Está sim.
Rebeca se ajeitou no banco, satisfeita consigo mesma.
— Você não gostou de saber que nós duas temos muita coisa em comum.
Janis resmungou alguma coisa incompreensível e virou o rosto para a janela.
Miriam olhou de uma para outra.
— Perdi alguma coisa?
Rebeca sorriu.
— Perdeu.
E começou a contar.
***
Quando Rebeca chegou à cozinha, Lara também estava lá.
— Oi.
— Oi — respondeu Lara.
Janis apareceu logo atrás.
— Essa aí parece um cachorro de aeroporto. Sentiu cheiro de livros recém-comprados e veio xeretar.
Lara olhou para ela.
— Eu ouvi isso.
— Era para ouvir mesmo.
Rebeca segurou o riso.
— Depois eu mostro.
Lara assentiu.
— Tá.
Maria Helena, que terminava de colocar os pratos sobre a mesa, apontou para as cadeiras.
— Primeiro, jantar.
E não houve discussão.
As duas sentaram-se.
O jantar foi animado, principalmente porque Rebeca ainda tinha muitas coisas para contar. Lara fazia perguntas, Janis acrescentava detalhes e, de vez em quando, Ester tentava acompanhar aquela conversa que parecia ter começado antes mesmo de chegarem à mesa.
Depois do jantar, Maria Helena não permitiu que nenhuma das duas desaparecesse.
— As três limpam a cozinha.
Rebeca arregalou os olhos.
— Mas...
— Sem, mas.
Janis riu.
— Anda.
As três ajudaram a arrumar a cozinha, guardando os pratos, limpando a mesa e colocando cada coisa no lugar.
Só depois foram liberadas para a sala.
Rebeca correu até a mochila.
Sentou-se no tapete e começou a tirar os livros.
Lara se acomodou no sofá.
Rebeca ergueu o primeiro.
Lara inclinou a cabeça para conseguir ver a capa.
— Esse eu já li.
Rebeca arregalou os olhos.
— Você já leu?
— Li.
Rebeca abriu o livro, curiosa.
— E esse?
Lara olhou.
— Esse também.
— Sério?
— Sim.
Rebeca colocou os dois lado a lado.
— Eu não acredito.
— Tem mais?
— Tem.
E havia.
A cada livro que Rebeca mostrava, Lara examinava a capa com calma e, vez ou outra, dizia que já conhecia aquele título.
Quando não havia lido, queria saber por que Rebeca havia escolhido justamente aquele.
Em poucos minutos, as duas estavam completamente envolvidas na conversa.
Falavam sobre histórias, personagens, edições e finais.
Rebeca queria saber o que Lara tinha achado de determinados livros.
Lara queria saber quais Rebeca pretendia ler primeiro.
Janis observava as duas.
No começo, não disse nada.
Depois cruzou os braços.
Rebeca mostrou outro livro.
— E esse?
— Esse eu tenho.
Janis respirou fundo.
As duas continuaram conversando.
Rebeca riu de alguma coisa que Lara disse.
Lara respondeu.
E, sem perceber, as duas haviam deixado Janis completamente de lado.
Janis olhou para uma.
Depois para a outra.
— Vocês terminaram?
Nenhuma respondeu.
Janis levantou uma sobrancelha.
— Ótimo.
Pegou uma almofada e se recostou no sofá.
— Vou ficar aqui mesmo. Invisível.
Rebeca finalmente olhou para ela.
— O quê?
— Nada.
— Você está estranha.
— Não estou.
Lara olhou para Janis.
Depois para Rebeca.
E começou a sorrir.
Janis percebeu.
— Não começa você também.
Sem que Rebeca percebesse, a conversa entre ela e Lara se estendeu.
Quando a novela finalmente terminou, veio a sentença de dona Maria Helena:
— Para a cama. Está tarde.
Janis se levantou.
— Tchau, Lara.
Ester olhou para a filha.
— Boa tentativa.
Janis parou.
— O quê?
— Está tarde demais para sua prima ir para casa.
Janis piscou.
— O quê?
— Vamos ter que dividir o quarto.
Janis pensou por um instante.
Então apontou para si mesma, para Rebeca e para Ester.
— Ótimo! Nós três ficamos no meu quarto.
Depois apontou para Lara.
— E a Lara divide o quarto com a vovó.
— Janis...
Lara cruzou os braços, com um sorriso provocativo.
— Por que eu não posso dormir no seu quarto?
Janis respondeu imediatamente:
— Porque eu não quero.
Rebeca olhava de uma para a outra.
Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo.
Ester, porém, não deixou passar.
— O mundo não gira em torno do seu umbigo, não. Nós quatro ficaremos no quarto e fim de conversa.
— Mas...
— Se reclamar...
Ester fez uma pequena pausa.
Janis ficou em silêncio.
— ...a Rebeca vai dormir com a sua avó.
As quatro se acomodaram.
Janis e Rebeca dividiram a cama.
No chão, ao lado dela, Ester e Lara se ajeitaram no colchão que dona Maria Helena havia deixado preparado.
Por algum tempo, ninguém disse nada.
O quarto ficou em silêncio.
Até Lara resolver que o silêncio estava durando demais.
— As meninas da sua igreja casam cedo, não é, Rebeca?
Rebeca ficou um instante em silêncio.
Já havia percebido o tom da pergunta.
— Algumas, sim.
Lara sorriu no escuro.
— E nenhum garoto quis casar com você?
Janis se moveu na cama com uma velocidade que faria qualquer ninja reconsiderar a própria profissão.
Alcançou um dos tênis no chão e o arremessou.
Acertou Lara em cheio.
— Ei!
Lara começou a rir.
Pegou o tênis.
Por um instante, pareceu considerar devolvê-lo para Janis.
Mas então olhou para Rebeca.
Um sorriso malicioso apareceu em seu rosto.
E o tênis voou novamente.
— Ai!
Rebeca levou a mão à cabeça.
— Lara!
Janis ficou indignada.
— Por que você jogou nela?!
Lara tentou conter o riso.
— Assim é mais divertido.
— Já chega!
Ester se levantou.
Recolheu o travesseiro e o cobertor do colchão.
— Eu passo a semana inteira aturando crianças malcriadas. No final de semana eu quero paz.
E saiu porta afora.
As três ficaram em silêncio.
Janis olhou para Lara.
— Eu vou matar você.
Lara levantou as duas mãos.
— Trégua.
Janis ainda lançou um olhar desconfiado para ela, mas voltou a se deitar.
Dessa vez, porém, se colocou entre Rebeca e Lara.
As três permaneceram em silêncio por algum tempo.
