Capitulo 9 - A solidão veio comigo
Capítulo 9 - A solidão veio comigo.
Não contei para ninguém.
Nem para Mauro.
Nem para Odete.
Nem para Suzana.
Não foi exatamente uma decisão.
Eu simplesmente não disse.
Cada dia que passava tornava mais difícil explicar.
Mais difícil ligar.
Mais difícil existir.
Então fiquei em silêncio.
Era mais fácil.
Ou parecia.
Encontrei um apartamento pequeno.
Vi uma única vez.
O corretor falou durante quase meia hora.
Eu não ouvi.
Observei as paredes.
As janelas.
A distância da universidade.
A distância da casa do meu pai.
A distância do apartamento que eu estava prestes a perder.
Aquilo bastava.
Assinei.
Tic.
Tac.
As caixas chegaram numa sexta-feira.
Passei algum tempo olhando para elas.
Vazias.
Esperando.
Comecei pelos livros.
Autor.
Assunto.
Altura.
Tamanho.
Cor.
Depois as roupas.
Depois os documentos.
Depois a louça.
Depois os objetos decorativos.
Tudo recebeu uma etiqueta.
Tudo recebeu uma categoria.
Tudo recebeu um lugar.
Como se dar nome às coisas pudesse impedir que elas desaparecessem.
Como se eu pudesse evitar perder mais alguma coisa.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Os pensamentos vieram.
Vieram o tempo todo.
Se eu não alinhar esta caixa...
Tudo piora.
Se eu esquecer aquele livro...
Tudo piora.
Se eu fechar errado...
Tudo piora.
Eu sabia que não fazia sentido.
Sabia.
Mas isso nunca impedia nada.
Então eu voltava.
Conferia.
Reorganizava.
Etiquetava novamente.
Só para garantir.
Só para respirar.
Só para conseguir seguir.
Os documentos da venda chegaram por e-mail.
Eu os li.
Arquivei.
Organizei em pastas.
Depois em subpastas.
Depois em novas categorias.
Tudo devidamente nomeado.
Tudo em ordem.
Era importante manter alguma coisa em ordem.
Camila assinou em um horário diferente do meu.
Eu pedi.
Não queria vê-la.
Não queria ouvir sua voz.
Não queria descobrir se ela estava feliz.
Ou triste.
Ou apaixonada.
Nada disso mudaria alguma coisa.
A mudança aconteceu numa manhã nublada.
O caminhão levou as caixas.
Levou os móveis.
Levou os objetos.
Levou os vestígios.
Quando tudo terminou, caminhei pelo apartamento vazio.
A cozinha.
A sala.
O quarto.
O banheiro.
Tudo parecia estranho.
Como se eu nunca tivesse morado ali.
Como se a vida que vivi naquele lugar tivesse acontecido com outra pessoa.
O relógio continuava na parede.
Tic.
Tac.
Tic.
Tac.
Fiquei olhando para ele.
Por muito tempo.
Não queria levá-lo.
Ele pertencia àquele lugar.
Àquela vida.
Àquele casamento.
Fechei a porta.
Girei a chave.
Uma vez.
Duas.
Conferi.
Depois fui embora.
Ninguém sabia onde eu estava.
Nem Mauro.
Nem Odete.
Nem Suzana.
Nem ninguém.
Pela primeira vez na vida, eu queria desaparecer.
E tinha certeza de que ninguém sentiria minha falta.
O apartamento novo era pequeno.
Impessoal.
Anônimo.
Perfeito.
Não porque fosse bonito.
Mas porque não significava nada.
As caixas foram deixadas na sala.
Não abri nenhuma.
Não naquele dia.
Nem no seguinte.
Sentei no chão.
Encostei as costas na parede.
E ouvi.
Uma televisão ligada.
Passos no corredor.
Uma criança correndo.
Uma porta batendo.
Um cachorro latindo.
A vida acontecia.
Em todos os lugares.
Menos dentro de mim.
Olhei para as caixas.
Todas etiquetadas.
Todas organizadas.
Todas no lugar.
Respirei fundo.
O ar saiu frio.
Muito frio.
Fechei os olhos.
Então ouvi.
Tic.
Abri os olhos.
Tac.
Olhei para a parede.
Não havia relógio.
Tic.
Tac.
Prendi a respiração.
Tic.
Tac.
O relógio tinha ficado para trás.
Eu tinha certeza.
Absoluta.
Mesmo assim...
Tic.
Tac.
Fechei os olhos.
Eu tinha deixado o relógio naquele apartamento.
Mas a solidão veio comigo.
Fim do capítulo
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