Capítulo 13

Capítulo 12 - O que não cabe na estante

de ObsessivaMente, por Elin Varen

Tamanho do texto
963 palavras26 leituras1 comentários
Capítulo 12 - O que não cabe na estante.

Quando tocaram a campainha do apartamento novo, decidindo se aceitaria ou não aquele reencontro.
Fiquei alguns segundos olhando para a porta.
Quando abri...
eram elas.
Odete e Suzana.
As duas juntas.
Eu não consegui dizer nada.
Apenas fiquei olhando.
Elas entraram.
Suzana passou por mim.
Odete veio logo atrás.
Eu só...
fiquei parada.
Como se meu corpo tivesse esquecido o que deveria fazer naquela situação.
— Onde eu coloco isso? — Suzana perguntou.
Olhei para as sacolas.
— Pode...
Minha voz não saiu.
Ela entrou mesmo assim.
Colocou as coisas sobre a bancada.
Odete olhou para mim.
— Su, fica aqui com ela.
— Tá.
Odete saiu.
Eu continuei parada.
Suzana abriu uma das sacolas.
Começou a tirar as coisas.
Um pote de iogurte.
Queijo.
Goiabada.
Frutas.
Eu olhei para aquilo.
Iogurte.
Produtos de marcas que eu gostava.
Fazia semanas que não comprava.
Não porque não gostasse ou não tivesse condições.
Só não via motivo.
Suzana colocou mais coisas na geladeira.
Eu continuei olhando.
Odete voltou.
Com outras sacolas.
Colocou sobre a mesa.
Saiu novamente.
Voltou com mais.
Eu não sabia que cabia tanta comida na minha cozinha.
Carne.
Legumes.
Arroz.
Feijão.
Pães.
Mais frutas.
Mais coisas que eu gostava.
Coisas simples.
Coisas que eu poderia ter comprado a qualquer momento.
Mas não comprava.
Odete já estava guardando tudo.
Abriu a geladeira.
Organizou as prateleiras.
Tirou algumas coisas do lugar.
Colocou outras.
Suzana arrumava a mesa.
Eu olhava.
Só isso.
Até que finalmente perguntei:
— O que é tudo isso?
Odete nem parou.
— Estamos fazendo o que é preciso fazer.
Eu olhei para a geladeira.
— Mas eu não precisava disso.
— Não?
— Não.
— Tem comida em casa?
— Tenho.
Ela fechou a geladeira.
— Helena.
— Eu tenho.
— O quê?
Eu não respondi.
Ela esperou.
— Algumas coisas.
— Algumas coisas não são comida.
— Eu me viro.
— Eu sei que você se vira.
Ela pegou uma sacola.
— Mas não deveria precisar se virar sozinha o tempo todo.
Eu senti alguma coisa apertar.
Não gostei daquela frase.
— Eu moro sozinha.
— Nós sabemos.
— Sou adulta.
— Também sabemos.
— Então eu não preciso que vocês façam isso.
Odete finalmente me olhou.
— Nós sabemos.
— Então por quê?
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu:
— Porque é o que precisa ser feito.
Eu balancei a cabeça.
— Eu consigo cuidar da minha casa.
— Sua casa está impecável.
Olhei ao redor.
Estava mesmo.
Tudo no lugar.
Nada fora da ordem.
— Então pronto.
— Não, Helena. Não está pronto.
Eu não gostei daquilo.
— O que você quer que eu faça?
— Que coma.
— Eu como.
— Não come.
— Como, sim.
— Não o suficiente.
— Eu não estou com fome.
— Então come sem estar com fome.
— Odete...
— Helena.
— Eu não preciso disso.
— Precisa.
— Não preciso!
Minha voz saiu mais alta.
Suzana parou de arrumar a mesa.
Eu respirei fundo.
Tentei me acalmar.
Não consegui.
E então ouvi.
Tic.
Tac.
Olhei para a parede.
Nada.
Tic.
Tac.
Mais alto.
— Helena? — Suzana chamou.
Tic.
Tac.
Eu apertei as mãos.
Tic.
Tac.
A cozinha pareceu pequena.
As sacolas.
A geladeira.
A mesa.
As três marmitas que Suzana tinha colocado ali.
Três.