Até Lara falar novamente:
— Se algum garoto tivesse te pedido em casamento... teria feito diferença?
Rebeca sentiu o corpo de Janis enrijecer ao seu lado.
Ela se apressou em responder:
— É claro que não.
Virou-se um pouco para Janis.
— A Janis é tudo para mim.
O quarto ficou em silêncio.
Aos poucos, Rebeca sentiu a tensão no corpo de Janis diminuir.
Lara permaneceu quieta por alguns segundos.
— Bom saber...
Fez uma pausa.
— Eu odiaria que alguém magoasse a Janis.
***
Rebeca contou isso a Miriam enquanto o carro seguia pela rua.
Encontrou o olhar da tia pelo retrovisor.
— Quando acordamos, a Lara não estava mais lá.
Janis resmungou:
— Graças a Deus.
Rebeca sorriu.
— Foi um momento estranhamente romântico.
Miriam sorriu de leve.
— Foi?
Rebeca assentiu.
Então, sem pensar muito no que estava dizendo, acrescentou:
— Janis e eu nos beijamos depois disso.
Miriam ergueu as sobrancelhas.
— É mesmo?
Rebeca ficou vermelha.
Da raiz dos cabelos até o pescoço.
— Mas não foi nada demais...
Janis fechou os olhos.
— Rebeca...
— Quero dizer... não foi como aqueles beijos dos filmes, sabe? Foi algo bem inocente e comportado.
Janis cobriu o rosto com as mãos.
Rebeca continuou:
— A gente se beijou, mas foi um beijo carinhoso. Só carinhoso! Sem nada além de carinho.
Miriam não disse nada.
Rebeca começou a se atrapalhar.
— Porque... carinho a gente já tem idade para ter. Além disso, a Lara estava lá... e não dava para fazer nada com ela por perto...
Parou.
Percebeu o que acabara de dizer.
— Quer dizer... a gente não faria nada mesmo que ela não estivesse lá.
Janis afundou ainda mais o rosto nas mãos.
— Porque Janis e eu nos comportamos muito bem.
Miriam continuou olhando para a sobrinha pelo retrovisor.
Não parecia saber o que dizer.
Rebeca percebeu o silêncio.
— Tia...
Miriam abriu a boca.
Mas Janis foi mais rápida:
— Já chega, Esquilinho.
Rebeca olhou para ela.
Janis finalmente tirou as mãos do rosto.
— Você já nos levou para o banco dos réus. Não precisa nos empurrar para a cadeira elétrica.
Parecia que a situação não poderia ficar mais constrangedora do que estava.
Mas a vida tinha um jeito terrível de surpreender.
Miriam tentou manter a expressão séria.
Não conseguiu.
Um sorriso apareceu primeiro.
Depois outro.
E, quando percebeu, estava rindo.
Tentou conter o riso, levando uma das mãos à boca.
Foi inútil.
Quanto mais tentava se controlar, mais ria.
Janis abaixou as mãos e olhou para Miriam, incrédula.
— Fala sério, Esquilinho.
Rebeca se encolheu no banco.
— Eu não fiz por mal.
Miriam continuava rindo.
Janis balançou a cabeça.
— O pior é que eu acredito.
Rebeca fez uma pequena careta.
— Eu me deixei levar pela empolgação.
Janis soltou um suspiro.
— Da próxima vez, deixa que eu conto as novidades.
Rebeca ficou em silêncio por um instante.
— Tá.
Janis olhou para ela.
— Promete?
— Prometo.
Miriam só conseguiu se acalmar quando as três chegaram em casa.
Foram direto para a cozinha, onde o lanche que ela havia preparado já estava esperando.
Augusto terminava de colocar a mesa.
— Chegaram!
Rebeca sorriu.
— Oi, tio.
Sentaram-se.
Foi um momento tranquilo.
Dessa vez, Rebeca parecia ter aprendido alguma coisa com a experiência recente.
Falou apenas o indispensável.
Contou sobre os livros.
Mas, não mencionou o beijo.
E, principalmente, não deu detalhes desnecessários sobre absolutamente nada.
Miriam percebeu.
Augusto, não.
Quando terminaram de comer, Rebeca levantou-se rapidamente.
— Já volto.
Subiu para o quarto.
Trocou de roupa, colocando uma camiseta regata e um shorts.
Depois vestiu o equipamento de proteção.
Pegou o skate e desceu.
Janis já a esperava.
As duas seguiram para a pista do condomínio.
Rebeca começou a andar de um lado para o outro, tentando algumas manobras.
Janis sentou-se no chão.
Ao lado dela, estava a mochila.
Tirou um dos materiais que Samira havia dado e voltou a estudar o manual.
Rebeca passou por ela.
— Olha!
Janis levantou os olhos.
— Eu estou olhando.
Rebeca tentou uma manobra.
Quase conseguiu.
— Cuidado, Esquilinho.
— Eu estou tendo cuidado.
Janis voltou ao manual.
Poucos minutos depois, Rebeca tentou outra.
— Rebeca...
— Eu sei.
Janis ergueu os olhos.
— Sabe mesmo?
— Sei.
Ela voltou a andar.
Janis suspirou.
Continuou lendo.
De vez em quando, levantava os olhos para conferir o que Rebeca estava fazendo.
Sempre que a menina tentava alguma coisa mais arriscada, vinha uma advertência.
— Essa foi muito alta.
— Eu consegui.
— Quase caiu.
— Mas não caí.
— Por pouco.
Rebeca mostrou a língua.
Janis revirou os olhos e voltou aos materiais.
Com o passar do tempo, porém, foi ficando cada vez mais concentrada naquilo que tinha recebido.
Leu uma página.
Depois outra.
Comparou dois tipos de papel.
Abriu um pequeno estojo.
Examinou os pincéis.
Fez algumas anotações.
Rebeca continuava na pista.
Janis ainda levantava os olhos de vez em quando.
Até que, em algum momento, deixou de fazê-lo.
Estava completamente distraída.
Então ouviu o baque.
Janis levantou a cabeça imediatamente.
O manual caiu no chão.
— Esquilinho!
As partes protegidas pelo equipamento haviam ficado ilesas.
O ombro, porém, estava exposto.
E havia pago o preço.
A pele estava bastante ferida, vermelha e cheia de pequenas escoriações.
— Meu Deus, Rebeca!
Janis levantou-se num salto.
Olhou ao redor, como se esperasse encontrar um kit de primeiros socorros escondido em algum canto da pista.
Rebeca sentou-se no chão.
— Eu tô bem!
Mas não parecia.
Estava pálida.
Os lábios haviam perdido completamente a cor.
