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ObsessivaMente por Elin Varen

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Palavras: 975
Acessos: 12   |  Postado em: 25/07/2026

Capítulo 10 – Nada Fora do Lugar

Capítulo 10 – Nada Fora do Lugar 
As caixas desapareceram duas semanas depois da mudança. 
Os livros voltaram para as estantes. 
As roupas encontraram lugar no armário. 
A louça ocupava sempre as mesmas prateleiras. 
As toalhas estavam dobradas. 
A cama permanecia arrumada durante o dia inteiro. 
Não havia nada fora do lugar. 
Às vezes eu passava um pano na mesa da cozinha antes mesmo de preparar o café. 
Não porque estivesse suja. 
Porque era o que vinha depois. 
Depois conferia a pia. 
Depois alinhava as cadeiras. 
Depois ajeitava o tapete da sala. 
Depois verificava se as cortinas estavam exatamente na mesma altura. 
Quando terminava... 
Procurava outra coisa para fazer. 
O apartamento parecia aqueles decorados de imobiliária. 
Bonito. 
Limpo. 
Silencioso. 
Impessoal. 
Eu ainda não tinha deixado nenhuma marca ali. 
Talvez porque, no fundo, eu ainda não acreditasse que fosse ficar. 
Ou talvez porque alguns lugares simplesmente nunca aprendem a chamar alguém de casa. 
Continuei procurando alguma coisa para fazer. 
Abri a geladeira. 
O arroz da noite anterior ainda estava lá. 
Esquentei uma porção pequena. 
Grelhei um pedaço de frango. 
Cortei uma maçã ao meio. 
Separei tudo na marmita. 
Fechei a tampa. 
Coloquei dentro da bolsa térmica. 
Sabia que dificilmente comeria tudo. 
Mesmo assim... 
Preparava o almoço todos os dias. 
Era o que eu fazia. 
Assim como arrumar a cama. 
Lavar a louça. 
Dobrar as roupas. 
Algumas coisas continuavam acontecendo, mesmo quando deixavam de fazer sentido. 
Coloquei a bolsa sobre a mesa. 
Abri. 
Carteira. 
Chaves. 
Documentos. 
Remédios. 
Álcool em gel. 
Escova de dentes. 
Creme dental. 
Escova de cabelo. 
Fechei o zíper. 
Abri novamente. 
Conferi outra vez. 
Respirei fundo. 
O ar saiu frio. 
Na cozinha, coloquei água para ferver. 
Enquanto esperava, fiquei olhando pela janela. 
O prédio da frente começava a acender as primeiras luzes. 
Alguém levava o cachorro para passear. 
Outra pessoa abria a garagem. 
A cidade despertava devagar. 
Eu já estava acordada havia muito tempo. 
Despejei o café na xícara. 
Só uma. 
Não havia motivo para preparar duas. 
Segurei a porcelana entre as mãos por alguns instantes. 
O calor atravessava meus dedos. 
Mas não chegava a mim. 
Bebi devagar. 
Lavei a xícara. 
Sequei. 
Guardei no armário. 
Apaguei a luz da cozinha. 
Peguei a bolsa. 
Fechei a porta. 
Girei a chave. 
Uma vez. 
Duas. 
Conferi. 
Levei a mão à maçaneta. 
Empurrei. 
Ela não abriu. 
Só então comecei a descer as escadas. 
Eu saía cedo. 
Cedo demais. 
Não porque gostasse das manhãs. 
Mas porque aquele apartamento parecia ainda mais vazio quando eu permanecia dentro dele. 
Era mais fácil caminhar pela cidade do que encarar o silêncio que me esperava todas as noites. 
Então eu caminhava. 
A faculdade ficava longe o suficiente para justificar uma condução. 
Mesmo assim, eu ia andando. 
No começo, era para economizar. 
Depois virou costume. 
Mais tarde... 
Já não sabia dizer o motivo. 
Assim que deixava o prédio, começava a contar. 
Um. 
Dois. 
Três. 
Quatro. 
Cinco. 
Não olhava para os pés. 
Não precisava. 
Os números caminhavam sozinhos. 
Às vezes um carro buzinava. 
Às vezes alguém me dava bom-dia. 
Eu respondia sem interromper a contagem. 
Ela continuava em algum lugar da minha cabeça. 
Quando chegava à faculdade, já sabia exatamente quantos passos tinha dado. 
Descobri esse número nas primeiras semanas. 
Depois decorei. 
Mesmo assim... 
No dia seguinte, contei outra vez. 
E no outro. 
E no outro. 
Não havia necessidade. 
Eu sabia disso. 
Mas contar era mais fácil do que pensar. 
Enquanto os números ocupavam minha cabeça... 
As lembranças encontravam menos espaço. 
Então eu continuava. 
Um. 
Dois. 
Três. 
Quatro. 
Cinco. 
Quando chegava à universidade, o caminho até a biblioteca acontecia quase sozinho. 
Cumprimentava algumas pessoas. 
Respondia outras. 
Nem sempre me lembrava de quem tinha encontrado pelo corredor. 
A biblioteca ainda tinha o mesmo cheiro. 
Papel. 
Madeira. 
Produtos de limpeza. 
Era um cheiro que, durante muitos anos, significou acolhimento. 
Agora era apenas um cheiro. 
Mauro já costumava estar no balcão quando eu chegava. 
Desde que meu pai morreu, passou a atender o público quase todos os dias. 
Nunca conversamos sobre isso. 
Ele simplesmente começou a fazer. 
E continuou. 
Enquanto ele atendia os alunos, eu desaparecia entre as estantes. 
Separava os livros devolvidos. 
Conferia a catalogação. 
Atualizava registros. 
Fazia a higienização dos exemplares mais antigos. 
Esvaziava os carrinhos. 
Recolocava cada livro em seu lugar. 
Passei anos dizendo que gostava daquele trabalho. 
E era verdade. 
Encontrar o lugar certo para um livro sempre me pareceu uma pequena forma de colocar o mundo em ordem. 
Agora... 
 
