Capítulo 12

Capítulo 11 - O desaparecimento.

de ObsessivaMente, por Elin Varen

Tamanho do texto
587 palavras34 leituras1 comentários
Capítulo 11 - O desaparecimento.

Os dias viraram semanas.
As semanas viraram meses.
E eu continuei daquele jeito.
Trabalhando.
Cuidando da casa.
Dormindo pouco.
Comendo menos do que deveria.
Eu não achava que estivesse fazendo alguma coisa de errado.
Ou talvez achasse.
Não sei.
Naquela época, eu não pensava muito sobre isso.
Eu só fazia.
Acordava cedo.
Ia para a faculdade.
Trabalhava.
Almoçava com o Mauro.
Voltava para casa.
Tomava banho.
Arrumava alguma coisa que já estava arrumada.
Dormia.
Ou tentava.
E no dia seguinte começava tudo outra vez.
Era mais ou menos isso.
***
Eu ainda falava com minhas tias.
De vez em quando.
Elas ligavam.
Eu atendia.
Perguntavam como eu estava.
Eu dizia que estava bem.
Perguntavam se eu estava comendo.
Eu dizia que sim.
Perguntavam se precisava de alguma coisa.
Eu dizia que não.
Era sempre assim.
Eu achava que estava sendo convincente.
Talvez porque ninguém tivesse me dito o contrário.
Também nunca contei onde estava morando.
Quando perguntavam, eu mudava de assunto.
Falava da faculdade.
Do trabalho.
De qualquer coisa.
Se insistissem, eu dizia que estava tudo resolvido.
E, de certa forma, estava.
Eu tinha um teto.
Tinha trabalho.
Tinha dinheiro para pagar minhas contas.
Então...
Qual era o problema?
***
Só que elas perceberam.
Não sei exatamente quando.
Talvez tenham percebido aos poucos.
Talvez tenha sido pelo telefone.
Pelo jeito que eu respondia.
Pelo tempo que demorava para atender.
Pelas coisas que eu não contava.
Não sei.
Só sei que, em algum momento, elas cansaram.
Cansaram das minhas respostas.
E foram até o apartamento antigo.
***
O porteiro reconheceu as duas.
Disse que fazia meses que eu tinha ido embora.
Que outra família estava morando lá.
Que o apartamento tinha sido vendido.
Elas perguntaram para onde eu tinha ido.
Ele não sabia.
E foi aí que, segundo elas me contaram depois, as duas entenderam que havia alguma coisa muito errada.
Porque eu não tinha apenas saído de casa.
Eu tinha desaparecido.
***
Quando meu telefone tocou naquele dia, eu estava em casa.
Olhei para a tela.
Era uma delas.
Atendi.
— Oi.
— Helena, onde você está?
Eu fiquei quieta.
— Como assim?
— Onde você está morando?
Eu olhei para a sala.
Tudo estava no lugar.
As almofadas.
Os livros.
A mesa.
Tudo.
— Estou em casa.
— Eu sei que você está em casa. Onde?
Eu não respondi.
Comecei a falar sobre outra coisa.
Nem lembro sobre o quê.
Alguma coisa da faculdade.
Algum livro.
Qualquer coisa.
Ela deixou eu falar.
Quando terminei, perguntou de novo.
— Helena, onde você está morando?
— Está tudo bem.
— Eu não perguntei se está tudo bem.
Silêncio.
— Eu perguntei onde você está.
Eu tentei mudar de assunto outra vez.
Ela não deixou.
Pela primeira vez, minha tia não aceitou a resposta.
Nem a segunda.
Nem a terceira.
E eu não sabia mais o que dizer.
***
Acho que foi aí que eu percebi que elas não estavam perguntando por curiosidade.
Elas estavam preocupadas.
De verdade.
E...
eu estava cansada.
Cansada de esconder.
Cansada de dizer que estava tudo bem.
Cansada de inventar respostas.
Então eu falei.
Passei o endereço.
Devagar.
Uma parte por vez.
Como se ainda pudesse voltar atrás.
Quando terminei, fiquei esperando alguma coisa.
Uma bronca.
Uma pergunta.
Talvez um "por que você fez isso?"
Mas não veio.
Só ouvi:
— Nós vamos aí.
Eu disse que não precisava.
Elas disseram que iam mesmo assim.
Eu tentei insistir.
Não adiantou.
E foi assim que elas me encontraram.
Não porque eu tivesse pedido ajuda.
Eu não pedi.
Elas simplesmente decidiram que não iam mais esperar eu pedir.

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

1
T

Thalita31

18/09/2026 às 12:58

Acho ótimo quando a história ganha mais um capítulo. Torço muito para que a Helena aceite ser cuidada. Que bom que as tias dela a encontraram.

Sinceramente, acho que a Helena fez um péssimo casamento. Na primeira dificuldade, Camila simplesmente a traiu e depois foi embora.

Tudo bem que uma pessoa com questões de saúde mental pode exigir muita paciência e tempo. Mas Camila fez os votos e prometeu estar com Helena na saúde e na doença.

E onde Camila está agora?

Foi embora sem olhar para quem ficou, enquanto Helena permaneceu sozinha e esquecida.

Espero que Helena se cuide, porque ela merece.
E

Elin Varen 18/09/2026 às 20:26

Muito obrigada pelo comentário! E sim, acho que a Helena fez um péssimo casamento. A Camila escolheu trair, abandonar a Helena e ir embora justamente quando ela mais precisava de alguém ao lado.
Mas a história da Helena não termina com a partida da Camila. Pelo contrário. A partir de agora, outras pessoas vão começar a ocupar esse espaço na vida dela — as tias, novas relações, novas experiências... e, principalmente, ela mesma.

Ela ainda vai ter um caminho complicado pela frente, mas espero mostrar justamente esse processo: Helena aprendendo, aos poucos, a aceitar cuidado, reconstruir vínculos e encontrar um pouco de equilíbrio depois de tudo o que viveu.

E acho que ela merece muito essa chance.
Informar violação das regras