Janis se ajoelhou diante dela.
— Vem.
Recolheu o skate, o manual, os materiais e a mochila com rapidez.
Depois ajudou Rebeca a se levantar.
— A tia Miriam precisa ver isso.
— Mas eu tô bem.
— Eu sei.
Janis passou um braço pela cintura dela.
— Mesmo assim, ela precisa ver.
Rebeca caminhava sem dificuldade.
Aos poucos, Janis sentiu o próprio coração voltar ao ritmo normal.
Ela ainda olhava para o ombro machucado de vez em quando.
Mas Rebeca estava andando.
Estava falando.
Não estava reclamando.
Então, provavelmente, estava mesmo bem.
Quando chegaram à casa, Janis abriu a porta.
Rebeca entrou primeiro.
E então um grito preencheu o ambiente:
— Mãeeeeeeeeeeeeeeeeee!
Janis parou.
Olhou para Rebeca, assustada.
— Oi?
Miriam materializou-se no corredor com uma rapidez absurda.
— O que aconteceu?
Rebeca tentou responder.
— Eu... eu...
A voz falhou.
Os olhos se encheram de lágrimas.
— Eu caí.
Miriam viu o ombro.
Por um instante, mordeu os lábios.
— Oh, meu amor...
Aproximou-se dela e segurou sua mão.
— Venha comigo.
Levou Rebeca até a cozinha.
Janis permaneceu parada por alguns segundos, ainda tentando organizar os pensamentos.
Então foi atrás delas.
Encontrou Rebeca sentada em uma cadeira, mordendo um pedaço de gaze entre os dentes para não gritar.
Miriam estava diante dela, concentrada no ferimento.
— Vai arder um pouquinho — avisou.
Janis ficou olhando.
Ainda não entendia muito bem o que acabara de presenciar.
Augusto se aproximou devagar.
Percebeu a expressão da menina e perguntou, em voz baixa:
— Você está bem?
Janis piscou algumas vezes.
— Eu não sei...
Olhou novamente para a cozinha.
Miriam continuava cuidando do ombro de Rebeca.
Então Janis voltou-se para Augusto.
— A Rebeca chamou a tia Miriam de mãe?
Augusto deu um pequeno sorriso.
— Acho que sim.
Janis ficou em silêncio.
— E... por que nenhuma das duas parece ter percebido isso?
Augusto olhou para as duas.
Miriam dizia alguma coisa para Rebeca, que respondia entre uma lágrima e outra.
Ele voltou a olhar para Janis.
— Elas estão ocupadas demais sendo mãe e filha para perceber isso.
Miriam retirou o bolo de limão do forno.
O cheiro se espalhou pela cozinha.
Ela deixou a forma sobre o fogão e começou a preparar a cobertura.
Enquanto misturava os ingredientes, ouviu passos atrás dela.
Augusto entrou na cozinha.
Olhou para o bolo.
Depois para Miriam.
Depois para o bolo novamente.
Estendeu a mão.
Miriam bateu nos dedos dele.
— Ai!
— Não se atreva.
Augusto assoprou a ponta dos dedos.
— Duvido muito que as meninas percebam que está faltando um pedacinho.
Miriam continuou preparando a cobertura.
— Eu não teria tanta certeza se fosse você.
Augusto olhou para o bolo.
Depois para a esposa.
Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.
Miriam terminou a cobertura e espalhou cuidadosamente sobre o bolo.
Então tirou o avental.
Lavou as mãos.
Ajeitou os cabelos.
— Estou de saída.
Pegou a bolsa.
— Nada de ficar beliscando.
Augusto levantou as mãos em sinal de rendição.
— Está bem.
Miriam pegou as chaves do carro.
— E não mexa no bolo.
— Eu nem estava pensando nisso.
Ela olhou para ele.
Augusto sorriu.
— Tá bom. Talvez estivesse.
Miriam balançou a cabeça.
— Eu volto com as meninas.
Saiu da cozinha.
Pouco depois, o carro deixou a casa.
Miriam tinha um compromisso naquela tarde.
Buscar Rebeca e Janis na casa de dona Maria Helena.
Quando Miriam chegou à casa de dona Maria Helena, mal teve tempo de descer do carro.
Rebeca correu até ela e se jogou em seus braços.
Miriam a abraçou e deu um beijo em seus cabelos.
— Também senti sua falta — brincou.
Rebeca se afastou apenas o suficiente para olhar para ela.
— Tia, você não sabe o que aconteceu!
Miriam sorriu.
— Pelo jeito, não.
Rebeca começou a falar.
Contou sobre o metrô, os vendedores dentro do trem, a oficina de guache, Samira, os quadros, as livrarias e as lojas que havia visto no centro.
Falava rápido, misturando os acontecimentos e voltando a assuntos que já havia contado quando se lembrava de algum detalhe.
— Calma, Rebeca. Uma coisa de cada vez.
— Mas aconteceu muita coisa!
— Eu estou percebendo.
Foi então que Janis apareceu.
Apoiava uma das alças da mochila no ombro.
Miriam olhou para ela.
Depois para a mochila.
Estava cheia.
Janis percebeu o olhar e sorriu.
— Ah. Isso aqui?
Tirou a mochila do ombro, colocou-a no chão e abriu o zíper.
— A Samira deu um monte de coisa pra eu testar.
Miriam se abaixou um pouco para olhar.
Havia pincéis, papéis, pequenos potes de tinta, lápis e vários outros materiais cuidadosamente acomodados lá dentro.
— Tudo isso?
— Isso é só uma parte — disse Janis.
Rebeca se aproximou imediatamente.
— Tem mais!
— Muito mais. — respondeu Janis, rindo.
E então as duas começaram a falar ao mesmo tempo.
Miriam tentou acompanhar.
Soube da oficina, da correção que Samira havia feito no desenho de Janis, das diferentes maneiras de cada uma enxergar a pintura e dos livros que ela havia mostrado.
Depois veio a parte que fez Miriam prestar ainda mais atenção.
— E a Samira ofereceu um trabalho pra Janis! — contou Rebeca.
Janis tentou interrompê-la.
— Não foi exatamente assim...
— Foi sim.
— Ela disse que tinha uma vaga no ateliê — explicou Janis. — Meio período. Para ajudar com os alunos, receber as pessoas, cuidar dos materiais...
— E você perguntou quando começava. — completou Rebeca.
Janis deu um pequeno sorriso.
— Perguntei.
Janis deu um pequeno sorriso.
Miriam observou a menina por alguns segundos.
— E quando você começa?
O sorriso de Janis aumentou.
— Amanhã.