Uma para cada uma de nós.
— Eu não vou almoçar.
Odete puxou uma cadeira.
— Vai sentar.
— Não.
— Vai.
— Eu não quero.
— Tudo bem não querer.
Ela apontou para a cadeira.
— Mas vai sentar.
— Por quê?
— Porque nós viemos aqui para ficar com você.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
O som parecia estar dentro da minha cabeça.
— Eu não pedi para vocês virem.
Odete ficou quieta.
— Eu sei.
— Então vocês podem ir embora.
Tic.
Tac.
— Helena...
— Eu estou bem.
— Não está.
— Estou.
— Não está.
— Minha casa está em ordem.
— Eu sei.
— Eu trabalho.
— Eu sei.
— Eu pago minhas contas.
— Eu sei.
— Então o que vocês querem de mim?
Odete se aproximou.
— Nada.
Eu ri.
Foi um som estranho.
Quase sem humor.
— Nada?
— Nada.
— Então por que estão aqui?
Ela me olhou por alguns segundos.
E respondeu:
— Porque nós estamos fazendo por você o que qualquer tia deveria fazer.
Tic.
Tac.
Ela respirou fundo.
— Não porque somos obrigadas.
Tic.
Tac.
— Porque nós amamos você.
Silêncio.
Foi tão repentino que eu achei que tivesse acontecido alguma coisa.
O som tinha desaparecido.
Olhei para a parede.
Não havia relógio.
Eu sabia que não havia.
Mas ele estava ali havia meses.
Na minha cabeça.
Todos os dias.
Todas as noites.
Sempre.
E agora...
nada.
Olhei para Odete.
Depois para Suzana.
Para a mesa.
Para as três marmitas.
Para o iogurte na geladeira.
Para o queijo.
Para a goiabada.
Coisas tão pequenas.
Tão simples.
Coisas que eu gostava.
Coisas que eu tinha parado de comprar porque não via mais sentido.
E então eu entendi.
Eu tinha passado meses tentando colocar tudo no lugar.
Os livros.
As roupas.
A louça.
Os documentos.
A casa.
Os dias.
Eu sabia exatamente onde cada coisa deveria estar.
Mas a minha vida não estava em lugar nenhum.
E eu não podia colocar aquilo numa prateleira.
Não podia etiquetar.
Não podia organizar.
Não podia controlar.
O amor não funcionava assim.
Ele chegava carregando sacolas.
Enchia a geladeira.
Ocupava três lugares à mesa.
Ficava.
Mesmo quando eu dizia que não precisava.
Mesmo quando eu mandava embora.
Eu não sabia o que fazer com aquilo.
Não sabia onde guardar.
Não sabia como agradecer.
Não sabia nem como receber.
E comecei a chorar.
Chorei porque estava cansada.
Chorei porque tinha medo.
Chorei porque, pela primeira vez, percebi que eu não estava no controle da minha própria vida.
E talvez o que mais doesse fosse perceber que eu nunca tinha estado.
Minha casa estava em ordem.
Eu não.
Suzana veio até mim.
Odete não disse nada.
Nenhuma das duas tentou me fazer parar.
E, depois de tanto tempo tentando fazer tudo sozinha...
eu deixei que elas cuidassem de mim.
Só naquele dia.
Só por algumas horas.
Mas deixei.


Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

1
T

Thalita31

19/09/2026 às 09:43

Eu achei lindo esse capítulo.

Mesmo diante das recusas de Helena em receber cuidado, as tias não foram embora. Elas ficaram para cuidar dela.

Foi emocionante para mim quando, finalmente, Helena reconhece pela primeira vez que não está bem e se permite ser cuidada.

Eu fiquei emocionada quando terminei de ler.

Continuo torcendo para que ela se permita receber esse cuidado nos próximos capítulos.
T

Thalita31 19/09/2026 às 09:44

Não demora para atualizar, por favor.
Informar violação das regras