Era apenas o que eu fazia. 
Um livro. 
Depois outro. 
Depois outro. 
As estantes nunca terminavam. 
Os carrinhos sempre voltavam a encher. 
Os dias também. 
Eu continuava organizando tudo. 
Só não sabia mais por onde começar quando o assunto era a minha própria vida. 
O relógio da biblioteca sempre parecia andar mais depressa. 
Quando percebia, já era hora do almoço. 
Mauro me esperava na mesma mesa de sempre. 
A dele já estava posta. 
A minha também. 
Sentamos sem dizer muita coisa. 
Nunca fomos grandes apreciadores do silêncio. 
Mas aprendemos a respeitá-lo. 
Abri a marmita. 
Arroz. 
Frango. 
Metade da maçã. 
Mastiguei devagar. 
Mais por hábito do que por fome. 
Mauro fingia não perceber o quanto eu deixava de comida. 
Eu fingia acreditar. 
Era um acordo silencioso. 
Quando terminávamos, ele tirava um livro da mochila. 
Naquele dia era Dickens. 
Abriu exatamente onde havíamos parado no dia anterior. 
E começou a ler. 
A voz dele sempre foi tranquila. 
Nem muito alta. 
Nem muito baixa. 
Apenas suficiente para que eu esquecesse, por alguns minutos, do restante do mundo. 
Às vezes eu fechava os olhos. 
Às vezes observava as árvores pela janela. 
Às vezes acompanhava cada palavra. 
Outras... 
Eu simplesmente escutava. 
A leitura tinha um ritmo próprio. 
Não me exigia respostas. 
Não esperava que eu sorrisse. 
Não perguntava como eu estava. 
Ela apenas acontecia. 
E, pela primeira vez desde que saía de casa naquela manhã... 
Minha cabeça ficava em silêncio. 
Nenhum passo. 
Nenhuma etiqueta. 
Nenhuma estante. 
Nenhuma lista. 
Nenhum tic. 
Nenhum tac. 
Só a voz do Mauro. 
Talvez por isso aquele fosse o único momento do dia em que eu realmente descansava. 
 
A volta para casa era diferente. 
Não porque o caminho fosse maior. 
Continuava sendo o mesmo. 
O mesmo número de passos. 
As mesmas ruas. 
Os mesmos semáforos. 
As mesmas pessoas apressadas. 
Eu é que andava mais devagar. 
Não havia motivo para ter pressa. 
Ninguém me esperava. 
Quando finalmente chegava ao prédio, subia as escadas sem olhar para os lados. 
Cumprimentava o porteiro. 
Às vezes ele dizia alguma coisa. 
Eu respondia. 
Nem sempre me lembrava do quê. 
O apartamento permanecia exatamente como eu o havia deixado. 
A cama arrumada. 
A pia vazia. 
As cadeiras alinhadas. 
Nenhum sinal de que alguém morava ali. 
Tomava um banho demorado. 
Vestia a primeira roupa confortável que encontrava. 
Preparava o jantar. 
Comia pouco. 
Lavava a louça. 
Secava a pia. 
Conferia as portas. 
Conferia as janelas. 
Apagava as luzes. 
Então ia para o quarto. 
Dormia. 
Quatro horas. 
Às vezes menos. 
Nunca mais do que isso. 
Quando acordava, não adiantava insistir. 
O sono simplesmente ia embora. 
Então eu permanecia deitada. 
O quarto continuava escuro. 
Meus olhos acompanhavam as sombras desenhadas no teto. 
Sem perceber, meus dedos encontravam a ponta do cobertor. 
Dobravam. 
Desdobravam. 
Dobravam. 
Desdobravam. 
Era sempre igual. 
Então ele começava. 
 
Tic. 
 
Tac. 
 
Tic. 
 
Tac. 
 
Abri os olhos. 
Olhei para a parede. 
Não havia relógio. 
Eu sabia. 
Mesmo assim... 
 
Tic. 
 
Tac. 
 
Tic. 
 
Tac. 
 
Virei para o outro lado. 
Fechei os olhos. 
Puxei o cobertor até o queixo. 
Mas o som continuava. 
Marcando um tempo que parecia não passar. 
Esperando por uma manhã que chegaria cedo demais. 
Como sempre.

 

Fim do capítulo


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