Por alguns instantes, ficaram as três ali, na calçada, conversando sobre coisas menores. Miriam fez algumas perguntas sobre a oficina, Janis respondeu com mais calma e Rebeca, de vez em quando, interrompia para acrescentar algum detalhe que considerava importante demais para ser esquecido.
Foi então que Ester apareceu.
Trazia a chave do carro em uma das mãos e uma pequena maleta na outra.
— Vou pegar a estrada.
Janis se virou.
— Já?
— Já. Vocês vão passar a tarde com a Miriam, então eu posso ir mais cedo para casa.
Ester apontou a chave do carro para as duas.
— Se comportem.
Rebeca abriu a boca para responder.
Ester levantou a chave novamente.
— As duas.
Rebeca fechou a boca.
Janis riu.
Ester se aproximou da filha e a abraçou.
— Tchau, mãe.
— Tchau, filha.
Depois se virou para Rebeca e também a abraçou.
— Tchau, tia Ester.
— Tchau, querida.
Ester se afastou, ajeitando a alça da bolsa.
— E nada de inventarem moda.
Rebeca fez uma expressão inocente.
— Eu?
Ester olhou para ela.
— Principalmente você.
Janis começou a rir.
Antes que Miriam pudesse dizer qualquer coisa, dona Maria Helena apareceu na porta.
E carregava coisas demais.
Em uma mão, dois potes.
Na outra, mais dois.
Havia ainda uma sacola pendurada no braço.
Miriam arregalou os olhos.
— Dona Maria Helena...
— Leva.
— Mas eu...
— Macarrão com almôndegas.
Maria Helena ergueu um dos potes.
— Carne assada.
Levantou outro.
— Salada de maionese.
Miriam já sabia o que viria a seguir.
Maria Helena sorriu.
— E pudim.
Rebeca abriu um sorriso.
— Pudim!
— Eu sabia que você ia gostar.
Miriam recebeu os potes, sem saber muito bem onde colocar tanta coisa.
— A senhora não precisava mandar tudo isso.
Maria Helena fez uma expressão de quem já estava cansada de ouvir aquilo.
— Quantas vezes vou ter que dizer que vocês duas já são de casa?
Miriam olhou para Rebeca.
Depois para Janis.
As duas estavam sorrindo.
Ela suspirou.
— Está bem.
Maria Helena entregou a última sacola.
— E leva logo antes que eu resolva colocar mais alguma coisa.
Miriam segurou a sacola com as duas mãos.
— Não duvido.
Miriam colocou os potes no porta-malas e entrou no carro.
Rebeca foi para o banco de trás com Janis, ainda falando sobre a oficina.
Miriam ligou o carro.
Por alguns minutos, ouviu as duas conversarem.
Então, lembrando-se de alguma coisa, olhou pelo retrovisor.
— Então... como foi mesmo essa história da oferta de emprego?
Janis sorriu.
— Ah...
E foi como se a pergunta tivesse aberto uma porta.
***
Todas as atividades que Samira propôs já haviam sido feitas.
Os trabalhos escolhidos pelos participantes estavam expostos no mural, lado a lado, e as pessoas começavam a se despedir.
Samira aproveitou o movimento para se aproximar discretamente de Helba.
— E então? O que achou?
Samira olhou na direção de Janis.
A garota estava guardando os materiais que havia recebido, junto com o desenho que fizera durante a oficina.
— A Janis é exatamente como você descreveu.
Helba sorriu de leve.
Samira olhou ao redor.
— Faça o possível para manter as duas aqui atrás. Vou despedir o resto do pessoal.
Helba assentiu.
Pouco depois, ela e Ester se aproximaram das meninas.
Rebeca e Janis estavam tentando acomodar dentro da mochila tudo o que haviam ganhado.
— E então? — perguntou Helba.
Rebeca ergueu os olhos.
— Foi divertido.
Helba sorriu.
— Melhor que o cinema?
Rebeca pensou por um instante.
— Não exagere.
Janis riu.
— Para mim... foi tão divertido quanto.
Fez uma pausa.
— Só faltou a pipoca.
Helba balançou a cabeça, divertida.
Samira, enquanto isso, conduzia os últimos participantes para fora do ateliê.
Despedidas, agradecimentos, alguns elogios aos trabalhos e a promessa de novos encontros.
Tudo feito com tanta delicadeza que ninguém parecia perceber que estava, na verdade, sendo discretamente colocado para fora.
Quando a porta finalmente se fechou, Samira voltou para os fundos.
Encontrou as meninas ainda perto da mesa.
— Pronto.
Olhou para as duas.
— Agora podemos conversar com mais calma.
Rebeca sorriu.
Janis ajeitou a mochila no colo.
Samira se apoiou na mesa.
— Fiquei muito satisfeita com a participação de vocês duas. Helba fez bem em inscrever vocês.
— Foi muito legal — disse Rebeca.
Janis assentiu.
— Eu sempre quis conhecer um ateliê.
Samira ergueu as sobrancelhas.
— Sério?
— Sim.
Janis olhou ao redor.
— Eu via os ateliês dos artistas na televisão e pensava que seria muito legal conhecer um. Mas não acreditava que fosse possível.
Samira ficou em silêncio por um instante.
Então, como quem comentava algo sem grande importância, disse:
— Bom... nós temos uma vaga aqui no ateliê.
Janis parou.
Samira continuou:
— Um trabalho de meio período.
Janis levantou os olhos.
Agora, sua atenção estava inteira ali.
— Precisamos de alguém para nos ajudar a atender os clientes, recepcionar os alunos, cuidar dos materiais...
Janis nem esperou que ela terminasse.
— Quando eu começo?
Samira não conseguiu segurar o sorriso.
— Vou acertar os detalhes com a sua mãe.
Janis sorriu.
Dessa vez, não tentou esconder o quanto estava feliz.
***
— Eu adoraria poder acelerar o relógio. Não vejo a hora de voltar ao Dois Tons.
Rebeca, sentada ao lado dela no banco de trás, cruzou os braços.
— Como é que é?
Janis congelou.
Olhou para Rebeca.
Depois para Miriam, pelo retrovisor.
— Não é que... Eu... Você sabe...
A expressão de Rebeca não mudou.
Janis tentou sorrir.
Não ajudou.
Miriam, que acompanhava tudo pelo espelho, deixou escapar um pequeno sorriso.
— Certo...
Resolveu poupar a garota.
— Mas voltando à conversa principal: você já conversou com o dono da padaria sobre mudar de emprego?
Janis quase suspirou de alívio.
— Na verdade... foi a minha mãe que teve uma conversa com ele.
***
A viagem de retorno foi muito mais barulhenta do que a primeira.
As duas meninas tinham muito a dizer sobre tudo o que haviam vivido nas últimas horas, e coube a Ester ouvir.
Mesmo contra a vontade.
— Socorro...
Nenhuma das duas pareceu se importar.
Janis estava encantada com a quantidade escandalosa de materiais que havia recebido de Samira.
A mulher explicara que boa parte daquilo eram cortesias dos fabricantes. Afinal, quanto mais o vendedor conhecesse os materiais, melhor seria sua capacidade de explicar e vendê-los.
Janis parecia estar levando aquela missão muito a sério.
A mochila abarrotada estava no chão, ao lado de uma grande sacola de lona. Um dos manuais permanecia aberto sobre seu colo.
Janis passou os olhos por uma das páginas.
— Caramba... Eu não sabia que alguns papéis eram feitos de algodão.
Ester olhou rapidamente para ela.
Depois voltou a olhar para a frente.
— Você vai ler tudo isso?
— Vou.
— Tudo?
— Claro.
Rebeca riu.
— Ela está estudando.
— Eu estou vendo.
Janis virou mais uma página.
— Aqui fala da diferença entre os tipos de papel, da absorção, da textura...
Ester soltou um suspiro.
— Misericórdia...
Dessa vez, Rebeca ouviu.
— O quê?
— Nada.
Ao lado de Janis, Rebeca examinava com atenção os livros que havia comprado.
Ester e Janis tinham prometido que passariam nas livrarias antes de voltarem para casa, e Rebeca, naturalmente, cobrara a promessa.
Naquela parte do Centro, porém, as livrarias eram diferentes das que ela conhecia.
Os livros nem sempre eram novos.
Alguns pareciam ter passado por muitas mãos.
Mas eram raros.
Muito raros.
Rebeca havia se encantado com vários deles.
Principalmente com um exemplar de Alice no País das Maravilhas em versão pop-up.
Ela o segurava com todo o cuidado, virando as páginas devagar.
Cada ilustração parecia saltar para fora do livro quando a página era aberta.
Rebeca inclinou o exemplar na direção da janela, observando os recortes e as pequenas estruturas de papel.
— Olha isso...
Janis levantou os olhos do manual.
— Bonito, né?
— É.
Rebeca abriu outra página.
Uma nova cena surgiu diante dela.
Seus olhos se iluminaram.
— Eu nunca vi um livro assim.
Se Ester não estivesse com elas, provavelmente as duas teriam perdido a estação em que precisavam descer.
E, considerando a facilidade com que haviam se encantado com tudo pelo caminho, era bastante provável que também tivessem pegado o ônibus errado.
Com Ester, porém, chegaram ao destino sem maiores problemas.
A viagem de volta para casa seguia tranquila.
Até Janis avistar a padaria.
Ela ficou em silêncio por um instante.
Então soltou um palavrão.
— Janis!
A menina olhou para a mãe.
— Eu já tenho um emprego.
Ester ergueu uma sobrancelha.
— Que bom que você finalmente se lembrou disso.
Janis olhou para a padaria.
Depois para Ester.
Então para Rebeca.
— O que eu faço?
Rebeca abriu a boca.
Parecia prestes a responder.
Mas se calou.
Talvez porque, naquele momento, qualquer resposta que envolvesse a palavra “torta” não fosse exatamente útil.
Ester suspirou.
— Deixe comigo. É melhor vocês irem para casa.
Antes que Janis pudesse perguntar qualquer coisa, Ester atravessou a rua.
Janis ficou olhando para ela.
— Eu nunca mais vou poder entrar aí.
Apontou para a padaria com a cabeça.
Rebeca acompanhou o olhar.
— Que pena.
Janis olhou para ela.
— A torta de morango deles é maravilhosa — completou Rebeca.
Janis assentiu, resignada.
— E o pão também.
Ester entrou na padaria.
O movimento estava tranquilo naquela hora.
Ela se aproximou do balcão.
— Um café, por favor.
O atendente serviu a bebida.
Ester tomou um pequeno gole antes de perguntar:
— O Tião está aí?
O rapaz olhou para os fundos.
Não respondeu.
Apenas gritou:
— Tiiiiião!
Alguns segundos depois, um homem apareceu.
Parou atrás do balcão e olhou para Ester com certa desconfiança.
— Posso ajudar em alguma coisa?
Ester colocou a xícara sobre o balcão.
— Meu nome é Ester. Sou mãe da Janis.
Tião pareceu entender imediatamente que aquela conversa não era sobre café.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Na verdade, aconteceu uma coisa boa.
Ester tomou outro gole.
— Apareceu uma oportunidade de emprego para ela.
Tião ficou em silêncio.
— Um trabalho de meio período, em um ateliê de arte.
A expressão dele mudou.
— Ah...
Ester continuou:
— É uma oportunidade melhor para a Janis. Tem mais a ver com o que ela gosta e com o que pretende fazer.
Tião abaixou os olhos.
Por um instante, pareceu genuinamente abatido.
— Ninguém gosta de trabalhar em padaria.
Ester franziu a testa.
— Não se engane. Janis gosta daqui.
Tião levantou os olhos para ela, como se não acreditasse.
— Gosta?
— Gosta.
Ester deu mais um gole no café.
— O problema é que o ateliê combina mais com ela.
Tião olhou para a porta.
Lá fora, através do vidro, Janis estava parada na calçada.
Rebeca estava ao lado dela.
As duas esperavam.
Tião soltou um suspiro.
— Eu sabia que um dia ela ia querer sair.
Ester sorriu de leve.
— Ela ainda é jovem. É normal querer experimentar outras coisas.
— E esse trabalho é mesmo melhor?
— Para ela, acredito que sim.
Tião ficou alguns segundos em silêncio.
Parecia procurar algum argumento para fazê-la mudar de ideia.
Não encontrou.
Por fim, assentiu.
— Está bem.
Ester esperou.
— Peça para ela passar aqui na próxima sexta-feira. A gente acerta os dias que ela trabalhou e o que ficou pendente.
— Vou pedir.
Tião fez uma pequena careta.
— Vou sentir falta daquela menina.
Ester sorriu.
— Eu sei.
Terminou o café.
— Obrigada, Tião.
Ela deixou a xícara sobre o balcão e caminhou até a porta.
***
— Fico muito feliz por você.
Janis abriu um sorriso largo.
Um daqueles sorrisos que Miriam começava a apreciar.
Ela olhou para a menina por alguns segundos, antes de voltar os olhos para o banco de trás.
Rebeca continuava bicuda.
Miriam conhecia aquela expressão.
Pensou por um instante.
Então perguntou:
— E o que foi feito daqueles livros maravilhosos que você mencionou?
A mudança foi imediata.
Rebeca descruzou os braços.
— Ah!
Miriam mal teve tempo de terminar a frase.
A mochila, que havia sido largada no assoalho do carro, foi puxada para o colo da menina.
Rebeca abriu o zíper e começou a tirar os livros, um por um.
— Olha esse!
Ergueu o primeiro.
— Esse é antigo. E olha a edição!
Tirou outro.
— Esse aqui eu nunca tinha visto!
Mais um.
— E esse...
Janis riu.
— Você vai mostrar todos?
— Claro.
Miriam olhou pelo retrovisor.
Rebeca já havia esquecido completamente que estava emburrada.
Agora explicava cada uma das aquisições com o mesmo entusiasmo com que, minutos antes, havia contado sobre a oficina.
Miriam sorriu.
Aquilo a fez se lembrar do telefonema de sábado à noite.
***
Ester, Janis e Rebeca chegaram à casa de dona Maria Helena naquela noite.
No quarto de Janis, já estavam separadas as toalhas e as roupas que cada uma usaria depois do banho.
Maria Helena apareceu na porta.
— Ninguém vai jantar sem tomar banho.
As duas levaram a ordem muito a sério.
Rebeca foi primeiro.
Quando voltou para o quarto, com os cabelos ainda úmidos, Janis entrou no banheiro.
Rebeca sentou-se na cama e pegou o celular.
Discou para Miriam.
A tia atendeu pouco depois.
— Oi, minha menina.
— Tia!
E Miriam mal teve tempo de dizer qualquer outra coisa.
Rebeca começou a contar.
Tudo fora de ordem.
Uma novidade atropelava a outra, e Miriam simplesmente ouvia.
De vez em quando, conseguia encaixar uma pergunta.
— Espera. O que aconteceu primeiro?
E Rebeca continuava.
Mesmo assim, havia valor demais em cada uma daquelas pequenas novidades para Miriam se incomodar com a falta de ordem.
Aos poucos, a voz de Rebeca foi diminuindo.
O entusiasmo continuava ali, mas já não vinha em disparada.
Quando começou a falar sobre os livros que havia comprado, parecia finalmente ter encontrado um assunto que conseguia contar com mais calma.
— Tia, a senhora tinha que ver esse livro.
Miriam sorriu do outro lado da linha.
— É mesmo?
— É! E tem um da Alice que...
Rebeca parou por um instante, procurando a melhor maneira de explicar.
— A senhora vai adorar.
Miriam fechou os olhos por um segundo.
— Tenho certeza que sim.
Rebeca sorriu.
Antes que pudesse responder, uma voz veio da cozinha:
— Rebeca! Jantar!
Ela olhou para a porta.
— Tenho que ir.
— Está bem. A gente conversa mais amanhã.
— Tá.
Rebeca não desligou.
Esperou.
Miriam também não.
Passaram-se alguns segundos.
Então:
— Tia...
— O quê?
Rebeca hesitou.
— Te amo.
Do outro lado da linha, Miriam ficou em silêncio.
Precisou de um minuto para se recompor.
Quando finalmente conseguiu falar, sua voz estava mais baixa.
— Também te amo, minha menina.
***
Miriam voltou a olhar para a sobrinha pelo retrovisor.
— Vamos ter que marcar um dia para visitarmos juntas as livrarias que você conheceu.
Rebeca abriu um sorriso.
— Vai ser maravilhoso.
Janis riu.
— Leve seu cartão de crédito e um carrinho de pedreiro.
Miriam olhou para ela pelo espelho.
— Um carrinho de pedreiro?
— A Rebeca vai comprar tanta coisa que vai ser impossível transportar tudo em sacola.
Rebeca debochou.
Mostrou a língua para Janis.
— A Lara me entende.
Janis revirou os olhos.
— Pronto... começou.
— Você está com ciúmes da Lara.
— Não estou, não!
— Está sim.
Rebeca se ajeitou no banco, satisfeita consigo mesma.
— Você não gostou de saber que nós duas temos muita coisa em comum.
Janis resmungou alguma coisa incompreensível e virou o rosto para a janela.
Miriam olhou de uma para outra.
— Perdi alguma coisa?
Rebeca sorriu.
— Perdeu.
E começou a contar.
***
Quando Rebeca chegou à cozinha, Lara também estava lá.
— Oi.
— Oi — respondeu Lara.
Janis apareceu logo atrás.
— Essa aí parece um cachorro de aeroporto. Sentiu cheiro de livros recém-comprados e veio xeretar.
Lara olhou para ela.
— Eu ouvi isso.
— Era para ouvir mesmo.
Rebeca segurou o riso.
— Depois eu mostro.
Lara assentiu.
— Tá.
Maria Helena, que terminava de colocar os pratos sobre a mesa, apontou para as cadeiras.
— Primeiro, jantar.
E não houve discussão.
As duas sentaram-se.
O jantar foi animado, principalmente porque Rebeca ainda tinha muitas coisas para contar. Lara fazia perguntas, Janis acrescentava detalhes e, de vez em quando, Ester tentava acompanhar aquela conversa que parecia ter começado antes mesmo de chegarem à mesa.
Depois do jantar, Maria Helena não permitiu que nenhuma das duas desaparecesse.
— As três limpam a cozinha.
Rebeca arregalou os olhos.
— Mas...
— Sem, mas.
Janis riu.
— Anda.
As três ajudaram a arrumar a cozinha, guardando os pratos, limpando a mesa e colocando cada coisa no lugar.
Só depois foram liberadas para a sala.
Rebeca correu até a mochila.
Sentou-se no tapete e começou a tirar os livros.
Lara se acomodou no sofá.
Rebeca ergueu o primeiro.
Lara inclinou a cabeça para conseguir ver a capa.
— Esse eu já li.
Rebeca arregalou os olhos.
— Você já leu?
— Li.
Rebeca abriu o livro, curiosa.
— E esse?
Lara olhou.
— Esse também.
— Sério?
— Sim.
Rebeca colocou os dois lado a lado.
— Eu não acredito.
— Tem mais?
— Tem.
E havia.
A cada livro que Rebeca mostrava, Lara examinava a capa com calma e, vez ou outra, dizia que já conhecia aquele título.
Quando não havia lido, queria saber por que Rebeca havia escolhido justamente aquele.
Em poucos minutos, as duas estavam completamente envolvidas na conversa.
Falavam sobre histórias, personagens, edições e finais.
Rebeca queria saber o que Lara tinha achado de determinados livros.
Lara queria saber quais Rebeca pretendia ler primeiro.
Janis observava as duas.
No começo, não disse nada.
Depois cruzou os braços.
Rebeca mostrou outro livro.
— E esse?
— Esse eu tenho.
Janis respirou fundo.
As duas continuaram conversando.
Rebeca riu de alguma coisa que Lara disse.
Lara respondeu.
E, sem perceber, as duas haviam deixado Janis completamente de lado.
Janis olhou para uma.
Depois para a outra.
— Vocês terminaram?
Nenhuma respondeu.
Janis levantou uma sobrancelha.
— Ótimo.
Pegou uma almofada e se recostou no sofá.
— Vou ficar aqui mesmo. Invisível.
Rebeca finalmente olhou para ela.
— O quê?
— Nada.
— Você está estranha.
— Não estou.
Lara olhou para Janis.
Depois para Rebeca.
E começou a sorrir.
Janis percebeu.
— Não começa você também.
Sem que Rebeca percebesse, a conversa entre ela e Lara se estendeu.
Quando a novela finalmente terminou, veio a sentença de dona Maria Helena:
— Para a cama. Está tarde.
Janis se levantou.
— Tchau, Lara.
Ester olhou para a filha.
— Boa tentativa.
Janis parou.
— O quê?
— Está tarde demais para sua prima ir para casa.
Janis piscou.
— O quê?
— Vamos ter que dividir o quarto.
Janis pensou por um instante.
Então apontou para si mesma, para Rebeca e para Ester.
— Ótimo! Nós três ficamos no meu quarto.
Depois apontou para Lara.
— E a Lara divide o quarto com a vovó.
— Janis...
Lara cruzou os braços, com um sorriso provocativo.
— Por que eu não posso dormir no seu quarto?
Janis respondeu imediatamente:
— Porque eu não quero.
Rebeca olhava de uma para a outra.
Não fazia a menor ideia do que estava acontecendo.
Ester, porém, não deixou passar.
— O mundo não gira em torno do seu umbigo, não. Nós quatro ficaremos no quarto e fim de conversa.
— Mas...
— Se reclamar...
Ester fez uma pequena pausa.
Janis ficou em silêncio.
— ...a Rebeca vai dormir com a sua avó.
As quatro se acomodaram.
Janis e Rebeca dividiram a cama.
No chão, ao lado dela, Ester e Lara se ajeitaram no colchão que dona Maria Helena havia deixado preparado.
Por algum tempo, ninguém disse nada.
O quarto ficou em silêncio.
Até Lara resolver que o silêncio estava durando demais.
— As meninas da sua igreja casam cedo, não é, Rebeca?
Rebeca ficou um instante em silêncio.
Já havia percebido o tom da pergunta.
— Algumas, sim.
Lara sorriu no escuro.
— E nenhum garoto quis casar com você?
Janis se moveu na cama com uma velocidade que faria qualquer ninja reconsiderar a própria profissão.
Alcançou um dos tênis no chão e o arremessou.
Acertou Lara em cheio.
— Ei!
Lara começou a rir.
Pegou o tênis.
Por um instante, pareceu considerar devolvê-lo para Janis.
Mas então olhou para Rebeca.
Um sorriso malicioso apareceu em seu rosto.
E o tênis voou novamente.
— Ai!
Rebeca levou a mão à cabeça.
— Lara!
Janis ficou indignada.
— Por que você jogou nela?!
Lara tentou conter o riso.
— Assim é mais divertido.
— Já chega!
Ester se levantou.
Recolheu o travesseiro e o cobertor do colchão.
— Eu passo a semana inteira aturando crianças malcriadas. No final de semana eu quero paz.
E saiu porta afora.
As três ficaram em silêncio.
Janis olhou para Lara.
— Eu vou matar você.
Lara levantou as duas mãos.
— Trégua.
Janis ainda lançou um olhar desconfiado para ela, mas voltou a se deitar.
Dessa vez, porém, se colocou entre Rebeca e Lara.
As três permaneceram em silêncio por algum tempo.
Até Lara falar novamente:
— Se algum garoto tivesse te pedido em casamento... teria feito diferença?
Rebeca sentiu o corpo de Janis enrijecer ao seu lado.
Ela se apressou em responder:
— É claro que não.
Virou-se um pouco para Janis.
— A Janis é tudo para mim.
O quarto ficou em silêncio.
Aos poucos, Rebeca sentiu a tensão no corpo de Janis diminuir.
Lara permaneceu quieta por alguns segundos.
— Bom saber...
Fez uma pausa.
— Eu odiaria que alguém magoasse a Janis.
***
Rebeca contou isso a Miriam enquanto o carro seguia pela rua.
Encontrou o olhar da tia pelo retrovisor.
— Quando acordamos, a Lara não estava mais lá.
Janis resmungou:
— Graças a Deus.
Rebeca sorriu.
— Foi um momento estranhamente romântico.
Miriam sorriu de leve.
— Foi?
Rebeca assentiu.
Então, sem pensar muito no que estava dizendo, acrescentou:
— Janis e eu nos beijamos depois disso.
Miriam ergueu as sobrancelhas.
— É mesmo?
Rebeca ficou vermelha.
Da raiz dos cabelos até o pescoço.
— Mas não foi nada demais...
Janis fechou os olhos.
— Rebeca...
— Quero dizer... não foi como aqueles beijos dos filmes, sabe? Foi algo bem inocente e comportado.
Janis cobriu o rosto com as mãos.
Rebeca continuou:
— A gente se beijou, mas foi um beijo carinhoso. Só carinhoso! Sem nada além de carinho.
Miriam não disse nada.
Rebeca começou a se atrapalhar.
— Porque... carinho a gente já tem idade para ter. Além disso, a Lara estava lá... e não dava para fazer nada com ela por perto...
Parou.
Percebeu o que acabara de dizer.
— Quer dizer... a gente não faria nada mesmo que ela não estivesse lá.
Janis afundou ainda mais o rosto nas mãos.
— Porque Janis e eu nos comportamos muito bem.
Miriam continuou olhando para a sobrinha pelo retrovisor.
Não parecia saber o que dizer.
Rebeca percebeu o silêncio.
— Tia...
Miriam abriu a boca.
Mas Janis foi mais rápida:
— Já chega, Esquilinho.
Rebeca olhou para ela.
Janis finalmente tirou as mãos do rosto.
— Você já nos levou para o banco dos réus. Não precisa nos empurrar para a cadeira elétrica.
Parecia que a situação não poderia ficar mais constrangedora do que estava.
Mas a vida tinha um jeito terrível de surpreender.
Miriam tentou manter a expressão séria.
Não conseguiu.
Um sorriso apareceu primeiro.
Depois outro.
E, quando percebeu, estava rindo.
Tentou conter o riso, levando uma das mãos à boca.
Foi inútil.
Quanto mais tentava se controlar, mais ria.
Janis abaixou as mãos e olhou para Miriam, incrédula.
— Fala sério, Esquilinho.
Rebeca se encolheu no banco.
— Eu não fiz por mal.
Miriam continuava rindo.
Janis balançou a cabeça.
— O pior é que eu acredito.
Rebeca fez uma pequena careta.
— Eu me deixei levar pela empolgação.
Janis soltou um suspiro.
— Da próxima vez, deixa que eu conto as novidades.
Rebeca ficou em silêncio por um instante.
— Tá.
Janis olhou para ela.
— Promete?
— Prometo.
Miriam só conseguiu se acalmar quando as três chegaram em casa.
Foram direto para a cozinha, onde o lanche que ela havia preparado já estava esperando.
Augusto terminava de colocar a mesa.
— Chegaram!
Rebeca sorriu.
— Oi, tio.
Sentaram-se.
Foi um momento tranquilo.
Dessa vez, Rebeca parecia ter aprendido alguma coisa com a experiência recente.
Falou apenas o indispensável.
Contou sobre os livros.
Mas, não mencionou o beijo.
E, principalmente, não deu detalhes desnecessários sobre absolutamente nada.
Miriam percebeu.
Augusto, não.
Quando terminaram de comer, Rebeca levantou-se rapidamente.
— Já volto.
Subiu para o quarto.
Trocou de roupa, colocando uma camiseta regata e um shorts.
Depois vestiu o equipamento de proteção.
Pegou o skate e desceu.
Janis já a esperava.
As duas seguiram para a pista do condomínio.
Rebeca começou a andar de um lado para o outro, tentando algumas manobras.
Janis sentou-se no chão.
Ao lado dela, estava a mochila.
Tirou um dos materiais que Samira havia dado e voltou a estudar o manual.
Rebeca passou por ela.
— Olha!
Janis levantou os olhos.
— Eu estou olhando.
Rebeca tentou uma manobra.
Quase conseguiu.
— Cuidado, Esquilinho.
— Eu estou tendo cuidado.
Janis voltou ao manual.
Poucos minutos depois, Rebeca tentou outra.
— Rebeca...
— Eu sei.
Janis ergueu os olhos.
— Sabe mesmo?
— Sei.
Ela voltou a andar.
Janis suspirou.
Continuou lendo.
De vez em quando, levantava os olhos para conferir o que Rebeca estava fazendo.
Sempre que a menina tentava alguma coisa mais arriscada, vinha uma advertência.
— Essa foi muito alta.
— Eu consegui.
— Quase caiu.
— Mas não caí.
— Por pouco.
Rebeca mostrou a língua.
Janis revirou os olhos e voltou aos materiais.
Com o passar do tempo, porém, foi ficando cada vez mais concentrada naquilo que tinha recebido.
Leu uma página.
Depois outra.
Comparou dois tipos de papel.
Abriu um pequeno estojo.
Examinou os pincéis.
Fez algumas anotações.
Rebeca continuava na pista.
Janis ainda levantava os olhos de vez em quando.
Até que, em algum momento, deixou de fazê-lo.
Estava completamente distraída.
Então ouviu o baque.
Janis levantou a cabeça imediatamente.
O manual caiu no chão.
— Esquilinho!
As partes protegidas pelo equipamento haviam ficado ilesas.
O ombro, porém, estava exposto.
E havia pago o preço.
A pele estava bastante ferida, vermelha e cheia de pequenas escoriações.
— Meu Deus, Rebeca!
Janis levantou-se num salto.
Olhou ao redor, como se esperasse encontrar um kit de primeiros socorros escondido em algum canto da pista.
Rebeca sentou-se no chão.
— Eu tô bem!
Mas não parecia.
Estava pálida.
Os lábios haviam perdido completamente a cor.
Janis se ajoelhou diante dela.
— Vem.
Recolheu o skate, o manual, os materiais e a mochila com rapidez.
Depois ajudou Rebeca a se levantar.
— A tia Miriam precisa ver isso.
— Mas eu tô bem.
— Eu sei.
Janis passou um braço pela cintura dela.
— Mesmo assim, ela precisa ver.
Rebeca caminhava sem dificuldade.
Aos poucos, Janis sentiu o próprio coração voltar ao ritmo normal.
Ela ainda olhava para o ombro machucado de vez em quando.
Mas Rebeca estava andando.
Estava falando.
Não estava reclamando.
Então, provavelmente, estava mesmo bem.
Quando chegaram à casa, Janis abriu a porta.
Rebeca entrou primeiro.
E então um grito preencheu o ambiente:
— Mãeeeeeeeeeeeeeeeeee!
Janis parou.
Olhou para Rebeca, assustada.
— Oi?
Miriam materializou-se no corredor com uma rapidez absurda.
— O que aconteceu?
Rebeca tentou responder.
— Eu... eu...
A voz falhou.
Os olhos se encheram de lágrimas.
— Eu caí.
Miriam viu o ombro.
Por um instante, mordeu os lábios.
— Oh, meu amor...
Aproximou-se dela e segurou sua mão.
— Venha comigo.
Levou Rebeca até a cozinha.
Janis permaneceu parada por alguns segundos, ainda tentando organizar os pensamentos.
Então foi atrás delas.
Encontrou Rebeca sentada em uma cadeira, mordendo um pedaço de gaze entre os dentes para não gritar.
Miriam estava diante dela, concentrada no ferimento.
— Vai arder um pouquinho — avisou.
Janis ficou olhando.
Ainda não entendia muito bem o que acabara de presenciar.
Augusto se aproximou devagar.
Percebeu a expressão da menina e perguntou, em voz baixa:
— Você está bem?
Janis piscou algumas vezes.
— Eu não sei...
Olhou novamente para a cozinha.
Miriam continuava cuidando do ombro de Rebeca.
Então Janis voltou-se para Augusto.
— A Rebeca chamou a tia Miriam de mãe?
Augusto deu um pequeno sorriso.
— Acho que sim.
Janis ficou em silêncio.
— E... por que nenhuma das duas parece ter percebido isso?
Augusto olhou para as duas.
Miriam dizia alguma coisa para Rebeca, que respondia entre uma lágrima e outra.
Ele voltou a olhar para Janis.
— Elas estão ocupadas demais sendo mãe e filha para perceber isso.
Fim do capítulo

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